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História

"A gente não trabalhava, a gente ribalhava"

História de: Roberto Assad
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Roberto Assad nasceu em 1940, na pequena cidade de Muqui, no Espírito Santo. Seu pai era agressivo e violento e sua mãe fugiu com Roberto ainda pequeno para Vitória. Com a mãe tuberculosa, Assad foi matriculado em um internato católico, de onde saiu bastante traumatizado. Era mal alimentado e obrigado a participar das cerimônias religiosas. Depois, entra para o exército, onde faz CPOR. Ingressa na faculdade de Geologia e entra na Alcan logo após se formar, indo trabalhar na Amazônia com bauxita. Assad trabalha anos com isso, se especificando em bauxita e caulim, e é contratado pela Vale para explorar as regiões de Paragominas e Almeirim. Conta diversas histórias de seu tempo de Vale, e diz que foi um emprego muito divertido, ele e sua equipe estavam sempre rindo, como eles mesmos diziam na época: "A gente não trabalhava, a gente ribalhava". 

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História completa

P/1 -  Roberto, vou pedir para você se apresentar dando seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome é Roberto Assad, data de nascimento oito do cinco de 1940.

 

P/1 - Em que local?

 

R - Na cidadezinha de Muqui, no Espírito Santo. Bonito, né?

 

P/1 - Bonito. (risos)

 

R - __________. Muito bem, vamos apresentar o início da nossa entrevista, uma melódica rápida e sutil, e sutil.

 

P/1 - Por favor.

 

R - (som de um instrumento musical) Aproveito ter esse momento de rara oportunidade, entrevistar essa peça rara de nome Roberto Assad. Agradeço o convite por estar aqui agora, para divulgar o possível que aconteceu no outrora, antes que eu vá embora para o outro lado do viver. Arranquem tudo do amigo, o que ele tem para dizer, acho sinceramente que não vão se arrepender. (som de um instrumento musical)

 

P/1 - Muito bem! (palmas)

 

R - Muito obrigado.

 

P/1 - Vamos continuar então. (riso) Bonito, hein?

 

R - Podem continuar.

 

P/2 - Bonito, abertura é...

 

R - Gostaram?

 

P/1 - Muito bonito. Fala de novo o nome que eu vou anotar, o nome disso.

 

P/2 - Desse instrumento.

 

P/1 - Deste instrumento.

 

R - Esse aí, esse aí seria um...prelúdio.

 

P/2 - Piezzola.

 

P/1 - É a... Pianola

 

P/2 - Pianola.

 

R - Esse instrumento é uma pianola.

 

P/1 - Mas e o outro, a gíria, a gíria?

 

R - A gíria chama-se escaleta. 

 

P/1 - Escaleta, o apelido escaleta

 

R - Tá certo? Tem um lamento que eu posso complementar, seria um lamento árabe rápido. (som de instrumento musical) (canta) em árabe)

 

(palmas)

 

P/2 - Isso é um lamento árabe?

 

R - Um lamento árabe.

 

P/2 - É.

 

R - É. Para o início da entrevista seguir perfeitamente. (riso)

 

P/2 - Isso que o senhor tocou, a primeira peça de introdução é o que, é o que, é um prelúdio?

 

R - É um prelúdio meu para vocês.

 

P/2 - Ô, obrigado hein?

 

P/1 - Obrigado. (riso)

 

R - Essa felicidade que eu sinto que está presente aqui para falar esse passado, né, contar essa história toda.

 

P/1 - Então Assad, me fala por favor o nome de seus pais, a origem da família.

 

R - É os meus pais… (pausa) Os meus pais, os nomes deles Wilson Assad, grande Wilson Assad, maior ponta-esquerda do Espírito Santo, grande jogador de futebol. Elizete Preto Assad, nascida em família rica, vocês vão ver o retrato lá fora, muito nobre, talvez a mais rica do estado de Muqui, mas que depois com a, com o desenvolvimento aí da ignorância do meu avô foram se tornando pobre, pobre, pobre, e isso aí acarretou assim um, uma coisa muito estranha, de berço esplêndido e nobre, todo o mundo acabou ficando, acabou padecendo, né, por essa perda, os irmãos todos jogavam, né, irmãos do meu pai.

 

P/1 - Jogavam o quê? 

 

R - Jogavam tudo.

 

P/1 - Cartas?

 

R - Carteado, tudo etc. O meu pai, além de ser jogador de futebol, era campeão de sinuca do Estado do Espírito Santo jogava muita sinuca, nenhum deles foi mandado para a escola, porque o meu avô, eu acho que partia do princípio, né, para deixá-los assim meio ignorantes para poder dominar, isso é muito comum do árabe, né? Aliás o meu pai, o meu pai conta, que eu não presenciei essa época toda, do 0 aos 7 anos eu presenciei quase nada da minha vida, mas conta o meu pai, meu pai conversava muito comigo, meu pai já é falecido, que certa vez ele tentou mandar, meu avô tentou mandar meu pai aqui para o Rio de Janeiro para estudar no Instituto Lafaiete, mas quando meu pai estava na estação para pegar o trem, ele veio de lá correndo, meu avô: “Wilson, volta, não vai para Rio estudar não, vai ficar burro aqui mesmo, porque senão você passa a perna em todo o mundo, passa a perna papai. Fica aqui burro com teus irmãos vai puxar carroça. Volta. Cancelado.” E todos os irmãos ficavam idiotas, um roubava o outro etc., uma tragédia. E eu tinha uma tia que era cartomante, Tia Maria, e. Conhecedora profunda do assunto, morava no Rio de Janeiro, e deixava duas primas minhas lá no Muqui, elas moram hoje no Rio, para ser informante dela, então as minhas primas ficavam lá, sabia a vida do povo todo, aí minha tia Maria vinha, chegava lá no Muqui, toda aquela parafernália, roupa, balangandã: “que que está acontecendo com a família de fulano?” aí as meninas: “Isso aqui, isso aqui, o marido largou, vai largar, tem amante, o amante sei que não gosta dela.” “e essa?” “também ela tem um amante...” “e essa? Pode chamar o povo.” Aí o povo vinha para consultar com ela, aí ela sabia tudo, as mulheres ficavam doida: “Dona Maria, só a senhora.” (riso) “A senhora é um fenômeno, que maravilha!” E assim foram de sucesso em sucesso, uma coisa incrível. O meu pai, ele uma vez roubou o cofre do meu avô, né, nos 18, 19 anos roubou o cofre do meu avô, ele era o caçula, pegou esse dinheiro, ficou com medo, correu para casa do irmão com medo, que morava mais retirado, chamava Assadin, mais velho, aí chegou lá: “ Assadin, estou aqui correndo, estou com medo de papai, eu abri o cofre dele, roubei.” “O quê? Você conseguiu abrir aquele cofre. (riso) E quanto você trouxe?” “Ah, eu trouxe aqui, só 50 reais.” (riso) “O quê? Você rouba o cofre do papai e vem para cá só com essa quantia ridícula, volta daqui filho da puta, pensei que você ia entregar mais dinheiro.” (riso) Essa foi uma família que foi se acabando, se acabando, se acabando, nessa, nessa pobreza.

 

P/1 - Mas seus avós…

 

[corte na entrevista]

 

R - (som de um instrumento musical) 

 

P/1 - Muito bem! (aplausos)

 

P/2 - Boa.

 

R - Bonitinho, né?

 

P/2 - Essa vibradinha é o tema da música, né, ô...

 

R - O tema da coisa, difícil é fazer isso, você com aquela boca, você não faz essa coisa, essa tremura.

 

P/1 - Assad, vamos continuando?

 

R - Vamos continuar.

 

P/1 - Então, fala por favor da origem da sua família, do seu sobrenome.

 

R - Então, os meus avós vieram da Síria já com dinheiro, né, meu avô veio primeiro, depois veio minha avó.

 

P/1 - Você sabe quando?

 

R - Olha, não tenho idéia disso aí não tenho não, não sei dizer para vocês não, e, mas eu acredito que entre 1930 e 1940, né? E foram se estabelecer, primeiro ele estabeleceu-se em Campos, uma localização rápida. Muqui, a cidade que eu nasci, é sul do Espírito Santo, e fica mais ou menos a 110 Km. de Campos, que é bem conhecida, né, então é pertinho, que Campos é norte do Espírito Santo, Muqui é...

 

P/1 - Norte do Rio de Janeiro.

 

R - Quer dizer, norte do Rio de Janeiro e Muqui é sul do Espírito Santo, é pertinho. Meu avô quando ele foi para Campos, atacadista, não sei o que, ele trouxe dinheiro, foi parar em Muqui, agora porque ele foi parar em Muqui eu não sei. Chegou lá e tal, tinha cinco, seis fazendas, comprava, vendia coisa, comprava fazenda.

 

P/1 - Qual o nome dele?

 

R - É José Assad, veio da Síria.

 

P/2 - E nessas fazendas ele produzia...

 

R - Essas fazendas produziam café, madeira e boi. E ele forneceu, eu ia trazer até um livro, mas era um livro mais grosso sobre Muqui, ele forneceu a água para a cidade, ele que forneceu a água para a cidade, e não tem um monumento para ele até hoje, eu reclamo, uma coisa incrível, Muqui tem rua que tem nome de caminhoneiro nas ruas, caminhoneiro, cara que não fez nada, problema de política, né, na realidade. O interior é avassaladoramente pobre por causa desses problemas, dessas coisas, são profundamente ignorantes, esses caras lá, não sei porque, mas ficou assim. Mas o meu avô era o homem que gostava de ver as pessoas empregadas, dava muito emprego, ele derrubou um, um, ele derrubou um tremendo local lá para construir uma mansão enorme, vocês vão ver o retrato lá fora daquela mansão da minha época de glória, que é época da minha família também, toda, toda, todo o mundo muito bem posicionado, ele tirou um morro com a tal da galeota, galeota era um negócio que todo o mundo levava aquele negócio, parecia uma operação egípcia, 100 pessoas  levando aqueles troços. Enfim, era um homem criador, que sabia fazer acontecer, né? Depois morreu, eu acho ele que eu conheci ele eu tinha 5 anos, ele deve ter falecido aí pelos, década de 1940, década aí, o ano de 1945, com a morte dele, ficou a minha avó viva e os filhos em volta, todos mais ou menos idiotas, né, em volta dele, e foram levando a fortuna da família na luxúria, peças de ouro, tinha cofres de ouro em casa, cordões, relógios caríssimos, uma casa, é uma coisa brilhante, muito brilhante, peças, que só a minha prima tem uma peça guardada a sete chaves, que restou, uma prima minha, legítima, uma peça com mais de 150 brilhantes, o resto meu pai e irmãos trocavam por, por, por, não davam valor, a pior coisa que existe, gente, coloca na cabeça é a ignorância, sabe, a ignorância é uma coisa trágica, ela acaba com tudo. Então, eles foram vendendo, roubando e se roubando, jogando, foram perdendo tudo. E acabou meu pai ficando sem nada, comprou um hotelzinho, meu avô comprou para ele, um hotel, onde ele se casou com a minha mãe, minha mãe trabalhava no hotel.

 

P/1 - O avô, seu avô materno comprou o hotel? 

 

R - Meu avô paterno, é tudo por parte de pai, hein, estou falando tudo por parte de pai, parte de mãe eu tenho muito pouco contato, por parte de pai. E meu avô deu esse hotel para meu pai, hotel lá no Muqui, e o meu pai tocou, mas depois veio a separação. A separação muito pesada, né, meu pai era um pouco meio doente, naquela época a juventude dele era muito, vamos dizer, teve de tudo, carro do ano na época, era difícil ter carro do ano naquela época, carro importado, meu pai tinha, com 18, 19 anos, e teve esse hotel, mas aí problema sentimental, meu pai era muito mulherengo, né, e batia muito na minha mãe, aquele problema, que eu não acompanhei, mas alguma coisa eu devo ter percebido, né, e ela então teve que se separar. Fugiu, fugiu, fugiu para o Rio de Janeiro. Fugiu sozinha primeiro, e depois me mandou umas amigas me levarem, trouxeram para o Rio, aí eu já tinha 6 anos. Mas voltando a história da família, essa é a história, hoje resta disso tudo, foram vendendo tudo, até o casarão que vocês vão ver, está na fotografia, foi vendido depois da morte do meu avô, e restou nada, o que restou foi uma casinha que eu tenho lá no Muqui, que eu vou sempre, num terreninho que ficou lá com meu pai, uma casa muito modesta, mas que eu gosto de ir para lá e presenciar e preservar aquilo, né, meu pai gostava muito de planta e eu estou seguindo o mesmo caminho.

 

P/1 - Você tem irmãos?

 

R - Não, eu sou filho único. Eu tenho, parece que eu tenho uma irmã sim, eu tenho uma irmã, eu estou para checar, dizem que eu tenho uma irmã, que meu pai, o meu pai andou, depois da separação, parece que transou com uma mulata, uma baiana, muito bonita, e dizem que ela é minha irmã. É, a minha namorada atual está tentando até uma aproximação minha com essa irmã que mora em Vitória, está muito bem de vida, parece que é isso aí, mas eu não sei, por enquanto o que consta é que eu sou filho único, né, é uma desgraça, mas é verdade, ser filho único é triste. Então minha mãe me trouxe para cá, né, você tem alguma pergunta nesse meio?

 

P/1 - Tenho sim, é, como é que era a sua vida antes de vir para o Rio, como é que era em Muqui, a sua casa?

 

R - Iih, sabe que eu não lembro do 0 aos 6 anos eu não lembro, eu não lembro, eu sei que eu tomava muita araruta, a minha mãe parece que não me dava muito peito não, me dava muita araruta de mingau e eu fiquei com trauma, rapaz, e eu passei minha vida, por isso que eu gosto muito de peito. (riso) Eu não posso ver mulher de peito grande, eu fiquei doido, foi uma das maiores tragédias da minha vida foi negócio de peito, esse trauma, impressionante. É porque eu não tinha peito, eu não mamei na minha mãe, quer dizer, eu não cumpri aquela missão, extremamente favorável para as crianças, fiquei com essa carência, cara, isso me prejudicou a minha vida para frente, essa história, essa história peitoriana. (riso)

 

P/2 - E isso até hoje tem (riso) reflexo.

 

R - Reflexos! Larguei a minha primeira mulher que apareceu um rabo de coelho, porque era problema de peito, ela era bonitinha etc., de Ipanema e tal, peito pequeno e tal, eu acho que foi aquilo, eu queria sugar, queria muito peito (riso) mas problema dessa coisa, entendeu, eu fui criado, é uma tragédia, isso deve acontecer com outras pessoas.

 

P/2 - Certamente. (riso) Ô Assad...

 

P/1 - Quer dizer que você lembra do Rio para cá, da vinda do Rio, e aí, como é que foi então a vinda para o Rio?

 

P/2 - Conta isso.

 

R - Pois é, então esse período de 0 a 6 anos não lembro não, eu só lembro que eu atravessei um trem andando e me salvaram, né, por baixo do trem, lá quando eu tinha seis anos, única coisa que eu lembro, mas não lembro coisa assim. Vim para o Rio, aí gente, ó, vou lembrar aqui essa parte do Rio de Janeiro rápida, dos fatos, é, mais importantes, me desculpem aí o momento. (folheia caderno) Olha, o que acontece, eu venho, minha mãe me traz para o Rio de Janeiro, tinha apanhado muito do meu pai, né, vem para cá, cara, numa miséria, agora vou te contar uma coisa, dos 7 aos 12 anos, ô Cláudia, eu fiquei internado que não é essa, como é o nome desse troço que interna menores?

 

P/1 - Febem.

 

P/2 - Febem.

 

R - Não é, não é para marginal, mas é para gente que deu extremamente azar ao nascer por um problema qualquer, quer dizer, extremamente miserável e extremamente religiosa, fiquei numa tal de Escola Moreira dos 7 aos 12 anos, então são cinco anos fundamentais na vida da criança, onde eu passei de tudo de ruim que você pode imaginar.

 

P/1 - Você morava lá?

 

R - É, é minha mãe me botou lá porque...

 

P/1 - Ou só ficava interno.

 

R - É porque minha mãe, depois é que eu fui descobrir agora, agora que eu tenho 60 anos, fui descobrir uma história, as minhas tias me contaram, porque que eu fui parar naquela escola durante cinco anos, porque a minha mãe quando foi para o Rio vieram numa miséria tão grande que ela ficou tuberculosa, ela pegou uma tuberculose pesada, uma tuberculose Porque naquela época, no início da penicilina, então não podia ficar perto de mim, então teve que me botar nessa porra, ela não podia botar no colégio, não tinha dinheiro, me botou nessa porra dessa escola Moreira, eu fiquei lá então cinco anos.

 

P/1 - Interno na escola?

 

R - Eu ia todo o mês, passava dois dias em casa, uma criança. Agora essa escola para você ter uma idéia do que ela fazia, e eu era peixinho ainda, da diretora, você comungava, era extremamente religiosa.

 

P/1 - Católica?

 

R - Católica, você comungava e confessava quase todo o dia e aí eu segui todos aqueles negócios da religião católica, né, eu fui congregado mariano, super mariano, faixa preta de igreja, seguidor de santo em tudo que é ordem, (riso) coroava Nossa Senhora todo o dia, aquele tempo que eu tinha boa voz.

 

P/1 - Cantava?

 

R - Vestia de anjinho, trepava naquela porra daquele altar, cheio de anjo embaixo, igreja repleta, eu cantava: “Esta coroa que te oferto...” naquele tempo só lembro do final. Um dia eu caí com aquela porra toda por cima dos santos (riso) foi uma merda na igreja porque caiu tudo a santa, eu, os anjos, os anjinhos que estavam por baixo, para reconstituir aquilo tudo, porra, foi uma desgraça. E eu comungava muito, mas como eu tinha muita fome eu comia a hóstia, o melhor momento para mim era comer o...

 

P/1 - Hóstia é gostoso.

 

R - Comia a hóstia, comia, e que voltava para comungar o padre me dava um esporro: “Quer comungar de novo?” “Eu preciso, preciso de Jesus.” (riso) Aí comia a hóstia, cara, olha, espera gente, vocês não querem passar... Mas teve algum problema, na escola mostrava uns quadros tenebrosos.

 

P/1 - Pintura? (risos)

 

R - Mostrava, tá entendendo, com cobra rapaz. (risos) O camarada que não fosse religioso, não seguisse aquela porra toda, ia ser trucidado pela aquelas serpentes e fogo, cobra, garfo contra o peito, eu olhava para aquilo, “não vou, eu não posso ir para essa coisa.” E comungava, confessava, eu comungava, confessava, até que chegou um cara, olha, quanto negócio, quanto trauma que eu tenho na minha vida, você sabe que eu lembro se o cara me comeu ou não (risos) eu tenho essa dúvida, eu fui e nem sabia, cê sabe, não é brincadeira. 

 

P/1 - Como que é que você tem dúvida disso?

 

R - O 36 era o número dele, guarda coisa de sete, oito, nove anos, além disso se eu não desse para ele eu ia para o inferno.

 

P/1 - Nossa.

 

R - Eu ia para o inferno. E fazia assim para mim: “olha o diabo, (riso) olha o diabo”, aí eu: “Puta merda, se eu não dar para esse cara eu vou parar naquela merda, cheio de garfo, faca, e coisa de fogo.” Eu não sei o que aconteceu, eu te juro que eu não sei, se eu tivesse, eu tenho dúvida, mas com certeza ele deve ter comido. (riso) Então, tinha o dia mais importante dessa escola para mim, era o dia de Cosme e Damião, que você comia arroz.

 

P/1 - Ai, _______ né?

 

R - E nessa época também aconteceu uma coisa, Cláudia, eu quando ia para casa não ficava em casa não, eu era jogado para a Marechal Hermes, eu morei em vários locais, sabe aquela criança que fica jogando você para vários...

 

P/2 - Mas você ia em lugares do que, era casa de amigos?

 

R - Não tinha lugar definido, né? Ia para outras pessoas da família.

 

P/2 - Pessoas da família?

 

R - Gente perto, Marechal Hermes, eu conheci o Rio de Janeiro aí todo.

 

P/1 - Você conviveu pouco com sua mãe então?

 

R - Convivi pouco, muito pouco. Depois minha mãe ficou boa, e tudo bem, essa história da minha mãe é um capítulo interessante, que ela estava, quando ela ficou tuberculosa, que ela estava fazendo exame aqui para negócio de professora, né, e tinha que fazer exame médico, passou na prova, mas estava tuberculosa, não podia fazer exame médico porque levava bomba, aí a irmã dela foi fazer, fiquei sabendo disso agora.

 

P/2 - Ah, é assim.

 

R - Minha tia Lacy foi para lá, já estava bem empregada, fez o exame como se fosse minha mãe, tiraram a chapa de pulmão dela, estava tudo perfeito, passou e deu tudo certo. Então esse período dos 7 aos 12 anos, gente, que eu ganhava, que eu era peixinho das diretoras e tal, que eu ganhava mais um pão por dia, sem, sem, sem manteiga, foi...

 

P/2 - E a comida lá no internato não era boa não?

 

R - Foi muito doido, meu período de infância. Aí minha perna não se desenvolveu, eu fiquei com a perna curta, não comia, até que eu fui ver porque que eu era, minhas filhas são todas altas, eu estou é meio baixo, porque eu não tinha alimentação, né? Essa tal de Escola Moreira, muita religião, muita coisa, muita loucura.

 

P/2 - E depois que você saiu da Escola Moreira?

 

R - Eu saí da Escola Moreira, fui fazer o ginásio, começou a melhorar aquela comida, né?

 

P/2 - Ginásio.

 

R - A minha mãe começou a casar de novo, né, eu acredito que era até para melhorar a minha vida ela fazia esse sacrifício, porque ela casava com cada merda, que eu vou te contar.

 

P/1 - Ela casou muitas vezes?

 

R - Ela casou várias vezes, minha mãe matou uns quatro ou cinco, (riso) Minha mãe casou, aí casou com um Clóvis, (tosse) aí a minha vida melhorou, eu morava em Quintino Bocaiúva, fui para o Méier, no Rio de Janeiro. Aí eu fazia o ginásio, escola pública, mas era uma escola, o nome dessa escola é interessante, eu fazia o ginásio, Escola de Educação Secundária Geral e Técnica Visconde de Mauá, que nome hein?

 

P/2 - Olha só.

 

R - Lá em Marechal. Tinha tudo, entrava 6, 7 horas da manhã, saía as 6 horas da tarde.

 

P/2 - Escola técnica de que?

 

R - Bela escola, ela... De manhã, a gente botava um macacão, um macacão, aí fazia curso de carpintaria, mecânica, esse troço todo, e a tarde era o ginásio, os professores ganhavam bem, a escola era coisa, alimentavam você bem, passava o dia inteiro, tinha médico, tinha tudo para você. Aí foram quatro anos, vamos dizer, remediados, vamos dizer assim, se dividir essa coisa em idade, é difícil esse negócio que que é infância e juventude e adolescência, eu me confundo toda hora, 0 aos 7 eu não lembro, 0 aos 6, teve esse problema do peito; dos 7 aos 12 miséria, tragédia absoluta; dos 12 em diante começou a melhorar, de médio, meio ferrado, até os 25 anos, 26 que eu me formei, foi melhorando um pouco, médio ainda e depois ficou médio, classe média, mas melhorando um pouco para a frente. Aí mais esse ginásio, ainda fiz escola pública, repeti o primeiro ano ginasial, interessante, que eu não queria nada, sei lá, mas depois fui o primeiro aluno, aí com o resto. Fiz o científico na Gama Filho, que na época chamava Colégio Piedade, aí fiz um científico especializado para medicina, mas fiz vestibular para engenharia, vê que loucura, claro que não passei, perdi, fui reprovado duas vezes, e depois acabei fazendo geologia, nem sabia o que era geologia e tal. Mas esse período então... Depois que a minha mãe começou a se casar, porque nesse íntegro o meu pai lá no Muqui não tinha nada, ele tinha um... aí comprou um carro, vendeu o hotel, um carro de praça, aí sofreu um acidente bravo, jogava muita bola, ele era ponta-esquerda famoso, quase que veio para o Fluminense, Flamengo aqui, mas não houve, sofreu um acidente violento, se arrebentou todo, naquela época não tinha muitas condições médicas, vamos dizer assim, mas ele conseguiu se safar, e meu pai teve seqüelas violentas, e que depois eu tive que ficar cuidando dele, né, ele teve que... aí ele vinha para o Rio freqüentemente, eu também vivo ferrado aqui, tinha que dar a assistência de filho único, sem ninguém para ajudar, né?

 

P/1 - Você ia em Muqui nesse período?

 

R - Eu sempre fui em Muqui, eu ficava aqui no Rio, aí interessante, né, cara, na época da escola Moreira, vê que negócio, por isso que a vida as vez da gente acaba ficando muito flexível, porque nessa época de escola Moreira, essa maldita escola, eu passava as férias aonde, não era aqui, era em Muqui, aquelas dois meses, tinha época que era dois, três meses, na época era três meses, chegava lá, a minha família ainda tinha o casarão, apesar do meu avô já estar morto, ainda resistiram um tempo, vocês vão ver a foto desse casarão, ia para lá, tinha aquela, comia bem, tinha aquela vida razoável, durante três meses, mas logo depois voltava para a desgraça...

 

P/1 - Eles não te ajudavam?

 

R - ...para ficar com minha mãe.

 

P/1 - Eles não, a sua família não te...

 

R - Não tinha ajuda, não havia esse negócio.

 

P/2 - O pessoal lá de Muqui era quem que ficou, os seus tios, né?

 

R - Meus tios, meu tio Michel, eu falei para você tudo burro, porque meu avô...

 

P/2 - Não deixava.

 

R - ...é igual ditadura, porque ditadura, a missão maior da ditadura é permitir que todo mundo fique idiota, porque eles só tem que dominar, né, tal… Foi por isso que as escolas terminaram na época da ditadura. Então, é, lá, eu não sei se o árabe é meio assim, vieram para o Brasil, costuma deixar os filhos sempre assim. Então o meu tio Michel, irmão do meu pai, bicheiro, mas bicheiro não é dono não, de lista, meu pai jogava sinuca, o Assadinho, o outro lá irmão, carteado, o outro lá, então todos para jogo e tal, e ficaram todos meio na, sabe aquele meio na miséria, mas morando num casarão grande. Quando eu ia para lá eu me sentia bem, meu pai tinha um táxi, conseguia ganhar alguma coisa e era razoável. Depois perdeu o táxi, perdeu tudo, aí quando o meu avô morreu houve uma partilha, essa grande casa que fizeram, houve uma partilha do terreno, ficou um pedaço do terreno para o meu pai, ele construiu uma casinha, casinha pobre, que eu vou para lá até hoje, melhorei essa casinha e etc., nessa casinha ele colocou um, um, um, fazia carteado, vendeu tudo, perdeu tudo fazendo carteado, corria o jogo, né, e ganhava o baralho. Mas o pessoal de Muqui é muito pobre, o pessoal de lá, então o pessoal joga, mas o cheque corre, tudo sem fundo, corria, tinha cheque pré-datado, para a data de não sei que, eles nunca recebem, um negócio interessante Muqui, vocês precisam visitar esse lugar.

 

P/1 - Assad, e aí você diz...

 

R - Voltando?

 

P/1 - É, vamos voltar para o Rio de Janeiro.

 

R - Voltar para o Rio de Janeiro.

 

P/1 - Você disse que não fazia nem idéia do que era geologia.

 

R - Não, não fazia.

 

P/1 - E por que então você fazer vestibular?

 

R - Fiz engenharia, eu dava aula de geometria descritiva, e de matemática, e por incrível que pareça eu não conseguia passar para engenharia e geometria descritiva, cara, e dava aula, porque uma prova normalmente para a escola de engenharia era uma questão ou duas só naquela época, o problema de duas folhas, que você rabiscava, rabiscava, rabiscava, você sabia o figurino do moleque quando estava vestido, fica aquele trançado…. E eu não conseguia, que eu tremia muito, era muito que eu não conseguia passar, problema emocional, deve acontecer isso com muita gente, o cara sabe, mas na hora de fazer uma prova ele não consegue, eu não passei. Aí apareceu um colega meu um dia, eu estava estudando, eu era doido por anel, não me pergunte porque, não, eu não sei, era doido por anel, apareceu com um anel bonito, rapaz, azul, falei: “cara, que anel, está fazendo o que, é anel de que coisa.” Eu só via que era de faculdade, tinha uma torre de petróleo num lado, tinha uns martelo do outro, falei: “Rapaz, que beleza.”  “É geologia, Assad.” “Geologia, que que é isso cara?” pelo menos o anel é bonito, “Ô Assad, essa é uma área boa, você procura vai para o mato, aquele negócio de coisa, procura.” “O mato, eu gosto de mato, rapaz, eu gosto de mato, mato é comigo, nasci no mato, eu queria fazer, eu gosto de mato, como é que faz esse vestibular? Mas trata de que esse troço?” “É sobre pesquisa mineral, sobre tudo, então o cara sabe o que que tem de interessante.” “Vou fazer esse troço, que o anel é muito bonito. O anel é muito bonito.” Que coisa idiota, né eu não sei o que… A gente vai, eu não sei se a gente vai montando...

 

P/1 - É a juventude.

 

P/2 - É.

 

R - ...de imbecil para mais imbecil ou se você... E por isso o Carlos Alberto Miranda, também trabalhou até na própria Docegeo, ele influenciou, eu fiz o vestibular para geologia e passei, aí fui fazer escola nacional de geologia no ano de 1963, tá certo? Mas nesse ínterim, eu estava fazendo em 1962, 1963, o famoso CPOR, porque eu era voltado a matemática, aí depois exército e blablablablabla, não me eliminaram e eu fui fazer no meio do vestibular esse troço, CPOR você ia só para lá nas férias, né, e sábado e domingo, um curso duro, lá em São Cristóvão.

 

P/1 - São Cristóvão, aqui mesmo no Rio, né?

 

R - Agora imagina gente, eu morava, no Méier, eu fui fazer troço de educação dois anos lá, tinha que estudar para burro, né. E foi um período também muito interessante esse do CPOR, todos os meus colegas em faculdade, que eu era o menor da turma, minha turma tinha 80 caras de artilharia, eu ficava na fila da frente por causa do problema da porra da perna que não cresceu lá na escola Moreira, que não tinha comida, cara, eu comia casca de banana.

 

P/2 - Casca de banana?

 

R - Não é brincadeira não, eu comia a banana inteira.

 

P/2 - Lá, eles não davam comida nessa escola?

 

R - A banana inteira para poder tirar a fome...

 

P/2 - Mas eles não davam, a comida era rara?

 

R - ...e tanto hóstia, que não sustentou não. Agora o negócio do CPOR foi muito interessante, porque, gente, o exército, onde eu me distraí muito na minha vida, foi lá dentro, e ninguém me aguentava, eles queriam me pegar para expulsar, mas pô, não dava, era muito interessante.

 

P/1 - Por que que não te aguentavam?

 

R - Gente, porque me distraía muito. Olha, tinha um dia, teve um dia, a gente ficava de oficial de dia, da escalada, entendeu, aí de manhã, tinha aquele batalhão, né, os 80 formados iam pelo pátio, e você tinha que ficar do lado e dar uma ordem de comando para eles olharem para a direita onde ficava lá em cima o alto comando e visitas, brigadeiros, coronéis, generais, o cacete. Um dia lá eu era o oficial do dia, aí vinha a turma, parte do CPOR: “Que, qual é o portão lá na frente.” Olhar a direta, o olhar a direita, você vai olhando para o pé dos caras, tá, tá, tá, tá, tá, tá, quando bater a direita, o pé a direita, você fala o “tá”: “olhar a direitá”, tá na direita, aí eu fui tá, tá, tá, pessoal, aí eu: “atenção turma”, eu estou lá, portão do CPOR está lá, “atenção turma, olhar a direi...” aí olhava para o pé, quando levantar, ele mudava o pé, quando eu falava tá, eu não conseguia, aí eles foram a, a ,a, a, a, a. Aí, e eu perdendo o fôlego, “olhar a direeeeeeeeeeeee”, quando eu não estava aguentando, aí passou todo o mundo, eles passaram o portão, não sei o que lá, saíram para a rua, “táaaaa”, olharam para nada, olhar lá na frente, deu uma merda, aí me botaram três dias de pernoite, pernoite você tinha que voltar...

 

P/1 - Quem que era?

 

R - Era assim: quando eu voltava, os colegas não me aguentavam, era um perigo, os cara ficava de oficial do dia “O soldado _____ preto é você?” Bateu continência, né, aí eu falava: “Apresentar arma.” Aí o cara começava com um ritual do cacete para apresentar arma: reco, reco, reco, reco, eu ficava assim: “Porra, você está ridículo, cara, que você está fazendo, apresenta essa porra direito uma vez.” Aí o cara não aguentava, queria... “Se tua família de vê, vão pensar que você está maluco.” (risos) Era assim o tempo todo, até que me colocaram, rapaz, queriam me pegar para chefe de dia de fogo, era o exame final, no exame final do segundo ano você tinha que, é, vamos dizer assim, cada um tinha que cumprir uma missão na prática, na prática, então um esticava.... a artilharia é peça, canhão, coisa séria, o exame final você vai para Gericinó, não sei se vocês ouviram falar, área de treino aqui do exército, lá para Deodoro, Serra Bonita, morro, tá certo, venta. Aí minha prova final eu fui chefe de linha de fogo, chefe é o cara que comanda a ordem dos tiros, eram oito, eram dez peças de canhão na frente para dar o tiro, na hora que o inimigo hipotético, aquilo gostava, inimigo, que aí que eu pintava, aparecia. Estavam meus colegas olhando para mim, eu chamava chefe de peça. Era o cara que chefiava cada peça, são obus de 105 mm, era o canhão por canhão, cada um chegou, enguiçava toda a hora, não sei se aquela porra ficou para o exército, ou se foi para outra guerra. Mas estava lá, chefe de peça, todos olhando para mim, exame final, eu já tinha feito todos os cálculos, aquele negócio por via do cálculo, parábola, não sei o que, alça, alça, levanta o canhão, deriva, tudo calculado, e tinha na frente do canhão, lá embaixo, um centro de observação, o pessoal ficava olhando com binóculo, tinha uns alunos também, colegas meu, olhando com binóculo: “Ô, é o Assad que está arrumando, puta, cuidado.” A bala passava por cima deles, a bala passava por cima deles, eles olhavam lá para a frente, na linha de tiro onde caíam as balas, para poder dar ordem para cá, para desviar o tiro um pouco para a direita, um pouco para a esquerda, era um comando de ajuste, como muito aí desse CP, o tiro era de verdade, pô, tinha que arrebentar uma cinco ambulância ali embaixo. O capitão esperando o meu exame, hora do tiro, tudo feito. E tinha um aluno do primeiro ano, eu era do segundo, primeiro ano com o telefone na mão, na minha frente, eu aqui toda a parafernália que eu gostava, binóculo, não sei o que, um aparato do cacete, capacete, máquinas, equipamentos, me sentia ali ótimo. Aí, “Atenção bateria.” Todo mundo olhava para mim, meus colegas preocupados, pronto para puxar aquela porra da alça do canhão, eu só podia atirar na hora que esse babaca fizesse assim para mim ó (faz gesto com as mãos). 

 

P/1 - Aí você dava a ordem?

 

R - Qualquer gesto do exército para tiro é assim, ele estava aqui, e olhando para mim e ele é que me dava a ordem que vinha desse tal de centro de não sei o que, aí eu olhando para ele e olhando para todo o mundo, e todos os CPs de peça olhando para mim, aí esse sacana, aluno, chegou para mim e faz assim ó: (faz o mesmo gesto) ble, ble, ble, ble, ble, todo o mundo atirou. Aí o sacana parou e falou para mim: “Não era, eu estava te chamando.” Eu falei: “Eu estava o quê, filho da puta, estava o quê?” “Eu estava te chamando.” Eu disse ó, aí veio o capitão, comandante meu, andava com o braço para trás assim, sabe, olhou para mim, falou: “Assad, está tudo certo, você só fez um pequeno erro, atirou sem ter inimigo.” Tive que fazer depois esse exame de novo, atirou sem ter inimigo. Ali foi fogo, depois eu consegui passar, me emprestaram uma farda, eu era de artilharia, me emprestaram uma farda de cavalaria que eu não tinha dinheiro para comprar, aí não queriam, quase que eu não me formei, fui graduado em São Januário, uma formatura com espada, eu tenho aí o retrato, hein, com espada, está bonito lá, mas está com o coisa aqui na manga não é de artilharia não, artilharia é uma arma diferente: “Eu sou da poderosa artilharia.” Eu cantava aquilo em árabe, rapaz, puta...

 

P/1 - Em árabe?

 

R - O pessoal não aguentava...

 

P/2 - Você fala árabe, ô?

 

R - (fala em árabe), a turma não aguentava, queria rir, pagava os caras. Tinha um negócio de manhã que a gente fazia no exército, tal de retirada dos obus, eu nunca entendi, retirada do canhão… O que que é isso? Essa porra desse negócio aqui foi feito em Muqui, a costureira é uma merda, o troço vem para cá... Desculpem, acontece. Assim, eu vou tomar providências enérgicas, aquele lugar idiota.

 

P/1 - Conta o caso, por favor.

 

R - Olha aqui, eu estava contando que todo o dia tinha um ritual e eu entendi porque, tinha uma época: “Retirada dos obus, você tinha que pegar aqueles canhões que estavam dentro da garagem, tinha uma rampa assim, descer com eles, pô, botava lá para fora, chegava de tarde, quando acabava o CPOR, “Colocação dos obus.” Subia todo o mundo aquela rampa. Aproveitando ô Cláudia e Leão. Aqui vai uma crítica, não sei se construtiva, o exército, rapaz, é uma organização interessante, maravilhosa, disciplinada, não é só o exército, as forças armadas, mas de uma inutilidade, principalmente num país pobre como o nosso, eu fico impressionado como é que um país desse fica com essa coisa, o pessoal, e você estuda para cacete para nada, mas estuda cara, eu lembro você ser reprovado, uma vez eu fiz um concurso para Amã, eu tentei ser tenente, na época tenente casar com professor era o quente, acho que vocês nem eram nascidos, então era o quente, mas de uma inutilidade, eu acho que tem que mudar isso, né, tá, tá difícil, tá difícil, bem bravo a situação.

 

P/1 - Enquanto estava na faculdade fazia também o CPOR?

 

R - É, só dois anos.

 

P/1 - E durante...

 

R - Não, durante o vestibular, vestibular, negócio de CPOR, que eu tomei bomba para engenharia, os meus colegas, eu tinha vários colegas que já tinham passado para engenharia, na arma de artilharia só tinha engenheiro, que é muita matemática, muito cálculo, parábola, hipérbole, não sei o que lá, é isso aí. Foi um período muito interessante, eu fiz estágio depois, ganhando no exército, aí que você vê como os caras não fazem nada mesmo, você, você fica apavorado, é futebol de salão todo o dia, é, é bravo, é bravo. Esse negócio de exército, as forças armadas serve é para país que tem que segurar, país poderoso, não é verdade, agora para os países paupérrimos, pobre, com problema, tem, tem, tem que arranjar uma coisa, não sei o que, não pergunte que eu não sei o que não, mas do jeito que tá que não dá, ficar dando ordem no quartel não, ganhando casa, não sei o que, médico, tudo de graça. Então esse foi o período...

 

P/2 - Foram dois anos, né, de CPOR, saiu tenente, como tenente?

 

R - Saí, fui para a escola de geologia.

 

P/1 - Então conta a história.

 

R - Escola no Rio de Janeiro.

 

P/2 - No Rio de Janeiro?

 

R - Escola Nacional de Geologia, eu comecei tarde, porque o meu cérebro ficou meio atrofiado, eu acho que o negócio, voltando a escola Moreira.

 

P/2 - Falta de alimentação.

 

R - Alimentação paupérrima, você pensa que não é verdade, cara, entende, me afetou, minha memória ficou meio, então eu perdi dois vestibulares para engenharia, depois passei para geologia, e fui um aluno médio, tá, na escola de geologia.

 

P/2 - Em que ano você entrou para...

 

R - 1963.

 

P/2 - 1963.

 

R - Quatro anos 1963, 1964, 1965, 1966, né? E aí vai outra crítica, vou te contar uma coisa, gente, se eu disser para vocês, sem exagero, não sei que aconteceu com meus outros colegas, não sei, se eu aproveitei 10 a 20% na minha vida prática do que eu aprendi na escola foi muito. Eu vou repetir, se eu aprendi de 10 a 20% que eu aprendi na escola de geologia para a minha vida prática foi muito. Então é uma tragédia, eu estou no Brasil, então tinha um cara, por exemplo, aula de estratigrafia, que era uma matéria importante, o cara deu aula o ano inteiro sobre a formação de montanha dos Estados Unidos, a formação do Grande Canyon, a formação disso, como formou o delta daquilo, eu falava: “O que que eu vou fazer com esse troço, meu Deus.” Eu já sacava, o que que eu vou fazer com isso, eu quero arrumar um emprego o cara vai me falar, vai me mostrar uma rocha: “Sabe o que que é isso?” “Não, isso não sei, mas eu sei como forma o Grande Canyon, não interessa para o senhor? Eu sei como um vulcão se desenvolve, um terremoto se transforma.” Uma coisa, coisa, agora e nas aulas de mineralogia prática eu me saía bem, gostava. Então eu tinha uma certa visão do que era importante ou não, mas tinha que fazer aquilo para passar, tinha um professor que era o Luneta, dava aula com uma luneta, a minha turma era terrível, era o que eu tinha lá, eu ficava, ficava, dava aula com uma luneta: “hein”, “ã”. Esse cara dava aula de estratigrafia, essa estratigrafia americana. A gente colava o livro do cara e não passava, o cara era pesado, então, você dava geologia histórica, como é que formou a pestana dum canguru gigante na época do Fanerozóico, o que que aconteceu com o pentelho da trilobita e coisa, como é que, entendeu, aí eu falei: “porra.” Aí eu chegava, eu viajava lá para Muqui para minha cidadezinha, vinha uns cara: “O cara está tratando geo... geólogo.” “Que pedra é essa? Quanto vale?” “Pô, eu não sei cara.” “Você não é geólogo, pô?” “Não, isso eu não estudo, eu sei as coisas, porra, você quer saber como é que formou a terra?” Tá certo? Isso aí gente, então eu...

 

P/1 - Tinha que por uma estampa, né?

 

R - Olha, não foi verdade, foi para esses, ficou alguma coisa da época de escola, puxa, sei que... Meus colegas eram muito malucos. Eu tinha um colega, por coincidência acabou pintando comigo na Amazônia, foi o primeiro geólogo que eu bati com ele no campo, Marcos, você sabe o que que esse sacana aprontou uma vez, eu não queria dar cola para ele, roubou minha prova.

 

P/1 - Trocou.

 

R - Roubou.

 

P/1 - Trocou pela dele.

 

R - Não, roubou, eu fiquei sem prova. “Você não vai ter prova, ele disse, não vai ter prova, não quer me dar cola, vai ficar sem prova.” Tirei zero, pô, roubou, a minha turma era muito louca, hoje são caras tudo mais ou menos bem formados.

 

P/1 - Conta um pouco aí da sua turma.

 

R - A turma era, era, era, era pesada, era pesada. E gozado, uma coisa, uma coisa interessante, um trabalho importante que eu fiz na escola, cê vê como que e a vida né, tem coisas que a gente guarda para a gente… Então um trabalho importante, que era um trabalho para dar nota de coisa, sobre bauxita, que é um minério de alumínio, né, eu fiz um trabalho grande, não é que na minha vida eu fui trabalhar com esse troço, e não me deixaram fazer outra coisa tive que fazer tal e tal, mas foi interessante ter acontecido na escola e na vida real. Mas aí me formei, né?

 

P/1 - Não, antes de formar vamos falar mais da faculdade.

 

P/2 - É antes, isso. Ô Assad, e as paqueras, como é que era na faculdade, ou mesmo no colégio, como é que era?

 

R - Olha, minha faculdade era duro, você, eu estudava das 8 da manhã, aí você vê que é um período tardio meu foi dos 23, né, aos 26 anos, estudei meio tarde, 23 aos 26 anos, minha mãe sustentava por causa dos maridos bom que ela arrumava, eu contei dos maridos?

 

P/1 - Todos não.

 

P/2 - Todos não.

 

R - A gente vai contando e dá uma voltinha rápida.

 

P/1 - Claro.

 

R - Mas lembra que eu estou na escola.

 

P/2 - Está bom, depois a gente volta.

 

R - A minha mãe teve, depois do meu pai, que teve esse monte de profissões que eu falei para vocês, o meu primeiro pai, campeão de sinuca, jogador de futebol, dono de cassino, era um cassino ridículo, mas era um cassino, etc.

 

P/1 - Táxi.

 

R - E era, era táxi, mas ela, o, a minha mãe casou depois com um perito criminal que me levava para ver os mortos, os cadáveres, e ajudar ele em Niterói, para decifrar aquela porra daqueles cadáveres que eu olhava e tal: “Roberto, vai treinando que eu acho que é uma área boa para você seguir, vai treinando, olha aqui, está vendo, como é que se dilata isso, isso aqui, o cara tomou esses tiro, veja bem, percebe por onde entrou a bala?” “Não, porra” “Não, é que eu estou doido para você fazer isso, isso aqui dá futuro, porque tem muito crime, para o resto num que dá luxo, nunca você vai parar de ter emprego, que crime a tendência é só aumentar.” Porra, não é que o cara estava certo.

 

P/1 - Estava certo, exatamente. (riso)

 

R - “Porra, essa é a área do futuro, olha o seu futuro, porra. Vamos lá, vamos botar ele nu.” “Eu não quero ver esse cara nu, porra.” “Vamos botar ele nu.” Aí tal, me dava aula e tal e tal, eu sei que viveu com esse período criminal, porque depois acabou morrendo. Aí a minha mãe casou com um fabricante de cera, que luto, hein, pô, fabricante de cera, cera líquida, cera de chão.

 

P/1- Cera de chão.

 

R - Pão-duro para cacete, fui morar em Vila Isabel, no pé do Morro do Macaco, já numa revolução, ela passou momentos agradáveis, um cara inteligente que era esse cara, mas ele tinha um problema, ele fornecia para as forças armadas cera e falou para mim: “Roberto, nunca queira trabalhar nessas áreas assim, olha, o que tem de corrupção, estão me quebrando, eu para dar cera nas forças armadas tem que dar a metade para o cara lá, brigadeiro, não sei quem, você pensa que é para um, para uma patota.” Já reclamava isso, já reclamava isso, hein, eu tinha 19, 20 anos, imagina as forças armadas. Você sabe que ele quebrou mesmo, aí morreu também. Aí a minha mãe, porra, casa com um pastor, cara. 

 

P/1 - Evangélico.

 

R - Evangélico, e eu ateu, né. Ele não é bem pastor não, ele é uma figura abaixo um grau do pastor, que que é? Subpastor.?

 

P/1 - Subpastor, também não sei. (risos)

 

R - Ou assessor do pastor, vice pastor, não sei o quê que o cara, um cara muito maluco, que queria fazer eu cantar com ele, eu tinha que cantar o versículo 200 e tal.

 

P/1 - Ele te levava para a Igreja?

 

R - Não, não conseguia. Mas ele era pastor, mas cheio de mulher, pô. Pastor é uma boa área para amarrar, negócio de mulher, o cara era terrível, esse matou minha mãe, minha mãe matou quatro, três ou quatro, mas ele matou ela, minha mãe morreu agora em 1997, mais ou menos cheia de vida, eu dei um vacilo, levei ela para um hospital aí, vi ela com uma arritmia. Cuidado com os médicos, foi com arritmia para o pró cardíaco, ela ficou… Fala: “Vamos melhorar a qualidade de vida da sua mãe.” Ela ficou 30 dias lá, dos quais 20 na UTI, não sei o que que aprontaram, de lá não saiu mais, a Companhia gastou com minha mãe, meu plano de saúde médico na base de 180 mil reais nesses dias, e o plano de saúde cortou o hospital por causa da minha mãe, isso é recente, foi em 1997 e tal. Foi a uma aí, eu perdi minha mãe, mas perdi meu pai, isso foi para lá em 1993, meu pai em 1993, minha mãe em 1997, estou sozinho. Mas voltando aí, onde nós estávamos?

 

P/1 - Na faculdade.

 

R - Na faculdade.

 

P/1 - A gente quer saber como é que era a vida na faculdade, a diversão, a turma, as paqueras.

 

R - A turma era, minha turma era maravilhosa, mas como eu falei para vocês o curso era pesado, apesar de uma inutilidade também muito grande, eu aprendi… Eu lembro que no primeiro ano, era de uma inutilidade, entendeu, eu aprendia o tipo de aranha, Escola Nacional, aqui na Quinta da Boa Vista, veja bem, eu tinha que ir de Quintino Bocaiúva, não morava no Méier, aqui de Quinta da Boa Vista para a Praia Vermelha, eu fiz o curso na Praia Vermelha, eu fiz o curso da Praia Vermelha para a Escola Nacional de Engenharia, aprendendo, aprendendo, aprendendo, um ano cara, aí do meu pessoal todo eu era o mais pobre, a Geologia é um curso mais ou menos nobre, tá, e põe o negócio de coisa de esporte, né, os ricos fazem automobilismo e tal, golfe, etc. E eu era pobre, então eu era meio discriminado, morava no Méier, mas eles gostavam de mim e tal, mas eu me sentia mal. E estudando lá, né, primeiro ano, não aproveitou quase nada, o segundo ano muito menos, o terceiro ano já foi mais ou menos, né, você já aprendia alguma coisas  razoáveis, algumas excursões, aí era importante, mapeamento de campo, mas esses mapeamentos eles tinham que bater mais nesse negócio, o que você vai usar na sua vida, porque que não fazem isso. No quarto ano, era o ano que você está esperando a formatura, né, também algumas excursões, né, fui parar na Petrobrás, muito interessante, fiz um estágio pesado na Petrobrás, na Amazônia, e perto do lugar que eu ia trabalhar, foi no Largo do Batata, em Oriximiná, estágio de sísmica.

 

P/1 - Quanto tempo de estágio?

 

R - Estágio de quatro meses, de sísmica.

 

P/ 1- Ficou lá direto?

 

R - Direto, três meses, três meses, de sísmica, sísmica é um negócio pesado, você faz… Você vai descobrir petróleo, primeira coisa que você faz é um levantamento de como que está a estrutura da coisa por baixo, o tipo de, a feição, porque o petróleo se acomoda em várias feições e esse trabalho de geofísica, explode um monte de coisa, a onda vai, bate lá nos tipo de rocha, volta, te dá uma resposta, que é interpretada, te diz se é uma bacia, se é um tipo assim, um tipo assim, que tipo de rocha que está lá etc. A Petrobrás para fazer um furo, ela vai muito na certa do que vai encontrar, muito na certa, tem que ter um intenso estudo preliminar, porque o furo é muito caro, o furo, um furo da Petrobrás fica mais ou menos em torno de 15 a 20 milhões, é o preço duma pesquisa da Docegeo do ano inteiro, você para dar um furo, você tem que estar mais ou menos certo do que vai pegar, então o estudo geofísico é muito intenso. Eu fiz estágio, chefiava o grande Bode Cheiroso, eu nunca esqueço disso, era o superintendente, Bode Cheiroso, ninguém podia chegar perto do cara, ele fedia muito, então você tinha que ficar de longe perguntando as coisa para ele, que coisa, hein?

 

P/2 - E ele não tomava banho?

 

R - Não, tomava.

 

P/2 - Quer dizer, o cheiro...

 

R - O meu também, o meu apelido era cebolão, sabe porque? Na escola, na faculdade, sabe por que, porque você tomava banho, mas o árabe ele tem um odor, você tem que usar muito desodorante, cara, talvez super desodorante… Depois que eu fui melhorando e tal, mas é, não sei se é descendência, se é negócio de camelo, eu não tenho esse hábito. Aqui, mas voltando a esse, esse...

 

P/1 - O estágio.

 

R - O estágio, eu estava numa lancha da Petrobrás, quase morri, já pelo Rio Amazonas, uma lancha de ferro, de noite, sísmica você se movimenta muito, você precisa ter uma idéia, você faz linha de 400, 500 quilômetros, até São Paulo, linha, você vai a pé, faz, acampa, faz acampa, acorda, se movimenta por rios e tal. Eu estava numa lancha no Rio Amazonas, gente, você já viu o Rio Amazonas, já esteve no Rio Amazonas?

 

P/2 - Não, eu não, Amazonas não.

 

R - A primeira vez que eu vi o Rio Amazonas eu falei: “Isso não é rio, pô, está enganado, não pode.” Tinha onda, o barco começou, balançava muito, a água vinha por cima dos vidros. Mas uma noite eu estava andando, eles me chamavam de carioca, eu estava, eu estava andando, fui pegar não sei o que, e não observei, o barco tem uma tampa, um buraco e você, aquilo fica tapado, embaixo fica a máquina, com uma escadinha de ferro, embaixo fica a máquina, eles tiraram aquela tampa, tá certo, tiraram aquela tampa, eu vim andando, não gostavam muito de sacanagem, e sumi, desci naquela… Mas eu desci no vazio, e era uma coisa mais ou menos de 2 metros e meio.

 

P/1 - Nossa.

 

R - Eu bati lá embaixo, eu não sabia o que estava acontecendo comigo, você está andando numa barca, está no ar, do lado, como eu passei por essa escada de ferro sem nada me bater, bati, fiquei meio tonto, as máquina, aqueles porra daquelas máquina na minha cara  “Que que é isso?” Eu não enxergava, estava meio escuro, aí que me botaram uma porrada de lanterna: “Carioca, carioca, você está bom?” falei: “Porra, o que que está acontecendo?” “Porra, o que você fez para entrar aí com essas máquinas?” Aí me levantaram, escapei dessa, lá no estágio da Petrobrás. Então, voltando ao poço, é, eu estudava o quarto ano, né?

 

P/1 - O que você achou, desculpa eu te interromper, o que você achou de ir para a Amazônia...

 

P/2 - Como que foi a experiência de estágio...

 

P/1 - é, e já ver o que que era a profissão de... Não o estágio.

 

R - Achei uma merda. Achei uma merda, eu falei, “nisso aqui eu nunca mais piso, porra, quando eu desci em Belém, veio um bafo, falei, “gente como é que eles conseguem viver aqui”, Aí chuva, água, fumaça, é uma fumaça, forma uma fumaçada, uma umidade, que eu nunca mais venho para cá não, fiquei horrorizado, minha turma toda pegou malária, eu não peguei, escapei dessa vez, aí falei, “não volto mais, isso é um lugar que está descartado”, para você ver como é que é o destino. Aí me formo, a minha preocupação… Como eu era um aluno médio, não fui um aluno brilhante, porque eu só me destacava naquelas matérias… E eram poucas, matérias que realmente, eu podia estar até errado, mas que eu enxergava que era a área que eu queria, que é a área econômica para mim não ia servir, que que me interessava como é que formou o planeta, o galáctico bum, não sei o que, a pestana disso, não...

 

P/1 - Como é que é a área econômica como?

 

R - A área econômica, a área econômica é a área...

 

P/1 - Dentro da geologia?

 

R - … que você realmente vai fazer acontecer alguma coisa, né, na área mineral, descobrir coisas do minério, tinha que ser treinado para descobrir minério, tá, e a geologia te divide, na escola não, mas divide, eu achava que já devia dividir, é, mas você tem várias áreas na geologia, né, tem uma área acadêmica, que todo o mundo está  fazendo agora porque não tem emprego, quer dizer, você sai da escola e fica dando aula de muita coisa inútil, né, uma porção de coisa, pode ser de utilidade para eles, eu tenho até uns exemplos curiosos, que eu vou mostrar para vocês, pena que meu, meu, meu, minha bolsa está aqui. Então eu vou explicar para você o que é um geólogo de projeto próprio, ele faz um projeto para ele, no momento são geocientistas, é terrível, quando vai para uma empresa que quer descobrir jazidas são tenebrosos. Mas voltando à escola, ou você aprende um pouco de petróleo, mas muito mal, aprende um pouco da... agora não te ensinam o que, gente, eu saí da escola preocupado, quando pintou esse emprego na Amazônia, na Alcan, foi o primeiro emprego meu, quando eu saí da escola, um colega meu, nem foi para mim um colega meu, Fernando Cruz: “Ô, Roberto, eu não quero ir para a Amazônia não”. Eu ferrado, minha mãe vai matar outro marido. Estava sozinha, eu vou ter que me virar, apesar de eu não querer ir para a Amazônia, eu vou ter que...

 

P/1 - Você tinha outras perspectivas de emprego?

 

R - Ainda não, o primeiro que pintou logo, eu, eu, eu me formei em janeiro e fui embora, formei em dezembro, pô, janeiro fevereiro eu estava indo para a Amazônia.

 

P/1 - Você ganhou o anel?

 

R - Hein?

 

P/1 - Ganhou o anel?

 

R - Ganhei o anel cara.

 

P/2 - Ah, é?

 

P/1 - Tem o anel ainda?

 

R - Minha mãe me deu o anel bonito, sabe onde é que eu usava o anel? No campo e tirava na cidade, achava ridículo...

 

P/1 - Ainda tem o anel?

 

R - ...só usava no campo.

 

P/1 - Você ainda tem o anel?

 

R - Não joguei fora, depois do segundo ano acabou essa loucura, né? Aí realmente eu parti, parti para esse emprego.

 

P/1 - Teve que encarar de ir para a Amazônia.

 

R - Eu tive de encarar a Amazônia e aí, companheiro, começa realmente outra história, né, outra história pesada.

 

P/2 - E a sua entrada na Companhia Vale do Rio Doce, como é...

 

P/1 - Não, antes ele foi para a Alcan.

 

P/2 - Ah, antes foi para Alcan, né?

 

R - Minha entrada na Alcan, né, a Alcan é empresa canadense, a empresa mais pão dura que vocês vão ouvir na vida de vocês, escuta o que eu estou falando, essa empresa que eu fui. Quando eu fui para a Amazônia, primeiro que eu peguei um cara velho, um avião, um jato naquela época, sentei, eu sou doido por tutu, né, adoro tutu, aí eu sentei no avião, no meio, tinha duas poltronas do lado, sentei no meio, aí serviram aquele negócio preto, aquela pasta, arroz mais não sei o que, não sei se galinha ou strogonoff, não lembro, ficava aqui do lado também, aí eu falei: “Tutu! Maravilha!”. Botei o arroz, botei aquela paçaroca preta que eu supunha ser cuscuz, mais a carne, quando eu dei a primeira garfada, meu, era um mousse de chocolate, aí, era um mousse de chocolate, eu para manter na minha, os cara olhando para mim, eu comecei a comer, pô, naturalmente, aquela merda.

 

P/2 - Com arroz e tudo.

 

R - Olha, é ruim, meu irmão, é ruim, comi aquele tutu, com carne, com arroz, os cara, “ele deve ser um cara exótico, exótico”, mas fiquei na minha, foi minha primeira coisa.

 

P/1 - Como é que foi andar de avião a primeira vez?

 

R - Não, eu já tinha andado antes.

 

P/1 - Então como é que foi antes, a primeira vez.

 

R - A primeira vez.

 

P/1 - Que você achou, a impressão do avião?

 

R - A primeira vez eu entrei num avião, não, não senti nada, não senti nada não.

 

P/1 - Foi tranquilo?

 

R - Foi com um tio meu ainda para o Espírito Santo, para Cachoeira do Itapemirim, não senti, achei interessante, um negócio diferente, né, mas não tive maiores situações dramáticas. Mas eu chego na Amazônia...

 

P/1 - Onde especificamente?

 

R - ...vou me apresentar, cheguei em Manaus, me apresentar, o chefe não estava, o Igor, era o chefe máximo, que estava fazendo não sei para onde, me atendeu lá o cara, estava com todo o programa: “Ô, você vai para o campo.” Manaus era a base, era um escritório, Manaus, Manaus, Amazônia, Amazônia. “Agora você vai pegar um avião, vai para Parintins, que era outra cidade, de Parintins vai pegar um barco que para você...” Não, ainda não era assim, era outro lugar, “Você vai para o rio Nhamundá.” Falei: “Para onde rapaz?” “rio Nhamundá” “Tá certo.” Eu sei que teve uma hora lá, eu não sabia a quem eu ia me apresentar, se era... “Você vai se apresentar ao geólogo Carlos (Cramessi?), é um português, português.” Aí no rio Nhamundá, então eu não sabia nada, vim do Rio de Janeiro de terno, rapaz, peguei um barco, um pó-pó, “pó, pó, pó, pó”, só eu que estava de terno, que situação ridícula.

 

P/1 - Suando em bicas?

 

P/2 - Calor miserável.

 

R - Calor filha da... Aí tinha um cano passando pelo meio, que era o cano de descarga desses barcos. Eu acostumado a andar de ônibus, estava lotado, pensei que aquilo era um balaústre, e quando eu meti a mão fez “xiii”, aí o pessoal olhou para mim meio estranho, que nunca tinham visto aquilo, né, olha, queimou a minha mão toda, foi minha entrada, porra, muito bem, aí eu fui para a farmácia, não sei o que. Peguei outro barco depois e fui me apresentar ao grande Carlos (Cramesi?), meu chefe, meu primeiro chefe na Amazônia, o barco parou, nunca esqueço, na beira de uma praia, sabe que a Amazônia tem umas praias bonitas, areia branca. Eu disse, o barco parou eu disse, tinha um caboclo assim, eu falei: “ô”, que eu estava de terno, perguntei para o cara quem é o Dr. Carlos (Cramesi?), aí o cara me apontou: “O doutor é aquele, aquele lá.” Aí tinha um geólogo baixinho mexendo numa sonda, de calção, eu cheguei, bati no ombro, tem coisas que a gente grava, né, bati no ombro dele: “Dr. (Cramesi?).” Aí ele olhou para mim: “Ei, cara, quem és tu cara? Quem és tu? De terno. Porra, vieste da onde?” “Eu sou o novo geólogo, Roberto Assad.” [imitando sotaque português] “Geólogo? Geólogo? Mas quem te falou que eu preciso de geólogo aqui, eu não preciso de geólogo, eu preciso de sonda, sondas a soldar. E cajo, e tu és um ridículo, cara, como vieste de terno? Pensa que é Copacabana Palace? Isso não é Copacabana, cara, isso é Amazônia, cara, Amazônia, isto não e Brasil, nem Brasil tu imaginas. Um cara extremamente ridículo, porra, o que vais fazer cara? Que vais fazer? Olha, te enganaram assim como me enganaram, isso aqui é uma merda, isso não é Brasil, isso aqui é a Amazônia, tira essa roupa ridícula, eu vou tentar ver, porra, eu vou tentar ver o acontece com você, o que eu vou fazer com você.” Cara, olha que recepção, “eu não preciso de você, preciso de sonda”, “E tu não conheces ao Igor?” Igor é o chefe dele, chefe maior, temido de todo o mundo, “Tu não conheces ao Igor, tu vais ver, tu vais, porra... Tenho pena de ti.” Esse camarada, rapaz, foi muito interessante. Aí passou alguns dias, ele tentou me dar uma aula, eu não entendia nada, ele chegou para mim e disse: “Ô, Roberto Assad, colas a mim, colas a mim que serás um dos maiores geólogos do mundo, que eu sou Carlos (Cramesi?), defendi tese dos fiordes da Noruega, eu sou um finólogo, eu sou um finólogo, mas tu não, estás fudido. Agora eu vou te dar uma aula, vou te dar uma aula para saber o que é isto aqui, isso aqui é uma bacia intracratônica com falhamentos e refalhamentos, secundários de terciáticos, provocados por rupturas longitudinais e transversais de vários tipos, tipos diversos, e que somados ao intemperismo, tanto intemperismo violento, e lixiviação astuta, sabe o que provocou? Sabe o que provocou? Porra nenhuma. Isto aqui não tem nada, é uma área inútil, não tem bauxita, não tem bauxita” Ele batia com o pé: “Não tem bauxita, não tem bauxita, queres a bauxita, não tem, já falei para o Canadá, já falei para o Canadá, não tem.” Hoje ela é a maior mina do mundo. Aí de repente ele olhava para mim: “Ai, ai, minha úlcera, ai, minha úlcera, ai minha úlcera e cacete, me enganaram, me enganaram Assad, me enganaram, minha exposto de derrota, preciso dum exposto de derrota aí, aí.” E por aí, ia. Aí um dia ele me chamou dizendo: “Quanto tempo lembro que estou ao Sena, Assad, senta aí Assad, senta aí, quando eu lembro que estou ao Sena, dirigindo minha Ferrari, já dirigiste uma Ferrari? Porra nenhuma, você é um pobre.” Ele mesmo falava, ele respondia, (riso) “Ah, porra nenhuma, és um pobre… Uma Ferrari… Me enganaram, eu estou aqui, puta que o pariu, como é que pode? Agora não tem minério.  Vicente quer comida no campo.” Vicente é um geólogo que estava no mato, estava no meio do mato. “Não vou mandar comida, não vou mandar comida para Vicente, porque esta porra não tem bauxita, a gente tem que ir embora, não tem minério, área estéril.” E aquela problemática, aquela coisa toda, descobriu que eu tocava um pouco de violão, “Assad, tocas violão, tocas violão? Vamos fazer um troço por aí”. Os caboclo ali e ele: “Deixa eu colocar a minha sapatilha.” Colocou uma sapatilha, trepou num tamborete, um tamborete, “Tocas, tocas flamenco”, aí… [começa a dançar e cantar]. Agora vamos fazer só isso, porra, tocar e a cantar.” Depois conheci um outro geólogo, aí o (Cramesi?) foi, foi embora, eu não conheci, eu ia conhecer uma peça terrível que era o Igor.

 

P/2 - O chefão.

 

R - Eu conheci o Igor, o cara realmente era terrível. Esses dois anos em Trombetas foram os primeiros anos que eu passei, já tinha iniciado a pesquisa, né, pesquisa de bauxita já tinha iniciado, a Alcan tinha furado, depois eu teria que dar alguns macetes para vocês do que é a coisa, mas eu acho que só lá fora, né?

 

P/1 - Não, dá para explicar?

 

R - Bauxita você só encontra em morro, já simplifica para danar, né? Tem que ser um alto topográfico, não adianta procurar pelo chão afora, então você já elimina muito lugar do Brasil, né, muito lugar de qualquer lugar, aqui no Brasil, só em morro. Com certas configurações, certos cuidados. E a Alcan, essa empresa canadense, ela furou muito ao longo da Amazônia, foi furando, fazendo furos, e chegou a essa região de Trombetas, onde hoje é essa grande jazida, né, e que eu tive a satisfação, de pegar, vamos dizer assim, quase o início, né? Antes de mim trabalharam alguns geólogos, mas vamos dizer que o que eu peguei foi a fase mais dura, no princípio eu trabalhava com lampião, como eu te falei, não tinha enfermeiro, não tinha remédio, não tinha comunicação, o rádio, só eu recebia notícias do Igor, que morava em Manaus e andava para mim numa dessas rádios, a Amazônia tem muito disso, é a rádio Tananã, que chama, “Fulano de tal está mandando um saco de farinha na boca do igarapé tal, favor estar lá quarta-feira às 8 horas que você vai receber.” Aí o cara recebe, mas você não pode mandar, eu recebia do Igor de Manaus, uma mensagem código, ele mandava para mim baco, baco, beco, beco, bico, eu estou ferrado com aquela porra.

 

P/1 - Em código, por quê?

 

R - Em código, não sei, mas ele mandava, “Espero que esteja tudo bem no campo.” Olha, que porra, que que interessa, eu que estou precisando, espero que esteja tudo bem em campo, tinha cartas aqui, quer dizer, eu não tinha como me comunicar, só ele que podia comunicar comigo, regime de folga, de férias, dois meses no mato e uma semana em Manaus, né, em Manaus a gente dormia inclusive no próprio escritório, tinha uma caminha de ferro, ele aproveitava para tirar uma casquinha da gente. Mas nessa época, esses dois anos, gente eu não estava casado ainda, sozinho, peito aberto, foi quando eu comecei a trabalhar pelado, trabalhei quase que nu, botava uma, uma tunga, uma sunga, encontrei o primeiro colega meu, foi o Marcos, quando eu subi de Igarapé. Depois que já tinha conhecido o (Cramesi?), aquela coisa, aquele negócio todo, conheci outros geólogos etc., aí eu sozinho no campo comecei a penetrar para essa área que hoje está sendo desenvolvida, nessa área eu comecei o trabalho, é essa que hoje é mina. Nisso tudo, no início a Alcan perfurou outras partes da Amazônia, essa área toda, eu comecei os trabalhos lá sem saber nada, gente, que sofrimento… 

 

P/1 - Pois é, eu ia te perguntar como é que foi?

 

R - Sem saber nada. Olha só, ninguém te ensina nada, nem a escola que ensina muito pouco ou ensina o inadequado, a escola ensina, acredito que com a melhor das boas intenções, mas ensina tudo aquilo que você não vai aplicar, é impressionante, e quando você entra na companhia, o que que os caras tinham que fazer com você, essa é a preocupação, te treinar, pô! Gente, eu não sabia o que era um poço de pesquisa, poço, que é a peça mais fundamental na área de bauxita, eu nunca tinha visto um na minha escola, eu não sabia o que era uma sonda, o que era um trado manual, que você aprende aqui em dois minutos, o que é um trado! É uma saca-rolha maior, não tem saca-rolha de abrir vinho? Só que o trado na frente é um negócio assim maior tem meio metro, helicoidal. Então você vai metendo aquilo, vai metendo torcendo, circulando e vai, penetra com cuidado e puxa o material, isso para minerais pouco profundos, que a gente chama, que é a bauxita, põe um dente pouco profundo, que que é pouco profundo, pouco profundo que vai até 30 metros de profundidade, que está em solo barrento, e outra coisa bauxita é barro, vou mostrar para vocês uma coisa, para vocês entenderem, vocês tem idéia, como é que vocês tem idéia, o Breno, alguém chegou a mostrar o que é um minério de alumínio para vocês, alumínio?

 

P/2 - Não.

 

R - Como você tem idéia, como você tem na cabeça a idéia do, eu vou aproveitando, ô Cláudia, falando...

 

P/1- Pode.

 

R - ...algumas coisa que vão acontecendo.

 

P/1 - Por favor.

 

R - E o que puder com minha humilde coisa eu vou tentando passar para vocês.

 

P/1 - Por favor.

 

R - Eu acho importante. Eu quando dava minhas palestras para pessoas leigas eu perguntava se tinha idéia do que fosse um minério de alumínio, as coisas mais estranhas, “ah, não deve brilhar”, “deve ser assim umas placas de metal meio coisa”, olha...

 

P/1 - Deve ser ele pronto.

 

R - É, é uma coisa incrível… O minério de alumínio.

 

P/1 - Que é a bauxita.

 

R - É a bauxita, é o único no mundo inteiro, único, não tem outro. A bauxita é um tijolo, na maioria dos casos, ela tem várias formas, mas olha vai do barro vermelho, rosa, não sei o quê, ao pó de café, pó de café, saca pó de café? Tem bauxita da cor do pó de café, um pouquinho mais marrom, aquela terra, aquela terra é minério de alumínio, então os blocos, que é  igual tijolo de construir casa, que é minério de alumínio. Então não tem nada a ver com esse alumínio, que você coisa. Você tem que distinguir o que é um barro zero, do que é um barro ou material que chama laterítico, depois nós vamos tratar desses nomes, que são nomes infelizes, definições inadequadas, está uma cagada, desculpem, mas esse negócio de definição é uma coisa terrível, uma loucura. Então você, o minério de alumínio é isso, é o barro de vários tipos, e ele pode ser duro para danar, meio mole, mole, mole, a terroso. Então por isso é que usam inadequadamente, aí foi o primeiro grande erro na pesquisa da Alcan, um fracasso, o início da pesquisa, que é a hora que você tem que ter o maior cuidado, gozado que a gente faz o inverso, o início da pesquisa, que é na hora que você tem poucos resultados para ir para a frente, você tem aquele início, gasta pouco, para depois acelerar e aumentar. Nesse início, apesar de você ter pouco trabalho, você tinha que trabalhar esses trabalhos com muito detalhe, entendeu o que eu quero dizer? Eu tenho uma área, invés de eu fazer 100 poços no início da pesquisa, eu vou fazer só três, bem colocados para deles tirar conclusão se eu vou para frente ou não, se aquela área me serve ou não. Porque essas áreas, por exemplo, de alumínio, área desses minerais, são muito extensas, extremamente extensas, você tem que ter critérios. Imagina um camarada recém formado, que entra, pega um negócio daquele na Amazônia, tá, que já tem as suas peculiaridades de apoio completamente diferentes para você trabalhar, e sem saber nada, olha, quando o camarada me falou, um geólogo virou para mim: “Roberto, você hoje vai acompanhar uma equipe de sonda do trado.” Eu para mim: “Que porra é essa, que que é trado?” Subi para a serra, quase morri para subir a serra, cheguei lá, tinha cinco pessoas trabalhando no trado, eles começaram, eu tinha que descrever, me deram um tal de (logui?) que chama, para descrever, lá tinha um capataz, que já tinha experiência furando, chegava para ele: “Ô, fulano, vou ver se você está bom cara, quero ver se você está apto, que é muita coisa encontrar um bicho por aí, cada barbaridade, que que está tirando aí, puxando agora nesse trado? Vamos ver.” Aí o cara: “Esse é o capeamento argiloso, arenoso, síltico, não sei o que, não sei o que.” “síltico por quê?” “Por causa disso, disso.” E eu anotava, “Tá razoável, tá razoável.” Nunca tinha visto aquilo, caboclo, aí entrava e saía aquela meleca, eu tinha que enviar aquilo com bloqueio… Cê tem que rodar e depois retornar, tem que vim trazer material aquela sessão, aí: “E agora?”, meleca vermelha com isso e com aquilo, “Isso aqui eu acho que realmente já é uma laterita ferruginosa, friável, não sei o que, laterita ferruginosa friável.” “Porque friável? Olha, eu acho que eu não concordo muito, eu vou analisar essa coisa e anotar.” E por aí foi.

 

P/1 - Mas você ia estudando? Você tinha a oportunidade de estudar na medida que você aprendia na prática?

 

R - Tinha nada! Aprendi com o capataz, aprendi com o capataz, depois comecei a ler, mas a literatura era terrível, literatura era brava, e fui aprendendo com o capataz. Aí depois comecei, chegou mais um geólogo, comecei a impressionar, era o maior aperto quando mandaram eu mostrar, amostrar um poço, o poço é um outro instrumento de pesquisa, você usa poços. Você tem, lá era trado e tem poço também, poço circular, para aquele poço lá na região ia até 20 metros de profundidade.

 

P/2 - Você faz o poço como, com máquinas especializadas?

 

R - Não, com dupla, dupla de homens, ganhando um salário fixo, depois eu vou contar, um poço cava como se fosse perfeito, perfeito, circularzinho, degraus do lado, uma escavação assim ó, tem retrato aí que vocês vão ver, degraus do lado, você desce para mostrar, um pé aqui, um pé aqui, desce degrau, degrau e faz um canal na sua frente, faz um canal, tirando as amostras do canal, quando entra na na bauxita dura lá, agora você imagina o sofrimento. Aí virou, o (Cramesi?) virou para mim: “Sua virgindade, vais mostrar um poço hoje.” Poço? Aí foi, fiz a mesma coisa, mandei o capataz descer comigo, “Desce comigo que eu quero mudar inclusive o critério, não vai precisar o geólogo mostrar tudo o que é poço, você tem que ajudar, porque é um trabalho, deve ser um trabalho duro.” Eu desci, o cara desceu por cima de mim, como é que fazia o canal, como é que batia o martelo, que que tirava, a quantidade, como armazenava, o que que fazia com aquilo, fui aprendendo com o capataz.

 

P/1 - Ele desconfiou que você estava aprendendo com ele?

 

R - Não, eu acho que não, que eu era uma boa, que eu i para anotar, eu percebia logo o macete, e você não tinha, olha eu nunca vi tanta coisa errada nesse negócio, não te davam feedback, você não tinha retorno dos resultados, a imprensa estrangeira, ela guardava muito com ela, então você… Aí eu fui aprender o que era bauxita na marra, no olho, depois com o tempo foi, foi melhorando. Aqueles poços eram, eram, no princípio, eram, eles tinham salário fixo para fazer esses poços, depois eu estipulei, aí comecei a empregar uns metros, era razoavelmente jovem...

 

P/1 - Você tinha espaço na empresa ali no trabalho para agir, para modificar as coisas?

 

R - Isso eu tive. Aí comecei a ser respeitado, porque eu era muito, não sei se maluco ou coisa, eu comecei a ser respeitado pelo Igor, essa figura, e eu, eu que pagava para os meus homens, o trabalho foi desenvolvendo… Deixa eu contar uma história logo desse trado, antes que eu me esqueça, é importante, esse trabalho de trado foi completamente errado e provocou uma perda de responsabilidade minha da metade da área do Trombetas para outra empresa, isso eu sempre costumo contar nas minhas palestras, por que? Porque a bauxita, ela não está sempre sozinha pelo minério, aliás minério nenhum fica sozinho, sempre tem meleca do lado dele, você vai ter que trabalhar para tirar o que não presta para, o que que o trado fazia, o trado ia cortando aquilo tudo, pegava lama do lado que não era minério, pegava não sei o que, misturava tudo e esmigalhava, saía, aquela, aquela meleca misturada, isso, essa lama que está junto com a bauxita contaminava a análise, a alumina que é o importante reduzia muito, então você não sabia o quê era o quê. Então essa metodologia… A sorte é que no meio desses trados todos, trabalhavam com isso, cinco homens por cada trado, no meio desses trados você fazia um ou dois poços, que já é super temeroso, e o Trombetas foi achado, para mim, por sorte, por sorte, aquela era para ter sido eliminado, porque um ou dois poços, numa área extensa, que é a bauxita, você pode, entendeu, eles podem cair em área que não tem nada. Até aconteceu comigo, por isso é que eu digo, você para descobrir jazidas, gente, ó, a hora que aparecer para vocês aqui, gente que fala assim: “eu descobri jazida, eu fui o responsável”, não acreditem, não existe, não existe. A descoberta de uma jazida é um processo tão complexo, que você não sabe quem começou e como, o que acontece é que você tem que ter o prazer de participar, e pode ter assim, tipo, o grande mérito de ter batido, o grande mérito, que alguém vai ter que bater, veja, como tem o Breno, né, bateu em Carajás, descendo de helicóptero lá, né, é, está entendendo? Eu tive um método curioso em Trombetas, eu era para locar um poço decisivo, poço numa área importante, ordem do Canadá, eles coloca, eles dava ordem, a gente estava lá para colocar ali, eu errei essa locação, esse lugar é um pescoço do Saracá, que eu vou mostrar num, num slidezinho para vocês ali, era para colocar num lugar que se fizesse aquele poço ali, não tinha nada, mas eu errei, eu toquei tudo num canto onde eu achava que eu estava indo, eu estava voltando, enfim, eu fui locar esse furo 15 quilômetros para outro lado, foi um erro bravo, nesse lugar que eu coloquei deu um resultado maravilhoso, por sorte, foi o primeiro lugar que foi inclusive estipulado para lavra, em Trombetas, nos idos de 1979. Aí você vê como as coisas acontecem. Mas esse trabalho de, esse início de trabalho da Alcan na Amazônia foi um trabalho errado, e que eu levei para a Vale depois, vocês vão, vão ver os exemplos, comecei a trabalhar errado, mas mudei logo, que eu uma porrada com um erro, cacete dum erro que eu cometi numa área chamada Almerim que aquilo me assustou, eu não... Você muda, né, com a experiência, agora, às vezes, a experiência já vem tarde, né, por exemplo, no Trombetas perdeu-se uma área enorme para o grupo concorrente, porque foi interpretado errado, aquele troço que a gente achava que era negativo, era positivo, por contaminação e por locação errada. A gente tem uma mania de ter uma serra enorme, locar o furo espaço muito espaçado, ou num lugar só e achar que o resultado das outras partes são iguais, não é nada disso, a coisa muda, muda, e vocês vão ter exemplos ali impressionantes sobre isso. Mas, ô cara, voltando aqui um negócio, o primeiro igarapé que eu subi, veja só, o igarapé, a equipe, você fica meio empolgado, né, eu gosto muito de igarapé, igarapé já não é um Amazonas, é aquele riozinho, motorzinho de popa pequeno, né, quase bucólico, vamos dizer assim, cinco, seis metros de largura, muita água espelhada, né, e você e os caboclos na frente, você vai ali, chapéu de palha, não sei o quê, subindo… Tem que pular toco que está caído, levanta a rabeta, levanta a rabeta do motor para pular os pau, eu estou distraído, primeira subida. Aí os caboclos vieram para mim: “Ô Roberto, Dr. Assad, a caba.” “Como?” “A caba.” “Acaba? Acaba o que, pô? Que que acaba?” “A caba.” Quando eu vi eu estava entrando com a boca, as folhas caídas assim, na casa de marimbondo. Caba era marimbondo, aquela porra daquela Amazônia, eu não sabia. Pulei na água, mergulhei, a minha cara ficou dessa largura, essa foi a minha primeira em subida.

 

P/1 - Você tinha medo?

 

R - Não, não tinha, não tinha.

 

P/1 - Medo de bichos.

 

R - Não tinha medo, não tinha medo, comíamos muita caça, eu passei dois anos, como eu falei, dormindo em...

 

P/2 - Em rede.

 

R - Acampamento, locomovia toda a hora, acampamento na base... Pode cruzar a perna um pouquinho?

 

P/2 - Pode, a vontade.

 

R - E na base de lampião, esse pão durismo da Alcan, que vocês podem imaginar uma empresa com o potencial que é a Alcan, me botar naquela merda da Amazônia, gente, sem ter um… Se eu tomasse uma porrada na perna, uma cobra, eu estava morto.

 

P/2 - Lá não tinha, não tinha médico, os medicamentos?

 

R - Médico não tinha, tínhamos Melhoral, agora eu era completamente irresponsável também, você acha que não vai morrer não, rapaz.

 

P/2 - É.

 

R - Acha que não vai morrer não, remédio e não tinha, aí depois qualquer coisa. Olha, foi transcorrendo a pesquisa sem mulher no campo, cara, nosso sistema de folga tinha 200, teve uma hora que passou a ter 230, 240 homens no campo, caboclo, tudo naquela idade pesada, 18 a 25 anos, caboclo da Amazônia, meu amigo, na base de farinha, tacacá, pato no tucupi, tal da farinha para esterco que engorda essa porra tudo na potência, e sem mulher no campo, todo mundo ficava meio irritado, e eu comandando aquela porra toda falei: “Gente, não vai ter jeito, vai ter uma hora que eu vou ter que botar uma zona aqui, não sei como é que eu vou fazer, o Igor é muito conservador.” Aí um dia o Igor foi, meu chefe pesado: “Igor, não dá cara, os caboclos estão três meses, período deles, três meses.” Meu irmão, o barraco, a gente dormia de noite, o barraco balançava, sabe porque?

 

P/1 - Eu imagino.

 

R - Era pesado a movimentação do pessoal, e aquilo me assustava, eu peguei, aí eu convenci com muito custo: “Tá bem Assad, a responsabilidade é sua, então.” Menina… fomos pegar as putas em Oriximiná, escolher, escolher as putas em Oriximiná.”

 

P/1 - Mas a ideia era levá-las para morar?

 

R - É levá-las...

 

P/2 - Para morar no campo?

 

P/1 - Morar?

 

R - Para o campo. A gente ficava sessenta, setenta quilômetros para dentro da selva, aí escolhemos, chegou lá Apolo XI, porque na época tinha negócio de lançamento de foguete para a lua, Apolo XI, quem é, isso eles botaram o apelido depois, palha-de-aço, não sei porque, palha-de-aço, e tinha outra lá, apelido, bigodinho, ela tinha um bigode, vieram a pé com _____ nas costas.

 

P/1 - Quantas?

 

R - Vieram a pé de Oriximiná, e eu botei a um quilômetro, 500 metros do acampamento.

 

P/1 - Quantas?

 

R - Sem luz, hein, sem nada. Três.

 

P/2 - Três mulheres?

 

R - 200 homens.

 

P/2 - Para...

 

R - No primeiro dia, cara, fez uma fila enorme, eu nunca esqueço, que com um lampião, lamparina, lampião, elas ficavam, e os caras iam rápido, acabavam de transar e pulava na água, voltava, igual pato, e era rápido. Se demorava o cara protestava, queria invadir, aquela fila ia andando. Aí bom, ia transcorrendo bem o negócio, um dia veio a reclamação que elas não estavam recebendo direito, os cara não pagava, porque o camarada era escuro, ia lá, dava a transada, e todo o mundo tinha apelido, era a primeira preocupação, levantar apelido de todo o mundo, mas 240, 240 apelidos, dava o apelido do outro, “Como que é seu nome?” O cara: “Gasolina.” Aí ela anotava. E, enfim, elas não recebiam direito, até que um dia eu, eu, antes desse negócio, eu, elas reclamavam que não recebiam, antes dos pauzinhos lá, aí eu falei, eu fui lá na zona, falei para elas que quem fazia a folha de pagamento, vocês não vão acreditar nisso, que era eu que fazia, não tinha carteira profissional, eu multava o salário de cada um de acordo com o que ele fez, passava dum, passava para o outro, multava um passava o prêmio para o outro, se reunia com os capatazes e estabelecia: “porque que você não está doente não fez o mesmo trabalho que o outro? Então eu tiro do seu salário e dou para esse.” Tinha esse equilíbrio todo o mês, todo o mês, mas eu fui lá na zona e falei: “Olha, vocês todo o fim de mês me mandam a lista da zona, com o nome das pessoas e marca o pauzinho, quantas vezes eles vieram, que eu vou descontar na hora.” Aí, dia do pagamento, é um dia, um dia impressionante, chegava aquele bolo de dinheiro vivo, um pacote, lampião do meu lado, um monte de caboclo.

 

P/2 - Faziam fila para receber?

 

R - Um monte de caboclo em volta, em volta, todos esperando, aí chegava a lista da zona com o capataz, aí eu começava a cantar o apelido dos caras: “Mexicano, Petete.” Eles não se conheciam pelo nome mais, só pelo apelido, se você chamasse “Antônio de Almeida Neto”, ninguém vinha, é gozado isso.

 

P/2 - Engraçado.

 

R - Aí vinha a lista da zona, aí eu contando: “Você, seis pauzinho, está descontado, está certo.” Vinha outro, aí tal “Porco-espinho, oito pauzinho.” “Doutor, eu não estava aqui.” “Como não estava, está com pauzinho vai pagar.” “Eu não estava aqui.” Aí que nós fomos descobrir esse negócio, que eles estavam, transavam e trocavam.

 

P/2 - Um botava no outro.

 

R - Botava no nome do outro, no nome do outro, a mulher não enxergava, que era muito rápido, era no escuro, no escuro. Você sabe que uma vez rapaz, eu estava tão tarado que eu botei uma capa e entrei nessa fila, para encarar é sacanagem, pô, eu estava… Fiquei assim...

 

P/2 - Porque ninguém podia ver, senão desmoralizava, né?

 

R - Não, que eu fui... Rapaz, era dois meses e pouco, tinha hora que passava anta, eu olhava parecia Brigitte Bardot, mermão. Não era mole não, era sofrimento desgraçado, eu vou te contar uma  coisa, sabe, de tanto que a gente se masturbar naquela época toda até hoje eu estou com essa sequela, até hoje, uma coisa horrorosa, é por isso que eu digo, geólogo é um sofredor, um sofredor, uma profissão de… Putz grila. Então nessa fase aí de Trombetas tem outras coisas, que eu vou ter que recorrer aqui se você não tiver pergunta.

 

P/1 - Pode ir.

 

P/2 - Pode ir vendo.

 

R - Porque eu tive que anotar algumas passagens, porque é muita coisa, né cara? É muita coisa, mas vai, vai perguntando, ô Cláudia,  pô, não me deixa parar não, que senão eu fico...

 

P/1 - Eu queria saber do salário, era bom seu salário?

 

R - Bom salário.

 

P/1 - Teve uma melhoria assim?

 

R - No início era bom salário.

 

P/2 - E o...

 

R - Era eu e o Igor, o Igor em Manaus e eu lá.

 

P/1 - Mas você não tinha como, não tinha onde gastar, né?

 

R - Peraí que tem fase importante, nessa época eu estava sozinho, né?

 

P/1 - É, então.

 

R - Agora mesmo vem a fase da Maria Eugênia, minha mulher, que foi para lá.

 

P/1 - E as folgas em Manaus, como eram?

 

R - Zona, tempo todo na zona, cara. Isso todo geólogo deve ter contado para vocês, tem isso, Robertinho, porque tem uma coisa, as putas do norte sempre (trazeram?), coisa impressionante...

 

P/2 - Ouvi dizer isso

 

R - Ou mentem bastante. 

 

R - Ou mentem bastante, mas você se apaixona por elas, eu tive vários colegas, eu mesmo não casei com uma puta? Não é esse o termo, termo chulo, era uma mulher com tendências, sexo-antropológicas. 

 

P/2 - Mas foi como, como você conheceu ela, Assad, foi em Manaus?

 

R - Foi depois.

 

P/2 - Depois?

 

P/1 - Não é a primeira, ela não é a primeira. 

 

R - Gente, ceis tão me atropelando, ceis tão me atropelando. Ai cara, uma vez eu voei, Manaus, passava folga em Manaus, tinha um avião para me levar para a tal de terra santa, terra… Ah, o óculos, esqueço essa porra, encanei com esse óculos… Tinha um aviãozinho um bit craft, se sabe o que é um bit craft Vanderlei? É um aviãozinho, porra um avião pequenininho, tem um motorzão, cara, que é maior que ele, foi usado na Primeira Guerra Mundial, é nessa droga que eu voava, o piloto usava um chapéu de palha, aí em Manaus, depois da minha folga, normalmente costumava falar: “Atenção passageiros da nota.” normalmente ia só eu e os dois pilotos, para ir para a Terra Santa, lá que eu morei...

 

P/1 - Terra Santa?

 

R - Terra Santa.

 

P/1 - Aonde fica?

 

R - É, Terra Santa fica no Pará, no Pará, quase na fronteira do Pará com o Amazonas. Você sabe o que aconteceu com esses dois pilotos? Os dois pilotos saíram na porrada, um dia, no ar.

 

P/2 - No ar? (riso)

 

R - Na porrada, na porrada de pegar o outro, soco, que eu saí lá de trás para desapartar a briga, porra, porque um não me esqueceu o mapa, esqueceu a porra do troço, “Seu filho da puta, pá.” “Gente, respeitem o passageiro.” “Respeito para esse cara é o puto, falei para ele para não esquecer a bússola, e agora como é que nós vamos pousar, olha essa porra desse óleo.” Aí tirou uma coisa assim da lata de óleo, “Eu falei para botar óleo, pô.” Aí sabe o que eu falei: “Eu não vou para Terra Santa, vocês vão me fazer um favor, pousa em Parintins, que eu vou ter que fazer coisa lá, que é no meio do caminho.” Pousou na cidade de Parintins, eu continuei de barco, aí me pediram desculpa: “Desculpa, que o cliente para nós é o que está por cima, desculpe, isso aí foi um entrevero,  o cliente está acima de tudo, está acima de tudo”. Bom…. Caga n’água.

 

P/2 - Caga n’água.

 

R - Caga n’água. Agora vai ser atemporal no tempo do Trombetas, senão não vou dar sequência, tá bom, vou falar só de Trombetas, vou falando as coisas. Chegou um enfermeiro com o nome de Alan, de Kardec, não era Alan Kardec, era Kardec, o primeiro enfermeiro que nós tivemos, que satisfação. Aí o camarada no segundo ou terceiro dia espetou o pé, cá caboclo, um prego, ô, o Kardec falou: “Isso me preocupa Seu Roberto, pode dar tétano.” Falei: “É, pode dar tétano, alguma coisa, é, os ferimentos são perigosos.” “Perigosos.” “Já vai ser curado.” Foi para lá, pegou uma cebola, começou a furar a cebola, falei: “Ô, seu Kardec, o que o senhor está fazendo?” “Estamos curando homem, não falei para o senhor que era uma doença perigosa, estamos curando homem, o homem não tem mais tempo, foram tirados todas as obstruções, está tudo limpo, ele está perfeito.” Falei: “Puta, esse é o enfermeiro que me trouxeram.” “Seu Kardec, o senhor tem certeza que esse cara está bom?” “Pode ir para o campo.” Aí eu falei: “E o sangue que está saindo do pé dele?” “Faz parte, faz parte.”

 

P/2 - Mas foi, teve problema de tétano?

 

R -Tive que mandar ele embora.

 

P/2 - Não mas o...

 

R - Tive que mandar ele embora.

 

P/1 - E o acidentado?

 

P/2 - O acidentado, é?

 

R - É… Presta bem atenção, de repente chega o Caga n’água, eu estava sozinho, chega um geólogo de São Paulo, o Luís, e o apelido ficou depois Caga n’água, porque ele só cagava, só realmente, fazia tudo na água, só cagava na água, tinha que botar um pouco, tinha que ter igarapé, não sei porque, no mato não tinha outro lugar. Aliás, gente, por falar nisso, não existiu mais sofrimento para mim do que esse evento no mato, os caras faziam a porra do troço no chão, primeiro era no toco, sentava no toco alto, tinha que manter um equilíbrio, né, sabe como é que é, para poder fazer a necessidade, e tinha que rezar para ser rápido, senão você caía para trás, depois os caras inventaram, já evoluíam, botaram um buraco, tipo os poços que eu fiz raso, buraco de um metro, um metro e meio, botavam umas tábuas, mas faziam um buraquinho desse tamanho. 

 

P/1 - Que jeito que ia sentar?

 

R - Sujeito tinha que ver que tinha que fazer maior, e você ia apertado, tinha que ficar tentando apontar, entendeu, e ficava naquela merda, ficava naquela merda. Rezava para ser aquele toletão físico, se fosse chuveiro, você estava fudido, cagava no pé, e outra coisa, não podia ser daquela que fica em dúvida, é, não é, é, tem que ser um negócio incisivo, rápido. Quantas vezes eu caí para trás, ali naquele buraco, uma vez, uma vez que foi, isso eu sofria, e eles não faziam coisa, coisa maior.

 

P/1 - Ô, Assad, tinham muitos casos de homosseuxualismo?

 

R - Impressionante.

 

P/1 - Não?

 

R - Não tinha. Fui ter na Vale, você vai ver o exemplo da Vale, menina, deixa eu contar esse caso da Vale, que eu posso esquecer, ela falou em homossexualismo. A Vale teve muito geólogo, geólogo não, viado até agora não constou nenhum, mas enfermeiro teve uma porção, e eu tive um enfermeiro viado, mas ele, ele era. Uma vez eu estava com ele em Palmeirim com ele numa picada, aí ia ele, era 30, 40 quilômetros a pé, aí uma hora ele empacou rapaz, sentou num toco: “Eu não vou mais, daqui eu não ando. Estou exausto.” Falei: “Porra, vai ficar aí. Eu vou te largar aí, e olha, e vai aparecer muito bicho e você vai ver.” “Tomara que qualquer hora apareça um gorila.” É assim. Mas deixa eu contar a história desse cara, estava lá no campo...

 

P/1 - O Caga n’água?

 

R - ...com o jararaca conversando no Trombeta, chegou um telex de Manaus, a pesquisa não estava indo para a frente, precisava de mais um geólogo, chegou um fax, aí melhorou um pouco, depois do segundo, terceiro ano, parou essa parte do lampião, lamparina. E, por sinal, estamos esquecendo aquele evento da lamparina, olha gente, antes de ir para a frente eu estava com um, de repente, esse negócio de andar pelado, eu passei a mão na minha bunda, não sei porque, e senti que tinha alguma coisa estranha, saindo, aí eu cheguei para o Luís Caga n’água e falei: “Luís, tem um negócio estranho aqui na minha bunda, rapaz, então dá um olhada para ver.” Era de noite, falou: “Deixa com a gente.” Não tinha luz no barraco, ele mandou eu virar de bruços, eu virei de bruço, ele pegou uma lanterna, começou a iluminar: “Não se preocupa Assad, é uma lombriga, acho que ela está até se mexendo, vamos tirar ela, eu vou pegar a pinça.” “Então tá, então tira essa porra logo daí.”  Ele foi lá, pegou uma pinça, começou a puxar, quando ele começou a puxar eu fui levantando a bunda junto com a pinça porque e gritei: “Pára, isso faz parte da bunda.” Não era lombriga, era um pólipo retal, ele ia tirar mesmo, me virar pelo avesso. Onde é que a gente estava para a frente mesmo? Ah, esse cara, olha só o que é a vida, meu caro Leão, olha, olha como que é a vida. Tem, tem uns negócio, sabe? Ô, a pesquisa estava indo para a frente, com resultados razoáveis e tal, aí chegou, eu estava conversando com o Luís, o Luís Caga n’água, chegou um fax, está chegando o geólogo, tinha um nome que eu esqueci agora o nome, para fazer parte da nossa equipe, o Luís virou para mim e falou assim: “Ih, é o Piorra, é o Piorra, rapaz, iiii, Roberto, esse Piorra tem uns casos dele.” Aí me contou o caso do Piorra, o Piorra era um geólogo, que como o nome está dizendo, o formato dele era uma piorra, é assim bem largo em baixo e fino em cima, ele não conseguia parar em escolas por causa do apelido, não conseguia parar em empregos por causa do apelido, não conseguia parar, tinha um trauma danado, por causa dessa coisa, o cara deve ter resolvido assim: “Eu vou lá para a Amazônia, para um lugar, lá para a selva, para o rio Nhamundá, em Trombetas, lá para a casa do cacete, ninguém me conhece, ninguém sabe que eu existo, para eu ter sossego.” Mas aí o jararaca com esse cara, eu lembro que eu fiz um estágio com ele na Icomi. “Vamos fazer uma faixa de comemoração para ele, na chegada dele, esse cara, ô Assad.” Eu falei: “Ô Luís, esse cara não é todo traumatizado?” “Que isso, rapaz, isso vai ser ótimo.” Preparou uma faixa enorme: “Bem vindo Piorra à Amazônia.”, botou lá. O barco, Trombetas, o rio, era alto aqui o porto um pouquinho, Trombetas aqui chegando, alto aqui está aquela faixa enorme, e o cara vinha dele, vinha aqui da proa do nosso barco, pela ala gaivota, ele vinha. Quando foi parando ele viu aquela faixa: “Bem vindo Piorra a Amazônia.” Cara, esse cara dava tanto berro: “Não, não é possível, eu não acredito, volta esta merda.” Voltou, foi o maior recorde, o cara não parou hora, voltou o barco para levar o cara embora, de trauma. Foi a história do Piorra. Acontece, acontece. É, era um barraco danado.

 

P/1 - Quantos anos você ficou na Alcan?

 

R - Quatro anos. Aí chegou a Maria Eugênia, né, minha mulher.

 

P/1 - Chegou como?

 

R - Interessante, dois anos, ela morava no Rio, morava em Ipanema, fez até o quarto ano de advocacia, menina prendada, super escolada.

 

P/1 - Mas quando que vocês se conheceram?

 

R - Falava cinco, seis idiomas… Ela era prima assim minha de sexto grau, mas é, é prima, e namoramos, eu fui para a Amazônia, ela continuou minha namorada. Vou processar aquela mulher, (riso) melhor dar uma abotoada, né, demora muito?

 

P/2 - Melhor deixar aberto mesmo.

 

R - Deixa aberto.

 

P/2 - Deixa só dar uma arrumadinha no fim dele, no finalzinho do filme, o filme aberto está queimado. É legal fazer uma pausinha.

 

P/1 - É porque a fita está... já dá para trocar a fita, ah, então vamos tomar um café, água.

 

P/2 - Vamos fazer uma pausinha, né?

 

P/1 - Mas aí segura...

 

[troca de fita]

 

P/1 - Então conta, por favor, do seu casamento com a Maria Eugênia.

 

R - É, nós, a Maria Eugênia, nós casamos por procuração, né, ela casou com o irmão dela, lá em Mimoso do Sul, no Espírito Santo, eu estava no campo amostrando um poço na Alcan, quando recebi um telegrama: “Casamos.” Falei: “Pô, que negócio estranho.”

 

P/1 - Mas vocês namoravam?

 

R - Nós namorávamos.

 

P/1 - Se encontravam nas folgas?

 

R - Quando eu vinha para o Rio, a gente se encontrava, namorava, essa coisa toda. Nós nos conhecemos porque na realidade ela morava em Ipanema na casa de um primo meu, esse primo meu é primo de segundo grau, e ela é prima dele de primeiro grau, é o Zé, foi o cara que me salvou um pouco na juventude naquelas misérias, naquelas coisas, eu tinha dinheiro, porque o pai, o que o Breno citou lá, o pai inventou, era um inventor, como era semi-analfabeto, sem curso nenhum, mas inventou o tal de colchão anatom, na época com sucesso, ganhava muito dinheiro, e eu peguei aí essa beirada dessa família, foi o que me salvou. Então eu passava praticamente no tempo ali dos meus 16 anos até ir para a Amazônia, 16, 17 anos até ir para a Amazônia, que eu fui com 27, né, passei um período, passava muito tempo com o Zé.

 

P/1 - Família da sua mãe?

 

R - Por parte da minha mãe, e a Maria Eugênia era prima dele é e a gente, ela trabalhava, morava lá, não pintava nada, mas de repente ela, ah, parece que a gente se gosta, eu acho que eu te amo, não sei que, uma coisa assim, aí eu já estava indo para a Amazônia e ela ficou no Rio, eu fui sozinho, passei dois anos na Alcan e vinha, porque eu só podia vir ao Rio uma vez por ano, ela ficava aqui o ano inteiro, e eu vinha uma vez por ano. Quer dizer, a gente tirava folga de dois em dois meses no Amazônia e ia para Manaus, e de ano em ano para vir ao Rio, no fim do ano para passar o mês, aí depois nós casamos, e fomos morar em Manaus, morar entre aspas, ela passava um ou dois meses sozinha em Manaus e eu ia para o campo, imagina uma jovem cheia de Ipanema na cabeça, super bem formada, PUC, não sei o quê, inteligente, falando quatro línguas, foi falar lá, ela passou uma parada dura no Amazônia, ficava sozinha. Depois o meu chefe com muita dificuldade arranjou para ela ir para o campo comigo, aí ela pegou outra parada para ir para o campo, nos últimos dois anos de Alcan, não, um ano e meio, Maria Eugênia passou comigo no mato, no meio da selva, ela era a única mulher, 250 homens.

 

P/1 – E como era, vocês dormiam em barracas?

 

R – No princípio dormíamos em cabana, ela só andava de calça comprida, o banheiro era daquele jeito, a primeira vez que ela viu o banheiro ela teve um trauma muito grande, perguntou para o Carlos Wagner, que era um cozinheiro da companhia, um escuro: “Onde que é o banheiro?” e o Carlos, com um beiço assim, disse: “ali”, “mas ali é o mato”, “então, é ali. A senhora vai andando, tem uma picada, aí tem lá”. E aí ela foi lá tremendo e chegou lá era aquele buraco que eu te falei, ela não fez, não fez nada, voltou apavorada, chorando, aquela coisa toda dramática.

 

P/2 – E o pessoal todo respeitava?

 

R – Respeitava, respeitava muito.

 

P/1 – O que ela fazia enquanto vocês trabalhavam?

 

R – Enquanto eu trabalhava ela começou a bater papo com os caras, começou a dar aulas, ensinar alguma coisa para eles, e tudo era Dona Maria, Dona Maria daqui, Dona Maria dali, era um respeito absoluto, né? Os caras estavam, eu chegava e ela dizia, olha o cara está reclamando, está com gonorréia, o outro está com não sei que, os caras falam comigo, não falam com você porque acham que você vai brigar, todos esses problemas iam para ela, e ela foi uma guerreira realmente para enfrentar aquela barra, e viagens perigosas, tomava banho no Igarapé. Uma vez ela pegou uma barco, uma coisa interessante, ela tinha que ir para Oriximiná e à noite eu coloquei ela num botezinho de madeira com um motor de popa, e ela viajou a noite toda naquele botezinho sem saber nadar até Oriximiná, que ficava a 80 ou 90 quilômetros.

 

P/2 – Sozinha?

 

R – Sozinha. Outro dia a companhia tinha um barco que era o Gaivota, eu estava com ela, teve uma tempestade violenta, trovão, tempestade, foi terrível, o barco começou a mexer para todo lado, a gente mergulhou debaixo da cama, eu e ela, com medo de que caísse um troço em cima. E outra vez foi no meio do Amazonas, não sei o que que deu nela, ela deu uma de sonâmbula, no meio do Amazonas, de noite, naquele barco, a Maria Eugênia levanta da cama, saiu correndo do camarotezinho, já ia para a proa, eu fui atrás e agarrei, e aí ela acordou e disse que tinha que pular porque estava naufragando o barco, ela ia pular no Rio Amazonas, se eu não pegasse.

 

P/2 – Meu Deus!

 

R – Então foi um período difícil, depois ela ficou grávida no campo, sem médico, sem nada, e perdeu o filho, meu primeiro filho ela perdeu no mato. Ela ficou muito traumatizada com esse negócio, depois passamos por esse período, mas eu acho que para ela também, ela voava, têm fotos, vocês vão ver fotos minhas dela no mato, foi uma precursora também daquilo, daquela história. Agora você vê naquela época como essas empresas faziam, dar essas condições para a pessoa, terríveis… Mas tem muita coisa de valor que você guarda daí, tem muita coisa valorosa também, ela aprendeu muito e ela tem muita foto dessa época, ela mostra para a filha, que ela mora em Belo Horizonte agora, com a minha filha que é médica, tem história para contar, aquela tem história para contar. Aí a Vale chama a gente, com uma proposta boa, porque eu era o cara que entendia, eles achavam isso, de bauxita e a Vale ia entrar numa grande área para pesquisar aquilo e não tinha ninguém, porque é um negócio gozado, aproveitando aí, segura que a minha memória costuma fugir, estou numa fase de transição, normalmente os geólogos gostam de trabalhar, gostam mesmo de trabalhar com mineral de profundidade, metálico de profundidade em rocha dura, tipo Pão de Açúcar, eles não gostam desse material que eu trabalhei, que eu gosto de trabalhar, que é o que a gente chama de intemperizado que vira barro. E o mais gozado é que a grande parte dos minerais brasileiros, talvez a maior parte, está nesse barro, é um barro com uma profundidade de 40 metros, está nisso aí, são minerais que foram fabricados através de problemas químicos, chuva, não sei quê, bichinho, trópico, água quente, tal, vai trabalhando, você sabia que todo esse barro que você tem aqui, se você andar em Minas Gerais, vou dar uma aulinha rápida de geologia, muito prática, se você andar por esse Brasil afora aí, estrada que tem muita curva, estrada tem muita curva e morro, e é um morro vermelho, aquilo tudo já foi rocha dura, tipo Pão de Açúcar, tudo. Era pedra mesmo, a atuação das chuvas, bichinhos, ácidos, então foram se transformando, é a transformação da rocha dura na rocha mole, isso chama-se intemperismo, no linguajar geológico, e é nessa faixa dessas rochas intemperizadas é que se encontram minerais como ferro, a história do Breno lá em Carajás, manganês, alumínio, olha a importância, caulim, fosfato, titânio, um monte de metal importante, mas o geólogo não gosta, ele quer trabalhar em coisa muito complicada lá a 500 mil metros de profundidade. Rocha dura, cheia de quebra, falha, contra-falha, dobra, contra-dobra, a por aí vai. Se bem que essa parte não é fácil, eles acham que é, é meio simplista, mas tem uma série de coisas complexas, tanto é que na época eu fui chamado e talvez no Brasil tinham poucos, muitos poucos que entendiam de bauxita, e eu fui chamado para ir para, apesar de entender pouco, porque eu fazia também muita mancada porque como eu contei para vocês, eu tenho que mostrar para vocês depois o mapa para ver a extensão, por causa das bobagens que a gente fazia, de coisas que foram perdidas, de tempo que foi perdido, sei que a Alcan foi a descobridora desse grande depósito que é o Trombetas na Amazônia, e a que detêm menos ágio, e é a menor acionária na associação de Miracema do Norte, a menor composição é a da Alcan, então já viram aí uma pequena aula, então já sabem que bauxita é um barro e é morro, nunca vai ter em um lugar que não tem morro, mas não é em qualquer morro, então o morro vai ter algumas características, aí no ínterim a Vale me chamou, a Maria Eugênia me deu muito apoio para mudar e eu pulei fora.

 

P/1 – Em que ano isso?

 

R – Em 1971.

 

P/1 – E a Vale te chamou para ir para onde?

 

R – Exatamente para a região de Paragominas, para vocês terem uma idéia da extensão de Paragominas, veja bem, eu saí do Trombetas, que é uma área que deve ser um décimo, ou um vigésimo da extensão de Paragominas, um ambiente geológico propício para a mineralização de Bauxita, Paragominas tem uma extensão assim, quer ver para você ter uma idéia de tamanho, 300 quilômetros de fundo por 200 de largura, ou seja 60 mil quilômetros quadrados, metade do estado de Pernambuco, só para pesquisa de material, tudo com condição de ter ou não ter etc.. E aquilo ali o que que eu fiz, eu tentei, era muita área, porque a Vale queria minério, queria entrar nessa área porque estava toda nas mãos de multinacional, ela teve um aperto do Governo, para que uma empresa como a Vale, que é estatal, não é tanto estatal, mas é mista, que entrasse nessa área. E aí fomos para Paragominas e os platôs muito extensos, os platôs que são mesas, platôs são mesas, eu vou aproveitar, tipo isso aqui, uma mesinha assim, meio plano em cima, na Amazônia é assim, onde você encontra bauxita é em mesas assim, aí tem uns certos macetes, mas e aí, fora disso você vai ter dor de cabeça, aí como era muito extenso, como é que eu faço para mexer nessa área toda?

 

P/1 – Você foi sozinho como geólogo responsável ou com uma equipe maior?

 

R – Fui sozinho, foi um colega meu comigo, já tinha sido contratado, trabalhou um pouco comigo na Alcan, o Antonio Pinto de Almeida Neto. Depois tinha um geólogo que estava me esperando, mas que tinha muito pouco ou quase nenhuma experiência em bauxita, quem tinha mais era eu mesmo, mas trazendo coisas erradas da Alcan, metodologias ainda que eu fui aprimorar na Vale do Rio Doce. Muito bem, chegando lá que eu fui comparar os resultados, as áreas negativas que tinham no Trombetas, não tinham minério, porque que não tinham minério, e outras áreas tinham minérios, peguei o Trombetas e fui ver numa imagem, porque, um estudo morfológico que a gente chama, olhando uma imagem do radar, o radar estava surgindo nessa época, o sensoriamento remoto, estava surgindo, então com aquela fotografia eu fui tentar ver, será que tem algum macete geomorfológico, que a gente chama né, no olho, no visual, que diferencia uma área da outra, comecei a observar que certos tipos de drenagens muito sutis, onde tinha aquele tipo de drenagem, aquele rio que nascia da serra, onde tinha aquele tipo, ou a bauxita ou o minério era pobre, no Trombetas, ou só tinha ferro, laterita ferruginosa, laterita ferruginosa é um composto que não serve para nada, serve para _________, mas não serve nem para minério de ferro, sabe aquele negócio que está com os teores diluídos? Não serve para nada. Então eu comecei a observar essa diferença, poxa vida, porque que esse platô tinha minério, porque que esse não tem, parte desse platô tem minério, parte não tem, será que em Paragominas acontece o mesmo? Eu comecei a testar, só para você ter uma idéia, de um furo para o outro, olha como a gente anda, de um furo para o outro em Paragominas, às vezes eu estava com quatro ou cinco quilômetros de distância de um furo para o outro, tinha platô que tinha 100 quilômetro de extensão, veja a diferença de ambiente para um minério que é o alumínio, estamos falando em 100 quilômetros de extensão, eu vou falar para você de ouro, você encontra uma jazida de ouro como a Fazenda Brasileira, na Bahia, com um quilômetro quadrado, há todo um trabalho de pesquisa feito ali. Já com a bauxita, minério de alumínio, eu andava 100, olha a diferença, é muito grande, para quem trabalha numa coisa, trabalhar na outra, não tem nada a ver. Então é muito cansativo o trabalho de busca do alumínio, você tem que andar muito, mudar muito, se você for trabalhar em ouro você fica ali, é uma maravilha, fica na mordomia, os furos são perto, é uma coisa interessante. Você sabe que com essa interpretação eu fui observar que em Paragominas estava dando certo, eu pude eliminar muita área, e bloquear algumas, então o Paragominas foi um reserva muito grande, a Maria Eugênia foi comigo também, no início da pesquisa ela foi para o campo, no início da pesquisa, naquela época a gente podia fazer isso, a Belém-Brasília não tinha asfalto, tinha que encarar a coisa, o acesso era feito, até a região de Paragominas era carro, com estrada e rodovia ainda de barro, lá dentro por igarapés, barquinho com motores de popa, a gente tinha uns macetes para andar, levantava a rabeta do motor de popa, o igarapé era raso, você levantava a rabeta com papel higiênico para a hélice ir por cima da água, e depois poder navegar no igarapé, fora isso tinha que ser à pé mesmo.

 

P/1 - E as condições do acampamento já eram melhores?

 

R - As condições de acampamento na Vale já eram melhores, se bem que ainda trabalhávamos, tinha hora, quando o trabalho era muito inicial assim, estava iniciando, você ainda faz com lona, como vocês vão ver, em rede, mas você tinha rádio, você tinha enfermeiros, você tinha uma alimentação perfeita, a Vale era outra história, você tinha todo um apoio logístico, muito carro, barco, motores, você podia comprar o que você quisesse comprar, a gente voava muito, decolava a toda hora de avião sem maiores problemas, hoje você não consegue fazer isso.

 

P/1 - Mas a Vale permitiu que Maria Eugênia fosse com você, ficasse no acampamento?

 

R - Não, mas ela não ficava no acampamento não, ela ia para o campo para dar cobertura, por exemplo, dar festa de Natal, você acredita? A Vale do Rio Doce nos primeiros anos, em 1972, 1973, a gente dava festa de Natal para o caboclo do campo, dando presentes, Maria Eugênia ia para lá e ficava distribuindo presentes para cada caboclo daquele, vinho, maçã, etc., era um negócio que hoje seria impensável, hoje é impensável isso, tem um retrato dela dando coisa. E desenvolvemos um trabalho grande, tem muita mina em Paragominas, Paragominas tem mais dois bilhões de toneladas de minério de alumínio que vão ficar enterrados lá eternamente por causa de nossa esdrúxula cabeça idiotiana que se implantou na nossa gente, não sei por que, estão quando eu olho Paragominas, com aquelas jazidas todas, eu estou falando de bauxita, está parada e eu fico pensando não é possível, e depois lá para a frente você vai ver que vai surgir o caulim, hoje a bauxita de Paragominas está parada, era para ter um projeto grande lá, o que que acontece? Vou dar um exemplo rápido para vocês aqui, então vamos tentar guardar isso em pinceladas, você para obter o alumínio, metal, você vem da bauxita, vai para a alumina, que é um pó branco que é igual a cocaína, a alumina, e vai para o alumínio, que é o metal. A bauxita, como eu falei para você é aquela meleca vermelha normalmente, já aprendeu. Por que que é vermelha, porque tem aquela cor? Por causa do ferro, muito óxido de ferro coloca aquela coloração vermelha, mas aqui você faz um tratamento idiota que foi descoberto em 1888, por um tal de Bayer, processo que não mudou até hoje, bota essa bauxita, bota essa merda na soda cáustica, soda cáustica, mistura, tudo que é ruim desce, essa é a parada, chama lama vermelha, e a alumina sobe, que é branca, acabou. Você não usa muita energia, você não usa muita coisa, então, tem que ter soda. No topo você faz a alumina que é aquele pó branco, a alumina é o que, a bauxita é uma rocha, rocha é o que tem minerais, mineraizinhos, se chama rocha, a bauxita é uma rocha, então você tira a alumina e só fica alumínio e oxigênio branquinho, muito igual à cocaína ou talco, ou qualquer coisa que seja similar, branco, aquele pozinho. Com aquilo ali é que vai se fabricar o alumínio, do dióxido de alumínio, esse pozinho branco você vai tirar o metal. Põe ou em barras ou em… Que é a Albrás, essas fábricas de Minas. Essa fábrica de alumínio para tirar, para romper o oxigênio do alumínio é que exige muita energia, te quebra em energia, chupa tudo, é como se você tivesse na sua casa e ligasse quatro chuveiros elétricos num dia, gasta uma energia brutal, nessa fase precisa de um lugar que contenha energia. Meu Deus, mas a alumina no primeiro estágio, normalmente no mundo, essa fábrica de alumina ela é colocada junto ao depósito de bauxita que você descobriu que existe. Acontece assim na Austrália, acontece assim na Jamaica, nesses lugares todos, o que que nós fizemos, nós pegamos um fábrica de alumina e colocamos lá perto de Barcarena, junto com a fábrica de alumínio, ela só aceita bauxita do Trombetas, porque uma fábrica de alumina ela é construída de acordo com a bauxita que você tem, que muda de teor. De acordo com a coisa. Tudo bem, então o que que você faria em Paragominas, me tira a fábrica de alumina lá, perto da mina, desenvolver um pólo, que a diferença de preço entre bauxita e alumina é absurda, uma bauxita é no máximo 28 ou 27 dólares, muito boa, é esse que nós pegamos do Trombeta e jogamos lá para fora, e jogamos lá para a Alunorte, 27 dólares, a alumina custa 130, 140 dólares, olha o pulo, de 27 para 140, varia para 160, mas vamos falar sempre em faixas, eu não gosto de coisas pontuais não, na vida não é nada pontual, coloca faixa nas coisa porque não tem nada assim… Então, e o alumínio já chegou a dois mil e tantos dólares, sai de 27, entre 20 e 30, tem lugares que é mais barato, 22, passa para 140, 160 e vai para 1600, 1700 que é o preço que ela deve estar hoje, 1500. Bom, se você coloca as fábricas de alumina perto das jazidas, na Amazônia, que é um local longínquo, você diminui o custo de transporte, enriquece, agrega valor, e desenterra aquela meleca que está lá, num país pobre como o nosso tem a vocação mínero-metalúrgica, nós temos essa vocação, está lá, nos damos ao luxo de deixar enterrada. Eu vou dizer uma coisa, eu tenho uma coisa na minha cabeça que é o seguinte, eu acho até que nem que o custo/benefício, custo/preço dê zero, empate, você deve desenvolver. Vou te falar mais, num caso desses se o custo/preço for desfavorável para você, o Governo teria que subsidiar, como faz os Estados Unidos agora com a agricultura gasta 35 bilhões de dólares, não sei se vocês viram, para subsidiar a agricultura, você está entendendo? Eu acho que o mais importante nessa história toda é você aproveitar aquele teu bem e gerar emprego e segurar as pessoas no interior, num país de extensão como é o Brasil. Mas Paragominas o que acontece, com tudo isso que está lá, Paragominas deve ter quantas minas? Oito, umas sete, oito minas de bauxita, tanto metalúrgica quanto refratária, falando qual é a diferença entre um e outro, a bauxita metalúrgica é para fabricar alumínio, a bauxita refratária é para fabricar tijolos de refratários, para altos fornos, sustentar grandes temperaturas, para a fabricação de aço, disso e daquilo, você tem esse dois tipo, o que está acontecendo é que aquilo lá vai ficar parado, lamentavelmente, então é isso aí. Durante esse período de pesquisa, foram desenvolvidas vários tipos de tecnologias, muita gente visitou a área, teve muitos acontecimentos e foi o período do meu desquite também, foi um período duro para mim em Belém, na paralela, foi o período em que a Maria Eugênia veio embora, por causa dessa minha, da Elisete, que foi uma amante, uma amante não, sei lá, a gente quando gosta de uma pessoa ou acha que gosta e se apaixona, aquela paixão desenfreada, coisa absurda, negócio doentio, você larga.

 

P/1 - Mas como foi essa história?

 

R - Olha, foi uma época de muito sofrimento, a gente morava bem em Belém, tudo certinho, nunca traí minha mulher, era inimaginável, quando de repente a Elisete me encantou, não sei porque, ela era secretária da Companhia, tem aquele negócio, seios enormes, e eu acho que voltou a me afetar de novo, e eu estava com algum probleminha com a Maria Eugênia, Maria Eugênia estava meio mignon. Aí eu comecei perder a coisa, a força vital heterossexual positiva com a Maria Eugênia.

 

P/1 - Só com a Elisete?

 

R - Só tinha com a Elisete, e similares, podia ser mulatas, etruscas, gregas, o raio que for, até bicho, mas com a Maria Eugênia não. Então eu tive que partir para esse fenômeno que foi essa disfunção e rápida, rodou rápido, era uma loucura, eu fugia, ia atrás da mulher, não pensava em outra coisa, depois vinha uma caravana atrás de mim para evitar o holocausto, todos os meus colegas de carro me perseguiam pelas ruas.

 

P/1 – O quê?

 

R - Não pode se separar, e tal, e eu dizia: “eu não aguento, eu quero esta mulher, eu quero esta mulher”, menina era uma atração, não sei, ela me atraía, onde era virasse a coisa eu ia correndo, uma atração. A Maria Eugênia sofreu muito nesse período, olha, o que eu saí correndo por aquela avenida Nazaré, morava bem, tinha uma filha pequena, de 3 anos e você não vê nada, olha o que eu apanhei da Maria Eugênia, eu não podia bater nela, ela só me dava tapa, “fica porque eu quero te bater”, pá, pá, pá, pá, pá, e batia. Aí jogava as minhas roupas todas lá para baixo, o porteiro pegava e levava lá para cima, e eu dizia, “não leva essa porra que ela vai jogar de novo, fica para você”, e foi, foi, foi, olha, teve um dia que eu para escapar da Maria Eugênia, para eu não apanhar dela, eu imitei que eu fiquei igual ao Breno, eu estava todo trancado, aí eu paralisei, e ela me puxava e eu puxava para cá, todo com a mão torta, fui parar no médico, eu tinha que ter um dom artístico bom, o médico puxava para lá, eu puxava para cá, e ele dizia, “mas porque que ele ficou assim”, “eu não sei!” a Maria Eugênia, “a nossa briga que está ficando, olha como ele vai, está morrendo”, e eu colocava a minha língua para fora, para poder me livrar.

 

P/2 – Mas isso foi por quanto tempo?

 

R – Eu fugia para hotel, teve uma época, o Breno segurou muito a minha barra nessa época, eu dormi no hotel dos mais vagabundos de Belém, todo esfarrapado, hotel que era para ninguém me descobrir, onde os caboclos dormiam eu dormia lá, “Dr. Assad, o que o senhor está fazendo aqui?” “Não, eu gosto desse hotel, tem charme, eu gosto de estar aqui”, tal, aquela coisa.

 

P/1 – Mas nisso o senhor estava com a Elisete?

 

R – Com a Elisete, mas aí o que aconteceu, separamos né, Maria Eugênia foi embora, foi uma separação muito difícil. Uma vez eu estava fugindo para o Rio de Janeiro, de madrugada, era um avião da Transbrasil.

 

P/1 – Fugindo por quê?

 

R – Eu sugeri um trabalho para o Breno e falei, “tenho que sair de madrugada” e eu fui, mas eu queria mesmo era fugir de casa. Você sabe que eu estava no aeroporto para pegar o avião, e com a Maria Eugênia a barra estava tão pesada, porque você acha que você é que está certo nessa hora, que a pessoa é que está te incomodando, aí na hora, eu já tinha dado o check in pára um táxi e desce a Maria Eugênia, no aeroporto, com a Adriane, a minha filha no colo, e aí virou para mim e disse: “eu também estou indo para o Rio, eu sabia que você ia, mas não vou te atrapalhar não, vou lá e vou ficar em outro canto”, e falei, “ai meu Deus”, aí fila para embarcar, eu fiquei lá atrás, Maria Eugênia era a primeira porque estava com criança, aí vira o cara lá na frente, o aeromoço, “quem é o pai da criança?” E eu lá de trás, sou eu, “o senhor por favor querem ficar junto?”, e aí eu tive que viajar junto com ela no avião, mas ela me socou no avião, olha, eu tomava cada soco, sem poder fazer nada, e ela ficava, cretino, nós tínhamos que viajar juntos, e pá, seu safado, pensou que ia fugir, e pá, Maria Eugênia, pô, não faça isso, que, você vai ver só, e foi, foi voando e eu apanhando, voando, apanhando, voando, apanhando, até que chegou no Rio, aí teve que desviar a rota, fui para um lado e ela para outro canto, aí eu voltei para Belém de novo, sei que foi, foi, foi, até que nos separamos, o desquite foi difícil, ela pegou metade do meu salário, para eu viver com aquilo, pô, aí eu fui para o fundo do poço, morei num apartamento em Belém, saí daquele apartamento que era lindíssimo, grande, cara, fui morar num apartamento no meio da cidade de Belém que o banheiro,  eu sentava na privada, sem sacanagem, eu sentava na privada, botava a mão na pia e tomava banho no chuveiro, de tão pequeno que era aquela porra, e a Elisete lá e eu satisfeito.

 

P/2 – A Elisete estava com você?

 

R – É, aí foi quando ela teve a brilhante idéia, fomos morar juntos, fomos morar juntos, Maria Eugênia foi para Mimoso do Sul, no Espírito Santo, economia toda desfeita, sistema todo, pô, imagina a cabeça, trabalhando, não podia pisar na bola, aí a Elisete dá essa grande idéia de montar essa casa de prazeres.

 

P/1 – Foi a Elisete que teve a idéia, então?

 

R – É, em Belém do Pará, aí foi uma coisa interessante essa experiência, mas eu não ia lá, eu não participava, ela tomava conta, chegou até a ganhar um dinheiro, mas aí eu gostava dela, essa atração que você tem pela, que coisa impressionante, mas é um negócio passageiro também, que passa, como aconteceu comigo, foi, foi, foi, o pessoal da Vale mesmo ia, uma hipocrisia danada, ao mesmo tempo que queriam me pegar, ao mesmo tempo frequentavam.

 

P/1 – Eles repudiavam a idéia de você ter?

 

R – Eles repudiavam em termos, ficava ruim para a Vale, a Vale, o contexto, o Roberto Assad… Eu acho que eu era razoavelmente competente, o Breno soube separar as coisas aí, muito bem, soube conduzir isso, e fomos levando e aqueles problemas lá naquele negócio, naquele bordel.

 

P/1 – Conta mais detalhes aí do seu…(risos)

 

R – Esse bordel foi interessante, ele era uma casa grande, sabe, muito bonita, cheio de estátuas, chafariz, tinha uma piscina alta, muitas flores, e aquelas mulheres vindas do Brasil inteiro, tinha gente de Porto Alegre, tinha mulheres altas, bonitas, e a Elisete que dominava a situação. Mas tinham essas meninas que eram mais inexperientes, que vinham aí do Igarapé, daí do Alto do Xingu, bonitinhas, começando a ter problemas com os clientes, elas não sabiam trabalhar direito, não sabiam se movimentar com os clientes e a gente precisava ter uma qualidade melhorada, aí de vez em quando eu me prontificava a ter uma reunião com elas para ensinar como proceder, aí levava apetrechos, frutas, para ensinar, foi melhorando, foi melhorando, melhorou e ia para a frente, mas olha, dava dinheiro esse negócio, dava dinheiro, e tinha uma pianista muito doida, uma pianista, a pianista era um sucesso, a cara dela, ela era toda torta, cantava estranho.

 

P/1 – Cantava também?

 

R – Cantava, [canta]. Aí enchia a casa, e a gente passava filme pornô para o pessoal.

 

P/1 – Mas onde vocês arrumavam esses filmes?

 

R – Arrumava, a gente passava lá na Companhia, tinha um pessoal que tinha lá uns filmes, eu ia pegando deles, passava lá na Docegeo, todos os meus colegas gostavam de ir. O único que não frequentou, nem sei porque, foi o Breno, gozado, não estou livrando a cara dele não, mas o Breno não foi não, ficou meio com medo, doido para ir, mas tinha medo. Os geólogos quase todos frequentavam, gostavam, do Rio de Janeiro, diretoria, tudo, da Vale do Rio Doce, quando vinham os japoneses, qualquer visita estrangeira para cá.

 

P/2 – Era uma casa de destaque em Belém, né?

 

R – De destaque, dava dinheiro.

 

P/1 – Como chamava?

 

R – Mas aí a Elisete com o cliente corpão todo malhado do Amapá, gostou do cara, gostou do cliente, porra, atrapalhou tudo. Mas ela não queria me deixar, ela falava para mim, só eu que posso te trair, você não pode me trair, porque você não sabe separar a cabeça de cima com a cabeça de baixo. Me traía e queria me matar, foi dramática essa situação, pegava carro e vinha na contramão com o carro para me matar porque soube que eu estava traindo ela, aí a gente se atarracava lá num canto, era uma tragédia, uma vez teve uma festa na casa do Vanderlei, o Vanderlei que vocês entrevistaram, apanhou muito da Elisete, ela bateu nele nesse dia, o Vanderlei estava dando uma festa e eu estava lá querendo me livrar da Elisete, estava uma situação danada, ela já tinha outro, mas não queria me deixar, era muito doido. Aí, o Vanderlei deu um festão, o Vanderlei gostava de dar umas festas, se vestia de turbante, botava uns babeluque na cabeça, botava uns negócio, muito interessante, aí eu fui para a festa, tinha uma mesa comprida cheia de taças de cristal, copos, lá pelas tantas da noite quem toca a campainha? A Elisete, queria saber onde é que eu estava e eu estava começando inclusive a namorar a que é mãe das minhas duas filhas hoje, nesse dia, a Eliana, que trabalha na Vale, hoje, ainda trabalha na Vale. A Elisete entrou, “o Assad está aí?” “Está na festinha”, o Vanderlei ele tentou barrar ela, “mas o que que você quer?” “Não interessa”, aí os dois começaram, quando eu vi os dois estava quebrando o pau, ela pegou essa mesa do Vanderlei que estava cheia de taça e arrastou tudo, a casa estava com mais de 40 pessoas. Aí quebrou tudo, teve uma pauleira, era nego pulando para os lados, Vanderlei para o outro, eu sei que eu parei numa cama, o Vanderlei também, a Elisete e mais duas mulheres, embolotaram numa cama, apanhava todo mundo, todo mundo apanhava, aí a Lili, que é o apelido dessa Eliana, minha nova mulher, se escondeu num canto, num sofá. Aí a Elisete saiu, olhou para o Vanderlei e disse, “olha aqui, você vai ver agora o que que vai acontecer com você”, foi embora para a casa dela, voltou com três seguranças lá do bordel que eram caras pesados, tipo esses caras da Assembléia de Deus, que ficam tomando conta, olha queriam pegar o Vanderlei. Conseguiram separar com muita dificuldade, convencer a Elisete a não fazer aquilo, está bem, eu vou quebrar o galho, mas pegou o meu carro, desceu do elevador, o Vanderlei morava no 11º, 20º, 17º, não sei, o meu carro estava estacionado lá embaixo, sabe o que que essa Elisete fez, Cláudia? Pegou o meu carro e começou a bater na árvore com ele, amassou o carro todo assim. Uma loucura que eu passei ali naquele período, então essa foi uma fase muito conturbada e interessante da minha existência, juntando com o trabalho tal, mas além de Paragominas, em paralelo, desenvolvemos pesquisas em outros lugares.

 

P/1 – Aonde?

 

R – Desenvolvemos pesquisas em Almeirim, que é uma cidade que fica a 400 quilômetros de Belém, procurando também bauxita, procurando caulim, e nas margens do Rio Amazonas, foi um período interessante nessa região do Almeirim, mas antes disso em Paragominas aconteceu uns casos curiosos com o nosso motorista Bráulio, com dois ou três anos de operação, estava levando uns posseiros para o campo, posseiros para fazer poço, e numa dessa idas ele deixou o carro, os posseiros estavam trabalhando, enquanto estava parado saiu pela mata para caçar, com um canivete e espingarda, desapareceu, desapareceu o Bráulio, ficou sete dias perdidos, oito dias perdido, na mata de Paragominas e a gente doido procurando o cara. Bom, para resumir, eu e o Claudiano que eram os administradores da Companhia, nessa época pousamos até em estrada, a Belém-Brasília, com sinal de asa procurando com avião, mas você não procura com avião, não sei se o Breno deve ter relatado isso, mas fazendo um sinal para um caminhão que estava dentro, ele achava bonito, mas era um sinal para ele se afastar que a gente estava querendo posar porque estávamos com pouco combustível, e forçamos. Esse cara ele se achou por si próprio 8 dias depois, Paragominas era uma mata sem água, e interessante na Amazônia, a Amazônia tem área sem água, e o Paragominas essa região era uma delas, muito difícil de caminhar e ele sobreviveu por causa do canivete, ele cortava pau com muita dificuldade, cipó d’água e bebia, e um isqueiro que ele tinha que aquecia à noite para dormir, esse cara comia muita formiga e folhas, e no sétimo dia escapou.

 

P/2 – Acharam ele, ou ele que achou o caminho?

 

R – Ele se achou, um dia eu estava no acampamento de Paragominas, num sábado, eles tocaram os foguetes, era ele que estava chegando… Mas como eu estava dizendo, teve um fato curioso também em Paragominas como um caso a visita, nessa época havia muitas visitas do exterior para cá, tanto dos japoneses como de pessoas de outros países, mas mais japoneses.

 

P/1 – Compradores?

 

R – Que queriam fazer negócio com a Vale, na área de alumínio. Então como Paragominas era uma região grande, da bauxita, era tudo o que eles queriam, entrar lá para ver. Uma vez eu levei uma equipe de japoneses de avião e perguntamos para eles, começamos a operar com o helicóptero e ali eram apenas clareiras, tinham muitos poços, eles queriam visitar os poços,  você sabe que esses japoneses pousou o helicóptero, estava cheio de japoneses, eles foram correndo quase que caíram tudo dentro dos poços? Eu tive que pegar no meio do caminho porque eles não conheciam aquele negócio ali, e era uma loucura e eles queriam fotografar tudo, viviam fotografando, mania de japonês. Mas teve uma missão uma vez, um pessoal que veio fazer um projeto econômico, de gente de fora, ingleses, tal, e nós estávamos lá à noite e eles queriam conhecer as meninas tropicais, as tropical girls, porque eles achavam que essas meninas seriam iguais àquelas meninas lá da Bahia, ôla ôla, com aqueles troços na cabeça, essas morenas bonitas, então descemos o Igarapé à noite e fomos numa cabana e tinha um deles que se chamava Rexford, um inglês britânico, louco para conhecer tropical girls aí as meninas não estavam, estava escuro, tinham ido não sei para onde, ficamos ali esperando até que um foi buscar de barco, voltaram com as meninas, elas foram se aproximando, estava tudo escuro, aí elas desceram na beira, num trapiche e vieram caminhando, aí o Rexford botou a lanterna, botou, focou o rosto da menina e a menina deu um sorriso, sem nenhum dente, aí ele falou: “Jesus Christ!”, quer dizer que decepção né rapaz, que coisa, deixa eu ver se tem mais alguma coisa.

 

P/1 - Assad, e os casos de avião, são vários, né?

 

R - Nossa Senhora! Eu estava falando mais de Paragominas, os caras de avião tem mais assim, na região de Almeirim, vocês vão ter uma foto, está no slide, que é fácil transformar numa foto, talvez uma foto inédita, única no mundo de Almeirim, eu vou contar para vocês, eu estava começando a fazer uma pesquisa na beira do Rio Amazonas, local belíssimo, é outra área que está parada, só está desenvolvida a bauxita para refratário pela Jaí, virou mina, virou mina porque nós descobrimos, a Vale não tocou e eles foram para a área deles com a nossa tecnologia e detectaram também, então… Para a gente é muito importante não pensar muito na gente não, pensar como você alavanca o projeto dos outros, e tem um momento que vai acontecer isso com o caulim também, mas é uma satisfação ver que aquela região tem uma mina porque na realidade você com a sua equipe fez aquele negócio andar, mas Almeirim gente, é o seguinte, a pista de pouso, é uma rua, na cidade de Almeirim, rua 7 de Setembro.

 

P/1 - No meio da cidade?

 

R - No meio da cidade, rua 7 de Setembro. O piloto para pousar tinha uma caixa d’água, no começo da pista, e outra coisa, a pista era pequena, e fazia assim, uma catapulta, e aqui casas do lado, uma rua. O piloto vinha, pulava a caixa d’água, cortava o motor todo e pegava a cabeceira para dar tempo de parar, certo, era assim. Uma vez eu estava pousando com um colega meu, o Carlos Alberto. O que aconteceu, na hora em que o piloto pula a caixa d’água, corta um caminhão na pista, então ele já havia feito o processo da descida, eu lembro que o Carlos olhou para mim e disse: “Assad, morremos”, aí o camarada, não sei o que esse piloto fez, ele pulou esse caminhão e foi com o avião até o fim da pista, desceu, parou o avião com o motor meio ligado, ele saiu para dar porrada no cara lá atrás, deixou eu e o Carlos lá no avião e desceu para bater no cara. E tem outras histórias, mas eu ia falar para vocês dessa foto que eu tenho, é o seguinte, um camarada, eu voava muito com ele, chamava Camargo, cheio de cicatrizes aqui de queda no Amazônia, Camargo, tinha um Bonanza azul, uma vez pousamos em Almeirim nessa pista, o avião pifou, ele puxou o avião e colocou o avião de uma forma que a metade do avião ficou para dentro da casa de um cara e a metade da frente ficou para fora da pista, mas não tinha nada, não tinha cerca nada, uns dez dias depois eu passo ali, está passando uma cerca de bambu por cima do avião, marcando o quintal do cara, marcando a parte do avião que estava para dentro e a parte do avião que está para fora da cerca, o avião parecia um índio fantasiado. Aí eu cheguei para o Seu Francisco e perguntei: “ô Seu Francisco, por que o senhor passou essa cerca de bambu por cima do avião?” Ele disse: “olha, é o seguinte Dr. Assad, eu sou um homem sério, esse avião está aqui há 15 dias, a metade do avião está dentro da minha casa, o senhor está vendo aí, a metade está para fora, ele só decola com essa parte da frente, vai ter que pagar o aluguel desse rabo de avião que ficou para dentro”, aí eu disse para ele, “mas Seu Francisco, o senhor sabe quanto custa o aluguel de um rabo de avião Bonanza que fica para dentro de uma casa?”, ele disse, “não sei não, mas nós vamos conversar”, vocês vão ver essa foto, eu tenho ela aí fotografada.

 

P/1 - E qual foi o desfecho dessa história?

 

R - O desfecho sabe que eu não sei? Quando nós saímos de lá, eu não sei o desfecho dessa história, como acabou, que interessante, eu não sei, mas Almeirim tinha um circo, também, é cada coisa, é muita coisa né? Almeirim tinha um circo que não tinha lona por cima não, o circo tinha aquela lona só em volta, e o cara que atendia era um cara que falava espanhol, igual esse espanhol que eu falei para vocês que mora aqui, ele mesmo recebia e depois ele mesmo ia lá para dentro e se vestia de palhaço, depois ele ia e voltava vestido de trapezista, agora o trapezista José, o cara fazia tudo. O circo não tinha lona em cima, então o trapezista tinha que sair do circo, ia lá para a rua e depois voltava para o circo, saía do circo e voltava para o circo. Eu estou lá com o piloto do helicóptero que até morreu, nós olhamos e dissemos, que troço hilário, aí quando o trapezista saiu do circo as crianças com pau e pedra sentavam pau e pedra nele, aí ele tinha que voltar para o circo depressa, aí ele ficava parando o trapézio para ir lá dar porrada nos caras, ele era o único dono e apanhava das crianças de pau e pedra, as crianças já sabiam, por isso que eu não entendia porque que juntava aquele bando. É outra coisa de Almeirim dessa região, a outra coisa era com os consultores, eu tive muito problema com consultor que vinha do Rio de Janeiro para visitar os projetos, dar orientação , etc. Tinha um consultor muito gordo, chamava Thompson, logo a gente já apelidava, a gente apelidava todo mundo viu, todo mundo. Porcão, o Porcão era aquele cara, aí tinha que colocar aquele cara e levar para Almeirim, num avião, você voava 400 quilômetros de Belém a Almeirim, o cara não cabia nas portas, teve que arrancar as portas do avião, duas poltronas para botar ele, aí eu mandei puto um telex para o Rio: “Favor doravante enviar altura, largura e peso dos consultores, pois está causando problemas incríveis”, ele tinha um problema de mijar de cinco em cinco minutos, o avião decolou, botou ele em Almeirim, em Almeirim quando o avião descia nessa pista, o avião ia correndo nessa pista e a criançada, 500 crianças iam atrás, esse cara desceu com vontade de mijar e mijou nas crianças, aí foi um escândalo, teve que chamar o Prefeito, “pô, o cara não tem educação, pensa que isso aqui é os Estados Unidos, só porque é um lugar pobre”, e eu falei, “não é porque ele é doente”, “que doente?”, mas o cara não aguentava, esse Porcão, deu trabalho, tivemos que levar esse cara para o campo. Eu tinha um geólogo tão doido que era o Antônio Pinto…

 

P/1 - Qual era o apelido dele?

 

R - O Antônio Pinto, não tinha apelido não, esse cara dava tanta importância a umas coisas tão desimportantes, que o Breno ficava enlouquecido com isso, tanto que ele pegava o Antônio Pinto e eu segurava a barra. A gente com essa turma aí, Thompson, tudo gente indo para o campo, uma caravana, indo para Almeirim e tinha uma porteira para entrar no campo, não sei se o Breno contou essa passagem, mas tinha uma porteira de segurança com cadeado, aí parou na porteira com as comitivas todas e eu perguntei para o Antônio Pinto: “Ô Antônio, cadê a chave? Você está com a chave né Antônio?” “Estou não, não está comigo, está com o capataz”. Perguntaram para ele, “cadê a chave?” “Eu dei para o Antônio”. Todo mundo esperando, esperando. Gente, cadê a chave? Ninguém tinha a chave, aí pegaram um machado, vieram para o portão, todo mundo olhando, os gringos, começaram a destruir portão com o machado, juntou mais dois caras com machado, aí veio um gringo perguntando, “mas será que para abrir um portão esse que é o processo?” (risos) Muito interessante. Mas um fedia, eles eram dois, um chamava _______________, fedia que ninguém aguentava ele, não podia nem chegar perto, aí um falava para o outro em inglês no campo, o Thompson falava, “eu estou fedendo, estou cheirando mal”, e aí o outro falava, “não se cheira, simplesmente não se cheira, fica tranquilo”. Deu um trabalho esses consultores, não sei se tem mais algum caso para lembrar de Almeirim, caso de avião...

 

P/1 - Quando você entrou para a Vale você entrou para a Docegeo ou para a Vale?

 

R - Para a Docegeo, para a Docegeo. Contei os casos, Almeirim acho que não tem mais nada, depois, nós estamos na bauxita ainda, né?

 

P/2 - Você trabalhou só nesse projeto de bauxita?

 

R - Bauxita e caulim. Eventualmente substitui o Breno na chefia do distrito naquela época, uma coisa interessante. Na minha época nós éramos três que substituíam o Breno na chefia do distrito, três geólogos, mas a gente brigava para não ir no lugar, completamente, uma briga danada porque não queria aceitar, diferente de hoje, hoje é uma briga para querer entrar e derrubar o cara, o negócio deve ser esse, mas naquela época não.

 

P/2 - Era você quem substituía o Breno e quem mais, quem eram os outros dois?

 

R - A da picada já contei… Tinha uma serra em Almeirim que se chamava “Pede a conta”.

 

P/1 - Pede a conta?

 

R - É, o caboclo subia e pedia a conta, de tão alta que ela é.

 

P/1 - Você ficou em Almeirim até que ano?

 

R - Almeirim, então, voltando em paralelo, quando a gente estava trabalhando em Paragominas, qual era a intenção? A intenção nossa não era aumentar a reserva não, bauxita já tinha uma quantidade razoável, era escolher uma coisa boa, uma coisa de qualidade, não era quantidade, mas, inclusive qualidade comparável com Trombetas, mas era difícil, não tem na Amazônia, olha que eu furei aquela Amazônia inteira, paralela com Paragominas, desenvolvemos pesquisa em toda a região do Tapajós ao Xingu, que é uma vasta extensão de terra para alumínio de alto teor, não existe, Almeirim tem problemas, Paragominas tem teores mais fracos. Igual ao Trombetas não tem, jamais, aquela é a jazida. Agora, Trombetas é uma jazida excepcional.

 

P/2 - E é até hoje?

 

R - Foi a primeira descoberta, normalmente as primeiras jazidas têm sido as excepcionais, Trombetas, ferro do Carajás, de alto teor, manganês do Carajás, de alto teor.

 

P/2 - Trombetas é até hoje a jazida de bauxita?

 

R - É. Não é maior do que Paragominas, não é maior.

 

P/2 - Paragominas que é a maior?

 

R - Paragominas é a maior, mas não é a melhor, mas é uma boa bauxita, é onde eu defendo lá a construção de uma usina de alumina, como defendo a construção de uma usina de alumina em Almeirim, que é outro lugar, veja, Paragominas fica ao sul de Belém, vamos dizer 300 quilômetros ao sul da região pobre, paupérrima, Amazônia. Almeirim, estou esquecendo de colocar Belém aqui, Almeirim fica 400 quilômetros ao oeste, também uma região paupérrima, então se você desenvolve esses pólos, minero-metalúrgico, para o país! Mas existe uma mania muito grande, não adianta descobrir lá, que é anti-econômico, o minério te muito disso, por que? Porque é uma commodity normalmente de pouco valor, a não ser ouro, ouro, não, ouro você descobre em qualquer lugar, tem muito valor, mas o minério é uma commodity que normalmente tem pouco valor. Ora, pô, você sabe muito bem que você não vai descobrir minério perto de Copacabana, nem tem perto da costa. Os caras sabe que vão descobrir, pô, é muito sorte descobrir perto de um rio, mas a sua tendência é descobrir minério mal localizado nesse país extenso, o que você tem que dar um jeito é jogar as fábricas para lá, agregar valor nisso, para ele ter um valor maior para você poder justificar o transporte, é ou não é, você quer fazer o contrário, você descobre, fabricar o minério, concorda comigo que é difícil fabricar o minério? Milhões, milhões e milhões de ano fabricando aquela droga, que não é qualquer país que tem, é uma dádiva divina ter colocado essa porra desse minério aqui no Brasil, e você se dá ao luxo de deixar enterrado, porque diz que é anti-econômico, anti-econômico é a nossa cabeça, na realidade, porque ninguém quer ter a mínima sensatez de raciocinar mais um pouco e fazer um esforço de desenvolver aquela coisa vocacional, que é o minério, tem duas coisas que eu acho sensacionais aqui para botar no interior pobre no Brasil. É na área de minério, fora a agricultura e jogo, e jogo, tenho essa idéia na cabeça, meter cassino no lugar pobre. Eu trabalhei no Vale do Jequitinhonha , área paupérrima no norte de Minas, vocês devem ter ouvido falar, paupérrima, miserável, procurei caulim lá, fiz um relatório para a Vale, gente precisamos alavancar isso aqui para melhorar a situação dessa gente, né, e eu comentei se o caulim não for bom aqui, for razoável, tem que botar cassino, pô, pega cassino põe nesses lugares aí, pô! Vai botar essas mulher para aprender a ser crupiê, sei lá o que, você dá emprego, pensando na vida como ela é, tem outra mania, tem gente que vem dizer que o minério é pobre, por exemplo, lá o minério é pobre, não tem teor adequado, não você faz, transforma aquele negócio, você melhora aquilo, você alavanca de outro jeito, resta um esforço, eu não sei ser político, né, eu não sei. Nós não entramos na área de caulim, eu estou falando de caulim mesmo, porque tem a bauxita de Carajás ainda.

 

P/1 - É.

 

R - Ah, em Paragominas, eu vou voltar, vão parar um pouco de parte técnica, né, é, a gente tentou então várias minas, Paragominas é muito grande, tem quatro depósitos, não é botar reserva grande, não adianta você ter um bilhão de toneladas se não tem valor, né, mas a gente tentava procurar teor, procurar qualidade, né, procurar qualidade, não encontramos, olha… Aí eu estava trabalhando pensando nas coisas irem para o norte, para o lado de Belém, né, por causa de transporte, mas aí começamos a vislumbrar as coisas indo para o sul, pelo sul passava a ferrovia de Carajás, não precisa descolar muito depósito perto da ferrovia, pode ser que esses caras, né, eles queriam isso e conseguimos descobrir, que chama Tiracambu, um depósito de bauxita ao sul de Paragominas, de bom teor, que dá aí 40, 50 quilômetros da ferrovia de Carajás, está certo, olha o que eu tentei de coisas, mas não conseguiu, está lá enterrado e fora tem o minério que o Vanderlei descobriu, não sei se foi o Vanderlei, acredito que sim, em Carajás, descobriu sem querer, ele não entende muito daquela porra, entendeu mais de ferro e manganês e de cobre, mas foi importante, porque lá em Carajás, perto daquela mina de ferro tem uma mina de bauxita, são 40 milhões de toneladas, paupérrima, mas que se você usar um pouco a cabeça, você pega… Eu tentei até isso, pegar a bauxita no lugar que é pobre, misturar com a outra, isso é muito comum em caulim, por exemplo, vocês vão ver que quando a gente falar de caulim, caulim ninguém usa, papeleiro nenhum usa caulim, não usa caulim num só lugar não, ele vai para Roterdã, lá tem um intermediário, que mistura os caulins, o cara fala assim, eu quero a receita de bolo assim, tanto do Jari, tanto do capim, tanto da Cornualha, na Inglaterra, é tanto, 30%, faz a forma do bolo, esse cara pega faz, entrega para o papeleiro. Por que que nós não podemos fazer isso com bauxita? É a mesma coisa. Então o que que acontece, se os depósitos estão parados porque o geólogo coitado, ele fica paralisado nessa profissão de merda, porra, essa profissão estranha, que além de você sofrer muito não vai à frente, nós mesmos somos culpados, você não estuda mais, não tenta penetrar, o jovem pára naquele negócio, descobrir, até onde eu vou? Descobrir minério, ele não estuda economia mineral, ele não se aprofunda, eu lembro que nós fizemos um esforço porque nós tínhamos uma turma pesada na época da Docegeo, foi a época de engrandecimento dela naquela época, então a gente, olha, a gente era tão maluco, eu cheguei a ir para São Paulo como geólogo tentar vender bauxita, a Vale tem uma área comercial, aí dava confusão, inveja, ciúme, você não pode entrar na área do outro, viu, existe muito isso, aprendam na vida de vocês esse negócio é muito sério, o pessoal acha que você está entrando na área do outro, quando não é isso, você quer somar, você quer ajudar, naquela aflição de dentro de você, você tenta ajudar, então a área de beneficiamento, meu irmão, você quer coisa mais importante do que beneficiamento de minério, não existe minério pronto, minério na natureza pronto, não existe, todos eles sofrem um beneficiamento qualquer, sai aquela meleca, você trabalha, aí sai aquela coisinha, a gente tentava trabalhar em conjunto, eles não deixam, o pessoal da Sutec, era minha maior briga minha, na bauxita nem tanto, mas no caulim, o maior desgaste que eu tive na Companhia foi briga por causa de inveja e ciúme na área do caulim. E vocês vão ver, eu não quero fazer mérito para mim, nada, eu como falei para vocês, ninguém descobre jazida, a descoberta de jazida é um processo, mas possivelmente eu tenho um mérito porque eu vou mostrar a correspondência para vocês, está lá, é histórica, eu mando sugerir, criar o projeto caulim, por causa disso, disso, disso, disso, desde esse dia em 1987, foi em 1987, em 1995 que é uma coisa raríssima, já estava saindo para o exterior o fantástico caulim, o nome dele é milênio, não sei o que, a gente se gratifica com isso, mas eu não tenho propósito de, essa participação é que engrandece a gente, então, você tenta trabalhar, co-participa, nós sempre abrimos os projetos para mostrar para o cara como é que funciona como é que não, como é que não, agora em outras áreas você não penetra, eu não consegui trabalhar, olha, eu gosto dos meus amigos, adoro, trabalhei com o Breno a vida inteira, trabalhei com o Breno, de 1971 a 1982, aí depois eu vim para o Rio né, 1983, uma vida, né, trabalhamos juntos. A gente conseguia muita coisa com o nosso modo de trabalhar, muita coisa com essa maneira diferente, mas eu não sei, me entristece hoje essa ciumeira, essa ciumeira, hoje ainda é pior, hein, não sei se vão entrevistar gente da Vale, eu sei que a Vale hoje, a Vale hoje está pior nesse ponto. Você sabe qual, aproveitando, eu nem sei onde é que a gente estava, hein, eu vou desenvolvendo porque são recados importantes, a Vale, porque eu fui contra a privatização da Vale, eu tenho artigo, publiquei na Folha de São Paulo, jornal não sei o que, jornal não sei o que, fiquei mal com o Breno, mas resguardei muito ele porque eu fui contra a privatização da pesquisa, da área de pesquisa mineral, aí está a grande confusão. Contra a privatização da Vale, não, para mim tinha que ser privatizada, agora a área de pesquisa mineral, onde você tem que botar muito dinheiro, onde o retorno é muito prolongado, o seu custo é grande, os riscos são vários, nessa parte a empresa privada a tendência é parar, a Docegeo é uma raridade no mundo, não é não Fabrício? A Docegeo é uma raridade no mundo, é uma das únicas empresas que está permanecendo aí 30 anos na área de pesquisa, normalmente essas companhias fecham, eu até estou achando, eu estou meio perplexo, para mim é uma surpresa de ver a pesquisa da Vale ainda continuar, porque ela está se associando com outras empresas, como Carajás e tal, mas, olha, privada só, o que que acontece, reduz o número de coisas, aí pega um geólogo, sou contra, pega um cara ganhando 40 mil, pô e tira sete, podia dar emprego para oito, podia estar ganhando cinco, seis, e é um salário já muito bom quando você compartilha idéias, para deixar um cara só, além de concentrar renda, pô, esse cara tem que ser um fenômeno, eu te garanto, eu bato na coisa [bate as mãos], ele não vai fazer coisas para a Companhia, esse cara não pode ser um fenômeno tão grande para ganhar essa diferença absurda para… Entendeu o que eu quero falar... porque você podia ter seis, sete, somar compartilhar, mais do que uma cabeça raciocina melhor, eles fizeram isso na Vale, tá? Eu comparo muito com o negócio de futebol, futebol é assim, você tem o jogador do teu lado ganhando cinco o outro ganha 100, é um absurdo, não pode isso, você tem que ter uma diferença muito grande, não tem no futebol, senão o cara tinha que pegar a bola do outro, comer o time inteiro, ir lá e fazer o gol, não fazem isso, não podem fazer isso. Onde é que a gente estava mesmo, vamos voltar, eu já rodei...

 

P/1 - Vamos falar do caulim, vai começar, né, a falar da pesquisa do caulim.

 

R - Do caulim. Acabamos a bauxita, falamos de… Ah, está bom, de Carajás. Não consegui misturar Carajás com Tiracambu e era uma coisa belezinha, rapaz, Carajás está perto da ferrovia, Tiracambu está perto da ferrovia, todos os teores, vamos dizer, um bom, um bom numa coisa, o outro, sabe aquele negócio que é bom numa coisa, mas ruim na outra, bom você juntava os dois, jogava no trem e fazia um teor razoável, eu fiz estes testes metalúrgicos, eu gostava muito de fazer testes metalúrgicos, ensinei para meus geólogos que trabalhavam comigo a fazer isso, mesmo na fase preliminar de pesquisa, fazer teste detesto metalúrgico, que é muito importante, quer dizer, vê se aquele minério que você está procurando serve mesmo, tudo isso quando você inicia o trabalho, você não deve esperar para fechar, para avançar, para ver se aquilo… Porque tem muito minério, ô Cláudia, que não serve para nada, você tem um metal lá, mas você não consegue arrancar, tem um metal dentro da rocha, mas você não consegue arrancar, ou para arrancar é muito antieconômico, você entendeu, então tem área que você, nos primeiros toques nem adianta ir para a frente, mas por isso então, tentou-se essas coisas na área de bauxita, eu estou chateado. Eu estou alegre porque o Trombetas foi para a frente com a nossa participação e gente vocês vão ver retratos aqui, quando você ver o Trombetas zero, sem nada, com palha e hoje aquele monte de cidades e o que ele alavancou para a frente, o que ele alavancou para a frente, efeito multiplicador, construíram a Usina de Tucuruí, construíram a Usina de Alumina, construíram da Usina da Albras e por aí vai. E as coisas em paralelo que vão surgindo, é importante, né, você não acha?

 

P/1 - Sem dúvida.

 

R - Poxa vida, mas cadê a sensibilidade para se perceber isso? Falta nas pessoas é sensibilidade, não e não, cara?

 

P/2 - Visão, né, de...

 

R - Não sei, às vezes tem até visão, mas tem um troço que atravanca, sei lá o que que é. Vamos ao caulim, né. O caulim foi muito interessante também.

 

P/1 - O caulim em que região e aí você se desloca de moradia também, muda de casa ou continua fixado em Belém?

 

R - Não, o caulim eu comecei na Amazônia, né, não o caulim já estava no Rio, já estava assessorando a diretoria aqui, o caulim foi em 1987, interessante que o caulim nós descobrimos sabe em que ano? 1973, 1974 em Almeirim, por baixo da bauxita, estava lá a cubagem, inclusive demos uma cubagem, 100 milhões de toneladas, mas ninguém deu bola. Ficou parado quanto tempo? De 1973 até 1987, 14 anos, sem se falar em caulim. Em 1987, eu não sei como nasceu isso, na realidade, surgiu, é difícil pegar essa parte aí, a Docegeo tinha um consultor que se chama Gaborgal, consultor para outras áreas, entendeu e são convênios estabelecidos com o exterior, universidades etc. Eu sei que surgiu um papo que vinha em 1987 um tal de (Pekala?) ou (Pékala?), finlandês, o Gaborgal sugeriu que viesse esse (Pékala?), (Pekala?) para ver as áreas do caulim porque esse cara estava procurando caulim no mundo para fornecimento para os papeleiros, eles percebiam algumas dificuldades, chegou esse (Pékala?) em 1987 aqui no Brasil e nós fomos incumbidos de levá-lo para ver se a Vale tinha alguma jazida, aí vem o processo, a primeira história da descoberta, né, olha só, se a Vale tinha alguma jazida, se a Vale não tivesse aquele caulim que eu tinha detectado em Almeirim, esse cara não tinha nada para ver, não precisa falar que não, né, mas estava lá, estava lá. Aí esse cara, nós levamos ele lá em Almeirim, esse consultor, chegando lá, ele olhou, visitamos a área, ele falou “Não estou entendendo porque que vocês não continuaram esse trabalho, o caulim é tão importante, tanta gente precisando disso”, enfim, ele veio, eu fiz um relatório através da visita do cara, ele mostrando o porquê da importância, a Finlândia estava precisando, não sei quem estava precisando, para a gente reativar e criar um projeto caulim, mas não podia ser, o ideal não podia ser Almeirim, debaixo daquela bauxita, porque lá nós já tínhamos caulim da Jari, já andando, a gente não queria ter concorrência com ninguém, queria somar, então nós, poxa Carlinhos, vamos tentar, será que não tem chance em Paragominas, aí com esse caulim? Carlos Alberto, geólogo, competente na área do caulim, trabalhou para a Jari, depois trabalhou muito tempo comigo, sempre trabalhou comigo, o que que ele fez, ele conseguiu um mapa de um professor universitário amigo dele, que eu esqueci o nome agora e o mapa de uma área de Paragominas, veja bem, isso é papo de boteco, hein, papo de boteco, esse cara trouxe o mapa, “tem essa área aqui Carlinhos, Paragominas, essa empresa aqui trabalhou e abandonou, uma tal de Continental, fizeram uns poços, o caulim lá, mas eu acho que eles não fizeram direito esses poços, não”. Aí o Carlos Alberto pegou aquilo, conversou comigo, palhaçada, eu chefiava, comandava do Rio de Janeiro, o Carlos Alberto lá em Belém, pô, esse cara tá dando esse “bizu” aqui, então nós chegamos à conclusão que devia se aprofundar os poços dos caras, né, que eles tinham feito e abandonado a área, pois não é que tinha caulim de alta qualidade, um caulim de alta qualidade nessa área. O cara que deu esse mapa, aí, veja bem, começou, mas antes disso, sabe quando foi o primeiro toque de caulim no Rio Capim? 1969 pela CPRN, depois foi em 1973 pela Mendes Júnior que parou, parou, pesquisaram e pararam, então você teve, mexeram e pararam, porque só em 1987, o que que aconteceu, nós convencemos a Vale através das opiniões do (Pekala?), esse consultor finlandês, através da área, e que eu vou lembrar o nome dar para vocês, pessoa amiga do Carlinhos,  até se formou com ele, professor da universidade, que trouxe esse mapa lá para o boteco, mostrou e nós fomos lá, furamos, checamos uma área interessante, nós convencemos que era importante aquela região de Paragominas, o projeto caulim já estava criado, aí precisávamos de ter uma força do exterior, de gente importante. Profundo conhecedor do caulim para orientar a gente e tal, aí veio um tal de Mister Murray, veio do exterior, eu lembro até hoje, quando nós chegamos para o Murray, levamos na área de Paragominas, ele olhou, começou a gostar, começou a... Aí eu e o Carlos Alberto começamos, ele falou: “Olha ô Seu Murray, o senhor vai dar uma palestra para a diretoria da Vale, uma palestra pesada, poderosa, onde o senhor tem que abordar esses tópicos, nós treinamos o cara, igual teatrinho, o que que ele tinha que falar, aí o cara, a gente falava, ele repetia: “Again! Again! Repeat again! This e tal… ___ de poços most important of the world! We can’t lose this ____. Repeat again!” E ele repetia, treinamos o cara, cê acredita que nós fizemos isso, rapaz? O cara fez uma palestra, na mesma hora os caras ficaram doidos, contrataram o cara como consultor e aí o projeto foi embora. Taí, fungando e não sei o que, e não é que o projeto, você sabe que agora está indo para a frente, está continuando as pesquisas, o projeto continua em Paragominas e tem áreas até melhores que essa área que está sendo..., é muito difícil, como nós chamamos, sedimentar, porque, como eu falei, é muito extensa, é muito difícil você achar o melhor depósito, pode ser aqui, pode ser ali, você acha um depósito, o primeira que acha, desenvolve logo, mas o outro que pode vir depois pode cumprir melhor. Aí foi incompetência? Não, porque não tem outras ferramentas que fazem você melhorar aquilo.

 

P/2 - Muita sorte, né?

 

R - É sorte, tem uma hora que é sorte, essa é a palavra, então está lá o caulim, tal, nasceu, aí eu pergunto a você: quem foi o responsável pela descoberta do caulim? Existe possibilidade? Está aqui, eu vou lhe dar um exemplo, o Breno, eu sacaneio muito o Breno, ele descobriu Carajás, bateu lá e tal, ele tem um mérito extraordinário, mas para ele chegar lá, alguém teve que botar helicóptero, alguém teve que botar empresa, alguém teve que dizer que coiso era esse, entendeu? Tem uma bateria de gente que está para trás e que fazem parte do processo, não pode querer “eu que coiso e tal”, não, você ter que ser humilde. Falar que participou é importante, só em participar é um engrandecimento, então veja, Paragominas está desenvolvendo caulim, bonito projeto, vão ver lá nas fotos tá, e eu falei que a bauxita está parada, aí gente eu fico pensando, caramba, você já pensou, porque a gente sonha, né, tem hora que eu me vejo assim, eu vejo passar um trem no meio de Paragominas, naquela região enorme, 300 quilômetros, ou 200, ela é uma região plana, já tem plantação de eucalipto que é para fazer celulose, tem um regime de chuva fenomenal, né, tem muita fazenda, tem madeira, destruíram tudo. Aliás uma coisa que foi muito bom para a gente, se não fosse o fazendeiro destruir, tem sempre aquele negócio, né, a gente não penetrava para descobrir o caulim porque é difícil entrar em certas áreas se não fosse aquelas estradas de madeireiros, eles são terríveis, eles destroem aquele troço todo, mas então eu desculpo, imagina você, na área de bauxita, o que é que podia ter naquela região para esse país? Uma mina tocando, pelo menos, para metalurgia, não tem, uma fábrica de alumina para receber essa bauxita, tá, na área de bauxita, tá, uma mina de bauxita para refratário, de tijolo que é cara, é um minério caro, tá, outros metais que estão junto da bauxita, que se falou, mas está perdido no espaço, como vanádio, zircônio, está lá! Porque nós fizemos estudo e descobrimos isso através de processo de beneficiamento, a laterita ferruginosa que está junto da bauxita também que você aproveita, que serve para uma série de coisas, negócio de tratamento de óleo e por aí vai, tá, bauxita está em emprego de tratamento de água, pode estar lá, que usa muito, está usando no sul agora. Depois eu vou falar para vocês de um depósito em Lajes, sobre um depósito em Lajes, não deixa eu esquecer, é o único do sul do Brasil, o único, que eu fui lá, avaliei, e os caras estão tocando, já exportando para o Mercosul e tal, isso depois de eu ter saído da Companhia, como consultor. Então Paragominas, voltando, na área da bauxita, é isso aí, na área de caulim, tem o caulim, tem o papel, tem a celulose, olha só, né? Caulins de vários tipos, o caulim do rio Capim é um caulim com uma qualidade incrível e se serve para várias aplicações, não é como o caulim de Almeirim, aí vem uma grande diferença, que só serve para uma aplicação só, porque o teor dele, trancou ele, tem uma granulometria muito desfavorável para outras coisas. Então em Paragominas pode nascer aí uns dez projetos naquela região.

 

P/2 - Você chegou a apresentar algum projeto, ô Assad, você chegou já a apresentar algum projeto?

 

R - Cheguei até a sonhar, falava muito com o Breno sobre isso.

 

P/2 - Mas você nunca levou esse projeto, encaminhou até a diretoria?

 

R - Não, isso é trabalho sabe para quem, ô Fabrício, isso é trabalho para Vale do Rio Doce, né, para pessoas que estavam olhando aquilo para ver, observar essas coisas. Aquilo que eu te falei, tem hora que se você tenta fazer um negócio desse, acham que você está..., o pessoal é  muito ciumento, essa é a palavra, o Breno zuou comigo ali, é um ciúmes danado da geologada e tal. O próprio Carlitinho, o Carlos Alberto, que trabalhou comigo, esse que trabalhou comigo muito tempo com caulim, ele de repente não me chama mais, não me chama, não é porque eu não vou, não é isso. Mas nem telefonar, telefona, com receio, há um receio muito grande de perda do emprego, hoje, muito grande, cada um está se segurando como pode, está certo? Essa é a verdade, agora quando você se segura de uma forma sem prejudicar o outro, acontece que nego está se segurando pisando na corcunda do outro. Igual um cara que eu salvei uma vez num naufrágio, um colega meu, o Luís, numa cachoeira, eu não sabia como tirar ele, mergulhei por baixo, mas ele pisava, me pisava, me socava, me socava, me socava, mas eu consegui sair, o problema é esse. A diferença da empresa estatal e privada é essa, que a estatal você tem uma tendência de segurar os amigos, mesmo os incompetentes e na privada a sua tendência é esmagar o outro, o tempo todo, se puder fazer relatório para subir, eu notei isso no fulano, lá, lá, lá, começa a caguetar, faz relatório caguetativo, então se junta os dois, melhora, você consegue melhorar essa coisa.

 

P/2 - E no caso específico da Vale, o senhor… No caso específico da Vale, a Vale também?

 

R - A Vale está assim hoje pelo...

 

P/2 - Está passando por isso.

 

R - ...que eu converso com as pessoas, está nessa coisa, salve-se quem puder, apesar de estar dando lucro, está essa coisa toda, mas não existe mais aquele espírito. Quer dizer, nós exagerávamos. Eu acredito que a gente tem que cuidar… Aliás me levantaram, uma vez me botaram uma dúvida, eu tenho umas dúvidas, depois que eu quero perguntar para vocês, aí eu vou passar um pouco a entrevistador, que é o seguinte, uma vez um colega meu virou para mim: “Roberto, o próprio incompetente nós temos...”, me fugiu o termo agora, “é nossa função cobrir o espaço dele, porque ele não tem culpa de ser incompetente, porque ele não teve o talento, oportunidades, então esse cara tem que tentar o jeito dele ficar com o negócio” ai eu fiquei pensando, falei pô, será que é isso mesmo, será que é assim, não sei, a gente tem tanta dúvida, né, das coisas. Mas você percebeu essa diferença da empresa na área mineral, não estou falando, não estou falando, tem muita coisa que tem que ser privatizada mesmo, hein, não tem jeito, mas essas áreas que você lida com público, pesada, por exemplo, eletricidade, telefonia, não sei que, eu acho que o equilíbrio das duas forças, Estado e privado, senão a ganância do outro é fogo, é o melhor. E nessa área mineral que é uma área de muito gasto com muito risco, você já imaginou, ô Cláudia, os riscos que você corre na pesquisa de uma área, na pesquisa mineral, são uns oito ou dez riscos assim de cara para você descobrir um negócio, entendeu? Inclusive na hora em que você descobre, o minério pode estar obsoleto, o cara descobriu lá, do outro lado, que a pestana de um canguru misturado com um olho de aranha dá um material que cobre e já vai para o brejo todo aquele minério que você descobriu, é coisa de altíssimo risco.

 

P/1 - E você vem morar no Rio de Janeiro?

 

R - Eu vim para o Rio para ficar na diretoria, assessorar a diretoria da Vale e eventualmente substituir os superintendentes aqui também, porque eles não podiam me botar em cargo maior, porque eu sou muito transparente, eu falo muito, eu falo a verdade, o camarada para ocupar uma função… O Breno não pode falar sempre muito a verdade, não, porque senão também ferra, todo cara com função de presidência, vice-presidência, o diabo que for, tem que ser um pouco hipócrita, tem que ser um pouco, todos nós temos um grau de hipocrisia, um pouco maior, sabe porque, porque senão você não pode, você não pode usar a verdade absoluta porque senão você causa o caos. Um cara que é exceção nesse negócio, que eu acho, realmente foi o Breno, não sei porque que ele é assim, ele foi muito honesto, muito incisivo, o posicionamento dele, é um cara que eu tenho muito respeito. Mas eu nunca conseguiria ser presidente ou diretor de uma empresa, não teria condição, a gente sabe disso, mas agora eu era um cara que alertava, eu era o termômetro da empresa, entendeu, eu alertava, olha, a coisa não está indo bem. Se eu não mudar nós vamos fechar, pô. Aliás falar em fechar, salvamos a Companhia de fechar três vezes e o Breno sabe disso, um dia ele vai lembrar para vocês. Através da palavra, cara.

 

P/1 - A Docegeo.

 

R - Encarar, encarar e para não fechar a Docegeo.

 

P/2 - A Docegeo. 

 

R - Tinha que ter peito. Os nossos geólogos hoje estão muito mal treinados, não sabem falar, não vão para cursos de palestras, cursos de negociação, tem que fazer cursos, tem que saber expor porque senão o cara vai em cima de você e te esmaga. Se você não convencer, pô, tem que ser vivo.

 

P/1 - Tem o aspecto político, né.

 

R - É, tem que ser um pouco político, senão o cara...

 

P/2 - E o senhor, os geólogos era ouvidos ou precisava a coisa ficar feia para alguém tomar alguma medida?

 

R - Você diz de que maneira?

 

P/2 - Não, o senhor estava falando agora, né que precisava, vocês salvaram a Companhia por três vezes, né.

 

R - Pelo menos duas foi. Senão eles iam lá para fechar.

 

P/2 - Qual foi a situação?

 

R - Iam lá para fechar. Então pensando no convencimento, falaram não faz isso que estão fazendo besteira, abre, não deixa por causa disso, disso, disso, disso, disso, menti um pouco, tive que mentir um pouco, não digo, não é bem mentir, não.

 

P/2 - Piorar a situação, dramatizar mais.

 

R - Potencializar aquele negócio que você sabe que é evidente, por exemplo, eu aprendi com um gringo, eu aprendi com um gringo… O Carlos Alberto uma vez me contou essa história, o gringo pegou um caulim, estava com muito ferro, aquele caulim tinha que ser mandado para a análise, pegava o canivete, tirava o ferro todo, limpava, aí mandava, aí vinha aquele resultado beleza, toca o projeto. É importante porque ele sabia que aquilo uma hora ia ser separado, iam descobrir a separação daquele ferro e o projeto ia deslanchar, então você corre esse risco, você entendeu, é o tipo de mentira, de coisa, mas com o pé no chão.

 

P/2 - Bom, e tem alguma outra pesquisa ou algum outro projeto de maior destaque que o senhor tenha participado?

 

R - Na minha área, não, cheguei a trabalhar, fiz outro trabalho na Bahia, grande, para caulim também, na região do Mucuri, não entendo o que aconteceu, porque tinha um caulim muito, um caulim razoável, perto da Bahia Sul, que é uma fábrica de papel e celulose, a Vale tem participação, mas aí eu saí, me aposentei depois...

 

P/1 - Em que ano você se aposentou?

 

R - Eu me aposentei em 1993, 1993, já estou aí há sete anos.

 

P/1 - E passou a trabalhar como consultor?

 

R - Passei a trabalhar como consultor, depois que esse negócio meu, da minha área, que é uma área, vamos dizer assim… É muito difícil na área de geologia, você ter consultoria, eu comecei a ter consultoria da Vale, mas depois foi bloqueado porque eu fui contra, na privatização o meu nome foi cortado por aquele cara lá, ministro, Fernando Henrique, pô, eu estive envolvido com senador, foi pesado.

 

P/1 - É, conta um pouco então.

 

R - Eu ia trazer a reportagem minha de revista, foi danado, o Breno ficou até chateado comigo, mas era para o bem deles… Mas essa área, do que eu estava falando mesmo?

 

P/1 - De consultoria.

 

R - Da consultoria, né, então, então aí foi bloqueada, né, a minha área, a minha área de mineragem e intemperismo é muito difícil porque você descobre… Você sabe que o geólogo é uma profissão suicida porque ao mesmo tempo que você descobre, quanto mais você descobre, mais você mata o seu emprego.

 

P/2 -  É verdade.

 

R - Não, é uma coisa incrível, é uma das únicas profissões que você mesmo vai acabando com a tua oportunidade de trabalho, por isso que eu falava para os caras: “gente estica o arco, mas não dispara a flecha, deixa o estado de tensão porque senão nós vamos…”. Eu na minha área, mas depois que eu tinha descoberto muita coisa, se alguém quer saber mais de bauxita tem um monte que já foi descoberta, inclusive que eu participei uma porção delas, caulim, mesma coisa. Então a minha área, fosfato, de minerais de intemperismo ninguém vai querer mais consultoria para que? Está tudo aí, tem muito aí, tem demais, tem até enterrado sem usar, então eles estão precisando mais de geólogo nessa parte de ouro, que não deixaram, até que eu tentei, ninguém deixa você entrar, é uma ciumeira danada, tentava entrar, nego me empurrava, tentava entrar nego me empurrava. Então ficou uma área difícil para consultoria.

 

P/2 - O senhor que o senhor se posicionou contra a privatização, aí em decorrência disso houveram certas retaliações.

 

R - Em decorrência disso me caparam logo porque houve ordem de Brasília, parece, para não me dar, não deixar eu fazer mais trabalho nenhum de consultoria. Eu sabia que ia acontecer isso, mas nem por isso deixei de botar meus pontos de vista que era contra por causa disso, disso, disso, disso, disso.

 

P/2 - O que é que o senhor apontaria de errado no processo de privatização, assim, o que, não no processo, mas na privatização em si, né.

 

R - No processo de privatização hoje você vê que a Vale foi uma empresa vendida por um preço vil, muito baixo, os lucros dela são astronômicos, são muito grandes. E além do mais na época da privatização, o que eu mais… Por sorte ou por azar, não sei, eu tinha ido fazer uma visita ao campo, na área do caulim, o Carlos Alberto, esse geólogo que eu chefiava, que estava no caulim, mudou para Carajás, foi trabalhar no ouro e no cobre, ele é muito amigo, quando eu cheguei lá eles tinham acabado de fazer um furo, isso na minha última consultoria que eu fui a Belém, eles tinham acabado de fazer um furo e me mostraram de testemunha, que a maior grandeza do geólogo, cheio de cobre, cravado de cobre de cima embaixo, ouro você não vê, na análise química provou, com ouro, com cobre, e é chamado hoje o Corpo Alemão, esse geólogo aí já morreu, eu fiz um trabalho para ele, foi isso. Mas aí eu voltei revoltado, estava pintando a privatização da Vale, aí eu conversei com um geofísico, o pessoal da Companhia e eles conversaram comigo dizendo que tinham descoberto a metodologia com geofísica de alta resolução de onde estaria os possíveis depósitos de ouro em Carajás, aquela puta região. Ora, gente, aquilo era recente, vejam vocês, você leva 20 anos, sei lá quanto tempo, sem ver isso, na hora em que você descobre onde é que pode estar o cardume de peixe, vai passar o negócio para o outro? Não é justo, isso aí está errado. E a prova é que está surgindo, dois, três, já tem outro jazida no Sossego, tem outra em não sei o que, eu conversei com o geofísico agora, tem mais três que vão pintar, de ouro.

 

P/2 - Jazida de ouro?

 

R - É, esse foi o meu posicionamento, era o momento inadequado, aquilo valia uma nota.

 

P/2 - Mas a privatização em si, o senhor...

 

R - Agora a privatização em si da Companhia Vale do Rio Doce eu não sou contra, não, eu acho que tudo bem.

 

P/1 - E como é que é hoje o seu cotidiano, o dia-a-dia, qual sua atividade hoje?

 

R - É hoje, é viajar para o Espírito Santo, passar meus dias cuidando do jardim, né, lendo muito, procurando todos os sentidos das coisas e fazendo poesia, escrevendo, quero ver se eu publico um livro.

 

P/1 - Música.

 

R - E é isso aí, conversando com os amigos.

 

P/1 - E a música, né.

 

R - E a música.

 

P/1 - Mas tem um, a gente passou em branco pelo terceiro casamento e as duas filhas. Como foi então?

 

R - É , eu casei depois da Elisete, né, nessa festa do Vanderlei, nessa festa que ela deu porrada eu conheci a Eliana, 20 anos mais nova do que eu, trabalha hoje na Vale do Rio Doce, tivemos duas filhas maravilhosas, ela me deu duas pérolas, esse é um tempo que eu passo também que eu me dedico muito a elas, né...

 

P/1 - Elas moram aqui, né?

 

R - ...apesar da gente estar separado, porque separou também porque ela não me aguentou, foi para Niterói. Eu não sei, nem eu, às vezes, chegamos a comentar, nem eu estou me aguentando, tem hora em que eu me olho no espelho, falo pô, rapaz, não sei se eu te dou uma porrada, não sei o que.... Tem hora que, não dá. Mas ela está em Niterói, está bem, trabalha na Vale, me deu essas duas meninas que estudam lá, uma tem 15 anos, outra tem 10, eu dou toda cobertura, passam comigo o fim de semana, eu vou para lá e tal e por aí vai levando. E arranjei uma namorada, estou com uma namorada no Espírito Santo, que é da roça, muito sábia, muito interessante, que tem me ajudado muito também, no aspecto de como viver, né, como viver. E tocando, eu acho que o trabalho já foi feito, já trabalhamos muito.

 

P/1 - Assad, se você pudesse mudar alguma coisa na trajetória da sua vida, o que que você mudaria?

 

R - Olha, se eu pudesse mudar… Na trajetória?

 

P/1 - Na sua história.

 

R - Eu não sei, eu tenho dúvidas, viu, realmente essa pergunta é complexa. Muito difícil. Mas houveram erros, que depois a gente vai aprendendo, houveram erros muito absurdos, até hoje eu não entendo a separação que eu tive com a minha primeira mulher, com a Maria Eugênia, não deu para entender, aquilo foi um absurdo tão grande… Porque nesse ponto eu era um cara pacato, eu acho que aquilo atrapalhou muito, né. Se eu pudesse voltar para trás eu acho que eu não faria geologia de novo, não. Porque me deixou muitas sequelas também, é uma profissão de altíssimo risco, está certo, em todos os sentidos, econômico, espiritual, de relações, vamos dizer, com os parceiros matrimoniais etc, etc, a maioria dos geólogos que eu conheço separaram, tiveram problema, é uma loucura.

 

P/1 - Físico.

 

R - Físico, de saúde, eu tenho sequelas hoje, que eu não sei, com certeza eu peguei nessa profissão, então eu não faria geologia, apesar que eu acho que o meu resultado é positivo, o custo/benefício, a balança tendeu para o lado positivo.

 

P/2 - Foi lucro.

 

R - E se o que mais me engrandece é rir, cara, se eu não rir eu estou morto, o tempo todo eu tenho que estar rindo, eu gosto de trabalhar com muito riso. Eu comento que a gente não trabalhava, a gente ribalhava.

 

P/2 - Ribalhava, né.

 

R - Eu lembro que um consultor uma vez veio do exterior, eu estava num carro e a gente ria, ria, ele estava na frente com o motorista, e a gente ria e comentava e ria e ria, aí ele perguntou se a gente pagava para a Companhia para trabalhar, interessante essa colocação, né, viu a gente tão feliz.

 

P/1 - Ô Assad, e para o futuro, você tem sonhos?

 

R - Eu tenho sonho, eu tenho, eu acho que eu não... olha antes dessa sua pergunta, vamos falar do sonhos, eu gostaria de fazer, eu gostaria de trabalhar nessa área que vocês estão fazendo aí, ser entrevistador, em várias coisas, eu gostaria mesmo, tenho inveja dessa profissão de vocês, é muito boa, está certo. Hercílio é o nome da peça que deu o mapa lá.

 

P/1 - Ah, está.

 

R - Mas olha, agora sonho para o futuro é permanecer do jeito que eu estou, cuidar das minhas filhas, quero ver o futuro delas e quero realmente reativar, reativar… [pausa] o relacionamento com a minha filha, com a minha primeira.

 

P/1 - Sempre teve, né.

 

R - Talvez esse seja o meu maior sonho.

 

P/1 - Sempre há tempo para isso, né. E você quer contar mais alguma coisa?

 

R - Não sei, estou vendo aqui se tem alguma coisa que restou, é Belém… Eu contei muita coisa, né.

 

P/1 - Então posso te perguntar, então Assad?

 

R - Pode.

 

P/1 - É encerrando então a nossa entrevista, o que que você achou de ter participado do projeto, de ter dado seu depoimento?

 

R - Realmente espetacular, realmente, me deu trabalho que, fez remexer na minha vida, né, também, fez remexer em muita coisa, repensar muita coisa e foi muito interessante esse trabalho de vocês, não sei quem inventou isso, mas foi… Olha, falam que o passado, né, não sei se já era outrora, não sei que, eu acho que é importante por permanecer de pé essa coisa toda, o que vocês estão fazendo é extremamente grandioso, estou participando disso, resgatando essa memória, pelo menos eu posso partir, porque minha, minha, minha, está tudo entupindo, de repente começou a entupir um monte de artéria, não sei o que, mas eu acho que agora eu estou tranquilo para poder partir já com isso registrado, né, está registrado?

 

P/1 - Está.

 

R - Então eu posso partir já com isso registrado.

 

P/2 - Mas não vai partir tão cedo, não.

 

R - E é isso aí, eu acho que eu não tenho mais nada, não. Esqueci de mostrar, falar para vocês, eu tinha umas coisas interessantes, mas eu acho que nós podemos ficar por aqui. Tem, que horas são? Três e quarenta e cinco. Há umas cartas, uma carta que eu fiz aqui para o Hélio Beltrão, sobre o geólogo PP do Projeto Pronto, mas isso não tem, não faz muito sentido, está bom?

 

P/1 - Está bom, muito obrigada.

 

P/2 - Está bom, está ótimo, Assad, está ótimo.

 

R - Eu tenho aqui um versete para vocês, sem música, só para finalizar.

 

P/2 - Ah, claro.

 

P/1 - Mas você podia tocar depois, para finalizar.

 

R - Não, não, mas depois a gente toca, é uma coisa aqui.

 

P/1 - Toca uma musiquinha para encerrar além da poesia, por favor.

 

R - Por favor. É. 

 

Esperar a encerrada a entrevista, espero que proveitosa, me desculpe as brincadeiras, com o canto poesia e prosa, sempre tive essa mania ao longo de minha história. Agradeço o registro, na Vale, essa memória. E aos entrevistadores tão jovens e começando, vai o último recado, continuem estudando e rir a todo momento é a base da razão, aproveitem enquanto é tempo, a vida é uma fração e o tempo passa depressa, não se percebe, não. 

 

Eu me esqueci uma coisa de falar para vocês.

 

P/2 - Muito obrigado.

 

R - Puxa aqui, mas essa bolsa me ultrapassou, umas poesias que eu fazia nos fins dos trabalhos, rapaz, que eu apresentava.

 

P/1 - Você trouxe?

 

R - Eu trouxe.

 

P/1 - A gente pode.

 

R - Uns relatórios, eu sempre faço relatório, eu tive uma mania ao longo da minha vida, ainda tenho?

 

P/3 - Tem dez minutos ainda, pode ir.

 

R - Tem dez minutos? Ao longo da minha vida, deixa eu tentar pegar aqui, sem muita delonga, eu sabia que eu tinha coisa aqui para mostrar para vocês, vou falar uma poesia para vocês, é de autor desconhecido, mas que eu aproveitei para trazer, que eu acrescentei alguma coisa. Sabe do Fernando Collor, né, aquela tragédia. Então ele ia ser, estava sendo candidato, aí fizeram a seguinte poesia: “Estando desocupado o grão-duque Satanás, teve uma ideia nociva, horripilante e mordaz, colocou numa caldeira 20 pipas de aguardente, dez mil cobras venenosas e um diabo demente, sublimado corrosivo, sulfato de estricnina, o couro de dez hienas, dez quilos de cocaína, rabugens de dez raposas, apetite de urubu, o espírito de Caim, vinte couros de timbu, tudo isso colocado numa caldeira a ferver, tomou a forma de gente como o diabo quis fazer. Satanás achando pouco, lambuzou merda de porco como se fosse caramelo e ao soltá-lo no mundo batizou o vagabundo Fernando Collor de Mello”.

 

P/2 - Ótimo. [risos]

 

R - Eu acrescentei.

 

P/1 - Tem alguma sua aí?

 

R - Tenho, eu vou falar já um prefácio aqui... Essa aqui eu fiz na Escola Superior de Guerra, “Vamos Melhorar o País”, na Escola Superior de Guerra, clima formal, pesado, o coronel, o almirante, no final: “a poesia, Assad”, “Vamos Melhorar o País”, 

 

“Sem um bom planejamento no que se quer afinal o Brasil se afunda mais com uma inflação sem igual e a miséria se acentua numa tragédia brutal, a educação muito cara, todo lado um sussurro, como faço com o meu filho, construirei mais um burro. