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História

A doença como caminho

História de: Nando Bolognesi (Luiz Fernando Bolognesi)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2004

Sinopse

Nando Bolognesi nasceu em São Paulo no ano de 1968. Passou boa parte de sua infância na cidade de Itu, onde jogava futebol com as crianças mais velhas enquanto planejava a sua carreira na área: deveria aposentar-se como centroavante na Copa do Mundo de 2002. Formou-se em Economia e conseguiu um estágio na Fiat na cidade de Torino, na Itália. Certa manhã percebeu que não conseguia passar o desodorante com a mão esquerda; foi em um hospital e lá decidiram interná-lo para exames sem revelar o diagnóstico. Fugiu do hospital e, depois, retornou ao Brasil, onde foi diagnosticado com esclerose múltipla. Aqui cursou uma nova graduação na EAD (Escola de Artes Dramáticas), onde iniciou sua carreira como ator - algo que esteve latente em diversos momentos de sua vida, como quando fantasiava, narrava e interpretava os jogos do Corinthians na infância - e, depois, como Doutor da Alegria. Nessa entrevista, Nando discorre sobre os métodos de tratamento da esclerose múltipla, sobre como está lidando com os limites impostos pela doença e como isso afetou a sua vida e personalidade em diversos níveis.

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História completa

P/1 – Boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Queríamos começar perguntando o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Luiz Fernando Bolognesi, eu nasci em São Paulo em 8 de maio de 68.

 

P/1 – Posso te chamar de Nando?

 

R – Pode, por favor.

 

P/1 – Nando, o nome de seus pais, que origem que eles têm?

 

R – São dois caipiras. Meu pai veio de Itu, é Luiz Antônio Bolognesi, nasceu em 36. Minha mãe nasceu em 38, em Marília. Vieram para São Paulo para trabalhar e acabaram se conhecendo aqui, num sobrado em frente ao Castelões. Outro dia fui lá comer com eles e ele falou: “Comecei a namorar sua mãe naquele sobrado” (risos).

 

P/1 – Você é o primeiro filho?

 

R – Não, sou o mais novo. Tenho um irmão dois anos mais velho que eu, também Luiz, porque tudo... Família italiana. O avô era Luiz, meu pai é Luiz, eu sou Luiz, meu irmão é Luiz... Meu irmão é Luiz Roberto, eu sou Luiz Fernando e meu pai é Luiz Antônio.

 

P/1 – E seu avô?

 

R – Meu avô era Luiz. Só Luiz... Quando morávamos juntos e ligavam em casa querendo falar com o Luiz, todo mundo corria. Qual Luiz que era (risos)?

 

P/1 – Todo mundo atendia.

 

R – Teve uma época em que eu e meu irmão fazíamos USP (Universidade de São Paulo) e PUC (Pontifícia Universidade Católica): “Ah, o Luiz que faz USP e PUC.” Agora tem dois, continua... (risos)

 

P/1 – Nando, conta um pouquinho da sua infância, de sua primeira casa e do que você se lembra dela.

 

R – A primeira casa que eu me lembro era a minha em Itu. Eu mudei em 70, passei de 70 a 74 em Itu. De 68 a 70, que foi num apartamento no Cambuci, eu não me lembro de nada, não existe esse apartamento. Essa casa em Itu eu lembro bem, e lembro melhor ainda porque uns dois meses atrás eu fui lá, quis rever aquela casa. Eu toquei no vizinho, que era dono da casa que alugava, falei que eu tinha ido ver a casa e a mulher se lembrava de mim. Ela falou: “Nossa, você é filho do Luiz e da Dirce. Como você está grande!” Eu estava com a Berta, uma pessoa que trabalha na casa de meus pais, de antes do meu irmão mais velho nascer, é como se fosse minha avó. Lembrou-se da Berta: “Nossa Benedita.” Abriram a casa para mim, que hoje virou um tipo de museuzinho – não é exatamente um museu, mas o cara é um artista plástico e está alugando para uma exposição. Foi muito engraçado, porque quando eu entrei na casa... Geralmente, temos aquela sensação de que quando você revê a casa de sua infância, diz: “Nossa, como é pequena.” A memória que eu tinha da casa era exatamente aquilo. Quando eu entrei na casa, falei: “Nossa, que engraçado. É exatamente essa a imagem que eu tinha da casa, dos tamanhos das coisas, da torre que eu sempre subia no quintal...” O quintal estava fechado. “O pintor está com a chave. Você volta à tarde?” Eu voltei à tarde, o pintor abriu pra mim. Eu desci e fui no quintal, foi muito emocionante. Quando eu entrei naquele quintal, falei: “Nossa, quanta coisa que eu não fiz!” Eu tinha derrubado o muro do quintal – o muro com a vizinha –, mas foi azar. Eu brincava de Tarzan, subi no varal e, em vez de arrebentar o varal, caiu o muro (risos). Caiu no meu irmão que estava embaixo, brincando. Eu fiquei sentado ali – tinha um degrauzinho no quintal. Falei: “Nossa, cara, que barato. O mesmo lugar, esse mesmo chão...” Temos uma chácara lá... Toda a família de meu pai é de Itu, então quase todo final de semana – agora não mais, mas até eu ter dezesseis, dezessete anos – íamos para Itu. Quando eu voltei para São Paulo, todas as minhas férias de janeiro e fevereiro eu passava em Itu, na casa da minha avó. Quando eu entro lá acontece isso, eu falo: “Nossa, como o quintal... Na minha memória, um quintal tão grande e vendo aqui é tão pequeno, bicho... Como é que eu jogava bola aqui com mais três primos? Mal caibo eu aqui” (risos). Agora eu vou para Itu uma vez por mês, mas era uma coisa muito presente pra minha infância. Tanto é que fala de infância e eu me lembro de Itu. Mesmo quando eu vim para São Paulo todo final de semana eu ia para Itu, porque os meus amigos e primos eram todos de lá. As férias inteiras eu passava em Itu, e a memória mais clara de uma infância longínqua eu tenho de Itu. Depois, aqui em São Paulo, mudei-me pra uma casa que era na Rua Ilamônia. Lembro-me muito que eu jogava futebol na porta da casa, tinha um portão marrom... Eu jogava bola, lembro-me das figuras do Paulinho, do Serginho, que eram os caras que jogavam comigo. Eu mudei para um outro apartamento, acho que tudo isso é infância. Pelos doze anos fui para um apartamento na Rua dos Franceses, no Bixiga. Minha memória sempre foi jogando futebol... Era um playground grande com o chão igual a esse aqui, emborrachado, minha mãe ficava louca. Eu gostava de catar no gol, porque eu sou o irmão mais novo e eu descia só com meu irmão... Irmão mais novo sempre faz o pior (risos). Meu irmão chutava e eu tinha que defender, então cair nesse chão, com essa coisa de borracha... Ficava tudo preto. Eu subia e uma das paredes da minha casa era inteira preta: “Você botou a mão preta...” Eu tenho essa memória. Vou para outro apartamento, no Real Parque, vejo-me mais adolescente – mudei quando eu tinha de treze para catorze anos –, era outra fase... Eu acho gozado porque a minha esposa, a Élida – é gozado falar “minha esposa”, parece tão formal –, não lembra nada da infância.

 

P/1 – Ela é de Itu também?

 

R – Não, é daqui de São Paulo. Ela falou: “Nossa, eu não lembro nada disso, da minha infância...” Ela vê fotos, às vezes, quando vamos à casa dos pais dela. Ela não tem... Eu digo: “Nossa, eu tenho muita lembrança da minha infância.”

 

P/1 – Vamos contar um pouco da sua infância, desse relacionamento nessa casa tão especial que você foi visitar. Como eram as brincadeiras? Os relacionamentos da família?

 

R – Eu lembro muito da minha escola, que era o Chapeuzinho Vermelho. Antes do Chapeuzinho Vermelho teve o Pequeno Príncipe, que eu também visitei. No dia que eu fui na casa fiz um “tour”, porque era tudo na mesma rua, só que mais pra cima. Eu passei no Jardim da Infância, que era o Pequeno Príncipe e que não existe mais, e o Chapeuzinho Vermelho virou APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). Eu tenho até uma foto que eu estou com a lancheira aqui do lado e os livros na porta, no portãozinho. O portãozinho está lá: “Oi, que legal.” Eu tenho algumas memórias tipo sensações. Tenho uma sensação de eu muito enjoado, porque eu brinquei naquele gira-gira e eu fiquei super enjoado... Lembro-me que eu, chegando em casa... Uma coisa muito ruim, que eu tenho essa sensação. Tenho sensação da lembrança de eu brincando com meu irmão na garagem da casa, que era um piso de cerâmica gelado... Ele fazia animaizinhos, leão, hominho com Yakult e me lembro de eu brincando disso com ele. Lembro-me de uma brincadeira minha que era assim: sempre passavam distribuindo, nas casas, papéis de Lojas CEM, e eu achava que eu era muito subversivo passando e recolhendo todos. Eu entrava em todas as casas, pulava os muros, recolhia todos, levava para minha casa e recortava (risos). Eram sempre coisas de supermercado, então eu recortava as televisões, os rádios... Eu não fazia nada com aquilo depois, era só a brincadeira de passar nas casas roubando essas coisas. Lembro-me da cadela que tinha, a Suzi, um vira-lata que minha mãe deu porque comia as roupas do varal, estragava muitas roupas... Em troca, já que tiraram a Suzi, deram um bicho mais tranquilo, uma tartaruga (risos), que fugiu. Lembro-me que dávamos banana para ela, lembro-me dando banana para ela... Lembro-me do meu vizinho, uma figura muito legal apesar de ser do exército, chamava Ari Barreta. Ainda temos contato com ele, que mudou para o Rio de Janeiro. De vez em quando, quando vamos para o Rio, ligamos e saímos com ele. Um cara fantástico. Sempre me lembro de uma brincadeira dele – quando eu o encontrei recentemente, até brinquei com ele –, fazia: “Onde está a bola?” – ele era carioca – “Onde está a bola? Onde está a bola? (com sotaque) Não quero craque”, e ficava tirando a bola de nós, dois molequinhos – um de cinco e um de sete. Lembro-me dessa cena, de ele ir buscar a bola... Lembro-me do dia que caiu o varal, da mulher dele, Jandira, saindo: “Nossa, o que aconteceu?” Era o muro que dava para a casa do lado. Eu tenho umas lembranças episódicas: lembro-me de um aniversário – não lembro se era meu ou de meu irmão - nessa casa de Itu, e eu muito envergonhado. Estava todo mundo tirando sarro porque dormi no ombro de uma mulher no cinema (risos). Quem tinha me levado era um cara muito legal que se separou de uma tia minha, era meu tio que se chamava Roberto. Ele me defendia, dizia: “E daí que o Nando dormiu?” “Ah, dormiu no colo da menina.” Ficou todo mundo...

 

P/1 – Você tinha quantos anos?

 

R – Eu saí de Itu em 74, devia ter uns quatro, cinco anos. A memória que eu tenho que acho que é a mais distante no tempo – que eu nem tenho certeza se é memória ou se me contaram... Eu tinha como memória, mas quando contei, falaram: “Será que você não criou essa imagem sobre uma história que já contaram?” É a minha mãe caindo comigo. Na hora que ela abre o portãozinho pra entrar, ela escorregou e caiu no chão. Eu disse que eu me lembro disso, que depois o cotovelo dela ficou roxo. Aí que levantaram essa hipótese: “Será que você lembra isso, logo que a gente mudou pra Itu? Você tinha uns dois anos e pouco.” Isso meus pais que falavam: “A gente contou essa história tanto, será que você lembra mesmo ou de tanto a gente contar você incorporou e acha que lembra?” Todas essas coisas que eu falei, tenho as imagens. Tem a imagem de eu ir indo no trilho jogar pedra no trem... Passava um trem atrás da nossa casa, umas três quadras para baixo, eu ia com meus primos e ficávamos atirando pedrinhas – não pedra grande, paralelepípedo... Coisa de moleque. Atirava no trem e ninguém vinha reclamar, mas atirávamos e saíamos correndo como se viesse alguém pegar. Nunca nem via ninguém lá.

 

P/1 – Atirava e corria.

 

R – Corria. Uma lembrança muito gostosa que eu tenho, que outro dia também eu fui lá... Falei: “Pô, mudou o campo”. Agora o Ituano é um time da primeira divisão, mas quando eu morava lá o estádio onde hoje é o do Ituano era o estádio municipal, bem __________. Tinha o time dos veteranos, que eram os meus tios, que tinham o que eu tenho hoje, 33, 35, 37... Eles jogavam todo sábado e meu pai apitava, ele não jogava. Todo sábado à tarde eu ia para o campo do Ituano assistir o jogo deles. O legal é que assistíamos de dentro do campo – ficava atrás do gol –, e no intervalo jogávamos. Lembro-me da sensação de chutar a bola oficial, era: “Nossa, bicho, como é pesada, como é dura. Como meu tio é bacana, olha o chute que ele dá nessa bola.” Jogávamos nossa bola, mas de vez em quando, eu tinha uma sensação... Logo que eu voltei para São Paulo, todo sábado íamos para Itu e eu ia ver os veteranos jogarem. Como eu tinha uns treze, catorze, ficava naquela coceira de entrar, e nunca rolou para mim (risos). Rolou para o meu irmão. Acho que ele tinha uns quinze, dezesseis... Ele faltou e tinha dez. “Dá a __________ pra ele. Taca ele nos veteranos.” [Travis?] era o máximo, e eu: “Aconteceu com o meu irmão, daqui a pouco vai acontecer comigo”, mas nunca rolou.

 

P/1 – Nando, conta sobre seus pais. Como era o relacionamento da família? Você é descendente de italianos?

 

R – É.

 

P/1 – Tinha os célebres almoços de domingo?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Reunia a família inteira?

 

R – A casa da minha avó era uma coisa muito presente na minha infância. A sala do almoço ali, toda a família...

 

P/1 – Ela era italiana?

 

R – Minha avó era mais de descendência portuguesa, Aracy Gonçalves. Meu avô que era... Por parte de mãe, também... É Martini e Costa, português com italiano. Toda a minha lembrança de avô e avó é por parte de meu pai, porque minha mãe perdeu os pais... Ela tinha doze, perdeu a mãe; catorze, perdeu o pai. Não conheci. Por parte de meu pai eu conheci a minha avó, meu avô morreu em 54. O que eu estava falando mesmo?

 

P/1 - Você estava falando que os almoços eram na casa de sua avó.

 

R – Meu pai tem oito irmãos e ainda um adotivo, são em dez. Todo mundo ia para lá: toda a família, todos os primos... Todo domingo era sagrado. Tinha o lugar onde hoje é a chácara que ficou do meu pai, que era da família. Meu pai com mais outros oito irmãos tinham uma olaria, e em cima da olaria fizeram um barracão, que era onde a gente se reunia nos domingos e sempre fazíamos almoço. Era o máximo. Tenho, na minha memória, a entrada da olaria: é uma estrada de asfalto, mas a entrada é de terra e tem um barranco meio curvo. Sempre que eu penso – agora falamos chácara, mas quando eu era moleque era olaria... Sempre que eu falo olaria me vem aquela imagem. Falando em imagem, tem uma coisa muito engraçada: sábado, para mim, tem uma cara. A palavra sábado... É dessa Rua do Patrocínio, onde eu morei, até fui mostrar pra Élida no dia que eu fui ver minha casa. Umas quatro casas para baixo da minha, tinha um portão que você abria para o carro, e o lugar onde você encaixava as travas do portão era um negócio de concreto redondo com dois furos. Para mim sábado tem essa cara, até hoje. Sempre que eu falo sábado, vejo essa entrada da casa e esse negocinho.

 

P/1 – Por quê? O nome da rua era sábado?

 

R – Não, chama Rua do Patrocínio. Eu não sei por quê, mas ficou na minha memória o sábado junto com essa imagem, esse portão com esse negócio dessa casa que fui visitar. O sábado está lá ainda, passei que isso é a memória do sábado que eu tenho até hoje. Sempre que eu digo sábado se associa essa imagem. Os almoços na casa da minha avó eram assim, família de italiano... Baixaria total.

 

P/1 – Acabava em pizza, não?

 

R – Choradeira tinha sempre... Tem um tio meu, o mais novo, que toca pente quando bebe um pouquinho, mas ele bebe sempre; então sempre está tocando pente. Tem que tomar uns copos de cerveja... Ele fala: “Eu vou tocar o pente para o pai descer.” Quando meu avô morreu – o pai dele – eu era muito moleque, tinha uns seis ou sete anos. A família toda falava: “Ih, Julinho vai pegar o pente.” Ele pega o pente, toca bem para caramba – isso que eu acho incrível – e fala: “Ih, o pai vai descer.” Conforme o tempo foi passando morreu outro irmão do meu avô, falamos: “Agora vai descer o pai e o João” (risos). Era aquela choradeira, tia chora e fica chorando... Todo domingo rolava essas coisas e briga. Virava e mexia tinha um irmão que não estava falando com outro, e quando faziam as pazes era aquela choradeira, abraçava o irmão e chorava... Era bem um clima de família “felliniana”. Tem personagens tipo a tia que ficou solteirona, que os irmãos tiram sarro dela e falam que ela casou com Cristo porque vive na igreja. Ficavam pejorativamente falando: “Laurita é beata.” Tem a tia beata, a outra que tem a pecha de mentirosa, outro que bebe toca pente. Tinha vários personagens (risos).

 

P/1 – Também, dez irmãos.

 

R – Esses almoços eram eventos muito legais.

 

P/1 – Todo domingo?

 

R – Todo domingo. Isso foi perdendo com o tempo, cada núcleo foi ficando no seu... Foram tendo os filhos, os filhos foram tendo filhos e a maioria deles já tem netos. No Natal reúne, mas ficou uma coisa muito mais distante, cada um foi ficando no seu núcleo. Não é que a gente não vê mais – todo mundo se vê, se fala e sabe de todo mundo –, mas essa coisa de reunir todo domingo... O Natal também, que juntava todo mundo, isso meio que acabou. Dá saudades.

 

P/1 – A sua avó é viva?

 

R – Não, morreu faz uns três ou quatro anos. A memória que eu tenho de avó não é essa memória padrão daquela figura toda carinhosa, a minha avó era muito amargurada. Desde que morreu meu avô, em 54, todos os filhos dizem que ela mudou completamente. Ela era uma figura... Ela era carinhosa, mas uma pessoa muito amargurada, e quando a gente falava... Eu lembro que meus tios falavam: “Mamãe, quando a senhora fizer oitenta anos...” “Pelo amor de Deus, fazer oitenta anos! Eu quero ir antes, quero ir logo... Eu quero ir embora.” Sempre esse papo de “quero morrer.” Era uma figura meio deprimida, uma coisa... Quando eu passava minhas férias lá era legal, me recebia bem porque meu pai era o queridinho dela. Toda família tem um filho queridinho e era o meu pai, então eu era o filho do queridinho. Ela me tratava super bem, mas não era aquela avó de dar colo, de... Era difícil você ver minha avó dando colo, fazendo cafuné em alguém. Não rolava muito isso.

 

P/1 – Ela que era de origem portuguesa?

 

R – Portuguesa. É legal, ela conheceu meu avô... É uma história legal. Meu bisavô veio da Itália, eles abriram uma mercearia que faliu e ele morreu de cirrose. Isso, na família dos italianos, não se fala. Eu descobri isso porque eu fui pegar... Estava tirando meu passaporte italiano. Todos idolatram: “Não, porque papai” e aquela coisa... Era um carroceiro. O bisavô era cantor de ópera e cantava na Itália, mas não profissionalmente; era um diletante. Veio para cá, abriu essa mercearia que faliu e tal... Meu avô era carroceiro e minha avó trabalhava no telégrafo.

 

P/3 – Era brasileira?

 

R – Nasceu aqui, trabalhava no telégrafo dos correios. Sempre passava o carroceiro e ela o achava...

 

P/3 – __________

 

R – Não sei como era. Sempre falou como carroceiro, porque minha avó é que contava essa parte, que ela via meu avô passando e meio que paqueravam. Minha avó era de Amparo, e meu avô acho que de Tietê.

 

P/1 – Nesses almoços de domingo, como era a brincadeira da molecada? Devia ter muitos meninos.

 

R – Sim. Uma das brincadeiras mais básicas era jogar futebol na rua, que era toda de paralelepípedo. Eu sempre arrancava o tampo do meu dedão. Minha mãe ficava brava, porque ela queria que eu jogasse de tênis, e eu me lembro de um dia que voltei com o dedão... Minha mãe falou: “Não vou fazer o curativo.” Minha mãe era – sempre foi – uma super mãe, super protetora... “Nossa, Dirce falou que não vai fazer curativo no Nando. O que aconteceu?” Ficou um clima... Meu pai falou: “Dirce, como...” – brigou com minha mãe – “Como? O menino está com o pé sangrando.” Todo domingo eu jogava futebol e o gol era o portão da Light. Quando a bola caía lá os pais ficavam preocupados, porque a gente pulava e era da Light... Nunca aconteceu nada. O principal problema não era a Light, que os pais achavam perigoso; era o vizinho do lado. Quando a bola caía dentro – o cara era muito bravo – ficava aquela coisa: “Quem vai pedir a bola de volta? Quem vai tocar a campainha para pedir?” Era uma brincadeira que eu sempre estava. Tinha uma outra que fazíamos, era de “Duro ou Mole”. Tinha um negocinho de concreto na parede do muro, que o pessoal usava para sentar e ficávamos em cima. Um puxa de cima, você cai e tem que ficar paralisado do jeito que caiu. Uma pessoa passa tentando te fazer rir, essas coisas... Lembro-me dessa brincadeira até hoje. Quando eu olho, digo: “Nossa, eu subia nesse lugar?” Hoje eu fico em pé e ela bate aqui em mim.

 

P/1 – Para você era um baita muro.

 

R – É. Tinha muitas gerações de primos, de idades... Tinha as primas um pouco mais velhas que eu, que não brincavam com a gente, era outra turma... Meu irmão, coitado, ficou no meato, era muito mais velho pra minha turma. Nós éramos cinco primos inseparáveis: eu, dois homens e duas meninas, todos da mesma idade, meses de diferença... Com dois anos acima era o meu irmão, sozinho. Depois tinha gente dois anos acima dele, ele ficava meio...

 

P/1 – Ele nunca pertenceu à turma nenhuma.

 

R – Não. Gozado, ele sempre ia ao Cine Marrocos, ficava assistindo filme e voltava com um saquinho de Balas Chita pra mim. Lembro-me disso: eu jogando bola, ele entrando e jogando o saquinho de Balas Chita para mim. Balas Chita amarelas que, às vezes, eu dizia que não gostava muito... É louco, porque eu ficava jogando bola e ele sempre indo ao cinema. Olha que legal: ele virou cineasta. “Agora eu vou ver filme seu, cara. Que legal!” Ele é o roteirista do filme Bicho de Sete Cabeças, que está passando agora.

 

P/2 – Ah, é seu irmão.

 

R – Luiz Bolognesi, casado com a Laís Bodanzky. Ele já fez outros, falei: “Claro que você tem que ser!” Desde aquela época, ficávamos jogando bola – devia ter sete ou oito anos – e ele ia sozinho no Cine Marrocos todo domingo. Ia assistir filmes.

 

P/1 – Nesses almoços, qual era a comida preferida que você gostava e que tinha lá?

 

R – Lembro-me do macarrão com molho de tomate, mas não é uma lembrança: “Que delícia comer macarrão.” Não tenho uma memória de paladar: “Ai, que delícia.” A memória é mais do clima e do cheiro da casa, da parte onde a gente comia – que era um lugar mais frio, era cerâmica –, do cuco que saía e fazia “Cuco, cuco”, aquele badalo... A coisa do paladar da comida, para mim, não é muito presente e não é uma coisa especial, mesmo porque não era minha avó que cozinhava. Acho que cada dia uma tia cozinhava. Lembro-me de uma coisa, que era quando minha avó fazia bolinho de pingar e o pessoal falava que era milagre, porque ela nunca fazia nada. Ela era sempre meio deprimida, na dela... De vez em quando ela fazia...

 

P/1 – O que é esse bolinho de pingar?

 

R – É um bolinho doce que eles chamam de bolinho de chuva ou de pingar. Quando minha avó fazia, diziam: “Nossa, a Aracy fez um bolinho de pingar!”

 

P/1 – Você ficou em Itu até que idade?

 

R – Eu saí em 74, tinha seis anos. Eu vim morar em São Paulo, mas minha referência é toda em Itu. Todo sábado, íamos para Itu e voltávamos no domingo. Todas as férias eu passava lá. Claro, aos poucos, a coisa foi transferindo para cá... Os meus grandes amigos eram os meus primos, que eu sempre ia para lá...

 

P/1 – Por que vocês vieram pra cá?

 

R – Por causa do trabalho de meu pai. Ele foi para Itu para abrir essa olaria com outros dois irmãos, e a olaria faliu. Pintou um trabalho aqui em São Paulo e meu pai ficou um ou dois anos indo e voltando. Minha mãe contou que ele vinha na segunda pra São Paulo, ficava até sexta e voltava. Ficávamos só eu, meu irmão, minha mãe e a Berta. Depois ele começou a ir e voltar todo dia. Quando a coisa começou a engrenar, ele disse: “Não dá para continuar assim” e mudamos para cá, para São Paulo. Nós mudamos para uma casa muito legal, eu gostava de lá também... Lembro-me que quando viemos para São Paulo, os tios ficavam perguntando... Meu irmão queria ir e eu, não. Queria ficar em Itu, eu sempre falava que eu queria. Eu ficava mais o xodó, porque todos são muito bairristas... Tudo foi em Itu, tudo é Itu... “Ah, o Nando gosta mais de Itu, ele não quer ir para São Paulo.” Tinha uma cunhada que dizia: “Beto é metido de querer ir para São Paulo.”

 

P/2 – O seu irmão mais velho?

 

P/1 – Você entrou na escola em São Paulo?

