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História

Educação conectada com o planeta

História de: Mônica Pilz Borba
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2017

Sinopse

Mônica Pilz Borba é paulistana, porém teve a infância dividida entre a vida na capital e as visitas à fazenda do avô. Sempre curiosa, Mônica tinha grande interesse em aprender coisas novas, mas questionou desde cedo a forma como se transmitiam conhecimentos e informações, motivo pelo qual mais tarde optou pelo curso de Pedagogia na PUC-SP. Durante a faculdade teve contato com a causa ambiental, atuando como voluntária em ações de várias organizações, como a SOS Mata Atlântica e a Pró Juréia. Esta experiência a levou posteriormente a criar com amigas o Instituto Cinco Elementos, com o objetivo de sensibilizar as pessoas para a importância da nossa relação com o meio ambiente por meio de projetos de educação ambiental para escolas, comunidades e empresas.

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História completa

Mônica Pilz Borba, nascida em dezessete de dezembro de 1964, aqui em São Paulo, capital. Meu pai sempre mexeu nessa área de fazenda, agronomia, era o braço direito do meu avô. Minha mãe era cientista, bióloga, primeira mulher contratada no Hospital das Clínicas, trabalhou no desenvolvimento da pesquisa da Doença de Chagas, trabalhou muitos anos no serviço público e depois se tornou paisagista. Sempre fui muito rodeada dessa coisa de natureza, fazenda, sítio, meu avô, pai da minha mãe, meu avô Pilz, ele era um doce comigo, ele foi um “avô-pai”, então, eu passava todas as férias, finais de semana, com ele e com meus irmãos. A gente brincava, eu sempre fui criada muito livre, muito solta, sem preconceito, ficava descalça, era muito livre. A gente roubava ovo no galinheiro da avó e o meu avô fez um fogão a lenha quando eu tinha seis anos de idade, de verdade. Então, com seis anos eu já cozinhava, a gente brincava e fazia milhões de experiências, e a minha avó ficava louca porque a gente ia lá, pegava todos os ovos e ela: “Cadê os ovos pra fazer o bolo?”, mas a gente já tinha comido e tinha que chegar na hora do almoço e almoçar de novo.

Desde nova, sempre fui muito curiosa. Uma coisa muito legal da minha adolescência é que eu fui do Movimento Bandeirante durante sete anos, dos quatorze aos vinte e um anos, uma oportunidade de viajar sem pai e sem mãe em um ambiente estruturador, coletivo e feminino, pois viajar só mulher era muito divertido, e também foi muito importante para aprender a trabalhar em equipe. Isso foi me atraindo muito pra área de educação porque eu estudei em muitas escolas e sempre achava tudo muito chato, de uma forma geral, e mais tarde eu acabei entrando em Educação, em Pedagogia, na PUC. A escola é um ambiente que pode ser maravilhoso, mesmo, de frequentar. Porque quando eu fui bandeirante, pra mim aquilo é educação. Quando eu ia para o sítio do meu avô passar um fim de semana e cozinhar, pra mim aquilo é educação. Tudo o que você vivencia e aprende é educação. Porque, então, dentro da escola tem que ser chato e por que fora é tão legal? Olha, eu aprendi marcenaria, elétrica, hidráulica, tudo se você me pedir pra fazer eu sei fazer. Quase ninguém sabe, não se aprende isso na escola, você aprende ou com o seu avô, ou com seu tio, ou no movimento bandeirante, em algum lugar, menos na escola. E são coisas essenciais pra vida! Eu sempre tive essa coisa de pensar sobre o que é importante de verdade pra gente viver bem.

Na minha adolescência fiz um curso muito importante para mim que foi na área de Arte Educação, eu tinha uns dezessete anos. Tive aula de escultura, de pintura, de dança, de origami, de canto, tudo, com os melhores professores, e em um ano eu me tornei uma arte educadora, sabia fazer de tudo um pouco. E isso foi muito transformador na minha formação, trabalhei muito com contação de histórias por um período, e aí foi um embalo pra começar a trabalhar na educação infantil, eu entrei na faculdade, eu já trabalhava numa escola que abriram uma escola com crianças de um a seis anos todo mundo junto no mesmo ambiente e tinha horta, origami, yoga e eu participei dessa experiência. E foi muito prazerosa, muito natural essa minha experiência na educação. Depois eu fui pra outras pré-escolas e eu acabei indo pro Vera Cruz, que eu lecionei lá durante dez anos. E também foi uma experiência muito rica, senão fosse estar lá eu teria saído da Pedagogia, porque o curso era muito teórico, muito acadêmico, não tinha nada de discussão na prática e no Vera Cruz era maravilhoso porque era prática e a gente ia estudar, ler, discutir, entender o que estava acontecendo. E isso foi muito rico na minha experiência profissional.

