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História

A armadora da Gol de Letra

História de: Ana Maria Wilheim
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2019

Sinopse

Ana Maria Wilheim nasceu em São Paulo em 1957, seu pai, Jorge Wilheim, foi um famoso arquiteto urbanista que atuou no Governo do Estado de São Paulo. Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, conta que desde cedo se envolvia com as questões políticas e sociais. Formada em Ciências Sociais pela USP, viveu um período de efervescência do movimento estudantil secundarista e universitário durante a ditadura militar. Sempre ligada ao debate das questões de gênero, conheceu e trabalhou com grandes pensadoras no plano das políticas públicas, contando em detalhes sobre encontros especiais que a levaram a trabalhar com a Fundação Abrinq e a Fundação Gol de Letra.

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História completa

P/1 – Bom, pra começar, Ana, eu gostaria que você dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Ana Maria Wilheim, nasci em São Paulo, em 15 de dezembro de 1957.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – Jorge Wilheim e Joana Wilheim.

 

P/1 – Você sabe a origem do seu nome?

 

R – Os meus pais são imigrantes judeus europeus, meu pai veio de Trieste, de família austro-húngara, e minha mãe veio da Polônia. Então esse sobrenome tem uma origem, é um nome alemão, vem de Walheim, um vilarejo, na Alemanha.

 

P/1 – Você sabe como eles se conheceram?

 

R – Meus pais se conheceram no Brasil, em São Paulo, na adolescência, num grupo de pessoas da mesma origem, provavelmente.

 

P/1 – Escola... você tem alguma história disso, que sua mãe teria contado?

 

R – Meus pais... minha mãe estudou no Mackenzie, no colegial, enfim, foi... (tosse); e meu pai no Rio Branco, e eles se conheceram nesse grupo de amigos, enfim, grupo de amigos. Meu pai gostava muito de música, minha mãe não muito, minha mãe gostava de cinema, e eles andavam por aí, por essa turma.

 

P/1 – Qual que é a atividade profissional dos seus pais?

 

R – Minha mãe é psicanalista, fez formação primeiro em Assistência Social, depois Psicologia e Psicanálise; e meu pai é Arquiteto Urbanista, trabalhou muito nos governos da cidade de São Paulo, no Governo do Estado de São Paulo, foi Secretário de Planejamento, Secretário de Meio Ambiente do Estado, e foi também Secretário Municipal de Planejamento por duas vezes.

 

P/1 – Você conheceu seus avós?

 

R – Conheci meus avós.

 

P/1 – Paternos e maternos?

 

R – Sim.

 

P/1 – Você pode falar um pouquinho...?

 

R – Minha avó materna foi a que viveu mais tempo.

 

P/1 – Nome dela?

 

R – Janina April, meu avô materno Estéfano April, a gente chamava ele de Vovô, e ela de Vavá, que eu acho que é como os poloneses traduziam isso para o português. Meu avô morreu cedo, teve um enfarte, era diabético, fumava, morreu mais cedo do que ela. E meus avós paternos, também minha avó também morreu muito cedo, com câncer.

 

P/1 – Nome?

 

R – Elisabeth Wilheim, ela fez... ela era... ela fez uma indústria têxtil, em São Paulo, na verdade ela era artesã do têxtil e trabalhava com artesãos, em casas, na região lá da Pamplona, ela morava na José Maria Lisboa. Era bastante talentosa, fez os primeiros tecidos, fez os tecidos que fizeram a primeira decoração do Palácio da Alvorada, de estofamento e cortina, e o meu avô Zóltan, Wilheim também, trabalhou com ela. Eles migraram na época da guerra, ambas as famílias são fugitivas da Guerra, da Segunda Guerra do Nazismo e do Fascismo, meu pai pela Itália e minha mãe pela Polônia. O caminho de migração foi um pouco diferente, minha avó, a família da minha mãe viajou bastante pela Europa até chegar no Brasil, no Rio de Janeiro, de navio; e a família do meu pai saiu de Trieste direto para Buenos Aires, onde eles tentaram a primeira vida como migrantes. Não deu... não conseguiram trabalho, aí vieram para o Brasil, pra São Paulo. E aí a minha avó, foi se sucedendo relativamente bem com essa indústria. Não era uma indústria, era o início de um trabalho artesanal, de uso do tear no estofamento, nos tecidos para estofamento, e foi uma inovação que hoje é bastante comum, mas que é um tipo de tecido que ela inovou quando veio ao Brasil.

 

P/1 – Irmãos? Você tem?

 

R- Tenho um irmão, Carlos Eduardo Wilheim, que, como eu, fez Ciências Sociais nos anos 70, 80, e depois resolveu ir por outros caminhos de saúde mais física. Fez Fisioterapia, então é um Fisioterapeuta que trabalha hoje com pessoas mais velhas, ajudando em se sentir bem.

 

P/1 – Ele é mais velho que você?

 

R – Ele é dois anos e meio mais velho que eu.

 

P/1 – Então a gente vai falar um pouquinho da sua infância. Você lembra da sua casa, quando você era criança?

 

R – Eu lembro da minha casa quando eu era criança porque eu nasci e vivi lá até sair de casa (risos), aos 21 anos. Então eu tenho...

 

P/1 – Como que era a casa, grande?

 

R – Era uma casa gostosa, boa, nas Perdizes, na Rua Bocaina, uma rua sem saída.

 

P/1 – Tinha jardim?

 

R – Tem jardim, quintal, tinha cachorro, tinha edícula com garagem. Teve muitas reformas, uma casa que passou por muitas reformas. Eu sempre tive o meu quarto, sempre foi o mesmo quarto, que foi se transformando no decorrer da minha vida. Eu lembro, o que eu lembro assim gostoso é no dia da limpeza, eu acho que era às sextas-feiras, que era o dia que as coisas todas eram... se movimentavam, saíam dos seus lugares e tinha cheirinho de cera e de cheiro de limpeza que era uma coisa que eu gostava muito. Essa é uma lembrança que eu tenho. Então é uma lembrança muito gostosa da janela do meu quarto, eu tinha uma vista pro bosque do Colégio Santa Marcelina, o Colégio Santa Marcelina que ainda existe na Cardoso de Almeida, ele tinha um terreno na rua detrás dele que era um bosque, então tinha árvores fantásticas, que ainda têm algumas e que tinha muitos passarinhos, então eu tinha essa vista, essa sonoridade dos passarinhos presentes do meu quarto.

 

P/1 – E você, bom, sua mãe, seu pai, eles já trabalhavam, eles já tinham uma profissão, mas como era o dia a dia da sua casa? Você lembra do cotidiano...?

 

R – Eu lembro do cotidiano, enfim, era um rotina de acordar cedo, a gente tinha um banheiro só, naquela época era um banheiro que era um lugar que nós todos frequentávamos quase que ao mesmo tempo: um escovando o dente, outro tomando banho, outro se enxugando. A gente tinha, cada um tinha a sua toalha, dobrava num porta toalha, eu, meu irmão, meu pai, minha mãe; tinha as toalhas de rosto também que acompanhavam as toalhas de banho. O espelho desse banheiro ele me acompanhou, ele é o meu espelho do meu banheiro de vida adulta, hoje é o meu espelho, é o espelho daquele banheiro. Esse banheiro era grande, tinha planos, com as coisas todas que a gente usava, cada um tinha um quarto, a gente acordava... Depende da época, assim, quando a gente era pequeno ia pra escola de manhã cedo, acordava antes dos pais , teve épocas que não, tinha épocas que a gente ia de perua pra escola, tinha época que meus pais levavam. Eu sempre estudei relativamente perto, a única vez que a gente estudou longe foi no Colégio Brasil Europa, que era no Itaim, que foi um colégio que o meu pai fez o projeto arquitetônico, e eu acho que por isso que nós fomos estudar lá, e aí então eu lembro que a minha avó, nos levava pra escola, com motorista, ela tinha uma Aero Willys, ela nos levava pra escola e nos buscava, porque era mais distante. E, mas no resto, depois a gente estudou sempre por perto, e aí eu ia de perua escolar, ou ia a pé, ou ia de carona, de ônibus.

 

P/1 – Você tinha amiguinhos, assim?

 

R – A gente tinha amigos na rua, a gente morava numa rua sem saída, e tinha na turma da rua que, enfim, tinha muita criança, a gente jogava bola, brincava de esconde-esconde, trepa-trepa, que era uma brincadeira correr, de trepar para se segurar, para não ser pego (risos). Os meninos jogavam futebol. Tinha uma vida muito ativa, éramos muitos, assim, tinha os vizinhos da frente, a Maria Ângela e o José Carlos, tinha o Humberto, o Caio, o José Carlos. Ihhh... tinha uma boa turma.

 

P/1 – O seu pai, ele fazia os trabalhos dele em casa, ele chegava a desenhar, a fazer assim, você ficava por perto... você lembra disso?

 

R – Meu pai tinha um escritório de arquitetura, na cidade, a gente falava na cidade, na Major Sertório. Aos sábados às vezes a gente ia com ele para a cidade, para o escritório, depois ele mudou pra um outro escritório, na General Jardim, com a Rego Freitas, aí um escritório maior, onde até eu cheguei a trabalhar como Recepcionista nas férias, e nessa época, no trabalho de arquitetura, ele trabalhava no escritório mesmo, porque na época era prancheta, era... precisava de espaço maior. Teve uma época, um momento da vida dele profissional, que ele fez isso na nossa casa, numa edícula que a gente tinha. Foi um momento muito importante na nossa vida, na dele, principalmente, na dele com certeza e na nossa também, porque ele foi convidado para desenhar um planejamento de desenvolvimento do Estado de São Paulo, pelo Governador Paulo Egydio Martins, isso era época da Ditadura, na última fase da Ditadura, os Governadores eram indicados pelo Presidente, o Presidente era o Geisel e ele indicou o Paulo Egydio para ser Governador, e o Paulo Egydio compôs uma equipe que era uma parte de esquerda, uma parte de direita, tentou fazer um equilíbrio, e o meu pai assumiu a área de Planejamento. E esse plano do Desenvolvimento do Estado foi feito na minha casa, uma experiência muito interessante, de muita aprendizagem, muito bacana.

 

P/1 – Legal! Ana, você falou um pouco da sua escola, você lembra-se da sua primeira escola?

 

R – A minha primeira escola foi uma pré-escola, chamava Anita Guarnieri, era na Avenida Brasil do lado da Igreja Nossa Senhora do Brasil, tem a Nossa Senhora do Brasil, a rua Augusta, do outro lado era uma escola que eu lembro dela, assim, era uma casa, com bosque de árvores fantásticas. Então eu lembro isso com muito prazer, era de tomar lanche na mesa debaixo dessas árvores; a gente tinha lancheira, a gente levava lanche de casa e a gente punha a toalhinha, punha o lanche e comia debaixo dessas árvores. Era uma sensação muito gostosa, e incrivelmente essas árvores todas demolidas, não existe esse espaço como parque, sem árvores (risos), e eu não sei o que é uma unidade, chama de algum Museu de Ciência e Tecnologia. Eu não sei o que é, mas é um crime o que fizeram ali, derrubaram as árvores para fazer um parque, sem árvore.

 

P/1 – Você tinha uns seis anos, assim, mais ou menos?

 

R – Isso foi pra escola, talvez até menos um pouquinho. Minha mãe já era Psicóloga, já trabalhava em um consultório, e o consultório dela era ao lado da nossa casa. A gente morava no número 81 e o consultório era número 67. Então ela saía também pra trabalhar e voltava. Então na nossa rotinha diária uma das coisas importantes era a hora do almoço, que era realmente uma hora que todos almoçávamos em casa, os quatro, e era uma família muito ativa, assim, a gente... todo mundo tinha muita coisa pra contar, era uma disputa de conversa, assim, na hora do almoço, na nossa casa. As refeições sempre foram muito respeitadas, então o café da manhã, o almoço, o jantar eram horas que a gente se encontrava em volta da mesa.

 

P/1 – E da sua pré-escola, você como é que foi a sua trajetória escolar?

 

R – Da pré-escola eu fui pra esse Brasil Europa, onde eu fiz o pré-primário e o primeiro ano, ou fiz só o pré-primário? Não, eu fiz o pré-primário e o primeiro ano, daí depois eu mudei do Brasil Europa pra uma escola referência, chamava-se Escola Experimental Doutor Edmundo Carvalho, escola pública, na Lapa, que era dirigida pela Professora Terezinha Fran, e pela, assim, quem estava por trás desse projeto era a Ana Maria Poppovic que era amiga dos meus pais, uma Pedagoga bastante renomada, como a Terezinha Fran, e elas estavam, isso foi nos anos... anos 60. Foi um projeto pedagógico experimental, era uma escola então pública, com esse caráter, e era uma escola grande, na Lapa, tinha um quarteirão, acho, que de espaço, e eu então fui estudar nessa escola. Fiz dois anos nessa escola, não fui feliz, não foi uma escola que eu me dei bem, que eu gostava...

 

P/1 – Nessa? Antes de falar dessa, na anterior você gostava?

 

R – O Brasil Europa eu gostava.

 

P/1 – Tem alguma situação em particular que você guarda, assim?