 

R – Não, eu entrei lá. Eu me alfabetizei um ano antes e, quando eu vim para São Paulo, a tia Edith, que era a diretora da escola que eu fui – uma escola montessoriana na Aclimação –, falou que achava judiação eu ir para o primeiro ano com seis anos, que eu não ia me enturmar e para eu, de novo, fazer a alfabetização para me adaptar com o método montessoriano de ensino. Quando eu vim para São Paulo, então, eu fiz o Pré de novo. Eu tenho uma lembrança muito forte desse pré-primário meu aqui em São Paulo. Eu cheguei e eu lembro que eu falava um pouco “ituano”, eu chamava Luiz “Ferrrnando” e meu irmão Luiz “Rrroberto” (imitando o sotaque). Os dois têm o “r” e eu não conseguia não falar com sotaque, sempre falei Luiz Ferrrnando e Luiz Rrroberto. Logo que eu cheguei na escola, ainda não tinha muitos amigos... Lembro-me dessa cena muito claramente: na classe tinha uma vaquinha que o corpo era divido em partes, e tinha um prego em cada parte. Você desmontava puxando pelo prego, e depois tinha que montar de novo. Bicho, eu passava horas conversando com essa vaquinha – não falando, mas em pensamento. Eu tirava: “Ai! Você tirou minha patinha, Luiz Fernando.” “Calma, já vou por” (risos). Lembro-me do barulho de uma obra que tinha... O barulho de obra, tac-tac-tac do martelo, ou “Zelão, pega lá!” Sabe, coisa de obra? Eu conversando com essa vaquinha e apaixonado pela Fabiana (risos), que era uma loirinha super bonitinha, que eu ficava...

 

P/1 – Da sua turma?

 

R – Da minha classe. Eu ficava desmontando e conversando com a vaquinha só olhando para a Fabiana. Eu sempre acabei as coisas antes, como eu já tinha sido alfabetizado em Itu e lá era tudo por lição... Estava acabando o primeiro semestre e eu tinha feito do ano todo. Eu fiquei com a minha vaquinha muito bem (risos), porque eu tinha acabado as coisas. É uma lembrança muito presente eu com essa vaquinha e olhando a Fabiana. Lembro-me que eu ficava morrendo de inveja do pessoal da obra, dizia: “Pô, eles estão livres, estão lá fora.” Ouvia-os gritando: “Oh Zelão, joga o martelo aí!” Eu ficava morrendo de inveja: “Eles estão todos lá fora.” Eu estudava à tarde, e lembro que quando eu ficava doente, por algum motivo... Nunca se deixou faltar, meus pais eram bem rígidos com negócio de escola, só faltava se estivesse doente. Eu lembro que, quando eu faltava, que eu ficava em casa, era a maior liberdade. Era muito novo... Você conhecia como era sua casa à tarde? Porque eu nunca estava...

 

P/1 – Como é que era?

 

R – Era calma, uma tranquilidade... Tinha um cheiro bom de limpeza, a casa arrumadinha. Lembro-me que eu ficava deitado no sofá... Lembro-me que eu tive rubéola, mas quando eu tive eu não ficava deitado. Eu só tive a manifestação, mas não tinha nada: não tinha febre, mas não podia ir à escola, então eu jogava bola... Foi maravilhoso. Agora, às vezes que eu ficava doente... Eu deitava no sofá e era ótimo, porque minha mãe ia levar meu irmão na escola e, como eu estava doente, ela me paparicava. Na volta, ela trazia muito mais envelopes de figurinhas do que normalmente ela me permitia comprar (risos). Podia comprar, sei lá... Um cruzeiro, que vinham cinco envelopes... Ela vinha com vinte, porque “Ele está em casa, está doente...” Era uma delícia. A Berta me mimou sempre. Enquanto minha mãe ia levar meu irmão eu ficava com a Berta, e ela me mimando. Chegava minha mãe com os envelopes de figurinhas... A casa ficava muito silenciosa, com cheiro gostoso. Escurecia, porque eles fechavam a cortina... Era outra casa, era muito legal ficar lá. Eu adorava.

 

P/1 – Depois dessa escola onde você fez o pré, você continuou na mesma?

 

R – Continuei até a sexta série. Eu adorava a escola... Era muito legal, uma escola pequena na Rua Júpiter que chamava Irmã Catarina. Hoje ela virou um prédio. Fui lá outro dia ver, cheguei e tinha um prédio. A hora que eu cheguei: “Cara, cadê a Irmã Catarina?” Eu falei: “Bom, pelo menos a tia Wanda...” – a tia Wanda era uma papelaria que tinha do lado, onde eu comprava também as figurinhas – e não tinha também a tia Wanda, mas uma banca de jornal em frente à tia Wanda, e ela estava lá. Eu fui: “Oi, tia Wanda! Eu estudei aqui, foi naquela escola...” Ela não lembrou de mim, mas lembrou da escola. Na Rua Júpiter era o prédio de depois da primeira série. O pré-primário eu fiz na Rua Urano, que era uma rua para lá... Era um lugar e uma escola muito grande. Eu lembro que tinha um quadradão bem grande, que a gente jogava futebol – eu tinha seis, e meu irmão tinha oito. Era uma diferença muito grande, mas meu irmão deixava eu jogar bola com a turma dele. Isso era um status tremendo, porque eu era grandinho e sempre fui o maior da turma, então eu podia jogar com a moçada de oito anos. Eles meio que me paparicavam, era “o caçula do Beto.” O horário do recreio era o meu horário de rei: “Eu vou jogar bola com o pessoal da segunda série” (risos). Eu jogava futebol com o pessoal da segunda e era aceito, era escolhido. Não era um dos primeiros, mas não era o último, o lanterninha. Para mim era um momento de: “Tô com tudo, jogo bola com o povo da sexta série.”

 

P/1 – Você ficou nessa escola até a sexta série, depois mudou para qual?

 

R – Eu mudei para o Santa Cruz. Meu irmão estava na oitava série e lá não tinha colegial, então estava fazendo cursinho para entrar no Santa Cruz. Em casa só se falava em Santa Cruz: panfleto do Santa Cruz, foto do Santa Cruz, “Vai visitar o Santa Cruz.” Falei: “Ah, quero ir para o Santa Cruz também.” Eu podia continuar na Irmã Catarina até a oitava série, mas fui visitar o Santa Cruz. Meu primo que estudava lá nos convidava para a festa dos esportes, que eu já tinha ido... Era um colégio enorme, tem campos de futebol... Só se falava em Santa Cruz e eu quis sair. Eu adorava o Irmã Catarina, era super enturmado. Era uma escola muito pequenininha e cada classe tinha dez, doze alunos, você conhecia o moleque do primeiro ano ao grandalhão da oitava série. Conhecíamos todo mundo, os professores conheciam... Era um lugar muito gostoso, até hoje eu me arrependo: “Pô, porque eu saí?” Eu fui para o Santa Cruz e foi outra coisa. Eram quatro classes de 45 alunos e eu cheguei como um reles desconhecido. Eu estava acostumado, no Irmã Catarina...

 

P/1 – Onde você era o rei.

 

R – Ser o dodói. Depois que eu passei da primeira para a segunda série, o grande “tchan” não era jogar com a turma, era participar do treino. Às sextas-feiras, quando acabava a aula, às cinco e meia, o professor de Educação Física tirava uns dez moleques para treinar, porque a escola sempre participava de campeonatos de futebol de salão. Eu participava do treino (risos), era artilheiro do time. Era bom aluno, era o queridinho das professoras. Era um lugar que eu tinha todo... Eu estava muito bem situado lá. Queridinho das professoras, jogava no time da escola, era artilheiro do time, gritavam: “O Magal!” – o astro da época era o Magal (risos) – quando eu ia jogar bola. Fui para o Santa Cruz, era ninguém. 160 crianças por série... Tinha seus ídolos, os melhores jogadores de futebol. Cheguei e falei: “Puta, entrei lascado.”

 

P/1 – Quero voltar.

 

R – Eu só penso que quero voltar agora. Na época, não, porque eu me enturmei rápido. No segundo mês eu era representante de classe e tal, mas o status que eu tinha no Irmã Catarina nunca mais recuperei.

 

P/1 – Nessa primeira escola, qual era a professora preferida?

 

R – A tia Águida e a tia Mercedes. Eu adorava a tia Mercedes porque ela me chamava de Lu, eu me sentia tão íntimo dela! Ninguém me chamava de Lu, me chamavam de Luiz Fernando. A tia Águida eu adorava, até hoje fico pensando: “Poxa, eu queria ligar para a tia Águida.” Era irmã da tia Ângela, que era professora do meu irmão. Era professora de classe, aquelas professoras que dão aula de tudo... Ela era super legal. A tia Mercedes foi na terceira e na quarta, e a tia Águida foi na quinta e na sexta. Tia Mercedes era uma ruiva de óculos, e sempre, no final das aulas, duplas ou trios que tinham que varrer a classe. Eu adorava quando era o meu dia de ficar para varrer a classe porque a tia Mercedes ficava junto, e era nesse momento ela me chamava de Lu. “Lu, pega isso. Pega aquilo.” Eu me sentia tão adulto, porque eu estava fazendo um trabalho junto com ela e ela me tratava como igual. “Lu, puxa aquela cadeira ali?” Eu ia todo feliz (risos), eu adorava. Tanto é que, quando você perguntou, a primeira que eu lembrei foi ela. Tinha outra que eu lembro, a tia Regina, que era de Francês, porque era muito bonita. Todos os meninos da escola ficavam... Na aula da Tia Regina, todos.

 

P/1 – Foi sua primeira paixão?

 

R – Não, a primeira paixão foi a Fabiana, no pré-primário.

 

P/1 – Fabiana já...

 

R – Não, Fabiana durou muitos anos. Imagina... Aquela já __________.

 

P/1 – Nossa.

 

R – Era _________ total, porque teve uma época que começou a ter bailinhos para a quarta, quinta série. Eu namorava e trocava de namorada, e quase todas as meninas da classe queriam namorar comigo. Qual era a única que não queria? A Fabiana.

 

P/1 – Não queria?

 

R – Não. Ela queria namorar o Marcelo, que era meu melhor amigo. Um puta cara legal, também... Mas imagina, bicho: minha paixão foi lá pra cima (risos). “A Fabiana não quer namorar comigo.” Tinha aqueles cadernos, aqueles livros: “Que revista você gosta?” Eu ia direto à página de “quem você gosta” e a Fabiana, era o Marcelo (risos). Isso era terrível. Lembro-me que eu ficava muito puto, porque todo mundo sabia e tirava sarro, principalmente na minha casa. Meu irmão e meus pais tiravam sarro, uma coisa muito chata. Eu nunca falei nada, mas devia dar muita bandeira.

 

P/1 - Esse pessoal, amigos de infância... Você mantém até hoje?

 

R – Não. É gozado que os meus pais mantém, porque como a gente ficava muito junto, um na casa do outro, os pais ficaram amigos. Meus pais até... A sócia da minha mãe é a mãe de um dos caras da minha época; todo mês eles se reúnem em uma pizzaria. Nós, não: fomos cada um para um canto. Há uns três anos teve um almoço, um jantar... Não, foi a festa dos cinquenta anos do Irmã Catarina. Eu encontrei um monte de gente e foi super gostoso, para tomar _________... Mas fico sabendo o que eles estão fazendo por causa dos meus pais.

 

P/1 – E a Fabiana? Como é que está?

 

R – Não sei. A Fabiana e a Fabíola, que era a irmã dela e que também era bonita... A Fabíola... A Fabiana não foi nesse dia que teve o reencontro. Estava todo curioso para ver a Fabiana: “Que será que a Fabiana está fazendo?” Foi a Fabíola, que era a irmã dela, mas não lembro o que estava fazendo. Agora que você perguntou da Fabiana, lembrei que eu vi uma menina que... É gozado. O tempo vai passando e, sempre que você está na classe, tem aquelas pessoas que têm mais respeito, fama, prestígio, e aquelas que são... Tinha uma menina que era totalmente... Quando vimos ela assim, falamos: “Nossa, como ela ficou uma pessoa interessante.” Como a gente é bobo quando a gente é moleque (risos). A Sandra, ela tinha... “Olha que mulher interessante que ela ficou.”

 

P/1 – Ela era desprezada?

 

R – Totalmente. Não só por mim, por todos. Ela era da turma dos nerds. Homem é nerd, mulher, não tem... Mas ela era dos nerds. Tem sempre dessas coisas.

 

P/1 – Vamos lembrar o início do Santa Cruz. Você estava numa fase de pré-adolescência, do que você se recorda dessa época?

 

R – São recordações dolorosas. A recordação de eu chegar e falar: “Pô, aqui eu não sou mais o bambambã.” Quando fazíamos o intervalo e íamos jogar bola, eu queria me impor como eu me impunha lá. A primeira coisa boa foi que: ”Puxa, o cara chuta forte.” Ganhei certo respeito, mas tinha três caras que jogavam muito melhor do que eu indiscutivelmente. Eu fiquei um pouco abalado, não tinha assim... Na hora de escolher, não era eu que escolhiam. Tudo bem que eu um dos primeiros... Tinha outros dois, que eram o __________ e o ___________, mas eu ganhei um pouco no lance de chutar forte. Elegi umas oito para ficar apaixonado; eu era craque nisso, em olhar para menina e já ficar completamente apaixonado. Lembro-me da Viviana... Essa eu vejo até hoje. O pessoal do Santa Cruz eu vejo mais.

 

P/3 – Você chegou a namorar com alguma delas?

 

R – Namorei uma, que outro dia eu vi numa festa e disse: “Nossa, que engraçado.” Eu achei ela tão diferente do mundo em que eu vivo. Ela é médica, achei que ela estava meio Barbie e falei: “Nossa, mas que gozado.” Foi a minha primeira namorada – tirando aquelas umas do Irmã Catarina –, que foi final do primeiro colegial e começo do segundo. Teve uma festa há uns meses atrás de juntar todo mundo do Santa Cruz, de novo. Foi legal, eu a encontrei e disse: “Nossa, como a gente tomou caminho diferente.” O pessoal está tão diferente, bem base mesmo. Esquisito.

 

P/1 – Você ficou no Santa Cruz até o colegial?

 

R – Até o terceiro colegial. Eu lembro que eu era muito bom em Português. A minha escola era muito boa em Português, Matemática era péssimo... Muito tempo depois, fiquei sabendo que eu entrei no Santa Cruz por artimanha, porque quando eu fiz o teste, na sétima série, não fui aprovado. Eu tinha tirado a segunda melhor nota em Português, mas a pior em Matemática. Eu não tinha entrado, mas meu pai era amigo do Secretário da Educação. O cara ligou para lá e falou: “Olha, o menino...” Me botaram dentro. Em Português eu era muito bom, fui ganhando prestígio por aí. Era bom aluno, a professora de Português gostava de mim... Eu sempre fui muito falante e já fiquei representante de classe. Eu ganhei um espaçozinho... O ambiente não era o mesmo do Irmã Catarina, por isso eu disse que foi um momento sofrido para mim. Eu não sei muito se na época eu tinha... Com certeza não tinha essa consciência. Só depois, olhando para trás, eu vejo: “Nossa, que barra que foi.” Foi nessa época, também, que eu descobri que tinha nariz grande. É uma coisa que eu lembro... Um primo meu, mais novo, falou: “O Nando tem nariz de tucano.” Cara, isso foi um alfinetada... Alfinetada não, uma lançada (risos). “Como, nariz de tucano?” Lembro-me que eu fiquei... Foi nessa época... Eu estava muito [bó?], cara. Um atrás do outro... Perdi...

 

P/1 – Você tinha o apelido de Magal, não?

 

R – O apelido de Magal era ótimo, eu adorava.

 

P/1 – Depois foi “narigudo”, “nariz de tucano”, alguma coisa assim?

 

R – Não pegou esse apelido. Foi um dia... Lembro-me da cena: eu estava assistindo televisão na casa da minha avó e saí para ir ao banheiro. Quando eu voltei, ele estava comentando com a minha tia: “Ah, porque o Nando tem nariz de tucano!” Eu: “Hã?” Lembro-me de me olhar no espelho fazendo aquelas coisas, para olhar (risos)... Eu nunca tinha tido consciência, foi nessa época – eu devia ter uns treze anos... Isso, para mim, foi assim: “Sou feio.” Já não era só o nariz: “Puta, cara. Eu sou feio.” Tinha um lance com o meu irmão mais velho também, que era uma coisa bem... Meio sádica do meu irmão, tanto que ele sempre foi o galã da turma dele. Eu lembro dessa fase: eu com uns treze e ele com uns quinze, a gente se penteando na frente do espelho, ele arrumando espinha e tal. “Puta, Nando. Como você é feio, cara. Está gordo, seboso.” E eu: “Meu nariz de tucano, falou que eu sou gordo e seboso... Puta, não tenho mais o prestígio que eu tinha.” Lá [na Irmã Catarina] ainda tinha, podia falar que eu tinha nariz de tucano, era gordo e seboso, mas todo mundo queria namorar comigo – menos a Fabiana, mas o resto todas querem –, e no Santa Cruz, não. Isso mudou.

 

P/1 – Você ficou triste?

 

R – Não fiquei triste. Fiquei um cara completamente niilista e descrente de todo mundo, da vida: “Nada vale a pena” (risos). O mundo... Lembro-me de um dia, quando eu estava no colegial, que um professor meu falou que se fazia queima de arroz para regular estoque, e eu: “Cara, a humanidade não tem salvação.” Eu entrei numa fase de total niilismo: “A humanidade não presta, somos a escória da natureza. Queimam arroz... O mundo passa fome e os caras queimam arroz para regular preço. Não tem jeito, a humanidade é um lixo.” As poesias que eu gostava eram Augusto dos Anjos, aquela: “Escarra nessa boca que te beija” [Versos Íntimos]. Juntei mais dois amigos que eram assim, também e formamos o grupinho do...

P/3 – __________

 

R – É. No intervalo... O gozado era o seguinte: tinha esse grupo, mas não vivíamos ao largo, éramos personagens centrais na escola. Eu era do grêmio e jogava futebol no time da escola; O Demian era o melhor aluno da classe. Não éramos... Às vezes, fala isso e pensa numa coisa... Não era. Estávamos na onda, mas era completa... Lembro-me de muitos recreios em que eu ia para a capela – tinha uma capelinha no Santa Cruz – e: “Só se fala bobagem, só falam merda lá embaixo. Ficam desfilando roupinha e grife...” Vivíamos criticando que era um puta bando de alienados e babacas. Lembro-me de muitos recreios e eu na capela; alguns com o Demian, mas muitos, sozinho.

 

P/3 – Você ia rezar?

 

R – Não, eu achava chato.ficar lá em baixo. Só falavam bobagem: “Nando, __________ está na cabeça.” Que saco, cara (risos). As menininhas gostozinhas todas de Fiorucci, um mundo de babacas. Eu achava aquilo babaca. Eu saia, ia para capela e ficava sentado. Eu lembro... Eu curtia o silêncio que tinha na capela. Eu tenho essa passagem dentro da capela do Santa Cruz como marco – porque eu sempre fui um cara muito expansivo, representante de classe – para esse lado niilista, descrente: “Porra, a humanidade é uma caca.”

 

P/1 – Tudo começou com o nariz de tucano?

 

R – Com mudança de escola e com o nariz de tucano (risos). Isso tudo eu estabeleci depois, olhando para trás; não era claro para mim. Eu fui sacando, vendo... Medo de análise por causa do meu nariz de tucano (risos). Fui identificando essas passagens. Eu sempre tinha, na minha casa, o papel do alegre da casa: “O Nando é uma alegria, sempre divertindo a gente... Super alegre, carrega a mamãe no colo. Chega lá e...” Isso não bate muito com o adolescente. É claro que a vida... Tinha um poema do Vinícius de Moraes que era o meu lema, que [que] é claro que a vida é bela e a alegria é a única que ainda exige emoção, “mas acontece que eu sou triste.” Em ti bendigo o amor, “mas acontece que eu sou triste.” O triste sou eu. Eu sei de tudo isso, mas acontece que eu sou triste. Fazer o quê? Isso ficou o meu bordão.

 

P/1 – Depois disso, como você foi crescendo mais do que o nariz (risos)... Teve um equilíbrio. Como é que essa fase de tristeza, de pré-adolescência começou a passar?

 

R – Eu acho que ela está passando até agora. Estou me recuperando disso até hoje. Eu comecei a sacar isso acho que de uns cinco, seis anos para cá... Olhando minha vida, a atitude externa mudou. Quando eu me formei, quando eu resolvi fazer teatro... Tinha um íntimo que eu identifico com esse cara niilista, descrente, inseguro, nerd. Muito desse porte de nerd estou achando que é uma defesa. Sinto que, até hoje, é uma coisa que eu estou transformando. Eu sinto que estou num ciclo, num momento de passagem, mas não me sinto acabado. Quando eu olho, falo: “Ah, na época da minha __________ eu era assim.” Eu estou numa... Que está transformando.

 

P/1 – Você acabou o colegial... Como você se dirigiu para a área de Economia e História? O que te influenciou para isso?

 

R – Foi a aula do Pena. Eu lembro que __________: “O que eu vou fazer, bicho? Vou estudar o quê?” Não tinha muito... Lembro-me de um curso de um professor de História muito legal, de História do Brasil e República Velha. Ele estava dando “Política do Encilhamento”, coisa do café... Lembro-me que eu estava com o Demian, que era meu grande amigo, e estávamos na época de decidir o que fazer – estava no primeiro semestre do terceiro colegial –, falei: “Porra, Demian. Fazer Economia, cara! Vê como é legal esse curso que o cara está dando!” Eu resolvi fazer Economia e gostava muito de História também, por causa desse cara. Resolvi fazer os dois, Economia e História. Como eu não tinha que trabalhar... “Não, para você estudar papai banca tudo.” “Tá bom, vou estudar.”

 

P/1 – Como foi essa época de universidade?

 

R – Não foi legal. Na Economia... Não é que não foi legal; pensando do ponto de vista da Universidade, não foi legal. Na Economia eu entrei e eu não gostava de ninguém, não me enturmei com ninguém... Achava tudo uns babacas. Meu amigo era o Demian, esse cara que veio do Santa Cruz, e tinha três ou quatro da turma que eu gostava. O resto eu achava babaca, chato... Achava os papos pentelhos e os projetos de vida chatos. Todo mundo fazendo estágio para ser diretor de empresa. Achava tudo isso um saco. Eu atravessava a rua e ficava na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), porque sempre tinha happy hour e eu sempre ficava lá. Tinha muitos amigos do Santa Cruz que estavam na FAU, tanto é que eu ia para estudar e ia para FAU. Na História as pessoas eram legais, mas o curso eu achava muito ruim. Eu achava... Fiquei muito decepcionado quando eu entrei na faculdade. Tem toda aquela coisa... Quando eu entrei, falei: “É isso?” Fiquei meio...

 

P/3 – Fez História aonde?

 

R – História eu fiz na PUC (Pontifícia Universidade Católica). Eu fazia de manhã a Economia e à tarde História. Mas era legal, porque...

 

P/3 – Você estudava Economia porque...

 

R – Eu queria fazer... Eu tinha claro que eu ia seguir a carreira acadêmica – não ia trabalhar em empresa – e eu queria ter um projeto para mudar o Brasil (risos). Tanto é que a minha monografia – quando a gente estava acabando o curso, tinha que fazer uma monografia – foi um diagnóstico da situação brasileira, toda uma preocupação com o estar atuando na realidade... Enfim, de você ser atuante nesse sentido. Eu me imaginava um cara que ia ter uma atuação política como economista: seguindo uma carreira acadêmica de dar aulas, mas com tempo para criar um espaço para... Eu entrei na faculdade pensando nisso, e conforme o curso foi se desenrolando, fui cada vez mais me afastando e me decepcionando com ele. Era tudo muito técnico, muito de cálculo... Eu gostava dos cursos de Teoria do Valor. Lembro-me que no curso de Teoria do Valor eu tinha aula com o Gianetti – não com o velho, com um cara moço – e eu ficava... Dessas aulas eu gostava. Adoro polêmica e eu o acho muito reacionário, só sabe fazer Economia. Um dia... Tinha feito um curso de Teoria do Valor do Marx, eu e o Demian – a gente devorava tudo, estudava para cacete... Foi um curso legal. Eu manjava relativamente bem, e o cara sempre... Ele era muito reacionário. Lembro-me que ele falava coisas: “Não, isso não é teoria que eu estou falando do Marx.” Ficávamos discutindo com ele. Esses momentos eu gostava, mas era sempre apontando que o cara estava errado. “Você está sendo reacionário, conservador e agindo de má fé, porque está passando informação errada.” __________ (risos) Puta, e o Demian não falava... Eu falava: “Levanta.” Então eu falava: “Que saco de lugar é esse, que os caras querem ficar só ouvindo o que o cara fala... A hora que você vai debater e criticar, os caras ficam achando que eu sou um chato.” Lembro-me que um dia foi o Delfim Netto falar lá. O __________ e o Demian ficaram heróis esse dia. O Delfim Netto foi, lotou a sala e todo mundo assim... O Demian pediu a palavra e falou que achava que o Delfim Netto não tinha autoridade nenhuma para estar lá falando, tanta gente ouvindo ele, que ele era um cara que participou do movimento militar e que assinou o AI-5 (Ato Institucional Número Cinco)... Começou a falar um monte de coisas e o presidente do grêmio já levantou para pedir desculpas ao Delfim Netto. O Delfim Netto deu uma resposta super reacionária: “Quem é você? Eu sou formado nisso, naquilo e naquele outro, e você? Quem é?” Eu tinha esse tipo de decepção com a Economia: um lugar reacionário, chato, em que todo mundo quer ser diretor de empresa, ficar milionário e ter o carro do ano. Que saco. Eu tinha um pouco de... Por isso eu disse que não foi legal, fiquei decepcionado com isso. Na História as pessoas eram legais e eu curtia o povo de lá, mas falava: “Pô, esses cursos são tão [reba?], não tem prova...” Eu sempre era o pentelho da turma: na Economia porque era o pentelho de esquerda que lê, sabe e discute com o professor... “Ai, que saco! O cara vai polemizar.” Eu sempre adorei polêmica. Na História, porque era... Os caras falavam... Tinha muitos debates para não ter prova e eu dizia: “Claro que tem que ter prova.” Ficava tudo naquela de fazer trabalho em grupo, você faz os trabalhos meio nas coxas e entrega... Eu achava que o curso não era sério. Fiquei um pouco decepcionada pelo nível, entrei numa época em que estavam meio que desmontando a História da PUC e estava todo mundo indo para a USP (Universidade de São Paulo). Quando pegava aquele curso: “Ah, o semestre passado quem deu foi o Nicolau __________, mas agora ele foi para a USP.” Eu sempre pegava o momento em que estavam saindo muitos professores. Eu peguei o Luiz __________...

 

P/1 – Em que época foi isso?

 

R – Eu entrei em 86. Economia eu acabei em 89, fiz em quatro anos, mas História eu tranquei... Eu não fazia todos os cursos, eu trancava. Em vez de fazer vinte créditos, eu fazia quinze. Eu acabei só quando eu voltei da Europa, 91. Acabei em 93, 94... Eu voltei e quis acabar.

 

P/2 – Você acabou os dois?

 

R – Acabei os dois.

 

P/1 – Depois disso, como é que você escolheu esses cursos na PUC?

 

R – Na época, eu achei que ia escolher de um jeito e agora eu acho outro, mas vou contar as duas. Eu passei um ano na Europa. Quando eu acabei de me formar, meu pai falou: “Eu vou te dar uma passagem de ida e volta para a Europa, fica lá quanto tempo você quiser. A passagem é aberta para um ano.” Botei na minha cabeça que ia ficar um ano. Meu pai tinha me dado dinheiro para eu ficar uns três meses. Eu...

 

P/1 – Você estava a fim de fazer essa viagem? Como surgiu a ideia de fazer?

 

R – Eu me formei e eu não tinha essa vontade, como eu te falei... Eu não fiz nenhum estágio, eu não tinha vontade. Eu acabei e falei: “O que eu vou fazer, bicho? Não quero trabalhar com Economia, não é isso que eu quero.” Meu pai falou: “Você acabou de se formar, normal. Vai viajar. Quando voltar você vê o que vai fazer.” Eu fui com essa proposta. Acabei em 90, estava com 21 anos e fui para lá. Eu cheguei e fui para Londres trabalhar, porque a grana que eu tinha era para três meses. Pensei: “Se eu começar a trabalhar agora eu junto para ficar mais tempo.” Fiquei em Londres janeiro, fevereiro e março, que era inverno. Todo dia frio, chovendo... Eu arrumei emprego numa loja de terceiro mundíssimo – eu não tinha ainda passaporte italiano –, eu era um cara que fazia tudo: fazia faxina na loja, ia aos bancos, fazia entrega, tudo. Eu estava sozinho, fui viajar sozinho. Primeira vez que eu saí de casa e que fiquei longe de meus pais. Eu estava sempre muito reflexivo e com sentimento de estranhamento em relação a tudo. É outra língua, outro país... Eu estava muito... Escrevendo diário e tal. Lembro-me que eu andava no metrô de Londres e falava: “Cara, as pessoas não se olham. Acho que eles abrem o jornal para não olhar para a cara do outro.” Todo mundo lá assina o jornal, não se conversa. “Puta, que dia a dia mais bobo. Você vai para o trabalho, volta para casa... Para quê? O que está rolando?” Lembro-me que eu escrevi no diário: “A civilização...” Lembrei-me do seguinte: quando eu fui para o Nordeste – eu estava no segundo ou terceiro colegial –, meu pai me deu dinheiro pra passar vinte dias e conseguimos ficar 45. Fui eu e mais quatro amigos. Economizávamos para caramba. Entramos numa onda de economizar e não precisava mais, aquilo dava. Só que entramos tanto naquele movimento de economia que você continuou... Eu fiz essa associação com a civilização: queria uma civilização __________... O sentido do trabalho, de você sair, pa lá lá pra lá la... Você está construindo um mundo bacana e sua vida é legal, só que em nome da civilização as pessoas fazem isso: acordam de manhã, ficam no metrô com o jornal na cara, fazem um trabalho chato, que não gostam e depois saem à noite para ir bem longe. Lá à noite era muito deprimido, uma coisa... Não era uma alegria... Eu não sentia uma alegria bacana, sentia uma alegria pesada, meio “vomitando”. Eu falava: “Não, a civilização está __________. Ficamos fazendo um trabalho...” Do mesmo jeito que eu perdi o pé na época de “quero economizar”: tudo em nome do progresso. Progresso para quê? O que são essas nações todas... Fiquei questionando tudo, e aí percebo que o único jeito de você não ficar preso a isso é você ser ou marginal ou artista. O legal é o seguinte: o marginal ou o artista, além de tudo, ainda aproveitam as benesses das fundações, porque lógico que é legal você abrir a torneira e sair água. Eu tinha ido para Paraíba – meu irmão tinha morado lá –, que não tinha água: “Pô, é do caramba.” Só que não fica escravo dela... Eu uso das benesses, mas não sou escravizado. Lembro-me de eu escrever no diário que os marginais e os artistas são os grandes marajás da civilização. Vou ser artista, marginal não vou ser mais. Não dá mais (risos). Para efetuar, comecei a procurar... Cantar não, porque eu canto mal. “Ah, vou ser ator.” Escrevi no meu diário: “Voltando para o Brasil vou fazer EAD (Escola de Arte Dramática)”, porque na Economia... Aqui era a FAU e ali era a EAD. Eu via aquelas pessoas interessantes que entravam lá: “Nossa, esse cara é muito louco!” Quando eu decidi que eu queria ser ator, escrevi: “Quando eu voltar para o Brasil vou fazer EAD e ser ator.” Quinze dias depois... Quando eu saí do Brasil eu tinha pedido um estágio na Fiat e saiu o estágio em Torino. Eu achei ótimo, porque o Brasil ia ficar em Torino, era a Copa de 90... “Puta, vou ver a Copa” risos. “Vou ver o jogo do Brasil e fazer estágio na Fiat... Não era tanto pelo estágio, era pela grana: ia ganhar dois mil dólares por mês no estágio. Pensei: “Aqui, sendo faxineiro, um cara que faz tudo, eu ganhava cinquenta dólares por dia – 25 paus – e eu achava muito pouco. Vou ganhar muito mais e meu projeto para ficar em Torino vai ser bom.” Peguei o trem e fui para Paris encontrar um daqueles três amigos meus do colegial que tinham ficado lá. Passamos uma semana bebendo, enchendo a cara e tudo o mais, aí eu peguei o trem para Torino. Eu estava lendo A Mandrágora, do Machiavel, e no meu lugar do trem tinha um cara italiano que falou: “Nossa, você está lendo teatro? Você gosta de teatro? Eu sou ator. Vai começar a ter um curso de teatro agora, lá em Torino. Eu falei: “Nossa, quinze dias atrás botei um ponto que eu vou ser ator. Quando eu voltasse pro Brasil ia fazer a EAD. Não preciso esperar, posso começar a fazer agora.” Esse cara me arrumou um apartamento com um amigo dele que ia casar, mas não sabia se ia dar certo. Não queria se desfazer do apartamento e queria alugar para gente de confiança. “Pô, acabou de me conhecer no trem e já me julga de confiança” (risos). “Isso é ótimo.” Esse ator me arrumou esse apartamento para alugar e o curso de teatro. Comecei a fazer o curso. De dia, eu fazia o estágio na Fiat, que eu achava um tédio. O meu “elam” era: “Ah, bicho. Não vejo a hora de chegar a noite e ir para o curso de teatro.”

 

P/3 – Era toda noite?

 

R – Era de segunda a sexta, à noite. Foi uns quarenta dias e eu adorei, nunca tinha feito nada de teatro. No Santa Cruz tinha o grupo de teatro, mas eu nunca participei... No Santa Cruz era o futebol, eu queria ser jogador. Tinha um monte de gente que fazia teatro e eu achava que era chato, meu negócio era futebol. Quando eu comecei a fazer esse curso, eu adorei. Por isso eu falei que tinha duas versões: essa foi uma delas.

 

P/1 – Só para completar, esse estágio na Fiat era em que setor?

 

R – O estágio que eu fiz foi na área de marketing. Não foi um estágio que me acrescentou muito, fui mais porque eu não estava com essa proposta... Se eu tivesse com essa proposta, poderia ter aproveitado. Mas eu ia... Era gostoso porque eu falava e treinava bastante o meu italiano, tinha uns caras muito seguros. Estava na época da Copa do Mundo. Mas o estágio não me acrescentou nada, eu tinha consciência que estava fazendo para ganhar os dois mil dólares e para poder ficar mais tempo na Europa.

 

P/1 – Agora você conta a segunda versão.

 

R – Olhando para trás, eu disse: “Esse papo de estar tomando decisões, absolutamente passional, que eu falei...” Quando eu era moleque, quando a escola fazia excursão, eu sempre apresentava alguma coisa, em casa eu sempre fazia imitações... Eu sempre tive essa vontade de fazer isso. Lembro-me que nesses debates que eu tinha com o Demian, esse meu amigo que era meio cara metade... Lembro-me de um dia – acho que eu estava no segundo ano da faculdade – que ele tinha ido ao meu aniversário e me dado vários livros. Tinha feito uma dedicatória em várias páginas do livro dizendo: “Bicho, a vida é uma merda. Nós estamos ferrados...” Lembro-me que daí um mês ou dois eu fiz uma performance no aniversário dele para falar: “Pera, cara. Como tudo é um saco? No mínimo, tomar cerveja com salame... Não é bom? Tem coisa bacana.” Ele foi afundando mais nessa e estava meio: “Opa, cara. Não é tudo tão assim.” Lembro-me que nesse dia que eu disse que tinha coisas legais, eu falei: “Porque você não muda e não vai procurar fazer outra coisa?” Abri um caderno: “Curso de teatro! Vai tentar um curso de teatro, por exemplo” – falando para ele, mas também para mim. Por isso que eu falei que, durante muito tempo, eu achei que minha escolha tinha sido uma coisa racional que eu estava lá. Fiz esse __________, mais ou menos... Tudo bem, esse foi o ponto de virada. Teve um dia que eu escrevi isso. Mas já tinha uma coisa, uma vontade latente que eu ainda não tinha sacado e não tinha formalizado. Revisitando as minhas coisas, disse: “Não, pô. No dia que eu falei para o Demian fazer um curso de teatro, eu estava falando pra mim.” Eu estava dando alternativa para mim. Estava falando pra ele, mas o cara era a minha cara metade; espera aí.

 

P/1 – Vocês são amigos até hoje?

 

R – Essa é uma grande perda que eu tive. O Demian foi uma pessoa que desapareceu. Não fisicamente, desapareceu porque ele tomou outro rumo. Ele sempre teve essa característica, sempre foi meio __________. Quando ele estava com __________ que era meu e do Rogério, esse outro cara... Ele sempre era um cara muito legal, com ideias muito arejadas. O sonho dele era ter um jornal comunista. Lembro-me que ele era muito chato, porque a gente cabulava a aula da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade)... Um dia cabulamos para ir à Bienal do Livro, no Ibirapuera. Deu umas quatro da tarde: “Bolonha, eu tenho que ir.” “Por que, Demian? Não combinamos que hoje íamos romper todos os nossos compromissos?” “Pois é, mas tem reunião do partido e eu não posso deixar de ir.” Ele era um cara todo disciplinado com a causa revolucionária. Tudo bem. Eu posso até não concordar, mas era uma figura que eu admirava. Ele virou um executivo da telefonia, casou com uma menina muito chata e ficou um cara que, aos poucos, fomos nos separando. Hoje esse outro amigo que era dos três, o Rogério, fala: “Bom, o Demian foi mesmo...” A tia do Demian – que sempre foi “a tia do Demian” – hoje é minha colega de trabalho, ela é atriz. Eu estou fazendo uma peça e estou ensaiando com ela, a [Brici Oca?]. Eu falo: “Gozado, não? Eu frequentei tanto a sua casa” – a casa dela era vizinha da casa do Demian – “e você sempre foi ‘a tia do Demian’. Hoje sou muito mais teu amigo do que dele, não o vejo mais.” Fiquei amigo da tia dele. Ele sumiu, vejo-o muito de vez em quando... Um dia marquei um almoço com ele porque eu estava produzindo o espetáculo da Élida, que era um monólogo. Eu disse: “Pô, vou falar com o Demian. O cara está na Telefônica, deve ter jeito.” Foi muito estranho, falei: “Nossa, foi tão esquisito meu encontro com Demian... Ele está tão formal e duro.” Ele me cumprimentou: “Oi Bolonha, tudo bem?” Nossa, que esquisito. Como é que a gente tomou rumos tão diferentes? É uma aproximação inviável. Agora o outro, o Rogério... Nos vemos muito, jogamos botão...

 

P/1 – Nando, você falou que quando acabou de se formar seu pai te deu uma grana para ir à Europa. Como era o relacionamento? Como você descreveria seu pai, sua mãe e essa coisa da família de ter proporcionado a você conhecer outra parte do mundo?

 

R – Ter me proporcionado conhecer essa outra parte do mundo foi fantástico, essa viagem foi um momento divisor de águas e um dos marcos na minha vida. Foi uma coisa muito legal. Eles sempre foram pais muito presentes e muito carinhosos; agora tem todo o lado do excesso disso. Sempre foram muito “super pais”, uma coisa que sufoca. Isso eu percebo hoje, que eu fico meio na defensiva e mais retraído com eles do que eu gostaria. Gostaria de ser mais carinhoso e expansivo, mas eu mesmo identifico que eu não ser é um pouco de defesa minha, porque eles ocupam muito espaço. Retiro-me um pouco como defesa. Isso é uma coisa que, com o tempo, estou conseguindo transformar. Teve um dia que foi muito legal no finalzinho do ano passado, em dezembro. Meu pai sempre assumiu o personagem do pai, coisa que eu e meu irmão sempre nos lastimamos. Meu pai não abre a ideia do “papai”. Já crescemos, não tem mais aquela de “papai”. Teve um dia que ele me ligou e falou: “Papai está indo para Itu, você não quer ir junto?” E eu: “Nossa, papai me chamou para conversar.” Eu fui para Itu e foi super legal: passamos um dia em que conversamos e, pela primeira vez, ele falou de dificuldades. Ele sempre passou a ideia do super pai e do cara que fala: “Papai faz, papai arranja, papai não sei o quê. Papai não esquece, ele não lembra.” Sempre passou a ideia do infalível, o que era uma coisa muito opressora. Nesse dia, eu falei: “Nossa, pela primeira vez...” Foi legal porque partiu do meu pai, ele que me convidou para ir e falou um monte de coisas. Contou coisas dele, dificuldades: “Nossa, meu pai falando em dificuldades?” Foi um momento muito bacana, acho que foi uma semana antes da noite de Natal. Na noite de Natal, eu falei: “Pai, foi muito legal o que você me disse.” “Ah, você achou?” – já com os olhos meio marejando. Falei: “Foi muito legal.” “Puxa, filho. Para mim foi o dia mais feliz da minha vida.” Falei: “Nossa, que legal.” Foi um momento de aproximação. Eu tenho essa dificuldade, embora eu esteja muito presente – a gente se fala sempre –, por essa proposta dele não conseguir se desvencilhar da figura do pai. Eu quero contar e bater um papo como amigo, mas não tenho muito espaço, e a minha mãe sempre adotou uma postura da que bota panos quentes. Quando eu era moleque, eu tinha medo do meu pai, ele era sempre muito bravo. Minha mãe... Eu apanhava dela todo dia. Um tapa na bunda todo dia, porque eu era muito moleque. Meu pai nunca me bateu. Não é que não precisava, era uma olhada assim... A minha mãe usava isso – sem ter consciência disso, mas ela reforçava –, porque ela falava: “Se você não parar, quando seu pai chegar eu conto pra ele.” “Então eu paro.” Sempre aprendi isso, então na minha infância o meu pai sempre foi uma figura opressiva, uma figura de medo. “Tenho medo, cara...” Só olha, sem precisar fazer nada. Era uma coisa que ele adotava. Era muito louco que, ao mesmo tempo em que tinha isso, ele podia dar prêmios absurdos. Essa história dos envelopes de figurinhas... Eu nunca me esqueço de um dia, em Itu, que ele foi com a gente na banca e comprou uma quantidade pra encher o álbum – ele comprou 200. Do mesmo jeito que ele podia chegar e dar uma puta ferrada, ele podia chegar e trazer um pacote de figurinhas para você. Criou uma figura muito poderosa, que poderia te dar prêmios absurdos ou te... Foi um processo – está sendo, até hoje – de conseguir me aproximar do homem Luiz Antônio: além de pai, tem outras coisas... Essa foi uma dificuldade. Minha mãe sempre adotou a postura da que bota pano quente. Quando meu pai ficava muito puto e bravo, uma coisa que ele fazia que hoje eu digo: “Nossa, _________ não é à toa.” Ele falava para mim: “Não faça o papai perder a paciência. Pelo amor de Deus, não faça papai perder a paciência.” Bicho, que fantasia é essa que eu tive... Se meu pai perder a paciência, o que vai acontecer? Eu cresci por toda minha infância com essa ameaça.

 

P/1- Ele nunca perdeu a paciência. Você descobriu o que tinha atrás dessa ameaça?

 

R – Não, porque eu nunca corri dentro. Sempre que falava: “Por favor, para”, eu... Meu irmão que correu dentro... (é meu celular) Meu pai mudou para: “Papai vai ter um ataque do coração.” Sempre que ele falava isso, eu: “Não, pelo amor de Deus! Não perca.” Lembro-me que quando eu estava na adolescência – meu irmão tinha uns catorze, quinze... Não lembro exatamente o que rolou... _____________ (risos).

 

P/1 – Acabou perdendo a paciência.

 

R – Lembro-me que meu irmão... Uma vez teve uma discussão que meu pai ficou com esse papo de “não faça” e meu irmão continuou. Quando ele continuou minha mãe saiu do quarto, desesperada, chorando. Eu: “Puta merda, o que vai acontecer? Ele vai perder a paciência.” Ele ficou no safa com a mão no peito, que estava passando mal. Meu irmão continuou, e eu pensando: “É hoje, papai vai morrer do coração.” Minha mãe também... Não aconteceu nada (risos). Ele continuou passando mal, mas não... Ele mudou: “Não vou... Mas vou passar mal.” O fato é que tem toda essa história na família. Meu avô morreu de enfarte, o irmão mais velho morreu de enfarte e todos piram que vão ter enfarte. Todos têm essa coisa.

 

P/1 – Todo mundo tem enfarte na sua casa?

 

R – Ele usou isso quando ele precisava. Ficamos adolescentes e foi mudando essa coisa do “papai vai explodir”, mas ainda era uma figura opressiva pela carga toda que eu tinha da minha infância, desse cara que... Porra, se seu pai perde a paciência você não sabe o que pode acontecer. Paralelo a isso, tivemos toda uma vida saudável, de ir ao jogo de futebol juntos, de sentar carinhoso e de ser um pai sempre presente. Mas uma coisa que eu noto que ficou da relação, é que foi muito... A parte de iniciativa foi muito podada, porque sempre: “Papai faz, papai compra...” Quando você perguntou como é que está hoje: sinto que estou num processo até hoje, porque eu vou identificando essas coisas, vou sacando e pensando em determinadas situações, o porquê eu fui tão passivo nesses primeiros anos... Algumas coisas eu percebo que... Até hoje – eu não sou tão velho – estou trabalhando conteúdos que tenham a ver com essa fase da vida.

 

P/1 – Você falou que você terminou Economia, História e foi para Artes. Como foi esse __________?

 

R – Quando entrei na EAD foi o ano mais feio da minha vida.

 

P/2 – Você fez os quarenta dias de curso, terminou o estágio...

 

R – Fiz os quarenta dias, terminei o estágio na Fiat. Assisti à Copa do Mundo, acabei o curso de teatro e não fiz mais nada de...

 

P/1 – De importante?

 

R – De coisa importantíssima. Era um sonho meu assistir à Copa do Mundo. Eu segui minha viagem e fui pra Firenze [Florença] fazer um curso de italiano, mas não fiz mais nada de teatro. Quando eu voltei pro Brasil, por causa do foco – eu não tinha sacado que era por causa do foco –, disse: “Bicho, não para de aparecer...” O teatro era minha vida, andando... Quando eu voltei – tinha trancado a PUC –, voltei para a PUC. Eu nunca vi tanto curso de teatro na minha vida, falei: “O destino está querendo que eu faça teatro. Ele simplesmente está lá, e agora que eu estou percebendo.” Eu não sabia... Fui fazer Emílio Fontana. Lembro-me que no primeiro dia achei estranho. No segundo e terceiro, não fui. Eu comentei com a [Brita?], a professora que era a tia do Demian e a pessoa mais próxima que eu conhecia que lidava com teatro – ela era crítica. Eu falei para a [Brita?] que eu queria ser ator. Ela riu e achou engraçado, falou: “Você quer ser ator? Eu estou fazendo a iluminação de uma peça e vou ter que sair porque eu fazer outro espetáculo. Você não quer ir lá fazer? Eu não sou iluminadora, mas estou fazendo porque é um grupo...” Eu fui fazer a iluminação dessa peça e adorei o ambiente, as pessoas... “Isso que eu quero. Não é Economia, não é História e nada disso. É isso aqui que eu quero.” Lá que me falaram... Contei do Emílio Fontana e ela falou: “Não, Bolonha, pelo amor de Deus! Você vai fazer a EAD, que é a melhor coisa que tem.” Aí ela me falou mais formalmente da EAD, que eu conhecia de ver quando eu estava na FEA. Fazendo a luz desse espetáculo, eu e a menina que operava o som nos preparamos para ver, e o diretor do espetáculo deu uma... Ele via as nossas senhas e dava uns toques com a ________. Um cara super legal. Prestamos e entramos. Quando eu entrei, o meu primeiro ano na EAD era um sonho, eu não acreditava: eu amava aquilo lá. Quando teve as férias de dezembro, eu disse: “Droga, tem férias... Caramba, não vejo a hora que voltem as aulas.” Eu chegava lá e eu tenho aula de dança, de mímica, de improviso. Foi o melhor... O segundo e o terceiro ano também foram legais – adorei o curso na EAD –, mas a descoberta e o impacto da descoberta foram no primeiro ano. Lembro-me que eu era muito feliz de estar indo para a EAD, ficava muito contente e satisfeito: “É isso que eu quero fazer, cara. Muito bom. Eu fico das seis e meia às onze e meia e adoro.” Quando acabava eu continuava lá, sábado e domingo a gente ia ensaiar, eu não saía de lá. Quando tinha férias, dizia: “Droga que tem férias.” Era super legal, adorava.

 

P/2 – E a sua família numa boa quando você decidiu fazer teatro?

 

R – Quando eu falei que ia fazer teatro, minha mãe: “Ah, claro. Que legal.” Meu pai achou que era mais “uma viagem” minha: “Tudo bem, mas você vai continuar fazendo o curso de História?” “Vou continuar. Eu faço EAD à noite e acabo a História de manhã.” Estava dando aula... Estava fazendo História à tarde, dando aula de manhã – eu já estava dando aula de História antes de acabar o curso – e fazia EAD à noite. Eu senti que: “Não vai ser, não vai fazer...” Eu nunca tinha feito nada, nem sei se eles achavam que eu ia entrar... Lembro-me que teve esse papo: “Nando, você tem que estar preparado para, se por acaso não entrar, você voltar. Você sabe que é uma coisa difícil, muita gente procura...” Tinha essa coisa de que: “Ah, tudo bem. Tudo o que é formação está bom.” Tinha um pouco essa noção... “Está estudando, vai ampliar currículo e vai ser bom.” Em nenhum momento eles obstaculizaram, mas também não foi uma coisa de... Na nossa família não tem nada disso, ninguém na família é ator, atriz. Não tem ninguém nessa área, mas eu senti que eles falaram: “Legal, vai ampliar a formação dele. Bacana.”

 

P/1 – Esses teus amigos da nova faculdade você tem até hoje?

 

R – Na EAD?

 

P/1 – Da EAD.

 

R – A minha turma de hoje é o pessoal da EAD. Não todos – porque a turma eram vinte –, mas as pessoas mais próximas agora são o povo que fez comigo o EAD.

 

P/1 – Você se formou quando?

 

R – Eu me formei em 97 ou 98, eu tranquei um período.

 

P/1 – Daí começou a atuar?

 

R – Quando eu estava no terceiro semestre – estava no segundo ano – um professor meu que eu adorava, o Celso Frateschi, convidou-me para fazer um espetáculo. Eu falei: “Puta merda, estou no segundo ano e já vou fazer um espetáculo tradicional com o Celso Frateschi!” Direção do Celso e do Elias, uma delícia. Foi metade da minha... Metade não, fomos seis da minha classe que ele chamou. Ele tinha dado um curso para nós e chamou seis para fazer o espetáculo com ele. Era um espetáculo que ele tinha montado na oficina que tinha dado para o terceiro ano, eu tinha assistido e achado maravilhoso, chamava-se Ifigênia em Aulis. Ele quis fazer uma montagem tradicional e não fez com aquele elenco. Fez com ele, a mulher dele – que era a Edith – e nos chamou. Sentimo-nos super prestigiados, pois montou com os caras do outro ano e não quis fazer: “Vai fazer com a gente!” Eu fui fazer essa peça, que foi muito legal, embora tenha sido muito doloroso o processo todo. Muita gente... Tinha um coro de cinco meninas e quatro saíram. Como saíram quatro, entrou uma que foi a Élida. Lá que eu a conheci, foi quando eu saí para fazer...

 

P/1- Que peça que foi?

 

R – Chamada Aulis, que era baseada em Ifigênia em Aulis, que ficou no porão do Centro Cultural [de São Paulo] e depois foi para o Teatro de Arena, no Tuca [Teatro da Universidade Católica de São Paulo]. Até hoje foi o melhor trabalho profissional que eu fiz. Eu adorava aquele espetáculo, maravilhoso... Foi a primeira experiência como profissional e como amador. Eu nunca tinha feito nada e foi uma experiência muito bacana.

 

P/1 – Aí você começou a morar com a Élida?

 

R – Não. A Élida foi morar comigo quando eu morava com meus pais ainda, mas não foi uma decisão; foi uma coisa do acaso. A gente não se desgrudava e ela começou a dormir em casa, ela morava longe para caramba... Eu a levava para trocar de roupa, para trocar a mala... Começou a trazer mala e voltar para casa. Trazia mala de uma em uma semana, começou a trazer de quinze dias e começou a fazer de mês em mês, tanto que a gente tirou a minha cama de solteiro e botou uma de casal. No começo dormiam os dois na cama de solteiro. Teve uma segunda fase que começava dormir na de solteiro e depois ia para o chão (risos). A terceira fase foi botar a cama de casal, até que mudamos e fomos para o nosso apartamento.

 

P/1 – E seus pais nessa situação? Numa boa, aceitaram bem?

 

R – Aceitaram legal, sim. Lembro-me que quando falamos que íamos casar, meu pai e todo mundo falou: “Ela está grávida?”, porque já estava com dois meses namorando. Você soube que a gente foi agora com os Doutores no... Nessas atividades de sextas-feiras? O Cláudio [Canelli?] nos levou lá no...

 

P/2 – Jardim Botânico.

 

R – Quando eu cheguei no Jardim Botânico, falei: “Nossa, cara! Foi aqui que Élida e eu decidimos casar.” Eu estava namorando dois meses nesse esquema de vai, troca a mala e volta. Fomos passear no Jardim Botânico e falei: “Você reparou que a gente não se desgruda... Vamos casar?” “Vamos.” Chegamos em casa e contamos para o meu pai: “A gente vai casar.” Ele falou: “Está grávida?”, porque dois meses... Falamos que não, e eles sempre acharam que era legal, gostaram... Eles sempre foram super protetores, então acho que para eles era uma coisa normal: “O moleque está com 25 anos, acho que é normal casar.”

 

P/1 – Como você chegou... Agora você é ator dos Doutores da Alegria?

 

R – É.

 P/1 – Como você chegou até eles?

 

R – Como eu conheci os Doutores eu não me lembro. Qual foi a minha primeira informação dos Doutores da Alegria? Eu não lembro.

 

P/1 – Você atuou antes em outras coisas? Vamos continuar com a nossa trajetória. Você estava contando para nós da sua primeira peça. O que você continuou fazendo depois disso?

 

R – Eu ia começar a falar como eu virei palhaço (risos). Eu acho que eu assumi...

 

P/1 – Tudo isso para virar palhaço.

 

R – Todos caminhos... Foi no EAD. Eu fui fazer... Estava no último ano, que são só oficinas. A [Cristiane Paoli] Quito foi dar uma oficina de clown e foi a mesma intensidade de quando eu entrei no EAD: “É isso que eu quero fazer, bicho.” Sabe quando você fica: “Para que será que eu tenho talento? O que será que eu tenho que fazer? Será que eu sou apto para __________?” Quando eu comecei a fazer o curso de clown, falei: “É isso, claro!” Começa a juntar fichinha, lembrar de coisas de sua vida... Eu sempre fui muito tirador de sarro, e as pessoas... Lembro-me que sempre tinha esse papo: “Ah, Bolonha é um cara engraçado.” Às vezes eu estou falando sério, não estou fazendo piada e as pessoas falam que é engraçado. Eu sempre tive essa veia de ser bem humorado e de ser tirador de sarro. Quando eu comecei a fazer o curso de clown eu adorei. Eu sempre sou muito crítico – deu para perceber, como estou contando a minha história –, então é um lugar de liberdade: “Aqui pode.” Sou um cara muito rígido comigo mesmo. Uma das coisas que eu procuro estar trabalhando no momento é a questão da rigidez, e eu saquei isso: “O trabalho do clown é o lugar onde vale tudo, lá se pode. Pode ser ridículo, fazer as coisas erradas. Aliás, é bom que faça as coisas erradas e que seja ridículo.”

 

P/1 – Como é esse curso? Quanto tempo durou?

 

R – O curso que eu fiz com a Quito na EAD foi de quatro meses, mas eu gostei tanto que saí e fiquei atrás dela no Nova Dança. Fiz vários cursos com ela, fiz curso com o Philippe Gaulier. O curso que a Quito deu na EAD tinha toda uma parte física que era de contato e improvisação com a Tica Lemos, que foi maravilhoso. Foi um semestre absurdo de bom. Tinha um trabalho de aproximação com a máscara, que era um trabalho de você estar se revelando através da máscara. Eu comentei com a Rosana, quando conversamos, que: “Ah, o fato de se esconder atrás da máscara...” Quando se bota a máscara do palhaço você não está se escondendo, você está se despindo absolutamente por inteiro. Você está podendo mostrar as suas falhas, o que você é errado e o que você faz mal pra caramba. Aí vira bom, é ótimo, uma varinha de condão. Tudo o que é muito ruim fica fantástico: quanto pior for, melhor vai ser. O melhor lugar para o clown estar é na merda. Eu gostei muito do trabalho, tanto do processo todo do trabalho de corpo quanto da linguagem. Lembro-me que numa dessas reuniões de avaliação... Eu não formulei, escapou: “É isso que eu quero.” Daí que me dei conta: “Será que é bom ser... Acho que é. Isso que eu quero fazer, essa linguagem que eu quero seguir.” Tanto que quando acabou o curso o espetáculo que montamos foi um de improvisação. Foi muito legal. Toda noite, de terça a domingo, fazíamos um espetáculo que você não sabia o que ia ser. Chegávamos – éramos 25 atores, todos como clown – e improvisávamos uma hora, uma hora e meia ou duas, dependendo como estava. Tinha um cara tocando guitarra, o Renato Consorte. Hora ele corria atrás da gente e ora a gente corria atrás dele. Não era uma coisa... Uma troca de __________. Foi um espetáculo maravilhoso de se fazer, e quando acabou eu falei: “É isso que quero fazer, quero me aprofundar nessa linguagem.” Eu fui fazer com a Quito na Nova Dança, fiz cursos com o Philippe Gaulier...

 

P/3 – Na França?

 

R – Não, o Philippe Gaulier veio pra cá. Fiz um curso de dois meses que ele deu aqui. Deu um workshop só no Nova Dança, porque o Philippe Gaulier é meio mestre da Quito, ela aprendeu clown com ele e trouxe ele para cá, para o Nova Dança. Ele veio duas vezes, eu fiz uma e adorei. Achei o máximo, gostei muito. A Quito é que ficou minha mestra, porque toda a minha iniciação... Muito tempo eu fiz curso com ela na Nova Dança, aí comecei a fazer espetáculo de clown com ela. Fiz esse de improviso e entrei no A Banda, um espetáculo que eu tinha visto, depois precisou de uma substituição e eu entrei. Eu ia falar alguma coisa... Eu ia falar que o primeiro contato com os Doutores era o contato de negação. Tinha uma coisa meio boba que era uma briga de escolas, de linhas de clown. Tem muitas linhas e tinha muito daquela coisa meio intransigente e intolerante, dizendo: “O que não é da minha linha não é clown.” A primeira referência que eu tive dos Doutores da Alegria era: “Aquilo que tem lá não é clown”, mas eu não conhecia... Era só dessa briga de intolerância das escolas de clown.

 

P/1 – Explica um pouquinho mais essa linguagem e essa postura clown. O que significa exatamente isso?

 

R – Nesse trabalho que eu fiz com a Quito e com o Gaulier, era muito uma busca de um estado interior que você podia estar conseguindo com a máscara – ou até sem a máscara, mas num primeiro momento, era com ela. É um estado interior... A busca de um estado interior que, a princípio, não está não está preocupado em... Não está privilegiando artimanhas, artifícios e construções elaboradas. É você que é o show. Você dando um estado... Você se expondo, você no seu ridículo, mostrando as bobagens que você faz – que é o que rola... O que se falava das outras linhas – dos Doutores, por exemplo –, usam muitas artimanhas e não dá você, não é você que está lá. Você tem que estar usando traquitanas, tem que ficar usando... O foco sai um pouco dessa coisa de você estar sempre se revelando e o show é esse, não para uma viagem... Todo mundo show. Falava: “Os Doutores, não. Uma coisa que você tem que usar traquitana...” Era uma coisa de dizer: “Isso não é o clown.” Tinha uma coisa meio purista que não partia da Quito, era das pessoas que faziam o trabalho. Fica aquela disputa de: “Ah, vai ver o Midnight Clowns e faça isso.” “Desculpa, isso não é clown. Muitos deles são ótimos comediantes, mas não é clown. Saia com esse papo.” Esse foi o primeiro contato que eu tive, mas me encantava a ideia do trabalho no hospital. Acho também, um pouco pela minha história que eu não contei ainda, mas vou contar... Me encantava a história de trabalhar no hospital. Lembro-me que eu e o César – que também está nos Doutores e fazia A Banda junto –, um dia, indo para Peruíbe fazer uma representação, fomos conversando na van: “Ah, vai ter peça nos Doutores.” Foi bem uma atitude de coragem: “Vamos fazer.” É uma coisa tão execrada, “isso não é clown e tal.” “Vou confessar para você que eu quero fazer.” “Eu também.” “Então vamos?” “Vamos.” Foi uma coisa assim. Fomos fazer o teste, o César entrou e eu não, mas aí fiquei sendo municiado de informações pelo César. Tive um contato primeiro quando eu fui fazer o teste, conheci as pessoas – muitas delas eu já conhecia não do trabalho dos Doutores, mas pelo teatro. Conheci o Wellington [Nogueira], mas foi uma primeira aproximação... Comecei a ser abastecido de informações pelo César, que estava lá. Como eu fiz o teste, não entrei e estava interessado, perguntava sempre para ele: “Como é o trabalho? Conta aí.” Ele contando as coisas, achou: “Pô, como era bobagem da gente aquela visão de que isso não é clown. É um monte de coisas que acrescentam para caramba para nós, nosso trabalho de palhaço e tal.” Cada vez mais, fui amadurecendo essa ideia do que eu queria fazer. Comentei com o Wellington nesse segundo teste que achei bom que entrei nesse aqui. Não é uma coisa de “ser Poliana”, que se fala... Não é [síndrome de] Poliana, é que não estava muito maduro pra mim essa coisa... Não estava muito resolvida essa coisa intolerante de “Não é clown.” Eu topei fazer o que eles faziam e queria entrar. Não é que não entrei porque eu não quis: eu quis e não consegui. Eu não estava inteiramente aberto, eu estava ainda...

 

P/1 – Não era hora ainda.

 

R – Eu ainda estava com essa coisa de que não é clown. Com esses três anos entre um teste e outro, isso foi se modificando, amadurecendo. Dentro dessa coisa que te falei, de um exercício meu que tem sido o de combater a rigidez, isso entrou. Entrou nessa linha de ver que é um trabalho diferente, apenas. Tem coisas muito legais que podem... Isso não faz com que se homogenize e todo mundo tenha a mesma linha, tem vários palhaços de linhas diferentes lá. Você vai no Midnight [Clowns] um dia e vê coisas muito diferentes... Eu fui sacando que tem um monte de coisas que servem e que interessam, que é artístico, que é legal. Acho interessante que o Wellington saca isso, porque o dia que ele foi conversar comigo sobre o Midnight, falou: “O seu número tem que ser um pouco mais escrachado, você não vai estar sendo leviano.” Ele saca que eu tenho esse preconceito, porque falou: “Você não vai estar sendo leviano, você está muito preocupado.” Está sendo uma coisa que foi se desenvolvendo nesses três anos que eu não consegui entrar até o outro teste, que eu entrei. Quando eu fui para o outro teste eu estava muito mais convicto que me interessava e era o que eu queria, tanto do ponto de vista artístico, de desenvolvimento do meu trabalho de palhaço, como do ponto de vista pessoal, da minha vontade de fazer esse trabalho no hospital, de estar levando alegria... Eu entrava no site: “O objetivo dos Doutores é levar alegria para crianças hospitalizadas.” “Eu quero fazer isso.” Fiquei mais alinhado com a ideia da coisa e superei esse preconceito de: “Isso não é clown, não serve, é sujo.”

 

P/2 – Nesse período de três anos, que trabalhos você ficou fazendo? O que é um pouco a sua vida artística?

 

R – Estou tentando lembrar. Eu fiquei uns tempos fazendo trabalho de clown com A Banda, que era uma coisa que não acabava nunca – ficou cinco anos. __________ A Banda sempre teve. Eu sempre estava fazendo clown no palco com A Banda e fazendo os cursos com a Quito. O curso com o Philippe Gaulier eu acho que foi depois do primeiro teste que fiz dos Doutores. Fazendo esses treinamentos lá na Nova Dança com a Tica, de contato e improvisação. De espetáculo, eu fiz a Cândida Erêndira do  Izaías Almada, de José Rubens Siqueira. Ele que deu oficina para mim no EAD, foi lá que eu o conheci. Eu não tinha me formado ainda, eu acabei a EAD em 98. Foi o ano que eu fiz o Tartufo, também, no final de 98 pra 99... Eu fazia um personagem que era um clown; não era um clown de máscara, mas o espírito dele era um clown. Eu adorava fazer, eu achava que era um personagem legal e bem feito. Embora não tivesse formalmente na postura de clown, era um. Eu fiz o Tartufo, a Cândida Erêndira, fiz um curta e coisinhas assim, soltas; mas já estava direcionando a minha formação para a ideia do palhaço fazendo esses cursos com a Quito e esses cursos de contato e improvisação com a Tica. Eram para estar afinando meu instrumento, mas sempre pensando no meu trabalho como palhaço. Lembro-me desses dois: da Erêndira e do Tartufo. Pode ser que eu tenha feito outros, mas nenhum deles estava dentro de um projeto que eu dissesse: “Isso aqui faz parte de um projeto de desenvolvimento, de um grupo.” Não espetáculo, que tinha... O cara ali: “Nando, estou aqui com um texto. Não gostaria de fazer?” Vou fazer. Nada dentro de um projeto... O meu projeto pessoal, que era trabalhar como palhaço, estava se desenvolvendo fazendo A Banda, entrando em contato com a linguagem, fazendo espetáculo e no meu treinamento, nos cursos que eu fazia. Essas coisas que pintavam eram esporádicas. Eu gostava de fazer, eu gosto. Tanto que eu estou ensaiando um espetáculo, agora, que não tem nada a ver com clown; mas eu sinto que eles estão meio soltos, não estão dentro de um projeto, de uma trajetória em que eu esteja buscando alguma coisa minha. Durante muito tempo eu não trabalhava, só fazia publicidade. Lembro-me que existiam altas brigas com a Élida: “Nando, você não pode não fazer nada.” “Eu acho ótimo, mas eu não paro. Estou fazendo bicicleta, estou fazendo meu curso... Eu não tenho nenhuma culpa de estar fazendo isso.” Começou a pintar aquela coisa de “Realmente, a gente nunca sabe o que vai ter no mês seguinte.” Começamos a pensar na ideia de ter filho, e eu disse: “Realmente, você tem razão.” Eu comecei a fazer outro trabalho, paralelo a essa parte artística, com meu irmão. Era um trabalho de assessoria de comunicação para empresa, para começarmos a ter uma coisa mais certa, mas durante um ano, um ano e meio, eu só fazia esses espetáculos que eu estou te falando, esses cursos e testes de publicidade, gravava comercial para ter dinheiro. Admirava-me a minha tranquilidade com essa atividade absolutamente incerta: você não sabe o que vai ter no mês seguinte, não sabe se vai pegar filme ou se não vai... E numa boa. Tudo rolou legal, até que disse: “Agora acho que ela tem razão, porque se a gente quer ter filho e tal...” Eu comecei a ter outras demandas, de ter uma coisa mais... Também começou a surgir essa necessidade de estar desenvolvendo um projeto, e não ficar com um trabalho aqui, pintando uma peça ali, pintou um comercial aqui, um filme ali... Eu comecei a amadurecer essa ideia do projeto de desenvolver a linguagem do palhaço. Os Doutores entraram preenchendo isso e a ideia de dizer: “Que bom, agora eu vou passar a saber o que eu vou ganhar no final do mês – ou quase. Vou estar dentro desse projeto.” Eu estou querendo ter um projeto focado em alguma coisa – e não ficar no: “O que pinta eu faço” –, que era no desenvolvimento do meu palhaço e a ideia de que eu queria levar alegria para crianças hospitalizadas. Era o que eu dizia no site da Internet, dos Doutores.

 

P/1 – Nando, eu queria te perguntar o seguinte: profissionalmente, o curso de Economia e de História você não seguiu mais?

 

R - O que eu fiz com a História foi que eu dei aula dois anos. Adorava, muito legal. Se bem que não sei... Acho que eu adoro mais agora que eu não dou do que quando eu dava. Hoje falo que eu adorava, mas quando eu lembro, era pesado... Estudava das oito ao meio dia, e se faltou aluno eu ficava de saco cheio. As pessoas ficam também, tanto é que eu fazia muito teatro na aula e as crianças adoravam; mas era para mim. Dizia: “Cara, que saco.” Eu tinha vários personagens que davam aula no meu lugar, eu brincava muito. Era um pouco maçante, mas acho que eu seguiria a carreira por opção. Eu comecei a ver... Na EAD eu comecei a ter mais vantagens, saí para fazer o Aulis, comecei a ver que a minha vida artística vai começar a exigir uma dedicação integral e a vida de magistério, também. Eu optei: “Vou parar de dar aula.”

 

P/1 – Você acabou atuando na aula.

 

R – Com certeza. Eu acho que as crianças me adoravam porque eu ficava inventando personagens. Eu ficava cansado, então eu tinha vários personagens que davam aula, que entravam e que brincavam. Eles adoravam e eu também. Eram momentos em que... “Deixa eu brincar um pouco, que está fogo.”

 

P/1 – E o futebol? Você falou tanto da casa onde você jogava e depois na escola, no Santo Cruz. Como está o futebol hoje na sua vida?

 

R – O futebol é hoje, na minha vida, como uma grande frustração. Por conta do que eu vou contar mais para frente, que é da minha experiência... Eu não consigo mais jogar futebol, não consigo nem mais correr. Eu não posso mais jogar futebol. Outro dia a Luciana, uma amiga minha que faz o clown e que fazia A Banda, me convidou: “Vamos ver o pessoal jogar bola segunda-feira?” “Você é louca! Ver o pessoal jogar bola? Isso é levar diabético numa doceria.” Ela falou: “Vamos, não liga para isso.” Falei: “Não vou.” Eu gosto muito de ver, só que os caras... Eu não acredito. Se estiver passando Fluminense e Friburguês e eu não tiver nada que fazer, eu assisto com prazer. Adoro futebol. Até eu ter uns 18 anos, o meu sonho e a minha fantasia... Eu acreditava que eu ia ser jogador de futebol; coisa que eu mais gostava de fazer, com certeza. Lembro-me que quando eu era moleque – agora vou voltar à infância (risos)...

 

P/1 – Pode voltar, vamos lá.

 

R – Eu pegava o jornal de manhã – eu sou corintiano –, decorava a escalação do time adversário do Corinthians no jogo – a do Corinthians eu sabia –, descia para o playground e fazia o jogo todo narrando para minha cabeça. Dizia: “Corinthians invadiu a área” (risos)... Decorava a escalação do time de Jaú... Eu botava a bola no meio de campo – no meio do playground, que também era o meio de campo – e fazia a narração do jogo todo.

 

P/1 – Falando como rádio?

 

R – Não, na minha cabeça. Jogando sozinho. “Geraldão deu a saída para Palhinha, Palhinha toca para ___________...” O cara roubava a bola __________, porque eu tinha decorado a escalação. Eu fazia o jogo inteiro: fazia o intervalo, entrevistas... O intervalo, na minha cabeça... Fazia o comentário do jogo para o Corinthians: “Não, veja bem: o Corinthians...”

 

P/1 – O Corinthians sempre ganhava?

 

R – Não, imagina. Ah, no meu jogo lá em baixo? Claro! Sempre ganhava. Eu ouvia o jogo no rádio e via o videoteipe na Gazeta (risos).

 

P/1 – Você ensaiava, ouvia e depois ainda via.

 

R – Eu era muito doido e fanático. Eu botava a bandeira do Corinthians em cima do rádio... O jogo era às nove e eu deitava às oito e meia. Eu saía da sala – meus pais viam o Jornal Nacional – ligava e ouvia todo aquele papo de antes do jogo, com a bandeira cobrindo o rádio. Se o Corinthians ganhasse, eu ia ver o videoteipe (risos).

 

P/1 – E se perdesse?

 

R – Se perdesse eu ia dormir. Fazer o quê? (risos)

 

P/3 - Até hoje você __________?

 

R – Não, eu fui cada vez... Outro dia eu vi a final do campeonato mundial entre Corinthians e Vasco. Meu irmão falou: “Nando, que estranho! Você ficou tão frio.” Não é frio. Eu fiquei feliz, é claro; mas não tenho mais... Eu fui ao estádio outro dia ver um jogo com esse meu amigo Rogério, que também é corintiano...

 

P/3 – Que jogo foi?

 

R – Foi Corinthians e Santos. Não, a gente não foi ver... Foi na TV. O Corinthians ganhou e ele queria sair com bandeira, falei: “Rogério, incrível... Sair com bandeira?” – eu já saí, fui na [Avenida] Paulista no Campeonato Paulista de 77 – “Rogério, que saco. Sair com bandeira...” Lembro-me que saí tirando sarro, e inventei o seguinte _________. Como era? Era (cantando): “Campeão, eu me identifico por completo com a vitória do timão” (risos). Hoje eu não sou mais tão... Eu adoro futebol, mas a coisa do fanatismo... Claro, eu sou corintiano e gosto de ver jogo. O dia que tem jogo do Corinthians, digo: “Hoje eu não vou sair, desculpe. Vou ver o jogo do Corinthians.” Essa coisa de botar a bandeira no rádio... Eu chorava, bicho. Em 77, quando o Coríntians foi campeão, eu chorei. Teve um lance que __________ chutou a bola na trave e eu chorei, minha mãe desligou (risos)... Eu era completamente doentão. Isso eu não sou mais, mas adoro futebol.

 

P/1 – Você sonhava em ser jogador do Corinthians?

 

R – Claro.

 

P/1 – E da Seleção?

 

R – Claro. A minha estréia na Copa ia ser em 86, que eu ia ter dezoito anos. Eu ia jogar e já tinha vislumbrado tudo. Eu ia estar encerrando a carreira agora na Copa [do Mundo] de 2002.

 

P/1 – Fez a trajetória completa.

 

R – Claro. Com dezoito anos eu ia estrear como centroavante (risos), eu tinha certeza. Certeza não, eu pretendia (risos).

 

P/1 – Nando, vamos encerrando essa parte agora por causa do compromisso. A gente retoma.

 

R – Combinado.

 

[continuação]

 

P/1 – Boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Nando, vamos continuar nossa entrevista com seis meses de intervalo. Você tinha contado sobre sua infância, sua mocidade, algumas coisas do casamento... Ficou para trás você falar um pouquinho sobre a sua participação no Greenpeace, que você falou que é sócio.

 

R – Eu sou associado, não tenho uma participação efetiva. Eu só contribuo mensalmente.

 

P/1 – Tem algum motivo especial?

 

R – A minha vontade. Eu admiro o trabalho, acho que é necessário e importante. Também não tinha uma disponibilidade de estar indo nos barcos, tentar segurar os pesqueiros... Quero fazer alguma coisa. O que eu posso fazer? Contribuir mensalmente com uma grana.

 

P/1 – Até hoje você contribui?

 

R – Sim, todo mês. É uma preocupação que eu tenho com o planeta. Geralmente eu compartilho as bandeiras deles, então vou ajudar.

 

P/1 – Se você não tem uma participação tão efetiva e direta vamos tocar o barco em frente. Você me falou que você praticava futebol e ioga. Quer comentar alguma coisa sobre essas duas atividades?

 

R – Ioga eu pratico hoje, futebol eu não pratico mais. Ioga é uma coisa que eu sempre tive curiosidade: eu tinha a sensação que era uma coisa que eu ia curtir fazer. Sempre meio que namorei de longe, e por conta de eu não conseguir mais jogar futebol é que fui fazer Ioga.

 

P/1 – Não foi junto?

 

R – Não, minha atividade sempre foi jogar futebol. Quando eu não conseguia mais jogar futebol, falei: “Quero fazer algum esporte, alguma coisa para...” Eu pensei na ioga e comecei a fazer. Estou gostando e achando muito legal. Tem sido... Para mim foi surpreendente, porque eu tinha uma visão preconceituosa de que a ioga era uma coisa pra velho, meio devagar, meio pauleira... Estou fazendo só eu e a professora, então é uma coisa voltada para mim. Levando em consideração as minhas limitações, está sendo muito legal. Eu queria... Depois que eu não conseguia mais jogar futebol, meu esporte era andar de bicicleta – que eu continuo fazendo, é o esporte aeróbico que dá para fazer. A ioga também dá, porque lida com alongamento, força, concentração e uma série de coisas que têm sido muito legais.

 

P/1 – Faz tempo?

 

R – Faz um ano, é recente. Eu me dei super bem, estou curtindo muito fazer. Em dezembro fez um ano e eu quero seguir.

 

P/1 – O que acrescenta para você a ioga?

 

R – Não sei exatamente o que acrescenta, mas ela permite isso que eu te falei: por conta das minhas limitações físicas eu tive que parar de fazer qualquer esporte que eu tivesse que correr. Eu queria... Sempre fui um cara que praticou esporte. Gostava de futebol, mas além de futebol sempre fiz outras coisas: remava, jogava basquete... Sempre fui assim, gostava de correr. Eu queria uma alternativa para que eu pudesse estar sentindo que meu corpo não está parado e enferrujando, ficando velho (risos). Eu queria fazer alguma coisa. Eu achei que a ioga era uma coisa que estaria dando para eu fazer. Lembro-me que pensei: “Se eu não puder ter força, pelo menos vou ter flexibilidade.” Fui procurar a ioga pensando um pouco nisso, mas depois eu vi que era engano meu e que você trabalha a força também. É um tipo de trabalho diferente, mas que eu acho até mais efetivo. Tem um exercício que mexe os mesmos movimentos que você mexe na flexão de braço e que é muito mais lento... É outra coisa, mas eu sinto que faz um efeito igual ou até maior. Ela veio no lugar de suprir essa ausência que eu comecei a ter em função das minhas limitações físicas. Acho que é uma coisa que tem um pouco a ver com o meu jeito de ser. Eu gosto de um trabalho que é mais lento, que é mais... Nunca gostei de coisa muito rápida, coisa muito... A ioga é uma coisa que é você chegar na postura, permanecer na postura e desmontar a postura. Até a Élida começou comigo e é uma boa, porque ela é outra pilha (risos). Ela já é mais... Eu gosto disso.

 

P/1 – Passou do futebol, que é outro extremo.

 

R – Eu não passei de livre e espontânea vontade. Eu passei porque... Foi contra a minha vontade. Jamais deixaria de jogar futebol. Se eu pudesse jogar... Eu não jogo não porque eu não quero, mas porque não consigo mais. Além disso, o trabalho da ioga tem uma coisa de concentração e de respiração que serve até para o trabalho de ator, que trabalha muito com exercício de respiração. É uma chave para o trabalho de ator, a respiração. Não do trabalho que eu faço no hospital, mas no trabalho do teatro mesmo. A respiração é muito legal, eu sinto que ela vai... Por trás das práticas tem todo um conceito, que é mais abrangente, de uma cultura, uma coisa mais ligada a uma prática espiritual... O que também me interessa e me agrada. Foi suprindo várias coisas. Não é que acrescentou, não foi uma coisa nova... Ela pintou justamente porque eu a namorava, já tinha uma afinidade. Tanto é que eu intuía: “Acho que é uma coisa que eu vou curtir”, pelo que eu ouvia falar.

 

P/1 – Você falou dessa parte espiritual. Você tem um tipo de religião, alguma crença ou alguma coisa que você quer deixar registrado aqui na sua história?

 

R – Eu tenho, mas não sei nomear. Na minha adolescência fui um ateu convicto, um marxista, essas coisas. Com o passar do tempo, até pela minha história pessoal... Foi gozado, porque eu quis fazer a Primeira Comunhão... Acho gozado isso, porque eu era ateu pra, la, la... Lembro-me que eu era moleque e comecei a ter um pendor... Eu tenho uma tia que é carola – acho que toda família tem tia carola (risos). Lembro-me que uma época comecei a querer ir com ela na missa. Foi uma coisa que não foi forçada pelos meus pais: “Vai lá fazer”, foi espontâneo. Lembro-me que eu também quis fazer Primeira Comunhão. Quando eu era moleque tinha essa ligação, embora... Isso que eu estou falando, que não foi forçado, que me chama a atenção. Ninguém – meu pai, minha mãe – falou: “Você tem que fazer a Primeira Comunhão.” Eu que quis: “Eu quero fazer a Primeira Comunhão.” “Que bom, que legal.” Lembro-me dessa época que eu ia com essa minha tia carola na igreja, nas missas. Eu devia ter uns treze ou catorze anos e perguntei para os meus pais, num festival em Campos de Jordão: “Qual é o sentido da vida?” Lembro-me que eles ficaram meio assim... Veio um pouco daí essa busca. É uma pergunta primária, mas óbvia; a grande sacada é o obvio. Você conseguir descobrir o óbvio das coisas... Depois, o lance da esclerose fez, cada vez mais, com que eu fosse... Fui fazer terapia e outras medicinas diferentes, que acabaram fazendo com que eu mergulhasse mais para dentro de mim e que eu fosse me pesquisando. Eu sempre fui um cara muito perguntador das coisas, mas de qual o sentido das coisas. Quando eu vou fazer mapa astral, os caras falam coisas que eu falo: “Acho que isso tem a ver.” Eu reconheço isso... Eles sempre comentam que tem uma coisa de ser muito profundo – não no sentido de que é melhor ou errado, mas que vai buscar a raiz das coisas, dizer: “Para quê?” Pergunto: “Qual o sentido da vida, cara? Para que eu estou fazendo teatro?” Tem toda uma coisa de “Para quê?”, que vai muito de buscar. Eu sinto que eu tenho esse modo de olhar as coisas e de ir buscar ali a essência: “Onde é que está?” Lembro-me de quando eu adorava Raul Seixas. Quando eu era adolescente, a nossa grande máxima era que “o óbvio era a grande sacada.” Acho que isso acabou com o tempo. Você vai perguntando, perguntando e diz: “Poxa, se eu continuar a perguntar vou parar em Adão e Eva.” É isso, vai parar em Adão e Eva mesmo. Eu me fascino muito com Astronomia e com Física, porque acho que são coisas que me ajudam nessa busca de... Que não tem um objetivo concreto. É um jeito de ser. Eu sou, tenho essas perguntas e essas coisas. Às vezes meus amigos até me gozam, tiram sarro: “Lá vem o Nando falar aquelas coisas.” Tipo: “Cara, você já parou pra pensar? Olha que informação impressionante: a Terra gira a mil e quatrocentos quilômetros por hora. Nós estamos aqui num puta gás (risos). Nela mesma. Depois em volta do Sol, com uma velocidade astronômica que eu não lembro, sei que um número absurdo. E o Sol em volta do centro do Universo, em outra velocidade absurda.” Essas coisas me fascinam, fico muito intrigado com isso. Sempre que eu vejo essas coisas vou buscar, ler, curtir... Eu acho que isso tudo tem a ver com essa busca espiritual, porque você vai levando cada vez mais adiante, para um limite, e acaba chegando num lugar em que não tem muita explicação. Outro dia, comentei com a Élida que... Uma coisa que não é muito poética, mas eu falei... Não é um ponto final, mas foi uma coisa que eu... “Cara, descobri que Deus é um número.” Não é isso exatamente, mas eu estava lendo um livro sobre os fractais, que é uma coisa muito fascinante. Todas as formas vão se repetindo e vão... Você pega uma folha da árvore aqui de fora, do limoeiro. Você coloca ela no.... Por isso eu gostei daquele papo que a gente teve com aquele cara...

 

P/1 – Do Dante?

 

R – Eu adorei aquele papo.

 

P/1 – Do Dante?

 

R – É, do Dante. As formas geométricas vão se repetindo, você consegue ampliar e... Chegou no... Os caras foram buscando isso, os matemáticos, os físicos: uma forma que á primeira, a inicial de todas. Por matemática você consegue montar uma equação que represente aquela forma geométrica. _________ de fractal, o primeiro de todos, que é a busca do átomo e tal... É o princípio de tudo, de onde tudo começa. É a base de tudo e isso pode ser expresso em uma fórmula matemática. O cara faz uma fórmula matemática e fala: “Deus é isso” (risos), porque é a base de onde começou tudo, do que está presente em tudo. É uma forma geométrica que é a primeira de todas, um pouco coisa do átomo... Isso já era um pendor que eu tinha, sempre tive essa curiosidade e afinidade de gostar disso. Aí a questão da doença também me jogou para isso, porque ela me colocou uma série de limites que eram muito absurdos pra mim. Você com 22 anos não conseguir mais jogar futebol? Isso é para um cara de 80 anos, não para um de 22.

 

P/2 – Quando começou?

 

R – Foi diagnosticada em 90, eu tinha 22. Fomos fazendo um retrospecto e vimos que o primeiro surto foi em 88. Aí comecei a jogar mal, cada vez pior, até a hora que eu comecei a não conseguir jogar mais. “Tudo bem, mas eu ainda corro.” Agora nem correr mais eu corro. Você se ver diante de alguns limites...

 

P/1 – Tem que buscar outros caminhos.

 

P/2 – O que você teve em 88?

 

R – Eu tive uma pseudo meningite – pseudo porque eu tive... É engraçado, porque era uma menina que eu estava paquerando... Fomos ver um jogo, uma final de campeonato. Meu time perdeu e eu passei o jogo inteiro com uma dor de cabeça absurda, uma puta febre. Fui para casa com uma febre super alta. Não passava. Eu fui fazer um monte de exames, chamaram um médico infectologista – um cobrão – e o cara pediu um exame de liquor. Foi um horror fazer aquele exame de liquor, é horrível. O cara disse que era uma meningite. Minha mãe tem uma guia espiritual, uma mulher que benze. Ela sempre falava: “Dirce, não é meningite que o Nando tem.” Quando acabou essa meningite eu fiquei com os pés dormentes.

 

P/1 – Com vinte anos?

 

R – Foi em 88, eu tinha vinte. O médico falou que essa dormência dos pés era por causa dos remédios, para eu não dar muita bola. Em 90, quando foi diagnosticada a esclerose múltipla, eu contei isso e o cara falou: “Essa dormência foi um primeiro surto teu.” Não que a febre tenha sido, porque o surto não tem nada a ver com febre; mas essa dormência nos pés... Em 89, também no remo, comecei a sentir dormência nos braços. Eu fiz um monte de exames e nada dava, o cara falou: “Para de remar. Talvez esteja fazendo muito e dando algum problema.” O cara também falou: “Isso que você teve em 89, como vocês me contaram, também foi um surto.” Era um segundo surto. Isso foi em 90.

 

P/1 – Vamos pegar lá do trem. Você falou que estava na Itália e foi onde começou, que diagnosticou...

 

R – Eu fui para a Itália, estava fazendo estágio na Fiat e o curso de teatro à noite. Maravilhado, fora de casa pela primeira vez e sem os pais; estava no terceiro e quarto mês viajando, curtindo, trabalhando num lugar onde o Brasil ia jogar a Copa do Mundo, que eu achei o máximo – meu sonho era ver uma Copa do Mundo. Eu ainda não tinha alugado o apartamento que aquele cara que conheci no trem disse que o amigo dele ia sair, o amigo não tinha saído ainda. Eu estava num hotelzinho, lembro que eu cheguei em casa e fui... Bom, eu já tinha sentido dificuldade pra assinar: todo lugar que eu entrava e que tinha que assinar a ficha do hotel, vi que minha mão estava meio estranha para assinar; mas tudo bem. Até que um dia acordei, peguei o desodorante e eu não conseguia, com a mão esquerda, apertar o desodorante. Eu não tinha a força pra fazer isso aqui (gesto). Falei: “Cara, que coisa estranha.” Eu fui trabalhar, voltei à noite e falei: “Cara, não estou conseguindo apertar isso. Que coisa esquisita, o que está rolando?” Eu percebia que a minha coordenação para escrever estava pior, falei: “A minha letra está estranha, feia e esquisita. Eu estou sentindo dificuldade para escrever.” O desodorante foi o ápice: “Poxa, não estou conseguindo apertar o botão do desodorante. Será que eu estou pegando errado?” Pegava de novo: “Não, é assim. Que estranho.” Falei: “Estou na Itália, primeiro mundo... Deve ter hospital público. Vou no dia seguinte e não vou falar nada no meu estágio para não gorar. Está bem legal, daqui a pouco tem Copa e não quero perder, também.” Eu fui num hospital público que tinha lá, cheguei e passei por uma primeira consulta. Contei o que aconteceu. Contei para ele que em Londres, onde eu estava há uns três meses, senti que eu não estava jogando tão bem; que a minha perna estava um pouco estranha, meio adormecida e não estava 100%, mas depois tinha voltado. Quando eu contei isso e esse negócio da mão, ele me passou para o neurologista – tudo sem falar comigo, muito assim... Eu fiquei impressionado de que eu cheguei no hospital sem ser um italiano e já fui atendido. Não é esse hospital público que vemos no Brasil, fiquei muito encantado; mas o encantamento passou logo, porque os caras não falam com você. Eu falava italiano, estava trabalhando na Fiat... Dava para o cara se comunicar. Não é porque eu era um estrangeiro, é porque não é prática. O cara me passou para outro médico que eu nem sabia de que era, não sabia nem do que ele tinha suspeitado: “Vou te encaminhar para um especialista.” “Qual especialista? Por que esse especialista? O que você acha que é?” Nada foi falado. Fui para esse outro especialista, contei as histórias e ele pediu para fazer algumas coisas, tipo fechar o olho e botar o dedo no nariz, coisa assim... Falou: “Está bom. Agora você passa em outro guichê.” Tudo sem me dar retorno do que estava acontecendo e eu ali, numa boa: “É uma bobagem.” Eu fui nesse outro guichê e me mandaram esperar. Fiquei uns quarenta minutos sentado, a mulher me chamou com uma trouxa de roupa de cama e falou: “Suo letto è il dodici.” “Como meu leito é o doze? O que está acontecendo?” Ela falou: “Você está internado e seu leito é o doze.” Falei: “Pera, quero entender. Eu só vim fazer uma consulta porque minha mão não está apertando o desodorante, e eu estou internado?” (risos). Ela falou: “O médico disse que você tem que fazer um tratamento. Você vai ficar internado.” Falei: “Não posso ficar aqui.” Fiquei muito assustado. “Eu estou com minhas coisas no hotel.” “A gente manda buscar.” Fui ficando assustado, porque era uma urgência me internar e todas as coisas que eu colocava, eles contornavam. “Não, eu trabalho na Fiat.” “A gente entra em contato.” “Minhas coisas estão no hotel.” “A gente manda buscar.” Falei: “Cara, o que eu tenho que os caras não querem me deixar sair daqui?” Eu fiquei muito passado. Nem estava bravo por não ter sido falado, por não ter tido a conversa: “Pô, o que eu tenho?”

 

P/1 – Ficou assustado.

 

R – Eu fiquei assustado, fiquei me sentindo no livro do Kafka. Eu fui lá e... “Os caras querem me prender aqui e tudo o que eu falo eles tem como contornar. Eu devo estar com uma coisa muito grave. Deve ser contagiosa, que eu não posso sair daqui mais.” Contando aqui é cinco minutos, mas fiquei umas duas horas nesse papo de: “Não posso ficar, tenho que ir.” Eles não me falavam o que era, do que eles suspeitavam, qual era o diagnóstico... Só falavam que eu tinha que ficar no hospital e que eu ia fazer um tratamento. “Pode ficar tranquilo, não vai te custar nada.” “Cara, não tem problema que não vai me custar nada. Não vou ficar num hospital que eu nem conheço numa cidade que eu não conheço, num país que não é o meu. Não vou ficar internado aqui.” “Você não pode sair.” Eu fiquei muito...

 

P/1 – Em nenhum momento eles falaram... Você já tinha feito algum exame?

 

R – Eu não sabia nada. Não tinha a menor ideia do que era. O que estava diferente é que meu dedo não estava apertando o botão do desodorante. Achei que era alguma bobagem, e era tudo muito grande pra mim. O fato de eu estar num outro país, de língua estrangeira e os caras não quererem me deixar sair do hospital... Isso que parecia ser kafkiano. Era uma coisa toda enorme em volta de mim. Hospital... “Seu leito é o doze.” Eu estava com medo, falei: “Cara, o que eu tenho?” Deu uma hora que eu decidi: “Não vou ficar.” Tive um ataque histérico: “Não vou ficar aqui, eu vou embora. Eu vou sair.” “Você não pode sair.” “Como não posso sair? Estou preso no hospital?” Quando ele falou que eu não podia sair, falei: “Eu vou sair, não vou ficar aqui. Eu vou sair de qualquer jeito. Isso é um hospital.” A princípio, era para me ajudar. A mulher pediu para eu me acalmar. Pediram um copo de água, porque eu comecei a gritar: “Eu quero sair daqui, eu vou sair!” “Não pode.” Ele falou: “Vamos fazer o seguinte: você quer muito sair daqui? É uma opção sua?” “É.” “Você se responsabiliza?” “Me responsabilizo.” “Você vai ter que preencher um termo, um documento, dizendo que você saiu daqui à revelia das orientações dos profissionais do hospital.” “Cara, o que eu tenho? Vou ter que assinar um documento? Achei que era uma coisa contagiosa...”

 

P/1 – Você estava sozinho?

 

R – Estava sozinho, eu tinha acabado...

 

P/1 – Você perguntava?

 

R – Eu perguntava e eles falavam: “Você tem que ficar internado, vai fazer um tratamento.” “Tratamento para quê?” Ele não falou: “O que você tem é isso.” Era completamente surreal. “Você vai ter que ficar internado alguns dias para receber um tratamento...” “Mas o que eu tenho?” “Olha, por enquanto... O médico vai conversar com você.” Falei: “Que médico vai conversar comigo? Eu não vou entrar num quarto, num hospital, num país que eu nem conheço.” Tinha acabado de chegar na Itália e estava vivendo um sonho. “Estou fazendo um estágio na Fiat, ganhando legal, daqui a pouco vem a Copa do Mundo, vou ter um apartamento... E vou ter que sair de tudo isso para ficar num quarto de hospital, sozinho, numa cidade que eu não conheço? Claro que não, vou embora daqui.” Ao mesmo tempo que tinha isso, tinha o susto: “O que eu tenho que os caras querem me internar?” Assustava-me muito o fato de vir um documento para eu assinar e me responsabilizar. Eu achava que era muito... Falei: “Cara, devo estar muito mal.” Eu assinei o documento e saí de lá. Lembro-me que eu saí na rua: “Cara, o que está acontecendo?” Saí muito transtornado. Eu entrava na Fiat umas dez da manhã e fui cedinho, achando que eles vissem o que é, o que estava acontecendo no meu dedo: “O cara me dá um remédio e eu vou para a Fiat.” Isso era umas três da tarde, fui para a Fiat e todo mundo: “Luigi, dove stavi?” Eu contei a história e eles falaram: “Não, vamos passar pelo médico aqui da Fiat.” Fui, passei pelo médico da Fiat e ele não falou nada; mas o diretor, o cara que me aceitou para o estágio, chamou-me e falou: “Bolognesi, vamos fazer o seguinte: você vai... Agora é Páscoa aqui na Itália, e a Páscoa é o nosso Natal. É a festa grande, que reúne a família. Vai ter Páscoa? Eu sugiro o seguinte: você vai pro Brasil, passa a Páscoa com seu pai e com sua mãe, faz os exames que você tem que fazer lá e volta para cá. A Fiat paga a sua passagem de ida e de volta, e seu estágio continua aqui.”

 

P/1 – Nossa.

 

R – Foi um paizão. “Você vai, porque na Páscoa, ficar longe de seu pai... Imagina se o seu pai vai saber que você está fazendo exame aqui? Não. Vai fazer esses exames, que você tem que fazer, junto com a sua família, com seu papà, com a sua mamma. A Fiat te paga tudo.” Eu ainda estava muito... Eu achei o máximo: “Que legal, então eu vou para lá, volto e o estágio continua aqui?” “Continua.” “Tudo bem.” Eu fui com aquele cara do apartamento, avisei-o que eu ia voltar para o Brasil, mas eu ainda estava muito inconsequente de... “O que será que eu tenho?” Passou alguns exames e os caras estão me passando para voltar para o Brasil... Foi ótimo porque eu voltei de primeira classe. O pai que era amigo da empresa que meu pai trabalhava, que era de Minas Gerais, voltou comigo. Lembro-me que eu estava na primeira classe e com o olho fechado, mas não estava dormindo, e ele veio e colocou o cobertor em mim. Falei: “Que gostoso.” Eu estava longe de casa e achei legal que ele veio e colocou o cobertor em mim, até fingi que estava dormindo. Era um senhor... Podia ser meu avô, tinha uns setenta anos. Nós chegamos ao aeroporto e avisei meus pais que ia voltar porque os caras da Fiat tinham me dado uma passagem. Não contei do problema médico porque meus pais iam pirar. Eu só falei isso e que, como era Páscoa e é um feriado muito importante na Itália, eles me ofereceram a passagem e eu topei. Meus pais acharam ótimo, porque estavam há quatro meses sem me ver. Quando chegou esse cara de Minas Gerais junto comigo, ele contou: “Ele está vindo por causa disso. Legal vocês levarem ele num neurologista, porque tem algumas possibilidades de um diagnóstico apontado pelo que ele relatou para o médico da Fiat, mas é legal consultarem o médico de vocês aqui.” E eu, na boa... Não estava nem um pouco... Já passou aquela preocupação que eu tive no hospital, que para mim foi uma experiência absurda. Inesquecível aquela manhã que eu passei naquele hospital. Eu cheguei, nós marcamos um neurologista que era um... Meu pai sempre disse: “Coisa de saúde tem que ir no bom. Qual é o melhor neurologista?” Nós fomos no cara, que também foi muito estranho. Eu contei a história dos meus sintomas, do lance da perna, da mão, e levamos o exame que eu fiz para diagnosticar meningite em 88. O cara pegou aquele exame e nem pediu mais nada, ele falou: “Pelo que você está me contando e por esse exame aqui, você tem esclerose múltipla.” “Puta, o que é esclerose múltipla?” “São surtos que você tem. Quando esses surtos acontecem têm esses sintomas que você tem. Não tem cura, não tem remédios para se tomar... Só toma remédio quando tem surto, que é a cortisona. Vou te dar a receita, você vai tomar e pode voltar para a Europa numa boa. Só leva a receita para, se você tiver um novo surto lá, você tomar. Vai fazer sua viagem.” Eu achei ótimo: “Pô, que médico bacana: ‘Vai fazer sua viagem’.” Quando o tempo foi passando, falei: “Cara, que horror! Não é nada disso.” Não é assim um surto, quando você tem você toma Cortisona, coisa que não tem nada pra fazer... Não é isso. É uma doença autoimune, é outra coisa. Eu voltei para a Europa nesse pique de: “Ah, tudo bem.” Lembro-me até que eu tirava sarro, porque um amigo meu sempre me chamava de velho e eu falava: “Você falou que eu sou velho, tá vendo? Agora eu tenho esclerose múltipla. Sou só esclerosado.” Tirava sarro.

 

P/1 – É de velho. Esclerose, uma coisa de...

 

R – De velho... Não tinha a ficha, não caiu porque não me foi falado. O que ele me falou foi: “Quando você tiver os sintomas toma cortisona, mas toca sua vida.” Toca sua vida, o caramba! É outra coisa, cara. Eu voltei para a Europa e tive alguns surtos, mas eu estava tão... Não estava consciente do que significava isso. Lembro-me, até eu acho bacana, que eu levava com bom humor. Eu fui viajar... Eu estava em Paris com um amigo meu, fomos para a Holanda e alugamos bicicleta. Ficávamos viajando pela Holanda de bicicleta e eu estava tendo um surto nas pernas de novo. A minha perna, então... Eu perdi a coordenação e o tempo inteiro a perna escapava do pedal. Quando a gente ia parar, eu... O que eu fiz? Como a minha perna escapava, paramos numa floricultura, peguei umas cordas e amarrei meu pé no pedal para ele não escapar mais. Foi um problema. Toda vez que eu ia parar e botar o pé no chão, a bicicleta caía – porque o pé estava amarrado no pedal – e era um tombo ridículo, porque demorava e não tinha mais retorno... Eu percebia que eu ia cair: “Puta, meu pé está amarrado. Não tem mais o que fazer.” Aí eu tombava, rindo... Levando numa boa, sem ficar muito apavorado. Lembro-me que eu comprei o remédio – a cortisona, tomava e melhorava. Eu fiquei um pouco preocupado quando passou alguns meses... Eu estava em Bruges, na Bélgica, em um albergue, e comecei a sentir que eu tinha dificuldade de fazer esse movimento aqui (gesto). Lembro-me dessa cena: eu tentando fazer esse movimento e não conseguindo. Foi um dia que fiquei meio preocupado e pensei: “Pô, esses surtos estão vindo muitas vezes. Agora não consigo mexer isso aqui.” Mas foi uma coisa que passou logo. Eu voltei para o Brasil, depois de um ano...

 

P/2 – Nando, você falou para o médico que quiseram te internar?

 

R – Comentei. Ele falou que, provavelmente, o que eles iriam fazer... Você pode tomar cortisona tanto em comprimidos como aplicado na veia. Ele falou: “O que eu acho que eles queriam fazer com você é essa aplicação do...” – chama solu-medrol – “Solu-medrol na veia e talvez, também...” Tem uma médica italiana que se chama doutora [Siburra?] e que desenvolveu uma linha de tratamento da esclerose múltipla que passa por lavagem intestinal. Ela pressupõe que o problema é causado por uma... Ligado à sua alimentação e ao seu hábito de vida. Ela tem a tese de que é um problema em que o start do processo está no intestino por causa de alimentação e tudo o mais, então faz parte do tratamento fazer lavagem. Supôs-se que talvez fosse isso: fazer lavagem e tomar o solu-medrol. “Não é o caso de tomar o solu-medrol agora, vai tomar em comprimidos o meticorten. Você vai viajar, leva sua receita e pronto.”

 

P/2 – Tem uma praxe, também... Os italianos, principalmente com estrangeiros... Não pode sair sem alguns exames controlados. É certa responsabilidade.

 

R – Não sei, mas pra mim pareceu tudo muito assustador. Eu falei: “Cara, o paciente sou eu. Eles não falam para mim nada do que eu tenho, do que vão fazer...” Falava: “Eu vou ser internado por quê? Para quê? O que eu tenho?” Em nenhum momento foi falado para mim: “Olha, você vai ser internado porque nós estamos supondo que você tenha isso, aquilo outro... O que vai ser feito será isso.” Nada. “Que é isso?” Aquela primeira impressão que eu tive: “Pô, que bacana, primeiro mundo... Olha como é legal: você chega e já é atendido.” Cara, que situação absurda! Quando eu voltei para o Brasil, depois desse um ano, que eu também fiquei... Eu tive uns três surtos na Europa: “Esse papo de que não tem nada que fazer e, quando tiver surto, toma Cortisona... Isso está estranho.” Eu fui procurar outros médicos, fui para Antroposofia, para Homeopatia... Comecei a procurar outra linha e foi muito mais legal. Eu comecei a entender o que era. Até então, era uma piada. Dizia: “Está dizendo que eu sou velho? Pois é, agora estou esclerosado.” Aí que fui: “Não, pera aí. Não é tão divertido assim. Estou jogando mal, estou chutando o chão para caramba.” Deixou de ser uma coisa folclórica: “Ai, que barato.”

 

P/1 – Até então você não sabia o que era isso?

 

R – Eu não tinha entendido o que era porque não foi falado. Falou: “É uma doença em surto.” As informações que me passou foram essas: não tem cura, acontecem surtos, você pode ter um surto agora, e depois passar vinte anos sem ter. É uma coisa que a gente não sabe. Quando você tiver surto, você toma cortisona. A doença é isso.” Não é isso; é isso dentro de uma visão, que eu acho que é errada. Quando eu mudei de médico e fui para a Antroposofia, eu fui ler... Caiu uma ficha em mim: “Isso está me trazendo um monte de limitações que eu nunca imaginei que fosse ter.”

 

P/1 – Foram aumentando essas limitações?

 

R – Foi. Primeiro, eu jogava mal: comecei a chutar o chão em vez de chutar a bola. Comecei a cada vez jogar pior. Teve uma que atingiu minha visão, no meu olho direito baixou uma barra e eu fiquei sem enxergar com ele. “Toma cortisona que volta.” Volta, mas fica sequela: isso que o cara não me falou. Esse cara é um idiota, esse médico que eu passei, porque a sequela é fundamental. O surto, normalmente, você toma o remédio e ele some. Só que quanto mais tempo demora o surto, maior fica a sequela. Eu ter sequela... Não sabia, também. Dizia: “Legal. É uma doença... Quando eu tiver o surto, tomo o remédio e vai embora, acabou.” Não é isso. Eu tenho um surto, mas fica a sequela.

 

P/1 - Como é a seqüela?

 

R – Vamos supor... Eu tive um surto que atingiu a minha perna e eu perdi força, coordenação motora e sensibilidade. No surto isso fica bem forte, aí você toma o remédio por um tempo e passa esse surto; a sua perna volta, mas não como antes. Isso não é tudo. Ela volta 90%, mas quando você se submete a esforço físico ou a calor, é como se você tivesse num surto de novo. Eu começava a jogar bola de um jeito, passava quinze minutos, meia hora, quarenta e eu estava péssimo. Minha perna estava completamente débil, eu tinha que parar. Descansava quinze, vinte minutos e ela voltava – mas isso eu não sabia, eu fui descobrindo, porque o médico não passou essa informação. Eu estou jogando tênis quando eu tive esse surto na vista. Passou o surto e – eu sou canhoto, mas jogo tênis com a mão direita –, no começo do jogo, tudo bem. Conforme o jogo ia transcorrendo, eu dava raquetada no ar, furava a bola... Porque o déficit na visão volta quando você está submetido a esforço físico ou ao calor. Eu comecei a ver: “Pera aí, bicho... A coisa é muito maior do que me falaram. Não estou conseguindo jogar futebol e agora, nem tênis. Quando volto a jogar minha visão piora de novo!” Eu fui sacando o que era a coisa, aí que mudei pra esse médico de Antroposofia e mudamos todo o modo de encarar, mas foi um processo... Não é que o médico de Antroposofia é maravilhoso. Com o tempo, eu mesmo fui tomando consciência da coisa: “O que se sabe da doença é que é uma doença autoimune. Sou eu que estou fazendo isso, eu que estou me atacando.” Vou falar rapidamente o que é: uma doença que ataca seu sistema nervoso central, e o que se sabe da doença é que todo nosso sistema nervoso é coberto por uma camada de gordura que é chamada mielina, que é como se fosse a capinha de um fio elétrico. O que acontece no surto da esclerose é que o seu sistema imunológico ataca a mielina como se ela fosse um invasor e a destrói. Quando destrói a mielina fica em curto, comparando com o sistema elétrico.

 

P/1 – Dói?

 

R – Não dói nada – no meu caso, não –, antes doesse. O que acontece é que a sua informação nervosa não chega ou chega defeituosa. Dependendo do pedaço do cérebro onde está tendo essa... Desmielinização ,que eles chamam... É a parte de seu corpo que vai ser afetada. A parte que chega a informação nervosa para a perna, para a mão, para a vista, para o resto do corpo.

 

P/1 – Chega até ali e dali não passa?

 

R – Não é que não chega até ali: não sai daqui, sai equivocada... É como se estivesse em curto. “Você tem que fazer ultrassom.” Não tenho que fazer nada. Na minha perna não tenho nada, ela é perfeita, o meu braço também. É a informação nervosa que chega equivocada ou não chega. O que a medicina diz? “O que desmielinizou não se reconstitui.” Aí que fica a sequela, é como se você ficasse com pequenas cicatrizes no seu sistema nervoso. Essas cicatrizes impedem que a informação nervosa chegue com perfeição. Tem os agravantes, que é o calor, o cansaço... Eu não sei exatamente qual é a questão fisiológica, mas isso intensifica esse déficit da informação nervosa. Com o tempo eu fui perdendo sensibilidade, força e coordenação motora: “Cara, eu não consigo fazer embaixada.” O dia que eu vi que estava fazendo quatro embaixadas, eu disse: “O que está acontecendo?” Era uma descoberta, eu ia descobrindo... Isso que eu achei um horror. É uma coisa que...

 

P/1 – Isso ia aumentando?

 

P/2 – Mas é localizada no cérebro?

 

R – No cérebro. Como é informação nervosa, dependendo do pedaço do cérebro que está tendo a desmielinização, a informação nervosa não chega na perna, na mão, na vista.

 

P/1 – As terminações nervosas?

 

R – É.

 

P/1 – Por isso __________ que você sente.

 

R – A informação nervosa não chega lá, mas o problema é daqui. Não é aqui que está o problema, está de onde parte a informação nervosa. Eu fui entender isso, mas o que não se sabe é o que faz com que o organismo passe a atacar e reconhecer a mielina como inimigo, e não como parte de seu corpo. Tem várias teorias: uma que diz que é vírus, outra – que é essa da Siburra – que é uma... Me fugiu a palavra desde aquela hora, não é infecção, poluição... Não consigo lembrar agora. Tem outra que é uma questão de alimentação...

 

P/1 – Intoxicação.

 

R – Intoxicação, obrigado. Uma intoxicação alimentar que se dá no intestino. Não se sabe exatamente o que é. Tem a do vírus, essa da infecção... Não tem muitas outras. Mas nada disso é confirmado, são suposições.

 

P/1 – Não é hereditário?

 

R – Não. Eles têm estatísticas: acomete mais mulheres entre vinte e quarenta anos, mais pessoas do hemisfério Norte do que do hemisfério Sul... Tem muitas estatísticas assim. Eu me enquadraria, porque eu tive o primeiro surto com vinte anos. Tudo bem que eu não estou no hemisfério Norte, mas enfim... Eu comecei... O que mais me chamou a atenção, quando foi caindo a ficha, foi: “Pera, não é tão uma brincadeira assim. É uma coisa mais séria.” Ao longo do tempo que foi caindo essa ficha. Na busca de tentar me curar e de fazer com que os surtos cada vez fossem menores, o que me chamou a atenção foi: “É uma coisa autoimune, cara. Sou eu que estou me atacando.” O tratamento não é Cortisona, coisa nenhuma. O tratamento é eu ter que me investigar, descobrir o que está em desequilíbrio e onde é que está o problema, porque sou eu me atacando. Teve até uma época na qual eu fui mais radical. Mudei toda a minha alimentação. Parei de comer carne totalmente, todo tipo de carne – seguindo um pouco a cartilha da doutora [Siburra?], aquela italiana. Abominei esse papo de “Cortisona o quê! Isso é paliativo, a questão não é essa” até o momento no qual eu vou fazer um espetáculo, uma tragédia grega, no Centro Cultural – que foi o melhor espetáculo que eu fiz na minha vida até hoje, chamava Aulis – e eu estava tendo um surto nas pernas. Eu estava com esse médico de Antroposofia: “Não, não vamos tomar cortisona. Vamos continuar com o nosso tratamento!” Foi ficando cada vez pior e foi agravando, aí eu já não estava mais conseguindo mais guiar... Comecei a depender de alguém me levar para o teatro, não tinha mais coordenação na perna pra guiar. Comecei a usar bengala, até o dia que eu caí no palco. O dia que caí no palco foi o dia que... Mentindo, eu falava para o elenco que eu estava com tendinite na perna. Foi uma estratégia que eu tinha adotado de: “Eu não vou falar que eu tenho esclerose múltipla para ninguém porque eu não quero ser café com leite. Se eu falar que tenho esclerose múltipla, ‘Ah, o cara é café com leite’...” Eu não falava. Entrei na EAD e nas aulas de dança sempre era o trapalhão. Para mim era assim: “Eu prefiro passar por trapalhão e ficar tentando superar o limite do que assumir o limite e falar: ‘Isso eu não consigo’.” Eu odiava a ideia de alguém falar: “Nando, esse exercício você não faz.” Falei: “Eu não quero. Quero fazer todos os que todo mundo faz.” Não queria ser café com leite. Era uma fase inicial de resistir a reconhecer os limites, então eu falava no teatro que eu estava com tendinite. Eu caí em cena, falei: “Vou tomar a cortisona.” Foi impressionante, porque eu tomei... Eu não estava mais tomando comprimido, porque acontece isso também: começa a ter que tomar doses cada vez mais fortes, o comprimido não funcionava mais. Eu comecei a tomar decadron injetável. Eu fui tomar injeção e falei: “Chega, esse papo está errado. Preciso sim da cortisona.” Eu fui tomar o decadron. Tomei num dia e, no dia seguinte, eu estava dirigindo e sem a bengala. Falei: “Cara, é tirar com a mão...” Maravilhoso. Eu fui equilibrando e falei: “Nem tanto à terra, nem tanto ao mar. Tudo bem, está errada essa visão de que é só isso; mas essa de radicalizar, não... Eu preciso tomar quando eu tiver o surto.” Eu fui começando a... Eu é que fui temperando a coisa.

 

P/1 – O tratamento não é contínuo?

 

R – Não. Você só toma quando tem o surto, porque não existe... Agora tem um, que eu faço. Mas quando eu descobri, falou: “Não existe tratamento, só se trata quando tem o surto.” Eu fui buscar o tratamento pra me equilibrar, falei: “Claro que tem. Se sou eu que me ataco, estou com algum desequilíbrio meu. Eu tenho que me conhecer e descobrir onde está isso.” Eu fui para a Homeopatia, para a Antroposofia... Sempre fazendo tratamento de fundo para tentar descobrir: “Por que eu estou me atacando?” Meu sistema autoimune que ataca meu sistema nervoso, cara. Que viagem. Eu comecei... Teve esse primeiro momento radical no qual eu aboli o remédio alopata: “Não vou tomar mais”, até esse dia que eu caí no palco e fiquei mal. Foi muito humilhante, você cair no palco... Foi bem humilhante. Fisicamente não me machuquei, mas estou um caco moralmente. Andando assim, eu caí. Eu comecei a buscar um equilíbrio: “Não, eu preciso do remédio alopático.” Esse papo de que quanto mais demora o surto, maior fica a sequela... Falei: “Preciso. A hora que eu perceber que estou em surto tem que tomar o remédio para estancar o mais rápido possível, porque depois a sequela fica menor.”

 

P/2 – Existe a impressão de que não está tranquilo.

 

R – Não existe uma coisa fixa. Quando eu tive essa fase mais radical de não comer carne, fiquei dois anos sem ter surto. Foi o meu maior período sem ter surto, de 91 a 93. Eu tinha uma média de tipo um surto por ano, mas os médicos sempre falavam: “Olha, você pode ter dez surtos num ano e pode ter vinte anos sem surto. Não sabemos o que desencadeia o surto.” Comecei a ter uma média de um por ano até em 98, que eu tive quatro. Foi quando pintou esse tratamento que tem agora, um tratamento de fundo que é alopata e que eu faço. É uma injeção subcutânea que você aplica dia sim e dia não, que é justamente para que os surtos sejam mais distantes um do outro e, quando venham, venham mais brandos. É o interferon, remédio que eu tomo dia sim, dia não. Foi curioso porque, para mim... Eu comecei a tomá-lo quando eu tive o ano mais hard, que eu tive quatro surtos num ano, em 99. Depois desses quatro eu estou há um ano e meio sem ter surto, fazendo esse tratamento de tomar essa aplicação subcutânea que eu mesmo aplico. O que aconteceu foi que... Isso que eu falei que os remédios começam a não fazer efeito... O decadron, que foi a injeção que eu tomei e que parecia milagre, também começou a não fazer efeito. Eu comecei a ter que ir no hospital fazer aquilo que quiseram me fazer na Itália, que era tomar o solu-medrol. Eu fui muitas vezes em hospital, quando eu tinha surto, porque o decadron não fazia efeito e eu tinha que ir tomar o solu-medrol. A minha experiência com hospital é completamente oposta dessa que eu tive na Itália, eu dizia: “Cara, quero casar com uma enfermeira! Como são legais, como é gostoso.” Eu chego lá e você tem um tratamento super carinhoso, super... É uma coisa diferente porque eu vou lá para tomar o medicamento, não estou indo lá para... Como eu fui na Itália, sem saber o que eu tinha. Eu sei o que eu tenho e estou consciente do que eu estou fazendo aqui. Sei porque estou tomando remédio, porque que é...

 

P/1 – Você avalia que, num primeiro momento, nem os próprios médicos tinham um diagnóstico.

 

R – Tinham.

 

P/1 – Eles não tinham feito exames?

 

R – Não, mas pelo meu quadro, o cara... O Daniele Riva, que foi o meu neurologista daqui, só pediu para confirmar com o exame da suposta meningite, porque a sintomatologia é clássica. Você perder a sensibilidade... Depois eu fui ler um monte de coisas, tudo o que tem de esclerose múltipla eu já li, eu fui buscar. Eu percebi que qualquer médico que eu chegasse e falasse: “Estou com dormência na mão, minha perna ficou assim, tenho tantos anos...” Tudo bem não ser isso 100%, mas era um quadro muito... Depois que eu fui ler, falei: “O cara na Itália sacou o que era.” Tudo bem que depois ele fosse fazer exames para confirmar, mas sabe, está indicado: é isso. Vamos fazer exame, mas é muito típico. Embora não se saiba a causa, os sintomas são todos muito claros e muito... O que varia é onde o surto vai afetar: se vai ser na mão, na perna, na vista. Tem pessoas que sentem dores. Eu não sinto.

 

P/1 – No teu caso pegou a perna, a vista...

 

R – Eu tive vários surtos. A grande maioria – tipo 90% dos surtos – foi nas pernas.

 

P/2 – Quando você fala surto... É claro que está acontecendo?

 

R – É, porque você acorda um dia de manhã e diz: “Minha perna está esquisita.” Você vai andar e percebe que está estranho para andar, fala: “Ih, começou um surto.”

 

P/1 – Você percebe qualquer coisa.

 

R – Você percebe, mas é de uma hora pra outra. A visão, também: eu amanheci, acordei e estava com uma barra na minha visão. Se eu focasse essa câmara eu via as pernas do tripé, via um pouquinho para baixo de onde eu estava focando. Eu fui fazer um teste num lugar que pisca a luz e você aperta um botão, ficou exatamente assim: tinha uma bola e do meio para baixo, eu enxergava; do meio para cima, não. É de um dia para o outro, eu acordei e estava assim. Estava diagnosticado que era esclerose, eu sabia que era isso.

 

P/1 – E esses surtos demoram quanto tempo?

 

R – Varia. Esse último surto que eu tive... Quando eu comecei a ter, em dois ou três dias eu percebia: “É surto mesmo, não é cansaço. A perna... É surto.” Começava a tomar o remédio e três, quatro dias, o surto acabava. Durava uma semana entre perceber, tomar o remédio... Mas ficava aquela sequelazinha. Com o tempo o remédio começa a não fazer mais tanto efeito, então em vez de durar uma semana demora dez, quinze, vinte dias para acabar, demora um mês... Que é quando eu comecei a ir para o hospital tomar o solu-medrol. Um mês para... “Acabou de vez.” Até que, no ano passado, eu tive um surto que durou um ano. Tive outra experiência em hospital também, que foi a quimioterapia. Falei: “Nossa, cara.” Agora, quando eu vou no hospital trabalhar com quimioterapia, sei o que é. Eu comecei a tomar solu-medrol e não fazia efeito, foi um surto na perna também... Tomando solu-medrol, eu falei: “Continua desse jeito. Continuo com a perna fraca e meio descoordenada, com sensibilidade estranha... Para guiar está difícil.” Comecei a usar bengala de novo e o cara falou: “Vamos usar outro medicamento, que eu estou experimentando” – também tem isso na esclerose, tudo é muito experimental ainda. Eu sigo com um médico alopata que não é o mesmo que diagnosticou, é um cara que é o bambambã da esclerose múltipla no Brasil. Ele falou: “Olha, estou fazendo experiências e não sei ainda o resultado, mas tem dado bom resultado, que é aplicar a quimioterapia nesses casos em que a cortisona e o solu-medrol não estão mais dando.” Eu fui aplicar a quimioterapia e foi um horror; deu resultado, mas a quimioterapia é horrível. Eu fui ao Hospital Santa Catarina, ali na Paulista. Você chega na sala e é aquele monte de gente – a maioria de câncer – já careca, magros.... Você senta lá e veio o meu. Era um negócio desse tamanho (gesto), amarelo... Você via nos outros caras uns negócios desse tamanho (gesto), azul, verde, uma cores... O meu durava duas horas, a aplicação. Só que foram duas horas tão horríveis, que eu fiquei... Primeiro eu fiquei enjoado, meio mareado, e depois com muita ansiedade. Eu levei umas revistas para ler e não conseguia, eu não via a hora de ir embora. Depois meu médico falou que era efeito colateral da quimioterapia. Olhava para os negócios enormes daquelas pessoas e falava: “Meu Deus, cara. Vou ficar duas horas e já não estou... Não consigo ler. Imagine essas pessoas com esses negócios desse tamanho, vão ficar aqui acho que o dia inteiro tomando isso.” Foi um horror. Quando eu saí de lá passei uns dois dias mareado, parecendo que saí do barco.

 

P/1 – Fez uma aplicação?

 

R – Fiz uma. Eu falei para o médico: “Estou mareado.” “É efeito colateral do remédio, você tem aí...” É trágico a questão da grana. “Você tem convênio?” Falei: “Tenho.” “A próxima vez que vou ter que te fazer, vou fazer de outro, que o mesmo... Custa cinco mil reais, mas se você tem convênio, tudo bem.” Meu convênio nem pagou, eu tinha um seguro saúde que pagou. Se eu não tivesse tinha que tomar aquele, que custa duzentos. Ele falou: “Tem quimioterapia até de vinte mil reais. Eu vou te passar para outra que custa uns cinco mil, mas como é o teu convênio que vai pagar...” Eu tomei essa outra...

 

P/1 – O teu tratamento é baseado no preço. Estava faltando isso, também.

 

R – Como eu tinha o convênio eu disse: “Tudo bem, dá o de cinco mil. Não sou eu que vou pagar.” Eu tive que fazer uma nova: melhorou, mas não estava 100%. Eu fiz com esse e foi maravilhoso, não tive nada. Não fiquei mareado, fiquei lendo, tranquilo... Falei: “Não... Aquele dia a ansiedade não foi piração da minha cabeça, foi uma coisa química da quimioterapia. Será que foi o ambiente e ver aquelas pessoas que me deixou...” Ele falou: “Pode ser, mas esse remédio que eu te dei costuma dar essa ansiedade.”

 

P/1 – O tratamento de quimioterapia já é um choque para a pessoa, tem toda uma carga de outras coisas...

 

R – Eu não sei avaliar quanto.

 

P/2 – Isso foi em que ano?

 

R – O da quimioterapia foi em 99, que foi o último surto. Eu fiquei um ano... Eu tomei várias vezes a quimioterapia, porque eu tomava, passava um mês e voltava o mesmo sintoma. O surto não tinha sido debelado, tinha sido só uma coisa de que a quimioterapia segurou, mas voltou. Fiz umas quatro ou cinco vezes. A primeira, que foi essa mais punk, e as outras todas, que foram aquela de cinco mil. Os caras do convênio falavam: “Esse cara está saindo muito caro.” Fazia, mas no mês seguinte voltava o surto.

P/1 – O que você fala que ficou um ano e voltava?

 

R – Ficou um ano, porque eu tomava... Passava quinze dias que eu tomei a quimioterapia e os sintomas começavam a voltar. Eu ligava para o médico: “Onde que é? O mesmo sintoma? Então é aquele surto que não foi debelado. Demos uma controlada na inflamação da mielina, mas a hora que passou o efeito do remédio, voltou. O surto está lá ainda instalado.” Eu fiquei um ano fazendo isso e julho de 2000 foi quando eu tomei a última quimioterapia; depois não voltou mais, por isso que falei que faz um ano e meio. Mas de junho de 99 a julho de 2000, quase todo mês eu tinha que ir. Primeiro no solu-medrol, depois, quando a gente viu que não dava o solu-medrol, foi para a quimioterapia... Fiquei amigo da moçada do Santa Catarina, as enfermeiras eu já cumprimentava: “Oi, tudo bem?” Conhecia todo mundo, todo mês eu ia lá. Em junho, julho foi a última quimioterapia. A experiência da quimioterapia nesse primeiro dia foi muito punk e forte. Inesquecível, de falar: “Cara, eu pude trocar a quimioterapia porque eu tenho convênio. E quem não tem?” Quem não tem nem estaria aqui... É muito punk isso. Ao longo do processo, o que foi rolando foi que eu pude, aos poucos, ir me apoderando do meu processo de cura. Eu sacando o que é a doença: porque, onde estão... Com o tempo eu fui sacando quais eram os momentos da minha vida nos quais o surto aparecia. Foi um processo que demorou, desde 90 para cá, onze anos; mas foi um processo de eu ir tomando consciência do que é a coisa, de eu ir me apoderando do meu processo que foi exatamente o oposto do começo, que começou aquela coisa surreal na Itália. É isso que eu fico sentindo falta de ver no sistema médico, porque isso foi fundamental pra mim. Eu tenho certeza que eu vou me curar – não necessariamente me curar, acabar com todas as sequelas... Eu acho que sim, acabar com os surtos... Não vou ter mais surtos. Tudo isso é uma coisa que é de um processo meu. Eu tenho que desencadear, controlar e estar no comando desse processo. Preciso do médico alopata? Preciso. Tenho-o e fui nele semana passada para pegar as receitas, porque esse remédio subcutâneo que eu tomo é caríssimo, também. O governo do Estado distribui no SUS (Sistema Único de Saúde), mas eu preciso da receita do médico. De três em três meses eu vou ao médico pegar as receitas. Então eu tenho um médico alopata, tenho o homeopata, tinha a minha terapeuta e tenho a ioga. A ioga não é só para esclerose, mas ela ajuda. Tem uma série de coisas de que eu fui me cercando, mas eu passei a tomar controle do processo. Isso que eu sinto falta.

 

P/1 – Você comentou que durante esse tempo começou a se conhecer para ver onde estava a causa da doença, que períodos que ela atacava mais... Como se deu isso? Você descobriu alguma coisa que faz desencadear os surtos?

 

R – A minha primeira sacada foi que eram momentos de estresse. Eu reparei que são momentos nos quais eu estou vivendo desgaste físico ou emocional. Primeiro a minha em Londres: eu estava trabalhando das oito da manhã às cinco da tarde num lugar chato, não falava com ninguém, era frio e era tudo cinza. Era um momento de estresse físico e também meio emocional. No segundo, quando eu tive, em maio... Eu tinha namorado uma suíça quando eu fiz o curso de italiano, e a gente... Foi um mês absurdamente intenso: um moleque de 20 anos, aquela paixão absurda... Ela voltou para a Suíça, é claro: “Meu, ela voltou para a Suíça” e pá, eu tive um surto absurdo nas pernas. Eu fui identificando, a minha primeira sacada foi essa. Depois eu fui refinando essa busca, não é toda vez que eu estou estressado que tenho surto e não é todo mundo que tem estresse que tem surto, senão o mundo vivia em surto. Você vai buscando refinar e tal... Minha terapia é fundamental, de você ir buscando... É tão difícil de você relatar isso tentando trocar em miúdos, é que... O risco de trocar em miúdos é você banalizar a coisa, mas eu vou tentar. Eu estou chegando num ponto no qual eu acredito que o meu processo de esclerose múltipla tem a ver com eu aprender a lidar com a minha agressividade e meus impulsos agressivos. Não só a agressividade de violência; a agressividade no sentido mais amplo, de iniciativa, e de violência, também. Dez anos de terapia e fomos chegando a um diagnóstico nesse sentido, que tinha a ver com essa... Para chegar nisso é uma história muito grande, ao longo de dez anos de terapia... Por isso que eu falei que fiquei com medo de parecer uma coisa banal; mas não é.

 

P/2 – Quando você fala, faz sentido _________.

 

R – Total. Essa coisa da agressividade – e que faz sentido do meu sistema autoimune estar me atacando – é uma coisa de uma agressividade meio descontrolada, mal resolvida, mal colocada, mal encaminhada... Que não seja isso a questão; o que eu achei de mais relevante no processo é eu sacar que o processo é meu, que isso tudo... Que não é uma... Tem um momento no qual – é um processo muito rico –, no começo, você fala: “Cara, eu sou vítima. Por que comigo?” Tem uma estatística que diz que em cada cem mil pessoas, uma tem esclerose múltipla. O que eu fiz? Eu imaginei o estádio do Morumbi e eu sentado lá, lotado. Dizem: “Uma pessoa neste estádio vai testar um...” “O que ele falou? Uma pessoa? Tá legal, me vê aí. Vou comprar”, não dando bola. “Está naquele setor.” “Setor azul é o meu? Não acredito, sou eu.” Eu fazia esse filme na minha cabeça. “Cara, é muito absurdo, muito azar. Eu sou uma vítima do destino, que mundo cruel. Por que eu fui abençoado com essa droga de esclerose múltipla?” Isso foi no primeiro momento, depois vai caindo uma ficha. “Pô, não é isso. Não é uma coisa de fora.” Isso é uma coisa da medicina alopata, um agente externo que desencadeia o processo... Não é agente externo nenhum, sou eu! Depois você começa... Hoje o meu modo de encarar essas coisas é muito diferente. Eu vejo muito como a luzinha vermelha do óleo que acende no seu carro. Para mim, a esclerose é a luzinha vermelha que eu tenho no painel, dizendo: “Dá uma checada que a máquina está te dando esse aviso, mas é porque tem outra coisa.” Ela é um sinalizador, não é a causa última.

 

P/1 – Você estava falando que no primeiro momento você se sentiu vítima, depois você percebeu que era um problema seu. Nesse momento você não foi contra você mesmo, não se revoltou com você mesmo?

 

R – Não. Eu acho estranho falarmos que as palavras são tão... Esquisito, não? Eu quero dizer que...

 

P/1 – Não dão conta.

 

R – Por isso que cada vez mais eu acho o máximo a poesia: porque ela não é a palavra, é muito mais do que está na palavra. Num primeiro momento... Não é exatamente só isso, mas vamos tentar. Estamos falando, tem que falar com palavras... No primeiro momento, foi: “Não estou nem aí, amarra o pé na bicicleta e vamos embora” (risos). O segundo momento é que foi: “Pera aí, bicho. É mais grave do que eu pensei... Por que eu? Que droga!” Depois foi amadurecendo outro processo, de: “É um processo autoimune, sou eu.” Durante algum tempo minha bíblia era um livro que chama A Doença como Caminho, um livro muito legal de um médico alemão e outro – não lembro o nome do autor – europeu também. Foi me levando mais para essa visão de ver a doença como uma parceira e como uma coisa boa. Sem demagogia, uma coisa boa no sentido de que ela está indicando para você e seu crescimento que tem alguma coisa em desequilíbrio e que você tem que ir buscar. Para mim, uma coisa muito clara foi que eu sempre fui um líder: na classe, na escola, no futebol... O primeiro a ser escolhido ou o cara que escolhe. De repente eu passei a ser o último a ser escolhido. O cara que... Pior do time. Durante muito tempo – tipo uns dois anos – ainda conseguia jogar e com os meus amigos. Eles sabiam que eu estava com algum problema, que eu tinha esclerose múltipla, então tudo bem; mas muitas vezes eu ia jogar em lugares nos quais as pessoas não me conheciam, e lá eu era o Bertoldo, o meu colega do primário que era o “Zé Mané”, o pior do time... “Sai da frente, Bertoldo!” “Agora eu sou o Bertoldo.” Isso foi muito louco para eu viver... Lembro-me que muitas vezes que eu fui jogar e ficava num misto de puto da vida de não estar conseguindo com autopiedade: “Coitadinho de mim... Olha que merda.” Meu olho marejava. Às vezes vinha uma bola e eu chutava o ar, eu saía de cabeça baixa e meu olho marejava. Eu falava: “Cara, sem autopiedade”, mas vinha. Fazer o quê? Isso foi um aprendizado muito legal, porque são situações opostas e eu vivi as duas. Pouca gente vive as duas: ou você é o cara bom do time ou você é o ruim. Você não é o bom e o ruim. Eu fui bom e ruim.

 

P/1 – Foi bom e depois o ruim.

 

R – Eu comecei a sentir... Lembrei-me do Bertoldo: “Eu sou o Bertoldo hoje. Eu chuto o chão até com bolas ridículas, que não se pode perder.” Os caras me davam bronca e eu falava: “Eu sou esse cara que está dando bronca”, que falava: “Porra, meu!” Eu falava: “Agora eu não sou mais ele, eu sou eu. Eu sou o Bertoldo.” Foi uma coisa muito... Enquanto eu estava vivendo, era meio louca. Conforme o tempo foi passando, foi muito legal e enriquecedor, para mim, viver esse outro lado e conviver com o limite. Isso é uma coisa que, para mim... Eu acho que até eu tenho um jeito... Eu nunca tive uma pessoa muito próxima de mim que morreu, mas eu tenho uma sensação de que eu tenho um jeito tão saudável de encarar a morte. Saudável no sentido de tranquilo. Eu acho que muito disso veio desse aprendizado que a esclerose me trouxe, de conviver com o limite... Eu sempre fui um cara meio mimado, e meus pais sempre superprotetores. As professoras me protegiam porque eu era bom aluno. Eu sempre fui protegido, as pessoas gostavam de mim... Tinha uma coisa de cara mimado e, de repente, esse cara mimado não consegue jogar bola. Os caras do time gritam e têm razão. Erro ridículo e grotesco, de perna de pau. Na hora do jogo você grita mesmo com o perna de pau. Eu falava: “Caramba.” Minha primeira reação era: “Filho da puta esse cara... Tá certo, olha o que você fez. Olha o erro ridículo que você fez.” São limites que, num primeiro momento, quando eu comecei a ver que eu estava jogando mal, eu não aceitei: “Imagina, cara. Não é possível!” Com o tempo você fala: “Eu não corro, não consigo correr.” Eu tive que aprender a aceitar isso: “Eu não tenho coordenação motora para correr.” Isso tudo traz um amadurecimento que eu acho que... Às vezes parece demagógico, mas eu agradeço a esclerose, porque me trouxe uma série de crescimentos, de amadurecimento, de sacadas, de... Por conta disso, essa experiência de ter que conviver com os limites. Limites bem radicais, para mim – eu encaro isso como radicais.

 

P/2 – O seu _________ era continuar jogando __________.

 

R – É porque eu gostava muito. Eu ainda estava na fase de: “Não, eu quero jogar e brincar. Estou jogando mal, mas eu vou me divertir mesmo jogando mal.” Começou: “Será que eu estou me divertindo? Porque as pessoas... Sou o ‘Zé Mané’ do time, sou o Bertoldo do time. Não estou me divertindo tanto sendo o Bertoldo.” Eu comecei a diminuir e jogar cada vez menos, até o momento em que eu parei. O momento no qual eu parei definitivo foi porque, realmente... Eu parei de jogar com pessoas que eu não conhecia, porque eu não estava aguentando mais ser o “Zé Mané” do time. Eu era muito “Zé Mané”: conforme o tempo vai passando, o sintoma vai piorando. Você tropeça sozinho e cai, não dá. Comecei a jogar só com os meus amigos que eram de colegial; conheciam-me, sabiam e tudo o mais. Aceitei o café com leite e ia catar no gol. Chegou uma hora que eu não conseguia mais – mesmo porque eu não consigo correr –, então não dava: “Só posso catar no gol, mas catar no gol também é dose para leão. Eu gosto de jogar, tudo bem... Então não jogo mais futebol.” Hoje eu falo isso... Se eu pensar que, há dez anos, alguém falasse para mim: “Você não vai mais jogar futebol.” “Imagine, impossível! Vou bater pé, fazer bico...” O que a esclerose me trouxe foi: “Não jogo mais, não posso mais jogar. Pode ser que um dia eu volte, mas hoje não posso.”

 

P/1 – Nesse período você tinha a consciência de que ia melhorar, ou que aquilo estava piorando?

 

R – No primeiro momento eu nem achava que ia piorar, achava que isso não ia ser um problema. Quando a coisa começou a piorar, o que a medicina sempre me falou foi: “Não tem cura, é daqui para pior. Só piora a esclerose: cada surto novo que você tem incorpora uma nova sequela, e as sequelas não são recuperáveis. Esquece, só vai piorar daqui para frente. Pode ser que você seja um daqueles casos que vai ficar vinte anos sem ter surto, mas...” Tanto é que, toda vez que eu ia ao médico, no Neurologista – agora eu lido melhor –, era punk. Chega muita gente com andador, com cadeira de rodas... Você está sentado, vê o cara e diz: “Eu já...”

 

P/1 – Conversas com esse jargão, não?

 

R – Nesse médico que vou, 90% é esclerose múltipla. Chega gente de andador, aí eu falo: “Eu não estou de andador hoje, mas também eu não era o Bertoldo.” Dá um... No primeiro momento eu tinha essa aflição, dava um frio na barriga... Eu detestava ir ao médico, de três em três meses, para pegar a receita. Era ver uma coisa e falar: “Caramba, olha os caras de andador, de cadeira de rodas. Isso, não.” Não sei se “Isso, não.” Ficava uma coisa meio...

 

P/1 – Nando, você estava se vendo daqui a algum tempo.

 

R – Quando eu falava: “Isso não vai acontecer... Bom, eu nunca imaginei que eu fosse jogar tão mal como o Bertoldo e cheguei a jogar. Pode ser que isso vá acontecer.” A medicina alopata sempre... A perspectiva que ela te dá é essa: “Não tem cura. Fica tranquilo: está tendo um monte de pesquisas e pode ser que mais para frente se descubra, mas hoje não tem.” Igual ao cara que quebra a coluna: acabou. Não vai andar nunca mais, mielina não se reconstitui. Eu mesmo, lendo e fazendo meus tratamentos, falei: “Não reconstitui, coisa nenhuma... Eu era uma célula e virei isso aqui. Claro que reconstitui. A gente não sabe, eles não sabem o que causa a esclerose e ela existe... Eles não conhecem a cura, mas ela existe. Tenho certeza absoluta que existe.” Não é uma coisa de... Quando a gente fala isso eu sinto que tem um pouco do clima da “fé dos desesperados.” Não é, eu tenho noção disso, de que a gente tem 10% do nosso cérebro que a gente conhece. E o resto? Se a gente consegue, de uma célula, virar desse tamanho... Tudo bem que é toda uma programação que já está lá, mas deve ter... Deve ter, não. Tem algum modo de ou reconstituir ou o cérebro descobrir outro caminho para mandar a mensagem, alguma coisa assim. Eu sei que vou conseguir, e já estou tendo melhoras mesmo. Isso ficou muito claro para mim na ioga. Tinha muitas posturas que, num primeiro momento, eram impossíveis porque eu perco o equilíbrio. Eu perdi muito do meu equilíbrio, porque como perde a sensibilidade nos pés – e eu perdi muito nos pés –, o equilíbrio fica comprometido. Quando eu fecho o olho é um desastre, então tem um “afa” (?), uma postura super básica na ioga que é você ficar em pé com os dois pés juntos e a mão aqui (gesto), fechar o olho e ficar parado em equilíbrio. Eu fechava o olho e começava a balançar; não conseguia ficar, no começo, e agora – um ano – eu já consigo. Tem uma melhora que não está ligada a uma regeneração do sistema nervoso, mas que percebi que é plausível. Isso a medicina alopática também prevê, porque eles dizem que você tem que fazer Fisioterapia e que ela pode estar te ajudando. Embora não seja uma deficiência na musculatura da perna, com a Fisioterapia você pode estar acionando outras cadeias musculares que não as que você usualmente usaria; acionando elas você supre a deficiência de outras. Eu percebo que tem isso, mas... Mais do que essa coisa, que eu estou percebendo que melhora e que a medicina alopata também reconhece... Eu tenho certeza que é possível se reconstituir a mielina; senão reconstituir, criar outro caminho e estancar o surto. Tanto é que eu... Até comentei com a Élida: “Esse último que eu tive agora foi o último, não vou ter mais.” Eu gosto sim, sempre gostei disso... Você começa também a fantasiar um pouco. Sou muito... A gente é um pouco megalomaníaco, então fico fantasiando que eu... Tem um exame que a gente faz, que é a ressonância magnética, para mapear onde estão os pontos lesados no cérebro. Falei: “Eu quero guardar os meus exames para, daqui a não sei quantos anos, quando eu fizer de novo e não ter mais isso... Quero documentar para eu mostrar que não tem mais.” Eu guardo porque eu vou documentar, só eu falar não adianta. Para o mundo científico positivista tem que ter o dado concreto. Eu quero poder mostrar e falar: “Isso era a minha ressonância e essa é a minha nova ressonância” (risos). Eu quero fazer isso. Já aconteceu: o médico ainda acha que é da quimioterapia, mas eu tenho certeza que não é, sou eu que estou começando... Em 98 ele pediu uma ressonância, eu tive esse um ano de surto, que demorou... Quando acabou esse um ano ele pediu para eu fazer uma nova, que eu fiz acho que no começo desse ano. Falei: “A lógica é que venha com mais cicatrizes, porque eu tive um ano de surto.” Quando veio esse exame, veio o comentário – porque as fotos eu não consigo entender...  O médico alopata bota o negócio ali e fica olhando para aquilo, ele troca... “Eu estou aqui, o que você está vendo? Diz o que é.” O dia que eu levei, ele bota lá, fala: “Hã, hã, hã”, tira e bota outra. “Doutor Roberto, o que o senhor está vendo?” Tem que pedir para o cara, porque ele não fala; mas vem a coisa escrita. O que veio no relatório escrito foi que não tinham se alterado as lesões no cérebro. A quantidade de lesões tinha continuado a mesma, só três ou quatro, que eles indicavam as posições, tinham diminuído. Eu disse: “Está vendo, cara? Eu tive um ano de surto, era para estar com mais lesões.” Essa diminuição que eles estão apontando ainda foi maior, eu tenho certeza, depois de um ano de surto.

 

P/1 – Ou seja, uma regeneração?

 

R – Eles não colocam uma regeneração, dizem que diminuíram. Quando eu levei isso para o médico, o que ele fala é o seguinte: “Muitas vezes você já saiu do surto, mas ainda tem uma pequena inflamação. O que você sente, assume como sendo sequela. Não é sequela, é uma inflamação residual. Essa melhora que você está tendo e que aparece no exame não é que você regenerou, porque isso não regenera mesmo. É que você tinha, provavelmente, uma inflamação residual que agora não tem mais.” É a explicação que ele dá, mas não a que eu dou. Eu estou realmente me curando, porque eu tive um ano de surto e era para estar com mais cicatrizes. Ele mostrou, também, depois que eu perguntei para ele o que estava vendo: “Está vendo esses pontos brancos? São as cicatrizes de onde você teve a inflamação.”

 

P/2 – Você acha que esse processo vem de você possuir autoconhecimento e ter uma relação diferente com você mesmo?

 

R – Com certeza. É isso que eu falei: comecei a ver a doença e os problemas que a gente tem de doença como sendo a expressão de um desequilíbrio interno seu que vai muito além da questão dos sintomas. Quando eu vejo o sintoma melhorando, é também expressão de outra coisa interior, que também está se harmonizando mais... Você está se conhecendo. Isso tudo acabou me levando... Se eu já tinha uma tendência introspectiva, aumentou. Hoje me vejo um cara muito diferente do que eu era quando adolescente. Sempre fui super falante – sou ainda, mas porque eu estou falando de mim – nos lugares... Hoje sou um cara muito mais ameno e retraído, mas não é de mau humor; acabei desenvolvendo uma coisa mais introspectiva, mais... Por tanto tempo fazendo terapia, e pelos limites que a esclerose me colocou, acabei voltando o olhar mais para dentro. Não que esse seja o caminho: “Tem que ficar introspectivo.” Não é isso, mas acabou sendo uma decorrência. A partir do momento em que eu diagnostiquei que era uma questão de desequilíbrio interior meu, uma questão interna, eu comecei a procurar onde estava isso, com terapia... Isso tudo também já estava... Eu tinha um pouco esse pendor para introspecção. Isso que falei de que eu sempre tinha esse jeito de olhar para as coisas buscando a raíz, o para quê... Isso, às vezes, faz você ser um cara chato. Outra coisa, também, que foi muito em função da esclerose... É uma coisa de autoaceitação, porque a partir do momento em que você vai desenvolvendo esse processo de autoconhecimento, uma das coisas mais... Não sei se difíceis, mas que estão sendo mais legais para mim, é o processo de autoaceitação que vem ligado com o autoconhecimento. Não sei porque eu comecei a falar da auto aceitação...

 

P/1 – Você faz uma autoaceitação porque hoje você aceita como você é...

 

R – Lembrei, por causa disso. Porque, por exemplo... Eu sou ator, preciso do meu corpo. Eu trabalho no teatro e, se eu tiver que correr em cena, não corro. Se eu precisar de precisão... A última peça que eu fiz, fiz um bêbado. Disse: “Daqui a pouco eu vou ser especialista em personagem de bêbado”, porque conforme o cansaço vai vindo e a perna vai ficando mais fraca, eu caminho como se estivesse bêbado, mesmo. Você fala: “Cara, não vou poder fazer minha profissão. Antes tinha meu hobby, que era futebol; agora nessa profissão, que é ator... O que eu vou fazer?” “Pera, cara. A coisa é mais simples. Você pode trabalhar desse jeito.” Minha primeira experiência disso foi nessa peça na qual eu falei que eu fiz um alcoólatra. Eu vivi um pouco essa questão: “Do mesmo jeito que eu parei de jogar futebol, pode ser que eu tenha que parar de fazer teatro.” Aí que eu puxei o gancho da autoaceitação: “Por que eu não posso ser um palhaço? Por que eu não posso brincar com a minha dificuldade, com o meu limite? Eu sou palhaço, cara.” Talvez o trabalho de ator – que não é ligado ao palhaço – fique bem limitado por causa da limitação física.

 

P/1 – Você procurou alguma coisa que te encaixasse.

 

R – Que me encaixe. Eu percebi que o que mais eu tinha que fazer é palhaço: “Por que o meu palhaço não pode brincar com os meus limites?” Claro que pode, e isso tem a ver com a autoaceitação. “Caramba, tá vendo? Não vou poder nem mais ser ator.” Como é que pode? Você só não vai ser um ator de teatro físico, mas trabalha com o que você tem. Ainda mais como palhaço: o palhaço trabalha com os limites, com os ridículos... Olha quantos limites e quanto ridículo. Um prato cheio.

 

P/2 – Sua escolha foi ser um palhaço em outra trajetória. Não tem nada a ver com isso?

 

R –Não tem nada a ver. A minha escolha pelo palhaço foi... Eu conheci a linguagem do palhaço trabalhando com a Quito no EAD. Lembro-me que quando acabou eu falei: “É isso o que eu quero fazer, gostei muito.” Na minha adolescência sempre fui um cara muito crítico; mas não crítico comigo mesmo, ácido... Ácido, sim, mas um crítico de tirar sarro. Eu sempre tirei sarro de mim. Acho que isso é perfeito para um palhaço, só que tem que ser de um modo saudável, aí que entra a autoaceitação. Quando você não tem esse lance de autoaceitação no trabalhar, essa coisa de você estar sempre se criticando pode ficar sarcástica, autodestrutiva, que fica se apontando... O palhaço, não. Tem essa coisa crítica e de tirar sarro de si, mas com bom humor, e não: “Por que você não faz direito essa droga? Por que você não é o melhor em campo?” Isso é uma coisa mais... É autocrítica... É crítica, não é com você mesmo, mas muito aguda. A do riso é aceitar, falar: “Que engraçado, cara. Olha como eu ando atrapalhado. Que gozado pode ser esse meu atrapalhado no andar.”  Por isso estou chegando nessa autoaceitação, coisa que percebo que é um processo que eu estou vivendo. Eu vivia muito esse dilema: “Como é que eu vou trabalhar no teatro?”

 

P/2 – Nando, como você é quando __________ sistema tradicional? Você chegou a começar a falar __________.

 

R – Eu acho ele... Eu uso ele. Eu tenho um médico alopata e uso remédio alopata, mas coordeno o que vou tomar e o que quero tomar. Eu vou nele porque eu quero e acho que eu preciso, porque quando eu tive surto e não tomei, me fez mal; mas ele não está me curando. Ele é importante para... Isso que acho fundamental para um processo de cura: você ser o dono do teu processo. Ser a pessoa que tem consciência do que você tem, do que precisa e ir buscar tudo: alopata, homeopata, antroposófico, xamã e o que você quiser, o que achar que vai ser bom. O que acho que a medicina alopata faz é exatamente o oposto disso. Você tem uma letra do médico que ninguém entende – ninguém consegue ler letra de médico... É só entre ele e o cara da farmácia, um cara habilitado a ler aquilo. O cara bota exame e ele não fala com você. É o oposto do que eu aprendi na minha experiência, que é um processo que leva ao processo de cura. É uma coisa que o cara tem que saber. Eles conhecem, só que se falam em jargões que ninguém mais conhece... Eles têm que usar túnica branca para distinguir do resto... Cria toda uma coisa que acho que é o oposto do processo de cura. Alija-te do processo e te interna sem falar o que você tem, porque trata como se fosse uma questão externa. “Está com problema? Tira fora, extrai.” “Como extrai? Se não está aí, vai aparecer em outro lugar.” Eu acho que ela é falida. Não quer dizer que ela não tenha contribuições; eu uso, pô. Se não fosse a quimioterapia eu estaria em surto até hoje. É ótimo, tem coisas muito positivas.

 

P/1 – Essa consciência de dizer: tem um sistema que não incentiva, não favorece...

 

R – De modo nenhum. Não só não incentiva e não favorece, como proíbe, desestimula e impossibilita. O médico não fala com você e não é não bater papo... É ter o paciente: “Você é o responsável pela sua cura, meu amigo. Vou te ajudar e te amparar. Tem um monte de coisas químicas que podem te ajudar e você pode tomar, mas a cura é sua. Você é que tem que tomar posse dela. Você é que tem que entender o que está acontecendo com você, e nós estamos aqui para te dar... Tem ferramentas muito legais que você não conhece, e como é minha especialidade, eu conheço. Usar essa aqui... O que você acha dessa aqui?”

 

P/1 – Vivência.

 

R – Mas não é assim. Ele nem fala o que você tem, você vai ao médico e ele não fala. “Toma tal remédio.” “Para que eu estou tomando esse remédio? Por que você está me dando ele? Para que ele serve?”

 

P/2 – É um sistema que não favorece isso. No teu caso, o que favoreceu isso? A sua história de vida, a própria doença? Você poderia ter escolhido outro caminho. Você escolheu...

 

R – Foi uma busca minha. Desde moleque, criança, eu sempre falava: “Eu adoro...” Eu sempre brinco: sou corintiano, brasileiro, ator e professor. Eu adoro ganhar as coisas de virada, sempre gostei. Falava: “Ganhar de virada é a coisa mais gostosa que tem.” Eu sempre gosto desses desafios. Quando eu comecei a ver que: “Não, pera aí. A coisa é mais grave do que o cara falou, ali não vai me resolver. Eu quero outras coisas.” Eu comecei a procurar outras coisas. Foi quando começou a cair a ficha, para mim, de que as limitações físicas que eu ia ter eram muito maiores do que eu tinha previsto e do que o cara tinha me alertado. Eu saquei que ali não ia ter... O cara falou para mim: “Não tem cura, não tem o que fazer.” Eu falei: “Não, eu quero outra coisa” e comecei a procurar.

 

P/2 – _________.

 

R – Acho que tem. Essa coisa que eu falei de querer ganhar de virada é de não querer aceitar: “Como não tem cura? Deve ter. Tem que ter. Não é possível.”

 

P/1 – Aquilo que você falou da sua agressividade... Você acabou pegando a sua agressividade pra consertar o problema.

 

R – É. Esse ímpeto de querer resolver é o lado da agressividade que eu falei, que não está no lance da violência. Com certeza é uma coisa ligada à agressividade, que é esse ímpeto, essa atitude aguda, masculina.

 

P/1 – Era para te ajudar.

 

R – Sim. Eu acabei indo buscar outras coisas. Por ser uma doença que a alopatia trata como incurável, falei: “Não é possível, quero procurar outra coisa. Eu não vou ficar sem jogar futebol. Vou procurar outro médico, outra medicina.” Comecei a procurar, e a terapia também me levou a isso. Foi um processo longo de você ir buscar... Durante muito tempo eu vi a doença como uma coisa externa, uma maldição: “Por que eu?” É um processo muito gradual de você ir incorporando e sacando: “Não é exatamente assim. Não é a esclerose múltipla, sou eu. É uma manifestação minha, de um desequilíbrio meu, de uma questão que tenho que aprender a lidar, que eu tenho que resolver e que vai possibilitar um crescimento meu.” Por isso eu falei que parece demagogia, mas parece... Quando eu falo: “Eu agradeço a esclerose múltipla”, é por causa disso. Acho que ela é um sintoma que aparece e que me possibilita superá-lo. Essa superação é crescimento.

 

P/1 – Como a sua família via esse processo?

 

R – Passou por mudanças, como eu. Num primeiro momento, também, acho que não tinha caído muito a ficha para eles – eu imagino, não sei... Depois, por eu, logo de início... Quando eu voltei da Europa e comecei a procurar outra medicina, quando tive aquele diagnóstico que eu mesmo fiz, que falei: “Ah, momentos de estresse...” Senti que rolou uma atitude de: “Não vamos ficar muito em cima do Nando, porque se é estresse...” Isso, às vezes, enche o saco: “Não vamos ficar muito em cima disso, falando disso com ele...” “Como é que você está? Você está bom? Está legal? O Nando reclamou? Quando ele vem com aquele assunto, fala para ele acionar o médico.” Foi uma postura que chuto que eles acharam que ficar muito em cima ia ser estressante. Quando eu tive esse papo com eles – que comentei que eu tinha sacado que eram momentos de estresse –, senti que teve uma mudança. Num primeiro instante, era muito de ficar: “Como você está? Você está bem?” Quando eu tive esse papo de que era estresse, senti que eles meio que se retiraram e ficaram mais... Eu sinto que tem até um pouco de admiração: “Pô, como o Nando trabalha legal com isso, porque o cara tem uma série de limitações, mas continua numa boa, alegre, palhaço, brincalhão... Não foi um cara que deprimiu.” Eu cruzo tanta gente mal... Quando eu vou tomar o solu-medrol, vira e mexe tem gente de esclerose múltipla lá. Sempre pessoas para baixo, desiludidas...

