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A arte de vender poesia

História de: Leandro de Jesus (Berimba)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2015

Sinopse

Em seu depoimento, Leandro de Jesus, o Berimba de Jesus, fala sobre sua infância, onde fez muitas vezes o trajeto Bahia-São Paulo. Fala de suas brincadeiras de infância, quando começou a se interessar pela literatura, sobre como a capoeira e a pichação fizeram parte de sua vida. Também explica a origem de seu apelido, “Berimba”, como se aproximou do movimento literário marginal e de suas viagens para vender suas produções. Conta episódios de suas viagens ao Rio de Janeiro e Minas Gerais para vender livretos de poesia, juntamente com Renato Limão. Comenta como ajudou a fundar as edições Maloqueiristas e como foi publicar seus livros, além de falar sobre os saraus que organiza e da vida de empresário do ramo cultural.

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História completa

Meu nome é Leandro de Jesus. Nasci em 1981, no dia 2 de janeiro em São Paulo, na maternidade São Paulo. O nome do meu pai eu não vou lembrar não, porque ele não participou da minha criação. O nome da minha mãe é Júlia Rosa de Jesus, ela é doméstica e baiana e quanto a pai, eu acho que eu tive várias referências, teve meu tio Garino que foi quem me criou a partir dos onze meses de idade e até mesmo meu padrasto, que foi com quem minha mãe teve mais dois filhos com ele. Minha mãe, ela veio para São Paulo com 22 anos de idade. Ela foi criada na roça e pelo o que me parece, veio para São Paulo porque queriam casar ela na Bahia com um cara de 60 anos de idade. E, a tia Maria, que já trabalhava aqui, vendo a situação, descolou o dinheiro da passagem para ela e ela veio. Quando eu tinha uns cinco anos de idade, seis anos de idade, eu voltei para São Paulo para vir morar com minha mãe e meu padrasto. Com nove anos, eu voltei novamente para a Bahia e fiquei até os 13 anos de idade. A gente caçava, bolinha de gude, tinha também aquela brincadeira das três marias.

Eu comecei a escrever uns poeminhas, e na escola, nenhuma professora de português ali incentivou a dar continuidade aos meus poemas. Foi com uns 14, 15 anos que eu comecei a ler livros. Uma das primeiras coisas que eu comecei a ler foi uma coleção que o Estadão lançou com os clássicos, tinha Fernando Pessoa, o Cortiço. Eles me compraram toda a coleção e, eu li toda a coleção.

A gente formou meio que um grupo e uma parte dessa galera morava lá no João XXIII e começou um ocupação. Antes dessa ocupação, o Jota também escrevia poesia, o irmão dele, rapper, o Ari e o Jota também escrevia poesia e o Jota começou a me apresentar essa galera modernista, Oswald de Andrade, Mario de Andrade. Ele me apresentou o dadaísmo. Então o Jota, ele abriu uma percepção pra mim para poesia. Veio essa onda de eu pichar Berimba, que colocar um M também para tirar o Beriba, deixar Berimba e, pichava BRB, pichei bastante. Nessa época, eu estudava no Godofredo Furtado, no colégio aqui na Rua João Moura. Nessa época de 98 para 99 eu ganhava bem, porque comecei a trabalhar cedo e tinha largado um emprego de entregar lanche e estava na Arquiprom, uma empresa de arquitetura promocional. Eu trabalhava como office-boy.

