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A busca pelas origens

História de: Allan Chaya Fernandes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/11/2013

Sinopse

Allan descobriu sua ascendência judaica aos 11 anos. Após essa revelação e alguns acontecimentos familiares, como o assassinato do seu pai e a prisão de sua mãe, foi para um internato judaico. Chegou a ser ortodoxo por um momento, mas depois desistiu. Fez Design de Interiores e Administração e procura trabalhar na área financeira. Sempre teve muito interesse em descobrir as suas origens, segundo ele, "pra eu saber pra onde eu quero ir, eu preciso saber onde estive, onde estou e qual é o trajeto que eu vou fazer". 

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História completa

P/1 — Nós vamos começar a entrevista perguntando o seu nome completo, local e a data do seu nascimento.


R — Certo. Meu nome completo é Allan Chaya Fernandes. Eu nasci em São Bernardo do Campo, em 20 de janeiro de 1985.


P/1 — E qual o nome dos seus pais?


R — Meu pai é Cláudio Luis Fernandes e o nome da minha mãe é Ivone Chaya (Moulabhi?) Fernandes.


P/1 — Alan, você poderia contar um pouco a origem da sua família? Primeiro pelo lado da sua mãe depois pelo lado do seu pai.


R — Do lado da minha mãe são judeus libaneses. Todos vieram é... Do Líbano, alguns vieram de Israel depois, por causa dos movimentos que ocorreram em Israel no início do século passado, entre 1900 e 1940. Na verdade, antes mesmo da questão do Estado de Israel, por causa das milícias árabes e judaicas que tinham na região, eles acabaram meio que sendo expulsos do Líbano, como a maioria dos judeus que acabaram sendo expulsos de outros países árabes e vieram pro Brasil. Meu vô por parte de mãe ainda acabou ficando no Líbano e foi pra Israel só em torno de 40, serviu ao exército Israelense na Primeira Guerra em 1948 como segundo tenente do exército. Depois ele realmente casou com minha vó. Minha avó foi pra Israel pra casar na verdade com o irmão dele, porque minha vó e meu vô são primos de primeiro grau, então ela ia casar com um outro parente meu. Não gostou, gostou mais do meu vô. Casou com meu avô e voltaram de navio pro Brasil.

Minha mãe nasceu cerca de dois meses depois que eles chegaram no Brasil, então, minha mãe e meu tio são brasileiros. Todos são... A minha família no geral é de judeus tradicionais, não são ortodoxos, eu tenho alguns parentes só que são ortodoxos, eu cheguei a ser ortodoxo. Tenho parentes hoje em dia na França, ligados a comunidade judaica e tenho parentes em Israel por parte do meu vô mesmo, que eu não conheço a maioria. Por parte da minha vó que a maioria eu conheço.


P/1 — E você sabe se eles vieram aqui para a cidade de São Paulo, para que lugar ele vieram, seu avô?


R —  Meu vô veio direto pra São Paulo. Uma parte da família da minha vó veio pra São Paulo e uma outra parte foi pro Rio de Janeiro. Mas se concentram em São Paulo mesmo.


P/1 —  E você sabe por que eles escolheram  São Paulo?


R —   Não sei dizer exatamente porque São Paulo, mas a maioria das pessoas de uma maneira geral, da comunidade judaica, acabavam escolhendo São Paulo nessa época.


P/1 — E eles vieram trabalhar... fazer o que aqui, seus avós?


R — Meu vô era taxista, logo quando ele chegou. Ele chegou pra trabalhar como taxista. Minha vó sempre foi mais de costurar, cozinhar em casa, só depois de mais velha que ela trabalhou muito com vendas de Avon, Natura, essas coisas.  


P/1 — Seu avô está vivo ainda?


R — Não. Meus avós, todos eles já são falecidos.


P/1 — Mas você chegou a conviver com estes avós libaneses?


R — Meu avô eu convivi muito pouco, porque ele e minha vó... Antes mesmo de eu nascer eles já eram divorciados. Isso existe no judaísmo, é cabível, permitido e eles se divorciaram e minha avó voltou a casar com uma outra pessoa,  que eu acabei considerando como avô. Eu tive pouca convivência com meu avô, eu tive mais só quando eu já era mais velho, quando ele já estava doente.

Por parte de pai já são espanhóis, católicos espanhóis. Aí, eu tinha uma convivência até um pouco maior, pelo menos até os meus dez anos. Todos são espanhóis, tem a família chamada Fernandes e tem a família chamada Peres. A maioria veio no início mesmo do século. Meus avós são todos brasileiros e meus bisavós provavelmente são espanhóis. Eles vieram, pelo que eu fiquei sabendo, por causa da guerra civil que se instalou na Espanha naquela época. Meu vô sempre trabalhou com metalurgia, parte da família do meu pai sempre trabalhou com metalurgia. Minha vó era dona de casa.


P/1 — Você sabe como seus pais se conheceram?


R — Se conheceram através de uma amiga em comum, é amiga da minha mãe até hoje. Ela conhecia meu pai e conhecia minha mãe e apresentou os dois numa espécie de um bailinho que tinha em São Caetano.


P/1 — E por que São Caetano? Eles moravam lá? Conta pra gente isso.


R — A família do meu pai morava lá. Apesar do meu pai ter nascido em São Paulo, ter morado uma boa parte da infância dele naquela região do Jaçanã, e tudo mais, a família do meu pai ainda mora pra aqueles lados. Depois de um tempo meu vô foi morar em São Caetano para fundar a General Motors. Ali, acho, se não me engano, ele trabalhava ali perto da Brasinca, que também é ligada a General Motors e lá é que eles acabaram se conhecendo. Mas minha mãe morava em São Paulo.


P/1 — E aí? Começaram a namorar? Como é que foi?


R — A minha mãe tinha acabado de sair de um noivado, ela tinha ficado noiva por quatro anos de uma pessoa que ele conhece até hoje. Não deu certo, acabaram tudo, e a minha mãe acabou conhecendo o meu pai.

Meu pai, pelo que contam, na época era muito, muito tímido, então ele precisava de um empurrãozinho, aí, na verdade, essa amiga da minha mãe acabou ajudando o meu pai a namorar com minha mãe. Mas... Logo de início eles começaram a namorar. Namoraram não sei quanto tempo, um ano, um ano e pouco e casaram.


P/1 —  Você sabe  quando eles se casaram?


R — Casaram em 1980.


P/1 — E aí, quantos filhos eles tiveram?


R — Só dois. Eu e meu irmão. Meu irmão é o mais velho.  


P/1 — Como é que se chama o seu irmão?


R — Meu irmão é Daniel.


P/1 — E esses primeiros anos de casamento eles moraram aonde?


R — A gente morou em São Bernardo do Campo. Ali no bairro do Demarchi perto da Ford e da Volks.


P/1 — E o que seu pai fazia?


R — Meu pai trabalhava com  metalurgia na própria Ford, chegou trabalhar na Volks e na Cofap.


P/1 — Conta pra gente, como é que era essa casa da sua infância, lá em São Bernardo?


R — A gente morava num... Hoje em dia seria considerado um condomínio fechado (risos), na época não existia isso, na verdade era um condomínio com três edifícios dentro. Eram dois prédios, dois edifícios e mais um prédio separado que era um terceiro edifício. Na época que eu já me lembro, o tempo conta, não tinha piscina, mas antes tinha piscina, parece que uma criança acabou se afogando lá, eles tamparam a piscina. Tinha… Na verdade não tinha uma área pra lazer, mas toda a área do condomínio a gente utilizava pra lazer, então tinha a ruazinha, as garagens, a gente andava bastante de bicicleta por lá. Tinha uma parte lá que era uma espécie de um hallzinho, a gente jogava paredão com os meninos... Brinquei bastante nessa época. Não cheguei pegar a época de videogame, eu brincava mais de jogar taco, futebol, paredão, esconde-esconde, pega ladrão, que mais... Duro ou mole, que era brincadeira da época, caça ao tesouro, mãe da rua, brinquei bastante. A gente inventava de fazer piquenique, cada um pegava e trazia uma coisa de casa, colocava uma toalha no meio da grama e fazia um piquenique. Morei lá desde que eu nasci até os seis anos.


P/1 — O que era essa brincadeira paredão?


R — Paredão é uma brincadeira ligada ao futebol. Funciona o seguinte: a gente faz uma fila, cada um só pode dar um toque na bola, a bola tem que bater na parede e voltar e não pode voltar, bater em você de novo. Você não pode dar mais de um toque. Cada um vai fazendo isso, só que sempre você tenta, na verdade, prejudicar a próxima pessoa. Quem erra, fica no paredão, aí a intenção começa a ser um pouco diferente (risos), além de tentar acertar a parede, a pessoa pode também tentar acertar quem está no paredão, que tem que começar a desviar da bola (risos)  a brincadeira vai ficando cada vez mais complexa, até sobrar só uma pessoa jogando.


P/1 — E vocês brincavam disso lá no condomínio?


R — Brincava. Eu não brincava muito, meu irmão que chegou a brincar mais.


P/1 — Qual a diferença de idade entre vocês?


R — Meu irmão tem três anos e dez meses a mais que eu.


P/1 — E vocês brincavam... Tinham essa turminha do condomínio?


R — É. Como meu irmão... Chegou bem na época que, meus pais casaram e se mudaram pra lá, meu irmão nasceu um ano depois. A maioria dos casais que moravam lá tinha a mesma situação dos meus pais, ou seja, tinham acabado de casar e tiveram os filhos na mesma época que o meu irmão, então o meu irmão nasceu junto com mais uma grande turma de crianças e depois, mais ou menos uns três, quatro anos, veio uma segunda leva de crianças, aí eu nasci com mais uma turma de crianças. Então ficaram _____________ turma que meu irmão ficava, a turma que eu ficava, porque hoje em dia quatro anos não é muita diferença, mas na época quatro anos era muita diferença, eu com quatro anos e meu irmão com oito.


P/1 — Você chegou frequentar escola nesse tempo que você morava lá?  Pré escola?


R — Fiz pré-escola. Estudei no Objetivo Júnior.


P/1 — Era lá perto? Como é que funcionava?


R — Olha, não lembro se era perto não. Eu lembro que a gente ia de Kombi, então eu lembro que demorava bastante pra chegar. Eu estudava num colégio e atravessando a rua o meu irmão estudava no outro que era já o Objetivo mesmo, o meu irmão já estava fazendo a primeira série, segunda série. A minha era a parte mais recreativa, né? Coisa de pré-escola, início de aprendizagem de leitura. É que no meu caso eu aprendi a ler com a minha mãe, ela mesmo me ensinou. Com quatro anos minha mãe me ensinou a ler e escrever, na pré-escola eu já sabia mais ou menos ler e escrever. Já era mais um reforço, né? Teoricamente.


P/1 — E você ficava período integral na escola nesse período?


R — Não, não era período integral, era só a parte da manhã, à tarde eu ficava em casa.  


P/1 — E à tarde que rolava essas brincadeiras ou era só de final de semana?


R — À tarde, toda tarde. Brinquei bastante. Andava de bicicleta todo dia.


P/1 — Tudo no condomínio?


R — Tudo no condomínio. Só uma vez eu saí do condomínio achando que minha mãe tinha ido pra um lado, ela tinha ido pra outro, aí tomei uma bronca e nunca mais fui (risos).


P/2 — Nessa época do paredão que você falou das brincadeiras, tem alguma pessoa que você tem contato até hoje, ou alguém que te marque dessas brincadeiras?


R — Todas. Eu mantenho contato com todas. O Orkut acaba ajudando bastante, né? A gente acabou criando uma comunidade do prédio e recentemente eu fui, inclusive, no casamento de uma amiga (risos). É bem bacana porque... Eu posso falar que eu nem tenho amigos de infância... Amigos de berço mesmo, que a mãe levava pra passear em carrinho e tudo mais. Mantenho contato com quase todos, só os que realmente se mudaram pra muito longe que não conseguimos manter contato direito. Mas eu tenho, a maioria se mantém lá, pelo menos, os mais queridos, ainda se mantêm, moram ainda lá. Só os que estão casando, que estão saindo...  


P/1 — Você sabe por que vocês acabaram saindo de lá?