 

R – Tem uma situação particular que, de angústia, na verdade, que foi alguma colega que tinha uma galinha, um brinquedo de galinha, que a gente apertava e saía ovo, era um brinquedinho que a gente, inovador na época. E ela me emprestou, eu gostei tanto que ela me emprestou pra eu levar pra casa, e evidentemente eu quebrei isso lá em casa (risos). E aí eu voltei pra escola cheia de angústia, como é que eu ia devolver aquela galinha quebrada pra minha amiga. Então eu tenho essa lembrança e tenho uma lembrança boa da professora, num lembro exatamente o quê, mas tenho uma boa lembrança da professora.

 

P/1 – Você lembra o nome dela? A matéria?

 

R – Eu lembro da Diretora, era Maria José que era uma figura bem querida, assim.

 

P/1 – E tinha alguma matéria? Que você tinha, assim, uma maior facilidade, que você gostava?

 

R – Nessa primeira fase da vida, não. Não lembro não.

 

P/1 – Mas depois...

 

R – Eu lembro que a gente fazia fila, que a gente tinha que andar, assim, beirando, beirando a parede da escola...

 

P/1 – E tinha uniforme?

 

R – Tinha uniforme...

 

P/1 – Como que era o seu uniforme?

 

R – Eu não me lembro desse uniforme, mas tinha uniforme.

 

P/1 – Aí você foi para o Experimental, então.

 

R – O Experimental na Lapa, que também tinha uniforme, eu acho que era saia azul, de pregas e blusa branca. E lá eu fiquei dois anos, as coisas que não me fizeram bem no Experimental da Lapa, algumas: professora falsa, que na frente dos pais era toda simpática, e na classe era cruel com os alunos.

 

P/1 – E tinha uma situação de crueldade?

 

R – Ah, tinha, chegava até acho que dar cucuruco, assim cucuruto. Ela chegava a interferir fisicamente nos alunos, quando a gente fazia bagunça, quando ela se irritava com alguma coisa, e tinha aquela situação de ser chamado para ir na lousa, e eu morria de medo de ir pra lousa, então eu me escondia. Na hora que ela ia me escolher, eu jogava a bolsa no chão, pra me esconder, com medão de... (risos). Mas eu me lembro que essa professora chamava Dona Maria. Ela, na verdade, foi uma professora acho que do terceiro ano. A do segundo ano eu gostei bastante, foi super querida, assim. Era Ana alguma coisa, eu não lembro, então a do segundo ano eu gostei bastante. A do terceiro, que foi essa situação, ela estava em licença maternidade, no primeiro semestre, e a professora que ia substituí-la, acho que chamava Dona Lúcia, era uma senhora, uma pessoa mais velha, e isso quando a gente é pequeno a gente não gosta muito. E quando essa Dona Marília voltou da licença, era uma figura bonita, uma mulher bonita, mas tinha essa coisa de falsidade, e aquilo começou a me dar muito pânico, assim, muita angústia. Eu não gostava de ir pra escola, tive vários problemas, então foi uma fase que eu não curti ir para a escola. E eu lembro também que eu tinha um colega chamado Jorge, que era mulato, e era bom aluno, e era super esforçado, mas a turma dos meninos sacaneava muito com ele, e numa dessas sacanagens ele caiu, bateu a cabeça, e cortou a cabeça. E então eu tenho a lembrança dessa situação e da situação do sangue pingando até, até... o ambulatório do colégio. Essas e outras coisas me fizeram a querer sair do colégio, eu comecei a ter dificuldade de aprendizagem, dei uma bloqueada, assim, bem grande.

 

P/1 – E você chegou a comentar isso com a sua mãe? Ela pressentiu isso?

 

R – Ah, comentei, sempre, eu tinha angústia de ir pra escola, foi um período difícil, aí.

 

P/1 – Aí você saiu dessa escola então.

 

R – Aí eu saí dessa escola, e fui pra um Cursinho de Admissão da Dona Marina, que era na Rua Rosa e Silva, que preparava os alunos pro... a gente tinha, a gente fazia um cursinho de admissão pra ser admitido no ginásio, na época eram quatro séries do primário, e você tinha uma quinta série, que era, você podia ou não fazer. Eu pulei a quarta e fiz a quinta. Então eu fiz o primeiro, segundo e terceiro ano, pulei o quarto e fiz o quinto. Isso podia, e aí eu fiz esse cursinho, da Dona Marina, e esse cursinho preparava as pessoas para o Colégio Aplicação, que na época era um colégio do Estado, bastante renovado, bastante importante, mas eu nem fiz o exame pro Colégio Aplicação, eu fui para o outro Colégio que chamava Vocacional, Luís Antônio Machado, era um Vocacional, era o Colégio Vocacional privado. Porque na época tinha o Vocacional, foi muito famoso, que era público, acho que era de Santo Amaro, não lembro que era. Eu não, eu fui pra um Vocacional que era aqui no Pacaembu, perto da minha casa. E no Colégio Vocacional, foi uma fase super boa...

 

P/1 – Mas você fez o chamado ginásio?

 

R – É. Fiz as quatro séries do ginásio. Lá, o que tinha de interessante, assim?  Eram mesas, e não carteiras, eram mesas de dois, mas que se arrumavam com mesas de quatro, então, eu tive muito incentivo de trabalho em equipe. Não tinha o uniforme tradicional, tinha avental branco, a gente tinha aulas de iniciação técnica, a gente tinha eletrônica, tinha marcenaria, tinha atividades vocacionais, assim, técnicas formativas, tinha música, tinha coral. Foi muito bom eu ter feito esse colégio, e o melhor de todos mesmo foi o Colégio Equipe, no colegial, quando dos quinze aos dezesseis, dezessete anos, eu fiz o Equipe e foi o melhor, na escolaridade, foi a melhor escola que eu fiz. Foi um momento de grande desenvolvimento pessoal, de encontrar pessoas muito interessantes, muita criatividade, muita formação pra pensar, professores muito bons, a aprendizagem fazia um enorme sentido, era um momento político super sério no Brasil, que era a Ditadura, eu estava vivendo a Ditadura Militar, e o Equipe tinha professores que se opunham à Ditadura, alguns tinham sido presos, era um colégio que acolhia essas pessoas, e essas pessoas eram pessoas que pensavam no Brasil, que pensavam nas questões sociais, então as aulas tinham um enorme sentido, todas elas, todas, até Matemática, para quem é de Humanas, foi uma matéria prazerosa, e a gente se desenvolvia super bem. E lá eu fiz grandes amigos, e amigos que perduram até hoje, e lá foi a melhor fase mesmo.

 

P/1 – Você pode citar o nome dos amigos? Que você assim...

 

R – Ah, a gente tem uma turma, tem o Paulo Bruna, que hoje é cantor de ópera, desde sempre ele cantava e a gente cantava com ele, e ele nos regia. A Célia, a Kika, que depois ela também se desenvolveu em sapateado, fez um escola de sapateado em São Paulo, a Vivian, que já desde o começo ela estudou comigo no Vocacional, e a gente foi junto pro Equipe. A Vivian que já    desde o Vocacional já namorava com o Cândido, que estão casados até hoje. O Felipe, que depois mais recente a gente se reencontrou. Essa turma, na verdade, se reencontrou, quando a gente começou a fazer cinquenta anos, e estamos nos reencontrando aí, sistematicamente. O Og, meu marido.

 

P/1 – Você conheceu lá?

 

R – Desde o Colégio Equipe, a gente começou a namorar no terceiro colegial, e estamos juntos até hoje, já 31 anos. Quem mais que estava nessa turma? O Gil, o Gilberto, o Felipe que depois se casou com a Helena, que depois eu fui encontrar profissionalmente mais recente, o Fernando, o Fernando Batistoso, o Henrique, o Estrinofe... era a nossa turma.

 

P/1 – E você lembra de você estar despertando interesse, assim, por alguma área, nessa época?

 

R – Ah, total. Foi realmente a fase de despertar: pra política, para as injustiças sociais. Eu venho de uma família com muita consciência social, meu pai, além da sua profissão, ele era um homem muito politizado, de esquerda, de pensamento de esquerda, com muita leitura, muita militância política também desde a sua juventude.

 

P/1 – Ele foi de alguma organização?

 

R – Ele participou da Juventude Comunista, e depois eu acho que ele saiu. Mas sempre foi uma pessoa que se posicionou. Por sorte não foi preso, nem teve que sair do país. E a minha mãe, no perfil que começou como Assistente Social, depois Psicóloga, sempre uma pessoa que ajudava muito aos outros. Minha mãe tem um anseio, assim, de compaixão, de ajudar aos outros o tempo todo. Esse ambiente de muita percepção social, de muita percepção das diferenças, das injustiças, sempre fez parte da nossa vida. Então quando eu fiquei adolescente, comecei a atuar, e nesse contexto de Ditadura, no Colégio Equipe, que era um colégio onde se experimentavam muitas micro-revoluções de comportamento, isso na década de 70, logo depois nos anos em 68, já sob a influência do movimento hippie, eu fui muito resultado disso tudo. E aí, o Equipe, além das suas matérias, como que fala, de aula, tinha atividades como fotografia, cinema, teatro. E eu, através da fotografia, saí fotografando a sociedade, saí olhando pra sociedade, olhando para a cidade de uma outra maneira, e fotografando, clicando ela.

 

P/1 – Você lembra de alguma situação marcante para você?

 

R – Ah, todas as situações de injustiças visíveis a olho nu, nas ruas, no centro de São Paulo, no centro da cidade.

 

P/1 – Teve alguma foto que você, assim, falou: “Essa é a foto que...”

 

R – “Essa é a foto”, não na verdade foi uma foto, já numa viagem pro Nordeste, feita provavelmente em janeiro de 74, ou 75.

 

P/1 – Você já tinha saído da escola então?

 

R – Não, não, estava

 

P/1 – Estava na escola ainda então.

 

R – 73, 74, 75. Nós fizemos uma viagem pro Nordeste, um grupo de amigos, a Isa Grinspum, a irmã dela, a Ester, que era casada com o Chico, meu irmão, o Carlos, e eu, nós fomos pra Pernambuco, Paraíba. Aí numa dessas localidades eu fotografei uma criança que tinha um cabelo comprido, estava pagando uma promessa, e essa foto, foi uma foto que, quando o meu pai foi Secretário de Planejamento, pela primeira vez, eu dei de presente pra ele essa foto, dizendo a ele que não se esquecesse nunca do olhar daquela criança, na função que ele estava assumindo. Essa foto, depois, foi capa de revista da Secretaria da Assistência Social, ficou com ele muito tempo, e hoje essa foto está no meu escritório, me acompanha até hoje.

 

P/1 – Que bárbaro!

 

R – Assim, na verdade, a temática infantil, é uma temática que sempre me tocou muito, como a questão de gênero, do ser mulher, do ser mulher são dois temas que me acompanharam a vida toda. A parte da minha consciência de mulher, dessa, da adolescência pra frente. Então eu, enfim, a fotografia me ajudou a olhar com um olhar mais apurado, assim, e ao mesmo tempo no Equipe a gente fez muita militância política, disputamos o Grêmio.

 

P/1 – Você chegou a participar do Grêmio?

 

R – Cheguei a disputar e perdemos.

 

P/1 – Mas como foi, porque até então você nunca foi, nunca teve problema assim pra falar em público, era tranquilo isso?

 

R – No Equipe, eu me desenvolvi muito bem, nessas coisas todas. Até então eu era muito tímida, no ginásio. Até o ginásio eu era muito tímida. Mas no colegial eu fui me sentindo mais segura, fui me firmando mais e aí era, inclusive a gente perdeu a eleição do Grêmio, porque a gente era um grupo, participando de uma chapa.

 

P/1 – Você lembra o nome da Chapa?

 

R – Era... eu lembro, espera aí... era...era um slogan até de maio de 68 na França, era, não sei o quê no poder, a inspiração, já vou lembrar... Essa Chapa era, gente... eram pessoas, era o André Singer, que era filho do Paul Singer, era Rui Afonso, que era filho da Almino Afonso. E eu era filha do Jorge. Estava o Henrique, o Og, não sei se a Cuca, acho que a Cuca também estava lá. Eram todas essas pessoas muito intelectuais, muito comprometidas e muito sérias, e a gente fez uma Chapa toda muito política. Mas a Chapa que ganhou era a Chapa Anarquista, que era do Pedrinho, não, não era o Pedro, o Paulinho Freire, filho do Roberto Freire, o Mauro Bruno, o Felipe, eles eram anarquistas, eles eram da graça, então a Chapa propunha banheiro misto, acho que brinquedos, gangorra no pátio (risos) e a gente era “A Liberdade ao Poder”, assim, era...

 

P/1 – E tinha uma proposta?

 

R – Tinham propostas políticas super sérias, a gente tinha uma revista, na época, chamava Chave, esses escritores escreviam, o Marcelo Leite. E Marcelo, enfim, são todas pessoas que depois fizeram carreiras maravilhosas. O Marcelo que é da Folha, da Folha, depois foi pro Governo, e a gente era tudo muito certo. Mas no Equipe a gente não... e no dia que a gente tinha que defender a nossa Chapa, os meninos todos ficaram... um ficou com caganeira (risos), o outro ficou com febre, e sobrou pra mim (risos). Aí foi relativamente traumático, assim, a gente teve que, a gente subiu no mezanino, no prédio, assim, tinha que falar praquela massa de alunos, aí naquele dia eu acho que me traumatizei um pouco (risos). Mas depois isso se recuperou. Foi uma fase muito boa, e foi uma fase determinante pra escolha da profissão futura. E foi a escolha das Ciências Sociais, que era a profissão que me dava ferramentas para eu entender o mundo, caminhos para entender as relações sociais, econômicas e políticas. E aí eu fui pra USP [Universidade de São Paulo].