Foi também quando a gente começou uma ocupação no João XXIII, que era a Pista de Skate Galpão de 98 para 99. Era um sacolão que tinha lá no João XXIII e esse sacolão foi abandonado e virou meio que lixão, para você ter ideia, quando a gente ocupou o espaço, a gente tirou um cavalo morto de dentro do lugar. Nesse espaço, a gente fez uma pista de skate, construímos uma biblioteca, construímos uma cozinha e fizemos uma horta comunitária ao redor. Eu ia mais nos finais de semana com atividades porque eu trabalhava e foi que estreitou mais o laço também com a poesia, de escrever mais. A minha primeira participação em publicação foi assim, a gente fez um calhamaço de folhas A4, xerocou na USP e demos o titulo de “O Fósforo”. E, o Allan da Rosa, por exemplo, eu acredito até que uma das primeiras publicações dele vem daí também porque foi aí que houve o nosso encontro também, que a gente começou a se trombar. Era o JPR, o Allan, tinha o Marciano Ventura do Circo Contínuo. A galera mais alternativa mesmo começou a se trombar nesse rolê. E a Pista Skate Galpão foi também uma peça fundamental na vida, que é como se trabalha um coletivo, que começa o lance da articulação cultural, que a gente se reunia para fomentar a biblioteca. Como eu morava aqui em Pinheiros nessa época, eu passei em vários sebos e a gente conseguiu uns dez mil livros para a biblioteca. Eu pirei muito em Mário de Sá-Carneiro, gostava muito de Mario de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, Fernando Pessoa são as três figuras que eu gostava muito.

Trabalhando para Arquiprom, essa coisa de estudar em colégio público, eu falei: “Pô, terminei o terceiro colegial e vou fazer o quê?”, estava tendo inscrição para curso técnico no Senac na época, eu falei: “Vou fazer um curso técnico”, fui fazer um curso técnico de telecomunicações. Eu devia ter escolhido de moda, sabe, porque não sei por que eu fiz esse curso, saca? Acho que mais para: “Mãe, fiz um curso”. Porque eu fiz um ano e meio de curso, eu ligo o meu computador, eu sei criar um rede que eu aprendi no curso, mas pra que eu fui perder esse tempo? Devia ter feito outra coisa. Eu fiz esse curso de telecomunicações e eu falei: “Não vou sair da Arquiprom para fazer instalação de TV a cabo, vou continuar aqui”, mesmo porque eu ganhava bem, com 19 anos de idade, 20 anos de idade ganhando mil reais por mês, mil e pouco. E, depois desse curso, eu fui fazer um curso de teatro na Funarte, terminando esse curso me interessei em trabalhar atuando. Como eu trabalhava de office-boy na Paulista, peguei esse jornal Metrô News e vi um anúncio: “Precisa-se de atores e não atores para um longa metragem”, eu falei: “Vou fazer o teste”, eu passei na porra do teste. Pedi as contas na Arquiprom. Terminando o filme, ganhei um grana legal, foi a época em que o meu padrasto tinha morrido, a gente tinha mudado para Taboão da Serra e estava construindo a casa. Eu acho que eu ganhei uns 15 mil reais ao todo assim, juntando todas as coisas. Dei cinco mil para minha mãe. Comecei a frequentar bastante a Praça Benedito Calixto de sábado e num desses sábados, eu encontrei o Sérgio Luiz Dias, um poeta que vem da geração 80 aqui de São Paulo, ele estava com uns banners, vários banners na rua para quem passasse, se a pessoa parasse para ler o poema, ele chegava com o livro dele, era essa a estratégia dele e eu fui um desses caras que parou para ler o poema. E li o poema dele e comprei o livro dele “O Estranho”. Antes, eu tinha meio que participado desses concursos de poesia, sabe, “Pague dez, 15 reais e concorra”, eu participei desse concurso e ganhei uma menção honrosa e os caras falaram: “Você também vai sair na Antologia, só que você precisa pagar 50 reais para sair na Antologia”, eu falei: “Não vou pagar porra nenhuma, não vou sair nisso não”, e com o Sérgio, vendo o Sérgio, eu descobri que eu podia publicar de forma independente, e na sequência, veio o Renato Limão também.

