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História

A FEBEM pelo ponto de vista do funcionário

História de: Maurício Pedrette Júnior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Em seu relato, Maurício Pedrette Junior faz um desabafo sobre seu período de trabalho na FEBEM, relembra casos marcantes pelo seu ponto de vista como funcionário, desde uma rebelião até sua saída do trabalho e como o medo era recorrente no cotidiano dos funcionários.

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História completa

P/1 – Bom dia. Por favor, eu gostaria que você dissesse o seu nome, o local e a data de seu nascimento?

 

R – Bom dia, meu nome é Maurício Pedretti Júnior, eu sou nascido em São Paulo, nasci no dia 19 de julho de 1980.

 

P/1 – Aonde?

 

R – São Paulo, na Zona Leste mesmo.

 

P/1 – Desculpe, de que ano?

 

R – 1980.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é Maurício Pedretti e da minha mãe é Sandra Aparecida Pedretti.

 

P/1 – E dos seus avós?

 

R – Benedito Pedretti e Antônia Guerreiro Sales.

 

P/1 – E qual era a atividade profissional dos seus pais?

 

R – Ah, meus pais eles começaram... Meu pai, né, começou com uma fábrica de sapatos, ele era empregado numa fábrica de sapatos e a minha mãe sempre foi do lar e já fez artesanatos, coisas assim, dentro de casa. Depois meu pai saiu da fábrica de sapato e virou autônomo, montou uma lanchonete e agora atualmente ele está na construção civil.

 

P/1 – E dos seus avós, qual era a atividade?

 

R – Eu acredito que era agricultura, meu avô trabalhava com construção civil também, mas no começo da vida dele foi mais agricultura.

 

P/1 – Mas eles vieram de onde? Eles não eram de São Paulo?

 

R – Não eles eram do interior, eles eram de Catanduva.

 

P/1 - Você sabe qual a origem do nome da família?

 

R – É italiana, por parte do meu bisavô, é italiana e por parte da minha avó é espanhola.

 

P/1 – E você sabe de que região da Itália que eles vêm?

 

R – Não, eu acredito que seja de Gênova, apesar de que a minha avó é a única de quem a gente obtém um pouco de informação, ela fala que eles eram Toscanos do Norte da região Toscana, mas também eu não sei se é verídico.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho duas irmãs, uma se chama Raquel Cristina Pedretti e a outra Bárbara Antônia Pedretti.

 

P/1 – Descreve para mim a rua e o bairro que você morava, quando você era criança? Onde você morava?

 

R – Eu moro na mesma rua ainda, só que antigamente não existiam tantas casas, não existiam tantos prédios, não existia o metrô.

 

P/1 – Que bairro que é?

 

R – Vila Matilde.

 

P/1 – Não existia o metrô?

 

R – Não existia o metrô, existia só a linha do trem e agora é mais, como é que eu posso dizer? Era um bairro mais simples onde tinha mais pessoas de baixa renda, hoje em dia já está mais diferenciado por ser bem próximo ao metrô então já tem outros tipos de casas à renda do bairro aumentou é uma classe média mais para alta do que para baixa.

 

P/1 – E como é que é? Naquela época era muito difícil chegar ao centro de São Paulo, o acesso a essas coisas ficava mais difícil?

 

R – É porque pelo menos da época que eu lembro o metrô chegava até o Tatuapé, se não me engano, chegava até o Belém e depois foi até o Tatuapé, então a gente tinha que se locomover de ônibus até o Tatuapé e de lá pegar o metrô para o centro.

 

P/1 – Opção de lazer tinha lá?

 

R – Não, não era mais aqueles campinhos de terra mesmo de barro que a gente brincava eram os riozinhos, laguinhos que se formavam com a água da chuva era coisas desse tipo mesmo.

 

P/1 - E aí o que vocês faziam nesses riozinhos?

 

R - A gente... Eu lembro de uma vez com meu pai, a gente pegava aquela rede de construção mesmo, aquela redonda e a gente ia ao laguinho assim e pegava aqueles peixinhos bem pequenininhos isso há uns dezoito anos mais ou menos.

 

P/1 – Mas você pegava o peixinho e fazia o quê?

 

R – A gente levava para casa colocava num saquinho com água até que morria e a gente não tinha aquário não tinha nada, então era só por pegar mesmo.

 

P/1 – E descreve então para mim quais eram as suas brincadeiras favoritas?

 

R – Eram bolas, bolinha de gude, pião.

 

P/1 – Vocês tinham televisão?

 

R – Tínhamos.

 

P/1 – Mas vocês não...

 

R – Não.

 

P/1 – E descreve a casa da sua infância, como é que era?

 

R – Era uma casa simples, era uma casa mais baixa do que a rua e tinha um poço dentro de casa, aqueles poços artesanais de água mesmo, então a gente usava mais aquela água, existia a água encanada, mas a gente não usufruía muito, era mais a água do poço mesmo usava para desde lavar roupa até para o quintal, para os cachorros.

 

P/1 – Você falou que tinha um riozinho e tinha problema de enchente também?

 

R – Não, porque a minha casa era mais baixa do que a rua, mas tinha um declive na rua, né, então o riozinho se formava depois da linha do trem, ficava uma parte mais baixa assim e a minha casa ficava um pouco mais no alto. Era uma casa simples e a gente morava com toda a família, né?

 

P/1 – E quem era toda a família?

 

R – A minha família? Meus pais, minhas irmãs, moravam meus tios com as respectivas famílias. E depois aos poucos foram saindo e foi ficando só a gente, porque a casa em si era do meu pai, ele tinha comprado da minha avó e do meu avô. Mas aí meu avô faleceu e a minha avó pegou esse dinheiro e foi para... Não vou dizer interior, mas foi mais para Zona Leste, foi para São Miguel, Suzano ela ficou nas proximidades dessas áreas assim.

 

P/1 – E morava todo mundo junto? Como é que era? Tinha muita criança?

 

R – Não, eram cômodos e a gente ficava em dois cômodos, a família do meu tio ficava em mais dois e a outra ficava na frente com mais dois e aí cada um que ia saindo a gente ia pegando um cômodo e depois com o tempo a gente foi crescendo, meu foi trabalhando, aos poucos construindo até que depois que saiu todo mundo, a gente já estava trabalhando, foi ajudando e fazendo uma casa para gente. A gente mora tudo no mesmo lugar até hoje, só que já tem uma casa para minha irmã e tem uma casa para minha outra irmã, uma casa para mim junto com os meus pais, mudou completamente do que era antes.

 

P/1 – Mas como assim? Continuou todo mundo morando lá, mudaram as pessoas, mas ainda é todo mundo junto?

 

R – Agora é só a minha família e antigamente era a família do meu pai agora é só a nossa mesmo.

 

P/1 – E como é que era um domingo lá? Todo mundo cozinhava junto? Era....

 

R – Não era bem individual, por ser família, mas tinha muito atrito entre as famílias, então se morava junto, mas não convivia junto, era cada um no seu cômodo de cozinha à parte.

 

P/2 – Você devia ter primos então nessa época?

 

R – Tinha. Mas os primos que eu tinha eram mais velhos do que eu e eu ainda sou o caçula da minha própria família, então eu peguei muito pouco dos primos, na época que eu comecei a entender as coisas, eu já não brincava muito com eles, eu já ia para a rua e era com amigos, colegas. Com eles mesmo eu não tive muito contato.

 

P/2 – E na rua como que era? Os seus amigos todos eram da rua? Tinha muita convivência?

 

R – Isso. Muita convivência na rua, vizinhos, nas outras ruas a gente andava pelos lugares e aí eram essas brincadeiras, era bola, bolinha de gude, porque era barro, era muito chão de terra, não tinha asfalto ainda, então o que a gente se divertia mais era isso mesmo.

 

P/1 – E você estudou Maurício?

 

R – Estudei.

 

P/1 – E quando foi que você iniciou?

 

R – Eu comecei no pré, não vou lembrar a data agora, mas foi...

 

P/1 – Onde era?

 

R – Próximo a minha casa na Escola Municipal João Pinheiro, eu comecei acho que em oitenta e cinco.

 

P/1 – E o que você lembra do seu período escolar?

 

R – Ah, foi um período de aprendizado, aprendi muita coisa.

 

P/1 – Mas assim como é que é? Você se lembra do seu primeiro dia de aula?

 

R – Lembro. Era aquele shortinho vermelho, aquela camisetinha branca, aquela mochila vermelha de pôr nas costas disso eu lembro ainda.

 

P/1 – Você lembra?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Você chorou?

 

R – Ah não lembro, acho que no primeiro dia eu chorei sim, mas depois... Na escola eu ficava muito quieto, em casa eu era muito arteiro, mas na escola eu ficava meio reprimido, meio quieto.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Não sei acho que era um pouco de receio, de vergonha dos outros, era um monte de crianças, então acho que eu ficava meio preso assim, meio...

 

P/1 – Você lembra da sua primeira professora?

 

R – Não, dela não.

 

P/1 – Você lembra de algum professor?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Qual?

 

R – Teve uma professora, inclusive que tinha um filho dela que estudava junto comigo, então é a que eu lembro mais, porque eu convivia mais com ele, então ficava muito com ela, né? A gente convivia mais com ela e teve uma época que ela saiu da escola aí nós ficamos meio tristes, chateados e nos dois anos seguintes ela voltou. Aí foi para a gente que conhecia ela... Só que ela não dava mais aula para mim já dava para outra turma, mas a gente passava na sala dela, falava com ela só que aí o contato diminuiu bastante.