R — Na época era o seguinte: o meu pai logo quando ele casou, quando eu tinha dois anos, então isso era mais ou menos 86 acho, sei lá.  Ah... Meu pai resolveu montar uma pizzaria com um amigo dele e esse amigo do meu pai trabalhava na Mercedes Benz e meu pai tava na época na Cofap. Meu pai tava querendo sair da Cofap, queria montar uma pizzaria. Ele sempre quis montar um comércio e aí eles resolveram montar uma pizzaria, só que eles montaram a pizzaria em São Caetano e nessa época meu pai já tava morando em São Bernardo, com a gente, no bairro de Demarchi que é no final de São Bernardo, já é perto da Serra e... Um dos, pelo menos até os meus seis anos, deu pra se fazer esse trajeto numa boa, mas era cansativo demais porque a pizzaria do meu pai não era só de entrega como a maioria das pizzarias hoje em dia, era uma pizzaria que funcionava como bar. Então abria as seis da noite, dia de semana fechava cedo, mas de final de semana ia fechar duas, três da manhã... Pra voltar de São Caetano, até São Bernardo, lá no finalzinho de São Bernardo, era puxado pro meu pai. Meu pai resolveu alugar um imóvel em São Caetano do Sul e a gente foi morar próximo da pizzaria.


P/1 — Seu pai ficou quanto tempo com essa pizzaria?


R — Até os meus dez anos. Então dos dois até os dez anos, foram oito anos. O meu pai faleceu e a gente resolveu decretar a falência.


P/1 — E vocês frequentavam essa pizzaria?


R — Bastante. Minha mãe na época de São Bernardo ela não ia tanto, ela ia mais de final de semana, mas depois que a gente foi pra São Caetano ela ia todo final de semana. Depois de um tempo meu pai resolveu comprar a parte do sócio dele, porque o sócio dele era mais o que entrava com capital e meu pai entrava mais com o trabalho, aí meu pai juntou um dinheiro e comprou a parte dele e tornou minha mãe sócia do meu pai, então ficaram os dois de sócios. Minha mãe começou a trabalhar de final de semana lá meio que no caixa. A gente ia mais de final de semana, eu e meu irmão. Meu pai tinha mandado fazer um quartinho atrás da pizzaria com beliche e tudo mais pra gente dormir se ficássemos com sono, mas a gente ia mais de final de semana. Dia de semana raríssimas vezes, só quando voltava da escola, passava lá na pizzaria.  


P/1 — Em São Caetano você estudou em que colégio?


R —  Eu estudei num colégio chamado Alcina Dantas Feijão. É um colégio público só que é considerado um colégio modelo, até porque São Caetano é uma cidade de renda per capita maior, graças a Deus os prefeitos investiram bastante em educação, então era um colégio modelo. Estudei lá dos seis... Sete aos dez anos. Então estudei quatro anos nesse colégio.


P/1 — E a turminha lá do condomínio você ainda frequentava, vocês ainda se encontravam ou não?


R — Nessa época a gente meio que ficou sem contato, só depois de mais velho que a gente voltou a ter contato.


P/1 — E a nova casa de vocês? Era casa, apartamento?


R — Era apartamento. Essa época toda eu morei em apartamento. Era de novo um prédio grande, só que esse já tinha piscina, tinha quadra poliesportiva, salão de jogos, só que era alugado então... A maioria das pessoas lá tinha a renda bem melhor do que a nossa.

Meu pai preferiu manter o apartamento em São Bernardo, alugar o apartamento e viver de aluguel morando também em São Caetano. E mantinha a pizzaria. Lá era um prédio bem grande dividido em três blocos. Lá a gente começou [a jogar] mais futebol, [ir na] piscina. Nessa época a gente ganhou o nosso primeiro videogame, quer dizer, o segundo, mas o que eu mais joguei mesmo. Era mais videogame, casas dos amigos, já não era tanto brincadeira de rua.


P/1 — E os amigos, eram mais do prédio ou eram mais da escola?


R — Mais do prédio. Nessa época a gente morou pouco tempo nesse prédio. A gente morou o quê? Uns dois, três anos. Depois a gente resolveu se mudar, a gente mudou pra uma casa, também era São Caetano, só que num outro bairro. Um bairro mais sossegado. Aí eram amigos de rua mesmo. Essa época foi a época que eu mais andei de bicicleta mesmo. Já tava com uns oito, nove anos... Saía bastante com o meu irmão pra andar de bicicleta. Essa época eu lembro que tava começando os fliperamas, a gente tinha fliperama perto de casa, íamos bastante no fliperama, se divertia bastante com os jogos que tinham na época, tava começando essa febre de jogo de luta. Ah! Meu irmão gostava de soltar pipa, mas eu nunca fui bom nisso, nunca soltei pipa. A gente jogava de vez em quando futebol, mas a maior diversão mesmo era andar de bicicleta porque quase todo mundo lá tinha bicicleta, então a gente saía junto pra andar de bicicleta.


P/1 — Em termos religiosos, sua família... Porque você tem uma origem libanesa-judaica e por outro lado, católica. Vocês frequentavam alguma igreja, templo, alguma Sinagoga?


R — É... Eu fui batizado. Na verdade não existe bem um batismo, mas eu fui batizado nas duas.  Eu, quando nasci fui batizado logo na igreja católica e fui criado teoricamente como católico, nada de mais assim, sem primeira comunhão, nada disso, mas até os meus dez, 11 anos. Eu fui saber mesmo que eu era judeu com 11 anos, foi quando eu realmente fui procurar saber o que era, qual que era a diferença e tudo mais e aí sim eu fiz minha circuncisão, que eu deveria ter feito com oito dias de vida, eu fiz com 11 anos.


P/1 —  E pode fazer com essa idade?


R — Pode. É mais dolorosa (risos) mas pode fazer. Porque... Aí, tem que tomar anestesia, não é nada fácil, fiz eu e meu irmão juntos.


P/1 —  Fizeram o Brit né?


R —  É o Brit Milá...


P/1 —  E vocês chegaram a fazer o Bar Mitsvá?


R —  Fizemos. O meu irmão acabou fazendo com 15 anos. O meu irmão acabou fazendo tudo atrasado. Eu o Bar Mitsvá ainda deu tempo de fazer com 13 direitinho.


P/1 —  E aí vocês começaram a frequentar a religião judaica né? A participar então?  


R —  É... Meu irmão nem tanto. Eu comecei a frequentar um pouquinho mais e aos 12 anos eu fui estudar num colégio religioso que a gente chama de Yeshiva. Eu fui estudar num colégio religioso em Petrópolis.


P/1 —  Em Petrópolis?


R — É, no Rio de Janeiro. É um colégio considerado um dos melhores do mundo, é o de Petrópolis. Lá é um colégio de Ashkenazim, judeus europeus. Era um outro conceito e tudo mais, apesar de que na época eu mal sabia o que era judaísmo (risos), o que era a diferença entre judeu europeu e árabe, pra mim era ainda maior a diferença. Ah, nessa  época eu aprendi bastante, estudei três anos lá. Acabei me tornando Florentino Hebraico, hoje em dia já esqueci quase tudo, mas ainda sei ler pelo menos. Ler e escrever eu sei. Mas foi uma época também bem bacana porque dos 12 aos 15 eu fui morar sozinho, teoricamente. Voltava uma vez por mês pra São Paulo.  


P/1 —  É... Longe da família né?


R —  É, eu só voltava pra trazer roupa suja, levava roupa limpa, lá eu mandava lavar uma vez por semana também.


P/1 —  E por que essa opção por estudar num colégio interno judaico? Foi da sua mãe ou foi sua?


R — Foi mista. Metade foi minha, metade foi da minha mãe. Uma parte foi da minha vó também (risos). A comunidade, obviamente, incentivou, mas eu era muito curioso e acabei indo.   


P/2 —  Você falou que com 11 anos você se despertou em ir buscar mais sobre a sua origem. O que mais te incentivou, o que realmente você falou “quero descobrir”? Teve algum fato, alguma coisa?


R —   Não sei dizer, mas eu sempre fui muito ligado nesse negócio de querer saber árvore genealógica, até tinha comentado anteriormente que eu gosto de querer saber qual que é a origem. Eu sempre acho que assim: pra eu saber pra onde eu quero ir, eu preciso saber onde estive, onde estou e qual é o trajeto que eu vou fazer. Então eu sempre quis saber, por exemplo, qual a origem da minha família pra eu poder saber pra onde eu tenho que ir, ou como, qual é a diferença. Sempre fui muito curioso e, na época, eu já tinha lido bastante sobre o holocausto, sobre essas coisas todas, só que não era uma coisa que me identificava, eu não sabia que era tão próximo. Apesar de não  ter ninguém na família que tenha passado pelo holocausto, é um sentimento comum a qualquer judeu. O fato do holocausto… É repugnante pra gente o que foi feito na época. O sentimento que a gente tem é o seguinte: que se graças a Deus o Mussolini não fosse burro, não tivesse ganho a guerra na África, o exército nazista não teria que ser desviado pro norte da África. Se não acontecesse isso, eles iam entrar na Rússia antes do outono, se eles entram antes do outono, eles conseguem dominar a Rússia. Como eles entraram no outono, a Rússia fez uma tática de ir pro leste e os nazistas invadiram cidades, na verdade, cidades fantasmas, não tinha comida, não tinha absolutamente nada. Quando eles chegaram próximo de Moscou, eles já estavam fracos, o exército russo voltou e esmagou o exército nazista. Mas se essa estratégia... Se o Mussolini não tivesse se dado bem na África, eles tinham entrado na primavera e tinha dado tudo certo pro nazismo. Provavelmente, eles iriam invadir a Rússia e desceriam para os países árabes. Ele não tinha um ódio pelo judeu europeu, ele tinha ódio por judeus. Não me pergunte por que, ninguém sabe dizer exatamente o porquê do ódio dele. Mas é… Me afeta profundamente, só de saber, de ter a sensação que poderia ter acontecido com a minha família, que poderia ter acontecido comigo, que só o fato da minha existência pra eles é algo que incomoda, sem mesmo me conhecer, sem mesmo conhecer minha família, é algo que me deixa realmente aborrecido.

Essas notícias, por exemplo, a gente ficou sabendo agora de nazismo no sul do país... Tudo bem que é um nazismo diferente, mais ligado a negros, nordestinos,                                 homossexuais, mas ainda sim, é algo que... Pelo menos pra minha família, é algo que assusta, algo que a gente vê com mais atenção… Esse tipo de matéria, porque é um medo que a gente tem, na verdade, de algo parecido com isso voltar. Vemos muito esses movimentos de direita, na Europa, a gente acompanha isso sempre com muita atenção, até os movimentos de direita em Israel também, acompanhamos com muita atenção, porque da mesma maneira que você conta que alguém ataca seu povo, você conta que o seu povo ataque alguém.


P/1 —  Allan, eu queria voltar um pouquinho, eu não quero explorar esta questão da escola judaica lá em Petrópolis. Mas você falou que seu pai faleceu quando você tinha dez anos né?


R —  Isso.


P/1 —  Você quer falar sobre isso?


R —  Posso falar.


P/1 —  O que aconteceu com ele?


