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A escola pública

História de: Thiago costa
Autor: Thiago costa
Publicado em: 26/03/2017

Sinopse

Foi a mudança inusitada de escola que fez toda diferença em minha formação humana, política e social.

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História completa

Trago em minha memória a experiência e a vivência da escola pública. Meus pais sempre tentaram oferecer para eu e minha irmã a melhor formação possível. Minha mãe, uma funcionária pública da área judiciária, voltou a estudar na fase adulta para terminar o colégio, e no período, enfrentou uma tripla jornada, por isso, fazia questão de frisar o quão importante era não desistir da formação em hipótese alguma. Meu pai, um alfaiate de ofício, trabalhava na época no setor administrativo de uma empresa de transporte urbano e na juventude teve de interromper a graduação em direito.

Apesar da vida direcionada ao trabalho, manter dois filhos em escola particular nos anos noventa era uma tarefa desesperadora do ponto de vista financeiro para o trabalhador médio e após eu repetir a sexta série do ensino fundamental, o “castigo” que me foi imposto, foi à transferência para uma escola da rede pública, o que resultou num alívio financeiro tremendo para os meus pais, já que minha irmã, cinco anos mais velha, cursava o ensino médio em escola pública.

No quesito relação humana, a mudança foi fundamental em minha vida, pois, apesar de já possuir contato com os garotos do bairro através do futebol, ocorreu a aproximação natural da convivência diária na escola. Consegui ter dimensão da tensão social do bairro em alguns aspectos. Pude notar o quanto a alimentação oferecida pela escola era primordial para boa parte dos colegas, em alguns casos, a única do dia. Por vezes, alguns alunos preferiam almoçar no pátio, e pelo vão do portão, dividiam o almoço com os irmãos mais novos.

A violência que assolou a periferia paulistana na década de noventa, também se mostrava presente de várias formas dentro da escola. Mas o que mais marcou foram as mortes de alunos resultado da violência policial e relacionadas ao tráfico de drogas. A nova realidade impunha a normalização da ausência. Hoje eu vejo como era estarrecedora a chegada à escola na segunda feira e ter a notícia que morreu um, dois ou três pessoas no bairro, e entre as vítimas algum aluno.

Por outro lado, tive um professor de história incrível, Heleno. Ele fazia questão de apresentar o conceito histórico dos conflitos sociais. Através de pequenos gestos - corrigia a expressão típica paulistana de chamar o próximo de baianinho e dizia o quanto de preconceito ela carregava – mostrava outra dimensão das relações para nós, das fronteiras entre o bullyng e o preconceito, violência policial e o pensamento social do Brasileiro sobre uma ótica totalmente oposta à que eu tive acesso no colégio particular. A partir daí, reconsiderei a noção de identidade, tive contato com os movimentos sociais e tive uma formação humana mais completa. Descobri o meu lado.

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