Durante a faculdade eu fui ser voluntária na SOS Mata Atlântica e também na Pró Juréia. Nesse período, que era final dos anos 80, a gente teve uma luta porque o governo queria fazer uma usina nuclear lá na região de Iguape, Peruíbe, por ali, toda aquela extensão ali do litoral. E nós ambientalistas, que naquela época eram uma meia dúzia, criamos um movimento e me envolvi com essa história de transformar a região da Juréia num parque. E então, a gente conseguiu realmente transformar aquilo em uma área de preservação, em uma reserva, uma unidade de conservação e montamos um grupo de estudos de educação ambiental dentro da Pró-Juréia. Eu e algumas amigas, pra entender o que é essa questão da relação da gente com a natureza, isso eu estou falando antes da Eco-92, a partir daí a gente montou esse grupo de estudos e depois da ECO-92 a gente resolveu montar uma instituição, que é o Instituto Cinco Elementos, com o objetivo de ter projetos de educação ambiental pra escolas e pra comunidades, pra empresas, de sensibilizar as pessoas, da importância da relação nossa com o ambiente. E aí, além de eu ter o alicerce da educação, da arte educação, a questão ambiental entrou com tudo na minha vida. Eu acho que essa questão ambiental apareceu muito forte depois que eu fui num lixão, a primeira vez que eu fui num lixão na minha vida, foi em Peruíbe. Acho que foi no final dos anos 80, foi uma coisa muito chocante porque naquela época não tinha monte de casas como hoje é. A gente estava fazendo um diagnóstico da cidade pra fazer uma formação pros professores, porque nós tínhamos todos os dados da Juréia mas não tínhamos da área urbana. Aí a gente foi e eu fiquei chocada porque eu cheguei lá, é aquela situação, um fedor total, criança, rato, urubu, cavalo morto. Eu acho que todo mundo tem que ir a um lixão na sua vida, todos nós. Porque é muito impactante. Daquele dia em diante eu acho que vai no fundo do coração da gente porque tudo o que está lá você que é responsável por aquilo, todos nós somos responsáveis por aquilo.

O Instituto foi fundado em 1993, e todo mundo que trabalhou ali no início, na concepção, todo mundo trabalhava em escola, e tal, e a gente queria trabalhar muito com escola. Eu sempre trabalhei com educação infantil, que é onde também a educação é mais livre. Na educação infantil não tem áreas do conhecimento fragmentadas, está tudo junto, eles estão aprendendo tudo, Ciências, Matemática, Português, Artes, tudo junto. Então eu me dediquei muito com a educação infantil por conta de toda essa história, esse percurso profissional meu. E uma das coisas que a gente fez no Instituto Cinco Elementos, esse grupo de estudos, a gente começou a estudar o ciclo da vida das coisas, de onde vem e pra onde vai. O plástico, papel, vidro, metal, orgânicos e fomos descobrindo, no Brasil, onde eram as reservas minerais, as indústrias. Começamos a criar uma série de documentação sobre isso e começamos a explicar pras pessoas, pras crianças, dentro dessa perspectiva de ciclo. E não que “pega, isso aqui, vai pra cá, pra cá e joga fora”. Não, sempre numa linha de circularidade. Aí a gente desenvolveu esse material educativo que é a Coleção Consumo Sustentável e Ação, que é um material que a gente desenvolveu já várias vezes, nós editamos já umas quatro vezes. E cada vez a gente vai aprimorando esse material.

Se você vai estudando a questão ambiental, você vê que a gente está em um beco sem saída, praticamente. Só que eu não posso falar isso pras pessoas porque isso imobiliza, e como eu sempre trabalhei uma metodologia de envolvimento das pessoas, que as pessoas entendam pra mudar, a mudança de comportamento só se dá com ampliação da consciência. Quando você amplia, consciência é uma coisa muito interessante, que ela amplia e ela não volta, ela só amplia. E quanto mais você amplia, mais difícil vai ficando viver porque você consegue relacionar tudo o que você vive, fala, faz. E aí eu acho que eu mergulhei muito nessa questão da educação ambiental, sempre tentando trazer a sensibilização das pessoas através de uma coisa positiva, então acho que a natureza, qualquer pesquisa que você fala com as pessoas, sobre o que a natureza traz pras pessoas, a resposta é paz, tranquilidade. Então o gancho da educação ambiental, muitas vezes, com as pessoas está em aproximar as pessoas da natureza. De fazer uma mudinha nascer. Do pequeno, do belo, pra depois você trabalhar com as questões problemáticas do consumismo e assim por diante.

A natureza, uma coisa legal da natureza é que ela é abundância pura. Você pega uma frutinha, tem não sei quantas sementes e aquilo tudo brota. A natureza é abundante. E a economia que a gente criou hoje, ela é o oposto, ela é pela escassez. Então a transição que a gente tem que fazer é transformar a nossa economia igual é a natureza e isso é um sonho pra mim também. só que isso só é possível se a gente tiver educação. A educação conectada ao nosso planeta, aos valores e à etica da vida do planeta. Sem isso aí não vai rolar.

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