R —  Ahn… Meu pai tinha a pizzaria como eu contei, e em 29 de Março de 1995, pelo o que a gente soube ____________ parece que o último cliente da pizzaria quando o meu pai estava fechando ela... Meu pai tava indo em direção ao banheiro dos  funcionários, porque era a pizzaria e nos fundos tinha um corredorzinho, que tinha o banheiro dos clientes e no final mesmo tinha o banheiro dos funcionários, aí ficava lá a parte de dispensa e tudo mais da pizzaria. Parece que ele pegou uma faca que tinha no barzinho, aquelas facas... Não sei se vocês já viram, aquelas facas laser da Tramontina, nem sei se faz mais este tipo de faca, e acabou esfaqueando o meu pai pelas costas e o meu pai acabou falecendo na própria pizzaria. [Esse cliente] trancou o meu pai no banheiro dos funcionários,  pegou a pasta do meu pai, pegou o carro do meu pai e guardou o carro do meu pai numa garagem. Coincidentemente ou não, não sei... Na mesma rua onde morava a minha avó, mãe do meu pai. Só que esse cara morava numa pensão do outro lado da rua da pizzaria, ou seja, a pizzaria aqui e do outro lado da rua tinha a pensão e esse cara morava lá. Não tinha antecedentes criminais, não tinha absolutamente nada que pudesse dar razão pra ele fazer isso. A polícia mesmo... Depois eu conversei com um psicólogo e tudo mais e explica que, pela quantidade de facadas que o meu pai tomou, dá a sensação de ser um crime com ódio, porque o meu pai tomou 24 facadas... Um número grande de facadas. Graças a Deus, na primeira, segundo o laudo, ele ficou já inconsciente. Ele tomou a primeira na nuca e o restante foi tudo nas costas, então com a primeira ela já ficou inconsciente... Então ele não sofreu. Quando esse cara foi preso, por acaso foi muito rápido, é... Nem tão por acaso porque seria até meio lógico fazer uma varredura próximo do local, mas foi coisa de dois dias e ele já estava preso. Meu pai faleceu e dois dias depois ele já estava preso. O vizinho de baixo da pizzaria do meu pai era da Porto Seguro. O vizinho de cima era um casal de velhinhos, então, não teria como fazer nada e na frente tinha essa pensão. A polícia foi dar uma busca na pensão, não sei se ela conseguiu mandato, sei lá se ela conseguiu, e achou na pensão a pasta do meu pai e a faca no quarto dele. Prendeu ele, acho que em flagrante e na época ele resolveu acusar minha mãe, falou que: “não, a dona Ivone foi quem me mandou matar, me pagou 5 mil reais”. Minha mãe foi ouvida e tudo mais, foi testemunhar, negou e a família do meu pai na época testemunhou contra minha mãe, não dizendo que tinha feito alguma coisa ou não, mas dizendo que o casamento era instável, eu não sei exatamente todo o testemunho da família do meu pai. Na época, também acharam um morador de rua que morava na rua que a gente morava... um senhorzinho que vivia bêbado e ele testemunhou que viu um carro no dia que o meu pai faleceu, viu um carro vermelho, parou e minha mãe entregou uma coisa marrom pra esse cara. O carro vermelho, supostamente seria o carro do meu pai. Meu pai tinha dois carros na época, tinha um Tipo Preto e uma Chev, que é a pickup do Chevette,  vermelha, que é onde ele carregava, fazia carga. Então, supostamente, seria o assassino do meu pai, com o carro do meu pai, pegando o dinheiro com a minha mãe. Tirando o fato do inusitado, teria que ser inexperiente no mínimo ou muito burro pra ir com o carro do meu pai na frente da minha casa. Depois a gente sabia que, na verdade o carro vermelho tava lá e minha mãe tinha realmente entregado uma coisa marrom, mas era pro amigo do meu pai que estava lá ajudando, porque a gente não sabia onde meu pai tava, né? O meu pai faleceu e no outro dia minha mãe acordou e meu pai não tava em casa e a gente começou a buscar, ligar pra cliente, funcionário, familiar, pra tentar descobrir onde meu pai estava. E esse amigo da família que era cliente, também tinha um Escort vermelho. Ele estava em casa, acho que tava com falta de água no radiador, aí a minha [mãe] pegou realmente uma garrafa marrom de cerveja, encheu de água e deu pra ele colocar no radiador, tanto que eu e meu irmão vimos e aí, com o testemunho desse morador de rua, minha mãe acabou sendo presa. Ela ficou de abril de 95 até dezembro de 97.

Vários erros de advogado, vários problemas, várias vezes o Habeas-corpus foi rejeitado, só foi aceito mesmo na verdade na última instância, no STF. Nessa época fui morar primeiro com a minha tia, irmã do meu pai. Morou eu e meu irmão.

Nessa época a gente perdeu o contato com a minha mãe e com toda a família por parte dela. E a família da minha tia tinha um conceito de educação um pouco diferente da minha... Uma educação meio que do estilo militar. A gente ouviu bastante coisa assim que, hoje em dia até que dá pra digerir um pouco melhor, mas na época era meio difícil porque meu irmão tinha 13 pra 14 anos e eu tinha dez anos... É... “sua mãe matou seu pai”, “sua mãe mandou matar seu pai”, é, que mais... Minha mãe chegou a ter um câncer por causa do estresse no tempo que ela ficou presa na delegacia, uma espécie de diverticulite, é uma espécie de câncer que dá no intestino. A família do meu pai [falava] “sua mãe tá com câncer, vai morrer” e tudo mais. Na época foi assim, eu não sei até que ponto traumatizou, mas eu imagino que traumatizaria, não sei...  Não dá pra especificar porque você sabe o que é um trauma. É... Mas pra gente foi bem problemático. A gente morou um ano lá e aí, queríamos morar com o meu tio, que a gente não gostava da família da minha tia, mal teve contato durante a infância inteira com eles, e de repente com toda essa reviravolta a gente não queria morar com eles. A gente queria morar com o irmão do meu pai, que também tinha o mesmo pensamento da minha tia e tudo mais, só que ele era, digamos, um pouco mais polido, vai! Ele tinha testemunhado contra minha mãe, mas ele era um pouco mais polido na nossa frente, não falava esse tipo de coisa. E de última hora, alguns meses antes a gente foi pra casa do meu tio, já estava decidido que no final do ano a gente ia pra lá, só que aí meu tio resolveu fazer uma visita, fazer uma surpresa, falou: “Oh... Trouxe a sua vó, a mãe da sua mãe, pra vocês conversarem com ela, já que faz um ano quase que vocês não vêem ela”. Aí a minha vó foi lá em casa, meu tio, irmão da minha mãe, na casa do meu tio, a gente conversou bastante, não sei o que lá, e aí a gente pôde, até que enfim, escrever uma carta pra minha mãe, porque minha já estava quase oito meses sem notícias nossas… Só as notícias que ela sabia é que a gente estava morando com os meus tios, que conseguiram na época até a tutela, coisa que não se consegue sem o aval da mãe e a gente tinha só que mandar uma carta pra minha mãe.

A gente mandou uma carta pra minha mãe, cada um e, de última hora, resolvemos escolher, eu e meu irmão, a gente sentou, conversou os dois, e falamos: “A gente quer morar com o tio, irmão do nosso pai ou com a avó, mãe da mãe”. Bom... “Se a gente for morar com a vó, pelo menos a gente consegue visitar a mãe mais vezes”, e de última hora a gente decidiu morar em São Paulo com minha avó. Nessa época a gente chegou a arrumar na verdade uma confusão lá em casa, na casa do meu tio, porque ele já tinha como certo que a gente fosse morar lá, o que ele não tinha falado até então, sendo até polido, ele resolveu falar “vocês vão morar na casa da mãe da assassina do seu pai”, “como vocês podem fazer isso”, e tudo mais. A gente acabou aceitando, sabíamos que foi no calor do momento e a gente começou a morar em São Paulo, aí que eu vim morar nesse local onde eu moro até hoje. Eu morei com a minha vó até os 12 anos, dos 11 aos 12, com dez eu morei na casa da minha tia, dos 11 eu morei com a minha avó e aí, aos 12, com toda essa conturbação que tava na nossa vida, a comunidade judaica foi a que mais apoiou a gente. Até hoje eles pagam o advogado da minha mãe. O advogado é judeu, é uma família de judeus, são pai e mãe... pais e mãe não, pai e filho, e... A comunidade deu todo o apoio, a assistência que a gente precisava na época e a minha família considerou como uma forma de retribuição, eu considerei mais como uma forma de curiosidade, querer conhecer o judaísmo e aí isso acabou me levando a ir para um colégio judeu.


P/1 —  E a sua avó, sua avó materna, acho que a que vocês foram morar junto com ela...


R —  Isso.


P/1 —  Ela seguia todos os preceitos judaicos, o Shabat, toda essa... ?


R — Não. Apesar dela ter sido criada, quando criança ela foi criada como… Numa família até mais religiosa, morou um tempinho com os tios dela, e a família um pouco mais religiosa, dentro de casa só se falava árabe no caso, então ela tinha que seguir até um pouquinho mais, mas depois de mais velha não.


P/1 —  Então foi realmente essa curiosidade...


R — A priori foi sim. Depois eu fui me identificando cada vez mais com o judaísmo, ahn… Tomando gosto, aprendendo não só sobre a origem do povo, cultura, essas coisas, mas, aprendendo a filosofia, maneira de pensar, de agir, como todas as coisas são interligadas, como sempre pra tudo há uma explicação, mesmo que você não saiba, mas há uma explicação… tudo isso foi me fascinando, principalmente o lado lógico. Muitos dos costumes que a gente tinha eram muito relacionados a questão de você saber usar a lógica, saber pensar, saber definir o que é certo e o que é errado e... Eram coisas que me fascinavam.


P/1 —  E nessa escola lá de Petrópolis, como era dividido o estudo? Como funcionava o estudo? Conta pra gente um pouco a dinâmica de uma escola judaica como essa, que era um internato, né?


R — É... bom, então eu vou contar como era o meu dia, que aí eu já fecho toda a pergunta. A gente acordava logo de manhã, umas seis e meia. Às sete horas a gente ia pra Sinagoga que era dentro do colégio, o colégio era bem grande, e na Sinagoga a gente rezava, a reza da manhã era a reza mais longa, dura mais ou menos uma hora, aí a gente ia até às oito. Às oito a gente ia tomar o café da manhã, tomava o café da manhã até às nove, então às oito da manhã não necessariamente você precisava tomar o café da manhã, era o ideal que se tomasse o café da manhã, então a gente comia e tudo mais, quem comia um pouco mais rápido, aproveitava, voltava pro seu dormitório pra fazer alguma coisa, pra arrumar colcha, pra arrumar a cama que não tinha arrumado de manhãzinha... Como era em Petrópolis e essa cidade é muito úmida, uma vez por semana a gente acabava fazendo o seguinte: a gente colocava os colchões pra tomar sol, porque senão o colchão acabava mofando, que era muito úmida a cidade. Descia, colocava o colchão pra tomar sol, pegava roupa suja pra levar pras senhoras lavarem, que as cozinheiras lá, ganhavam salário como cozinheira, mas elas ganhavam uma renda extra lavando essa roupa que a gente pagava pra elas lavarem. Elas lavavam, passavam a roupa e entregam de volta pra gente, porque não dava tempo... Ficar o mês inteiro usando roupa, não dá né? Então a gente tomava o café da manhã, às nove horas começava... Às nove e 15 pra ser mais exato, começava o estudo religioso, todo mundo. Ia das nove e 15 até o meio-dia, tinha um intervalo no meio e tudo mais, mas era um estudo mais voltado a... Como se pode dizer...


P/1 —  Ao Torá?


R — Ao Torá! A parte mais antiga do judaísmo. A parte mais... É onde quase não existe discordância. Mas é a parte mais antiga mesmo. No primeiro era dividido em três séries os alunos, na parte de estudo religioso. Na primeira série você vai estudar os cinco primeiros livros, a Torá em si, começa lendo do primeiro mesmo, os livros todos em hebraico, mesmo quem não fale ou quem não lê em hebraico. Como funcionava? A gente procurava ensinar um ao outro, quem não sabia ler a gente ia ajudando o cara a aprender a ler. Eu quando fui pra lá já tava aprendendo mais ou menos a ler, então eu conseguia ler, devagar, mas eu conseguia. A cada versículo que a gente lia o rabino voltava e ia traduzindo palavra por palavra do versículo e você pegava em cima do livro mesmo, anotava em cima da palavra, oh:  “isso daqui quer dizer isso, isso daqui quer dizer isso”, e quando a gente estuda o judaísmo a gente não estuda só o texto em si, não é que nem por exemplo, você vê muito no catolicismo, no cristianismo, que você só lê o texto em si.