 

P/1 – Depois do lance com a sua família, durante todo esse processo de sua doença, você casou, teve amigos com quem jogou até futebol... Num primeiro momento, você deixou de jogar com desconhecidos. Como é que foi essa convivência na sociedade, de limitações... E ainda, encontrar com a sua mulher...

 

R – É uma doença que ninguém sabe. As pessoas me veem na rua e acham que eu sou trapalhão, que eu tenho um jeito... Que eu tenho a perna dura. O cara não sabe que eu tenho esclerose múltipla, então eu não tenho muito um feedback de como a sociedade vê o paciente. Existem associações de esclerose múltipla; eu não vou e não participo, porque eu não gosto. Meu primeiro afastamento foi porque eu vi um monte de caras com andador. Falei: “Não quero ficar vendo isso.” Depois, porque é uma coisa muito de ficar e formar gueto em torno da coisa... Eu não gosto, então não entro e não participo. Eu não tenho muito esse feedback de como a sociedade vê porque não é uma coisa como um paraplégico. O cara não sabe que eu tenho esclerose múltipla. Se eu não falar, ninguém sabe.

 

P/1 – Mesmo as pessoas que convivem e que souberam desse... Não teve um primeiro momento em que sentiram certa pena de você?

 

R – Durante muito tempo eu ficava com esse papo de não querer ser o café com leite em que não contava para ninguém, mas era muito mais uma projeção minha. Era pena minha que eu projetava no outro. Ninguém tinha pena de mim. Jogávamos bola e eles falavam: “Vamos jogar, Bolonha! Vamos aí, cara.” Ninguém nunca teve uma atitude dessa, de café com leite. Acho que era muito mais uma projeção minha de eu me colocar e ter pena de mim. Eu sinto que, durante muito tempo, tinha essa coisa de: “Porra, cara. Não consigo jogar bola, coisa que eu mais gosto de fazer na vida.” Ficava isso que eu falei, de: “Pô, estou jogando.” Várias vezes aconteceu de eu, num momento do jogo, fazer uma coisa ridícula, dar um tropeção e cair, tentar dar um passe que eu sempre daria com facilidade e a bola sair para a lateral... Eu abaixar o olho e dar a maior __________, ficar com dó, que eu acho que é normal.

 

P/1 – Seus amigos não?

 

R – Não, em nenhum momento. Por isso falei que essa coisa de achar que as pessoas tinham dó de mim era muito mais uma projeção da minha dó no outro. Até acho normal que, em determinado momento, eu tenha ficado: “Pô, que merda.” Ter ficado chateado, lacrimejado, ficar um pouco bravo... Normal. O que eu acho legal é que não fiquei alimentando isso, nessa onda de: “Pobrezinho, coitado de você. Você é uma vítima.” Porque se eu fosse por aí, eu não ia ter muito...

 

P/2 – Como você conheceu os Doutores? Tem a ver com a sua história?

 

R – Tem muito a ver, sim. Primeiro com a linguagem do palhaço, que é quando eu fiz esse curso com a Quito, que falei: “É isso que eu quero fazer da minha vida. Quero ser palhaço, acho que eu tenho talento pra isso e que posso ser um bom palhaço.” Também tem a ver com o meu processo de cura e dessa coisa de trabalhar com limites, como falei, que pode ser risível, pode ser engraçado. Trabalhar de um modo saudável com isso, e não: “Ah, que droga. Não consigo.” Absurdo. Você tropeça... Trabalhar com isso... Tem também uma coisa que sai um pouco disso, que era... Eu sempre tive uma vontade de... Quando eu era um marxista revolucionário, eu sempre tive vontade de mudar o mundo e de melhorar a vida das pessoas. __________ “Como é que pode os caras queimarem arroz e a gente passando fome, cara?” Com o tempo a coisa foi mudando, eu falei: “Não preciso mudar o mundo. Posso estar ajudando um cara ali, outro acolá.” Uma discussão que eu tenho com os Doutores, dessa coisa: “Nós não temos que nos preocupar com os efeitos do nosso trabalho.” Eu me preocupo muito. Eu penso muito nisso e, para mim, é... Não é fundamental, mas é muito importante. Eu acho o máximo eu poder saber que estou fazendo aquela criança rir, que está sendo divertido e que esse riso, essa alegria que eu estou trazendo vai trazer uma série de benefícios fisiológicos e orgânicos. Eu acho isso o máximo. Veio num momento em que eu estava experimentando uma sensação – parece piegas, mas fazer o quê – de sentir um amor pelas pessoas de um modo geral. Gostar das pessoas, curtir... Olhar as pessoas na rua e falar: “Pô, que cara legal. Quanta gente bacana. Esse cara deve ter um monte de histórias, esse cara deve ter... A primeira namorada...” Olhar as pessoas e gostar das pessoas. Eu falei: “É legal, um sentimento gostoso de ter.” Falar: “Entendo aqueles papos que você ouve ali no __________, de amar...” Esse sentimento de um amor mais... Não só do amor para tua mulher, teu pai e teu irmão, das pessoas mais próximas. Sentimento de amor mais universal e incondicional.

 

P/1 – Gostar por gostar.

 

R – É, gostar das pessoas. Reconhecer nas pessoas um irmão, falar: “Sabe o cara da frente, que você xinga? Se fosse meu irmão, o Beto, eu não ia xingar. Eu ia falar: ‘Você pisou na bola, cara. Entrou sem enxergar e nem olhar a bola’, e não xingar.” Eu comecei a sentir isso com as pessoas, independente de ser o Beto. O cara passar e, em vez de você xingar, falar: “O cara está distraído, tudo bem.” Ter um sentimento mais amoroso com relação ao mundo. Isso, também, eu acho que tem a ver com a minha vontade de trabalhar nos Doutores, um trabalho super humano que é estar entrando em contato com as pessoas, um contato tão... A gente é recebido com tanto carinho. Todo mundo que nos recebe, recebe com um puta sorriso: “Que legal que vocês vieram.” Você sentir que está ajudando as pessoas e contribuindo para melhorar. Tudo bem que o cara... Só com bronca que a gente vai embora, mas aqueles dez minutos que eu estive lá foram legais para o cara. Foi bom, ele riu. Ele estava meio chorando lá e não está mais, está rindo. Isso é gostoso. Eu nunca tinha trabalhado, mas eu tinha essa noção. Conhecia o César, que trabalhava, e eu já tinha lido. Eu tinha essa sensação de que esse trabalho era reconfortante nesse sentido. Não vou fazer revolução comunista e acabar com a miséria do mundo, eu vou levar alegria para o cara que está mal, triste e de saco cheio. Vou chegar lá e vai ser alegria para o cara. Legal. Não fui um Fidel Castro que fiz a minha revolução em Cuba, mas levei para o Cândido Fontoura. Terça e quinta, tem quarenta crianças que passam meia hora mais alegrezinhas, legal. Isso estou vendo que tem a ver com essa minha vontade de estar interferindo no mundo para melhorar as coisas. Aos poucos eu fui... Isso está tudo ligado. Acho que tem a ver com os limites: “Você não vai mudar o mundo, cara.” “Ah, mas posso levar alegria para o cara que está lá no hospital. Está bom.” É uma coisa que está ao meu alcance e tem a ver com a minha opção profissional, de ser... Juntava um pouco as coisas, meio que fechava um quebra-cabeça. “Eu quero ser palhaço, mudar o mundo, melhorar a vida das pessoas, quero que sejam mais felizes. Quero ser ator e palhaço.” Isso eu reuni, tudo junto, nos Doutores. Não que se encerre lá, mas é um lugar em que quase tudo rola. Eu estou ajudando as pessoas a serem mais felizes, estou desenvolvendo meu trabalho de palhaço e foi meio que a grana, também. É um lugar em que eu vou ter salário. Nunca tive salário na minha vida; tive quando era professor, mas isso nem conta. Isso tudo foi somando, e a possibilidade de eu estar duas vezes por semana exercitando a linguagem do palhaço... Antes de eu estar nos Doutores eu curtia o palhaço, mas estou num espetáculo de clown. Acabou esse espetáculo, vou fazer outro que não é de clown e fico seis meses sem exercitar meu palhaço. Nos Doutores... Eu estava fazendo outro espetáculo agora, o qual não era de palhaço, mas duas vezes por semana eu estava testando o meu palhaço. Isso era uma coisa que me atraía bastante no trabalho, estar exercitando uma coisa que eu quero desenvolver.

 

P/2 – Hoje, se você encontrasse _________, se tivesse como plano reforçar __________ vocês ganham?

 

R – Ganho.

 

P/2 – _________. O que você diria, se alguém viesse te pedir?

 

R – Se viessem me pedir?

 

P/2 – É.

 

R – Começaria falando o seguinte: não é verdade que não tem cura. Tem cura. A doença não existe? Existe. Eles sabem como começa? Não. Eles não sabem como desencadeia a cura, mas existe, então tire isso de sua cabeça. Segunda, vai buscar outras coisas. É uma doença autoimune, uma coisa que o processo de cura vai depender de você e da sua... Se você ficar nessa onda de toma quimioterapia e pra la la, talvez você não vá avançar muito. Talvez avance, não sei... Eu estou dizendo a minha história e, para mim, o processo não foi por aí. A primeira coisa é dizer: “É mentira que não existe cura. Eles não conhecem, é diferente de não existir. Não conhecer não é não existir, isso é muita prepotência: ‘Eu não conheço, então não existe.’ Você é Deus?” Eles não conhecem, só isso. É uma coisa que o processo de cura é um processo em que você tem que ser o gerente dele; não entrega para ninguém, não entrega na mão do médico, na mão do padre... É teu, cara. Isso é que tem muito a ver com o papo de espiritualidade. Você começa a ler sobre religiões e, em todo lugar, você encontra a mesma coisa: esse papo de que Deus está dentro de você, coisa assim... Eu comecei a ler várias coisas e, no fundo, comecei a ver: “Meu, eles falam a mesma coisa.” As religiões falam a mesma coisa com palavras um pouco diferentes, com imagens, deuses, crenças... Mas, no fundo, um pouco... A minha percepção delas é que todas levam para essa mesma...

 

P/1 – Com nomes diferentes, como você falou. Na primeira pergunta que eu fiz hoje a respeito de religião, você falou: “Não consigo nomear.”

 

R – Com certeza, não tem nome nenhum. Não tem nenhuma religião institucionalizada que eu faça parte, mas sou um cara profundamente religioso. Eu me sinto um cara religioso. Eu tenho o altar, tenho momentos nos quais eu faço conexão com alguma outra coisa que eu não sei exatamente o que é e que não necessariamente é o momento no qual você está na igreja. É na hora do gol, que você grita... Ali é o momento que você está com Deus. Você está todo feliz e tão pleno, tão “ah!”, que é o momento do religar. Você está ligado com tudo, até com todo estádio. Você está num momento de tanta alegria... Quando você está transando e você goza... São vários momentos nos quais você sente que está ligado numa outra coisa “mais”, que transcende o seu ego, que transcende o Nando ali. É maior, é mais amplo, é mais “ah!”, que é o princípio da religião: você se ligar a um todo que você perdeu. A perda do paraíso e tudo mais... Para mim é isso. Eu entendo que a perda do paraíso é um momento no qual você vira uma pessoa, Nando, com os meus pais, o lugar em que eu nasci, com a idade e o corpo que eu tenho... Essa identidade. Eu acho que todos os mitos, de você encontrar o paraíso perdido, reencontrar, redenção e tudo o mais... Para mim é isso, você de novo se integrar, se liberar do Ego e fazer parte de uma coisa maior em que você está dentro dela. Tudo o que eu estou falando __________?

 

P/2 – _________

 

R – Eu falaria isso, que não acredite que não tem cura. Não é verdade. A gente pode tudo, com certeza. Não entregue o seu processo de cura para ninguém. Eu daria para ele ler o livro que, durante muito tempo, ficou na minha cabeceira e que li e reli várias vezes, A Doença como Caminho. Fala exatamente isso: a doença não é um entrave na sua vida. Ela é um parceiro teu que está te sinalizando: “Presta atenção, cara. Alguma coisa não está boa”, e aí você vai buscar. Se você acreditar que a sua vida é um processo de autoconhecimento, de crescimento, de cada dia você querer ser melhor do que no dia anterior – não melhor no sentido de correr mais rápido, mas no sentido de ser uma pessoa mais equilibrada –, a doença é um parceiro mesmo. Ela sinaliza.

 

P/1 – Ela te possibilita atenção nas coisas.

 

R – Te impõe uma série de coisas, que se você conseguir incorporar de um modo saudável, é um crescimento. Ela te propicia crescimento.

 

P/2 - Como é pensar no futuro, Nando?

 

R – É gozado isso, porque eu sempre... A Élida está falando: “Tem que, primeiro, ter filho”, porque eu já fico me vendo avô. Sempre me vejo velhinho, acho que eu vou ser um velho legal (risos) e que vou ser um avô legal. Eu sempre projeto essa coisa, me vejo velhinho e com netos antes de eu casar: “Imagine nossos netos!” “Você nem tem filho e tá imaginando neto?” Eu tenho isso.

 

P/1 – Filho dá muito trabalho (risos).

 

R – Neto já sai... Não é que eu fico bolando como é que vou ser, como é que vai chamar... Não é isso, só é uma coisa de fantasia. O que eu vejo é um futuro muito próximo em que eu fico vislumbrando os meus próximos espetáculos, o que eu quero fazer... Eu não tenho uma meta que eu quero atingir: “Quero ter cinquenta anos e ter conquistado isso, aquilo e aquele outro.” Não tenho muito isso. Tenho o meu próximo espetáculo que eu quero fazer, estou desenvolvendo meu trabalho de palhaço e o meu próximo desafio é aprender malabares, então estou com os limões lá em casa, fazendo malabares. São coisas meio...

 

P/1 – São mais do presente.

 

R – É até uma coisa que meu pai fica desesperado: “Nando, você não tem salário. Agora tem dos Doutores, mas não te garante... Você tem que fazer um plano de previdência.” Eu não tenho muito isso, com tudo de bom e tudo de ruim disso. Tem umas coisas que são ruins...

 

P/1 – Essa parte de salário e de ganho. Há pouco você falou que davam um cardápio pra escolher o tratamento de duzentos, de cinco mil reais... Você passou por essa experiência de valores de tratamento e disse que não tem salário, não se preocupa muito com __________. Como você administra a doença com isso?

 

R – Não é que eu não me preocupo, que eu sou um cara: “Não estou nem aí, a grana vai pintar.” Eu tenho um salário dos Doutores que não supre as minhas necessidades e as da Élida, mas é uma coisa fixa que, há um ano, eu não tinha. Sempre as coisas pintam, eu sou um cara otimista. Sou corintiano, se eu não fosse otimista eu mudava de time (risos). Eu acho que as coisas vão rolar, e o incrível é que rolam. Antes de eu entrar nos Doutores teve um dois anos da minha vida nos quais eu vivi só de salário de comercial. Isso é completamente absurdo, porque você não sabe quando você vai pegar publicidade; você faz teste, mas não sabe se vai pegar. Eu fiquei dois anos vivendo de publicidade, pegava dois num mês e depois, no outro, não pegava. No seguinte, pegava três... As coisas sempre rolaram. Eu fui otimista porque, também, eu fui um cara de sorte. As coisas sempre deram certo. Lembro-me que, quando eu estava na Europa, eu li uma coisa na orelha de um livro da Simone de Beauvoir, que falava: “Você tem que aprender a aguardar a simplicidade dos fatos.” Quando eu li isso, foi um... Ficou ecoando na minha cabeça muito tempo. A primeira memória que me veio quando eu li isso foi a época de prova. Você fica em casa uma semana antes da prova se descabelando, chega a prova e são cinquenta minutos. Às vezes você acaba a prova e fala: “Nossa, foi tão fácil. Eu passei uma semana sofrendo.” E primeira memória que me veio foi essa, só que depois você começa a ver que tem tantas coisas que você faz isso com sua vida, que... “Aguarde a simplicidade dos fatos, cara.” Criamos tanta ansiedade e expectativa em volta deles e, de repente, às vezes, eles chegam e são tão simples. Um pouco disso eu uso nessa coisa de projetar futuro: não dá para projetar futuro, é impossível. Eu posso morrer amanhã. Isso, às vezes, usado como discurso... Para mim, eu sinto que é muito verdade. Eu sou um cara otimista, acho que as coisas vão rolar e vão dar certo. Como, eu não sei, mas vão rolar. Acho que vai dar certo e que vou conseguir fazer os meus espetáculos, que eu vou... Eu fiquei seis anos morando com a Élida sem ter salário. Agora que eu tenho salário... Nunca passamos fome. Tudo bem que teve um ano que tive que pedir uma grana emprestada, mas eu pedi para um amigo... Eu tenho amigo, cara. Meu pai fica: “Ah, você tem que fazer o ‘prevê’ porque isso e isso...” Eu não tenho essa cultura de... Talvez porque eu tenho uma segurança de que eu tenho já o meu apartamento, diferente de meu pai, que foi um cara que começou sendo office boy. Eu o entendo, também: tenho uma estrutura que ele não teve. Eu posso fazer isso porque meu pai me deu meu apartamento; se ele não tivesse me dado, eu não poderia. Não é que eu sou bem legal e meu pai é um bobão, é que a minha vida me permite ser assim. Tenho o meu apartamento, ganhei do meu pai, não tive que trabalhar pra comprar ele. Foi uma necessidade meio básica, você ter sua casa... Hoje tenho. Isso permite que as minhas buscas sejam outras. Saí um pouco do campo do material. Meu sonho não é ter o carro do ano: é legal ter carro, eu gosto, mas não é o meu sonho. Meu sonho é aperfeiçoar meu trabalho de palhaço, me curar e ser, cada dia, um cara melhor, mais equilibrado, me conhecer... Claro que eu preciso de grana para sobreviver, mas não está na pauta do dia para mim. Não é o meu...

 

P/1 – É consequência.

 

R – Não é o ganhar que eu preciso. Se eu precisasse disso... Eu me formei em Economia na USP, fiz minha monografia com o José Roberto Mendonça de Barros, um cara que trabalhou no governo e tinha uma empresa de consultoria... Eu estava com o meu futuro lá. Hoje, com 33 anos, eu seria rico; mas seria um puta cara frustrado. Eu faço trabalho para empresa até hoje e, cada vez que eu entro nessa empresa, eu falo: “Ainda bem que eu saí disso.” Por causa desse meu jeito de pensar... Para quê? Os caras estão lá na Unilever. Eles me chamam para fazer uns trabalhos de assessoria de comunicação e eu falo: “Eu jamais conseguiria passar minha vida aqui. Para que é isso? Para o lucro da Unilever? Mudar minha vida para dar mais lucro para a empresa?” Eu não consigo, acho isso muito... Eu percebo que as pessoas que estão lá estão felizes, realizadas, curtem, porque tem todo um cotidiano, uma roda que vai girando e que vai te... Lá você tem um motivo. Os motivos vão pintando, mas como eu tenho essa mania de: “Tá, mas no fundo está o quê?” No fundo está o lucro da empresa. Não quero, cara. Mudar minha vida para aumentar o lucro da empresa? Não consigo. É uma coisa que, para mim, não... Eu tenho consciência de que eu preciso de dinheiro e tudo o mais, mas não é a pauta do dia. Também juntado a esse otimismo e à estrutura que tiro por meu pai ter sido um cara que ganhou dinheiro suficiente para poder me dar o carro, dar o apartamento... Eu tenho todos esses privilégios que meio por cento da população tem; mas o meio por cento que tem, às vezes, vai buscar outro caminho e querer ser mais rico ainda. O meu não é de ser mais rico – na verdade, eu não sou rico –, ter mais grana. Estou com as minhas necessidades básicas garantidas. Está ótimo. Eu quero outras coisas, quero ser um cara mais... Eu quero me aperfeiçoar cada vez mais. Quero me desenvolver como pessoa (risos).

 

P/1 – Nando, o que te trouxe aqui para você registrar esse depoimento? O que você esperava?

 

R – Eu recebi o e-mail da Morgana, e a primeira coisa que me veio na cabeça quando li “Memórias do Paciente” foi a minha experiência na Itália, naquele hospital. De cara, isso. Eu tinha consciência de que, para mim, o processo de cura depende do cara estar gerenciando seu próprio processo. Meu primeiro ímpeto foi esse: “Eu quero dar esse depoimento para contar o absurdo que é o sistema, como se opera o sistema de saúde, como rola na Itália e no Brasil... Não é o problema daqui, é uma questão de consciência.” Isso foi o primeiro, mas depois teve aquela coisa de que é gostoso falar da gente, somos meio egocêntricos (risos). Falei: “Os caras vão estar ligando a câmera e perguntando as coisas... Eu adoro falar da minha infância, isso que vai ser gostoso.”

 

P/1 – Você acha que deu o seu recado?

 

R - Eu acho que eu dei. O primeiro ímpeto foi esse: “Eu quero falar daquilo lá porque é falido, é errado. Eu estou vivendo outra experiência e eu gostaria de contar para as pessoas a outra experiência que eu estou vivendo, que acho que é muito mais saudável e produtiva do que a que o sistema de saúde oferece.” Quero dar essa contribuição e ajudar a mudar, dar o depoimento: “Bicho, não é por aí. De outro jeito as coisas funcionam muito melhores, isso aí está falido. Não significa que vamos jogar fora – como eu fiz, joguei fora e caí no palco –, vamos pegar o que tem de bom.” Esse foi o meu primeiro ímpeto e acho que me sinto satisfeito. O segundo foi: eu gosto de falar. Muito tempo fazendo terapia, começa a gostar de ficar falando... Eu curto. Eram essas duas coisas.

 

P/1 – Só uma coisa, por curiosidade... Fique à vontade de responder ou não. Essas cicatrizes que você tem na perna são decorrentes da doença?

 

R – Essa pergunta eu vou falar (risos). Essa aqui (gesto) foi jogando futebol de salão em 88, ainda não tinha esclerose. Essa outra daqui (gesto) foi ligamento, e essa aqui (gesto) foi menisco, em 92, jogando futebol também. Eu ainda estava jogando. Mal, mas estava. Eu acho que já foi uma coisa...

 

P/1 – Uma consequência?

 

R – É, porque foi uma torção mais besta do que essa daqui. Foi uma torcida, jogando bola, que eu já acho que tem a ver com a debilidade das pernas. Essa aqui (gesto) eu ainda não tinha esclerose, mas acho que tem a ver com toda a história, no geral. Não tinha os sintomas da esclerose. Acho que ela é a expressão do mesmo desequilíbrio que causou a esclerose, porque os dois joelhos meus eu machuquei. Coisa bem de base.

 

P/1 – A outra curiosidade é sobre sua companheira, sua esposa. Como ela te ajuda nesse processo todo?

 

R – Ela me ajuda muito porque me fez crescer, no sentido de que ela não me paparica. No começo, eu ficava: “Bicho, será que ela não vai me paparicar? (risos) Ela não vai ter pena de mim?” Ela não paparica e isso é muito bom. No primeiro momento, isso me causou uma frustração e umas discussões, tipo: “Estou melhor, sim.” “Ah, Nando...” De cobrar, de perguntar... Era uma coisa um pouco da minha casa, dos meus pais, que sempre foram muito protetores. Com o tempo foi ficando legal, porque eu fui sacando: “É muito legal isso, porque esse é o jeito mais saudável de encarar.” Claro, me dá suporte. Quando eu vou ao hospital tomar solu-medrol, pergunta: “Nando, quer que eu vá com você?” “Não.” Então não vai, não fica: “Não, eu vou”, porque meus pais: “Não, a gente vai...” Ela, não: “Você quer que eu vá?” “Não, vou levar um livro.” “Então não vou.” No primeiro dia em que ela falou... “Como não vai? Deixar-me ir sozinho para o hospital, que desumana.” Com meus pais, se eu falar assim, dizem: “Não, nós vamos de qualquer jeito.” Eu falei: “Estou indo, Élida.” “Tá, tchau.” “Pô, me deixou ir sozinho. Que desumana, que absurdo.” Com o tempo: “O que é que tem, cara?” Foi legal nesse sentido de dar um suporte, mas de falar: “Você está querendo carinho? Não é com a esclerose que vai conseguir, cara. Tenta outra, que por aí não vai rolar” (risos). Isso eu achei legal, é um aprendizado. Só para finalizar, é gozado que, quando eu estava com a esclerose – logo que apareceu –, a Berta, senhora que trabalhava lá em casa e que é quase como se fosse minha avó, falou: “Você vai falar para ela que você tem esclerose?” “Claro que vou.” “Ah, não. Eu tenho um conhecido que quando a mulher soube que ele tinha uma doença grave, separou.” Ficou toda preocupada. Nunca teve isso, de jeito nenhum... Nunca teve nada que, por ter esclerose... Foi uma coisa sempre muito...

 

P/1 – Era mais uma característica sua.

 

R – Numa boa... E até me ajuda, no sentido de falar: “Meu, não dá para você fazer?” Isso que eu falei de: “Ah, eu não posso fazer assim... Então eu vou ser um bêbado?” Ela sempre fala isso: “Oh, Nando. Você não consegue? Você não tem muito equilíbrio, e daí? Faz o trabalho no qual você use esse seu desequilíbrio para o teu trabalho.” Ela sempre dá um incentivo: “Usa a seu favor, não fica brigando contra. Aceita e usa a seu favor.”

 

P/1 – Você teria mais alguma coisa para registrar?

 

R – Não, acho que era isso.

 

P/2 – Tudo está bom?

 

R – (risos) Realmente.

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