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História

A chegada de uma nova vida

História de: Maria Clara
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/09/2019

Sinopse

Maria Clara sempre trabalhou muito para ajudar seu marido e cuidar de suas filhas. Quando começou a ter problemas de relacionamento com Maria, sua filha, e seu marido a expulsou de casa, estava perdendo as esperanças. Mas a admissão de sua filha no Projeto ViraVida e o nascimento de uma neta reavivou as esperanças de Maria Clara em um futuro melhor. 


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História completa

Meu nome é Maria Clara. Tenho quarenta anos. 

O meu pai, logo quando começou, ele trabalhava com negócio de madeira. Depois veio negócio de embarcação, trabalhar em negócio de embarcação, tirando pedra no mar pra poder sobreviver. 

Nós éramos treze filhos, [ele] deu duro, mas nenhum de nós deu pra fumar droga. Sempre ensinando e sempre dando o bom e o melhor pra nós. A gente nunca deu pra roubar. Uma lição boa que ele me deu muito. 

Minha casa era de madeira, nunca deu para o papai construir de alvenaria. Aí surgiu a oportunidade pra cá; meu irmão veio pra cá, comprou uma casa aqui. Deu certo de ele comprar uma casa aqui, a gente veio. Como lá no interior não é lá essas coisas de emprego, a gente veio ‘coisar’ [tentar] a vida aqui. Cada um que vinha de lá morava nessa casa, pra não pagar aluguel. 

Minha infância foi boa. Foi boa sim, por uma parte, e por outra parte não foi muito boa, porque eu queria sair e minha mãe não deixava. 

Eu gostava muito era de dançar, de estar na festa. A música era brega. (risos) Era do passado, músicas do passado. Só que a minha mãe não deixava muito, nessa época ela prendia um pouco - mas nem tanto assim, a minha virgindade eu fui perder com dezenove anos. Foi aí que eu peguei a Maria. 

Quando os homens começaram a arrumar mulher já começou a esvaziar a casa; ficamos só eu mais duas mulheres, o resto já tinha saído. As únicas três, que foram as últimas - eu, a outra minha irmã e mais a outra que mora aqui também -, ele não deixou trabalhar. O resto foi tudo trabalhar pra ver se ajudava, mas pegaram bico, não quiseram ajudar nada. E a gente, mulher, já imaginava ajudar. 

Eu não tinha estudo, não dei valor ao meu estudo também e aconteceu isso aí. Ficamos lá um bom tempo, uns vinte anos. Depois arrumei marido e vim embora pra cá.

Eu já estava com nove anos quando comecei a estudar. Minha técnica não foi muito pra estudo, eu não gostava muito de estudar. Eu gostava muito de aprender a fazer as coisas, sempre quis ter uma profissão na minha vida. Todas as coisas que tinha lá eu me empenhava pra fazer. 

Eu fiz curso de corte e costura, que é de costureira. Eu fiz também de crochê, bordar, umas outras coisas também. Muitas coisas eu fiz. Tudo que aparecia eu procurava fazer, eu procurava aprender. Eu pensava assim: tendo uma profissão pra mim mesma eu tinha como ajudar meus pais, que tem tanto aqui nessa casa… Quem ajudou eles fui eu, com um pouquinho que eu tinha.  

O meu primeiro trabalho foi esse, de costureira. Tenho quatro anos de carteira assinada. Eu vim pra cá, aí eu fazia crochê pra ajudar, porque eu gostava muito de ter meu dinheiro. Às vezes eu pedia ao meu pai, não tinha como ele me dar. Eu fazia crochê, tudo que aparecia pra eu aprender eu fazia pra revender. Eu oferecia. Eu já cheguei a vender até crochê na rua pra ter minha própria casa. 

O meu esposo eu conheci lá na minha cidade mesmo. Ele foi pra lá atrás de trabalho. Conseguiu um trabalho, começou a trabalhar como entregador de cerveja, aí a gente se conheceu. A gente se rolou, aí veio a primeira filha minha, foi essa mais velha, 21 anos. A gente ficou junto. Ele tem 38 anos, eu tenho quarenta, e estamos juntos até hoje.