O texto em si, original vem no meio e embaixo vem um comentarista, na parte de fora da página vem outro comentarista e na parte interna da página vem mais um outro comentarista e cada um explica, vai explicando sobre os assuntos que são escrito no texto original. A gente lia primeiro o versículo e lia os comentaristas, ia traduzindo em cima dos comentaristas e aí sim, partia para o próximo versículo. Uma coisa que você fosse ler, se você soubesse ler rápido, você ia ler em cinco minutos, demorava uma hora, duas horas pra gente ler, estudar literalmente e ir traduzindo palavra por palavra. Meio-dia a gente almoçava, ia pra reza da tarde que é curta, devia levar uma meia hora, aí meio-dia e meia, uma hora a gente ia pro colégio. O colégio ficava dentro da Yeshiva também, só que tinha que descer uma ruazona longa dentro do terreno e aí a gente ia pra uma outra casa onde ficavam os estudos normais. Eram divididos em séries normais, da sexta série até o terceiro ano tinha. Eu comecei lá na sexta série, minha turma era grande, tinham seis pessoas. Tinham turmas que tinham duas pessoas e chegou a ter uma sala que tinha um cara só (risos).  Só ele tinha a idade dele, então ele estudava sozinho, ele tinha aula teoricamente particular. Estudava até às seis da tarde normal, tinha intervalo com lanche e tudo mais, a gente normalmente comia lanche, aí depois de um tempo a gente virou mania de querer jogar beisebol, tinha um amigo que trouxe um taco de beisebol, outro trouxe uma bolinha de tênis que não machuca tanto. A gente aprendeu a jogar beisebol e começou a jogar no intervalo. Às seis horas a gente voltava, se não me engano… É... Às seis horas a gente voltava e tinha mais uma parte de estudo religioso. Essa parte já era mais voltada a um, como se pode dizer... A parte mais de filosofia do judaísmo, era uma parte mais profunda, não era tão simples de se entender. De novo o livrinho era em hebraico, às vezes o livro era em hebraico, aí traduzia em cima da palavra, às vezes o livro era em ídiche que é o dialeto dos judeus europeus. Aí a gente também tinha que aprender a traduzir o ídiche, apesar deu não consegui aprender nada em ídiche. A gente estuda uma parte que chama (rasidut?), que é uma linha dos judeus europeus, não são necessariamente europeus que trabalham mais com a questão de filosofia, numerologia,  como que funciona a criação do mundo, como cada coisa que a gente faz afeta, então você vai aprender sobre “ah... Então existem três mundos, o mundo ação, o mundo da fala e mundo do pensamento”, como um influencia no outro, cai uma parte mais é... Como se pode dizer, espiritual mesmo. Isso era um estudo de uma hora.

Depois desse estudo que a gente tinha de mais de uma hora, a partir já do início da noite, a gente tinha a reza da noite e essa era uma reza bem curta, durava uns 15 minutos no máximo e a gente ia jantar. Jantava, aí quando você acha que acabou tudo, a gente voltava pra Sinagoga pra revisar em duplas o que a gente aprendeu de manhã, só que aí só os alunos. Então ficava, por exemplo, eu e uma outra pessoa revisando o que a gente aprendeu de manhã. Terminou de revisar aí,  não tinha um horário fixo, mas terminou de revisar, tinha o salão de jogos se a gente quisesse ir jogar pingue-pongue, dava pra jogar futebol de salão, tinha aquele sistema de totó, que a gente chama de pebolim aqui em São Paulo, dava pra jogar um pouquinho e já ia dormir, porque depois de um dia desses a gente já tava cansado. Era basicamente isso. Só nos feriados, finais de semana que era um pouco diferente a rotina.


P/1 — Final de semana vocês saiam pra fora, pra conhecer Petrópolis?


R — A gente saía pra conhecer Petrópolis na sexta-feira. Então acontecia o seguinte: depois da reza da tarde, a gente ia pra Petrópolis, alguns iam pra visitar a comunidade de judeus em Petrópolis e outros iam pra fazer compras, porque precisava, sei lá... Comprar escova de dentes, pasta de dente, alguma coisa, uma besteirinha, iam comprar isso na cidade. Mas a gente voltava cedo porque na sexta-feira a tarde começa o Shabat, então a gente voltava cedo. Saía meio dia, quatro horas da tarde, cinco horas, já tava todo mundo na Sinagoga, já na Yeshiva. Voltava, tomava banho rapidinho, colocava roupa social pra ir pro Shabat.


P/1 —  Você pode contar um pouquinho como era na escola a semana do Shabat?  


R —  Bom... Shabat, só pra elucidar, a gente guarda o sábado. Só que como no judaísmo o dia começa a partir do pôr do sol e termina no outro pôr do sol, então ele acaba pra gente começando na sexta-feira e terminando no sábado. A gente não pode fazer nada relacionado a trabalho. O que hoje em dia não é considerado trabalho, antigamente era considerado trabalho e a gente mantém essa tradição, então, por exemplo, acender  fogo, a gente não acende nenhum fogo, por isso que a gente não mexe com energia elétrica, que acaba tendo uma faísca e é considerado fogo, então a gente não acende luz, não apaga luz, não anda de carro, não anda de elevador, evita-se fazer trajetos muito longos de caminhada, não se carrega nada nos bolsos, só dentro de lugares fechados. Ahn… Basicamente é isso, mas o Shabat em si é um dia que se come melhor, se veste melhor, e as rezas são mais longas. É como se fosse um dia de, literalmente, um dia de descanso, mas é um dia que você fica mais “pomposo” teoricamente.  Come-se melhor, muito melhor, se veste, quem pode, de uma maneira melhor, não chega a ser como os outros calendários que alguns feriados que se veste ainda melhor, procura-se se vestir ainda melhor, usar a melhor roupa, mas é um dia que se porta de uma maneira mais polida.


P/1 —  Mas por exemplo, lá na escola, no sábado vocês não podiam brincar?


R — Não.


P/1 —  O que vocês faziam no sábado?


R — No sábado, a gente fazia o seguinte: na sexta-feira mal dava tempo, porque  você já começa a reza e tudo mais, aí ia comer, jantava, tinha a janta no Shabat, era muito mais longo, ao invés de durar uma hora, demorava quase 3 horas, porque tinha prato inicial, aí comia-se Guefilte Fish que é uma coisa típica, é um peixe, um bolinho de peixe, come sopa, porque em Petrópolis é muito frio, come o prato principal, vem a batata frita, a sobremesa, só que aí durante a sobremesa alguém fazia algum discurso, sobre algum assunto específico, fazia alguma passagem e tudo mais. A gente ia dormir muito tarde, não dava tempo de fazer absolutamente nada. Muitas vezes no Shabat a gente ficava conversando, principalmente no período da tarde, no finalzinho da noite, no período da tarde no sábado a gente ficava conversando, era o dia que a gente mais descansava mesmo, conversava... Na época eu tinha 12 anos, depois de segunda a sexta você ter uma rotina pesada, puxada, no sábado você queria descansar, mesmo porque no domingo a gente ia jogar bola, então a gente descansava no sábado. Conversava... Tinha muita gente que ia pra Sinagoga pra estudar por conta própria. No geral a gente conversava, algumas pessoas iam no sábado a tarde pra dormir, queriam dormir um pouco mais, descansar, aproveitar porque nossa rotina terminava quase que 11horas, tinha gente que ficava até meia-noite e meia acordado pra acordar no outro dia seis e meia. Hoje em dia pra mim isso parece normal, mas na época era meio puxado, então no sábado a gente às vezes queria dormir um pouquinho mais no período da tarde, que era mais livre.


P/1 — Deixa eu fazer uma pergunta: havia meninas lá no colégio ou eram só meninos?


R — Só meninos.


P/1 — E a comida? Era comida Kasher?


R — Kasher. Toda comida era Kasher lá. Lá funcionava da seguinte maneira: tinham duas cozinhas, uma cozinha pra aquecimento de laticínios e uma outra cozinha de carne, porque no judaísmo não se mistura queijo com carne. Queijo, leite, nada relacionado ao leite, com carne. De manhã o café da manhã era feito todo numa cozinha e no almoço já era feito numa outra cozinha. As cozinheiras de uma cozinha não entravam na outra cozinha, era tudo cheio de regras. E tinha a mulher do rabino que supervisionava, porque como ela não era judia, ela supervisionava pra ver se não tinha nada errado. Ela supervisionava elas cozinhando. A comida lá era boa. Eu não gosto muito de sopa, essas coisas, eu gosto mais de comida mais quente, mas como eles são judeus europeus a comida deles é massa, tem um doce que é horrível, é feito de macarrão, muito ruim, Strudel se não me engano... é horrível o doce... feito de macarrão. E tinha o Guefilte fish que é um bolinho de peixe, eu gosto até. Mas da comida em si eu não gostava mais da parte puxada pro judaísmo. Comida _____________ era gostoso. O café da manhã, era leite, tinha Nescau, às vezes tinha café e tinha o leite separado, aí quem quisesse tomar café misturado com leite, tomava. Tinha muita rabanada eu lembro. Logo no meu primeiro ano, o leite ainda era tirado da vaca direto, então de manhãzinha ia alguém lá tirar leite da vaca, não na Yeshiva, num outro lugar. A gente comprava e o leite chegava fazia duas horas que tinha saído da vaca. Eu lembro até hoje, vinha uma jarra assim de leite, mais uns dois dedos de nata e mais um dedo de gordura em cima do leite (risos) e a gente tomava. Na época eu achava aquilo horrível porque não era acostumado a tomar leite puro, depois de um tempo aprendemos que a gente conseguia separar o óleo, pelo menos, do leite. Pegava a nata, colocava num prato, tirava todo o leite dela, deixava bem sequinha, ficava parecendo queijo, então transformava a nata em queijo e tomava o leite mesmo. Como lá cada um era de um lugar, tinham seis pessoas que eram de São Paulo, apesar do colégio ser em Petrópolis, tinham poucas pessoas que eram do Rio, aí tinham três que eram de Minas Gerais, tinha um pessoal que era do Sul, outro era de Brasília e tinha um pessoal que era do Belém do Pará.

O pessoal do Belém do Pará era o que mais trazia comida diferente. Na época nem era tão famoso aqui em São Paulo, eu conheci a tapioca, a famosa tapioca, farinha de tapioca. Eles traziam bastante, mas muito assim, farinha de tapioca. A gente colocava no café com leite que diziam que era bom. A gente tomava e era bom, ficava parecendo uma espécie de cereal.  À tarde, o almoço era normal: feijão preto como todo carioca, arroz, salada, um bife, uma carne, uma torta, uma coisa assim. Janta também a mesma coisa. A comida era boa no geral, só não gostava quando a comida era muito puxada pro lado europeu (risos).


P/1 — No Shabat era né?


R — No Shabat a comida era bem européia. Então era muito Guefilte fish desde o início, vinha uma sopa, uma massa normalmente, mas não tão gostosa. A carne no judaísmo acaba sendo muito ruim porque a gente não pode comer nada da região do nervo ciático e, por consequência, a gente não come a melhor parte da carne que é picanha, alcatra, maminha, filet mignon, toda a região boa da carne tá próxima do nervo ciático. A única carne boa que o judeu consegue comer é o cupim e ainda assim tem gente que não gosta. No geral a carne do judaísmo é carne de segunda, é uma carne mais dura, não tão saborosa. Nisso eu sofria um pouquinho, na época.


P/1 — E no Shabat... Conta pra gente como era a cerimônia das luzes, das velas...


R — Certo. Bom, tinham mulheres na Yeshiva que eram as esposas, filhas dos rabinos, elas acendiam as velas, mesmo porque era mais uma cerimônia por parte das mulheres. Shabat funcionava da seguinte maneira: dentro da Yeshiva, cada um tinha uma responsabilidade, uma atribuição própria. Tinha um que ficava responsável pelo salão de jogos, ficava responsável pra que não faltassem bolinhas, que não sumisse as bolinhas de pingue-pongue, por exemplo, se não ficasse organizado, que ninguém quebrasse nada, e que se quebrasse, se responsabilizasse. Tinha um pessoal que era responsável pelo refeitório, então organizava a questão da comida, ver se o pessoal tava chegando no horário certo, se a comida tava vindo no horário certo e tinha um pessoal que era responsável pela parte da Sinagoga. Dentro da Sinagoga tinham as maiores  atribuições e algumas delas eram ligadas exatamente ao Shabat. Então tinha, por exemplo, um quadro, que era tipo um quadrinho que você colocava as letras, ia juntando as letras assim com plaquetinhas e formavam frases, então, no quadro tinha um cara que era responsável de formar, dizer “olha o Shabat, dia tal, de tal mês, no calendário judaico que é o calendário lunar, a gente vai ler tal parte, tal “parashiot”, que é  porção em português da Torá, “assim, assim e assado”, o Shabat começa tal horário, isso tudo escrito em ______________, o Shabat começa em tal horário exato e termina em tal horário. Tinha outro que ia verificar o Eruv.