 

P/1 – E o filho dela você continuou sendo amigo?

 

R – Continuei, porque no tempo que ela saiu da escola ele também saiu e aí quando ele voltou já foi para outra série, não na mesma sala que eu, a gente conversava, mas os amigos já eram outros, né? Então a gente conversava e tal, mas não tinha um contato, tinha diminuído bastante.

 

P/1 – Quem te levava para a escola? A sua mãe?

 

R – Minha mãe.

 

P/1 – E na tua adolescência você tinha um grupo de amigos? Quem eles eram? Eram os mesmos da infância?

 

R – Não com o tempo foi mudando, porque eu saí dessa escola, fiz até a oitava série e depois eu fui para o meu segundo grau, eu fui fazer uma escola técnica no Aprígio que era na Penha no caso do outro lado do metrô.

 

P/1 – Técnico em quê?

 

R – Em desenhos de projetos de mecânica, inclusive eu pensei que era uma coisa e acabou sendo outra aí eu não terminei e eu fiz até o segundo ano e parei. Mas os amigos foram outros, né? Eu comecei a conviver com outros amigos, conhecer novas pessoas e foi modificando aos poucos.

 

P/1 – E como é que você costumava se divertir com os seus amigos? Como é que era?

 

R – A gente às vezes ia para um barzinho que tinha música ao vivo, tocava samba, era mais samba mesmo, pagode, então a gente se reunia ali na sexta feira ia ao Shopping, no Shopping Penha mesmo. A gente ia para o Shopping e ficava ali ou simplesmente não entrava na escola e ficava do lado de fora conversando, namorando.

 

P/2 – Então o divertimento era sempre na Zona Leste?

 

R – Isso, era sempre ali, só depois quando a gente montou um grupo de samba mesmo aí a gente saiu mais, né? Mais era ali, o foco mesmo era a Zona Leste.

 

P/2 – Como assim montou um grupo de samba?

 

R – A gente montou um grupo de samba, né?

 

P/2 – Você tocava?

 

R – Tocava, a gente tocava em barzinho.

 

P/2 – E o que você tocava?

 

R – Tocava percussão, eu tocava percussão e aí a gente foi se juntando, um tocava instrumento de corda, um tocava percussão, então a gente foi...

 

P/1 – Mas era samba ou era pagode?

 

R – Eram os dois, mas a gente gostava mais de samba mesmo, pagodinho a gente não gostava muito não.

 

P/2 – Mas aí quais eram os sucessos da época que vocês mais tocavam?

 

R – Era mais o Zeca Pagodinho, o Fundo de Quintal a gente gostava mais desses, não gostava de Katinguelê, a gente preferia mais samba de raiz que a gente falava. Durante uns três quatro anos, mais ou menos, foi assim, era quinta, sexta, sábado e domingo, a gente vivia mais isso.

 

P/2 – Mas vocês chegaram a viver disso? Ganhar algum dinheiro?

 

R – A gente chegou a ganhar algum dinheiro, mas não era o suficiente, porque a gente gastava comprando instrumento, arrumando uma coisa ali, condução. Eu lembro que o melhor que a gente fez, que a gente pode falar que teve mais ênfase, foi um show que a gente fez numa coisa que eu ia trabalhar futuramente foi lá no SOS Criança que foi no natal, aí tinham os adolescentes lá e a gente estava tocando no palco, desceu helicóptero com Papai Noel e tal, mas filmou a gente um pouco assim, mas nada muito assim...

 

P/1 – E como é que vocês se vestiam? Tinha uma roupa especial, esse grupo?

 

R – Ah essa época era época de skate, então eram roupas mais largas, eram uns camisões, bonés virados para traz, era bem largado mesmo, né?

 

P/1 – Sei. E como é que era... Essas pessoas que montaram o grupo eram seus vizinhos ou eram da escola?

 

R – Não, era tudo do outro lado, não era nenhum vizinho meu e nem da escola, porque eu morava na Vila Matilde, então na Vila Matilde já tinha um grupinho de samba, eu não tocava com eles, eu tocava com o pessoal da Penha, não era nem o pessoal da escola, porque o pessoal da escola era de lugares diversos, tinha o pessoal de São Miguel, do Tatuapé, então ali mesmo da Penha eu não conhecia ninguém e eu aos poucos indo por ali em barzinhos, em lava rápido que antigamente tinha que era onde... Era parte do reservado do lava rápido tinha o barzinho do lava rápido, então ali durante o dia funcionava como lava rápido e à noite se fazia o samba e se reunia, juntava as mesas lá e a gente ficava tocando lá. Então foi ali que eu comecei a conhecer o pessoal da Penha e a gente resolveu montar um grupo dali mesmo do outro lado.

 

P/2 – E como é que eram as paqueras?

 

R – Ah, as paqueras eram normais acho, a gente tocava então... Quando não tocava era de uma forma a gente tinha que ficar conversando, ficar dando voltas nos lugares para estar paquerando, mas quando a gente estava tocando, entre aspas, era mais fácil, né? A gente já ficava sentado e o pessoal ficava nos vendo tocar, então quando saía dali as próprias pessoas já vinham conversar com a gente, então a gente ficava paquerando sentado, tocando, né?

 

P/2 – E esse gosto pela música samba de raiz, isso veio de onde? Da tua casa?

 

R – Veio de casa, porque meus pais, meus primos sempre gostaram disso, então eu cresci ouvindo samba, vendo o meu pai tocar, minha família tocando, né?

 

P/1 – O teu pai toca?

 

R – É, antigamente ele tocava mais, agora ele está mais tranquilo, ele tocava percussão também, era mais percussão de escola de samba porque no final da nossa rua para cima tinha uma escola de samba que era o Foliões do Tadeu bem antiga, então ele fazia parte, em casa a gente guardava os instrumentos e a gente ficava brincando, fazendo barulho e a gente foi crescendo ouvindo desde um disco, um vinil até tocar mesmo uma percussão.

 

P/1 – E você teve aula de música ou só aprendeu com ele?

 

R – Não, eu só aprendi de ouvido, tocando, vendo os outros tocarem e depois quando eu já estava com o grupo eu tentei, como é que posso dizer? Eu tentei aperfeiçoar, me aprimorar tocando, mas mais vendo os outros tocarem mesmo chegava um dava um toque nisso, naquilo ia muito à Contemporânea que tinha lá na Estação da Luz aí já vi os Demônios da Garoa tocando, já vi muita gente tocando ali, então a gente aprendia olhando, perguntava como é que faz isso, como é que faz aquilo? Não tinha muita vergonha de perguntar não.

 

P/2 – E essa escola do final da rua, como eram os carnavais nessa época?

 

R – A época de carnaval eles descia para o Largo do Peixe, antigo Largo do Peixe e eles saiam desfilando na rua como se fosse um bloco carnavalesco mesmo, eu não lembro se eles chegaram a ir para a Rua Tiradentes eu não lembro, eu era muito pequeno nessa época.

 

P/2 – E você frequentava? Você e a família?

 

R – Meu pai frequentava, eu não, porque acho que era muito pequeno, né? Mas ele frequentava, ele meus tios frequentavam.

 

P/1 – Mas depois você cresceu, você lembra alguma coisa da Nenê de Vila Matilde?

 

R – Lembro, eu saí lá durante dez anos.

 

P/1 – Saiu lá durante dez anos?

 

R – Dez anos. Saí primeiro na ala, porque meu primo tem uma ala lá e depois saí na bateria, porque eu não gostava da ala eu gostava mais de tocar mesmo aí eu saí na bateria durante acho que na bateria eu fiquei uns oito anos mais ou menos. Aí entrei num trabalho e a bateria foi ficando de lado, a própria escola eu acabei deixando de lado, porque eu já não tinha mais ambiente para mim.

 

P/1 – Mas como assim não tinha mais ambiente para você?

 

R – É, porque na escola de samba uma coisa que eu gostava era a união de culturas, né? Existia desde o mais rico ao mais pobre, do mais novo ao mais velho, então tinha pessoas de todos os gêneros e de todas as classes, então devido ao meu serviço eu comecei a me distanciar, porque tinha muitas pessoas do crime, da criminalidade, então eu acabei deixando, porque não tinha como eu conviver muito, por estar na bateria tinha que estar ensaiando toda semana, na bateria você toca, as pessoas te vêem e eu do lado de dentro da bateria não podia ver todo mundo, então de certa forma eu corria um risco.

 

P/1 – Então me conta uma coisa, que trabalho é esse que você está falando?

 

R – O trabalho da FEBEM, eu trabalhava na FEBEM de São Paulo, já trabalhei no Tatuapé, já trabalhei na Vila Maria.

 

P/1 – Então me conta. Vamos voltar a isso um pouquinho, você entrou na FEBEM e então você teve que largar a escola por causa do seu trabalho na FEBEM?

 

R – É foi uma escolha minha, né?

 

P/1 – Conta isso para gente?

 

R – Foi o seguinte na FEBEM funciona... A gente trabalha com adolescentes criminosos, então eles estão lá numa sanção disciplinar a sala judicialmente é essa, então quando esses adolescentes eles são de São Paulo todo até do interior...

 

P/1 – Mas nem todos são criminosos? Você está falando dos adolescentes... Explica melhor?