Passei dificuldade? Passei. Logo quando a tive, passei muita dificuldade. Minha mãe jogava na cara porque eram muitos irmãos, aí meu pai me chamou e disse: “Olha, se tu queres ficar com ele, tu vais ficar; se não eu te aceito assim mesmo dentro de casa.” Mas a gente erra uma vez, a segunda vez a gente erra se for burro. 

Quando tem muito irmão, um joga na cara do outro: “Ah, tu estás aqui porque tu pegaste filho.” Começava a chamar tudo quanto é palavrão, aí eu preferi ficar com ele. A gente enfrentou a vida, ele nunca deixou de trabalhar pra dar o pão de cada dia em casa. Quando ele ficou comigo ele estava com dezessete anos, eu estava com dezenove, mas nem por isso que a gente... Já nos casamos, estamos juntos até hoje.

Saí da cidade quando ele veio pra cá se alistar e conseguiu passar no Exército. Foi essa decisão que eu tomei de vir pra cá. Ele passou seis anos nas Forças Armadas, tirando serviço no Exército, foi quando a gente conseguiu essa casa aqui. E a quantidade que ele ganhava não dava pra me sustentar também. Foi por causa disso que a gente veio embora pra cá. 

Logo quando ele veio pra cá, eu passei seis meses lá, que era pra poder estabilizar aqui - apesar de que ele não pagava aluguel, porque meu pai já tinha a casa aqui, já tinha comprado a casa. Passei seis meses lá. Ele mandava roupa pra lá, dizia que às vezes tinha que ter a roupa logo em seguida, no outro dia, pra enxugar; que as Forças Armadas exigiam assim, a roupa bem passada, aí tinha que ter uma pessoa. Eu vim embora pra cá. 

Como eu passei dificuldade, eu levei a minha filha mais velha pra lá de novo, com a minha mãe. Ela ficou um ano lá com ela. De lá a gente ficou um ano, eu fiquei aqui com ele passando dificuldade, aí que fui ver [que] o que a minha mãe passou com meu pai eu acho que eu estava passando, as dificuldades. Jantava caribé, almoçava caribé - caribé é um mingau com farinha. 

Aquilo parece que estava me fraquejando, assim, [por] um mês. Ele comia bem no quartel, aí ele dizia que não comia, pra comer junto comigo lá. Tinha dias que eu não tinha nenhum dinheiro pra comprar um ovo. Depois meu irmão passou a morar com a gente, aí foi que ele começou a nos ajudar. Eu sentia muita falta da minha filha, todo dia eu chorava, aí eu disse: “Ah, vou tomar uma decisão, eu vou buscar a minha filha.” Fui buscar. 

A gente passou a comer só feijão e feijão com mortadela, que às vezes não dá gosto nenhum. Passamos praticamente um ano comendo assim. Também não pedia pra ninguém. Não era orgulho, porque a minha mãe bem na frente da minha casa... Porque quando ele comprou lá, o papai disse: “Filha, por que tu não fazes um quarto aí?” Aí foi um pouquinho daqui, um pouquinho dali, e fizeram um quarto pra mim atrás da casa, mas eu nunca pedia nada lá. 

Minha segunda filha veio chegar quando a mais velha estava com quatro anos, aí eu planejei ter ela. Mas eu pensava que nunca ia trabalhar, sempre ia dar assistência pra elas. 

A gente não tinha nem televisão, meu marido pegou engajamento no Exército de um ano pra outro. Essa aqui já é a segunda casa que a gente trocou, de lá pra cá. 

