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História

A felicidade de viver

História de: Daria Castel Bueno de Camargo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/07/2005

Sinopse

Em seu relato, Daria Castel relembra momentos importantes de sua história: sua infância de liberdade, namoros e passeios ao cassino em São Paulo. O seu sentimento na época da Revolução Constitucionalista de 1932. O seu casamento, que durou 15 anos e acabou ao falecimento de seu esposo, devido à Doença de Chagas. E por fim, falou sobre sua animação pela vida e como apesar dos sofrimentos, não deixa de realizar suas vontades.

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História completa

P/1 – Dona Daria eu queria que a senhora falasse o nome completo da senhora, local que a senhora nasceu e quando a senhora nasceu.

 

R – Meu nome é Daria Castel Bueno de Camargo, eu nasci na rua Lopes de Oliveira, no Bairro da Barra Funda, no dia 04 de abril de 1917. Se não me engano numa Sexta Feira Santa.

 

P/1 – Dona Daria, como era a família da senhora? Os pais, os irmãos?

 

R – A minha infância foi muito boa, éramos bastante irmãos. Éramos sete irmãos. Não conto comigo, né? Meu pai, minha mãe. Eu me lembro do meu pai ele era mais ou menos assim... Ele conversava pouco com a gente. Minha também que mais brigava com a gente, punha a gente de castigo.

 

P/1 – Por que ela brigava com vocês?

 

R – Porque era muita gente. Além da gente morar junto, sempre tinha os primos que moravam com a gente. Tinham meus primos, o Fausto, o (Homero?), depois tinha o Flório também, que eram os primos do interior que vinham estudar na capital, então moravam com a gente. A gente morava no, que eu me lembro bem, foi em 24, que eu me lembro muito da minha infância, nós morávamos aqui na Brigadeiro Tobias, esquina da Washington Luís, uma casa muito grande, tinha sótão, tinha quintal, tinha o quarto que antigamente ficavam os escravos presos e a casa tinha umas escadarias muito grande. A sala de jantar, minha mãe falava que D. Pedro II dançou ali. Agora, quando a gente era criança assim: criança comia tudo, não comia junto com os pais da gente, sempre primeiro e os mais velhos que sentavam na mesa, para almoçar e para jantar. A gente acabava de jantar, oito horas todo mundo ia dormir: “Benção pai, benção mãe”. Ia tudo dormir.

 

P/1 – Você fazia o que de dia?

 

R – Durante o dia a gente brincava.

 

P/1 – Brincava de que?

 

R – Brincava de casinha, de corre-corre, eu subia na árvore. Uma vez caí de uma árvore que tinha, uma goiabeira. Aí, minha mãe me pôs de castigo. Uma vez subi no pessegueiro comi todo o pêssego verde, tive uma indigestão quase que morri. Aí minha mãe me pôs de castigo também. Eu sei que tive... Ah, no domingo ia visitar minha vó que morava no Brás, mãe do meu pai, morava na Rua São Leopoldo. Minha vó, eu não entendia, minha vó morava numa casa, meu vô morava na outra, a gente não entendia o porquê que eles não moravam juntos.

 

P/1 – Vocês perguntavam?

 

R – Não, nunca perguntei. Minha vó fazia biscoito, fazia doce. Eu adorava ir na casa da minha vó por que ela fazia ovo frito e quando a gente ia ela fazia biscoito de polvilho assim feito boneco pra gente comer. Depois a gente ia na casa do vovô e ele punha o gramofone pra tocar e tinha aqueles palhaços que dançavam em cima do gramofone.

 

P/1 – E que músicas que ele tocava?

 

R – Ah, isso eu não me lembro. Eu não me lembro, não me lembro, e nem pra quem ficou o gramofone. O meu avô, ele tinha ascendência francesa e ele falava muito francês, mas a gente não entendia nada, né? E depois a gente, no Domingo, meu pai, a gente todo Domingo ia ver a vovó. Era uma casa grande, tinha uma cisterna que uma vez o meu tio Gonzaga caiu lá dentro, mas não morreu, graças a Deus. Minha vó chamou Nossa Senhora de Aparecida. Acredite, a gente acreditava, né? Tinha de tudo naquela casa da minha vó. Eu me lembro que tinha um armário, a gente entrava. Na sala tinha um armário que tinha uma compoteira na cor verde, aí ela fazia o doce e guardava. E tinha a sala também porque minha vó era professora de piano, mas nunca ouvi minha vó tocar piano. Mas eu me lembro do piano, eu sei que tinha dois castiçais assim e em cima do piano tinha um crochê, só isso que eu me lembro da a casa da minha vó. E, depois a gente voltando à minha casa, a gente tinha a cachorra chamada Candonga. E a gente sempre... Agora, quando tinha festa em casa porque minha mãe tinha muitos sobrinhos, muita gente, minha mãe fazia festa em casa, meus primos.

 

P/1 – Como eram essas festas?

 

R – As festas eu nunca via porque criança e cachorro iam pra casa da vovó. A gente ia pra casa da vovó e não via.

 

P/1 – Tinham os preparativos?

 

R – Tinha mas a gente... Então, eu sei que no salão grande eles punham vela que parecia que era pra escorregar bem, pra dançar.

 

P/1 – No chão?

 

R – No chão, porque era lavado o chão. Aquelas tábuas bem largas e era lavado. Então dançava. A minha mãe tocava, a namorada do meu primo também tocava piano, porque ela era compositora e tinha um senhor cego que ia tocar, mas não me lembro o nome dele. E diziam que as festas da casa da minha mãe eram muito boas. Eram muito concorridas, ia muita gente, muitos familiares que convidavam, os amigos, os primos e mais alguns amigos. E, também me lembro do carnaval.

 

P/1 – E como era o carnaval? O que a senhora lembra?

 

R – Do carnaval, nesta época, eu me lembro. Nós tínhamos um vizinho que era italiano chamava-se (Vengril?), eles tinham fábrica de instrumentos musicais. Eles punham um caminhão ou o carro, eles enfeitavam punham aqueles panos, aquelas colchas, e todo mundo fantasiado ia fazer o corso no Brás. Levava confete, lança-perfume, bastante coisas. Tinha o corso, no Brás e na Avenida Paulista também. No Brás eu me lembro mais.

 

P/1 – A senhora assistia o corso?

 

R – O corso eu assistia, mamãe levava pra ver, né? Meu pai não gostava mas minha mãe que levava. A gente ficava aqui na Rangel Pestana na casa da comadre da minha mãe, da D. Clara Bresser, e gente ficava ali vendo o corso.

 

P/1 – Vocês se fantasiavam também?

 

R – Não. Nessa época não me fantasiava. Ah, não! Me fantasiava de criadinha, isso eu me lembro.

 

P/1 – Como é que era a fantasia?

 

R – Era um vestido preto com aventalzinho branco e uma tira assim, com o espanadorzinho do lado, isso a gente a gente fantasiava, de empregadinha. Teve um ano também que tinham uns primos lá em casa, eram três primos, e eles tinham fantasia de pierrô. Então, estava sobrando uma fantasia e eu então me vesti de pierrô e nós fomos para o jardim da Luz tirar retrato. Mas eu não tenho essa fotografia, infelizmente. Agora, nessa época também meu pai, às vezes quando meu pai ia no armazém dele que era na Rua de Mões, o armazém dele era atacadista, ele tinha viajante que vendia para o interior. Porque antigamente não era assim, tinha essas casas, então eles tinham os empregados, chamavam os viajantes, que levavam aquelas malas com os mostruários e, depois, meu pai despachava para o interior.

 

P/1 – Que época era mais ou menos?

 

R – Esta época foi 25, 26, porque em 29 quando apareceu, veio a queda do café, aí meu pai perdeu tudo. Aí, a vida mudou. Mas eu tenho umas coisas pra lembrar. Quando veio a Revolução de 1924, aqui era o Hotel Términos, aqui era nossa casa, porque o antigo Hotel Términos era na Brigadeiro Tobias com a Washington Luís. Então, os revolucionários ficavam ali no Hotel, então a gente tinha medo de chegar no terraço grande que tinha assim ao lado porque vinham os legalistas jogar bomba, tiroteio. E, ali na Washington Luís, a gente descendo a Washington Luís ia dar no Parque D. Pedro que tinha o mercado, então, ali o pessoal saqueava o mercado e subia ali, né? Então, minha tinha mãe tinha muito medo. Aí, um dia avisaram minha mãe que iam bombardear o Hotel Términos. Aí, minha mãe ficou desesperada. Nessa época minha avó, meus tios estavam com agente, minha avó, por parte do meu pai, e a gente então, minha mãe chamou um carro. Era a coisa mais difícil, né? Então pôs minha vó, não minha vó não quis ir, pôs a crianças e eu tudo. Pusemos no carro e fomos pra Rua Augusta. Eu não me lembro o nome, que moravam parentes, era muito longe a Rua Augusta. Então, nós fomos nos esconder na Rua Augusta, o número eu não sei, era quase na esquina da Alameda Franca. Era uma casa, pra dentro o jardim, e a gente ficou ali. Eu sei que quando foi à noite caiu uma bomba em casa, na nossa casa, e fez um buraco muito grande. Mas aí, minha vó e meus tios que estavam lá correram lá pra Rua Augusta. Isso foi à noite que eles correram pra lá. Mas não machucou ninguém. Mas no nosso quarto, em cima da nossa cama ficou cheio de estilhaço.

 

P/1 – A senhora foi lá ver?

 

R – Eu não fui, mamãe não deixou, foi só pra lá. Então, daí, depois acabou a Revolução, o Isidoro perdeu, né? Eles foram embora, mas antes disso teve muito tiroteio, muita coisa. Teve tiroteio no Cambuci, que derrubaram a Igreja de lá. Houve muita coisa aqui em São Paulo. Eu sei que aí então nós fomos na Rua da Consolação, nós fomos morara na... da Rua Brigadeiro Tobias nós fomos morar na Consolação. Era uma amiga da mamãe que tinha duas casas, então ela alugou uma casa pra minha mãe, dessa que eu tenho retrato que é na Consolação, esquina da Bráulio Gomes. Nessa época eu estava estudando na Caetano de Campos, foi em 1926, 26, 27, 28 e 29. Foi em 1926, não estou bem da, que eu entrei no primeiro. A minha primeira professora chamava Piquitita.

 

P/1 – Como era a escola da senhora? Como era a Caetano de Campos?

 

R – A escola, a Caetano de Campos era assim, a gente tinha uniforme andava de avental, sapato preto, meia branca, o aventalzinho e o chapéu. Era um chapéu grande, a gente tinha que ir na escola de chapéu.

 

P/1 – Tinha que usar?