 

R - Os adolescentes da minha unidade que estavam junto comigo com o qual eu trabalhava, na época eu trabalhava com uns cento e cinquenta mais ou menos. Então conforme os adolescentes vão saindo da unidade vão chegando outros e esses que vão saindo em liberdade um é da Zona Leste e outro é da Zona Sul, então tem lugares que antigamente eu frequentava que eu não podia frequentar por causa desses adolescentes, não por como é que eu posso dizer? Não por briga comigo, porque era diferente os adolescentes dos funcionários, tinha uma... Ali a gente era obrigado a trabalhar junto, mas fora não tinha essa parte de companheirismo não existia...

 

P/2 – Voltando um pouco como você foi trabalhar lá? Por que você decidiu...

 

R – Então o meu primeiro serviço eu trabalhei de office boy, meu pai no começo tinha uma lanchonete e então desde os oito anos, mais ou menos, eu ficava com ele nessa lanchonete, era um barzinho bem simples, um boteco mesmo aí daí eu comecei... Ia para o centro e comecei um trabalho de office boy. Aí fiquei uns quatro anos com isso, saí de uma empresa de Advocacia e depois fui para uma ótica, mas continuei sendo boy.

 

P/2 – Quantos anos você tinha?

 

R – Eu tinha nessa época de boy quando eu comecei uns quatorze anos, mais ou menos, e saí com uns dezessete quase dezoito, inclusive fui até mandado embora, porque estava entrando na fase do Exército. Aí eu peguei esse dinheiro que eu tinha e montei uma lanchonete para mim na frente da minha casa, meu pai já tinha construído um salão aí montei uma lanchonete para mim, só que eu já estava namorando né, fiquei noivo aí falei: não posso casar, porque uma lanchonete não tem como você ter uma renda fixa, né? Você não sabe o dia que você quer fazer cem, você faz mil e o dia que você tem que fazer mil, você faz cem é muito vago, então não tinha como eu fazer uma prestação, ter certeza que eu ia quitar alguma dívida, eu não tinha assistência médica era uma coisa muito... Então eu falei não dá para constituir uma família na dúvida do meu salário, eu falei é melhor prestar um concurso, arrumar um emprego fixo que me dê esse conforto, aí eu fiz o concurso, passei e na época que eu fiz o concurso, minhas duas irmãs já trabalhavam na Febem...

 

P/1 – Elas já trabalhavam lá?

 

R – Sim e entraram por intermédio de concurso também. Uma entrou uns dois anos antes e a outra entrou uns três antes, então eu via em casa também por elas, sabia que tinha assistência, sabia que tinha vale transporte, então eu falei é um emprego mais estável para mim e era o que eu estava procurando no momento. Então fiz o concurso, passei e comecei a trabalhar aí deixei a lanchonete e fui trabalhar para o Estado.

 

P/2 – Mas aí você chegou lá na FEBEM e qual foi a sua impressão inicial? O que você achou? Você entrou lá...

 

R – É, eu já tinha uma base em casa porque minhas irmãs falavam e então eu já tinha uma base. Quando eu entrei na FEBEM, acho que era Bela Cintra que antigamente era a sede e a gente ficou dois dias lá ouvindo o pessoal falando que a FEBEM era isso, que a FEBEM era aquilo, que era adolescente que era isso, que era aquilo e quando a gente chegou na prática viu que era completamente diferente, porque o que foi passado para gente foi uma coisa que não existia.

 

P/1 – O que falaram?

 

R – Falaram tudo que eram adolescentes que tinham cometido diversos crimes desde roubar uma bicicleta que eu já peguei na unidade isso, até latrocínio que é roubo seguido de morte. Então existia de tudo que era para a gente trabalhar com eles, era para a gente se entreter com eles desde uma bola, um jogo até uma saída que era um vôlei, um futebol de campo, piscina esses tipos de coisa. Era como o nosso material de trabalho fosse se entreter com eles, porque a gente ia ser na época monitor, então a gente ia monitorar, organizar tanto na hora de comer quanto na hora de ir para a escola ou fazer curso que era o nosso trabalho.

 

P/1 – Isso foi o que falaram e aí?

 

R – Aí quando eu entrei peguei uma crítica ali no Tatuapé e essa unidade que eu entrei não estava desse jeito, porque eles falaram para mim de forma geral da FEBEM só que a FEBEM não existe uma unidade só existe várias, então cada unidade é diferente da outra, entendeu? Então no Tatuapé, por exemplo, tem mais de quinze unidades, você entra em uma ela está de um jeito e você entra na outra ela está de outro jeito. Os adolescentes, entre aspas, são os mesmos, mas dependendo de cada direção de cada grupo funcional a casa anda de tal forma, então essa casa que eu entrei, entre aspas, a gente fala era uma casa bagunçada, não tinha disciplina, estava tudo liberado. Então não tinha hora de tomar café, não tinha hora de ir para a escola, não tinha hora de fazer curso, não tinha nada e quando a gente chegou a gente chegou perdido, porque os funcionários da casa eram bem poucos, então a gente chegou meio perdido sem saber o que a gente ia fazer e o que não ia fazer.

 

P/1 – Não tinha ninguém para dizer?

 

R – Não tinha. O diretor chegou para a gente e disse assim: “oh esse aqui é o pavilhão A esse aqui é o pavilhão B a metade vai para lá e a outra metade vai para cá e boa sorte” abriu a porta e mandou a gente entrar e trabalhar, né? Só que uns, porque na época a gente entrou em trinta e quatro e para essa unidade que eu fui trabalhar vieram treze comigo e comigo quatorze, então a gente dividiu e no meio desses quatorze tinha uns que eram mais... Convivia mais na rua tinha certo conhecimento do que acontecia lá, do que a gente ouvia falar na rua, então foi aí onde a gente se uniu, sei lá já que não tem ninguém para ensinar a gente vamos aos poucos a gente acabou se unindo até junto com os próprios adolescentes e perguntamos: “Aí mano como é que faz como faz isso? Que hora que tem para tomar banho? Que hora tem que tomar café“ a gente foi dando continuidade.

 

P/2 – Mas aí você disse que esses adolescentes já eram... Que tipo de adolescentes estavam na unidade que você foi?

 

R – A unidade que eu fui era grave gravíssima, porque tem assim o leve que é o nível um, eles dividem por níveis é o nível um, nível dois, três quatro e o nível cinco. Essa unidade que eu estava era nível quatro e cinco, porque o nível quatro e o nível cinco são de adolescentes desde assalto a latrocínio, homicídio, que era a unidade grave. O circuito grave e no circuito leve médio era mais lá para cima que era do outro lado do complexo que eram as outras unidades lá para cima porque antigamente eles dividiam nível um e dois numa unidade, três e quatro em outra unidade e quatro e cinco em outra. Tinha os reincidentes que eram reincidentes graves que era os que já tinha passado e estavam voltando em outro BO em outra situação aí nesse caso em outras unidades especificas, mas eram umas do lado da outra pelo menos esse circuito grave era uma do lado da outra.

 

P/2 – Então conta... O que você via? Você disse que via muitas coisas e que as pessoas sabiam o que acontecia, mas o que acontecia?

 

R – Nessa parte que eu falei que a gente, mais ou menos, sabia é porque assim a gente foi criado num bairro pobre, então a gente via de tudo, a gente via desde uma simples briga até um dando um tiro no outro...

 

P/2 – Lá dentro?

 

R – Não, isso fora, na minha infância. A gente viu esse tipo de coisa, então é o que a gente falava para eles eu não sou rico, mas também não sou pobre se você fala que é humilde, eu também sou humilde. Então as coisas que vocês viviam na sua adolescência na qual você está justificando o ato que você fez, o ato infracional que você fez, eu também vivi e estou aqui do outro lado, estou na outra situação, estou do outro lado como funcionário, então eles viam a gente como policial que estavam querendo oprimir eles no caso não via a gente do lado deles e no começo a gente entrou com essa intenção, né? Era mais como monitor de escola, era mais para ajudar a arrumar uma fila, na hora do almoço ajudar na hora da merenda na hora do recreio e organizar ali alguma coisa e tal...

 

P/2 – Era isso que você esperava?

 

R – Era isso que eu esperava, porque a própria palavra já falava você vai ser monitor e foi isso que foi passado para gente com os dois dias de curso, né? Lá na Bela Cintra, mas quando eu cheguei à FEBEM eu vi que era completamente diferente que já não tinha essa visão por eles e nem pelos funcionários antigos a gente chegou meio vendido na situação, a gente não sabia o que ia acontecer eu mais ou menos sabia, por fala das minhas irmãs, mas mesmo assim eu já esperava outra coisa. “Ah, isso deve ser na unidade delas na minha deve ser outra coisa” e na verdade não foi, foi a mesma coisa, mas isso por um lado em ajudou bastante, porque eu já tinha uma base, eu já tinha alguns conselhos, algumas coisas de fazer de não fazer.

 

P/1 – O que não podia fazer?

 

R – Lá é assim, lá o que vale é a sua palavra e a sua atitude, se algum momento a sua atitude não for de acordo com eles você não serve, se algum momento você não agiu como era, não honrou a sua palavra para eles também não serve.

 

P/1 – Quem são eles?

 

R – Os adolescentes, né? Então desde postura... Para gente nem tanto, mas para as senhoras, para as mulheres desde postura de soltar até o modo de falar ou modo de agir lá tudo voga tanto para eles e depois a gente aprendeu que é para gente também, a gente foi obrigado a prender dessa forma.