De lá pra cá que nós começamos a desenvolver aqui… A minha filha mais velha começou a me dar problema, muita dor de cabeça; me arrependo muito de ter deixado, até então… Tô com uma adolescente, eu não posso parar de trabalhar (choro), a não ser se tivesse meu próprio negócio em casa, então estamos lutando. Meu marido sai pra trabalhar de manhã, mas meio-dia ele já tá aqui, aí já dá pra ele dar assistência pra ela. Como pra outra que pegou uma amizade, essa que tá no projeto pegou uma grande amizade, ela dormia fora de casa. Ela não dormia assim na rua, ela ia se entregar na delegacia do Guamá pra não dormir na rua, que era pra a levarem para o Conselho Tutelar. De lá tinha noite que o policial vinha, deixava ela aqui, mas nunca pegamos pra bater, meu sofrimento foi demais. (choro)

Essa daí também, a mais criança já fez também, sair de casa. Eu já fui atrás dela, essa BR todinha eu fui atrás dela. Ela ficou umas colegas, pegou amizade com umas meninas, aí fugiu de casa de novo, foi um desespero. Perguntava pra Deus: “Será que eu tô pagando por alguma coisa que eu fiz com a minha mãe?” 

Quando eu comecei a trabalhar ela começou a fazer isso. Eu sempre chorava, dizia pra ela: “Minha filha, o que tu queres? Tu vês que eu dou praticamente de tudo pra ti. Eu não sei o que tu queres. Eu não sei.” Eu conversava muito com ela. Sobre relação sexual, tudo isso eu conversava com ela, pra quê? Pra ela não ir lá na frente e procurar saber com outra pessoa. Isso eu sempre fui aberta com elas, sempre.

Foi aí que eu comecei a ver as coisas. Eu queria parar de trabalhar, mas depois. Eu queria continuar sempre pra ajudar, porque minha casa estava nas condições precárias mesmo. Quando acambou lá a gente veio pra cá. Eu morava praticamente assim, só com uma cortina aí atrás. Aqui na frente, só dizer que era uma imitação de casa. Eu dizia que era muito perigoso, mas nem por isso... Foi quando eu peguei esse meu primeiro emprego. Todo meu dinheiro, toda quinzena, final do mês, mandava trabalhar aqui. 

Às vezes eu a deixava trancada, as duas. Essa aí era a menor, mas ela pulava por trás, eu não enxergava. Chegavam, os vizinhos todinhos sabiam, menos eu e meu esposo. Meu esposo dizia assim: “Olha...” Eu já deixava tudo pronto pra elas, minha casa ainda não era assim. Eu disse: “Olha, teu pai não demora muito já tá aqui. Meio-dia ele já tá aqui, aí vocês ficam aí com ele. Eu tenho que trabalhar, porque só a venda do teu pai não dá pra gente se manter. Como eu vou dar o que calçar pra vocês?”

Essa minha mais velha revirou a cabeça por um guarda daqui da frente, um senhor, praticamente um senhor; ele tinha 44 anos e ela tinha, nessa época, quatorze anos. Ela achava que ele era o homem da vida dela, achava que ele queria ficar com ela. 

Rolou, rolou, eu chamei a atenção. Disse: “Poxa, o senhor tem capacidade de ser pai dela. O meu marido ainda tem trinta anos, você já tem 44 anos, você tem capacidade de ser pai dela.” Por causa disso ela começou a dormir fora de casa; por causa dele, mais as amizades. Ela inventava as coisas pra mim, dizia que ia pra igreja, acabava que ela ia pra falar com ele. Ele disse que ia deixá-la, que ia deixar e nunca [deixava]. Até uma época, já tem acho que uns quatro anos, que ele a ameaçou; se ela não ficasse com ele, ele ia matá-la. Aí foi que eu fui dar parte dele. Eu já tinha pegado ele com ela. Por causa dela, quase a gente vai preso também. Ela se vingava, não sei como ela se vingava com as coisas. Chegava na polícia, dizia que era a gente que batia nela. Eu vim descobrir agora, esses tempos. 

Depois do curso ela veio falar pra mim: “Quanto eu não dei valor pra senhora, né mãe?” Eu disse: “É. E se tu me perdes, o que seria da tua vida?” Sempre falava isso pra ela e falo até hoje.