 

P/1 – Direto, você... você saiu do Equipe, você já prestou vestibular?

 

R – Eu realmente, foi super sorte, assim, porque o Equipe, a gente... o Equipe era um colégio que nasceu de um cursinho, mas ele não era um colégio que formava para o vestibular. Ele era um colégio que formava as pessoas. Mas no último semestre, ele intensificava pra gente poder prestar o vestibular, e como ele tinha o cursinho lá dentro, então ele sabia como fazer isso.

 

P/1 – Mas, assim, em casa você já chegou e falou: “Vou fazer Ciências Sociais.” Foi uma coisa tranquila, assim?

 

R – Foi, foi. O que não era tranquilo, porque não era exatamente o que eu queria ser, então, eu, por exemplo, na época, a gente praticamente prestava vestibular pra duas, eram duas grandes faculdades possíveis: era a USP ou a PUC [Pontifícia Universidade Católica]. A PUC porque era paga, e a USP era pública. Então a turma, em geral, prestava pra essas duas. E aí na hora da escolha, por exemplo, na PUC, eu na hora de preencher, eu primeiro pensei que ia fazer Pedagogia, e na USP Ciências Sociais. Na hora de... eu resolvi fazer Psicologia na PUC, que era um curso bom e Ciências Sociais na USP. Na PUC eu não passei, que era um curso muito concorrido, e na USP eu passei. O Og na época também prestou as mesmas coisas: prestou Psicologia e Ciências Sociais. Ele passou nas duas, daí ele acabou indo fazer Psicologia no Objetivo, que já existia como faculdade. Fez um semestre lá e depois prestou de novo o vestibular na USP, pra, de novo ele tentou Ciências Sociais, pôs Geografia como opção, e acabou entrando na Geografia. Então ele acabou fazendo Geografia, mas defasado um pouco comigo no tempo. Eu entrei em 76, aí eu fiz 76, 77, aí eu parei um ano, a gente viajou um ano pela Europa, o Og e eu, e depois eu voltei e terminei. Então eu fiz Ciências Sociais, e foi também uma época super bacana, porque era uma época de retomada do movimento de rua, de movimento político, movimento estudantil. Então a recepção nas Ciências Sociais dos calouros, foi uma recepção muito interessante, que não era nada dessas coisas que a gente vê de pintar cara, sair pra rua. Era assim, a gente se dividia em grupos, uns foram pra teatro, outros pra cinema, e a gente montou peças junto, por exemplo, Os Calouros e os Veteranos. Eu fui para teatro e aí então a gente começa, eu começo a minha socialização nas Ciências Sociais com um grupo de pessoas que fazia teatro, que gostava de teatro, a gente viajou para o Rio de Janeiro pra ver Gota D’Água do Chico, foi e voltou no mesmo dia, assim. Era... foi uma boa socialização. E também os professores eram fantásticos, era a época em que você ainda tinha aula com os grandes nomes da Sociologia e Antropologia Política no Brasil. Alguns estavam voltando do exílio, outros não tinham saído. Mas eu tive aula com o Gabriel Cohn, com a Ruth Cardoso, com a Eunice Durham, com a Maria Célia, com Palori, com Juarez, com... não sei se o Florestan.... não, não sei se o Florestan dava aula, se ele chegou a dar aula pra mim. Mas enfim, a gente ainda tinha aula com esses nomes todos. E na minha formação, o que eu fui me interessando mesmo mais, foi por uma linha da Antropologia da Política, o meu interesse é mais por um entendimento da sociedade, pelo seu comportamento, mais por aí do que pelos números, pelas análises sociológicas. E a Ruth, a Ruth era uma excelente professora, a Ruth tinha um dom meio materno, assim, de se relacionar com as suas alunas e os seus alunos, e a Ruth e a Eunice Durham elas eram de formação em Antropologia, mas estavam no departamento de política; e isso em 80, 79, 80, acho que em 80, que eu fiz umas... nos últimos momentos, eu fiz uma matéria com ela que a gente fez uma pesquisa sobre a Representação Partidária em São Paulo. Como é que as pessoas faziam as suas escolhas, em momentos de eleição, se os partidos eram importantes, ou se eram as pessoas que eram importantes. E foi um trabalho muito bom, muito bom. Outra experiência de formação muito interessante que eu fiz foi numas férias em 77, em julho, que eu participei de uma pesquisa de campo, de uma professora da FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo], ela estava na FAU, mas ela é Socióloga, Coleta, a Maria Coleta, ela estava fazendo um projeto, a tese de doutorado dela era sobre a Reprodução do Capital e a Reprodução Humana. Então ela estava fazendo um estudo na região rural de Pederneiras, no interior de São Paulo, onde tem produção de cana, onde ela queria avaliar o impacto entre a reprodução das mulheres e a reprodução do capital. Então a gente entrevistou boias-frias, e trabalhadores rurais, e a gente fazia a história de vida dessas mulheres. E eu amava fazer a história de vida dessas mulheres, e era dificílimo, porque você pegava mulheres da roça que não tem referencial de tempo. Então fazer uma história de vida com uma mulher sem referencial de tempo, que teve não sei quantas gravidez, não sei quantos filhos, quantos abortaram, quantos morreram, quantos viveram, era... eu passava o dia inteiro fazendo entrevistas, e eu adorei, adorei essa experiência. Eu adoro entrevistar, adoro conhecer pessoas. Então fazer entrevista, é ótimo, história de vida, melhor ainda (risos). E essa experiência foi super importante pra mim, de novo, pela minha condição de mulher e pelos meus interesses sobre a questão de gênero, e pelas questões de reprodução, que era realmente um tema que me acompanhou muito nessa fase da vida. Eu também fui, comecei fazendo uma militância feminista e os temas que me interessavam eram o direito à informação e à vida reprodutiva. Então, eu participava de uma ONG em Pinheiros que trabalhava com formação, com capacitação de pessoas, de mulheres sobre vida reprodutiva.

 

P/1 – Isso nesse período também, né?

 

R – Isso nesse período também.

 

(INTERVALO)

 

P/1 – Só pra retomar então. Primeiro pra registrar a Chapa do grêmio, que vocês concorreram.

 

R – Chamava Imaginação ao Poder, que era um lema de maio de 68, eu nem sabia, alguém deve ter dito: “Vamos dar esse nome à Chapa.” E assim foi, Imaginação ao Poder.

 

P/1 – Beleza. A chapa adversária, você lembra o nome?

 

R – Não.

 

P/1 – Tudo bem. Só pra retomar, você estava falando dessa ONG, que você começou a ter uma certa participação.

 

R – A ONG chamava Jane (Schirea?), era na Cardeal Arcoverde, era numa casinha, e eu ia lá, a Rosa Moisés também participava dessa ONG, e a gente ia lá, não sei se a gente juntas fazíamos oficinas de educação sexual, vida reprodutiva para mulheres trabalhadoras, empregadas domésticas, para elas saberem melhor sobre como engravidar, como evitar a gravidez, era um tema relevante, como ainda é, mas a gente tinha muito menos acesso à informação como se tem hoje, no serviço público de saúde. Então a gente trabalhava com esse tema lá.

 

P/1 – Era um trabalho de orientação?

 

R – É. Agora isso já foi...

 

P/1 – E você como universitária, fazendo isso?

 

R – Eu como universitária, o que aconteceu foi que em 76, 77 eu fiz o curso, em julho de 77 eu fiz esse trabalho de pesquisa, eu ganhei um dinheirinho. E com esse dinheirinho eu resolvi fazer uma viagem no final do ano, para a Europa pra visitar lá uma grande amiga, Margarida Sampaio, que estudava comigo na Ciências Sociais, casou com um hippie italiano que passou pela USP, e ela foi morar em Monghidoro, entre Bolonha em Florença na Itália, então eu resolvi que eu ia visitá-la. E o Og, na época tinha conseguido uma bolsa para estudar em Lyon, na França, então a ideia era irmos passar, quer dizer, eu passaria as férias e ele ficaria depois pra o curso dele. E o que acabou acontecendo foi que eu fui ficando, fui me encantando com a Itália...

 

P/1 – Você foi assim, pra passar as férias?

 

R – Fui pra passar as férias.

 

P/1 – Julho, assim?

 

R – Não, janeiro.

 

P/1 – Janeiro.

 

R – Janeiro, eu fui no começo de janeiro, fui para Paris, aí fomos para a Itália.

 

P/1 – Foi a sua primeira viagem, assim...

 

R – Não, eu já tinha feito uma viagem em 69, com meus pais pela Europa, a primeira vez que eu tinha ido. Depois aos quinze anos eu fiz também um intercâmbio para a França. Eu estudei francês, fiz Aliança Francesa durante oito anos, então é a minha língua de maior preferência, pessoas como eu, naquela época eram anti-imperialistas, então os Estados Unidos não era um país de interesse de visitas de viagem, e a língua de preferência da intelectualidade era o francês. Então eu fiz Aliança Francesa, curso tradicional, por oito anos, na General Jardim, e evidentemente eu também estudava inglês porque os meus pais também, tendo a origem que tem, e os meus pais falam cinco línguas, cada um. E língua, era uma coisa importante na nossa formação. Assim como datilografia, uma coisa que eles fizeram a gente fazer, e que foi muito bom porque quando veio o computador, né, trabalhar com todos os dedos, é uma coisa, tá fácil (risos). Então era inglês, algum instrumento musical, então tivemos aulas de piano e violão e línguas: inglês e francês. Bom, e francês era minha língua de preferência, então aos quinze anos eu fiz um intercâmbio pra França, fui para o Sul da França, passei três semanas em uma família em Monghidoro não, Nimes, no Sul da França, perto de Avignon. Então foi a minha primeira viagem sozinha com uma turma, era um programa, o Experimenta, que fazia intercâmbios na época, então era um programa de um mês, alguns dias assim.

 

P/1 – E tem alguma imagem que você guarda dessa viagem?

 

R – Ah, tem várias. Comer Mont Blanc que era purê de castanhas com chantilly, o frio na neve que a gente foi pra uma estação de esqui, na Suíça. O engasgo fenomenal com um pedaço de carne (risos). Eu dei uma engasgada com carne que nunca vi coisa igual (risos), daquelas de perder o fôlego, ter que bater nas costas. A família, né, que de repente você se meter na casa de uma família operária francesa, que morava na periferia de Nimes, que eu nunca tinha, que eu não conhecia, me ver de repente, dentro de um quarto, não tinha travesseiros como a gente usa, porque os franceses usam um travesseiro que é um rolão, assim, uma família que tomava, que punha sangue de cavalo na comida, porque isso se usa na França, pessoas estranhas, né. Foi bem interessante, assim. Naquela época não tinha internet, você não ligava para o Brasil a toda hora, era carta, punha selo, era outro momento, outra fase, mas bem, foi bem interessante. Agora foram três semanas e a gente era um grupo, cada um estava em uma família, todo mundo perto, tinha uma pessoa que era responsável pela turma, então a gente fez algumas viagens juntos e depois eu fui para Portugal. Em Portugal, meus pais tinham um casal de amigos, Carlos Tojal e a Lia, e uma filha da minha idade. Então eu fui pra casa deles, fiquei com essa menina, que depois ela veio para o Brasil, morou conosco, dividiu o quarto comigo lá em casa, na época da Revolução dos Cravos, em Portugal, ela resolveu...

 

P/1 – Ah, na mesma época, realmente, 74.

 

R – Daí ela veio para o Brasil e estudou junto comigo, ficou um pouco por aqui e a gente ficou bem amiga mesmo. Mas eu me perdi agora.

 

P/1 – Não, agora você volta então, você foi pra... o seu marido conseguiu uma bolsa...

 

R – Isso, daí a gente, em 78, deixa eu ver, em 78 eu estava na Itália e eu fui... ah, antes disso, uma coisa importante, é o Movimento Estudantil, em São Paulo, porque eu entrei na USP em  76... 76, 77. Em 76 a gente foi pra rua e voltou para as ruas, e eu estava muito ativa, ia nas passeatas, no confronto com as polícias. Eu, por sorte, sempre me safei. Mas a gente vivia uma situação muito hilária, assim, a gente ia fazer uma manifestação no Centro, a gente estava lá na Cidade Universitária, então a gente tinha que se encontrar no Centro. Cada um ia de um jeito, e o ponto de encontro era na livraria, na biblioteca Mário de Andrade. A gente ia se encontrar lá, mas era aquela coisa que não podia fazer tumulto, e a gente, era assim, vamos descendo a Rua, sei lá, Marconi, alguma Rua lá. Então a gente foi indo, quando de repente, do meu lado estava uma liderança da passeata, que grita: “Um, dois, três.” E começou a passeata, então eu fui bem linha de frente da passeata (risos). Linha de frente, com faixa, e vai, vai, vai... e a gente foi descendo as ruas até o Teatro Municipal, e lá tinha o confronto com, e lá teve o confronto com a Polícia. A Polícia estava nos esperando na esquina da São João, com cachorro, cavalo, bomba de gás lacrimogêneo, e eu estava na linha de frente, e eu não era uma liderança estudantil, era uma estudante na passeata (risos). Mas enfim, aí a gente viveu essa situação de tensão, aí teve um confronto, cada um se escondeu onde pôde, eu nisso eu tive sorte, eu me escondi numa guarita, desativada, do lado de um cinema, e lá ninguém veio. Quem entrou no cinema foi pego, porque a polícia entrou no cinema. Eu entrei nessa guarita e me escondi e ali não aconteceu nada. Vários outros foram pegos, meu irmão, inclusive. Meu irmão afrontou a polícia, (risos) e esse foi pego. Meu pai era Secretário de Estado, nessa época, no Governo Paulo Egydio, e o Secretário de Segurança Pública era o Erasmo Dias, que era um cara de direita, super barra pesada (risos). E quando o meu irmão foi pego, logo foi identificado e aí levou um sabão do Secretário e foi mandado pra casa. Meu irmão fazia PUC, e ele estava nesse... mas também teve sorte. Mas num...

 

P/1 – Porque teve a invasão lá da PUC.

 

R – Mas também teve sorte porque teve uma invasão lá na PUC, se safou, mas vários amigos foram pegos, e foram pro exílio, enfim. A gente realmente teve sorte. Então isso, essa participação no Movimento Estudantil foi realmente muito importante nas nossas vidas. E aí, quando em 77, eu vou pra Itália, eu entro num país que é democrático, e que Bolonha, por exemplo, você andava por uma calçada e você tinha partido Comunista, partido Fascista, eles eram vizinhos, a sede, então isso, isso eu nunca tinha vivido, eu não sabia o que era isso. E aí, o Og também não. E a gente se encantou, meu pai que tinha um amigo de infância que morava em Perúgia e a gente tinha um presente pra esse amigo, tinha que levar. Então nós fomos até Perúgia e quando encontramos, quando chegamos em Perúgia e conhecemos esse senhor que era o professor da universidade, a gente se encantou e descobrimos que Perúgia tinha uma universidade para estrangeiros e aí a gente resolveu ficar, e estudar italiano, entender melhor aquele país. Então eu comecei a me movimentar, aquilo que era férias, virou... ”vou ficar”. A gente conseguiu uma bolsa de estudos, nessa universidade, então a gente só tinha que pagar o curso de uma pessoa, na época a gente vivia com 300 dólares por mês, na Europa.

 

P/1 – Que era a bolsa do Og?

 

R – Eu tinha a bolsa, a gente tinha um cálculo que a gente precisava de 300 dólares por mês, cada um, e com isso a gente vivia. Então a gente vivia com o dinheiro que os pais mandavam, e a gente teve essa bolsa, então só tinha que pagar uma, um curso. E a universidade para estrangeiros era um prédio, da época medieval. Perúgia é uma cidade medieval, que está no topo, é uma cidade murada, linda. A faculdade era assim, as cadeiras eram bancadas, assim, era maravilhoso. Então nós ficamos, alugamos um quarto na casa de uma família, e lá ficamos. E lá ficamos, e estávamos três meses, quando nasceu o filho da Sônia, o meu sobrinho, o Tomás, eu lembro da gente estar no quarto e o dono da casa chamava: “Senhorina, senhorina, telefono, telefono.” E eram as notícias do Brasil. Isso era 78, maio de 78 nasceu o Tomás, filho da Sônia, minha cunhada. E era uma época que o processo de redemocratização estava acontecendo, então, a família do Og, o irmão do Og, o Beto, também era um quadro político do partidão, enfim, comprometido também com as questões políticas do país, e ele pressionava muito o Og pra voltar para o Brasil: “O que você está fazendo aí? Está tudo acontecendo aqui” E o Og balançou um pouco, no meio do ano, ele balançou. Ah, sim, aí o Og já tinha desistido de fazer.

 

P/1 – Porque ele ia pra França, né?

 

R – Ele ainda não tinha desistido, a gente tinha, isso ainda era no primeiro semestre, a gente, da Itália fomos para a Iugoslávia, que ainda existia, era um mês que a gente ia viajar. Depois acabou o curso, nós fizemos o Primeiro de Maio na Itália, de 78, foi muito importante, assim, foi quase, a Brigada Rossa, a Brigada Vermelha, era o auge da Brigada Vermelha, para nós ser Comunista era o máximo de esquerda. Para os italianos ser Comunista já era Conservador. As novas gerações eram, estavam na Brigada Vermelha, que eram mais radicais. A gente achava o máximo estar com Comunistas e a nossa geração de filhos, já não era Comunista, já eram simpatizantes de coisas mais radicais. E assim a gente fez essa experiência na Itália, foi muito forte pra gente. Aí fizemos um mês de viagem, e fomos pra Iugoslávia, atravessamos o mar e chegamos em Dubrovnik, que hoje não existe mais, mas que era uma cidade murada linda, e lá ficamos, fomos pra um asilo e fizemos uma temporada. Daí o nosso objetivo era ir pra Tchecoslováquia, e a gente tinha que então, a gente ia subindo, passamos pela Áustria, por Viena, e em Viena a gente foi bater na casa de uma tia do Matinas, prima do Matinas, a Suzuki, que estudava com a gente no Equipe, e que tinha dado o contato. Nessa época a gente viajava muito assim, não sei se hoje a moçada viaja assim, mas era assim: a tia, o primo, os contatos, a gente chegava aos lugares e ligava com a maior cara de pau. A gente procurou a prima do Matinas que trabalhava na Embaixada do Brasil, e pedimos pra dormir na casa dela, e pusemos roupas pra lavar na lavanderia e a gente não falava a língua, e a dona da lavanderia falou um monte de coisa, que a gente não entendeu e quando o Og foi buscar as roupas, que eram as nossas únicas roupas, a gente era mochileiro, viajava, éramos bem ripongas, assim, tínhamos poucas coisas e tudo o que a gente tinha a gente pôs pra lavar. E aí a lavanderia entrou de férias, por uma semana, era isso que ela dizia. Então a gente tinha que tomar uma decisão: se a gente comprava roupa nova ou se a gente esperava uma semana (risos). E a gente optou por esperar por uma semana, só que a Áustria é um país muito caro, então ficar em Viena era inviável, e a gente foi para Salzburgo, que é uma cidade maravilhosa, a cidade de Mozart, onde tinha um festival de música, era julho. Então a gente foi pra Salzburgo, arrumamos um hotelzinho mais barato, mas tivemos que bancar uma semana de hotel e com isso foi todo o nosso dinheiro, então a gente não foi mais pra Tchecoslováquia (risos). E o passo seguinte era o Og ir para Paris estudar francês e eu ia pra Londres estudar inglês. Eu fui pra Londres pra casa de uma família brasileira, onde, em troca de hospedagem eu cuidava do filho dessa família, era um casal conhecido, a Regina Amélia que era Arquiteta e o Luís, Psicanalista, e o Og foi para Paris onde ele não conhecia ninguém. E agosto, em Paris, como muitas cidades da Europa...

 

P/1 – Mas vocês mantinham o contato, né?

 

R – Sim. Agosto é verão, é férias, e as pessoas saem da cidade, então Paris, as cidades ficam muito vazias. E o Og detestou Paris (risos), detestou os parisienses e acabou vindo pra Londres. Então eu fiquei, acho que fiquei um mês, assim, daí ele veio pra Londres. Então eu saí dessa família onde eu morava, a gente alugou um apartamento e aí passamos mais cinco meses em Londres, estudando inglês, vivendo. Foi uma época muito boa, e foi evidentemente supertransformador, quando a gente voltou para o Brasil. Eu saí de casa, fomos morar juntos aqui na Vila Beatriz, fiquei grávida, comecei a trabalhar... foi tudo aqui nessa época.

 

P/1 – Logo que você voltou, foi muito rápido?

 

R – Eu voltei, eu fiz 21 anos, no dia em que eu voltei, em 15 de dezembro de 78 eu fiz 21 anos, e voltamos nesse dia para o Brasil. E o Og já morava fora da casa da mãe, e foi quando ele voltou e falou: “Pra onde eu vou?” Então ele um pouco ficou na casa da mãe, ficava na minha casa. E daí, logo uma amiga estava saindo de uma casa que ela morava na Vila Beatriz, e ofereceu, então o Og já pegou e eu não estava ainda com essa coisa de sair da casa dos meus pais. Apesar de ter ficado um ano fora, eu não tinha me colocado nessa situação de vou sair da casa dos meus pais. Mas, na sequência, a gente foi morar, enfim, eu fui morar, fomos morar juntos...

 

P/1 – E foi tranquilo pra sua família?

 

R – Foi. Foi. O fato de não casar, de morar junto. Eu realmente venho de uma família muito inteligente, muito aberta e muito flexível. E aí a gente foi morar junto e engravidei, assim, em abril. E aí então assim, essa volta...

 

P/1 – E a faculdade? Você voltou?

 

R – Essa volta foi super radical, porque a Faculdade no ano de 78 acabei trancando, então em 79 eu retomei, só que retomei estudando à noite, trabalhando de dia, morando fora, morando já numa casa nossa e grávida, né, logo engravidei, então, foi um ano de grandes transformações.

 

P/1 – E esse trabalho, o que era o trabalho?

 

R – Meu primeiro trabalho foi na Editora Brasiliense. Quando a gente voltou da Europa a gente voltou cheio de livros interessantes, de movimentos feministas, de mulheres, de política, de literatura, e aí a gente trouxe um monte de livros, a gente conhecia o Caio Graco e a gente levou pra ele esses livros, e perguntou se não queria que a gente traduzisse. Então a gente pegou algumas traduções pra fazer e ao mesmo tempo eu consegui um trabalho lá. Eu fazia, foi curto esse período, porque, enfim, porque pintou outro trabalho na sequência. Eu fazia as quartas capas nos livros, aquele textinho que ia nas quartas capas. Eu escrevia isso. Lá trabalhava o Caio Túlio, trabalhava o Luiz Schwartzmann, nessa época. E aí a gente foi... eu trabalhei lá acho que uns três meses. E aí eu estudava, quem estava na época pra estágio a gente se inscrevia pro CIEE [Centro de Integração Escola-Empresa) e aí pintou um estágio na Fundap, e eu fui fazer uma entrevista na Fundap [Fundação do Desenvolvimento Administrativo], fui selecionada e a minha chefe era a Lizete Prata que estava grávida também, a gente de repente se deu conta, na entrevista, que ela estava gravidíssima, ela... a gente tem diferença de três meses de gravidez. Então foi... era um estágio, com tempo determinado e deu tudo certo. Porque terminou o estágio e o Ícaro nasceu, foi em novembro, era fim de ano e eu não perdi o semestre na faculdade, e depois e daí veio férias, então foi bem, foi bem...

 

P/1 – E só um parênteses, como é que foi esse negócio do Ícaro, porque você era jovenzinha quando ele nasceu, e a experiência pra cuidar do bebê, você estava morando com a sua mãe?

 

R – Não, não, eu já estava morando, já tinha mudado pra Vila Beatriz.

 

P/1 – Como é que você se virou? (risos)

 

R – Bom, eu queria muito ser mãe, né, eu na verdade em Londres eu tinha engravidado, já, uma vez, quer dizer, engravidei em Londres e em Londres se você quiser fazer aborto, você pode e eu quis fazer o aborto, não tinha o menor sentido ter um filho naquele momento, na verdade depois fazia todo o sentido, porque eu... Fiz o aborto, no começo de dezembro, voltei para o Brasil, tive uma infecção pós-aborto, porque o processo de aborto em Londres é muito simples, você... simples, assim, você vai num Posto de Saúde, você diz que está grávida e você não quer, eles checam bastante isso pra você ter certeza, enfim, por que você não quer, e aí te encaminham pra cirurgia. E aí você faz isso numa clínica que você entra de manhã, dá um anestesia só local, não tem anestesia peridural, só local, faz a curetagem, fica num quarto até tantas horas e depois você vai embora, e eles não dão antibiótico, não dão nada. E aí, quando eu voltei para o Brasil, sei lá, acho que vinte dias depois dessa cirurgia, eu tive uma infecção vaginal, enfim, e aí fui medicada e na sequência engravidei, em fevereiro eu engravidei. Então, aí ficou aquela coisa (risos). Mas aí tava na cara que eu queria ser mãe, tava na cara, e realmente eu queria ser mãe. E a maternidade é uma coisa assim que toda a bibliografia e toda a temática de gênero que eu me associava era a vida reprodutiva, tudo tinha a ver com isso. Então eu fiz essa gravidez muito legal, acompanhei ela com... eu fui atrás de um Médico, de um Ginecologista que trabalhava com o método Leboyer, era o que na época significava o parto natural, com... sem essas luzes fortes, com banheira na sala de parto, com condições mais naturais de um parto. Fizemos toda essa preparação, mas na verdade acabou sendo uma cesária (risos) de emergência e uma coisa assim que eu nunca entendi, porque eu era jovem, tinha tudo para ter um parto normal, mas tive um problema de placenta e tive que fazer uma cesária. Então assim, a gravidez foi super boa, muito amorosa, com muito desejo, a gente, nesse ano, em julho, o meu avô morreu, o Zoltan, meu último avô, que viveu, acho que até os 86, na verdade não era o meu último avô não, a Vava ainda existiu depois quando o Ícaro nasceu, e ele morava numa casa na Rua Bocaina, na Rua onde eu nasci, e como ele estava já velho, meus pais trouxeram ele pra morar numa casa em frente, e ele morreu em julho. Então essa casa se liberou e o Og e eu nos mudamos pra essa casa. Porque a casinha que a gente morava lá na Vila era uma casinha de estudante, assim, era um quarto, cozinha, banheiro e sala, num tinha, não era uma casa para um bebê. Então a gente foi pra essa casa, e foi ótimo, a gente assim, o Ícaro nasceu. A gente foi pais que não queríamos que ninguém interferisse na nossa, nessa relação com o bebê, a gente cuidava dele diretamente, tivemos um Pediatra muito bom, o Leonardo Postemak, que também na época éramos os únicos que fazia, tinha uma presença na casa, ele vinha, ensinava tudo o que tinha que fazer. Foi muito legal. O parto não foi bom, que era uma coisa que eu queria tanto, que foi uma cesária, passei mal, depois tive a enxaqueca da Raqui que foi muito ruim, eu não conseguia sair do hospital e depois tive uma depressãozinha pós-parto, e depois fui uma mãe muito feliz. Durante dois anos eu não trabalhei, minha mãe me ajudava, o Og trabalhava e eu pude cuidar do Ícaro diretamente e estudar e terminar o meu curso. Eu estudava a noite e ficava com ele de dia. E aí também tinha muita atividade comunitária de rua, inventei festas de rua, tinha muita criança na rua, então fechava rua, fazer festa, foi uma coisa assim também que eu fiz nessa época.

 

P/1 – Foi bem casa mesmo, né?

 

R – Bem casa.

 

P/1 – Aí depois você conseguiu então, você depois de dois anos do Ícaro, você retomou, foi trabalhar.

 

R – Trabalhar. E coincidiu que eu me formei, o Ícaro fez dois anos, aí eu pus o Ícaro numa creche, na verdade a Sônia, minha cunhada, e eu e mais outras pessoas idealizamos uma escola que chamava Chácara do Bambu, que era uma chácara onde a Sônia morava e eu com essa minha balança de Socióloga, de Educação e Criança, eu estava toda pendente, assim, mas não era, meu negócio não era educação e escola, meu negócio era política e educação, eu sempre tive no cenário da influência e não do fazer. Então o meu negócio nunca seria uma escola mesmo. Eu entrei no projeto, mas depois saí e a Sônia continuou, e o Ícaro, então, foi pra Chácara do Bambu. Só que a Chácara do Bambu era na Francisco Morato número 5500, e a gente morava nas Perdizes. Então Ícaro pra passar um dia numa chácara gostosa, ele ficava uma hora e meia no trânsito, na ida, uma hora e meia no trânsito na volta. Então isso durou um ano, eu acho, depois já no ano seguinte, depois a gente pôs numa escola perto de casa, e eu aprendi que a melhor escola é aquela que você pode ir a pé, de preferência (risos). Então o Ícaro foi, ahh não, antes de ir para a Chácara do Bambu, o Ícaro foi pro Viramundo, que era um berçário, em Pinheiros e que a Ely Harasawa, que hoje está aqui na direção do Museu, era uma das sócias e ela era supervisora da turma do Ícaro, então era com ela que eu fazia entrevista sobre o meu filho que estudava lá. Então Ícaro foi pro, foi pro Viramundo, era o berçário que a minha turma punha os filhos e eu comecei a trabalhar, era um ano de política que foi muito interessante, porque foi ano de eleição, eu participava da campanha da Ida Maria, que era candidata a Vereadora, foi uma das que estava nas fotos...

 

P/1 – Que partido?

 

R – PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro].

 

P/1 – PMDB.

 

R – Na época era Arena [Aliança Renovadora Nacional] e PMDB, e o PT [Partido dos Trabalhadores] ainda não.

 

P/1 – Arena e PMDB.

 

R – O PT disputava a eleição.

 

P/1 – Então foi em 82, que teve a Reforma Partidária, então era PMDB, a Arena era PDS [Partido Democrático Social].

 

R – E o PT acho que já...

 

P/1 – Sim, em 81

 

R – Isso eu estava no PMDB e eu estava com uma trinca de mulheres feministas, que era a Ruth, era a Sílvia Pimentel candidata a Deputada Federal, era a Ruth Escobar, Deputada Estadual e a Ida Maria Vereadora. Então eu comecei, quando eu me formei , no dia que eu me formei, eu acho, eu fui no lançamento de um livro acho que da Ruth Escobar e eu tinha um amigo, chamado Ícaro, que é quem inspirou o nome do nosso filho, Ícaro. Ele estava trabalhando com a Ruth e ele disse que a Ruth estava precisando de uma pessoa pra trabalhar numa favela onde ela tinha um centro de cultura, Centro Cultural, e se eu não tinha interesse. E eu tinha acabado de me formar, eu disse que eu tinha interesse. Então o meu primeiro trabalho foi numa favela em Campo Limpo, nesse Centro Cultural, que era um barracão que ela tinha, e lá eu comecei a fazer um trabalho com mulheres e meninas, essa minha coisa de gênero superforte. Comecei a fazer um trabalho, enfim, eu ia à favela, trabalhava...

 

P/1 – Mas qual foi a sua impressão de chegar à favela? O que era ali pra você? (risos) Foi tranquilo?

 

R – Não era uma coisa distante, eu já tinha tido, durante a formação universitária fiz vários trabalhos de pesquisa nessas regiões, trabalho de campo, eu dei aula em Mobral [Movimento Brasileiro de Alfabetização], porque o Mobral tinha alguns núcleos que trabalhavam com orientação de Paulo Freire, então eu trabalhei, dei aula...

 

P/1 – Voluntária?

 

R – Trabalhei como voluntária na Zona Sul de São Paulo, enfim, eu era uma pessoa atuante, então, quando eu fui pra favela...

 

P/1 – Foi tranquilo?

 

R – É. Agora os meninos não gostavam porque eu estava fazendo um trabalho com as meninas e com as mulheres, então, enquanto eu ficava dentro do barracão com este grupo, eles ficavam jogando pedra (risos), então eles atrapalhavam bastante. Aí o trabalho de base nessa época era crochê, conversas, e eu levei o tema da vida reprodutiva com as mulheres. Era este o tema que se conversava. Enfim, isso durou algum tempo, não foi muito, nessa época a Ruth Escobar estava organizando o Festival da Mulher nas Artes, e eu então fiquei encarregada de mobilizar grupo de mulheres artísticas na região metropolitana. Então, além do trabalho na favela, eu pegava Santo André, São Caetano, tinha que trazer expressões artísticas desses grupos dessa região. E aí o ano foi se avançando eu conheci a Ida Maria, que eu não conhecia, e me encantei por ela. Ela é uma mulher de base, trabalhava nos bairros da Zona Sul, supercomprometida. E aí eu migrei para a campanha da Ida, fui coordenar a campanha dela e cuidar dessa trinca aí, a Ida acabou se elegendo suplente, Mário Covas foi Prefeito. Ainda esse ano, o Governador era o Montoro, foi realmente um ano, foi um período muito rico na política da democracia. Montoro, o grupo dele assim, muito inteligente, que fez um Governo muito competente, e nessa época a gente ainda não elegia Prefeito, os Prefeitos das Capitais eram indicados pelos Governadores. Então Montoro indicaria o Prefeito de São Paulo. E meu pai foi um dos nomes, eram dois nomes que estavam na lista do Governador: era o meu pai, e o Mário Covas. Se a escolha fosse uma escolha técnica, seria o Jorge o candidato, se fosse uma escolha política era o Covas. E quem prevaleceu foi o Covas, foi a escolha política. E aí o meu pai foi ser Secretário de Planejamento, do Governo Mário Covas. E aí o Covas quando assumiu então, a Prefeitura, ele puxa alguns vereadores para a Secretaria, e com isso os suplentes, porque a Ida foi suplente, ela era a quinta suplente, então os suplentes puderam assumir o mandato. Então ela assumiu o mandato durante o Governo Covas. E foi de novo um período, de novo era um período muito importante, foi a época das Diretas Já. Foi a época, enfim, tive...

 

P/1 – E você continuou assessorando a Ida, então?

 

R – Aí eu estava na Câmara, como Assessora Parlamentar, eu cuidava dos assuntos relacionados ao Parlamento, ao que ela ia tratar, a ordem do dia, o que ela ia votar no plenário. Mas eu fiz uma outra coisa que foi muito importante para mim, que foi, eu secretariei uma comissão de inquéritos sobre a rede de creches de São Paulo. O movimento de luta por creche na cidade de São Paulo foi o movimento político da segunda parte da década de 70. De 75 pra... quando a gente começa poder fazer alguma movimentação política, o movimento de mulheres por uma luta de creches foi um dos movimentos importantes. E esse movimento ele juntava o movimento de mulheres populares com o movimento feminista, que era uma bandeira comum dos dois grupos. Grupos esses de origem bastante diferentes: as mulheres feministas eram mulheres burguesas, um pouco mais velhas, e o movimento popular, era o movimento mais jovem e popular, das periferias da cidade. O movimento de mulheres feministas, ele estava organizado numa coisa que chamava Frente de Mulheres Feministas. Estava a Ruth Cardoso, a Ruth Escobar, a Carmem Barroso, Sílvia Pimentel, Fúlvia Rosemberg, Maria Malta Campos, eram mulheres que pela intelectualidade e um pouco pela, pelos contatos do mundo, formularam um movimento no Brasil. E por outro lado você tinha um movimento de mulheres populares, e a questão da creche era uma reivindicação que unia os dois grupos. E aí a gente organizou essa comissão de inquérito, que era o seguinte, no Governo do PDS, Governo da Arena, do Reinaldo de Barros, ele construiu o que a gente chamava à Toque de Caixa, a rede de creches de São Paulo, que chegou ao número de trezentas creches. Que é um número inédito, acho que é a única rede que existe no Brasil, nesse porte. Mas o que aconteceu foi, que numa tentativa de ganhar a eleição, ele fez esse, ele atendeu o movimento popular, que construiu essa rede. Só que essa rede construída do jeito que foi, tinha vários problemas. Então, a comissão de inquérito ela foi pra estudar essa situação, estes problemas, e pra mim foi uma grande oportunidade porque eu tinha por um lado, entendeu, tinha a Maria Rosenberg e a Maria Malta Campos, que eram pensadoras sobre a educação para criança pequena, e estavam na Fundação Carlos Chagas. Elas nos orientavam sobre o roteiro dessa comissão de inquérito. E por outro, eu tinha todos os contatos do movimento, e a gente fez várias sessões na Câmara, isso tudo era gravado e isso depois virou projeto de lei, mas mais do que isso virou um encarte no Diário Oficial, com toda a história de todos esses temas. E a gente organizou por natureza de discussão. Então tinha a questão do espaço físico, tinha a questão do projeto pedagógico, a questão da saúde, da nutrição, a questão de alimentação, higiene. Eu aprendi muito e com isso eu consegui fazer a ponte minha, pessoal, entre a questão de gênero e infância. E uma coisa que é uma característica minha, que é ser uma pessoa de comunicação, de pôr as pessoas em contato, de articular coisas. Então essa foi uma grande oportunidade. Depois então isso foi durante esse mandato. Essa fase na Câmara, os meus grandes amigos estavam, eu tinha grandes amigos que estavam no PT. A gente era um gabinete de mulheres, praticamente, e a gente tinha muitos amigos que eram dos gabinetes do PT. E uma das coisas que eu admirava muito, que eu morria de inveja no PT na época, é que eles semanalmente ou diariamente eles tinham uma reunião de bancada, onde eles tiravam posição da bancada. E no PMDB isso era impossível porque o PMDB era uma frente, e nessa frente tinha coisas diferentes, tinha um subgrupo que era o que a gente se identificava, estava o Marcos Mendonça, o Lauro Ferraz, o Edson Cardoso, que era um grupo mais ideológico, um compromisso com a democracia. Mas tinha também um grupo superfisiológico, advogado de porta de cadeia, enfim... E no grupo do PMDB então não dava para ter posição de bancada, e eu achava muito bacana ter posição de bancada. Isso era partido pra mim. Então, eu, o Pedro Dallari era Chefe de Gabinete da Bancada, a Presidente era a Luiza Erundina, na época, vários que hoje são Deputados, eram Assessores, naquela época. Irede Cardoso era uma Vereadora importante, o José Eduardo, que hoje é Deputado Federal, trabalhava no Gabinete da Irede, Irede Cardoso. E aí tinha também essa coisa de mulheres Vereadoras, que a questão de gênero sempre está passando. Então a gente tentou umas ações em conjunto, e aí acho que a Ida era a única da bancada do PMDB. Então era com as mulheres, no PT estava a Erundina, a Irede, não sei se tinha mais alguém, enfim, foi uma época muito boa, muito boa. Isso foi década de 80. E no PMDB, que estava no poder, na época do PMDB foi Governo do Estado, foi Governo do Município, a gente foi formulando algumas coisas como o Conselho do Direito da Mulher. Então criou-se o Primeiro Conselho Estadual da Condição Feminina, foi criado pelo grupo de mulheres do PMDB, onde estava a Iara Prado, a Beth Melo, a Eva Blaya, a Ida Maria, a Alda Marco Antônio. Acho que a Alda foi a primeira Presidente do Conselho, e depois nós criamos o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, onde a Ruth Escobar foi a primeira Presidente. E aí, essa experiência que a gente teve dessa condição de criar crédito sobre creche, nos deu muitas aprendizagens sobre o que é uma política pública para a criança. E uma das coisas importantes que aparecia, que a política pública para a criança ela era, o que acontecia, é que ela era toda fragmentada. Uns cuidavam da saúde, outros da assistência social, outros da educação, era como se você desmembrasse a criança em pedaços, e aí, o que a gente entendeu, é que não, né, que a criança é um ser e precisa de uma política integrada.

 

(INTERVALO)

 

P/1 – Menina, que maravilha, você é um documento vivo (risos).

 

R – Não vou nem falar da Gol de Letra, desse jeito. (risos).

 

P/1 – Não, a gente vai falar, a gente vai falar (risos). A gente vai chegar agora, então. Então você faz só uma sequência dessa sua trajetória pra gente chegar então na...

 

R – Vou dar uma enxugada. Isso tudo é o que me fez chegar até aqui.

 

P/1 – É porque a gente tem uma ideia de quem é essa pessoa. É curioso, se a gente pudesse... é que não dá pra falar pra vocês. Mas se tivesse uma ideia de todas as pessoas passaram aqui, todas elas tem uma... como é que chegaram na Gol. É interessante as pessoas que chegaram até a Gol. Você tem um perfil, tem outro, mas se somar, sempre tem essa coisa social por trás, uma atuação, uma passagem. É muito interessante  .

 

R – Ninguém está nessas coisas...

 

P/1 – Como os caminhos cruzam, acho legal... Bom, você chegou a falar do trabalho então em relação à criança, a forma com que você, como vocês viam a criança.

 

R – E aí (tosse), a gente terminou o mandato da Ida, como Vereadora, e o PMDB perdeu o Governo de São Paulo, que foi quando o Fernando Henrique sentou na cadeira do Prefeito, antes da hora, e o Jânio levou, e a gente perdeu o espaço de Prefeitura, e a Ida então foi para Brasília, para o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e eu fui junto com ela, e a gente cuidou de um grupo que era comissão de creche do conselho. E o nosso papel era, tudo que a gente tinha aprendido nessa Comissão de São Paulo, tudo o que a gente tinha acumulado, era levar pro Nacional. Isso foi em 85... 85, 86. Aí a Ida ia pra Brasília e eu ficava em São Paulo. A gente tinha uma sala, porque o Conselho Nacional de Direitos da Mulher era ligado ao Ministério da Justiça, e a gente tinha uma sala em São Paulo, no Ministério, que a gente conseguiu aqui, eu ficava aqui e ela lá. E nessa época a gente fez um trabalho, que também foi na sequência dessa CPI, dessa Comissão de Inquérito, que foi escrever, a ideia foi construir um manual sobre creche, na perspectiva do direito da criança, que essa foi uma mudança de perspectiva. A gente até então falava de creche como direito da mulher, dos filhos dos trabalhadores. E aí, nesse momento histórico, o movimento de mulheres começa a formular creche como um direito da criança à educação. E é um novo, uma nova perspectiva muito importante e que posiciona o equipamento, como equipamento de educação. Então se ele é educação, o que tem que ter dentro dele? E aí, algumas das ideólogas, uma das pensadoras, além da Fúlvia, a Ida Maria, que eu já mencionei, a gente conheceu a Sílvia Carvalho, a Sílvia e a... tinha mais uma menina, que juntas criaram uma ONG chamada Crecheplan, e a Sílvia, foi a primeira Fellow Ashoka, o primeiro lote da Ashoka foi a Sílvia Carvalho. O dinheiro dela como Fellow da Ashoka, ela investe no Crecheplan. E o Crecheplan, aí então eu contratei as duas, Elenice, como chamava... a Sílvia e como chamava a outra... já vou lembrar. E a gente, no espaço do Conselho, a gente viabilizou recursos, e fizemos esta série que chamava Creche Urgente, e eram manuais, cujo conteúdo elas formulavam e a parte de ilustração foi o Miguel Paiva que fez. E a gente fez, cada um era um tema, era Creche como espaço de Educação, Profissional, espaço de Saúde, Marco Legal, e a gente publicou essa série. Então eu estava em São Paulo, coordenava esse projeto em São Paulo e a Ida estava em Brasília. E aí a Ida, acho que se candidatou de novo a Deputada e saiu de Brasília e eu fiquei na posição. Eu fiquei na coordenação. E isso já estávamos andando, já estávamos na fase da pré-constituição, pré-constituinte, que a Assembleia Geral Constituinte foi em 88, e eu então estava nesse período pré. E nesse período pré, a gente então se organiza, nacionalmente, então eu acabo conhecendo pessoas no MEC, no Ministério da Educação, pessoas que pensavam em Creche como espaço de educação, então eu, um pouco, vou migrando da questão de gênero para a educação da criança pequena. E aí a gente participa de todo esse processo de formulação do artigo 227 da Constituinte e de outros artigos, como creche como direito dos filhos dos trabalhadores, um capítulo dos direitos dos trabalhadores e na educação, nos capítulos da educação. E a ideia Constituinte, em 88, isso vira Artigo, e depois vira o Estatuto da Criança e do Adolescente. E em 88, é... deixa eu pensar, Constituinte é em 88?

 

P/1 – 88

 

R – Eu fiquei grávida em 87 do Kim, e... Então, em 85 eu tive uma gravidez que eu perdi, de cinco meses, e depois em 87 eu engravidei do Kim, que nasceu em fevereiro de 88. E, 87 eu estava super atuante no Conselho, nessa... de todo esse trabalho de discussão no Brasil, sobre as formulações para a Constituição, o Conselho Nacional tinha uma participação, né, ele estava em Brasília, que estava do lado da... do Ministério da Justiça do lado do Congresso, era lobby, advocacy trabalhando com parlamentares o tempo todo, e eu grávida. Então eu viajei muito naquele ano, uma das coisas que a gente fez foi, o último evento, em dezembro de 87, foi que a gente pegou uma parceria com o BNDES, a Rebeca Raposo estava na área, estava lá nessa Área Social do BNDES, a gente criou uma regra no banco, que todo o empréstimo a fundo perdido que o banco desse, ele condicionava a construção de creches nos locais de trabalho, pra onde aquele empréstimo ia. Isso foi em dezembro de 87, e naquele dia, todo o esforço do Rio de Janeiro, calor, avião, eu quando voltei pra São Paulo, eu comecei a ter dilatação e tive que entrar em repouso, aí fiquei dezembro e janeiro de repouso, até primeiro de fevereiro quando o Kim nasceu. Então no ano de 88 que foi o ano, o ano, né, eu estava de licença maternidade todo o primeiro semestre, mas os manuaizinhos de creche estavam todos publicados, só faltou um, que era do Marco Legal, que a pesquisa foi toda feita, mas ele não publicou, e aí no segundo semestre, enfim, eu continuei indo à Brasília, mas menos, aí eu tinha que mudar um pouco de vida, e aí, mas isso ainda em 88, permaneci no trabalho no conselho, em 89 também, mas fiquei muito em São Paulo, e aí, no final de 89, no segundo semestre de 89, no Conselho Nacional, tinha a Nair. A Nair Goulart cuidava da Comissão do Conselho de Trabalho, Direito do Trabalho da Mulher. E ela me veio com a notícia de que tem uns empresários do setor de brinquedos, que estão querendo investir em crianças, nos direitos da criança, então vamos lá falar com eles sobre os direitos da creche, no local de trabalho, que era o nosso tema. E aí fomos atrás deles pra falar disso, mas eles nos deram apenas um cartãozinho pra eles... pra gente não encher o saco (risos): “Vai nos procurar lá.” E eu fui, fui insistente, porque eu sou uma pessoa insistente. E aí eu fui, só que com quem que eu fui falar? Fui falar com uma menina que estava trabalhando numa Diretoria, dentro da Abrinq [Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos], tinha uma Diretoria de Direitos da Criança, e quem trabalhava nela era uma menina jornalista. Então eu fui, levando pra ela todos os contatos que eu tinha, meu caderninho de contatos, pra ela conhecer, mandar convite para as pessoas. E eles tinham um prêmio, que eles tinham criado que era o Prêmio Criança, que acontecia em novembro, por ocasião do 20 de novembro, que é o aniversário de declaração dos direitos da criança. E aí em 20 de novembro, provavelmente de 89, eu fui ao evento, que foi na Fiesp, seguido de um almoço e nessa ocasião eu almocei na mesma mesa com a Ana Maria (pausa), Ana Maria Sekis, que era muito amiga do Emerson Kapaz, que era um dos idealizadores, que era um dos Diretores da Abrinq, e ele ao se despedir dela, eu estava junto, e ele disse que, nós vamos criar uma Fundação, e eu disse pra ele: “Eu quero estar nela.” E pronto. E dois dias depois eu estou no Conselho da Mulher e liga o telefone, o Emerson Kapaz perguntando se era verdade, se eu queria estar nela. Eu disse que sim (risos). Aí eu fui conversar com ele e com Odete, eles estavam de fato amadurecendo um trabalho que eles fizeram durante o ano com a Diretoria da Abrinq e uma Fundação. E aí eu acertei de trabalhar com eles, em novembro, não, em dezembro de 89, comecei em janeiro de 90, na Fundação Abrinq. Eu fui a primeira funcionária da Fundação, meu capital era o meu conhecimento sobre a área da infância, de mulher e de políticas públicas, e o deles era uma enorme vontade de fazer acontecer. Então foi um excelente encontro, aí começou uma década de grandes realizações que foi a década de 90, que aí é uma década onde a Fundação Abrinq foi referência nesse modo de trabalhar. A Fundação o que ela teve de inovador, é que eram empresários do setor de brinquedos que criavam uma Fundação que não era benemerente, que não era caritativa, mas era uma Fundação articuladora, interessada nas políticas públicas, interessada em articular recursos, interessada em promover a temática da infância na positividade, em derrubar os cursos negativos, mobilizar os cursos positivos, trazer gente pra isso. O Conselho consultivo da Fundação tinha 130 pessoas, eram pessoas como Gilberto Dimenstein, Psicanalista Melanie Farkas, Pediatra Leonardo Posternak, Sociedade Brasileira de Pediatria, publicitários, e o que eles tinham, eles eram do setor da indústria de brinquedos, eles eram o setor meio, que tinham Agência de Publicidade de um lado, fornecedores de outro, lojistas, tinha uma potência, e tinham uma liderança, que era o Oded, que era um cara de muita visão.

 

P/1 – E o seu trabalho lá?

 

R – Eu fui operadora. Eu era fazer o sonho virar realidade. Então, eu além de fazer o sonho virar realidade, eu tinha o conhecimento do território, eu tinha o conhecimento do terreno da área da infância. Conhecia muita gente da política pública, conhecia muita gente de liderança popular, por conta desse trabalho anterior que eu tinha feito. Conhecia o cenário em Brasília, conhecia o cenário em São Paulo, conhecia os quadros políticos da democracia, e eles vinham com a vivência deles do setor privado. Então, por exemplo, quando a gente lançou a Fundação, a gente lançou, eles já tinham tido essa iniciativa de bancar o Gilberto Dimenstein pra fazer aquela investigação sobre o extermínio de meninos de rua. São Paulo, Rio, Recife e não sei se era Fortaleza também, e isso se transformou num livro “Guerra dos Meninos”. Então o Gilberto se licenciou da Folha, por uns meses, para fazer essa reportagem, e quem bancou isso foram eles, não era nem a Fundação Abrinq, era a Abrinq mesmo. E o lançamento da Fundação, público, foi através do lançamento do livro do Gilberto. Foi um dos meus primeiros trabalhos...

 

P/1 – Quando que foi o lançamento?

 

R – A Fundação nasce oficialmente em fevereiro, 13 de fevereiro de 90, mas no livro de instituição. O livro do Gilberto foi, acho que em abril, em abril de 90, foi no MIS [Museu da Imagem e do Som]. Foi o primeiro, a primeira atividade foi organizar o lançamento do livro do Gilberto. Na sequência teve desdobramentos do livro como a Sandra Werneck comprou direitos autorais pra fazer um filme. Enfim, aí começamos a Fundação Abrinq, com uma grande escola, e era isso, era uma força de vontade de fazer com muitos recursos mobilizados e eu era a única executiva, era a única pessoa trabalhando na Fundação. Depois de uns meses eu pude contratar uma Auxiliar, foi a Sara Cristófano, depois eu pude contratar uma Secretária, não sei se imediatamente não foi a Sandra, mas depois foi a Sandra, depois a Sara foi embora, foi pra Lisboa, eu contratei a Ely, pra ser... a Ely Harasawa, para ser a Técnica, a segunda pessoa, era eu, a Secretária e a Ely. A gente ocupava uma sala no escritório da Abrinq, daí a gente quebrou uma parede e incorporou um quarto de empregada, pegamos o banheiro que era o nosso acervo, e a gente, o Conselho Executivo, essa potência de pessoas, pôs elas pra trabalhar. Então o Estatuto da Criança e do Adolescente foi aprovado em novembro, e aí a gente deu o desafio para o Conselho identificar um tema pra gente fazer uma campanha publicitária. Daí o primeiro, dividimos eles em temas, e um tema que melhor se formulou foi O Direito à Vida. Então o Estatuto está começando agora, então vamos defender o primeiro direito básico, que é o direito à vida, e fizemos então a... esse grupo, criou as bases conceituais pra gente fazer um briefing de uma campanha publicitária, que se chamou “Pré-Natal é Vida, não empurre essa responsabilidade com a barriga”. Foi uma campanha feita pela CBN [Central Brasileira de Notícias]... CBN...  CBN... uma Agência de Publicidade, aqui na Rebouças, que era o William Castelo Branco, o ... Ai como é que chama, depois foi até Diretor da Fundação. E foi uma experiência maravilhosa, porque o que a Fundação tinha, era uma forte, ele era forte, a Fundação era um forte canal mobilizador. O nosso papel era levar o tema da criança pra ambientes onde ele não era pensado. Como uma Agência de Publicidade que pensava a criança como consumidora, a gente estava levando a criança como um ser de direito. E fazer a equipe de Criação entender isso, depois a equipe de Produção convencer Pediatra, Ginecologistas, porque a gente queria gravar barrigas de mulheres grávidas nuas, a barriga só. Nua. Então você tinha que ter um Obstetra, topando, falando com suas pacientes, que por sua vez iam falar com seus maridos, se autorizavam ou não, se autorizavam a gente a filmar, porque o filme era uma barriga que crescia e empurrava esse slogan, que era “Pré-Natal é Vida, não empurre essa responsabilidade com a barriga”, e depois a gente entrava com isso. Então o nosso trabalho era articular recursos e mobilizar pessoas. E foi isso que a gente foi fazendo, foi fazendo, foi fazendo com muito sucesso, e depois, enfim, depois a Fundação foi se profissionalizando cada vez mais, e a gente foi tendo projetos. Mas foi nessa evolução que em 90, na década de 90, a Fundação foi se colocando como uma referência, e muita gente queria fazer parte dela, e muitas ideias vieram para a Fundação, as pessoas viam na Fundação a possibilidade de realizar as suas ideias. Então muitos projetos nasceram de pessoas que vinham para a Fundação querendo fazer. Um deles foi o “Adote um Sorriso”, já depois de muitos anos de vida da Fundação, que nasceu de um Dentista, Fábio Bibancos, que teve a ideia de criar esse trabalho, já no âmbito do “Nossas Crianças”, que era um projeto que já estava bem sucedido na Fundação, e o Fábio articula dentistas para doação de horas em consultório de atendimento de crianças, que a gente viabilizava via rede do “Nossas Crianças”, e aí numa ocasião que a gente está filmando um documentário sobre “Eu Adotei um Sorriso”, eu conheci o Raí, que era cunhado da Miloka, que era quem estava filmando esse filme pro Fábio Bibancos. E o Raí estava lá, gravou um testemunhão dele, e enquanto a gente esperava, comecei, a gente começou a conversar e ele disse timidamente, como ele é, assim, da experiência dele de estar morando na França, de perceber as diferenças do sistema educacional francês e brasileiro, e ficava encantado de ver as crianças indo ao museu, sair da escola vai ao museu, grupo de alunos visitando Louvre, aprendendo as coisas. E ele começa a ter ideia de que ele queria adotar um grupo de crianças, que quando ele voltasse para o Brasil, queria adotar um grupo de crianças, e investir nelas desde pequenininha até grande. E adotar em educação, dar a elas a possibilidade de ter uma educação. Bom, e aí eu disse pra ele que, quando ele voltasse se precisasse de ajuda, que nos procurasse que a gente teria o prazer em ajudá-lo, mas disse também que o Oded Grajew, que era a nossa liderança, estava num ano sabático, naquele momento, e que estava na França, estaria na França, e que eles realmente poderiam se encontrar, e dei a ele o meu cartão. Isso eu acho que foi num final de ano, novembro, dezembro, provavelmente foi porque eu, ele estava no Brasil.

 

P/1 – Devia ser 87? Por aí...

 

R – Eu não sei as datas, mas você vai saber, me cobrar elas. Aí, quando é fevereiro do ano seguinte, eu, a gente estava em reunião, na sala de reunião, e veio a Secretária, toca o telefone, e a Secretária me passa a ligação e diz assim: “É o Raí de Paris, querendo falar com você.” E ela, já na gozação, achando que era trote, ele já tinha até ligado e ela tinha desligado, achando que era trote, e aí, falo com ele, ele diz: “Sabe o que é, aquilo que a gente conversou, eu queria tocar aquela ideia adiante, você não pode vir até aqui? Você não quer vir até aqui?” Era época de Carnaval, eu acho. “Você não quer vir até aqui, pra gente conversar?” Eu disse, nem respondi, você quer ir até aqui, claro que eu quero, imagine se eu não quero ir pra Paris conversar com o Raí (risos). Não era bacana? Era charmoso, pelo menos (risos), mas eu me contive e disse: “Vamos ver como que a gente pode trabalhar à distância.” E a Tina, a mulher do Raí, vinha ao Brasil, com frequência. Então na vinda da Tina, na primeira vinda da Tina eu a recebi na Fundação pra ver como é que a gente podia estruturar esse trabalho, e basicamente o que a gente entendeu é que a gente tinha que, assim, eles tinham uma vontade, mas eles não tinham a menor ideia de como transformar essa vontade em realidade, não tinha a menor ideia se isso era possível ou não. E a gente que trabalhava na área, sabia que aquele sonho dele, não era um sonho que se realizava daquela maneira. A equipe já tinha envolvido na discussão da equipe da Fundação e o que a gente percebia era que a gente precisava conduzi-los num contato com a realidade pra que eles pudessem amadurecer o seu sonho.

E aí o que aconteceu foi que a Fundação, ele não tinha equipe pra esse tipo de trabalho, todas as organizações são estruturadas por equipes de projetos. Então, o que a gente fez, foi usar a equipe de nossas crianças, que tinham contato com todas as ONGs, que faziam aquilo que o Raí gostaria de fazer e contratamos a Sônia London, que estava, na época, trabalhando tipo como Consultora freelancer, ela era de formação adequada para o que a gente estava precisando, o Luís que coordenava as nossas crianças na Fundação, o Luís Vieira da Rocha que conhecia a Sônia em trabalhos anteriores. Eu parei, eu esqueci de falar da época da criação da Secretaria do Menor, porque o Luís foi da Secretaria do Menor, acho que a Sônia também foi, e eu fui uma das idealizadoras da Secretaria do Menor, que era aquela experiência que eu estava contando do amadurecimento de que a política pública, a criança era toda dividida; então a gente idealizou uma Secretaria que integrasse a criança, que foi a Secretaria do Menor. E ela não era uma Secretaria fim, ela seria uma Secretaria meio, que articularia as demais Secretarias pra integrar a criança. E a Secretária acabou sendo a Alda Marco Antônio, porque politicamente era uma pessoa que já no partido, PMDB, estava fazendo uma carreira. E eu, me juntei a essa equipe, no desenho da área de creche, e a Maria de Souza Lima também, mas isso, como foi a época em que eu estava grávida do Kim, eu não pude assumir nenhuma posição na Secretaria, então, eu trabalhei ajudando a estruturar e eu permaneci no Conselho, porque eu estava parindo, depois em Licença Maternidade, e isso era conveniente pra mim. Enfim, aí o Luís, a Sônia, todos eles fizeram essa passagem pela Secretaria de Menor, pelas creches da Secretaria do Menor, por um equipamento onde a gente concretizou a visão de creche como um espaço de educação, com projeto arquitetônico próprio. A Mayumi Souza Lima fez todo o memorial descritivo do que deveria ser e o Ruy Ohtake fez a construção das creches em São Paulo, são aquelas creches que tem os muros abertos e que estão sempre em vias de grande circulação. Enfim, a Secretaria do Menor foi um grande laboratório de política pública integrada pra criança e de lá saíram muitos quadros, que vieram depois trabalhar comigo depois na Fundação Abrinq, o Luís era um deles, acho que a Cristina Meirelles também, tinha passado por política de creche na área pública; e a Ely então, a Ely não, a Sônia, na minha memória muito presente, ela era a minha cunhada, então eu sabia muito bem onde ela estava e o que ela fazia, mas além de ser minha cunhada ela era uma profissional do ramo, e foi isso que evidentemente predominou, e o Luís que coordenaria um pouco esse caminho de por onde a trajetória da Tina e do Raí deveria passar e que organizações visitar, conheci a Sônia então a gente pôs a Sônia como consultora externa nossa para acompanhar o processo desta família. Então o que a gente fez foi, pôr uma equipe na Fundação com conhecimento profundo sobre infância e educação, a Sônia sistematizando todo o processo, e o espaço da Fundação, sob a minha coordenação contendo esse processo. Então, a gente planejou o que a Tina e a Rose, que era amiga dela, que estava, eram as pessoas que estavam com disponibilidade no Brasil, pra começar essa viagem do sonho em realidade. E aí elas voltavam, ela voltava para Paris, levava as coisas para o Raí, falava com o Leonardo e com a Bia, a mulher do Leonardo, e assim foram compartilhando dessas aprendizagens que eles foram fazendo. E, na sequência, em paralelo, a gente foi trabalhando a finalidade jurídica, puxamos o Advogado do escritório do Rubens Naves, advogado que era Conselheiro nosso na Fundação, pra ajudar na constituição legal, e a Tina foi andando e a gente foi orientando e assessorando. Então, o nosso papel, e o meu, especialmente, foi de acolhê-los, de dar muita contenção e segurança de conhecimento do que eles estavam querendo fazer, de dar caminhos, e de ajudá-los nas decisões, foi muito isso que fiz, e aí eu fiz com a equipe da Fundação e eu diretamente ligada a eles. Evidentemente que eles são pessoas muito bacanas, muito abertas, muito afetuosas, assim, você acaba participando da vida familiar, das histórias, deles todos, aí tinha a volta do Raí pro Brasil, todas as questões familiares, enfim, na época e ao mesmo tempo todas as decisões, então, o Estatuto, a escolha do espaço, quer dizer, como viabilizar esse espaço, a Tina foi no Governo falar com a Dona Lila Covas, pra ver a questão de espaço, o que poderia nos ceder, e aí a visita aos espaços, para ver qual que era o melhor espaço, qual era a melhor escola.

 

P/1 – Você chegou a acompanhar também esse processo.

 

R – Eu tenho uma lembrança de estar voltando com a Tina, estava no carro voltando com a Tina de algum espaço que é esse de agora. Eu não tenho a lembrança de eu ver o espaço antes, mas eu lembro de eu voltando, então, acho que sim (risos). A questão do comodato, se isso era bolsa, não era bolsa, se era seguro, não era seguro. Eu não tive nenhuma atuação no momento que eles escolhem e instalam-se ali. Isso daí, aí o que aconteceu que eu fui até toda essa parte de pré, a definição do nome, da logomarca.

 

P/1 – Você lembra como é que foi essa escolha do nome?

 

R – Eles deram praquele menino...

 

P/1 – O Pitti.

 

R – E aí um dia eles vieram com um nome e com as ilustrações disso, o que eu achava...

 

P/1 – Você pegou todo esse início?

 

R – É. O que eu achava, a escolha. Lembro que era até num fim do ano, aniversário de uma das filhas, que a gente olhou isso junto, e tal, e a Sônia deu prosseguimento, então, acho que assim, isso foi uma coisa, esse acho que é um modelo super bacana de você assim, quando você pega um parceiro assim que tem um puta de um sonho bacana, precisa fazer esse sonho virar realidade, você tem um profissional que pode acompanhar e que entende do assunto depois pra poder ajudar a implantar, isso eu acho que foi muito importante e a Sônia ocupou esse espaço. E eu ficava, depois quando o trabalho foi acontecendo, eu ficava mais no back, discussões mais institucionais, de ajudar pessoas mais institucionais, assim, Conselho...

 

P/1 – E tinha uma coisa que antes a ideia era fazer uma creche mesmo, inicialmente, não tinha isso?

 

R – A ideia inicial, a ideia inicial, porque a ideia inicial, o sonho era assim: ”Eu quero adotar um grupo de crianças e acompanhá-los a vida toda.” E aí, essa era a ideia. Depois, já que isto não é possível numa cidade como São Paulo, você tem muita migração, as pessoas não estão, as famílias não estão firmes, fixas num lugar onde você possa fazer isso que eles queriam. Então aí começou a discussão então por creche. Então vamos começar pelos pequenininhos. Então aí veio a ideia da creche. Mas acho que a ideia da creche nunca se, não se realizou, porque a ideia original mesmo não era os pequenininhos, era a educação das crianças. E aí acho que depois que se constitui eles vão pro Cenpec [Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária], que eu acho que faz um desenvolvimento do referencial pedagógico, do que deveria ser isso. Aí daí pra frente a gente não acompanhou mais.

 

P/1 – Assim, mesmo à distância você chegou a pegar a, sei lá, a inauguração, você chegou a acompanhar?

 

R – Sim, sempre acompanhando, sempre acompanhando, agora, como era longe, o equipamento era longe, então eu acompanhava via escritório na cidade, que eles tinham um escritório na cidade, na Monte Alegre, então lá eu frequentei o espaço, lá longe eu frequentei bem menos vezes. Fui lá algumas vezes pra, por outras ocasiões. Mas o daí pra frente... ah, fui pra Niterói também, conheci o espaço em Niterói uma vez também. Com o Leonardo, por exemplo, eu quase não tive contato, mas conheci depois ele, teve umas outras ocasiões que eu acabei conhecendo, mas não... depois que o filho foi parido aí era um... Agora, o que é muito bonito do Raí, é que ele tem um reconhecimento, em geral, as pessoas, quando parem, o momento de parir uma ideia, elas, a gente guarda um grande carinho porque a gente ajudou a parir. Nós mulheres quando parimos os nossos filhos guardamos um grande carinho sobre o Obstetra que fez aquilo com a gente, né (risos). E na minha experiência de vida, às vezes que eu fiz esse trabalho, e que o projeto foi bem sucedido, as pessoas ficam com uma lembrança de muita gratidão, por eu ter ajudado naquele momento. E eu vejo que o Raí mantém essa, esse carinho, essa gratidão. E até me chamou depois para ajudar a criar os Atletas pela Cidadania, então depois, mais recentemente agora, na minha experiência de Consultoria, um dos trabalhos que eu fiz foi com ele pra criar uma nova organização, que é uma organização de advocacy.

 

P/1 – Isso não tem nada a ver com a Gol.

 

R – Não, mas é uma iniciativa dele, de novo, uma iniciativa de articular, de trazer pessoas pra conceber um projeto político, de uma natureza completamente diferente, de que é uma coisa que, quando ele apareceu na vida da Fundação Abrinq, a gente dizia muito pra ele, que a gente tinha que pôr a imagem dele a favor da causa que ele estava trabalhando, e ele nos dizia que precisava de um tempo de aprendizagem para poder fazer isso. Então este tempo foi a vivência dele de criar a Gol de Letra, e passado então, a Gol nasceu em 96?

 

P/1 – 98, mas em 99 foi inaugurada.

 

R – 99, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005... Eu acho que em 2005 que foi quando eu comecei essa minha trajetória de Consultora, eu acho que no segundo semestre em 2005, que ele me liga: “E aí, onde você está, o que você está fazendo. Então, eu agora estou naquele ponto que vocês tanto queriam que é de influir, de pôr, de me colocar à disposição de causas. Você me ajuda a organizar isso?” Então, aí a gente começou o trabalho de desenhar o que seria a organização Atletas pela Cidadania, que é uma organização de Advocacias, é uma organização com foco em Advocacias de causas sociais relevantes. Então eu fiz esse processo com ele, de trazer os atletas que ele: Ana Mozart, Ana Paula, bem, vários deles e da gente conceber essa organização que existe e que está aí. Então eu fiz esse trabalho depois de novo com ele, nos Atletas, que foi até o ponto de contratar uma pessoa pra sentar lá que é a Daniela, que está fazendo um belíssimo trabalho, ela, a Fabiana e o Raí, que estão tocando isso pra adiante.

 

P/1 – Deixa eu só voltar uma coisinha.

 

R – Diga.

 

P/1 – Está acabando, tá, Ana (risos).

 

R – (risos) A história já acabou mesmo (risos).

 

P/1 – Está acabando... nossa! É que tem muita coisa (risos). Em relação a Gol, assim, você imaginava, porque agora a gente está fazendo dez anos e esse trabalho tem, aliás, ele está sendo feito em função disso, dos dez anos, da comemoração dos dez anos da Gol. Você imaginava que isso ia chegar? Dez anos? Você tinha uma ideia disso?

 

R – A gente quando começa um trabalho de estruturação, a gente nunca sabe onde é que ele vai chegar, mas como profissional, a gente sempre faz a coisa bem feita, a gente procura fazer a coisa bem feita, bem feita. Então eu acho que, eu acho assim, a gente deu a este projeto raízes sólidas, e em geral, a gente acredita, a gente espera que aquilo tenha uma consequência relevante e social e política para o país. Então...

 

P/1 – Reformulando assim, como que é pra você ver a Gol de Letra? Essa que você esteve lá, ajudando... ela fazendo dez anos.

 

R – Bom, claro que é uma satisfação, mas pra mim já é uma satisfação com uma certa distância, porque o que foi feito depois, é mérito total de quem fez, é mérito de quem ralou no projeto pedagógico; é mérito de quem ralou pra fazer, pra criar coerência, quem ralou no dia a dia com os meninos, com as dificuldades de relacionamento, as dificuldades de relacionamento educacional, as dificuldades de relacionamento de time, de captação de recursos. Então o que eu acho, é assim, como todo mundo que se mete nessa história, é realmente o mérito de quem está fazendo a história acontecer, que é realmente uma história, quem entra em investimento social e em educação é um super desafio, é um desafio muito trabalhoso, difícil e que alcança resultados realmente pelo seu esforço, pela sua energia. Então, realmente o time que construiu o projeto pedagógico e passou por toda essa construção, é o time que tem o grande mérito, aqui na Gol de Letra, com certeza. Nós que estivemos lá no começo, demos tudo para ter uma boa raiz, agora o sucesso do projeto ele tem a ver com quem pegou ele na mão pra tocar. Porque projeto pedagógico é de uma complexidade fenomenal.

 

P/1 – Mesmo distante, o que você... você poderia arriscar algumas palavras sobre o futuro da Gol de Letra?

 

R – Então, eu acho que o futuro tem a ver com todo esse acúmulo que está, assim, sendo feito. Eu acho que como nesta área não tem futuro sem ralação (risos), quer dizer, o futuro tem a ver com o que cada um que está lá e que estará, continuará dedicando pra esse projeto. Eu acho que ele está consolidado, mas ele tem que se viabilizar anualmente, e acho que ele tem uma excelente liderança, seja o Raí, seja o sócio, esse que está no dia a dia. Então eu acho que ele tem grandes chances de prosseguir, agora ele só prossegue se tiver o esforço e o comprometimento, o comprometimento tem, é que não dá para parar. O projeto de atendimento você não pode parar nunca, então talvez o desejado seja que em algum momento o poder público absorvesse mais os custos dessa, desse equipamento, pra que a família que instituiu ela, possa ir complementando, mas não ser a mantenedora. Claro, hoje não é a única mantenedora, é uma articulação de esforços, mas a universalização, assim, se a gente quiser enxergar como prazo, à longo prazo eu acho que é o público, é o Estado, é o Estado absorvendo custos de educação mesmo, que o projeto como esse tem, e deixar com que família e os apoiadores possam participar não na sustentação do oxigênio diário de uma organização como essa, mas de tudo o que ele puder ser de novo, de inovador, de coisas novas que ele possa trazer para a comunidade, com a comunidade.

 

(TROCA DE FITA)

 

P/1 – Já fechando, assim, o que você diria, assim, em relação às suas atividades, a sua experiência profissional, assim, se houve um diferencial em trabalhar com a Gol de Letra.

 

R – Então, o diferencial, é que foi a primeira experiência, quer dizer, eu tive uma experiência de estruturar a Fundação Abrinq, e na experiência com a Gol de Letra, foi a primeira experiência, ou a segunda experiência de pegar, um parceiro que tinha um sonho, e construir e desenvolver esse sonho com ele. Diferente da Fundação Abrinq, eu fui parte integrante da construção do projeto. No caso aqui, foi, o diferencial foi, com, primeiro me relacionar com o Raí e com a Tina, que eram pessoas que eu não conhecia, e que pessoas como o Raí, de uma extrema popularidade, e que pra mim esta popularidade era um detalhe, porque, pra mim o que era mais importante era a pessoa dele, com os desejos e valores pessoais dele. Então, foi uma experiência muito rica, pessoalmente, que ser amiga assim de um astro, uma pessoa que sai na rua e todo mundo quer beijar e que fica histérica (risos), e de repente poder participar de uma intimidade, de um sonho e poder transformar isso em uma realidade. Então, assim, esse diferencial de poder estar próxima de uma pessoa de uma extrema popularidade, mas o que nos unia era, pela timidez, pelo discreto e pelo, por valores profundos dos que o Raí tem: de pessoa, de ser humano, muito sensível, muito tímido, que o Raí tem um lado, assim, de uma timidez e de uma humildade, muito interessante, assim, e que permite se abrir para novos conhecimentos. Então eu acho que isso foi uma experiência muito emocionante mesmo, de ter. E, com a Tina também, que eu fiquei muito brava quando eles disseram que iam se separar (risos). Eu falei: “Não é possível, vocês estão parindo um filho juntos, que era a Fundação Gol de Letra.” Naquele momento eles diziam: “Nós vamos nos separar.” Fiquei muito brava com eles, achava que aquilo era uma coisa muito impossível de acontecer (risos). Mas aconteceu, eles estão bem, felizes, cada um tocando a sua vida e claro, que eu não tinha nada a ver com isso, mas, era um casal que me procurou, era um casal que tinha um sonho de casal. Então, no meu referencial não cabia uma ruptura desse casal. Mas foi uma... o diferencial foi poder ter contato com pessoas que eu não conhecia e estabelecer uma intimidade, uma cumplicidade muito salutar, muito bacana.

 

P/1 – Bom, olhando a sua trajetória, o que você diria, assim, de lições que você tirou para a sua vida?

 

R – Dessa experiência aqui?

 

P/1 – Toda a sua vida, assim.

 

R – Ah, a aprendizagem, enfim, essa trajetória, o que tem me valido dela, o que eu tenho me valido com lições aprendidas, é que, uma coisa meio babaca, mas que é assim, quando eu olho para mim, e me pergunto qual é a minha missão aqui na terra, eu entendo que a minha missão é ajudar as pessoas a se realizarem, ajudar as pessoas a ajudar pessoas. Que é uma formulação que a gente pode dizer que é babaca, mas na verdade na verdade, é a formulação da Fundação Kellogg, fundada pelo Mister Kellogg, que era criar uma fundação que ajudasse pessoas a ajudar pessoas. Então eu acho que, no meu histórico de vida, na minha cultura familiar, o que ficou pra mim, como missão na terra, é essa, de que eu estou aqui pra ajudar as pessoas ajudarem pessoas. E é isso que eu tenho feito nesses trabalhos que, no Brasil hoje se chamam Terceiro Setor, Investimento Social (risos), é ter ajudado pessoas organizarem melhor seus anseios, seus desejos e seus recursos pra que ela possam ajudar mais pessoas.

 

P/1 – E sua atividade hoje?

 

R – Hoje eu tenho uma Consultoria que chama Cara de Brasil Consultores Associados, em que eu e o meu marido Og, juntos estamos ajudando pessoas a ajudar pessoas.

 

P/1 – Ana Maria, tem alguma coisa, assim, que eu não tenha perguntado, estimulado a falar, que você gostaria de deixar registrado?

 

R – Ah... não, eu acho que só tem uma coisa que eu também acho que tem muito a ver, que é o fato, acho que é assim, eu venho de uma família de origem que é judia, migrante expulsa do seu lugar de origem e que fez uma opção de se enraizar nessa cultura brasileira, e de criar uma família brasileira, que sou eu e o meu irmão, que fizemos essa trajetória de cultura absolutamente brasileira, comprometida com esse país, e que meu irmão, por exemplo, ele acabou indo por um caminho de ajuda direta às pessoas, pela Fisioterapia, pela Ginástica, pelo bem estar do indivíduo, e eu fui por uma área mais política de uma esfera de impacto político. Agora, eu acho que isso tudo tem a ver com uma origem, tem a ver com essa origem de uma cultura que fazer parte de comunidade, de ajudar aos outros, de ser solidário, parte essencial. Eu acho que isso foi transmitido pelos meus pais para nós e a gente está exercitando isso. Acho que isso é um DNA que eu acho, não sei se ele é exclusivo, mas que eu acho que é um diferencial dessa cultura que a gente carrega.

 

P/1 – O que você acha da ideia desse projeto? Da história de resgatar os dez anos do Gol de Letra, através da história de vida das pessoas.

 

R – Eu acho super importante, porque na verdade todas as Instituições são feitas por indivíduos, por pessoas, e essa conjunção de histórias é que fazem os projetos. Então eu acho isso uma, sou super fã do Projeto Museu da Pessoa, porque eu acho que é isso mesmo, por trás de todos os projetos estão as pessoas. E as pessoas são as suas histórias, são as suas heranças culturais, heranças sociais. Então eu acho que construir a história de dez anos da Gol de Letra, por via das histórias das pessoas, desde que todas as pessoas que fazem essas histórias, como as crianças, os adolescentes que estão lá também, né, se cruzem com as nossas histórias, isto faz um grande sentido. Acho que é a melhor forma de contar mesmo.

 

P/1 – E o que você achou de dar esse depoimento, você que já colheu histórias de vida (risos), hoje está dando esse depoimento.

 

R – Bom, (risos) como você vê eu gosto de falar (risos), e eu acho que o relato das histórias é um meio muito bom da gente fazer reflexões, da gente resgatar detalhes que passaram, e da gente perceber que a gente hoje é a soma de tudo o que a gente fez em outras fases da nossa vida. Então, eu acho que o processo do relato de história de vida ele nos dá essa sensação de que as fases pelas quais a gente passa são fases que são cumulativas das fases anteriores.

 

P/1 – É isso. Obrigada.

 

R – De nada.

 

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