O Eruv era uma espécie de uma cerca, justamente pras pessoas poderem carregar as coisas dentro do Yeshiva, então uma cerca grande, cobria uma boa parte da Yeshiva. Servia pra gente carregar alguma coisa da Sinagoga até os dormitórios, livro, chaves do próprio dormitório, senão, não ia poder carregar nem a chave do próprio dormitório. Então esse cara no Shabat à tarde ele passava o Eruv inteiro... Olhando se a cerca não tava soltando algum ponto, porque a cerca era feita de bambu, numa distância no máximo vai, de seis metros de um bambu pro outro e um arame que passava em cima, nada demais. Então ele ia olhando ponta por ponta pra ver se não tinha nada de errado, se tivesse algo errado, tinha que avisar correndo pra consertarem o Eruv, o pessoal que era da manutenção do colégio, pra consertar, senão ninguém ia poder carregar absolutamente nada do Shabat.

O Shabat começava pontual, sempre de forma pontual. As pessoas iam chegando aos poucos, mas começava de forma pontual, porque o rabino de lá era muito rígido com horário. Todos rezavam juntos, não tinha um negócio que acontece em algumas Sinagogas hoje, de cada um rezar na sua velocidade, no seu tempo, uns terminam antes e outros depois. Lá não, por mais que você quisesse ler rápido, já tinha prática, todo mundo ia no mesmo ritmo, que era o ritmo do rabino. Ele ia lendo bem devagar, apesar dele conseguir ler bem rápido, ele ia lendo devagar para que os alunos novos conseguissem também ler. Aí a turma ia rezando junto. A cerimônia de início do Shabat é normal, a reza em si não é muito diferente. Tem uma parte da cerimônia que é bem bacana que é antes de comer no Shabat. Na janta se faz um Kidush, é uma espécie de um brinde. Uma pessoa faz com um vinho, uma taça, um cálice de vinho, que tem o que, uns 250mls, só que aquele vinho tinto suave, parece suco de uva mesmo, aí faz o Kidush. Todo mundo toma um pouco de vinho, bem pouquinho na época, porque tinha um pessoal que era bem novinho e ai inicia-se realmente o Shabat. Come-se bastante, canta-se bastante… É um dia em si, feliz, independente da situação... Um dia sempre feliz.


P/1 — E nos outros feriados tipo Yom Kippur,  Rosh Hashaná, vocês passavam lá no colégio ou vinham pra casa?


R — Alguns poucos calendários, alguns poucos feriados a gente vinha pra casa, principalmente se fosse final do ano que, por exemplo, final de ano normalmente cai o (Rabaka?), normalmente a gente já está de férias, então a gente já estava em São Paulo, no caso. Mas o Yom Kippur, todos os Yom Kippur que eu passei enquanto eu estava estudando lá, passei no Yeshiva. Ah, o Rosh Hashaná e o Yom Kippur são feriados muito mais importantes, mesmo porque não são semanais, são anuais, aí  ganha uma importância muito maior, principalmente porque, na verdade, não é só um feriado, um mês antes a gente já começa os preparativos, já muda nossa rotina um pouco. Então todo dia no final da reza, toca-se shofar, que é uma espécie de um… Como se pode falar, um berrante, não é bem um berrante, mas é feito com chifre de carneiro e toca-se no final da reza pra avisar que está chegando o Rosh Hashaná.

Qual a grande importância do Rosh Hashaná? O Rosh Hashaná é o Ano Novo, cai em setembro, outubro, depende do ano. Só que ele tem uma importância de... É o dia que a gente é julgado, a partir daquele dia a gente sabe, tem o julgamento pra o que vai acontecer no próximo ano. Por isso que o Rosh Hashaná tem esse nome. Rosh Hashaná na verdade não quer dizer ano novo, quer dizer cabeça do ano, ou seja, o primeiro dia é o dia cabeça, é o dia chave do ano. Então é o dia que se come muito melhor ainda (risos), são as melhores comidas, comidas muito doces no geral pra que o ano seja doce. No Judaísmo tem muito disso, de simbologia, analogia, ligar uma coisa à outra, então come-se muito pão com mel, frutas que só tem em Israel, por exemplo, romã, tâmara, damasco, que tem na região também. É um dia festivo, apesar de ser um dia com toda essa importância, é um dia festivo.

Já o Yom Kippur que é dez dias depois, não, é ao contrário. É um dia muito sóbrio, reza-se muito mais. Durante o Rosh Hashaná reza-se também, mas durante o Yom Kippur reza-se muito mais, é quase todo dia de reza. Dorme-se muito pouco, pra quem é fumante, não se fuma, não pode fumar. Ah! Não pode comer, é um jejum completo, cerca de 25 horas, não pode beber água, não pode beber absolutamente nada durante as 25 horas. É um dia bem exaustivo porque a Sinagoga funciona da seguinte maneira: vamos dizer, é um bloco, um quadrado, como quase toda Sinagoga. As pessoas rezam todas em direção ao leste, em direção a Jerusalém e na parte da frente da Sinagoga tem uma parte, como se fosse... não é um altar, mas uma espécie de um armário e lá ficam guardadas as Torás da Sinagoga. Se você abre a cortina daquele... Ele tem um armário de madeira e tem normalmente uma  cortina. Se você abre aquela cortina, o certo é que ninguém na Sinagoga pode ficar sentado, é falta de respeito com a Torá, e boa parte da reza do Yom Kippur é com a cortina aberta, ou seja, boa parte da reza é em pé. Então é um dia muito cansativo. Cada um tem, depende muito da linhagem, os (ashkenazins?) faz um coisa, os (karavins?) fazem outras e o pessoal de (rabad?) faz uma terceira coisa, e ainda tem judeu iemenita, que é raríssimo de se encontrar, mas também tem uma tradição própria, cada um tem uma tradição específica, mas todos respeitam a tradição de cada um. Então por exemplo, eu usava, por ser judeu árabe, usava talit, que é uma espécie de pano feito de lã pura, por cima do corpo. Como o pessoal lá era a maioria (ashkenazins?), mas que seguia o (rabad?), eles só usam o talit depois de casados. Então eles não usavam talit e eu usava talit. Tem uma parte da reza que o povo judeu acaba se dividindo em três, três tribos vai, como se fosse na novela, três castas, mas não tem nada a ver com divisão, preconceito, ou separar as pessoas mesmo, mas... Questão de funções.

Os sacerdotes são os cohanim, são pessoas que cantavam nos templos que são os (levins?), por isso que tem tanto sobrenome (cohen e levin?), e tem o restante,  o “povão”, que a gente chamava de (israele?), que é o povo. Os cohanim eram os sacerdotes, eram eles que cuidavam de todos os sacrifícios que tinham no templo, eles eram responsáveis por abençoar o povo, e tinha os (levins?). Os (levins?) eram os responsáveis por todas as músicas que eram cantadas no templo e até hoje, no geral, eles são as pessoas que tem a melhor voz pra (searasar?), é a pessoa que segue a reza, na verdade é quem conduz a reza numa Sinagoga. E (israele?) é o povo em si, mas só eu de (israele?) é que saia o rei. O rei saia do povo mesmo. Os outros eram mais ligados a área religiosa e artística da cultura. Nesses feriados mais importantes como Rosh Hashaná e Yom Kippur, quando se tem na Sinagoga alguém que é (Levi?) e alguém que é cohen, é mais raro ainda de se encontrar, o que que se faz? Um pouco antes da reza, eles saem da Sinagoga, os cohens e os (levins?) vão pro banheiro. Os (levins?) lavam as mãos dos sacerdotes e lavam os pés deles e o (levi?) vai na frente da Sinagoga, coloca um tapete, grande normalmente, para os cohens poderem ficar em cima dele, porque eles voltam descalços pra Sinagoga. Neste momento o restante do povo não pode olhar o que eles fazem, mas todo mundo sabe o que eles fazem, mas não pode olhar. Você pega todos os talits que tem na Sinagoga, mas normalmente a Sinagoga tem uma espécie de um estoque, se alguém estiver sem. Eu tinha o meu próprio, então usava o meu. Aí se cobre o rosto pra você não ver o que ele faz, e ele abençoa o povo, ele faz um gesto “assim” com mão, todos eles ficam de frente pro povo e abençoa o povo. Fazem uma reza própria deles, que ninguém faz, e eles abençoam o povo. É uma espécie de... Como se eles fossem canalizadores vai... De uma benção. É uma parte bem rara de se ver, principalmente porque às vezes tem o feriado mas não tem o sacerdote, não tem o Cohen. Às vezes tem o Cohen, mas não é feriado, então nem sempre a gente dá a sorte de ter os dois juntos. Eu cheguei a ver poucas vezes, umas três ou quatro vezes. No caso do Ano Novo, o Rosh Hashaná, o Yom Kippur , são as únicas datas que a gente se ajoelha. No Judaísmo é muito séria a questão de se ajoelhar. No catolicismo, cristianismo, islamismo é uma coisa mais comum, o fato de se ajoelhar pra rezar. No islamismo eles se ajoelham cerca de cinco vezes, são as vezes que eles rezam durante o dia. No catolicismo, no momento que você vai rezar normalmente as pessoas se ajoelham, tanto que na igreja tem até uma partezinha já pra poder apoiar o joelho. No judaísmo é muito séria essa questão de não se ajoelhar... A pessoa se ajoelha em dias muito específicos, que é o caso do Ano Novo e no caso do Yom Kippur. É uma parte muito importante da reza, muito importante do dia... É como se a gente teoricamente ficasse realmente naquele momento, de frente com Deus. É um momento especial pra todos, é o momento de maior apreensão porque no Judaísmo a gente leva muito em consideração, de novo a analogia, né? Naquele momento você é um servo e você tá perante o seu rei, então toda a maneira que você se porta, sua postura, a maneira de você falar, sua educação, é muito importante porque perante um rei, a qualquer momento a sua vida pode estar em risco, pode estar em jogo. É um momento muito sério, muito profundo. As pessoas no geral se emocionam neste momento, principalmente no Yom Kippur, que é um dia que a gente pede perdão por tudo que a gente fez de errado no ano e tenta lembrar tudo o que a gente fez de bem, de bom. A gente pede desculpas de tudo que a gente fez de ruim e tenta lembrar o que a gente fez de bom. Por exemplo, pra dizer eu tenho méritos, desculpa pelo que eu fiz de errado, mas eu também tenho méritos e lembre-se tudo que o povo também fez de bom. “Tudo bem se os meus méritos não são suficientes, lembre-se dos méritos dos meus antepassados que passaram por…” no caso tem uma parte da reza que fala que passaram pelo Holocausto, pela Inquisição, por Roma, Babilônia, que passaram pelos Gregos, Egípcios, lembre-se dos nossos... É... Como que chama... Os nossos três, não é pais, não tem o nome de pai, eu lembro um nome em hebraico, que seria Abraão, Isaac e Jacob, que são os três patriarcas do povo judeu. Então a gente tenta lembrar os méritos dos nossos antepassados, se os nossos não forem suficientes, e normalmente não são (risos), a gente sempre lembra dos antepassados. É um momento importante da reza.

Outra coisa que eu lembro bastante é que na véspera do Yom Kippur a gente faz uma espécie de uma reunião. Em geral os judeus se juntam em comunidades, em grupos e fazem uma espécie de reunião de pessoas muito ligadas pra pedir desculpa, porque se alguém realmente fez alguma coisa de errado um pro outro, você pode pedir desculpas, que a gente tem um conceito que é assim: não adianta nada você vir pedir desculpas pra Deus, pra uma coisa que eu fiz pra uma outra pessoa. Meu problema naquele momento não é com Deus, é com aquela pessoa, se eu não tenho perdão daquela pessoa eu não tenho como pedir perdão pra Deus. Eu tenho que pedir primeiro pra ela, ela tem que realmente aceitar minhas desculpas, me perdoar, pra aí sim eu pedir perdão pra Deus. Então a gente tenta entrar no Yom Kippur o mais “zerado” possível com as outras pessoas, pra depois tentar “zerar” as contas com Deus no Yom Kippur. Por isso que é um dia de jejum, não se come, não se tenta pensar em outra coisa senão em resolver seus problemas com Deus.