Até roupa das pessoas ela chegou uma vez a furtar, uma senhora veio cobrar aqui da gente. Só uma noite que ela pegou uma blusa de uma senhora onde ela dormiu e um perfume. Ela chegou aqui e disse assim: “Olha, mãe, o que eu ganhei.” Passando uns dias, disse: “Que perfume é esse, Maria?” “Ah, eu que ganhei da minha colega.” Eu disse: “Mas que colega é essa, Maria?” “A minha colega, mãe.” 

Tá. Deixava pra lá. Até que a vizinha veio aqui e bateu - aqui da rua, mesmo. Bateu aqui na porta de casa e disse assim: “Vizinha, não queira me levar a mal.” Eu disse: “O que foi?” “A sua filha não apareceu com um perfume aí?” Eu disse: “Apareceu. Tem um perfume aqui que ela tem.” Ela disse: “Ah, esse perfume é meu.” Eu disse: “É seu? Mas ela disse que foi uma colega dela que deu pra ela.” “Não. É meu. Olha, vizinha, mande-a entregar a minha blusa e meu perfume que ela pegou lá de casa.” 

Minha cara foi lá embaixo. A gente tinha um carrinho de guaraná lá, tudo pra dar do bom e do melhor pra elas. O que foi que eu fiz? Pra ela não levar avante, tive que pagar. 

O meu marido, sempre botando atrás, disse: “Tudo que as meninas querem, tu fazes.” Eu disse: “Não.” Pra quê? Eu já sentia vergonha. E a mulher me disse: se ela a visse com a blusa dela, ela ia deixá-la toda nua. Eu disse pra ele: “Já pensou uma pessoa te pegar na rua com a roupa dos outros e a gente passar na rua e a pessoa ficar olhando: ‘A mãe da Maria tá passando aí, a filha dessa pequena pouca é ladra.’” Que cara a gente vai ficar? Por isso que eu entro e saio nessa rua, o que dá pra eu dar bom dia eu dou, o que dá pra eu dar boa noite eu dou, senão... A minha vida é aqui dentro dessa casa. Eu trabalho pra cá. Só isso.

Pelo que ela me conta, ela nunca usou drogas - pelo que ela me conta, né? Ela nunca me falou assim. Que nem beber também, uma vez que ela foi experimentar beber, ela achou a cerveja muito amarga, daí ela não bebeu. Ela gostava muito de festa. Eu disse: “Mas como é que tu gostas de festa? Tu não sabes nem dançar.” “Ah, só pra eu ficar lá com as minhas colegas.” Então foi isso. Eu não sei se ela usava, não sei se ela ainda não me falou pra não me magoar mais. Não sei.

Dizia ela que ia pra se divertir, pra dançar, pra ficar lá. São coisas das meninas, diziam: “Bora, bora, Maria. Bora pra lá. De noite tu vens, tu dormes lá em casa.” Quando era no outro dia ela ficava com medo de vir pra casa, mas nunca bati nelas, nunca bati de assim de... Nem o pai delas. Ele tava tão transtornado de não querê-la mais dentro de casa. A minha vida virou um sofrimento, queria deixá-lo por causa delas.

Eu não a proibi de sair. Eu nunca gostei que elas chegassem tarde, o máximo era nove e meia, dez horas dentro de casa, mas era isso que elas não gostavam. Elas queriam ficar até meia-noite, até tarde na rua, a hora que elas pudessem chegar, elas chegavam. Ela via assim.

Quando passava das onze horas, o pai dela dizia assim: “Olha, se tu passares das dez horas...” Ela saía pra ir pra igreja, dizia que ia pra igreja. “Se tu passares das dez horas, tu não entras mais em casa.” Aí ela não vinha mais. Eu eu ficava aí na porta, esperando. Só no outro dia. Essa outra aí já me deu muita dor de cabeça também, todas as duas.

