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História

65 pesos e 5 crianças

História de: Angela Dolores Garcia Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/10/2013

Sinopse

A entrevista de Angela Dolores Garcia Rodrigues foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 15 de agosto de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Angela nasceu e cresceu no interior da Espanha em uma família próspera. Seu pai era vinicultor. A guerra civil espanhola transformou a vida da família, e os fez chegar a passar fome. A depoente começa a trabalhar como costureira e em seguida seu pai morre e a família se muda para a cidade de Valência, onde Angela conhece seu marido. Os dois migram para o Brasil com uma filha e o nascimento da segunda já acontece em território brasileiro. Hoje é viúva e sua filha mais velha entrou na USP. Angela conta uma história de superação incrível.

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História completa

Eu tive a sorte de ter pais que nos deixavam pintar o sete em todo lugar. Era um cercado, não sei como se chamaria aqui, um quintal muito grande, com duas adegas, cada uma com um lagar onde se pisa as uvas. As uvas não eram pisadas com os pés, eram com máquinas porque a produção de vinho era muito grande. Então, lá no lagar tinha uma máquina que chamava pinchadora e tinha só um homem que com uma pá ia colocando as uvas na máquina. Depois o mosto saía por umas canaletas e ia nas piletas porque era como um poço no centro da adega, onde ficava depositado o mosto que depois, com mangueiras, ou seja, uns depósitos de dez mil litros de barro. E aí com as mangueiras subia o mosto e depois seguia o curso, tinha a fermentação, tudo isso eu não sabia porque naquela época só ficávamos brincando fora. Tinha o orujo, que é o desperdício da uva moída, se punha como em umas cisternas e se punha nas prensas. Juntava com um monte de 10 ou 12 e a prensa vai rodando até comprimir o mosto que saía e ia também para a adega. E depois, esse desperdício se colocava em poços artificiais, chamava latilancos, eram cimentados e depois era vendido para as fábricas de álcool. Lá naquela cidade tinha duas fábricas de álcool, álcool vínico. A gente brincava lá. Eu era muito pequena, eu tinha sete anos quando começou a Guerra Civil Espanhola começou. Meu pai perdeu todo o dinheiro na guerra. O dinheiro que tinha só valia 500 pesetas, o resto estava no banco, perdeu tudo. Porque Franco desvalorizou o dinheiro a partir de 1920, porque em 22 foi a ditadura de Primo de Rivera até 29. E em 31, 14 de abril de 31 entrou a República e o rei da Espanha abdicou e foi viver em Roma. Então, só o dinheiro que tinha sido emitido pelo rei valia, quem tinha dinheiro de 1920. Como meu pai tinha todo o dinheiro no banco, nós ficamos na zona da república o tempo todo. As tropas de Franco entraram na cidade que eu nasci desfilando em quatro de abril de 39. Eu estava lá vendo eles desfilarem. Eu lembro. Lembro disso, do primeiro dia que fui na escola, me expulsaram do colégio porque uma menina grandona, de 14 anos, eu estava sentada no jardim e ela falou para eu sair de lá que ela ia sentar. Eu falei: “Não quero, eu estou aqui!”. Me pegou em um braço e me jogou fora. Aí eu levava um jarrinho para beber água, e pum, na cabeça dela. E aí me expulsaram do colégio. Só descobri anos mais tarde porque levava uma carta, uma prima da minha mãe que me levava na escola levava uma carta para meu pai. Ela falou: “Teu pai vai bater em você!”. Eu falo: “Meu pai não bate em mim” “Ah, mas quando ele ler essa carta ele vai bater”. Então eu cheguei em casa, troquei de roupa e fui brincar. Aí quando chegou meu pai, veio a empregada me falar que ele estava me esperando. Eu lembro dele sentado atrás da mesa de escritório e minha mãe bem do lado dele. E a carta na frente. Ele me falou: “Fala-me o que aconteceu na escola” “Mas se a professora falou na carta” “Sim, ela falou na carta, mas eu quero que você me conte com as tuas palavras”. Aí eu falei o que tinha acontecido e meu pai falou: “Está certo, você não vai voltar à escola”. Porque lá, como as estações são cambiadas, as salas de primário terminavam 15 de junho e começavam 15 de setembro. Era o fim de maio e ele falou: “Como já está terminando o ano, você não vai voltar na escola. Para o próximo curso a gente vai procurar outra escola”. Eu soube anos mais tarde que eles tinham me expulsado, nem me bateram, nem nada, meu pai só queria que, com minhas palavras, eu explicasse o que tinha acontecido. Da guerra eu lembro da fome. Só lembro de fome. Porque Franco era a favor de Hitler. Não tem nada a ver com o povo, mas, depois da guerra, tudo bloqueio econômico, como tem em Cuba. A Espanha é uma produtora de azeite muito grande e nós cozinhávamos com pasta de cacau, não tinha azeite na Espanha, se exportava tudo. Porque não chegava nada, então o que podia exportar, exportava, pra cambiar por outras coisas. O mercado negro era muito grande, quem tinha dinheiro tinha de tudo, mas em casa, quando morreu meu pai, depois de pagar o resto do enterro ficaram 65 pesetas e cinco crianças. Eu tinha 15 anos. Então deixamos a escola e fomos trabalhar. Depois eu casei. Meu marido estava sempre querendo sair da Espanha, pra qualquer lugar que não tivesse Franco. Eu fui com ele. Para mim tinha que estar com ele. Nem queria ir, nem queria sair, nem nada, para mim foi para vir com ele. Agora, foi difícil. Vir com uma menina de 16 meses é difícil. Foram dezessete dias até o Brasil. Viemos no Navio Cabo da Boa Esperança. Aqui eu aprendi a trabalhar com vendedora, o que fiz até me aposentar. Eu me aposentei, como te falo, com 63 anos, mas até os 75 eu trabalhei. Com uma mala cheia de amostras e com a bolsa assim. Eu fazia todas essas papelarias de São Paulo, que tinham as agendas, eu que vendia. E era aquilo, com uma mala cheia de amostras. Eu e meu marido moramos na Água Rasa até que ele faleceu.

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