P/1 — Voltando um pouco a sua trajetória, você ficou lá três anos né?


R — Três anos. Eu estudei dos 12 aos 15.


P/1 — Mas você falou que até o segundo o grau não estudava mais né?


R — Isso. Eu poderia ter ido até os 17, teoricamente.


P/1 — Aí você não quis ficar? O que aconteceu?


R — Ahn... Eu comecei, na época, ficar muito religioso, muito religioso e a minha família não era religiosa aqui em São Paulo. E... Aconteceu que começou a ter uma espécie de um conflito, do que eu pensava com o que eles pensavam, do que eu queria seguir do que eles seguiam, do que eles queriam pra mim e do que eu queria pra mim. E foi ficando uma situação ruim, chata, na época, ao ponto de não ser mais legal vir pra São Paulo, porque eu vinha pra São Paulo pra ter discussão. E nessa época a minha avó ficou muito doente, a mãe da minha mãe, e em 99, no final de 99, ela pediu pra eu voltar, porque ela falou: “olha eu não estou bem já, tô muito mal, não sei quanto tempo mais eu vou durar, coisa de meses mesmo, então eu quero que você volte pra São Paulo pra você ajudar a cuidar da sua mãe”. Porque nisso a minha mãe já tinha saído da prisão. Eu resolvi atender ao pedido dela e eu nem questionei. Eu voltei pra São Paulo e fiquei. Eu voltei em dezembro de 99 e em Janeiro de 2000 a minha avó faleceu. Coisa de um mês depois a minha avó faleceu. A gente ficou no apartamento que era dela e continuamos tocando a vida né? Mas eu já não sentia mais que eu conseguia voltar. A sensação que eu tinha depois, é... Coisas que aconteceram em três anos, ou seja, eu fui me tornando religioso, cada vez mais religioso a chegar num ponto de ortodoxo mesmo, e em questão de meses eu já não seguia mais nada e a sensação que eu tinha de falar com qualquer outra pessoa que eu conhecesse da época, era de vergonha. Então, as pessoas tentavam ligar pra mim, “o Allan, mas o que aconteceu com você?”, eu fingia que tinha compromisso, “ah mãe, fala que eu não estou”, com uma sensação de vergonha mesmo, ‘pô, será que você não acreditava no que você cumpria, no que você fazia’, então o sentimento que eu tive na época foi de vergonha, do tipo, eu não estou sendo verdadeiro. E aí fui ficando pra São Paulo, fui ficando pra São Paulo.


P/1 — Sua mãe saiu da cadeia, da delegacia e como vocês recompuseram a vida familiar depois disso? É, você falou que vocês pediram falência da pizzaria...


R — É porque até, na época, os meus tios por parte de mãe não queriam tocar o negócio. Meu tio por parte de pai até queria, mas por parte de mãe não queria, só que não dava mais pra tocar o negócio, a pizzaria... O meu pai faleceu dentro da pizzaria, tinham marcas de sangue dele dentro da pizzaria. A alma da pizzaria era do meu pai. Por mais que a minha mãe tivesse sido sócia e por mais que ele tivesse tido outro sócio que entrou com dinheiro... Mas cada detalhe da pizzaria tinha sido pensado pelo meu pai. Era um chalé feito de madeira, era muito específico, tudo dentro da pizzaria era muito específico e não só pra gente que era familiar, mas até para os próprios clientes, pros conhecidos, porque a maioria dos clientes acabava se tornando amigos do meu pai. Pra todo mundo, cada detalhezinho lembrava o meu pai. Então a pizzaria era um projeto inviável de se continuar. É um projeto, um sonho meu e do meu irmão, de que um dia a gente volte a ter uma pizzaria, e cada um ter o seu projeto, mas que volte a ter a sua pizzaria, porque é algo que lembra a nossa infância, lembra a parte mais gostosa da nossa vida, mas, é... Não dava pra... Não havia situação. Então, numa situação que na época podia ser considerada classe média alta vai, _____________  vamos partir pra alta vai, que tudo bem, a gente morava numa casa alugada, mas morava nisso porque o meu pai tinha essa opção de investir dinheiro sempre na pizzaria. Meu pai queria montar uma outra pizzaria no nordeste e aí sim, queria acalmar a vida no nordeste e ficar com a pizzaria de São Paulo, em São Caetano na verdade. Mas não deu tempo de fazer isso. Ah... Então a gente saiu de uma situação… Meu irmão fazia curso de informática, em 93, 94, isso era raro, as pessoas que faziam curso de informática. Eu fazia aulas de inglês na época também. O meu pai tinha carro do ano, tinha dois carros, televisão, geladeira, freezer em casa, ahnn... Os dois tinham bicicleta, não faltava comida, sempre tinha festa em casa, então era uma situação muito confortável e a gente saia para uma situação que é assim: a gente mudou pra casa da minha tia com um sofá e mais algumas coisinhas e as nossas roupas. Algumas coisas foram parar na casa da minha tia, do meu tio, algumas coisas a minha avó pegou e levou pra casa dela pra guardar pra minha mãe, pouquíssimas coisas ficaram com a gente, de repente... A sensação que a gente tem hoje em dia é que tudo o que o meu pai construiu não tinha muita estrutura, porque ele não esperava falecer tão cedo. Quando desmoronou, desmoronou tudo de uma vez só. Não tinha mais uma casa mesmo, o terreno da pizzaria não era do meu pai, então...


P/1 — E o apartamento que vocês tinham em São Caetano?


R — Meu pai já tinha vendido. Foi assim que o meu pai comprou a parte do sócio dele. Ele deu o apartamento pra comprar a parte do sócio. O pensamento do meu pai, hoje em dia, a gente vê, avaliando, a gente vê que o pensamento da parte administrativa foi errado, mas se você olhar na época, “pô”, você não vai acreditar que um cara vai falecer aos 47 anos né? Muito novo pra falecer. Um cara que tem amizade com todo mundo, que a gente não via ter discussão com ninguém, não tem porque falecer assim. Meu pai tinha muito essa visão de empreendedor. “Vamos investir na pizzaria, legal você como sócio, mas agora eu quero tocar do meu jeito, quero tocar 100% do meu jeito, então, toma aqui o apartamento pra você, continua a amizade, mas agora eu toco sozinho”. Essa falta de estrutura, não tinha uma base, fez com que quando o meu pai falecesse, tudo se desmoronasse.

Quando a minha mãe saiu da penitenciária, minha mãe ficou um tempo na delegacia de São Caetano, como ela teve a diverticulite lá, ela não conta até hoje como que ela era tratada lá dentro da delegacia, mas a gente sabe que foi muito mal, muito mal  tratada. O stress, a depressão, a situação, não é só o fato, no caso, da gente ter perdido o pai ou a minha mãe ter perdido o marido, mas a gente também se perdeu durante um tempo. A gente ficou oito meses sem se ver, sem se falar, sem saber notícias um do outro ou quando sabia a notícia não era 100% real e não dava pra você acreditar 100% porque vinha através da família do meu pai, que cortou os laços, na época, definitivamente com a minha mãe.  Então pra minha mãe foi muito pesado. A minha mãe acabou ficando doente, teve a diverticulite, quase faleceu na delegacia, coisa de três, quatro meses depois de o meu pai ter falecido, pra vocês terem noção mais ou menos da situação que ela acabou mergulhando. Ela acabou indo pra penitenciária feminina na [Avenida] Zaki Narchi, aqui em São Paulo. Lá, teoricamente, é só pras pessoas que já foram condenadas, mas era o melhor local, que tinha a melhor estrutura pra que minha mãe fosse, porque a minha mãe tinha acabado de sofrer a cirurgia e precisava ficar numa enfermaria. Minha mãe ficou na enfermaria e acabou continuando lá na penitenciária porque era o melhor lugar pra ela poder ficar. Quando a minha mãe fale... Quando a minha mãe faleceu, Deus me livre... Quando minha mãe saiu da penitenciária, final de 97, eu estava já estudando em Petrópolis. Era o primeiro ano que eu estudava em Petrópolis. Ela saiu, eu lembro, era 15 de dezembro de 97. Eu ainda estava lá. Quinze de novembro, não? 15 de novembro, isso. Eu ainda estava lá e ainda faltavam alguns dias pra acabar o ano letivo e a gente vir pra São Paulo e ficamos sabendo, do nada, que já era o nono pedido de habeas corpus, então o advogado já nem mais avisava pra gente que ia fazer o pedido de habeas corpus porque pra gente já era uma coisa rotineira o pedido dele. “Ah... todo dia vai ter pedido de habeas corpus e mais uma vez vai ser negado”. E esse aí foi lá no Supremo Tribunal Federal. Quando o meu irmão e minha avó receberam a notícia, imediatamente eles ligaram pro meu tio, irmão da minha mãe e ligaram pra mim em Petrópolis. Na época, em Petrópolis, era engraçado, porque era assim: tinha um telefone só nos dormitórios, um telefone na cozinha e na época ainda não tinha, mas depois voltou a ter um orelhão mesmo no meio do Yeshiva e era só isso, não tinham mais telefones. E o que acontece: eu estava no meio de... eu não sei onde eu estava, aí falaram: “olha Allan é pra você ir pro dormitório que o seu irmão está querendo falar com você urgente, que é alguma coisa sobre a sua mãe.” Eu fui correndo, obviamente, pros dormitórios, pensando que alguma coisa tivesse acontecido com ela, aí o meu irmão, eu lembro até hoje,  que ele falou assim, “Não... Allan, a mãe saiu da penitenciária, ela vai ser solta, acho que amanhã ela já está aqui em casa que o....” , aí eu já nem estava ouvindo mais direito nessa hora, “...o advogado conseguiu o habeas corpus”. Aí... Nem preciso dizer a sensação de felicidade do momento. Eu conversei com os rabinos, eles falaram: “não, vai pra São Paulo agora, pega um ônibus e vai pra São Paulo agora e vai lá receber sua mãe. Fica uma semana lá, a gente conversa com os professores pra eles te darem essa semana de licença”. Eu fui e fiquei uma semana em São Paulo, com minha mãe, é óbvio, e voltei pra terminar as provas que eu tinha ainda prova pra fazer. Aos poucos a família foi se reestruturando, porque minha avó era zeladora do prédio onde ela morava, que é esse prédio onde a gente mora até hoje. A minha avó conseguiu com a síndica, porque, a minha mãe na situação que ela estava, ou seja, aguardando julgamento, e quando você fica aguardando julgamento você fica com antecedentes criminais por mais que você seja inocente ou não, você fica com antecedentes criminais e... Era difícil a minha mãe conseguir arranjar emprego, ainda com 40 e poucos anos, sempre trabalhou com o meu pai, obviamente sem carteira registrada, sem nada, porque trabalhava como sócia, então a minha avó arranjou pra minha mãe pra trabalhar como porteira do prédio. “Óh, você fica aqui no próprio prédio, é simples, você não se cansa tanto, e é uma maneira de você arranjar o que fazer, arranjar uma renda”. A minha mãe começou a trabalhar lá. Meu irmão começou a trabalhar, até mais jovem, com 16 anos ele estava trabalhando, tirando o que a gente trabalhou na pizzaria do meu pai. Começou a trabalhar com informática. E eu só fui trabalhar depois de bem mais velho, eu sempre investi no estudo.  Minha mãe até hoje trabalha na portaria, nosso sonho (risos) é aposentar ela, tirá-la da portaria, porque a gente acha que não é o que ela planejou pra vida dela, não foi pra isso que ela estudou. Meu irmão graças a Deus está muito bem. Essa crise econômica pegou ele meio que de supetão, mas já está bem, trabalha com banco, até agora pouco estava como diretor comercial de um banco. Agora ele saiu do banco por causa da crise econômica, porque é um banco de investimento, só trabalha com pessoa jurídica, então a crise econômica pra eles foi muito séria. Agora ele está trabalhando com uma empresa de informática como representante comercial da empresa. Uma empresa que os amigos dele montaram, então ele está tentando ver se vai dar certo ou não essa empresa. Eu comecei a trabalhar com 20 anos, comecei tarde pra caramba, 2005. Eu comecei a trabalhar na Atento, no telemarketing, uma coisa que pra mim era inviável, porque detesto telefone e não sou uma das pessoas mais sociáveis (risos). Comecei a trabalhar com telemarketing  porque já estava com 20 anos e já estava numa situação complicada de falar pra família que eu não conseguia emprego. Comecei numa empresa que é concorrente nossa, chama Atento, que é uma das gigantes do mercado. É uma empresa de capital espanhol do Grupo Telefônica. Comecei trabalhando numa operação do Banco do Brasil, lá dentro eu virei ouvidor do Banco do Brasil, mas pela Atento, participei de um processo seletivo pra ser atendente corporativo da operação da Sky. Na época a conta da Sky era com a Atento. Aí foi. Passei e comecei a trabalhar com a operação da Sky, só que com atendimento corporativo, que era o atendimento de hotéis. Teve a fusão da Sky com a Directv, a Directv tinha uma empresa que era a Syetel e a Sky tinha uma outra empresa que era a Atento. A Syetel não tinha estrutura para comportar essa nova empresa gigante, a Directv, que tinha na época 400 mil clientes, mas a Sky já tinha um milhão e pouco, se juntar todo mundo a Syetel não ia ter estrutura pra aguentar isso, então ela já perdeu a conta logo de início. Estava quase que na mão da Atento, porém, a Telefônica, pouco tempo antes de fechar negócio entre a Sky e a _________ o Grupo Telefônica comprou parte das ações da TVA e isso fez com que a Sky, essa nova empresa, não quisesse contato com a Atento. Falou: “Oh, eu não quero uma empresa que seja ligada a uma concorrente minha, porque se um dia vocês precisarem de atendentes pra TVA, com certeza, o Grupo Telefônica vai forçar vocês a tirarem da nossa operação alguém que já treinou, já está pronto, pra levar pra TVA. Então a gente não quer mais negocio com vocês.”