Ele a expulsou de casa. Eu conversava muito com ele, dizendo que era nossa filha: “Como é que tu vais expulsar a nossa própria filha de dentro de casa?” [Ele] disse: “Não, isso é pra ela criar vergonha na cara dela. Ela tem que parar com isso. A gente não faz isso, como ela vai fazer isso pra nós?” 

Foi isso que aconteceu, de expulsá-la de dentro de casa, elas dormirem fora de casa. Tinha noite que eu não dormia, tinha noite que eu ia procurá-la, mas não conseguia achá-la, só ia tentar no outro dia. A primeira noite que ela dormiu fora parecia que o mundo tinha desabado pra mim. Eu dizia: “Vamos embora atrás da nossa filha. Vamos embora atrás.” “Que vai. Eu não vou é nada. Se quiser ir, você vai”. Eu ia sempre com ela atrás, mas não encontrava, tinha que esperar no outro dia pra ver por onde ela estava. 

Às vezes ela passava aqui, às vezes não entrava em casa. Ela dizia que tinha criado um ódio dentro dela por causa de mim. Eu não sei por que. Eu não cheguei a pegar uma corda, bater nela. Muito pelo contrário, quando a via assim, parecia que era um alívio pra mim de vê-la viva. Sempre imaginava que um dia eu ia encontrá-la morta, pelas amizades que ela estava levando. Porque tem meninas que sabem se controlar, mas tem meninas que não, vão pela cabeça dos outros, das pessoas, fazem o que não devem fazer; quando querem sair daquilo, é tarde demais.

 

O Projeto ViraVida veio como uma bênção na vida dela. E na minha vida, porque foi de lá que ela passou a ter outros pensamentos. 

Isso aconteceu num dia que eu não fui trabalhar. Disseram que estavam inscrevendo, o SENAI. Aí disse: “Maria...” Tava dormindo. “Maria, vai ver se tu te inscreves lá, pra tu fazer pelo menos esse curso.” “Onde?” Eu: “Olha, Maria, parece que estão inscrevendo lá no SENAI pra fazer curso.” “Onde é, mãe?” Eu disse assim: “Não sei. Procura te informar. Tu não tens tuas coleguinhas? Por que tu não procuras te informar. Vai ali, com a dona Alta.” 

Ela foi lá e se inscreveu. Disse: “Ah, mãe, diz que vão selecionar quem vai passar, quem não vai, mas eles dispensaram quem já passou pelo Conselho.” E ela já foi muito sapeca. “Ah, deixa isso pra lá.” Eu falei assim: “Ah, seja o que Deus quiser. Se Deus achar que vai ser, tu vais.” 

Ligaram pra dona Alta, que é uma senhora daqui da rua, num negócio do centro, aí mandaram chamá-la, ela foi lá. Quando eu cheguei: “Mãe, me chamaram do curso. Eu vou entrar lá no curso no SENAI.” Eu falei assim: “Ah, minha filha, que bênção, graças a Deus.” Foi [aí] que ela surgiu, que ela tava... Apareceu grávida. Eu disse: “Tá vendo? E agora?” 

Eu não queria que ela falasse logo que estava grávida. Eu disse: “Ah, acho que vão te botar pra fora do curso, tu não vais fazer esse curso. Não tem nenhuma menina grávida lá?” “Ainda não.” “Então não fala que tu tá grávida, continua saindo.”

Aí tinha uma menina lá que tinha aparecido grávida. “E aí, Maria, tu já falaste?” “Ainda não.” Foi aí que ela chamou a Flávia e falou: “Ah, eu quero tanto continuar no curso.” “Sim, menina, tu não estás?” Ela disse: “Não, por causa que eu tô grávida.” Aí disse assim: “Sim, que problema é esse já?” 

Aí foi que ela pegou mais força, graças a Deus tá aí. Dá muita atenção pra filha dela. O dinheiro que ela recebe, sempre um pouquinho que ela recebe, ela ajudava a gente aqui, dava uma quantidadezinha para o pai dela. Sempre.