 

P/1 – O quê? Como é que é? Dá um exemplo?

 

R – Os adolescentes eles são presos na rua. A polícia prende, nisso eles vão para uma unidade que é a UAI Unidade de Acolhimento Inicial, dessa UAI eles vão para a UIP que é Unidade de Internação Provisória, depois dessa UIP que eles são julgados e condenados aí eles vão para a UI que é a Unidade de Internação. E nessa UI eles podem ficar desde seis meses a três anos. Então quando eles chegam para gente a gente recepciona “Oh, prazer meu nome é Maurício, qual é seu nome qual é o seu BO de onde você é? De onde você vem? Quais são suas intenções?” a gente mostrava a unidade como é que a unidade funcionava “Olha aqui, você vai fazer curso disso, curso daquilo” tem uma escola. A gente fazia um levantamento de qual a escolaridade dele, qual série ele parou, fazia de tudo isso, depois a gente o colocava num quarto,  depois de um dois dias ele descia para o pátio, descia para o convívio e essa era uma norma da unidade que primeiro ele ficava no quarto até mesmo para conhecer os plantões, porque tinha o pessoal que trabalhava de dia, tinha o pessoal que trabalhava a noite, então ele tinha que passar por todos os plantões para a gente conhecer ele para depois ele descer para o convívio deles, entre os demais adolescentes. Isso era uma rotina da casa e depois quando ele já estivesse no convívio ele ia vender o curso que ele ia fazer a escola e tudo mais e a gente ficava ali junto com eles. A gente que ajudava eles a tomarem café para depois ir para o curso, depois almoço, escola, o lanche da tarde, o lanche da noite.

 

P/2 – Essas coisas funcionavam bem? Esses cursos, essas escolas, como é que eram?

 

R – Em determinados tempos sim, na época que eu cheguei não, porque a casa era meio bagunçada. Depois mudou de direção, mudou os coordenadores que já nos explicaram o jeito que eles queriam, o jeito que eles achavam que melhor funcionavam, a gente foi obrigada a acatar e aí nessa época funcionava. Aí tinha hora para despertar, tinha hora para tomar o café, tinha hora para ir para a escola e aí funcionava melhor, foi a melhor época que eu passei, porque tinha mais desinternação o rodízio entre eles era maior, porque o Juiz ele falava assim: “O adolescente que não faz nada, que não faz curso, que não estuda, como é que eu vou soltar ele?” então na parte que a gente trabalhava que a direção da casa trabalhava era essa. Na minha unidade tinha mais de dez cursos desde tapeçaria até panificação, porque panificação para eles era uma bonificação, porque eles mesmos cozinhavam e ingeriam o que eles tinham feito, que era desde torta, que era coisa que não vinha no dia a dia na comida deles, entendeu? Então era uma bonificação, era para os mais educados, para os mais sossegados que a gente falava que não dava tanto problema e que tinham mais um tempo de casa que eram os mais velhos.

 

P/1 – Que tipo de problema você teve lá? Quando você fala que teve vários problemas?

 

R – Os problemas eram diversos desde uma simples briga até um matar o outro.

 

P/1 – Você chegou a ver isso?

 

R – Não, não cheguei a ver o fato consumado, mas a tentativa eu já vi, já presenciei, né? Era muita coisa, brigas, discussões aí chegava um adolescente novo que eles tinham briga na rua, ele tinha que ir para outra unidade, existia os seguros que eram os adolescentes que tinham problema na própria unidade, eram coisas assim.

 

P/1 – O seguro eram eles ficarem numa sala separada?

 

R - Eles ficavam em quartos separados, mas no começo quando eu cheguei esses seguros ficavam na frente e eles não podiam entrar na unidade, porque a casa não tinha disciplina e quando mudou a direção a gente foi lá reuniu eles conversamos que a partir daquele momento esses adolescentes iam entrar e iam agir da mesma forma que ele e iam ter os mesmos benefícios, ter os cursos, escola e antigamente não tinha, eles ficavam lá na frente separados e não tinha acesso a nada, porque se fosse para escola ia encontrar os outros, se fosse para o curso iam encontrar os outros e quando eles se encontravam tinha que separar, porque era feio.

 

P/1 – Me conta uma coisa, vamos dar uma paradinha na FEBEM, porque eu quero saber como foi que você conheceu a sua esposa?

 

R – Minha esposa eu conheci ela na Nenê, conheci na Nenê eu fui lá no ensaio,  comecei a ir nos ensaios e por intermédio da minha prima que conhecia ela, porque a Flávia, a minha esposa ela saia na ala da minha prima e eu não conhecia aí comecei a frequentar escola e conheci ela, conheci a família dela o pai dela o Flávio e o Moacir, a gente começou a se conhecer, a paquerar, no primeiro ano a gente começou a namorar e depois terminamos depois do carnaval nós terminamos, porque não íamos nos ver mais, no outro ano a gente namorou de novo, ficou de novo e ficou assim até ficar de uma vez.

 

P/1 – E foram quantos carnavais?

 

R – Dois carnavais, mais ou menos, dois ou três carnavais.

 

P/1 – E vocês acabavam sempre depois dos carnavais?

 

R – Isso.

 

P/1 – E quantos anos você tinha?

 

R – Eu tinha... Quando eu casei, eu casei com dezoito anos.

 

P/1 – E com quantos anos você a conheceu?

 

R – Eu conheci com quatorze anos.

 

P/1 – Você começou a namorar com ela com quatorze anos?

 

R – Quatorze, eu namorei um ano, depois no outro ano eu namorei com ela de novo aí no ultimo dia de carnaval que a gente ia combinar se ia se ver novamente ou... Eu tive um acidente, quebrei o braço, me machuquei e aí não fui no ultimo dia aí a gente não teve como conversar. Foi o ano que ela voltou em abril, a gente se reencontrou, a gente começou a namorar de novo e aí foi definitivo. Fiquei um ano e meio namorando com ela, depois a gente brigou e separou, ficamos oito meses separados, depois a gente voltou de novo aí já voltamos para ficar e namoramos, noivamos, casamos tudo em um ano. Um ano namorando, um ano noivado e um ano casado foi à época que eu estava na lanchonete ainda, foi à época que eu estava na lanchonete e ela trabalhava comigo, ela me ajudava, porque éramos só nós dois trabalhando. Aí a gente “Vamos casar?”. “Vamos”. E aí eu falei aqui não dá mais para a gente ficar, né? Fui procurar outro emprego, fui procurar concurso, aí fiz um concurso em Guarulhos e passei, mas as vagas que tinham eram muito limitadas, eu não fui chamado. Fui prestando concurso, fiz esse da FEBEM e passei.

 

P/2 – O que você achava do trabalho na Febem?

 

R – Ah eu achava um trabalho legal, era estressante, não era um trabalho braçal que você cansava fisicamente, era mais mentalmente, porque você ouvia coisas que você ficava indignado. Você dizia: “Não acredito que certas pessoas fazem determinadas coisas” então a gente ouvia e nossa que “Como é que você fez isso? Por que você fez isso?”. A gente ouvia de tudo desde a infância carente, até a família ser do crime mesmo, ele não ter escolha e se inserir também. Então a gente ouvia de tudo, a gente via muita coisa e isso foi com o tempo foi mudando a nossa visão, quando a gente chegou era uma e depois de uns seis meses foi outra que a gente já tinha uma mínima experiência.

 

P/2 – E qual foi a sua visão de seis meses depois?

 

R – É, com cinco meses mudou a direção, então aquela casa, entre aspas, bagunçada depois foi uma casa com mais disciplina, né? Com uma diretriz melhor, então eu falei o jeito melhor de trabalhar é esse, né, que tem hora para tudo o respeito era mútuo, era melhor que antigamente não existia, no começo quando eu entrei não existia.

 

P/2 – E agora o que você acha?

 

R – Agora no final mudou bastante, piorou bastante.

 

P/2 – E o que aconteceu?

 

R – Porque novamente mudou a direção, então é assim na FEBEM funciona dessa forma vem desde o Presidente que é uma coisa política até chegar na gente que é... Então em um ano o Geraldo Alckmin Governador da época, porque antigamente era o Covas, né? Então ele pegou e... Por ter uma ajuda de um determinado partido ele tinha que dar um cargo a tal partido, então eles davam a FEBEM que é a Fundação do Bem Estar do Menor, essa pessoa que chegava ela chegava com uma visão, então ele ia passando até chegar na gente “Eu quero assim” e a gente trabalhava da forma que ele queria. Depois mudava de novo, seis meses um ano mudou de novo a direção, aí a gente era obrigado a trabalhar da forma que aquela pessoa queria, só que para gente na prática não existia assim, não podia ser assim, porque não tinha como eu falar para o adolescente, aí organiza a fila hoje e amanhã falar para ele faz do jeito que você achar que tem que fazer.

 

P/2 – Mas foi isso que eles fizeram?

 

R – Foi isso que aconteceu, porque era assim mudava um Presidente aí vinha mudando abaixo dele que eram os encarregados, os diretores aí até chegar no Diretor da divisão e o Diretor da divisão é o Diretor do complexo. Tinha o complexo Tatuapé, o complexo da Vila Maria, complexo Raposo, complexo Franco, então tinha esse diretor de divisão aí tinha o diretor de unidade que respondia a esse diretor de divisão e abaixo desse diretor de divisão vinham os encarregados, os coordenadores e a gente. Tinha a parte de Pedagogia, a parte de escola tinha essas partes, mas a parte que trabalhava ali e que tinha um contato direto era a gente que eram os monitores, então quando ia mudando chagava no diretor de divisão que mudava também ele já mudava o diretor de unidade e colocava outro. O que existia na FEBEM era muito cargo de confiança, era os que indicava, eu sou diretor de divisão, então eu tenho o poder de tirar quem eu queria e colocar quem eu queria independente se sabia sobre o trabalho ou não, então sempre foi dessa forma. Eu sou diretor de divisão, então eu vou colocar ali na direção daquela casa, vou colocar uma amiga minha um parente independente se ela sabe ao que está acontecendo, mas eu vou colocar ela para ela ganhar o dinheiro dela, então nunca foi levado em consideração os próprios adolescentes e a gente como a base funcional, nunca foi levado em consideração. E a gente era obrigado a agir como eles queriam.

 

P/2 – Você chegou a passar por alguma rebelião?

 

R – Cheguei. Já passei.

 

P/2 – Estava no seu horário?

 

R – Não, eu não estava de plantão não. No começo logo que eu entrei, eu entrei no Tatuapé e no Tatuapé mesmo na minha unidade eu nunca passei por uma rebelião, mas do lado já tiveram vários, né? E em dias que eu estava de folga também, mas já na Vila Maria já aconteceu comigo e a gente foi enquadrado, enquadrado que a gente fala é que os adolescentes fazem facas artesanais desde uma escova de dente até uma barra de ferro, eles fazem e ainda afiam no chão, na parede e fica uma verdadeira navalha, né? Então eles vieram para cima da gente e levou a gente para o banheiro com a faca em punho “Oh, o senhor vai para lá senão eu vou te furar, vou te cortar”. E eu: “Calma, calma, vamos ver o que está acontecendo”. A gente tentando remediar a situação, mas não teve jeito aí levou a gente para um determinado espaço, uns dez quinze moleques, mais ou menos, ficaram fazendo a nossa escolta, os demais subiram para o telhado e aí já começaram a botar fogo no colchão a quebrar a unidade inteira, né? Isso a gente ficava ali...

 

P/1 – E foi nessa rebelião que deu aquela coisa da tortura?

 

R – Foi. Não foi na minha unidade, foi na unidade do lado, porque é assim nessa unidade do lado mudou a direção... Há pouco tempo na FEBEM existia a URD que era a Unidade de Regime Diferenciado que era para adolescentes maiores, adolescentes com uma criminalidade superior aos demais, então a gente chamava grave e gravíssimo e mais de maior, porque é assim até no ECA no Estatuto da Criança e do Adolescente fala que abaixo dos dezoito anos é considerado adolescente e acima disso ele é considerado maior só que quando ele vai preso na FEBEM se amanhã ele vai fazer dezoito anos e hoje ele é preso ele ainda é menor, então ele pode ficar até três anos na FEBEM e ele só vai sair com vinte e um anos, entendeu? Então para a FEBEM eles iam tirar esses adolescentes, colocar numa determinada unidade e fazer esse regime diferenciado, porque se ele cometer qualquer delito lá dentro é pego esse adolescente, é feito um BO e da própria delegacia ele vai para um CDP, já não volta para a FEBEM, só que aí vai lá para cima, vai passar na mão de Juiz, na mão de audiência e esse Juiz determina ele a voltar, porque o primeiro delito dele foi menor de idade, foi como adolescente e esse resto da internação dele é na FEBEM, só que nessa ele já passou um mês, dois meses num CDP com os de maiores e quando ele volta, volta completamente diferente, não que a FEBEM seja diferente, entendeu? Um adolescente que entra lá roubando uma bicicleta, passa seis meses lá, quando ele sai, ele sai diferente, ele sai com uma nova ideologia, uma nova cabeça, ele sai meio transformado.

 

P/1 – Para roubar mais?

 

R – É, para roubar mais, isso depende da unidade que ele estava, se é uma unidade que mostra para ele caminhos alternativos, caminhos diferentes talvez ele saia dali com uma nova ideologia. Mas numa casa que não tem nada disso, que a gente falava que a mente vazia era a oficina do diabo, porque eles ficavam parados não tinha escola, não tinha curso, não tinha nada, então eles ficavam só parados pensando em coisas ruim para fazer.

 

P/2 – Deixa eu te perguntar uma coisa que me ocorreu agora, você lembra o dia de visita como era?

 

R – Dia de visita era o dia mais calmo, né? Então era o dia mais calmo por causa da própria visita e nessa unidade que eu estava a visita era no domingo, então um pavilhão era de manhã e o outro era à tarde. A unidade inteira fica em silêncio em respeito à própria visita e um pavilhão ficava em silêncio em respeito a outro e na parte da tarde esse pavilhão que tinha visita de manhã fazia o mesmo, mas acabava a visita às cinco horas da tarde, as coisas voltavam da mesma forma eram brigas e tudo mais.

 

P/2 – Como é que terminou essa história que vocês foram enquadrados e aí?

 

R – É nesse dia... Esse acontecido ocorreu depois dessa denúncia de tortura, porque essa unidade que teve a tortura mudou o diretor. Então os adolescentes se formaram no pátio que a gente fala, sentaram formaram as filas lá e o diretor se apresentou junto com o corpo funcional falando que a partir daquele momento ia ter disciplina na casa, disciplina na qual ia ter horário de jantar, horário de escola ia ter regras a cumprir, ia ter direitos e deveres dos mesmos.

 

P/1 – Você estava lá?

 

R – Não, eu não estava lá nessa época, eu estava no Tatuapé ainda, foi assim, os adolescentes não quiseram aceitar então eles iam dar início a uma rebelião, eles já saíram da formação, já subiram para os quartos, porque antigamente não tinha controle de nada, a galeria era aberta os quartos eram abertos, então eles subiam e desciam a hora que queriam.

 

P/1 – E agora?

 

R – Continua. Em algumas unidades ainda existiam isso, agora não existe mais no Tatuapé não existe, na Vila Maria não existe em Franco, eu conheço a estrutura das casas, mas nunca trabalhei, já fui lá visitar, mas nunca... Então nesse dia teve um conflito, teve um confronto entre os adolescentes e os funcionários. Primeiro teve a invasão do choque, o choque foi lá tentou remediar e os adolescentes pulavam da janela assim...

 

P/2 – O que fazia o choque?

 

R – É a contenção. Não é o choque mesmo da Polícia Militar, o choquinho é um grupo que existe na Febem que são agentes de segurança específico para aquela função que é de contenção.

 

P/2 – Não era a de vocês?

 

R – Não, a gente era... Primeiro era monitor depois a nomenclatura mudou que era Agente de Proteção e agora no finalzinho era Agente de Apoio Técnico.

 

P/2 – Existe o NIB?

 

R – Isso, NIB eram os homens de preto que existe ainda também, mas eram muitos grupos e que na verdade nenhum deles funcionava, era mais uma forma de mostrar a população que a gente está montando um grupo que está determinado a uma função só que na prática a gente sabia que não funcionava, né? Porque a população vê a FEBEM de uma determinada forma, eu quando não trabalhava na Febem mesmo com as minhas irmãs falando para mim eu não acreditava, eu só passei acreditar depois que eu comecei a ver na prática como funcionava e as coisas que aconteciam.

 

P/2 – Qual a diferença do que a população vê que você vê?

 

R – Porque a população ela se baseia muito na mídia, no que falam para ela, né? A mídia passa uma coisa completamente distorcida, passa muitas inverdades, porque eu como Presidente da FEBEM não vou querer que a mídia venha denegrir a minha imagem, eu quero passar que tem determinado problema, mas que eu estou arrumando só que esse de estar arrumando nunca existia, entendeu? Esse de a gente está tomando providência, a funcionária que está sendo acusada de tortura a gente vai tirar, determinado funcionário e não tirava. Essa denúncia de tortura na verdade existia, mas que não era comprovada às vezes não era nem verdadeira, entendeu? O adolescente por não gostar de você fazia o que não queria, falava o que ele queria e as pessoas levavam para frente, mas ninguém vinha e perguntava para você “O que foi que aconteceu? Realmente aconteceu? O que está acontecendo”. Via a estrutura da unidade como é que estava o convívio, então ninguém perguntava nada simplesmente chegavam, ouviam e iam embora, entendeu? A gente tinha uma fala que era assim “A palavra do adolescente é mais forte do que a nossa” porque tudo que eles falam logo existe alguém que leva para frente que dê ouvido e a gente falava e ficava em vão, ficava em branco. Então a gente não tinha esse respaldo, entre aspas, não tinha uma determinada defesa, porque a gente mesmo respondia pela gente, né? A gente era chamado na sede numa corregedoria, numa sindicância aí sim perguntavam para gente o que estava acontecendo, mas já estava numa sindicância, entendeu? Perigando você ser mandado embora por justa causa, perder seu emprego, mas aí você já chegava ali meio apavorado, entendeu? Então era complicado a gente...

 

P/1 – Você chegou a ir?

 

R – Cheguei. Cheguei a ir para responder fuga, para responder rebelião, inclusive essa última que teve a fuga de cento e seis que foi o dia que a gente foi enquadrado, né? Que foi assim uma unidade... O ruim da FEBEM é a estrutura, uma unidade é do lado da outra, então elas conversam entre elas, quando tem, entre aspas, uma disciplina, não existe essas conversas, mas quando não têm eles sobem no telhado e a gente não tem o poder de falar: “Oh, adolescente desce daí você pode se machucar se você cair daí” então a gente não tem esse poder.

 

P/1 – Não tem?

 

R – Não tem, porque eles descem ou não precisam nem descer outros mesmos pegam uma faca e perguntam “O que o senhor está querendo? O mano vai ali vai trocar uma idéia, vai conversar” então funciona dessa maneira, entendeu? E quando a casa existe, entre aspas, uma disciplina ele já nem sobe, entendeu? Porque a gente dava sanções que era desde um curso, de um determinado curso você quer fazer curso de quê? De panificação? Não vai fazer, porque você não está apto para fazer esse curso o seu comportamento é inadequado, você não acata as normas de convivência da casa às vezes você não ia para o campo, porque dia de sábado a gente ia para o campo fora da unidade, tinha campo e ia para piscina na época de calor. Tinha skate, basquete, vôlei tinha várias coisas fora da unidade, vários eventos fora da unidade. Tinha o Canta FEBEM que era grupo de... Tinha diversas coisas coral, teatro, apresentação de teatro que ia até no Memorial da América Latina, sempre existiu isso na FEBEM, então já que você não está se adequando a tais normas da unidade, você não vai. Tinha uns que “Vou respeitar agora mais para poder fazer” e tinha os que “Eu não quero saber disso não, para mim tanto faz se eu for jogar bola, se não for”. Dentro da unidade existia uma quadra que a gente chama de pátio, ali praticamente eles ficavam jogando bola, então tinha determinadas coisas que para eles não seria como sanção, eles nem ligavam e continuavam. Nessa unidade que eu estava que teve esse confronto esse dia, que teve o confronto os funcionários e os adolescentes com faca, a gente chama de narfa que são as facas afiadas, as barras de ferro tudo que você pode imaginar e os funcionários com escudo que é dos homens de preto que é do choquinho que é dos agentes de segurança também entraram para o confronto para tentar trancar esses adolescentes em determinados quartos para poder normalizar a situação, mas aí teve um confronto, funcionário machucado e funcionário agrediu adolescente e adolescente agrediu funcionário. Só que acontece o que? A pessoa que denunciou é da Associação Amar que é Associação da Mãe de Adolescentes Infratores, então é o que a gente fala dos maus funcionários, algum funcionário entrou em contato com ela e ela tem uma linha direta com o Presidente e falou que existiu esse início de rebelião, existiu esse confronto para ele ir à unidade averiguar. Quando ele chegou à unidade já tinha mudado o plantão, os funcionários que estavam lá eram os funcionários da noite, os funcionários do dia já tinham ido embora, então...

 

P/1 – Você era de qual?

 

R – Eu era da noite.

 

P/1 – Você não sabia de nada então?

 

R – Não sabia de nada. Então eu ainda não trabalhava nessa unidade, eu estava me apresentando na unidade, eu era do Tatuapé e foi uma determinação da presidência para eu me apresentar na Vila Maria. Então esse fato aconteceu um dia antes de me apresentar,  nesse mesmo dia que eu me apresentei a noite o pessoal já chegou com Oficial de Justiça, com o pessoal do GOE e com todo mundo.

 

P/1 – Para vocês?

 

R – Não, não para gente, para o pessoal da outra unidade, porque existiu um confronto e eu estava na Adoniran Barbosa que é a quarenta e esse fato aconteceu na quarenta e um, então eles já chegaram prendendo, perguntando, tirando foto dos moleques, não existia só moleque machucado existia funcionário machucado também, só que isso não mostrou, então essa parte que eu falo que distorce um pouco a imagem, mostrou os adolescentes machucados, mas não mostrou os funcionários machucados, entendeu? Aí falam os funcionários agrediram os adolescentes, mas não mostram que os adolescentes agrediram os funcionários também. Quando mostra, mostra que os funcionários agrediram primeiro e os adolescentes agrediram depois.

 

P/2 – E não é assim?

 

R – Não, não é assim, porque a gente... Uma fala que a gente dizia para eles, a gente não vem aqui para bater em ninguém, a gente não vem aqui para ficar agredindo ninguém, a gente não vem aqui para ficar humilhando ninguém.

 

P/2 – Mas Maurício tudo bem, mas nem todo mundo... Você não conhece todo mundo? Você não sabe...

 

R – Claro. Eu conhecia as pessoas que trabalhavam comigo e já vi muitos casos acontecer comigo de eu pedir para o adolescente fazer determinada coisa e ele não querer fazer, se negou a fazer, eu falei: “Tudo bem você não quer fazer, você não vai fazer, você vai ficar de castigo” que a gente falava que era de tranca, ele subia para o quarto e ficava no quarto, eles tinham as refeições deles normais, descia para o curso e só nas horas vagas ele não ficava no pátio.

 

P/2 – Trancava ele também?

 

R – Isso trancava no quarto. Era um quarto grande, então ele ficava no quarto, tinha a cama dele tinha tudo só que aí o que ele fez? Ele catava o braço assim, mordia o braço, chupava o braço, aí ficavam aqueles roxos aqueles hematomas na pele, no outro dia de manhã ele desceu na enfermaria e falou que eu tinha batido nele, que eu tinha agredido ele, entendeu? Só que quando aconteciam essas coisas o que a gente fazia? A gente pegava o adolescente levava na coordenação passava a situação para o coordenador e falava o adolescente se negou a fazer isso, a fazer aquilo, que era faxina era uma obrigação deles, era um dever deles “Não, não vou fazer” aí expliquei a situação para o coordenador e ele relatou no livro, que tinha o livro de ocorrências, né? Todo dia é feito isso e eu não lembro agora se ele chegou a passar na enfermaria, eu acredito que não, mas o próprio coordenador viu que não tinha marca e que não tinha nada, que não tinha havido a agressão. E no outro dia de manhã a gente tem que passar o plantão para o pessoal do dia e o pessoal do dia passa para gente a noite passar o plantão que a gente fala é falar as ocorrências que teve “Tal adolescente brigou com tal adolescente” a gente viu uma determinada situação suspeita ali dentro vê o que é, então a gente acaba um informando o outro e nesse dia de manhã antes de ir embora...

 

P/2 – Então Maurício você disse que tinha feito uma ocorrência que um adolescente não respeitou você, não fez o que você pediu e que ele se mordeu, se autoflagelou então continua?

 

R – Então, esse moleque denunciou que eu tinha agredido ele, foram averiguar, aí pegaram o livro da unidade de ocorrências e viram que junto com o depoimento, o circunstanciado que a gente fala no próprio relatório, nosso feito por nós mesmos de próprio punho dizendo os fatos ocorridos, a gente foi obrigado a fazer e mandar para frente que a gente fala é mandar para a sede a Corregedoria, explicando a situação que o adolescente não estava querendo assimilar as normas de convivência e tal, que não estava acatando as ordens e que ele estava dando testa de rebelião, querendo dominar a unidade, querendo bagunçar, querendo fazer uma série de coisas e que na verdade não tinha acontecido nada disso, mas aí isso foi provado e tal tranquilo, mas só o simples fato de você ir lá, já vai na sua ficha que você foi responder uma sindicância interna, entendeu? Isso futuramente é ruim é desagradável, porque você sai de uma unidade e vai para outra lá ele tem acesso, o diretor da unidade tem acesso a Corregedoria ele fala: “Puxa, mas você está aqui como espancador, como torturador” ele não sabe o que estava acontecendo no dia, ele não estava presente. Então ele não sabe se é verdade ou se é mentira, então ele te julga pelo que ele acha. Claro que se ele autorizar você a trabalhar com ele e com determinado tempo ele vai ver a sua atitude qual é, sua forma de trabalhar, mas às vezes a impressão ele não deixa você...

 

P/1 – Você foi transferido da Vila Maria por causa disso?

 

R – Fui. Eu trabalhei no Tatuapé três anos, na mesma unidade três anos e um mês no Tatuapé. Quando mudou esse Diretor que não é uma cara compatível com a FEBEM, então esse cara chegou, se apresentou para os funcionários minha maneira de trabalhar é assim e eu quero que vocês façam assim, entendeu? Que não é o que a gente fala assim não tenho adjetivos para falar dele, entendeu? É um cara complicado de trabalhar.

 

P/1 – O que ele queria fazer?

 

R – Ele é muito liberal, não gosta de casa de disciplina, esse cara na verdade ele é homossexual, ele já trabalhou na unidade em épocas passadas e na unidade dele era uma casa completamente problemática, então porque ele não tinha um pulso deixava as coisas rolarem, os funcionários dele desde os coordenadores até os funcionários, na minha opinião ele não tinha perfil para trabalhar, então quando ele assumiu a casa eu falei: com esse cara não dá para trabalhar, porque eu já vi o exemplo.

 

P/1 – Você o conhecia?

 

R - Conhecia-o. Então esse cara não dá para trabalhar. Falei para mim não dá para trabalhar, foi que a casa já estava diminuindo com a disciplina e estava indo para uma parte mais liberal, porque assim antes desse novo diretor chegar teve uma nova mudança de diretor uns três meses atrás. Esse Diretor que veio, já veio diferente do que a gente era acostumado, a ideologia de trabalho dele era outra já era um pouco mais liberal. Só que é assim, quando os adolescentes estão numa casa que tem disciplina eles passam a forma de trabalhar na unidade, muda o perfil da unidade muda, então eles já começam a agir de outra forma, então coisas que antigamente eles não faziam agora eles passam a fazer, entendeu? Tipo assim eles estavam acostumados a ter hora para tudo, a ter os horários, ter aquela disciplina e quando mudou o Diretor isso acabou mudando, enfraqueceu, então, por favor, o pessoal que é do segundo ano, antigamente eles vinham se formavam e iam para a escola, mas já quando mudou a direção aí um ou outro já não vinham.

 

P/1 – Por que ele não vinha?

 

R – Porque já não era obrigatório.

 

P/1 – E eles sabiam que não era obrigatório?

 

R – Sabiam.

 

P/1 – E como eles sabiam?

 

R – Porque o Diretor falou para eles, não era obrigatório... Eles falavam assim funcionário não vão obrigar vocês a irem e vocês não são obrigados a irem, vocês vão se quiserem. As palavras até não podiam ser estas fica a critério de vocês, vocês sabem que precisam estudar, mas já está querendo dizer que vocês vão se quiserem, entendeu? Ele não falava com essas próprias palavras, mas era o que ele queria dizer. Então na verdade acontece isso cada diretor que entra, entra com uma ideologia nova, com uma visão nova e ele quer que a unidade ande do jeito dele, então uns funcionários acatam e outros não, uns acreditam na maneira dele trabalhar e outros não. Eu não acreditei, então como a gente tinha o conhecimento de que eles estavam remanejando o pessoal para trabalhar na Vila Maria e um dos Diretores da Vila Maria me conhecia. Ele já tinha trabalhado comigo como meu coordenador e ele sabia a minha maneira de trabalhar, a minha postura no pátio, então ele falou vem trabalhar comigo, aí ele mandou para a Presidência e a Presidência mandou um comunicado para mim. Eu fui me apresentei e um dia antes aconteceu essa situação na Vila Maria, então quando eu cheguei à Vila Maria eu cheguei numa época muito crítica, já estava muito agitado. Então a época que eu cheguei à Vila Maria foi uma época que ia começar o URDD Unidade Disciplinar de Regime Diferenciado, então isso não foi impulso, porque aconteceu essa situação e então eles brecaram esse novo regime, então voltou ao que era uma bagunça total, entendeu?

 

P/2 – Deixa eu te perguntar voltando a AMAR como é que você viu o papel da AMAR na FEBEM?

 

R – De princípio negativo, agora depois de praticamente um mês os Presidentes estão tentando fazer junto com a Associação da AMAR uma forma de trabalhar, um novo perfil de trabalho que é inserindo algumas mães em determinadas unidades e tal para acalmar os adolescentes, só que isso na verdade não é um trabalho delas, entendeu? Não que seja trabalho meu, da gente dos funcionários, mas não é uma função... Sei lá, eu posso até estar enganado, mas o adolescente quando vai preso ele está ali cumprindo uma determinação do Juiz que é uma privação de direitos. O direito de ir e vir, mas todos os outros direitos ele tem que é de estudar, de alimentação e tudo mais ele só perde esse direito de ir e vir. Então ele está ali cumprindo uma sanção disciplinar devido a um ato infracional que ele fez, então ele recebe visita uma vez por semana, entendeu? Se esse adolescente recebe visita segunda, quarta, sexta e domingo ele fica só três dias sem visita...

 

P/2 – Mas elas vão trabalhar elas não vão visitar?

 

R – Esse trabalho que elas fazem é mais para conversar é como se fosse como é que eu posso dizer da função?

 

P/2 – Como se fosse um apoio Psicológico?

 

R – Isso. Como se fosse um apoio psicológico, mais para orientar às vezes aquela orientação que faltou em casa como o adolescente está preso ali não tem o direito de sair dali é mais fácil ela passar essa orientação só que isso para a mídia, porque para gente que trabalha no pátio só essa ida de determinadas mães nas unidades já inibe os adolescentes de fazer determinadas coisas que eles faziam quando as mães não estavam e tem, eu garanto para vocês, que tem adolescentes lá que não quer que a mãe vá, porque a mãe indo ele se inibe de fazer as coisas que ele fazia.

 

P/2 – Então no fim das contas o trabalho é positivo?

 

R – Agora esse mês é um trabalho positivo.

 

P/2 – Mas por que você achava que antes não era?

 

R – Porque elas não tinham acesso dentro da unidade, elas não tinham acesso e essa Associação eu como pai o que o meu filho falar para mim eu acredito, então só que eu... O meu filho pode falar para mim o que ele quiser e eu vou acreditar nele só que eu não sei se é verdade ou se é mentira. Então eu vou dar sequência no que ele falou para mim só que eu não sei se é verdade e lá na frente depois que eu vou ver o resultado já foi, o funcionário já está lá respondendo, entendeu? Uma situação toda já aconteceu...

 

P/2 – Então agora eles vão se conter mais?

 

R – Vão se conter mais, é mais não pelo simples fato delas estarem lá, mas os dias que elas não tiverem volta ao normal de novo e isso é até uma fala que já foi falado lá.

 

P/1 – É uma fachada?

 

R – É uma fachada, o próprio Presidente é uma fachada dele, porque é o seguinte a rebelião está acontecendo todo dia igual aparece na mídia todo dia, só que quando não aparecia a gente convivia com as mesmas rebeliões todos os dias, entendeu? Só que não mostrava na mídia às vezes eles mesmos não deixavam filmar, entendeu? Porque você veja numa determinada emissora de televisão falam-se certas coisas e na outra fala completamente diferente, ele dá uma versão dele numa determinada emissora só que na outra emissora ele não comparece, entendeu? Fica complicado, é muito vago as coisas para a gente que está convivendo, a gente sabe o que ele está falando de mentira e a gente sabe o que ele está falando de verdade também só que para vocês, para a população aqui fora vocês não tem como diferenciar isso é a mesma coisa dos pais, das mães para os filhos não sabem como... “Meu filho está apanhando na Febem” “Meu filho está lá há um ano e pouco, seis meses e ele está só apanhando” e não é dessa forma que funciona, entendeu? É complicado.

 

P/2 – Eu queria que você falasse, porque você falou, falou da Febem de como as coisas acontecem, mas eu queria que você falasse o que ficou para você da FEBEM?

 

R – Para mim o que ficou da FEBEM é o seguinte: que a FEBEM dependendo tinha que existir um plano melhor de estruturação desde a estrutura da unidade, porque é uma colada com a outra e devia ser unidades separadas o nível dos adolescentes devia ser diferente, que lá está junto o adolescente que roubou uma bicicleta e adolescente que fez um latrocínio e está junto, entendeu? A idade em minha opinião, a idade criminal tinha que baixar a criminalidade, tinha que passar de dezoito anos para dezesseis, na minha opinião, se pudesse abaixar para mais também ainda era melhor e que a forma de trabalhar na FEBEM tem que ser muito revisada, muito... Quanto aos funcionários tinham que ser mais aptos fazer cursos, entendeu? AFEBEM sem disciplina ela não funciona, não tem como uma psicóloga trabalhar, não tem como uma própria mãe trabalhar numa unidade sendo que a outra do lado está tendo rebelião.

 

P/2 – Mas qual foi o efeito desse trabalho na sua vida? Como é que isso te transformou?

 

R – Bom, fora a FEBEM na minha vida particular numa certa parte me ajudou, porque foi emprego, foi uma experiência de vida para mim, me ajudou muito me fortaleceu muito...

 

P/1 – Mas você teve que parar de participar da escola de samba?

 

R – Porque é assim a Febem, quando os adolescentes estão lá eles estão de um jeito, lá dentro eles são de jeito e fora eles são de outro. Então eles não gostam de você independente se você fez alguma coisa para eles ou se você nunca fez nada. Você é funcionário, você é inimigo deles tem uns que são assim, vamos dizer uns vinte por cento tratam você como amigo “Oh, senhor quando a gente se encontrar na rua a gente vai dar risada das coisas que a gente passou aqui” só que oitenta por cento não vêem dessa forma. Então tem determinados lugares que eu não posso ir, porque eu sei que vou encontrar algum adolescente que passou comigo, na escola de samba eu vou encontrar, num sambinha eu vou encontrar, entendeu? Às vezes no shopping, no cinema na rua quando eu estou fazendo compras.

 

P/1 – E aí quando eles te encontram o que acontece?

 

R – Eu encontrei um que me recebeu bem “Ô, senhor tudo bem? Satisfação em te ver, como é que está o pessoal lá?” “O pessoal está bem e tal e você como é que está?” “Eu estou na mesma vida” quer dizer não mudou a vida dele. A cabeça dele era uma, o pensamento dele comigo era um, mas ele não mudou a maneira dele agir “Oh, senhor eu estou olhando umas motos aqui” ele quis dizer para mim que ia roubar uma moto daqui a pouco e eu falei: “Mano, juízo você saiu da FEBEM você já é maior se você fizer isso e a polícia pegar você vai ficar aí três, quatro ou cinco anos preso e você acha que uma moto vai te ajudar em alguma coisa? Você acha que você roubando uma moto você vai ajudar a sua família? Só que se você for preso sua família vai ter que gastar dinheiro para te ver, vai ter que gastar dinheiro para levar uma comida para você, então é melhor você arrumar um emprego e levar menos dinheiro para casa do que você fazer isso”. “Ah senhor sabe como é que é, ne, senhor” eu falei: “Ah, você é quem sabe o meu conselho eu já te dei, tanto aqui fora como lá dentro e agora é você quem sabe o que fazer”.