A Teleperformance estava tentando a conta, mas nem com tanta esperança, talvez, eu creio, de repente, ganhou a conta no colo. Não sei se foi 100% assim a negociação, mas pelo menos o que chegou pra gente foi isso, até porque não sou da área comercial, não conheço muito o pessoal da área comercial. Eu acompanhei a Sky indo pra Teleperformance, lá realmente eu tive o maior crescimento, porque até então eu ainda era atendente. Eu entrei lá como operador da parte corporativa e em três meses eu virei assistente. O salário que era x, virou quase que o dobro. Aí de assistente em poucos meses eu mudei para uma outra área, mas também como assistente. No final de 2007, ou seja, eu entrei na Teleperformance em 2007 como atendente, no final de 2007 eu já tinha sido promovido pra Assistente e fui promovido de novo pra assistente da gerência, aí eu cuidava só de relatórios. Eu fiquei do final de 2007 até o final de 2008, até novembro de 2008, como assistente da gerência. Trocou a gerente, entrou outro gerente e fiquei assistente dele, cuidando só da parte de relatórios também. No final de 2008 ele mesmo negociou com a Sky uma proposta de eu ir trabalhar junto a Sky, como funcionário da Teleperformance, mas na análise de qualidade, cuidando só de relatórios.    


P/1 — ______________________________________.


R — É mais frio, mas a sensação que você tem é que está mais gostoso, né?


P/1 — Allan, deixa eu voltar um pouquinho antes de você falar mais um pouco da sua atividade atual na Telefonica, na Teleperformance...  eu queria que voltasse um pouquinho a parte de estudos, porque você estudava lá em Petrópolis no colégio, aí a sua mãe saiu do presídio e você veio pra São Paulo. E você foi estudar aonde?


R — Eu resolvi... Vim estudar num colégio público aqui no Centro de São Paulo, mais pra Santa Cecília que é onde eu tinha estudado dos meus 11 aos 12 anos, antes deu ir pra Petrópolis, que é um colégio chamado Fidelino Figueiredo. É um colégio público, não é nem um pouco modelo, ruim até pode se dizer, mas que foi bem útil na época, eu aprendi bastante, sempre fui, não fui um dos caras mais esforçados pra realizar estudo, mas sempre fui mais de prestar atenção na aula pra evitar ter que revisar depois em casa. Estudei até o segundo ano lá, no terceiro ano acabei recebendo uma pensão durante um tempinho que era da... Acho que do meu pai e eu pude voltar a estudar num colégio particular,  estudei só o terceiro ano num colégio particular, mais próximo da minha casa ainda, era um colégio chamado Poliedro. Era um colégio também pequeno, tinha poucas pessoas, minha sala tinha sete, oito pessoas, ali lá tentei fazer na verdade um preparativo pra fazer a faculdade de arquitetura, que na época eu queria fazer na USP que é “a” faculdade de Arquitetura. Estudei e tudo mais, mas talvez eu não me esforcei o suficiente, não li a quantidade que eu deveria ter lido, fiquei acho que uns dois, três pontos da nota de corte do vestibular e não passei. Tentei de novo, comecei estudar técnicas de desenho e tudo mais, porque a prova da USP é feito em duas partes. A parte do vestibular normal e aí tem a segunda fase que é voltada a área que você quer entrar. Na parte de arquitetura tem uma prova de desenho, não somente de desenho, mas uma prova relacionada a artes. Eu só queria ter mais certeza do que poderia cair, porque eu desenho bem, mas queria ter certeza do que poderia cair na prova. Estudei isso, aí tentei me inserir no mercado, fui fazer curso de Autocad, que é da área, fiz curso de Autocad e não me ajudou em nada, resolvi fazer Escola Panamericana em Design de Interiores. Fiz o curso completo, mas no final já não era algo que me deixava satisfeito. Que assim: você imagina minha sala, eram 20 alunos, 19 mulheres, eu e a professora, tirando que na época eu aprendi tudo sobre o universo feminino, sobre o que é uma bolsa (risos), uma chapinha, escova, que as conversas eram relacionadas a isso. Futebol era um assunto que nem entrava na sala... Eram mundos diferentes. A maioria das pessoas lá eram mulheres mais velhas, já casadas e que estavam fazendo por hobby, o Design de Interiores. É... Tinham muito dinheiro no geral e... Na verdade, marido, elas mesmo, ou a própria família podiam bancar sem problema algum o estudo. Na verdade era bem hobby. Por mais incrível que pareça, pra área de Design de Interiores é muito importante isso, porque você começa a conviver no mesmo círculo de pessoas que podem ser seus clientes. Seus clientes no geral vão ser pessoas, mulheres casadas, que gostam dessas coisas e que já tem um poder aquisitivo melhor. Elas já faziam parte daquele público alvo que seriam delas como decoradores, como designers. Eu já não. Na época eu era operador de telemarketing, usava o meu salário inteiro e uma parte do VR pra poder pagar a Panamericana e... Homem, não é do mundo feminino, então me sentia um pouco deslocado, não conseguia me imaginar indo visitar uma casa de uma cliente e pegando ela pra bater perna num shopping, num Lar Center da vida, ou ir andar na Gabriel Monteiro, por exemplo,  pra ficar olhando... “Vamos olhar sofá, vamos ver textura, vamos ver isso”. Eu não, eu tinha um senso mais prático, um sensação de, “tem que fazer um projeto, vou fazer assim, assim, assado. Gostou, não gostou, troca isso, acabou ...”, eu não tinha esse perfil, que o decorador, no caso, tem que ter. Eu tinha mais o perfil do designer mesmo. Não consegui, durante o tempo que estudei lá, me inserir no mercado, continuava trabalhando com telemarketing, às vezes eu faltava nas aulas por causa do trabalho, porque eu tinha que fazer alguma coisa pro trabalho, eu queria inventar de fazer um relatório. Eu era operador na época, queria fazer um relatório pro trabalho, aí cada vez eu ia ficando mais próximo de relatórios, mais próximo de relatórios e cada vez mais longe de design de interiores. Até que chegou um ponto que eu falei, “não, realmente não tem nada a ver comigo, só que agora eu já estou no final, faltam mais seis meses, eu vou terminar.” Terminei o curso e em seguida... Terminei em dezembro. Janeiro e fevereiro comecei a fazer faculdade, só que eu já perdi um pouco daquele dom que eu tinha, pode até ser chamado de arrogância, “vou fazer faculdade, vamos fazer a melhor faculdade, tentar fazer a melhor faculdade, vamos trabalhar, quero trabalhar na melhor carreira possível, quero começar lá de cima”, isso é coisa que a gente tem quando é mais jovem, quando é mais criança, adolescente ainda. Chegou um momento que eu resolvi realmente fazer administração, que acho que foi o ponto onde eu começo deixar de ser adolescente pra amadurecer definitivamente. Comecei fazer administração e nesse mesmo ano entrei na Teleperformance. É exatamente o ponto em que começo a dar a guinada de carreira, vida mesmo, condições sociais até poder, hoje em dia por exemplo, o meu irmão não mora mais lá em casa, tá trabalhando sozinho com a esposa dele. É... Poder dividir as contas com a minha mãe numa boa, sem ter problema nenhum. Antigamente eu dividia com ela a Panamericana, hoje em dia eu divido na verdade as contas e pago minha faculdade e ainda vou comprar minha moto, então [estou] numa condição muito melhor do que era antigamente. Acho que assim, aos poucos a gente vai retomando o que a gente teve que dar uma interrompida 14 anos atrás.


P/1 — Em que faculdade você está estudando?


R — Eu faço a Uninove. Faço Administração Geral de Empresas. Quase nada a ver com Design de Interiores (risos). Eu acabei me achando muito mais nesse curso. Já estou no terceiro ano, ano que vem eu me formo. Até acho que pelo lado prático, a bagagem que eu trago do Design de Interiores é muito útil, não a parte de desenho, mas como a Escola Panamericana tem toda uma cultura voltada ao conceito de criatividade, do que é criatividade... Criatividade não é dom, é algo que se treina, é algo que se estuda. Eu levei muito isso pra administração, no ponto dos problemas novos, exigem soluções novas e isso exige obrigatoriamente ser criativo, tentar pensar, como a gente fala muito, pensar fora da caixa. Olhar as coisas de uma outra perspectiva. Isso, o fato de ter feito Design de Interiores me ajudou bastante, porque me torna mais solto na hora de pensar uma coisa. Não preciso... “Tem que ser processo assim, assim, assado”. Não. “Por que a gente não pensa isso de uma outra maneira?” Inverte as coisas. E acabou me ajudando bastante. E termino ano que vem a faculdade e já estou pensando na minha pós que vou fazer. Acho que pelo menos agora, carreira eu já me achei. É... Profissionalmente. Acho que uma das melhores opções que eu pude fazer, na época, foi aceitar a proposta da Teleperformance e não ficar na Atento. Não que eu não pudesse ter chance dentro da Atento, mas a quantidade que eu tive dentro da Teleperformance, acho que eu não teria em outro lugar.


P/1 — E você quer direcionar a sua carreira para que área?  


R — É bem possível, eu ainda estou pensando, mas é bem possível que eu acabe direcionando ela para área financeira. Eu não trabalho ligado à área financeira, mas trabalho muito ligado a números, com análise de números. Mas é bem capaz que eu faça, pretendo fazer pelo menos o curso que eu vi, chama Gestão Financeira, com ênfase em controladoria e auditoria que é da Fundação Getúlio Vargas, da GV. Pretendo fazer, pretendo ter condições e preciso que eles me aceitem lá porque tem entrevista. Não é muito a minha área ainda, mas eu pretendo ir aos poucos guiando minha carreira pra esse lado.


P/1 — E o seu dia-a-dia hoje? Seu cotidiano?