Mudou o pensamento dela, de conversar, de ter um ânimo pra ter as coisas, porque ela não tinha esse ânimo. E vencer na vida, porque eu tô sendo um exemplo na vida dela. Ela disse que quer ser guerreira igual a mim. Porque quando eu quero as coisas eu vou e consigo, trabalho. Essa casa aqui foi praticamente com meu dinheiro. 

Teve umas mães que também disseram lá que mudou a vida. 

[Eu] sempre perguntando por causa dela, como ela estava no curso. Eles diziam: “Se a tua perna tropeça pra cá pra esse lado, não, tu dizes que pra cá pra esse lado não é, vai pra esse lado que é do bem.” Sempre falava pra ela: “Se a turminha achar que tu deves ir lá pra banda da avenida, ir pra lá achando graça, sem você fazer nada, vem-te embora pra casa.” Então muita coisa mudou. O pensamento dela mudou muito, muito mesmo. 

Um tempo desses aconteceu um fato que nunca imaginava que ia acontecer na nossa vida, do meu esposo pegar tipo um surto dentro da igreja, aí ele saiu de lá. O segurança lá de baixo pensava que ele era um ladrão; pegaram ele, rasgaram tudinho a camisa dele, aí [ele] saiu correndo de lá. Eu estava com ele lá. Saiu correndo, pulou aquele cercado ali da avenida, na frente da igreja, aí o policial o mandou parar. Como ele estava tão atordoado o policial atirou nele, deu um tiro na perna dele. 

Passei quase um mês com ele perturbando aqui dentro de casa. Ele dizia que via certas coisas, dizia que não sabia da vida dele, como ia ser a vida dele depois. Até hoje ele não imagina o que foi que aconteceu com ele, como até hoje eu não gosto nem de lembrar o que aconteceu com ele. Porque eu nunca imaginava, estamos [há] vinte anos juntos, nunca imaginei pegar isso aí, esse surto. Tenho grande fé em Deus que nunca mais vai acontecer. Até hoje ele sente a perna. Tá com uns três meses que aconteceu esse fato. 

A psicóloga veio aqui também com a gente. Achei muito melhor ela ter vindo aqui conversar com ele, porque eu precisava também. Eu fiquei traumatizada? Fiquei sim, muito traumatizada. Uma coisa que nunca tinha acontecido na minha vida, meu esposo estar bom, de um dia pra outro ficar transtornado, aconteceu muita coisa e estou aqui.

Eu sempre estou apoiando minha filha. Eu sempre digo: “Olha, se tu não tiveres ninguém pra deixar tua filha, vem e deixa aqui em casa, mas não falta no curso.” Quando ela não vai, eu brigo com ela pelo telefone, eu digo: “Por que tu não foste para o curso?” “Mãe, a Luísa tinha consulta hoje.” “Sim, tu avisaste lá pelo menos?” 

Isso foi a melhor coisa que aconteceu na nossa vida, essa criança ter vindo. É a nossa felicidade dentro de casa, por causa dessa criança. Foi muito bom. Eu disse pra ela: “O dia que tu não quiseres mais a tua filha, tu me dás que eu tô pronta pra parar de trabalhar e cuidar dela.” “Tá que eu vou lhe dar sim a minha filha!”

Meu sonho é ter minhas três máquinas, só assim eu vou dar um.. (choro) Como eu te digo? Um reparo melhor pra essa adolescente. Não precisar sair de casa pra trabalhar para os outros. Eu, trabalhando em casa, aí dava pra eu ter uma visão bem melhor por ela. Agora que tem a netinha aí, que é mulher também. Esse que é meu maior sonho. 

Por causa disso, essa minha mais velha [disse]: “Escreve para o Gugu.” Pra ele me dar minhas três máquinas. Não tem mais condição. (choro) Ah, se eu tivesse, eu não estava mais trabalhando pra ninguém. Estava trabalhando pra mim mesma, porque eu sei costurar muito bem. Esse que é o meu sonho.


"Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações."

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