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História

275 viagens contra o Alzheimer

História de: Cléa Magnani Pimenta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2019

Sinopse

É com muito afeto que a paulistana Cléa Magnani Pimenta relembra os longos anos em que acompanhou a perda de memória do marido, Gilberto, acometido pelo Alzheimer. Pouco a pouco, ele ia se distanciando da realidade, enquanto ela se aproximava cada vez mais, fazendo de tudo para criar, ao lado dele, novas lembranças. O “Projeto Municípios” talvez tenha sido a maior dessas aventuras: os dois viajaram por 275 cidades de São Paulo, conhecendo pracinhas da matriz e curtindo um ao outro. Cléa ainda conta como usava a música e o talento em tocar harmônica para se conectar com Gilberto – algo que, mesmo depois da morte dele, ela continua fazendo para se conectar com a vida. Forte e criativa, enfrenta a fibromialgia com atividades culturais e com suas histórias, que gosta de contar para as pessoas e de publicar em livros. A história que mais a interessa, no entanto, é aquela que ela ainda não conhece: a do futuro que está por vir.

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História completa

E foi em 2005, eu recebi uma notícia: “O seu marido está com Alzheimer e já bem instalado nele há muito tempo”. Eu escrevi um livro a respeito disso que começa com essa frase: “Tenho uma péssima notícia a lhe dar...”. E ele ali, na outra salinha, esperando pra medir a pressão, e eu na salinha de cá ouvindo tudo que o médico estava me falando em voz baixa: “Olha, agora você precisa tomar muito cuidado, não deixar ele sair sozinho”.

 

Foi muito rápida a doença dele! Ele parou de assistir televisão. Eu falava: “Gilberto, vai começar o jogo do Corinthians!” Ele: “Ah, é mesmo, eu estou vendo”. “A televisão está aqui, Gilberto!” “Eu sei, eu estou vendo.” E ficava olhando pro chão. Aquilo me dava uma angústia! Uma vez, eu desci na estação do metrô e, conforme nós descemos a escada rolante, o metrô estava parado com a porta aberta. E nós viemos pra entrar. Eu não sei como, que eu andava sempre de mão dada com ele, mas eu entrei, e ele ficou pro lado de fora. Fechou a porta do metrô! Eu meti o pé na porta e abri e desci do metrô. E falei pra ele: “Gilberto, você viu que eu tinha entrado dentro do metrô e você não tinha?” “Não.” Eu falei: “E, se acontecesse isso de novo, se eu pegasse o metrô e fosse embora, o que você fazia?” “Ah, eu pegava o metrô e ia pra casa.” “E onde é que você mora?” “Ah, não sei.” Fomos lá pra Rua Barão de Paranapiacaba, e falei: “Me faz uma medalha desse tamanho com o nome dele, com o RG, com telefone dos três filhos”. E ele usou essa medalha até ir para o hospital. Porque a gente não imagina isso até que aconteça com a gente.

 

Um dia, ele falou assim: “Você sabia que São Paulo tem 645 municípios?” Eu falei: “Eu não!” “Tem.” Eu entrei na internet e tinha mesmo! Ele falou: “Você era capaz de me levar pra gente conhecer todos eles?” Eu falei: “Entra no carro”. Comecei no mesmo dia, fui até Paranapiacaba que ele não conhecia, e Paranapiacaba nem é município, é um distrito, né? Mas ele não conhecia, era o que se podia fazer naquele momento. Quando chegamos lá, aquela ruína daqueles trens todos parados, enferrujados, eu olhei tudo aquilo, tirei uma fotografia dele na frente de uma locomotiva e falei: “Nossa, que potência que foi isso e como está”. É como ele, né? Que homem que ele era e como ele está. Mas eu vi que eles usaram Paranapiacaba pra fazer aquelas casinhas que eram dos funcionários ingleses se transformarem em lojinhas, em coisinhas bonitinhas. Então, não era o fim. Eu falei: “Sua história também não vai ser o fim, vai começar aqui a sua história. Vamos fazer o Projeto Municípios, conhecendo São Paulo da pracinha da matriz”. Porque toda cidade tem alguma coisa, mas toda cidade tem a matriz. E assim nós começamos. Fizemos 275 dos 645 municípios.