R — Corrido (risos), bastante corrido. Acordo às sete pra chegar no trabalho às nove, demoro demais no banho, demoro pra acordar. Trabalho das nove às seis. Tem que ser obrigatoriamente até às seis porque eu tenho que sair correndo pra chegar às seis e 20, seis e meia na faculdade, que eu dou monitoria de Teoria Geral da Administração, dou aula de reforço pro pessoal do primeiro semestre. Vai das seis e 20 até às sete e dez. Sete e dez eu tenho que correr porque eu tenho que estudar no outro prédio da faculdade, um prédio fica a distância de 300 metros um do outro, mas eu saio sete e dez, corro pra ir pra minha aula mesmo, pra onde eu tenho aula, saio de lá dez e vinte, dez e meia. Estudo com um amigo, tenho a sorte de estudar com um cara que já é amigo meu desde antes da faculdade, a gente entrou na faculdade juntos e entrou na mesma sala. Eu pego carona com ele, a gente vai pra casa de um outro amigo, que mora sozinho, que é notívago... Vive a noite, ele prefere viver a noite. Se tiver que trabalhar, ele prefere trabalhar à tarde, pra dormir de manhã e ele cozinha e faz comida pra todo mundo. Minha mãe normalmente faz almoço só pra ela, porque só fica ela em casa, eu acabo dispensando ela de fazer janta pra mim e a gente ajuda ele, obviamente, com dinheiro pra poder comprar arroz, feijão, carne, uma coisa assim, ele faz comida pra todo mundo. Junta a noite na casa dele, tipo umas dez e meia, 11 horas, junta umas quatro, cinco, seis pessoas pra comer lá. Come, aí começa a bater papo, começa querer descansar, trocar idéia, aí nessas horas eu vou dormir uma hora da manhã, uma e meia, duas horas da manhã, e acabo dormindo muito pouco. Aproveito o final de semana pra dar uma descansada melhor, e normalmente é no sábado que já acabou a pilha e não aguento mais.


P/1 —  Allan, essa parte religiosa, você continuou, tem seguido, participa dos eventos judaicos?


R — A minha condição com o judaísmo, hoje em dia, ela ganhou uma outra proporção, porque tem várias fases com o Judaísmo. Fases de total desconhecimento quando foi na minha infância, fase da descoberta, muito diferente pra mim, depois aprofundamento a ponto de ser ortodoxo e depois, de repente, largar tudo, mais ou menos,  a sensação de largar tudo, um sentimento de vergonha que eu tive na época, e hoje em dia eu tenho um sentimento de que eu não posso querer compreender tudo, que eu, nem quando for mais velho, que talvez seja esse o objetivo da vida, querer sempre aprender algo mais e nem sempre ter razão e, principalmente, nem sempre saber se você tem razão. Minha condição com o judaísmo, hoje em dia, acaba por todos esses motivos, acaba sendo por uma condição de orgulho, principalmente por ser um povo muito unido, são pessoas, no geral, muito humildes, de uma capacidade imensa de fazer bem ao próximo, não só entre os judeus, mas com os próximos também, com a comunidade local, é... Uma sensação de respeito que eu tenho pelos judeus e pelo judaísmo em si, pela (ischemia?), pela religião, mas com a parte da religião em si, a maioria das coisas eu não cumpro, eu sou mais ligado até aos preceitos. Algo como, por exemplo, não querer fazer mal ao próximo, ao fato de tomar cuidado com o que se fala, porque com o que se fala você, na verdade, está atingindo a pessoa, a questão de sempre quando for cumprimentar alguém ter a tendência de abaixar a cabeça, mostrar respeito, que você confia naquela pessoa, procurar ter respeito pelos mais velhos, mesmo quando eles parecem um pouco mais atrasados, bem mais atrasados que você, até a maneira às vezes de pensar, ter respeito por eles, o sentimento de sempre “eu tenho contas a prestar com alguém”, sempre agradecer pelo dia que eu tive e esperar que o dia de amanhã seja melhor. Eu sempre tenho o costume, engraçado, quando eu saio de casa, pra ir trabalhar, enquanto o elevador não chega, assim: “que hoje seja melhor do que ontem, mas que seja pior do que amanhã, pra que amanhã seja muito melhor e que assim seja sempre, uma escada, pra que cada dia seja melhor que o outro”. Em casa eu tenho os meus Hamsas... protege a nossa casa, não deixo ninguém tirar, não deixo ninguém tocar lá, sigo ainda até hoje o Yom Kippur, é uma das poucas coisas que eu sigo pra valer mesmo. Não sigo no fato de me resguardar, ou seja,  ficar em casa ou ir pra Sinagoga rezar, não consigo porque normalmente cai num dia da semana e até hoje esse sentimento de vergonha que tenho perante a comunidade, ainda existe. Tenho um pavor tremendo de encontrar alguém que tenha estudado comigo na época e me reconhecer (risos) e falar: “pô, você não é mais religioso...”, então, eu não frequento muito as Sinagogas, mas eu sigo ainda as minhas coisas, do meu jeito. O jejum eu sigo. Mesmo no trabalho, ainda sigo. Apesar do pessoal tirar bastante sarro da minha cara. Não, porque eles fazem questão, estava até contando pro Kleber,  que o último agora do Yom Kippur, foi em 2008, em Setembro. O pessoal entrou no Google e descobriu que tava chegando o Yom Kippur, que cai normalmente numa data ou outra, porque no calendário lunar tem dez dias a menos que o calendário solar, é o calendário que a gente usa aqui. Descobriram a data do Yom Kippur e descobriram que eu cumpria. Nesse dia eu nunca vi tanta água na minha frente, que não pode beber, não pode comer, as pessoas de vez em quando passava com squeezes... “oh Allan, quer água?”, “não, obrigada, estou de jejum”, “oh... mas você não quer mesmo?”, aí virava, virava, a água pra beber a água, fazia distância pra tirar sarro, nunca recebi tanta comidinha também naquele dia. Ganhei Nutri, bolo, me deram suco Dell Valle, e iam colocando na minha mesa só pra tirar sarro da minha cara. Mas, no geral, as pessoas respeitam bastante e são mais curiosas, sempre tem os amigos que querem tirar sarro.


P/1 —  A gente já está encaminhando pro final do depoimento  e tenho algumas perguntas pra finalização. A primeira é o seguinte: você tem um sonho que você quer que seja realizado?


R — Tenho vários. Tenho mania de querer dividir as coisas. A minha mãe fala que eu sou muito analítico, muito chato, perfeccionista. Os amigos costumam me chamar de Monk, que é aquele personagem de uma série que ele é cheio de toques, trejeitos, arrumar as coisas, tem problema com o quadro torto. Já passei cada vergonha em churrascaria por ter que arrumar o quadro porque o quadro estava torto e eu não consegui comer. Vou lá, arrumava o quadro da churrascaria. Mas é natural.

Então, eu tenho sonhos, mas eu divido todos eles de uma maneira muito analítica. Sou muito de ter metas, não tanto sonhos, mas metas. Ou seja, “eu vou alcançar, como eu vou chegar lá eu vou definindo”. Tinha um sonho que era assim: “eu preciso trabalhar”, consegui trabalhar. “Eu preciso começar a fazer uma faculdade”, eu comecei fazer faculdade. “Não gostei da faculdade, preciso trocar de faculdade”. Troquei de faculdade. Falei, “preciso crescer profissionalmente”, consegui crescer, cresci duas vezes no mesmo ano, no terceiro ano, cresci mais uma vez. “Agora, preciso terminar a faculdade e preciso começar a fazer uma pós”. Com isso tudo acabei deixando o lado amoroso do lado. Pensei: “não, agora preciso resolver o meu lado amoroso”, mas até o lado amoroso funciona de uma maneira muito exata, muito, tem que ter meta, tem que funcionar assim (risos). Espero que minha futura namorada ou sei lá o que, não saiba nunca disso, que eu funciono dessa maneira, mas eu sou muito perfeccionista.

Quero chegar num ponto, estipulo um prazo, estabeleço metas, minha meta maior, pelo menos profissionalmente, já falei várias e várias vezes, é a presença de uma empresa. As pessoas normalmente olham e falam: “pô... mas você está longe pra caramba disso...”, aí eu falo, “tem 17 anos pra isso acontecer”. Que o meu prazo é até os 40, chegar na presidência. Lá na época eu tava com 23, ________________  se eu conseguir ir subindo aos poucos de ano em ano, a hierarquia não é tão longa até lá, dá pra eu chegar fácil até. Consigo chegar até os 17 lá. Tudo bem que cada vez vai demorar pra ter promoções. Na parte de estudos, quero terminar a faculdade agora, e começar já o MBA. Eu tenho a intenção de lecionar. Eu gosto de falar bastante, apesar de ser tímido, mas eu gosto de falar, acabei aprendendo a falar em público. Detesto falar com uma pessoa só desconhecida, mas se eu for falar em público, consigo me dar bem. Tanto que por isso que eu dou monitoria na faculdade, a faculdade vai me oferecer depois a pós, apesar de eu não querer fazer a pós lá. é... E da vida amorosa eu vou ser familiar mesmo, porque eu tenho vontade de constituir uma família, mas aquele negócio, né, a gente sempre quer mudar alguma coisa que aconteceu de errado com a gente, a sensação que eu tenho é assim, a maneira como minha família não foi bem estruturada financeiramente, e de repente a gente perdeu tudo, eu procuro estruturar tudo muito, eu parto por um outro ponto, né? Eu quero estruturar exatamente tudo, da maneira mais correta possível pra que se acontecer alguma coisa, eu sempre seja resguardado.


P/1 — Você quer falar alguma coisa que acha que a gente não perguntou?


R — Não. Só voltando a pergunta que eu falei que tinha 30 alunos no colégio de Petrópolis, mas de resto, não. Achei bacana a iniciativa da empresa, achei bacana a idéia do Museu. Eu sempre fui ligado a isso, sempre conversei muito com meus tios-avós, eu tenho principalmente um tio-avô que é mais ligado ainda a essa questão de família do que eu, ele procurou realmente pesquisar a árvore genealógica, ele foi descobrir os sobrenomes da família, a origem do sobrenome, a explicação porque é Chaya, que vem de Yeshai, que é Isaías em hebraico, na verdade, é uma homenagem ao profeta Isaías meu sobrenome e... Eu sempre fui muito ligado a esta questão cultural. Voltando aquele negócio, se você não sabe de onde você veio, você não sabe pra onde você vai direito. Você precisa ter o início da linha e precisa ter o final da linha. É assim que a gente faz um caminho. Se você não sabe onde começou, você não pode continuar. Essa linha não tem uma trajetória tão reta. É aquela mesma questão, por exemplo, por que passam tantos filmes de Holocausto? É porque ninguém pode esquecer o que aconteceu no holocausto. Porque se você esquece, você dá a chance pra acontecer de novo. Por que, que passa tanto filme de guerra? Pra você saber exatamente o que é uma guerra. Pra você não cometer, não fazer uma guerra. Por que senão as pessoas esquecem. Quando a coisa é real, beleza, mas depois de um tempo ela vai se tornando uma história, uma lenda, um mito, “talvez aconteceu aquilo”. Acho sempre importante lembrar da sua história. Porque que você é assim, porque que você é assado. Pra que sua história não se torne também um mito, né?


P/1 — Se você pudesse voltar numa máquina do tempo... você mudaria alguma coisa na sua vida?


R — Dizem que o ideal é não querer mudar as coisas, mas eu tentaria, se eu soubesse tudo que ia acontecer hoje até agora, tentaria mudar o meu jeito de ser principalmente com os meus pais, com a minha mãe eu tentaria mudar o jeito de ser e, principalmente, com o meu pai, eu mudaria absoluto... Tudo. É... Eu era um bom filho, meu pai era um bom pai, mas até por ele ser ligado muito ao trabalho, eu tive pouco contato com ele. Meu contato com o meu pai era... Pode-se dizer, quase que profissional, tinha pouco de pai e filho. Meu pai tinha muitas coisas legais, ele fazia questão de acordar a gente de manhã, acordava a gente cantando, apesar de ser desafinado, acordava a gente cantando, era um cara super bacana, mas se eu pudesse, gostaria de ter voltado pra conhecer um pouco mais o meu pai.


P/1 — Bom, então a gente agradece a sua vinda aqui Allan.


R — Eu é que agradeço.

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