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História

À caça da onça, das tropas e do ouro

História de: Pedro Alves de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/05/2010

Sinopse

Ao falar de sua vida, Pedro Alves de Souza revela também a história recente do Estado que escolheu como seu, o Maranhão. Apesar de ter nascido em Oeiras, no Piauí, foi ali, nas muitas cidades por que passou, que ele delineou sua trajetória, sempre em busca do sustento da família, formada pela mulher e pelos filhos adotivos. Depois de muito lidar na roça, Pedro exerceu uma profissão quase esquecida, a de tropeiro. Conduzindo burros de carga, transportou muito arroz, algodão e babaçu pelo interior e ouviu e repassou muitos causos, do caipora à da “caça” da onça que ele confundiu com um gato. Também trabalhou na estrada de ferro e, nos anos 1980, foi tentar o garimpo de Serra Pelada. Ainda sobrou disposição para ser vigia de uma escola, onde sua vocação para contador de histórias foi percebida e valorizada por professores e alunos.  

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História completa

Meu nome é Pedro Alves de Souza, sou de Oeiras de Piauí, nasci em 18 de novembro de 1942. Depois viemos para Pedreiras, no Maranhão, cidadezinha que tem aqui no interior do Maranhão, no Alto Mearim. Lá, eu regi uma temporada, me casei no Bom Jardim, quando não era cidade, pertencia a Monção nessa época, que era cidade. Eu me casei lá. E, de lá, mudei para Imperatriz e estou aqui agora na Açailândia.

Aqueles mais velhos sempre tinham uma história para contar, aquelas lendas que contavam para as crianças, falavam que existia lobisomem, que corria. Essas coisas que tudo é lenda. Do caipora, a gente que caça de noite vê. Eu gostava muito de caçar tatu mais aqueles vizinhos mais antigos, que tinham os cachorros bons de caçar tatu, paca.

Só [história] perigosa mesmo que eu fiz. De eu matar essa onça porque eu não enxerguei nem as pintas delas, eu pensei que fosse um gato. Depois que eu matei, fiquei com medo, porque, no que eu atirei nela, ela caiu, e um cachorro que eu tinha partiu em cima, e ela pegou o cachorro assim, e rasgou desse tanto a cabeça do cachorro. E eu estava na mata, cinco horas da manhã, eu arranquei o facão da cintura para bater no pé de pau que ela estava em cima, ela virou a cara e rosnou. Eu disse: “Vixe, isso é um gato.” Quando ela caiu no chão é que eu vi que era uma onça. Aí que me deu o medo. Mas já estava morta, não teve mais jeito. O jeito era apear e trazer para cá para tirar o couro. Foi só o susto que eu tomei. A presa da onça, tirei para não ficar por mentiroso. Cabra diz: “Não, isso aí você não matou.” Então, eu tirei a presa para mostrar. Guardo no bolso, quando terminar, guardo ali. Aí, os netos vão crescendo e vão vendo. “Esse foi o meu avô que matou.” Prossegue a história, passando, como se diz, de geração para geração, se tiver cuidado de guardar, como eu guardei, né?

Trabalhei de roça e de tropa, tropeando burro, tangendo burro do interior para a cidade. Trabalhei “tropeando”, carregando gênero para Pedreiras, algodão, arroz, milho, babaçu. Era uma vida corrida. Nós tínhamos duas tangidas de burro para sobreviver, ganhar um dinheirinho. Naquele tempo, quem tinha uma tangida de burro já era meio preço de um caminhão. Em certas épocas, ganhava um dinheirinho de manutenção de casa.

Trabalhei na estrada de ferro. Passei uma temporada. Conheço desde aí de Santa Inês, do desmatamento, até sair aqui. Não, praticamente conheço até Carajás, porque já viajei de trem até Parauapebas, que é pertinho. Isso aqui, naquele tempo, ela veio rasgando na Mata Atlântica mesmo. Muito pouco desmatamento aí para o meio. Depois que foram surgindo, beirando ferrovia, essas fazendas e pegaram a terra que era titulada, eles indenizavam e pagavam. Tinham as matas que pegavam os trilhos, para colocar ali, botavam os dormentes. Aí, ia aquele povo para parafusar ali, para apertar. Pesado.

No Alto Alegre tinha índio, aqui no Maranhão. Tinha não, tem. Tem a aldeia do Guajá e do Guajajara e, lá na Pará-Maranhão, tem o Timbira e tem o índio Urubu. Eu convivi com eles muito tempo. Eles vivem mesmo só da caça e da pesca, os índios. Pedacinho de roça pequenininho que ele põe. Quebra coco, ia vender lá. Meu irmão tinha um comerciozinho lá. Nesse tempo, eu era solteiro, eu ficava de cinco horas da tarde até as oito da noite pesando babaçu, que eles traziam para vender, para comprar farinha e o arroz, para ele levar para comer.

Em 82, em 80, surgiu a Serra Pelada, e muita gente debandou do emprego aí. Foi o meu caso também, que eu vim por lá. Nunca ganhei dinheiro, mas investi um dinheirinho que eu tinha lá. Nunca recebi nada. Nunca peguei ouro, nem nada. Que a vontade de ganhar tira o medo de perder, com certeza absoluta. Você vai investindo numa coisa, num objeto, pensando que dá certo e às vezes não dá. Você só investe uma coisa no sentido de ter resultado naquilo. E, às vezes, a coisa dá diferente. É o que acontece com muitos garimpeiros. Dá bom para uns. O ouro não é para todos.

Já estava por aqui mesmo, morando aqui, fui botando rocinha por aí, trabalhando. E surgiu uma vaga de vigia no colégio. “Ah, estou cansado mesmo, eu vou ficar é por aqui.” Trabalhei uns seis anos de vigia, adoeci, me aposentei, não aguento mais trabalhar. Estou em casa agora, só olhando para a velha, e vontade de trabalhar e não posso.

A nossa aventura mesmo, o nosso forte mesmo foi só trabalhar, coitada. Ela [minha mulher] também foi criada sem pai e estudou pouquinho, não teve oportunidade. Até também porque não deu tempo, porque, com 12 anos, eu tomei conta dela logo. Não deu tempo de estudar. Maranhense é bicho danado, casa cedo. E não teve filho, eu criei os filhos ali e estamos vivendo até hoje assim mesmo, sossegados. Nós não somos ricos, mas dá para viver. Porque somos pobres, mas isso não é defeito, não. Pobre também vive bem.

É, minha vida é um romance. Foi apertada, mas, para mim, foi bom, porque ainda estou contando a história até hoje.

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