 

Então, eu comecei a ir tocar a harmônica na casa de repouso. Na primeira vez que eu fui, eu levei o afuxê [chocalho] e tentei tocar com o Gilberto. Ele começou a chorar e não conseguiu tocar. Aí, eu não fui mais tocar nessa casa. Quando ele estava no quarto, eu ia tocar pras pessoas lá debaixo. E ele ouvia de lá, mas não percebia que era eu que estava tocando. E tinha uma música, A comadre Sebastiana, que era “a, e, i, o, u, ypsilone”, que ele gostava, então, ele levantava e saía tocando e dançando. Na casa de repouso em que ele morreu, ele já tomava muito remédio, já não ficava acordado, ficava com os olhos fechados. Então, ele estava assim numa sala, no sofá, deitadinho com os pés na poltrona e com os olhos fechados. E eu tocando A comadre Sebastiana. E o dedo do pé dele marcando o compasso. Então, isso me marcou muito, eu falei: “Ele ainda está tocando comigo!” E, daí pra cá, ele se foi e eu continuei tocando. Quer dizer que, então, a música é o que me liga com pessoas doentes e pessoas idosas.

 

Eu não conheço música, eu toco tudo de ouvido. E principalmente a mão esquerda é um lugar que a gente não consegue olhar pra tocar. E eu erro menos na mão esquerda do que na mão direita. Às vezes, eu estou aqui, eu estou pensando o que eu vou pegar. Eu não sei, a minha mão vai lá pra cima, a minha mão vai lá pra baixo. Por isso que eu falo: o meu anjo era músico! É músico! É uma coisa engraçada. E eu tenho duas primas professoras de música que não tocam nem Parabéns a você: elas têm que estudar partitura, têm que treinar muito e tocar com a partitura na frente. Eu não, eu não toco com partitura. Eu estudei até oito meses tocando com partitura. Aí, o professor de música me deu essa música aqui, chama Kalu. E ele falou: “Na próxima aula, eu quero essa música de cor”. Tá bom. Ele foi embora, eu dei uma estudadinha lá durante a semana, quando ele chegou, ele mostrou a música pra mim, tirou a música da frente. Falou assim: “Agora toque de cor”. E eu peguei e toquei. Ele falou: “Você está tocando de ouvido?” Eu falei: “Não sei, eu estou tocando com a mão!”

 

Eu tinha sete anos! Ele falou: “Mas você está fazendo isso, isso não tem na música! Eu pus pra te atrapalhar. E você está tocando. Você vai ser uma música analfabeta, vai falar, mas não sabe ler nem escrever!” Só faltou me chamar de burra. E eu fiquei: “Mas está errado?” Ele falou: “Não está errado, mas você vai ficar assim. Se você não conhecer uma música, te dão uma partitura e você não sabe tocar”. Eu falei: “Mas, se alguém cantar, eu vou tocar!” (risos) E aí ficou. Ele até parou de me dar aula, porque, imagina, Carlos Gomes estava virando na tumba! Ah, eu falei: “Gente, não era tão bravo assim só tocar de ouvido”. Eu toco de ouvido, ué!

 

Meus sonhos? Viver bem o dia de hoje. Eu não tenho previsões assim: “Ah, eu gostaria de fazer isso”. Viagens, sair do Brasil, pegar um navio, ir conhecer a Itália. Não tenho, não tenho esse sonho. O meu sonho agora é fazer bem aquilo que eu tenho que fazer. Ultimamente, eu tenho contado a minha história tantas vezes! E, a cada vez que eu conto, ela vai ficando mais distante das tristezas que eu passei. Interessante! Está ficando mais uma história. Mas eu tenho outra história ainda pra viver, e essa história ainda não conheço, ainda não escrevi.

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