O Renato e eu fomos para o Rio vender poesia. A gente chegou no Rio de Janeiro, não tinha ninguém vendendo poesia da nossa geração, então a gente destruiu o Rio de Janeiro, a gente ganhava tipo 100, 150 contos por dia, cada um, trabalhando cinco horas, seis horas por dia. Então, foram seis meses que a gente debulhou o Rio de Janeiro, debulhou, vendemos muita poesia. E a gente conhece o Namã, o Peter que são as figuras mais velhas que a gente conhece ali do Rio de Janeiro que vendem poesia. À noite era em bar, na Lapa, Santa Tereza, de vez em quando, a gente ia para o Catete, mas não é Catete, Baixo Leblon, como que é? Baixo Gávea, ali que tinham vários bares, era sempre no rolê, pós cinema. Tinha um livretinho que eu vendia na época que chamava: “A Sexualidade posta no Freezer”. A gente ficava em frente à Biblioteca Nacional, tinham vários rolês que a gente fazia ali no Rio de Janeiro. Depois fomos para Juiz de Fora. Em Juiz de Fora, a gente ficou num hotelzinho, lembro que foi a única bica que a gente levou na vida, inclusive estando na rua.  A gente fez um ponto muito legal ali, tinha o Espaço Unibanco, no calçadão. Também era a mesma coisa, era o mesmo nível do Rio de Janeiro, de fazer 100 contos por dia casa um. Em Juiz de Fora foi a primeira vez que a gente começou usar apoio em gráfica para rodar os livretos, tinha um gráfico lá que ele deu uma super força pra gente, a gente rodou uns dois mil livretos com ele. Ele fez a diagramação, rodou e saiu baratinho, ele dividiu em várias vezes. E Juiz de Fora a gente acabou saindo porque a gente arrumou treta, a gente começou a desandar naturalmente na bebida e começamos a apostar na bilharca. Belo Horizonte foi fantástico, foi foda assim, em termos de mulher, de grana. Foi 2002 isso, faz tempo! Já faz mais de dez anos. A gente ficava no Paço das Artes. A gente ficava ali no ponto mesmo e o legal foi que tinha gente que voltava: “Minha vizinha comprou um livreto seu, quero comprar um também”.  Aí ficamos sem dinheiro. Me mandaram de volta para São Paulo e  eu volto a morar com a minha mãe, no Taboão. O Renato chega um mês depois e a gente decide viajar de novo juntos, a gente vai para o Rio de novo, fica nesse bate-volta: Rio de Janeiro. Aí eu começo a namorar, foi a minha primeira namorada, a Flávia. A gente fala que Nelson Rodrigues sentiria inveja da nossa história, porque ela mais jovem do que eu, ela tinha 18, 19 anos, eu já tinha uns 20 e poucos e a gente tretava muito cara.

Quando eu comecei a publicar, foi tendo como exemplo o Sérgio Luiz Dias e o próprio Renato Limão, e tendo essa noção de que eu não precisava de uma editora para publicar. Aí montamos a Edições Maloqueiristas que foi também consequência de estar sempre publicando de forma alternativa, independente e estar usando o selo Poesia Maloqueirista nesses livretinhos todos assim, todos os meus livretos, basicamente, tem Poesia Maloqueirista. Em 2004, a gente começa a fazer a revista “Não Funciona”, que foi uma revista que a gente montou um grupo de estudo, o Teatro Oficina tinha aquela ideia de fazer a universidade antropofágica. Então a gente meio que montou a primeira turma dessa pseudo-universidade, que foi uma galera que estava ocupando o Teatro Arena, uma galera que fazia parte do Teatro Oficina e tipo nós, da Poesia Maloqueirista que era basicamente, eu e o Renato.  A gente publicou pelo menos 700 autores, assim, do Brasil e do mundo, foram 20 números.

O primeiro VAI que a gente ganhou, a gente se preocupou em fazer uma edição mensal da revista. Então, a gente saía catando gato e cachorro, chamando algumas pessoas que a gente queria publicar mesmo, o Glauco Mattoso contribuiu muito, era um dos caras que sempre mandava textos, ou então quando ele não podia mandar textos, ele falava: “Entra no site e pode escolher um ou dois textos e colocar na revista”, a gente publicou uma galera massa, publicamos Ademir Assunção, Chacal, Marcelo Montenegro. A distribuição era feita no mano a mano, intervenção, vendendo na rua.

Em 2008, a gente ganhou o VAI de novo, só que a gente se propôs a fazer menos edições da revista e lançar três livros: um meu, um do Caco e um do Pedro e, para lançar esses três livros, a gente fez uma parceria com a Annablume e a gente conseguiu lançar os livros, mil exemplares de casa, assim, em 2008 que a gente lançou esses livros.  O meu primeiro livro chama “Encarna”. Ele me deu mais respeito, as pessoas me respeitaram mais quando o livro surgiu, as pessoas veem com outro ar assim.

Acabou o meu livro “Preciso publicar mais, preciso fazer outro livro”, tanto que o “Multívio”, eu não gosto tanto dele que eu acho que eu fiz ele correndo, mesmo, às pressas, e não me dediquei à obra. Vem essa ideia: “Vamos fazer mais livro”, e vem essa questão de não poder voltar para o livreto, no meu caso, e de saber que na rua o livreto não dá tanta grana quanto um livro. As Edições Maloqueiristas, elas servem como base, ela não ganha dinheiro em si, com os autores e vira algo interdependente. São 26 livros. Tem Paloma Kliss, tem Aline Binns, Laura Castro, Guilherme Salgado, Geovani Doratiotto, Thiago Cervan, Caco, Renato Limão, Pedro Tostes, Zinho Trindade, Marcelo Nietzche, Heyk Pimenta, é gente pra caramba! E assim, foi no processo de 2011 até 2015, né?

Não dá para citar a ascensão desses saraus sem citar essa publicação que o Ferrez articulou nos anos 2000, se eu não me engano com a “Caros Amigos”, que reunia vários autores. Eu acho que isso deu um bom gás para esses autores que estavam começando, ou senão ainda estavam tentando se inserir, deu um puta gás para eles.

A gente nunca quis fazer sarau, a Poesia Maloqueirista, a gente foi meio que obrigado a ter um produto cultural. A gente falou: “Como vai ser isso? Como vai ser um sarau? Sarau Maloqueirista? Não, não vamos usar a palavra ‘sarau’”, veio a ideia de usar a palavra récita. E a gente começou a fazer a Récita Maloqueirista no Parlapatões, uma vez por mês, aí eu lembro que as primeiras eram só nós, nós três, nós quatro ali, tipo: “Olha, calma gente, vai falar todo mundo”, e eram só três ou quatro falantes, porque não tinha mais ninguém para falar e aos poucos, foi se transformando nesse produto cultural para a Poesia Maloqueirista.

Quando a minha filha nasceu, eu vendia livros para caralho na rua, só que depois, veio a preocupação de faltar em casa. E aí eu falei: “Vou arrumar um emprego”, arrumei um emprego de vendedor na Livraria da Vila, ganhava 900 por mês para vender dois, três paus por dia, falei: “Não é para mim”, aí eu fui trabalhar na noite como hostess. Aí fui trabalhar no Zé Presidente, de hostess eu fui para programador, de programador eu fui ser bar, fui ser gerente, fui fazer a porra toda e rolou a oportunidade de pegar um boteco e eu peguei esse boteco que não deu certo, depois fui morar numa casa ali na Cardeal, em cima do Ó do Borogodó e começou a faltar grana para pagar o aluguel. Aí, a gente começou a  fazer festa dentro da casa para se bancar, bancar a casa, mesmo com os outros trampos e aí, criamos a Nossa Casa. Esse ano faz três anos que a gente tem a Nossa Casa, esse ano faz dois anos que a gente está nesse espaço novo e a Nossa Casa acho que foi como a Poesia Maloqueirista surgiu na minha vida, nunca havia pensado em ser proprietário de um espaço cultural e tudo mais. Acho que ultimamente, eu tenho sido mais proprietário de um espaço cultural do que poeta, mas eu acho que a poesia me deu base para querer ter um espaço que dialogue, que seja bacana para as pessoas frequentarem. Nossa Casa é um espaço de cultura, eu chamo um espaço de cultura provisória. 

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