 

P/2 – Mas você achou que entrar para a FEBEM não te endureceu?

 

R – Eu achei que a FEBEM para ele não adiantou de nada.

 

P/2 – Não eu estou falando para você mesmo? Você parou de frequentar o samba...

 

R – Me privou de muitas coisas, porque a minha vida social, entre aspas, acabou, porque têm lugares que antigamente eu ia que eu não posso ir eu tenho que estar em lugares que são mais sociáveis, entendeu? Eu tenho que agir de uma forma que eu não sou, igual o salário que eu ganho na Febem não é um salário alto, as minhas condições de vida não são altas, então eu não posso ir a determinados lugares, porque eu não posso bancar aquilo ali. Eu tenho que ir a determinados lugares que eu posso viver, antigamente eu ganhava quinhentos reais eu podia ir a todos os lugares eu ia para um lugar mais barato mais simples, vivia a minha vida e eu era feliz. Agora eu também não tenho dinheiro par ir a um determinado lugar, ah eu vou numa choperia lá em Pinheiros e tal eu não tenho dinheiro para isso, eu posso ter dinheiro para ir uma vez só, o resto do mês eu não saio, porque eu sei se de repente eu for em Pinheiros a classe social é um pouco mais alta, então eu não vou encontrar alguns adolescentes, mesmo assim eu corro o risco de encontrar, mas é mais difícil do que eu ir lá na Cidade Tiradentes, numa festinha de criança dentro de casa uma amiga, eu vou lá só a trajetória que eu faço para chegar até a casa dessa pessoa eu já vou encontrar diversos, entendeu? Então eu já não posso ir. O meu trabalho que nem agora eu saí da FEBEM e para eu arrumar um trabalho agora, eu tenho que ver o trabalho que eu arrumo, porque eu não posso voltar à vida que eu tinha antes, montar uma lanchonete e ficar parado esperando o publico vir consumir as coisas, porque eu parado eu sou um alvo fácil de certa forma, eu sou um alvo fácil, então se um adolescente passar na rua e me ver parado no balcão ele pode ir embora amanhã, ele volta de outra forma e fala: “É o senhor trabalhava na FEBEM” pode chegar me cumprimentar “Vamos tomar uma cerveja ou um refrigerante” ou ele pode vir me assaltar me matar, eu minha família, entendeu? E a gente já sofreu esse tipo da ameaça, a gente sabe que isso acontece. No ano passado no final de novembro para dezembro foi conhecido pela gente que mataram seis funcionários e isso não passou na televisão, entendeu? O caso mais grave igual chegou o rapaz que estava na pizzaria, lá na praia comendo pizza com a mulher dele e os adolescentes passaram lá do outro lado da rua e viram ele, aí eles passaram, tinha, acho que era uma média de uns quatro ou cinco e eles pegaram pedra, pau eles voltaram e mataram o cara de tanta paulada e deixaram a mulher dele com traumatismo craniano, a mulher dele nunca trabalhou na FEBEM só por estar junto com o marido que trabalhava...

 

P/1 – Mas com você já aconteceu alguma coisa assim?

 

R – Não eu já encontrei, mas eles me trataram bem.

 

P/1 – Já te ameaçaram?

 

R – Já me ameaçaram muito na FEBEM se eu encontrar o senhor lá fora eu vou matar, vou matar a sua família, vou fazer isso, vou fazer aquilo.

 

P/1 – E como é que é com a tua esposa? Em algum momento ela falou saia dessa vida, ela ficou com medo?

 

R – Várias vezes principalmente agora no final. Pinta muita rebelião, porque lá a gente... É aquela fala a gente vai trabalhar e não sabe se vai voltar, porque lá dentro... Quando a casa tem disciplina os adolescentes ficam em determinado espaço eles não sobem para o quarto. Quando eles vão para a sala de aula você vai junto e quando a casa não tem está uma bagunça, eles vão para onde eles quiserem, então não tem como você e dez funcionários, meia dúzia, eu falo dez funcionários eu estou sendo otimista, porque quando a gente trabalhava com cento e cinquenta a gente trabalhava em quatro, entendeu? Então não tem como a gente... O adolescente vai para o quarto e não tem como um funcionário ver o que essa meia dúzia está fazendo, então a gente ficava onde tinha aquele foco maior e os demais estavam afiando facas, entendeu? Estavam batendo em outro adolescente, estavam estuprando outro adolescente e isso a gente já presenciou.

 

P/1 – E vocês tentam impedir?

 

R – A gente tenta impedir para, para, para a gente tenta separar, mas o fato já aconteceu, entendeu? O fato já aconteceu, agora lá na Vila Maria teve um acontecimento lá que eles tiveram uma briga entre eles na minha unidade, tiveram uma briga entre eles e eles pegaram o adolescente quebraram ele todinho bateram a cabeça dele na parede...

 

P/1 – Você estava lá na hora?

 

R – Estava.

 

P/1 – Você presenciou isso acontecendo?

 

R – Não, eu não vi acontecendo, eu vi o depois.

 

P/1 – Você viu o quê?

 

R – Porque e assim na Vila Maria a estrutura da casa é o pátio em baixo e os quartos em cima...

 

P/1 – Não, eu quero que você me conte agora para terminar essa coisa da FEBEM, qual foi a coisa mais grave que você viveu? A gente entendeu como funciona, conta isso eu acho que a gente também vai finalizar isso e eu quero te fazer uma ultima pergunta, mas eu quero que você me fale o que de bom você tirou da FEBEM? Se teve alguma coisa o que foi? E o que foi de mais grave que te aconteceu? Essas duas coisas para dar uma resumida nisso e aí depois eu tenho uma última pergunta que vai ser muito legal.

 

R – É um acontecido que várias vezes a gente já viu, pode não ser da minha unidade, mas a gente fica sabendo das outras.

 

P/1 – Não, eu quero uma coisa que você viveu?

 

R – Essa situação que pior aconteceu comigo foi essa última rebelião que eu estava lá dentro e que a gente foi enquadrado que teve a fuga, né?

 

P/2 – Você nunca tinha sido enquadrado?

 

R – Não. Essa foi a primeira vez, aí eles encostam afaça em você, entendeu? Fala: o senhor vai para lá senão eu vou te matar, isso nunca tinha acontecido, em três anos e meio que eu passei na Febem, essa foi a pior, entendeu? Já vi e já ouvi muita coisa, mas essa comigo foi a pior, porque essas que eu falo que vi é as que eles faziam entre eles e a gente tentava amenizar.

 

P/2 – E disso que eles faziam entre eles você lembra de alguma coisa que foi muito marcante?

 

R – Bom essa foi... Eu acho que foi a pior, porque eles pegaram um adolescente que tinha atrito entre eles e eles bateram, estupraram e tudo mais, a gente teve que levar no PS, a gente levou para faze IML levou na delegacia fez o BO aí teve que tirar...

 

P/1 – Ele morreu?

 

R – Não, pelo que eu sei está vivo ainda, mas é uma coisa de Deus porque do jeito que ele saiu da unidade ele estava completamente deformado, a gente apertava a cabeça dele e ela estava mole, entendeu? Então eu acho que essa foi a pior.

 

P/1 – E qual foi a melhor coisa que aconteceu na sua vida na Febem?

 

R – Acho que a melhor coisa que aconteceu para mim na FEBEM foi a vida mesmo, o conhecimento de vida, a experiência só.

 

P/1 – Teve alguma coisa boa que te aconteceu que você ficou feliz?

 

R – Não. Na FEBEM não.

 

P/1 – E agora eu queria que você me contasse quais são os seus planos para o futuro?

 

R – Meu plano para o futuro é continuar trabalhando, né?

 

P/1 – Não, mas você tem um plano maior que eu sei, vamos lá.

 

R – Então essa de continuar trabalhando é... Como o meu passado é um pouco complicado devido eu trabalhar na FEBEM, eu queria dar um tempo daqui de São Paulo e queria respirar outros ares, trabalhar em outras coisas e sair um pouco dessa vida que eu levei nos últimos três anos e meio que é só maldade só coisa ruim, então eu queria trabalhar ir para outro país, entendeu? Meu cunhado está em Londres, então a gente ouve falar algumas coisas, coisas boas, então a gente queria tentar ir para lá e trabalhar, porque aqui eu não consegui muitas coisas, né? Consegui algumas coisas, mas eu queria dar continuidade lá trabalhar e conhecer outro país outra cultura, ver pessoas diferentes idéias novas e que mesmo em casa eu escuto falar, porque minhas irmãs trabalham.

 

P/1 – Elas não saíram?

 

R – Não, elas não. Uma está afastada, porque ela tem medo de sair na rua, ela sonha, eu também já tive diversos sonhos...

 

P/1 – Vocês tinham apoio psicológico?

 

R – Não, nunca teve.

 

P/1 – Bom e tem mais alguma coisa que você gostaria de falar?

 

R – Eu queria agradecer à oportunidade de desabafar oportunidade de mostrar o meu lado da história, as coisas que eu vi, as coisas que presenciei que podem servir futuramente para o meu filho ou para as outras pessoas é uma experiência de vida, não sei se boa ou ruim, mas é uma experiência eu queria agradecer.

 

P/1 – Agradecemos também, obrigada.

 

P/2 – Muito obrigada.                                                         

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