 

R – Era um chapéu grande que a gente tinha ia pra escola. Chegava na escola, a gente ficava no pátio, tocava o sino, fazia fila e cada uma ia entrar na sala de aula. A gente entrava na sala de aula tinha que cantar, Hino à Bandeira. A aluna mais adiantada, tinha uma bandeira, e elas puxavam a bandeira, Aí, então, a gente cantava o Hino à Bandeira e depois sentava e a professora dava aula. Cartilha, escrevia, a gente aprendia a fazer caligrafia, tudo isso. Depois tinha o recreio. Depois a gente voltava do recreio, ia para o recreio, parece que era meia hora, voltava e continuava. Às 4:30 h., eu entrava meio dia, saía às 4:30 h. As minhas irmãs, uma estava na Escola Normal e a outra na Complementar. Tinha o quarto ano do Grupo, passava depois pra Escola Complementar, depois Normal, né? Era três de Complementar e cinco de Normal e quatro de grupo. Aí, minha irmã me esperava e a gente voltava pra casa. Mas eu me lembro que tinha um quiosque, ali na esquina, da Praça da República, do lado, não hoje onde eles fizeram o calçadão, do lado de onde o jardim não, era aqui, o quiosque que vendia sorvete. A gente sempre queria um sorvete. Depois da aula. Mas minha mãe falava assim: “Minha filha...” Porque naquela época roubavam criança da escola pra ir para o circo. Roubavam sim. Então, minha mãe falava assim, ”Vocês não aceitem nada de ninguém na rua, se alguém te chamar você não vai, não aceita, não vai com ninguém. Mesmo que você estiver esperando a sua irmã, sua irmã demorar, você não sai do lugar”. E a gente ia, éramos nós três e a gente ia embora pra casa. Na Rua Sete de Abril tinha o Batalhão da Polícia Militar e o que montava a guarda tinha aquela baioneta. Ai, eu morria de medo daquele soldado, eu ficava com tanto medo, eu tinha medo de soldado quando eu era pequena. E, depois, acabei o quarto ano, depois teve a D. Simíramis, que fez segundo e terceiro ano e a D. Zuleica que a foi minha professora do quarto ano. Mas a gente estudava bastante. Eu no quarto ano do Grupo eu aprendi a fazer o mapa da América do Sul, dividido com todos os países, capitais e as três cidades principais. O mapa do Brasil dividido em estados e territórios, a Bacia Amazônica, a Bacia do São Francisco e a bacia do Prata. Também nós aprendíamos o sistema de montanhas. Serra do Mar, eu não me lembro mais das outras, faz mais de cinquenta e tantos, que eu sou formada faz mais de cinquenta e dois ou cinquenta e três anos, não me lembro mais, né? E, aí, por exemplo, eu acabei o ginásio, o Grupo, eu acabei o Grupo, foi quando meu pai perdeu tudo, aí nós fomos, eu como era das menores que não estava estudando, tinha acabado, nós fomos para o interior.

 

P/1 – Para que cidade vocês foram?

 

R – Fomos pra Franca, porque era a terra da minha mãe. Nós ficamos lá um ano e depois em 31 nós voltamos pra São Paulo e aí meu pai começou a trabalhar. Ele foi ser viajante.

 

P/1 – Como foi esse ano que vocês passaram em Franca?

 

R – Em Franca foi ótimo. Eu fui pra Igaçaba, na casa da minha madrinha, minha mãe ficou em Franca, na casa da irmã dela e eu fui pra casa da minha madrinha pra não ficar muita gente lá, porque minha tia, eram 15 filhos, era muita gente, então... Mas estava acostumado, né? Aí, eu fui pra Igaçaba na casa da minha madrinha. A minha madrinha tinha um filho mais velho, que hoje é médico, que chamava Marcílio. Eu ajudava o Marcílio, a gente ia pra fazenda e era aquela coisa gostosa. Eu subia na porteira, tomava leite quente, ia apanhar goiaba, era uma vida assim, largada. Andava a cavalo, jogava bola, uma coisa que a minha madrinha não gostava é que eu fosse brincar na colônia.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque ela achava que não devia misturar, não é? Então, a gente não ia. Isso foi em 1930. Aí, quando foi em 31 nós viemos pra São Paulo e nós fomos morara no Cambuci na, Rua Backer. Isso eu me lembro, da casa. Aí eu voltei, eu para o Grupo outra vez para não ficar em casa sem fazer nada.

 

P/1 – Que Grupo era?

 

R – Fui no Segundo Grupo Escolar do Cambuci na Rua Ana Meri, isso eu me lembro. O nome da minha professora, chamava, Dona... Não me lembro o nome dela, não me lembro. Eu sei que eu já era grande e toda festa que tinha eu tomava parte.

 

P/1 – Como eram essas festas?

 

R – As festas eram assim: Dia da Bandeira a gente fazia a Festa da Bandeira, tinha que recitar da Bandeira, né? Proclamação da República também, todas as festas, Dia da Abolição, tudo a gente tinha festa, né? E era assim, eu era uma das maiores porque estava repetindo o ano, já tinha diploma, mas como a minha irmã foi lá no Grupo e falou para o diretor que era para mim não ficar sem fazer nada. Aí eu voltei a estudar. Estudei outra vez, né? Aí foi muito bom. Eu estudei aí depois nós mudamos pra... Em 32 veio a Revolução de 32, né?

 

P/1 – O que a senhora lembra da Revolução de 32?

 

R – Lembro bastante. De 32, nós morávamos na Rua Fagundes 2ª Então ali já tinha 15 anos, já era mocinha, todo mundo, e a gente tinha, nessa época tinha piano em casa, a gente tocava muita música, as músicas da época.

 

P/1 – A senhora lembra de alguma?

 

R – Lembro.

 

P/1 – A senhora quer cantar?

 

R – Eu não canto porque eu sou desafinada.

 

P/1 – A senhora sabe a letra?

 

R – Marcha Soldado Paulista, não me lembro, agora, assim, não me lembro. E, então, eu, todos nós éramos a favor da Revolução. (Ernestinho?), meu irmão mais velho, e a minha mãe que não eram, eram contra, eram a favor dos federais. Meu pai fazia guarda na Rua Galvão, naquele quarteirão ali, na Rua Fagundes com a Galvão Bueno, Rua... Eu não me lembro o nome da rua. ____________ na rua, não me lembro. Rua da Liberdade. E, meu pai ia fazer. Minha mãe não gostava. Eu nunca vi minha mãe discutir com meu pai. Graças à Deus nunca discutiram. Mas nesta época teve que dar o ouro para o bem de São Paulo e o meu pai deu. Minha mãe ficou brava! Porque falou que aquela aliança, dizia que era a galera perpétua dela, que ela ia tirar da mão só quando morresse, e ela não deu. E ele deu o ouro, ele deu a aliança e minha mãe ficou brava. Mas falou assim, não houve discussão. Só que eu nunca tinha visto minha mãe brava daquele jeito, com meu pai. Mas meu pai ficou quieto, ele já tinha dado, achou que devia dar, então ele deu e continua assim. As minhas irmãs iam fazer crochê, elas faziam aqueles capuzes, luvas, meias de lã, tudo pra mandar para os soldados.

 

P/1 – A senhora não ajudava? O que a senhora fazia?

 

R – Eu ajudava. Eu fui trabalhar lá no Largo São José do Belém. Essa comadre da mamãe, a Dona Clara Bresser, ela tomava conta ali do dispensário. Ali a gente dava comida para as famílias dos combatentes. Então a gente tinha carne seca, arroz, feijão, tinha tudo ali. Então, quando as pessoas vinham buscar eu pesava, fazia. Cada um tinha aquilo certinho pra dar. A gente dava doce, açúcar, carne-seca, arroz, feijão, dava de tudo, né? E, eu trabalhei lá nesta época, ajudei, tudo. Depois que acabou a Revolução, depois, nessa época, em 32, eu estava sem estudar. Aliás, eu estudei francês e inglês, porque meu irmão tinha um cursinho de inglês e francês aqui no Edifício Santa Helena, que hoje não existe mais. Tem o edifício Santa Helena. Deixa eu voltar um pouco atrás. Ali tinha um cinema chamado Santa Helena, que era um dos cinemas mais chiques de São Paulo. Então, meu pai levava a gente na matinê, todo domingo era a matinê que a gente ia. A gente punha chapéu, se arrumava muito bem e ia assistir o cinema. Depois do cinema a gente descia para o salão. Tinha um salão chamado Egípcio, ali dançava e eles distribuíam brindes para as crianças.

 

P/1 – Que brindes eram?

 

R – Isso eu não me lembro. Eu sei que eram um salão muito bonito. O edifício Santa Helena era uma coisa muito bonita mesmo. O cinema mesmo era um dos mais chiques da América do Sul, se não me engano. Mas disso, quando houve, em 1929, acho que foi 29 ou 30, não me lembro. Quando houve a inauguração do Paramount. Meu pai, minha mãe foram, foi a comadre, minhas irmãs, todos foram. Foi o primeiro cinema falado, né? O filme era... Não foi O Anjo Azul, não foi _______. Foi Alvorada do Amor, com a (Janete Mc Donald?), Nelson ___, que cantam uma coisa muito bonita.

 

P/1 – A senhora foi assistir?

 

R – Eu não fui assistir porque eu era criança nessa ocasião, criança não ia nesses lugares. Mas depois quando fiquei mais velha eu fui assistir. Isso aí eu fui assistir no Rio, quando eu já morava em Niterói eu fui assistir. Mas aí também quando eu já estava na Caetano de Campos agente no terceiro e quarto anos, quando tinha os dias comemorativos, Dia da Ave, da Árvore, Proclamação da República, a gente fazia festa na Praça da República, fazia aquelas corridas do arco, que a gente passava em baixo do arco, jogava bola também. Esses brinquedos de esporte, fazia ginástica também.

 

P/1 – Os meninos com as meninas?

 

R – Não, era só menina, não era misto naquela época. Não tinha menino, era só mulher. A Caetano de campos era só mulher. E, naquela época também já tinha o jardim da infância, mas eu nunca fui para o jardim da infância. Não porque eu já entrei direto. Aí, também, a gente aprendia, no quarto ano da Caetano de Campos, a gente fazia teatro. A gente ensaiava. A professora reunia parece que duas ou três salas, três anos, era A, B e C, se não me engano e a gente fazia uma apresentação no fim do ano. Era uma espécie de teatro. Dançava, cantava, essas coisas. Eu, às vezes, tomava parte nessas apresentações.

 

P/1 – Que papéis a senhora fez, a senhora lembra?

 

R – Eu me lembro, eu fiz o papel de uma menina mal criada.

 

P/1 – Como era a menina mal criada?

 

R – Parece que a mãe mandava fazer as coisas, mandava estudar. Eu não queria estudar. A mãe mandava eu fazer isso eu não queria estudar, eu não queria fazer nada. Eu me lembro que eu queria ficar só na janela.

 

P/1 – Por que na janela?

 

R – Eu sei que gostava de ficar na janela, né? Mas o resto eu sei que eu fazia. Uma vez também fiz o papel de uma empregadinha. A empregadinha limpava, limpava, passava e vinha um menino sujava. Eu limpava, vinha o menino vinha... Isso que eu me lembro, coisas que me marcaram mais. Depois, aí, acabou, veio a Revolução de... Isso aí já é 1929, vem 30, 31, eu estou em 1932. Aí, em 32 a gente acabou a Revolução, eu fui estudar no Ginásio Paulistano, eu fui lá fazer o ginásio, porque meu irmão já estudava lá. Eu estudava à tarde. Eu entrei, fiz o primeiro, segundo, terceiro ano de Ginásio no colégio, era Ginásio Paulistano, era na Rua São Joaquim. Aí, já era misto. Eu era uma das maiores, como sempre, né? Tinha um Grêmio, também eu fazia parte do Grêmio.

 

P/1 – Como era o Grêmio?

 

R – Como era o Grêmio?

 

P/1 – O Grêmio era bom.

 

P/1 – O que você fazia no Grêmio?

 

R – A gente fazia um jornalzinho, fazia apresentação também. Uma vez nós fizemos uma apresentação, uma espécie de uma comédia, né? Aí, eu sei que na hora que eu fui puxar o palco, que era um pano, caiu em cima de mim. Também nós fizemos um jornalzinho que o diretor nos apreendeu a edição.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque o irmão dele tomava conta da gente no ______, que a gente estudava canto também, música e tudo. Então, como ele era italiano... Eu sei que foi uma paródia que falava assim: “Da Líbia vem não sei o que... Da Líbia sai o italiano, da Líbia sai o macarrão, só _____________”. Era uma coisa assim. Porque ele ficava ali, tirava muito a liberdade da gente e aí, acabou, não teve mais jornal, né? E eu sei que também do Grêmio foi isso, não me lembro mais. Aí, quando foi em 1935, mamãe resolveu ir para o Rio porque já tinha um, meu irmão foi pra lá e levou. Eu tinha um tio que trabalhava no Colégio Americano e levou meus dois irmãos pra lá, o Toninho e o Dito foram pra lá. O Toninho foi pra estudar e trabalhar e o Dito... Ficavam internos no colégio. E a minha irmã mais velha já era formada e estava trabalhando numa escola lá. Minha (Esthér?) também já era formada. Elas formaram por decreto, em 1932.

 

P/1 – Como era isso?

 

R – Era assim: essa minha irmã Daura, ela já era formada professora, trabalhava aqui em 32. E, a minha irmã mais velha, essa formou por decreto, porque ela não gostava de estudar. Mas minha irmã falava assim: “Você tem que estudar, nem que você saia de bengala da escola”. E ela formou por decreto porque em 1932, por causa da Revolução, ela... A escola ficou fechada tudo, aí nem comércio, nem nada, qualquer coisinha fechava tudo por causa da guerra mesmo, da Revolução. Aí, veio o, como chama? O Oliveira, que era presidente de São Paulo, Oliveira, daqui a pouco eu me lembro. Ele, então, decretou, todo mundo formou-se, todo mundo passou de ano e essa minha irmã mais velha e com a minha irmã (Esthér?) que já estava no quarto ano da Escola Normal, porque tinha diferença no Brás e da Praça da República. A minha irmã do Brás, mais velha, foi pra lá porque ela brigou na Praça da República, então, minha mãe passou pra lá. A minha irmã, naquela época, ela fez o enterro do professor de francês. Você imagine. Enterro de professor, fez o caixão e tudo. Você imagine!

 

P/1 – Por que ela fez isso?

 

R – Porque era o professor que reprovava todo mundo, então, ela fez o enterro do professor. E, ela era conhecida na escola pelo nome de Castel, era o terror da escola, o terror dos professores também. Aí, ela formou-se e foi para o Rio. Foi para o Rio trabalhar porque precisava, né? E a minha irmã (Esthér?) também foi para o Rio trabalhar. Eu acabei o terceiro ano aqui, fiquei na casa da minha madrinha com a minha irmã e aí, no fim nós fomos. Aí, minha mãe resolveu ir para o Rio. Nós moramos numa pensão em Niterói, primeiro nós moramos no Rio, no Flamengo. Era férias, tudo, foi muito bom a gente morara no Flamengo, ia pra praia, passeava, era muito bom. Depois nós fomos para Niterói. Minha mãe alugou uma casa e ela dava pensão pra estudante. A minha irmã mais velha, a minha irmã Daura já trabalhava aqui, o meu irmão trabalhava no Rio, meu irmão mais velho, meu pai já estava viajando, eu estava no quarto ano do Liceu, os outros dois estavam nos maristas, como é que chamava o colégio? Colégio... Não me lembro o nome. Aí, nós ficamos morando em Niterói na praia das Flechas. Ah, foi uma época muito boa, uma vida apertada, mas eu passeava muito, dançava, tinha muita festa. Nós tínhamos uns vizinhos, era uma moça e quatro rapazes e a gente se dava muito bem. E, essa moça era de Niterói e sei que todo quinta feira a gente ia para o Rio fazer o chá na Cinelândia. Era chique ir fazer chá na Cinelândia, né? A gente se arrumava toda ia fazer o chá. Era na Americana? Não, não tinha Americana. Era, tinha gente ali no largo da Carioca ou na Cinelândia, eu não me lembro os nomes das confeitarias. Depois a gente tomava a barca e ia pra casa. A nossa vida era assim, nosso pai viajava, minha mãe, às vezes, ia viajar com ele e eu ficava tomando conta da casa, né? Porque as minhas irmãs estavam na Ana Neri fazendo curso de enfermagem. Porque era um modo de a gente ter um meio de vida ser enfermeira formada porque o Estado do Rio dava uma bolsa e depois de formada tinha que trabalhar dois anos no estado do Rio.

 

P/1 – E os seus pais tinham algum plano para o futuro da senhora?

 

R – O meu não, eu ainda estava no Ginásio, porque eu demorei mais para estudar porque eu perdi. Como eu era a caçula eu perdi muito tempo porque não teve por onde eu estudar. Como eu era a menor, estava mais atrasada eu ajudava mais minha mãe. Eu estudei inglês, eu estudei taquigrafia e francês. Mas, ia no curso, mas era pra não ficar sem fazer nada. Aí, quando nós fomos pra Niterói eu estudei no Liceu, fiz o quarto, quinto ano, repeti o quinto ano por causa de namorado, né? Mas nesta época era muito bom, a gente ia à praia, eu ia pescar.

 

P/1 – Como era o namoro nesta época?

 

R – Era um namoro assim de olhar, de passear, pegar na mão era mais difícil e beijar, nem se fala! Precisava-se muito namorar pra dar um beijinho. Mas era uma época... A gente frequentava o clube, eu frequentava o clube Icaraí, éramos sócios do Quinze mas a gente ia mais no Icaraí, Praia Clube, é do regatas e também a gente mais ficava na praia passeando, né? E, também tinha uma coisa naquela época, quando chegava Sábado e Domingo. Eu tinha dois irmãos, um era da Aeronáutica, o outro era da marinha. Entraram, fizeram o curso, concurso, tudo e entraram lá na Marinha que era o meio de vida que a mamãe pôde dar. Sem gastar muito e eles teriam um futuro bom. Então, chegava sábado e Domingo, eles iam pra casa. Eles não punham a farda, eles iam de paisana. Mas os outros, viam a gente, as meninas ficavam sentadas na praia e ficavam passeando, na beirada da areia, no calçadão, as moças, e aqui na calçada, eles ficavam parados pra gente passar, né? Então, as minhas amigas falavam assim: “Vamos namorar ou do exército, aeronáutica ou marinha porque eles respiram depois de morto.” Sabe o que é respirar depois de morto? Deixavam pensão. É que a gente tinha um futuro melhor.(riso) Mas isso são coisas da mocidade que a gente tem que lembrar. Mas eu nunca namorei nem um aspirante nunca, não gostava, meus namorados eram outros, eram mais flerte, né? Eu gostava mais quando eu fosse dançar. Em cada clube que eu ia tinha um par constante. Não era um namorado, chegava era aquele, né? E também fui do tempo do cassino.

 

P/1 – A senhora ia no cassino? O que a senhora lembra do cassino?

 

R – Ia no cassino. Eu ia no cassino. Do cassino eu me lembro do trio de ouro do Herivelto Martins, a Dalva de Oliveira, cantavam, cantava lá. Tinha o show, a gente entrava, não pagava nada. Tinha, às vezes também eles passavam no cinema.

 

P/1 – Que cassino era?

 

R – Cassino Icaraí, na praia de Icaraí. Também tinha esse, tinha um argentino, como era o nome dele? Pedro Vargas, que ia cantar. Ele era médico e ele dizia que o que ele cantava era pra ajudar o pessoal, ajudar o hospital dele. Cantava muito. Meu pai ia, quando ele estava em casa, ele ia com a gente também, né? E, era muito bom. Conheci os cassinos do Rio também. Fui. Eu tinha um primo que morava na minha casa, chamava Emílio, e veio pra estudar e ficou na minha casa e, como a gente era mais ou menos da mesma idade, a gente saía muito junto. Mas sem namoro. Nunca namorei. Nós fomos ver a (Mistigat?), no cassino da Urca que era muito bonito. Fui no Copacabana também, que era muito bonito. Coisas que só a gente vendo. Os lustres, era tudo muito luxo, muita riqueza, muito dinheiro. A gente ia pra ver, né? E depois ia embora pra casa. Às vezes a gente dançava um bocadinho porque tinha o show, aí, a gente dançava, depois ia embora pra casa. Tomava a barca e ia embora. Agora, a travessai da barca era muito gostosa. Às vezes tinha gente que tocava e cantava na barca, faziam serenata na noite de luar. Era muito bonito. Eu também, quando, tive uma serenata muito bonita. Era um moço que, não namorei, conhecido que ele foi fazer uma serenata pra mim.

 

P/1 – O que ele cantou?

 

R – Não me lembro. Deixa eu ver. “Ó linda imagem da mulher que me seduz.” Isso, né? Ele cantou isso pra mim. E, minha mãe estava em casa nessa época, de manhã falou assim: “Pra quem estavam fazendo serenata aí? Eu não sei pra quem era”. Falei assim: “Ah, mãe, acho que era pra vizinha”. Minha mãe olhou falou assim: “A vizinha que mora no quarto da frente minha filha?” (risos). Minha mãe, ela fazia assim que não entendia, mas ela sabia das coisas. Muitas coisas ela sabia. E, também teve um carnaval que nós fantasiamos de chinês. Foi um carnaval que foi a música (Lig Lig Lé). Aí nós fomos, fizemos um bloco bem grande, fomos dançar no Rio depois nós viemos pra Niterói, dançamos. E também dancei. Era muito ficar na rua você podia dançar não tinha problema, você dançava mesmo. Dançava com qualquer um. Tinha lança-perfume, tinha confete, tinha essas coisas, né? Mas minha mãe sempre dizendo: “Não beba nada, não...” Porque eu fumava nesta época.

 

P/1 – A senhora fumava?

 

R – Fumava.

 

P/1 – E ela sabia?

 

R – Minha mãe sabia, ela deixava eu fumava na frente da minha mãe. Meus irmãos não fumavam. Minha mãe deixava, ela dizia: “Eu prefiro que você compre o seu cigarro do que que você pegue o cigarro dos outros”.

 

P/1 – Quantos anos a senhora tinha mais ou menos?

 

R – Eu já estava com 18 anos. Minhas irmãs também fumavam. A gente, no Canto do Rio, lá em Niterói, tinha um bar que às vezes a gente juntava uma turma grande, os amigos, nós íamos lá tomar “chopes”. Ficava cantando, tomando “chopes” até de madrugada, uma, duas horas da manhã. Depois a gente ia pra casa, à pé. Agora, eu fui criada com muita liberdade. Minha mãe falava assim: “Filha, tudo o que você fizer de mal feito eu não vou padecer, você que vai ver a consequência. E o que você fizer de mal feito hoje, você vai se arrepender mais tarde. Por isso, dar-se ao respeito pra ser respeitada. Respeite muito os outros pra ser respeitada. Se você achar que não serve a companhia, você sai, não seja grosseira, pede licença e vai embora. Sempre seja assim, ou seja com um moço, seja com uma criança, ou seja com qualquer pessoa”. Mas graças à Deus nunca precisei de nada. Sempre me respeitaram, sempre fui muito alegre, dançava, brincava. Ia namorado em casa, nunca namorei, porque antigamente usava namorar no portão, nunca namorei no portão, era dentro de casa: “Mamãe é amigo”. E quando minha mãe não estava em casa era a mesma coisa, não tinha problema. A gente sabia manter o respeito da casa. Eu, apesar de minhas irmãs, eu sempre estava em casa com meus irmãos, eu estava em casa com namorado, meus irmãos não ficavam em casa porque eu estava com namorado. Não tinha problema. Eu saía com ele, tudo, mas sempre dizia aonde a gente ia. Quer dizer que eu tive uma mocidade muito boa. Muito assim, aproveitei, dancei, namorei muito e nadei muito. Tinha um amigo, meu irmão quando estava na Escola Naval, ele, às vezes, ia me apanhar de barco, eu ia passear de barco com ele, tudo, é uma coisa boa. Quer dizer que a minha mocidade foi muito boa mesmo. Não foi com muito dinheiro, muita coisa porque infelizmente a gente lutou muito porque meu pai perdeu tudo, tudo. Mas a gente era feliz. Se podia comprar comprava se não podia... Mas minha mãe conseguiu formar todos os filhos, todos os meus irmãos têm nível universitário. Eu não tive porque eu quis casar, né? Eu me casei. Era pra eu ter casado com 19 anos, minha mãe não deixou. Não deixou, não quis, mas eu casei com o mesmo passados cinco anos. Casei com ele, né? Mas a gente foi feliz quinze anos. Dancei muito. A gente tinha muita liberdade.

 

P/1 – Como foi a festa de casamento da senhora?

 

R – Meu casamento foi assim: porque meu noivo já tinha pedido, eu não queria ficar noiva. Eu não queria porque antigamente ficar noiva a gente ficava muito amarrada. E, eu não queria. Eu tinha outros namorados, outros amigos, né? Eram amigos. E, se eu namorasse, eu tinha que só sair com ele, não podia ir dançar, se eu quisesse ir para o cassino eu não podia, se eu quisesse ir para o Rio assistir cinema, tudo, eu não podia ir, era assim. Mas a minha mãe falou: “Não, não sei porque eu viajo, você fica aí...” Tudo bem, fiquei noiva. Aí, depois a minha mãe não quis o casamento, brigou, eu acho que era ciúmes, hoje que eu sou mãe também, eu acho que era ciúmes. Aí, não quis, tudo, passaram cinco... Mas eu sempre me correspondia com ele.

 

P/1 – Ele era de onde?

 

R – Ele era de Ribeirão Preto. Mas eu conheci ele no Rio. Eu sei que foi uma época, eu fui pra Uberaba, minha mãe mandou eu pra Uberaba, passei três meses lá em Uberaba. Também passei uma temporada boa, também lá dancei muito, festejei, tudo. Mas eu gostava dele.

 

P/1 – Como ele chama?

 

R – Mário. Chamava-se Mário. Depois quando foi em 1942, nós estávamos em Niterói, minha mãe resolveu mudar para São Paulo. Não queria ficar mais no Rio, meu pai já tinha morrido, tudo. Eu perdi meu irmão também, que era da aviação, ele morreu de desastre. E, minha mãe queria mudar pra São Paulo. Aí, então, o que que eu fiz? Eu telefonei pra ele, ele estava morando em Santos e falei assim: "Olha, se você quiser casar comigo você resolve, sim ou não? Não precisa ter pena de mim. Se você quiser casar comigo eu vou pra São Paulo pra nós resolvermos, se não eu vou pra Escola Ana Neri.” Eu já tinha arranjado os papéis pra entrar na escola Ana Neri pra eu ser enfermeira. Minha mãe queria que eu fosse dentista, né? Naquela época havia poucas dentistas, né? Aí ele falou: “Não. Você vem que nós casamos esse ano”. Aí, eu fui pra São Paulo com a minha mãe. Sem a minha mãe saber. E, a gente se encontrava escondido, né? (riso)

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque a minha mãe não queria o casamento. Mas a minha sogra gostava de mim e eu ia na casa dela. Aí, ele casou o irmão. Casou outro irmão. Mas, infelizmente, uma prima, que era minha prima e era parente dele, no casamento da irmã dele, eu estava na casa dela me arrumando para o casamento porque houve festa, tudo, ela aparece lá.

 

P/1 – O que aconteceu?

 

R – Ela aparece e fala: “Você aqui Daria?” Falei “É...” Tudo bem. E, ela apareceu lá e foi contar pra minha mãe, no outro dia, que eu estava lá. Minha mãe, só não me chamou de santa. Não me xingou nada, mas ficou brava comigo porque não queria. Eu falei: “Mãe, o Mário vem me pedir em casamento. Nós vamos marcar.” “Ele não vem”. Eu falei: “Ele vem”. Nós marcamos, dia sete de junho ao meio dia ele ia na casa da minha irmã. Minha mãe estava prontinha, de chapéu na cabeça: “Se ele não vier ao meio dia, eu vou me embora”. Meio dia em ponto ele estava lá. (risos). Tem coisas que a gente conta... Aí, então, ele falou. Minha mãe cumprimentou, “Oi D. Fausta, como vai a senhora? Lurdes”. Ele disse assim: “Eu vim aqui pra marcar o casamento. Não, mas não, nós vamos marcar pra casar o mês que vem”. “Mas não tem enxoval”. Ele disse “Eu não quero saber de enxoval, não quero, nós vamos... Eu vim aqui pra marcar o casamento”. Minha mãe: “Mas não pode ser!”. Eu disse “Não, nós vamos casar”. Ele disse: “Eu quero casar e pronto. O resto não interessa”. Eu sou meio louca mesmo, né? Aí, então: “Não, não sei o que, vamos casar”. Naquele dia mesmo, nós saímos, fomos pra casa da minha prima, convidá-la pra ser madrinha de casamento. Era dia sete de junho, era pra ser dia nove de julho. Aí, ela falou: “Não, eu já tenho um casamento”. “Então, vamos passar para o dia sete de julho”. Marcamos dia sete de julho. Ele morava em Santos. Tudo bem. Aí, ele foi embora. Levamos minha pra a casa da minha irmã e eu fui pra casa dele falar para mãe dele que nós tínhamos marcado casamento. Ela ficou satisfeita, tudo. E, ele ia embora pra Santos e eu fiquei então arrumando roupa, arrumando os papéis pra casar, os convites de casamento e tudo, né? Passou um mês eu arrumei a ____. Então, graças à Deus, eu me casei às seis horas, na Igreja Nossa Senhora do Carmo, na Rua _____ de Carvalho. Não teve nada, nada, nada. Só que eu me lembro tocou Ave Maria de _____, os padrinhos a madrinha e nós despedimos na Igreja. E, aí, foi que começou a minha vida de casada, no dia sete de julho de 1942. Aí eu fui na casa... A mãe dele tinha problema nas pernas, então, eu fui pra ela me ver vestida de noiva. E aí eu voltei pra casa pra eu pegar a mala e nós fomos passar a Lua de Mel em Poços de Caldas. Passamos uma semana lá, ou mais não me lembro. Sei que ficamos bastante, ficamos lá no Hotel Rex. Lá, fomos ao cassino, que era um cassino muito bonito e passeamos todos os passeios de Poços de Caldas. Depois voltamos, quando nós voltamos eu fui morar na casa de um amigo dele. Ele alugou um quarto pra nós morarmos.

 

P/1 – Em São Paulo ou em Santos?

 

R – Em Santos, na Rua Pasteur. Então, nós ficamos lá. Aí, nós fomos procurar casa pra gente alugar, pra morar, porque a gente não tinha nada. Quando foi em novembro nós alugamos casa e eu já estava esperando o primeiro filho, né? Aí, nós viemos à São Paulo pra comprar roupa de cama, comprar tudo porque a gente não tinha nada. Eu não levei enxoval. “Você vê alguma coisa pra mim e eu?”. Ele tinha, ele tinha as coisas dele. Aí, nós alugamos a casa, fomos comprar móveis, comprar... Aí, montamos a nossa vida, nossa casa. A minha mãe aí já estava, gostava, tanto que ela se dava muito bem com ele. Hoje que eu acho que era ciúmes mesmo, né? Aí, alugamos na Rua Sergipe, 35, que era casa, montamos e todo mundo vinha pra casa porque era praia, né? Todo mundo vinha. Aí nasceu o primeiro filho foi um Deus nos acuda, né?

 

P/1 – Como ele chama?

 

R – José Antônio.

 

P/1 – Porque foi um Deus nos acuda?

 

R – Porque era o primeiro neto, primeiro filho, primeiro neto dela, né? Meu irmão mais velho era casado, mas não tinha filhos. E, depois a minha irmã era casada também e não queria filho. Eu queria, quando eu me casei eu queria ter seis filhos, um atrás do outro, né? Eu queria ter seis filhos. Aí, então, tive, ele nasceu, teve o nome de José Antônio porque o nome de José era o nome do meu pai, chamado José ___, e Antônio por causa do meu avô, pai da minha mãe. Aí, então chamou José Antônio, eu já tinha um irmão com esse nome, antigamente sempre costumava pôr né? Aí, José Antônio, o meu filho fala: “Mãe, isso é um palavrão, não é nome de gente”. Meu filho, José Antônio, que eu chamo de Toninho ele fala: “Mãe isso não é nome, isso é um palavrão”. José Antônio. Aí, nasceu o filho, todo mundo com muito festa e a gente viveu bem, Graças à Deus. Aí, veio o segundo, _________, veio o terceiro, veio o quarto, tudo isso. Depois de Santos, nós fomos morar no Guarujá, no Guarujá a vida era muito boa. Eu não tinha o que fazer, ele trabalhava em Santos, eu vivia na praia, eu era morena, eu vivia queimada, eu era preta. Meus filhos também. No Guarujá não tinha outra coisa que fazer. Era praia, passeio, tudo isso. Só fim de semana que tinha muita gente, vinha o pessoal de lá. Mas eu não tinha nada com os veranistas, né? Eu sei que passeei, aprovei muito passeávamos muito. De vez em quando vinha à São Paulo ia ao teatro, essas coisas, porque eu gosto muito de teatro, né? Então, me lembro uma das peças que nós viemos assistir foi Chuva, com a Dulcina de Moraes. Uma peça muito forte, muito boa mesmo. Chove a peça toda, sabe? Não sei se você já ouviu falar? Porque já reprisaram. É a história de uma mulher que era uma mulher mundana e tinha um padre, acho que era um missionário, e ele vai convertê-la pra ela tornar-se uma pessoa boa. Quando ele consegue convertê-la ele acaba gostando dela e se suicida, né? É uma peça muito bonita. Então, ficamos no Guarujá até mil novecentos e... Eu morei no Guarujá até 1950 e 51, 52, 53. Em 52, aí, meu marido acha melhor a gente... Eu quis sair do Guarujá porque não dava pra educar meus filhos, tinha só o Grupo, o primeiro Grupo e, depois, a travessia de balsa era muito perigosa. Não é como hoje, era muito perigosa. Então, eu resolvi, aquilo não era pra gente morar.

 

P/1 – A senhora quis mudar pra onde?

 

R – Eu quis... Aí, nós fomos pra Petrópolis, passei dois meses em Petrópolis, pra ver se a gente podia morar. Fomos para o Espírito Santo, para ver um emprego lá, pra ver se dava. Ficamos no Espírito Santo também. Ficamos em Vitória, em Guarapari. Os meus filhos ficaram no Rio, o mais velho ficou no Rio com a minha irmã, porque ele estava na escola. Os outros dois ficaram em São Paulo com a minha sogra. E, os dois menores tinha uma vizinha que ia brincar com eles tudo, então, depois ela me contou que eles ficavam brincando, brincando, de vez em quando a menina falava assim “Ai tô com uma saudade da minha mãezinha, ela não vem”. Ela sentia falta, né? Ela me contando, né? Ela tinha muita dó porque as crianças sentiam muita falta porque eu ia pra ver, eu tinha que sair de casa, né? Eu tinha que ficar 15 dias, às vezes um mês, para ver como é que a gente ia decidir a vida da gente. Aí, eu sei que nós fomos para o Rio, no Rio eu não queria morar, eu não gosto do Rio. No Rio teve oportunidade, mas eu não gosto do Rio. E minha mãe queria que eu fosse morar no Rio, mas nessa época minha mãe já tinha falecido e eu não queria ficar no Rio. Aí, quando foi em 53, nós viemos de Petrópolis, ficamos lá uns três meses, tempo bom, passeei muito, mas não dava pra gente viver em Petrópolis. Não dava, eu não me adaptei. Aí, quando nós viemos pra São Paulo meu cunhado falou assim: “Daca, vamos morar tudo junto? A gente se dá bem, vamos morar. A gente aluga uma casa grande e em dois anos você compra sua casa e eu compro a minha”. “Tudo bem.” Aí, nós alugamos. Meu marido virou-se e disse assim: “Você que resolve, porque morar junto não é brincadeira”. Eu falei: “Não, eu sei que é difícil morar junto, né?”. Ainda mais com cunhado, com sobrinhos, tudo isso, aí, eu falei “Eu vou, eu quero”. Cheguei para o meu cunhado e falei: “Eu topo, vamos morar juntos”. E, alugamos uma casa na Capitão Cavalcante. Aí, a minha sogra foi lá e falou assim: “Eu não gosto dessa casa, nesta casa não tem... Não gosto, não quero.” Mas aí,  nós já tínhamos alugado. Era uma grande com garagem, com quintal, com porão, que a gente ficou bem acomodado. Era meu cunhado, a minha cunhada com três filhas, eu, meu marido com três filhos. A minha sogra, tinha o quartinho dela e também tinha quarto pra empregada, mas nessa casa vinha o filho dela, vinha a outra filha que morava e sempre estava todo dia, sábado e domingo, juntava todo mundo lá. Graças à Deus a gente se deu bem. Nesse tempo que a gente estava trabalhando a gente era muito alegre, fazia muita festa em casa. Eu até tenho uma gravação. Quando a minha sogra fez 64 anos o meu cunhado arranjou um gravador, que era um disco de 78 rotações, nós fizemos uma feijoada na garagem e convidamos todos os amigos e parentes dela porque ela gostava muito de jogar pif-paf e ela jogava muito bem. E, nós fizemos uma festa surpresa. Ela queria tirar o retrato dela com todos os netos, com todos os filhos, as noras e as “genras”, como ela falava e eu consegui. Consegui, reuni, falei, tudo, consegui trazer o retratista em casa, ela tirou o retrato. Eu não acho esse retrato. Como ela queria. E, aí, nós fizemos a festa. Muito gostoso. Os netos recitaram, declamaram, cantaram, tudo para ela e depois cada um, cada convidado falou alguma coisa no microfone e foi uma festa muito bonita, que gravou muito na gente, em todos nós. Bom, esse foi em 1954, 55, não isso foi em 54, em agosto de 54. Depois veio dezembro, ela tinha só ima irmã, uma irmã que morava em Ribeirão Preto e um irmão que morava aqui, reunimos para o Natal, tudo isso, foi aquela festa. As crianças tomavam uma bebedeira, eu falei festa de família, mas assim, todo mundo ali. Depois acabou a festa, todo mundo foi embora e, infelizmente, no dia 20 de janeiro o meu cunhado teve um enfarte e em 24 horas ele morre. Quero dizer que a vida da gente já ficou bem triste, mas a vida continuou. Passado... Em maio, 28 de maio do mesmo ano minha sogra morre. Aí, ela morreu. Aí, nós ficamos casa, né? Meu marido trabalhando, eu com as crianças, tudo. Eu fiz muito curso de costura, de culinária. A gente fazia assim, porque eu gosto dessas coisas, né? E eu tinha vizinho chamado Seu Mário que ele um dia falou assim: “Dona...” Porque o meu apelido é Dariete. “Dona Dariete, sai desta casa, essa casa não é boa, aí tinha muita sessão espírita e a senhora que saiu daí, saiu chorando porque ela não queria vender esta casa”. Falei: “Ah, Seu Mário, o que tiver que acontecer acontece”. E, a gente estava bem ali, né? Continuamos. Infelizmente passados dois anos morre o meu marido. Ele, eu já sabia que ele estava doente, né?

 

P/1 – O que ele tinha?

 

R – Ele tinha Mal de Chagas. Como o médico falava, “Ele pode morrer agora e pode viver muitos anos, mas quando eu soube eu fiquei muito chocada. Eu não podia chorar, eu não podia falar com ninguém porque a irmã dele é daquelas, se eu falasse não sabia se controlar, ia chorar, ia... E, ela já tinha sofrido muito, perdido o marido e a mãe, né?

 

P/1 – Ela continuava morando na casa?

 

R – Continuava, todos juntos. Aí, então, o que eu havia de fazer? Eu tinha que ser o apoio, eu que tinha ali ser a durona. Às vezes eu tinha vontade de chorar e não podia chorar. Meus filhos eram pequenos, quando meu marido estava assim ruim, eu punha cada um, ficava sentado na cadeira porque se ele sentisse qualquer coisa pra ir me chamar porque às vezes eu estava lá pra dentro fazendo as coisas. Infelizmente, eu saí pra... foi o dia 14 de julho. Em julho, eu quis ir pra Niterói porque minha irmã era enfermeira, lá Hospital do Servidor do Rio e ela falou: “Se você puder vir aqui nós vamos fazer todos os exames outra vez pra ver o que é.” E eu fui. O médico, Doutor ______ falou assim: “Você tem coragem?” “Eu tenho”. “Você tem coragem de levar...?” “Eu tenho, eu levo”. “E ele vai lá, nós vamos passar as férias e ele vai voltar”. “Você tem certeza?”. Falei “Tenho. O que que o senhor acha?” Ele disse: “Olha, você leva esse remedinho e essa injeção qualquer coisa você dá a injeção?”. “Eu dou”. Porque eu sabia dar injeção. Daí fomos para o Rio, fomos pra Niterói, ficamos na casa da minha irmã, a minha irmã que era enfermeira. Foi lá, trouxe o médico, fez os exames, mas era a mesma coisa. Não tinha. O coração dele, eu já tinha visto, estava muito grande, dilatado já, né? Eu já tinha visto aqui, o médico, Doutor (Puci?), era muito meu amigo e, ele mandou eu ver no Raio X. Eu vi. E ele falou: “Você precisa ter muita coragem porque você pode sair, ele pode morrer dormindo, ele pode morrer de qualquer jeito”. Aí, nós fomos. A irmã dele quando eu falei que eu ia para o Rio ela ficou! Falou que eu era louca, que eu não devia ir, eu disse: “Eu vou, eu vou Lili, e ele vai e volta, que eu quero ir lá levar nesse médico”. Aí, eu fui. Passamos umas férias boas, mas ele ia à praia só de carro, não podia andar muito. Ele ia, voltava, mas pelo menos a gente sentou na mesma praia, no mesmo banco de quando a gente era namorado, tudo isso, né? Tudo bem, aí, nós voltamos, quando foi dia 31 de julho, era aniversário da minha filha, ela fez 11 anos, eu passei em Niterói e depois eu vim, chegamos aqui no dia primeiro de agosto. Ele estava bem. Saiu, foi trabalhar e o sócio dele, o amigo, sabia, né? Eu falava: “Qualquer coisa...”. E, eu sempre estava no escritório junto com ele, eu ia, porque eu sabia que eu precisava ficar perto dele, né? Um dia então ele falou: “Ô Daca, eu quero ir nesse médico, Dr. Camargo. Eu quero ir nesse médico porque ele falou que ele me sara”. Eu não queria ir. Então nós fomos, fomos num médico chamado Dr. Camargo. “Ah, você vai ficar bom e não sei o que...” Eu olhei para o médico e falei assim: “O senhor tem certeza?”. “Não! Ele vai tomar essa injeção”. Isso foi no dia 13. Foi no dia 12. Se ele vai tomar essa injeção, tudo bem. E, aí, no dia 12 fomos à tarde, dia 13 nós tínhamos ido no, como é que chama? Pra fazer exame de sangue. Lá no Hospital, não é no Emílio Ribas, lá é doenças infecciosas, é lá no  Hospital das Clínicas pra ele fazer uns exames de sangue. Isso foi dia 13. Fez os exames de sangue, nós viemos pra casa. Aí, eu chamei o farmacêutico, chamava-se Seu Mário, “Dá essa injeção que o médico...” Ele olhou, é pra dar, deu. Foi, isso no dia 14. De manhã ele deu. Nesse dia ele não quis sair de casa. Ficou em casa muito cansado, tudo isso. Aí, nós fomos jantar, eu não saí de casa também, fomos jantar. E, a minha filha era bandeirante, a Maria ____ era bandeirante. Esse dia ela foi. A vida era normal em casa. Quando ela chegou, acabamos de jantar, ele falou assim: “Eu quero ir para o quarto”. Aí, eu peguei, ele levantou-se, estava com roupão e deitou. Ele não deitava, ele encostava na cama e eu punha porção. Aí, ele falou assim: “Hoje você tira uns travesseiros e deixa mais baixo.” Antes de ele ir para o quarto a minha filha entrou. Entrou e falou: “Ô pai!” deu um abraço. Ele falou: “Que saudades de você minha filha”. A minha filha virou e: “Eu também de você pai”. E eu falei, “Então, vai jantar que o pai vai deitar”. E, eu fui, deitei. Deitei, eu ajoelhei na cama assistindo o ____, eu fiquei ali, “Ai não, estou bem, pode ficar sossegada”. Nisso tocou o telefone. Daí a minha sobrinha falou “Tia, telefone para o tio.” Falei: “Deixa eu ir atender”. Fui atender, resolvi. E, quando eu entrei, meu quarto era de escritório, mas era quarto. Aqui era a sala de estar, aqui era a sala de jantar e a televisão estava aqui. A minha cunhada estava sentada assim, aqui era a porta do quarto, ela aqui, falei: “Lili, abaixa a televisão que está alto”. Eu abri a porta, ela falou assim: “Nené morreu!” Falei: “Que morreu nada!”. Quando eu cheguei no quarto eu ainda dei a injeção nele, ele tinha acabado de morrer. Aí, telefonei, chamei a ambulância, chamei todo mundo, já não tinha mais o que fazer, ele morreu. Morreu sozinho, porque eu saí do quarto, foi naqueles três minutos que eu saí do quarto. E, aí foi aquela correria, aquela coisa, né? Eu não podia, eu tive que... Aí, chamei meu irmão, tudo, foi velório em casa, tudo isso. Eu não derramei uma lágrima, eu não chorei, eu fiquei... Parecia que não tinha nada em mim. Tudo bem. Eu não podia chorar, não podia gritar, por causa das crianças e mais por causa da minha cunhada e do meu cunhado e dos meus sobrinhos também. Eles gostavam, até hoje. Eles falam “a tia” com a boca cheia. A gente se dava muito bem. Tudo era com a tia. Se era uma injeção era com a tia, se precisava levar no médico era com a tia, se precisava ver qualquer coisa na escola era com a tia, era tudo eu, porque a minha cunhada trabalhava. Aí, então, eu sei que quando ele morreu, eu desmontei a casa. Fui passar uns tempos na casa do meu irmão e depois eu aluguei uma casa e aí que eu fui trabalhar. Agosto, setembro, outubro, eu fui arranjar os papéis porque tinha dinheiro, uma porção de coisa que eu precisei ir à Santos arrumar. Aí eu tinha que trabalhar. Eu que nunca tinha trabalhado na vida.

 

P/1 – E a senhora foi trabalhar do que?

 

R – Foi assim, eu peguei o jornal, eu falei: “Eu preciso trabalhar”. Já tinha arrumado os papéis, tudo, já estava mais ou menos com a vida assentada, as crianças continuavam na escola, tudo, então, eu falei assim, o meu mais velho estava com 14 anos, o outro com 11 e a menina com nove anos, falei: “Eu tenho que trabalhar porque ele deixou dinheiro, mas... Deixou seguro, tudo”. Mas eu não tinha experiência da vida. Eu era dona de casa, mas não tinha experiência. Porque ele ganhava e eu distribuía, sabia. Ele dizia: “O dinheiro você que sabe o que faz”. Ele não tomava conhecimento, do que eu gastava, nada disso. Então, eu falei, peguei o jornal e vi que a maternidade São Paulo precisava de atendente. Eu falei: “É lá que eu vou”. Porque eu gosto, fui lá. Eu chego lá, falo com a Irmã: “Eu vi o anúncio que precisava de atendente aqui”. “Ah, minha filha, mas já acabou.” Falei: “Ah, que pena.” E fiz assim: “Está bom. Até logo.” Ela disse: “Não, vem cá. Por que você quer trabalhar como enfermeira?” Eu disse: “É porque eu sou viúva, eu tenho filhos e eu preciso trabalhar. É uma coisa que eu gostaria de fazer porque eu ia estudar. Eu sei, eu tenho noção, tenho alguma coisa”. Aí, ela falou assim, ela olhou bem pra mim e falou assim: “Mas você pode trabalhar qualquer horário? À noite?”. “À noite, qualquer horário, eu faço.” “Então está bem, deixa seu nome e preenche esta ficha. E, você, amanhã cedo vai tirar a sua carteira de trabalho. E vem aqui pra fazer os exames”. E perguntou: “O que eu tinha de estudos. Eu falei. Ela: "Está bem." E o que que você quer fazer?” Eu quero tomar conta de criança, recém nascido.” “Tudo bem.” Eu acho que ela gostou do meu jeito, eu não sei. No outro dia eu fui na Martins Fontes tirar a minha carteira. Tirei a carteira. Quando eu estava voltando, bem aqui na esquina da Consolação, encontro um amigo, (Victor?): “ O que você está fazendo aqui Dariete?” “Eu fui tirar a minha carteira que eu vou trabalhar lá no Hospital.” “ Você não vai trabalhar no hospital não. Você vai trabalhar comigo na cooperativa.” Aí ele falou assim: “Você vai trabalhar comigo na cooperativa. Não, não, não, você não vai trabalhar no hospital.” Aí, eu fui na cooperativa, que era no prédio Martineli. Cooperativa dos bancários do estado de São Paulo.

 

P/1 – O que a senhora fazia na Cooperativa?

 

R – Ele mandou eu escrever uma carta pedindo colocação. Você sabe que eu estava tão assim que não sabia escrever. Eu não sabia escrever. Falei: “Eu não sei escrever (Victor?). Não sei.”  “Mas Dariete!” Aí, ele me ditou. Estava tensa demais. Aí, eu escrevi a minha cartinha pedindo. Dizendo quem eu era meu nome, daria Castel de Camargo, viúva, residente à tal, tal, tal, venho solicitar a vaga de balconista nesta cooperativa. Assinei. Mas, o emprego estava arrumado, mas aí, falei com Seu Nelson, não era Seu Nelson o nome dele, Seu Paulo, não me lembro o nome dele. “Tudo bem. Amanhã a senhora às oito horas esteja aqui.” No outro dia levantei cedo, deixei tudo arrumadinho para os filhos. Era no prédio Martineli, eu estava morando na Rua Senador Queirós no apartamento do meu irmão porque ele não estava aqui, ele tinha ido para o Rio. Era pertinho. Então, eu levantava cedo, os meus filhos tomavam o ônibus iam lá para o Grupo, que eles estudavam no Grupo, ali na Rua Dona Júlia. Punha no ônibus, que eles também não sabiam. Então, eu levantava, punha no ônibus, depois eles tinham que na volta, descia, e eu já estava esperando em casa pra dar o almoço. Eu fui lá. Então, meu Deus do Céu, eu entrei na sala, muros de caixas, vendia tudo, tudo ali. Brinquedo, pijama, calça, meia, roupa de criança, vendia sabonete, dentifrício, vendia de tudo. E tinha uma mocinha que estava me explicando. Tudo era por ordem. Você pede uma camisa, você tem que saber a cor, o número e a ordem. Eu olhava assim, ficava até meio... Tudo bem. Uma semana ela me ensinou, na outra semana ela me largou sozinha, aí, eu tinha que fazer o caixa também, porque não corria dinheiro. A pessoa queria comprar ia lá no escritório, trazia assinava a nota depois era descontado. Ali eu fiquei um ano. Aí, minha cunhada trabalhava na Secretaria da Fazenda, houve um concurso para ser perfuradora, conferidora. Na hora do almoço eu ia fazer o curso pra eu poder fazer a seleção porque senão não podia entrar no serviço público. Era uma correria. Eu uma hora ia pra lá estudava, estudava, porque não era fácil, era com grampos, era uma máquina mais complicada, porque eu tinha que saber o cartão. Você sabe?

 

P/1 – Não sei, explica pra mim.

 

R – Então vou explicar. O cartão tinha 80 perfurações.

 

P/1 – Cartão do que que era?

 

R – Era um cartão de assim de ____, tinha colunas, 80 colunas. Cada coluna tinha, conforme o teu, podia ser o A, podia ser um número. Conforme o trabalho que eu ia bater, era alfabética, numérica e alfabética, com as duas mãos. Agora, eu tinha uns grampos que se quisesse que parasse no número dez eu punha o grampo ali, a máquina batia de um a dez, parava ali, saltava pra coluna 11, parava a dez, pulava a 11. Aí, eu tinha que bater na coluna, mais três ou quatro colunas, eu punha na outra coluna, na última coluna soltava o cartão. Era a 80 soltava o cartão. Era assim. Então, eu aprendi. Fiz o teste, passei em segundo lugar. Aí, já era outro, o gerente, era o Seu Nelson ____, ele gostava muito de mim, ele falou: “Não, você fica aqui como compras”. Porque eu já fazia compras também. A gente fazia compra pra cooperativa, roupa de mulher, essas coisas, roupas pra homem também, tudo, eu que tinha que fazer. Eu, como nunca tinha trabalhado, às vezes me dava uma vontade de chorar, mas não podia. Aí, eu fiz, saiu tudo direitinho. Aí, quando eu fui pra sair de lá o Seu Nelson falou: “Ah, não sai”. Falei, “Ah, Seu Nelson eu vou ganhar um pouco mais e eu tenho salário família, né? E, lá eu vou trabalhar só seis horas”. Ele falou: “Tudo bem, você vai, mas quando você quiser você volta.” Então, eu fui trabalhar, mas como eu ganhava era pouco, aí, eu comecei a vender as coisas. Aí, eu voltei a trabalhar na cooperativa como hora extra, como balconista. Aí, eles já estavam aqui no Largo de São Bento, eles tinham saído do prédio Martineli e estavam no Largo de São Bento. Então, eu fazia assim, como eu já tinha prática do serviço e chegava fim de ano a gente ia trabalhar extra, na (Clipper?). Então, eles pegavam, a gente fazia hora extra. Quer dizer que eu trabalhava de manhã na Secretaria da Fazenda, depois eu ia trabalhar da uma hora, lá eu trabalhava por hora, até às seis horas eu trabalhava ali, depois eu ia pra (Clipper?), chegava lá às sete horas e trabalhava por produção. O que eu trabalhasse era por produção, se eu trabalhasse pouco, ganhava pouco, então era assim. Geralmente era 20 dias, no máximo um mês que a gente trabalhava na (Clipper?). Todo fim de ano era aquela correria. E, de vez em quando, quando alguém sabia de outro extra a gente ia fazer. Nesse ínterim eu vendia roupa, eu vendia fazenda, eu vendia doce, vendia tudo o que eu pudesse vender, eu vendia cesta Amaral. Era uma coisa muito importante, era como o baú da felicidade, a gente vendia a cesta Amaral e no fim do ano você recebia uma cesta de Natal, conforme o valor da cesta você recebia no Natal e era uma coisa gostosa. Você pagava o ano inteiro e chegava no fim do ano você já tinha a cesta.

 

P/1 – O que vinha na cesta?

 

R – Vinha conforme você comprava. Tinha cestas de vários preços, de vários tipos. A mais barata vinha, às vezes, uma lata de doce, uma garrafa de vinho, meio quilo de castanha, meio quilo de nozes, um enfeite de natal, um panetone, essas coisas. Agora, as mais caras vinham mais coisas, vinha bombom, vinha mais vinho, vinha essas coisas, mas nada importado, tudo nacional. Vendia, muitos anos eu vendia isso, depois quebrou, acabou, sumiu. Vendia também fazenda. Vendia a fazenda do seu Chantal, é aqui até, era na 25 de Março, era Rua Santo André, hoje tem outro nome. Lá eu fui por anúncio. Tudo bem. Comecei a vender. Aí, um dia ele pediu: “A senhora não quer fazer cobrança pra mim?”. Eu falei “Faço”. Porque era lá mesmo, fazia a cobrança e ele me dava um porcentagem. Aí, um dia eu cheguei lá e falei: “Seu Chantal, eu quero o mostruário novo porque tem uma vendedora lá que está com o mostruário novo e não tenho”. “Ah, Dona daria, é que hoje eu não tenho, não pode fazer...” “Por que não pode pra mim que sou mais antiga?”. “Ah, não tenho.” Falei: “Por que? O senhor não quer que eu venda?”. “Não, a senhora vem buscar amanhã.” Como eu tinha um dinheiro pra receber, no outro dia eu recebi tudo e falei: “Está aqui”. Eu falei: “E meu mostruário?” “Ah, não sei o que...” “Então, o senhor fica com tudo isso que eu não quero”. Larguei tudo e fui me embora. Não quero. Aí, apareceu um extra no Banco Itaú. No Banco Itaú nós trabalhamos seis meses de extra, aí era ótimo. Trabalhava de manhã lá, trabalhava na cooperativa e á noite ia pra lá e lá a gente ganhava bem, não era por produção. Mas tinha uma coisa que hoje que eu vejo, a gente assinava que recebia um tanto mas... Assinava, por exemplo, recebia naquela época 500 cruzeiros, que era muito dinheiro, né? Mas eu não recebia os quinhentos, eu recebia menos. E, eu, naquela época estava bom, eu queria era ganhar. Aí trabalhei lá seis meses depois acabou. Nesse ínterim quando veio um governador do estado queria implantar o FDE. O FDE quer dizer, trabalhava o dia inteiro e você ganhava, se você ganhasse 100, você ia ganhar 200, porque todo mundo tinha emprego lá. Foi quando houve... Aí, o que que ele fez? Todo mundo largou o emprego. E, eu só trabalhava Sábado, no extra, na cooperativa porque Sábado eu não trabalhava porque o extra eu não deixava. Eu ia à noite trabalhar lá. Porque no Natal a gente trabalhava à noite. Aí, então, eu comecei a trabalhar e nós fomos. Então eu ia ganhar mais, trabalhava menos, tudo bem. Mas aí, foi _____ Martins o nosso governador, aí, ele pegou e tirou, em vez de dar 100% deu só 50%. Só chefe que ganhava 100%. E, ele não podia nunca ter feito isso porque não pode abaixar o ordenado. Tudo bem, eu continuei a trabalhar, vender as coisas e nesse também eu fazia, fiz muita cortina pra fora, fiz muita cortina pra fora. As freguesas me pediam eu ia lá. Tirava a medida, o meu filho marcava, eu fazia aquela cortina americana, ele marcava tudo direitinho, chegava à noite batia à máquina e costurava. Ele arrematava e depois ele levava pra mim. Ele me ajudava também. E, eles em casa, os meus filhos, tinham obrigação, na porta cozinha tinha: um arrumava a cozinha, outro era do almoço, o outro do jantar e o meu filho mais velho trabalhava. Esse, a obrigação dele era a sala, a sala de visita e ir comigo á feira. E se, por exemplo, eu tinha uma faxineira, e eu passava a roupa no fim de semana. E se eles precisassem, ele ligava o ferro e passava. Minha filha, eles também se precisassem faziam ovo, faziam tudo, sabiam cozinhar. Nesse tempo nós morávamos na Aclimação. Nós morávamos na Aclimação, era sócia do Tênis Clube, frequentava o Tênis Clube, meu filho foi campeão infanto-juvenil, a minha filha nadava e eu também frequentava. Carnaval, tudo, eu ia lá com as crianças. Levava, não dançava, só ficava sentada pra ver eles brincarem, né? Aí, nesse ínterim, essa casa é vendida e eu vou morar no, eu mudei-me pra Rua Bacelar, numa casinha. Fui lá, aluguei a casa. Bom, mas antes, já passou muito, mas não faz mal. Aí, nós moramos na Bacelar, aluguei a casa e a casa era pequenininha mas gostosa. Meu filho ia entrar na faculdade. Meu filho entrou na faculdade. E, ele levava os amigos pra estudar, pra fazer o... Foi nos anos 60, né? Ele levava os amigos pra estudar porque ele tinha acabado o Ginásio. Ele fez o Roosevelt. Então, ele levava os amigos, estudavam lá tudo isso. E, eu então, estava trabalhando, sempre trabalhando ele também, aí ele já estava trabalhando no Banco Nacional depois ele fez concurso e entrou no Banco do Estado. Trabalhava à noite no Banco do Estado. Aí, o outro meu filho, também foi trabalhar, Secretaria da Agricultura, ganhava pouco, mas já dava pra ele, e a minha filha já tinha acabado o colegial, não era o científico e o clássico, ela tinha acabado o clássico e fez um curso na IBM e foi trabalhar na Prodam [Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da Prefeitura da Cidade de São Paulo]. Na Prodam não, trabalhou no Municipal na prefeitura e depois passou pra Prodam. e, ela trabalhou na Prodam. Quando nós dois estávamos lá na Secretaria da Fazenda, veio e tiraram, aí, nós continuamos, depois quando veio a Prodesp nós fizemos três turnos. Quer dizer que eu tinha o dia livre pra trabalhar e eu trabalhava à noite. À noite a gente trabalhava das oito até a meia noite ou às onze horas e eles levavam a gente par casa de carro. A Secretaria levava, aí, então, e nesse ínterim, eu fui ser professora de datilografia, das seis ás nove horas da noite. Foi cinco anos aula, na Avenida Santo Amaro. Era do irmão do meu cunhado. Também fui com a cara e com a coragem, foram cinco anos. Nesses cinco anos minha filha casou-se, depois eu fui, graças à Deus eu fui sorteada pra comprar casa pelo IPESP [Instituto de Pagamentos Especiais de São Paulo], comprei a minha casa que eu estou até hoje. Da bacelar a casa começou a cair. A cair não, o senhor que comprou tinha, porque a casa rachou e ele tinha medo da casa cair, né? Mas meu irmão que era engenheiro falou que não tinha perigo mas ele, um dia a senhora dele foi lá pedir. Eu sei que foi sincero, porque ele tinha preocupação comigo e com meus filhos. Aí eu mudei pra Rua Francisco Aquarone, morei lá um ano e aí eu comprei a minha casa. Nesse ínterim casou a minha filha, foi um casamento até muito gostoso, teve bolo, teve tudo. Depois casou o meu filho mais velho, nesta casa. Aí, ele morou comigo um ano e depois, ele casou em 71, em 72 casou o outro meu filho, mas o casamento desse foi no Rio, porque a moça era do Rio. Era colega da minha filha aqui em São Paulo, namorou e casou-se. Aí, cada um foi pra sua casa.

 

P/1 – E a senhora ficou sozinha?

 

R – Eu moro sozinha. Mas nesse ínterim que eu moro sozinha minha filha veio morar comigo quando ela teve neném, deixou de trabalhar, veio morar comigo. Morou cinco anos, depois saiu, depois veio morar, eu pus uma amiga comigo, do norte, morou comigo dois anos, depois foi embora. Depois veio o meu filho, o apartamento dele deu problema, teve rachaduras o prédio, precisou sair. Morou comigo, foi pra 15 dias ficou seis meses, depois tive um irmão que morou comigo nove meses e agora eu estou sozinha. Agora eu vou falar a minha vida, a minha vida atual. A minha vida atual eu vim trabalhar aqui no dia 28 de julho de 1987.

 

P/1 – Aqui na Oficina Oswald de Andrade?

 

R – Não era Oficina Três Rios. Ela tinha pouca gente, o meu trabalho eu fazia de tudo. Aqui a gente fazia de tudo. Depois eu pedi licença três meses, eu precisei ser operada, aí, eu voltei a trabalhar no dia quatro de janeiro de 1988. E aqui estou até hoje.

 

P/1 – O que a senhora faz aqui na Oficina?

 

R – Aqui eu já tomei conta de seção de pessoal, já tomei conta de limpeza da casa, isso já faz tempo, e hoje, já trabalhei no Xerox, sei mexer no Xerox, tudo isso. E, hoje eu sou auxiliar de bibliotecária. Eles fazem a mala direta, fazem seleção, a lista de seleção, essas coisas. Também o que eu gosto aqui na Oficina é que minha vida é completamente diferente.

 

P/1 – O que mudou na vida da senhora?

 

R – Eu faço curso de teatro, já fiz curso de teatro com o Popov. Fiz teatro, fiz curso de dança, de todas as danças com a Helena, mas esse curso não consegui acabar fiz a primeira fase. A Segunda fase eu não fiz porque como eu tenho artrose eu fiquei muito ruim e não pude acabar. Este ano eu fiz o curso de teatro da Terceira Idade com o Popov, Fernando Popov, foi muito bom e agora estou fazendo o curso de Assim Baila, é o Tango, que nós vamos fazer apresentação no dia 29, às sete e meia, se você quiser, estou às ordens. E, tenho assim uma... Gosto muito de teatro de dança, gosto, saio muito, eu viajo, vou ao teatro sozinha, eu não espero companhia. Porque se eu for esperar companhia é difícil, porque meus filhos cada um tem a sua vida. Meus netos já são todos moços, Rogério, de 19 anos está fazendo cursinho para jornalismo, a Marcela, está no Mackenzie, Direito, primeiro ano. O Rodrigo, esse meu Rodrigo, está com 17 anos ainda não acabou o ginásio, vai acabar agora. Tem o Guilherme que está com 16 anos, já está no segundo colegial. E, tem agora a Ana Cristina, ela está com 8 anos, está na Quarta série. Não, dez anos, no quarto ano do Grupo e ela vai fazer primeira comunhão agora dia 25, estuda no Dante Alighieri. Agora os meus netos, outro dia eu perguntei assim: O” que que vocês acham da sua vó?”. O primeiro que toca, esse toca baixo, ele fala: “Me chama de Dadá”. Eu perguntei “Dadá, o que você quer ser?”. “Eu quero ser jornalista e quero ser fotógrafo de jornalista”. “O que que você quer ser?”. Eu quero fotografar coisas diferentes, por exemplo, uma guerra, uma luta”. “Meu Neto!”. “Vó, tem guerra. A gente é contra, mas existe”. Eu falei “Bom, isso está certo”. Agora, pra minha neta, eu falei “Marcela, o que que você quer ser?”. Ai vó, eu quero ser, eu vou estudar...”Porque o pai dela é formado em Direito, né? “Vó eu quero ser, eu estou estudando direito.” “Mas o que que você quer? Porque o direito tem duas divisões, tem a cível e a criminal. Qual que você quer? E tem a tributária.” “Não, eu quero ser a cível”. “Tudo bem, o que você quer ser?” “Por enquanto eu não quero trabalhar nem em desquite, não quero fazer nada, eu quero fazer outras coisas.” “Tudo bem.” Agora para o meu neto, esse que está ainda na oitava série, ele toca muita coisa de ouvido, ele está no Colégio Bilac e faz parte da banda. Ele toca trompete de vara, ele gosta de música, mas não estuda, o músico tem que estudar, eu falei “O que você acha da vó?”. Ai Dadá você é tão legal.” “Você quer que a vovó mude?” “Seja como você é”. Esse meu neto ele nasceu na minha casa, ele era pequenininho, dormia no meu colo, “Dadá, faz um ‘cainho’ pra mim dormir”. E até hoje é um bruta meninão e senta no meu colo. Ele tem um metro e tanto de altura.

 

P/1 – O que a senhora falaria para eles? Da sua experiência de vida, para eles, para os seus netos, para os jovens?

 

R – Meus netos, eles acham... Eu falo: “Vocês acham a sua vó assim, fazendo curso de dança, de... Ah, eu fiz o teatro, aquele teatro do Antônio, que fez a Paixão de Cristo, eu fiz a Paixão de Cristo. Nós fizemos aqui. Eu fiz lá no teatro, como é que chama? No Mazaropi. Fiz apresentação. Todos eles foram me ver apresentar no teatro. O Rodrigo, que toca pistão, ele acha “Dadá, eu gosto como você é”. E a Ana Cristina, que é a menor, que vai fazer primeira comunhão, eu falei: o que você acha da vó? Você acha que ela não bate bem? Ela meio ‘loucada’?”. “Ah não vovó, gosto de você assim.” Agora, conclusão, os meus netos acham que eu estou certa, que eu devo continuar a vida como eu levo. Tem muita gente que tem a minha idade e não faz o que eu faço. A minha filha não faz o que eu faço. Eu tenho a impressão que quando o pai morreu, aquele abraço que ele deu nela deixou muito marcado. Uma jovem senhora triste, ela não é alegre, ela não é como eu. Eu apesar de ter sofrido, sofrido entre aspas porque isso vida, né? A vida é sofrimento, alegria e tudo e esse meu sofrimento eu acho que não foi... Se precisasse passar tudo o que eu passei eu queria voltar e viver e fazer tudo outra vez.

 

P/1 – O que a senhora acha que mais marcou na vida da senhora?

 

R – O que mais marcou a minha vida? De bom ou de ruim?

 

P/1 – A senhora que sabe, pode ser bom, pode ser ruim.

 

R – O que muito marcou na minha vida foi, fiquei 15 anos de casada, eu não sei se foi pouco tempo, eu fui muito alegre, gostei demais e não me arrependo de ter casado. Só que eu acho que a vida que eu pensei foi boa pra mim, não tive desilusão com o casamento, não tive. Se fosse pra voltar e lutar pra casar como eu lutei eu voltaria a fazer tudo outra vez. Única coisa, não que eu me arrependa, é que não tinha que ser, se eu tivesse feito faculdade, não sei se a minha vida seria assim. É isso, porque na minha casa eu sou a única que não tem nível universitário. Minhas irmãs todas têm. Tem uma irmã médica, uma irmã enfermeira, meu irmão que era aviador, que faleceu e tenho a minha irmã que é enfermeira que hoje é nível universitário e tenho o outro meu irmão que ele é professor também. Eu ia fazer... Minha mãe queria, porque todas as minhas irmãs, as três, são formadas professoras. E, eu não quis porque eu achei que eu devia ser mãe de família. Minha mãe falava assim: “Mãe de família não é profissão. Não é profissão, você tem que estudar”. E uma coisa que eu gosto de fazer, que consegui agora, é estudar piano. Eu estou estudando piano.

 

P/1 – A senhora estuda piano?

 

R – Estudo piano.

 

P/1 – O que a senhora toca?

 

R – O que eu toco? Eu estou estudando agora, porque eu estudei três anos com uma professora e não aprendi nada. Agora vai fazer dois anos que eu estou com a Dona Leda, que é uma ótima professora, que eu sei tocar. E, toco “Feliz Ano Novo”, toco “Ave Maria” de Gounod, que essa eu quero tocar, toco, ai, não sei mais o que eu toco. “Rêve d'Amour”, estou tocando... Não me lembro os nomes das músicas, eu toco “(Long Long?)”, toco “Suzana”, essas coisas que eu toco né? Meus filhos estudaram um pouco de música, mas infelizmente, quando o pai morreu não pude dar mais estudo nenhum. Pude dar estudo de violão, mas eles não quiseram. A minha filha quis piano e o meu filho estudou violino, mas depois acabou.

 

P/1 – Qual o sonho que a senhora tem hoje? O que a senhora gostaria de fazer?

 

R – O meu sonho? O meu sonho dourado? Esse sonho é muito grande, é comprar um terreno bem grande, fazer uma casa pra cada filho e eu morar no meio. Quer dizer, uma Casa, todo mundo mora junto, mas a tem a sua vida independente. O dia que eu, por exemplo, quero reunir, se ele quiser vir almoçar comigo ou jantar ele vem se o dia que não quiser não vem. Porque meus filhos são muito independentes. Eu criei meus filhos independentes. Eu convido, quer vir vem. Se eles me convidam eu falo não estou disposta, não quero ir e não vou. se o meu genro fala: “Passa na minha casa. Quer ir almoçar comigo?”. “Ah não. Hoje eu não estou disposta”. Não vou. Qualquer um dia. Eu falo “Não quero.” Não vou. Eu tenho essa independência. Moro sozinha, não me sinto só. Não sou uma pessoa sozinha porque eu gosto de ler, eu gosto de sair, eu gosto de música. Gosto da música popular, gosto da música erudita, gosto de ópera. A única ópera que eu assisti na minha vida foi O Guarani. Isso há muitos anos quando eu era estudante ainda, lá em Niterói, no Teatro Municipal de Niterói.

 

P/1 – A senhora tem mais alguma coisa que gostaria de falar pra gente? Que a senhora lembra?

 

R – Que eu lembre, que eu goste? Eu gosto de trabalhar aqui. Eu gosto de trabalhar aqui. Agora, meu sonho dourado que eu acho era descer o Rio São Francisco naquele barco, você já ouviu falar?

 

P/1 – Por que é seu sonho dourado?

 

R – Porque eu acho aquilo... Eu nunca fui, mas uma amiga minha foi e falou que você vê a natureza, vê a pobreza, vê a beleza do mundo. Falou que é muito bonito. Já estive uma vez pra ir, mas o barco não pôde ir, não tinha companhia. Agora, a última vez que eu quis ir, o barco, como o Rio São Francisco encheu muito, e ele estava quebrado, não foi. Mas no Brasil eu já fui à Manaus, conheço o Sul inteirinho, conheço Minas, conheço Pernambuco, todas férias, agora eu fui à Porto Seguro, eu conheço o Espírito Santo, eu viajo, o sul eu viajo. Gosto. Já fui à Foz do Iguaçu, o Sul eu conheço inteirinho. Agora, o único lugar que eu tinha vontade de ir, que o meu filho falou que pra mim é difícil, eu queria ir ao México. Ele já esteve lá falou que é muito alto, eu me sinto mal. Então, sabe onde que eu tinha vontade de ir? Ao Peru, para ver os Incas. Agora eles estão fazendo aí um curso dos Maias, né? Vou assistir umas aulas. Eu sou uma criatura realizada, me sinto feliz, pessoalmente fazendo esta entrevista com você.

 

P/1 – Pra gente terminar a última pergunta. A senhora acha que foi importante ter deixado essas lembranças registradas, sua história de vida?

 

R – Foi ótimo. Uma coisa que eu achei ótimo, ser lembrada, ser convidada pra fazer isso. E aqui, eu não sei, agradecer a todos meus colegas que eles gostam de mim, pra mim são todos meus netos, eu gosto muito deles. E é sincero, porque eu sou uma criatura quando eu não gosto... Isso é um defeito que eu trago do berço, quando eu não gosto eu mostro no rosto. Minha mãe brigava comigo, o meu marido também, minha filha “Mãe, dá um sorriso.” Falo: “Não posso, minha filha, não dá”. Esse é um pecado que eu trago comigo, é um mal que eu trago. Eu procuro tirar, eu sei que é uma coisa que... Por mais que eu me esforce sem querer eu demonstro. Eu sei que é uma qualidade muito ruim que eu tenho, mas o que que eu vou fazer? O que você acha?

 

P/1 – A senhora que tem que achar, né?

 

R – Eu que tenho que achar, mas eu sei que não está em mim é muito espontâneo, mas eu procuro evitar. Mas aqui, graças à Deus, gosto de todo mundo. Sou muito feliz aqui e quero viver muitos anos feliz aqui. Não sei até quando eu vou trabalhar, se pudesse até os 80 eu vou.

 

P/1 – Muito obrigada Dona Daria.

 

R – Cláudia, muito obrigada você. Mais um amigo. Você querendo mais alguma coisa

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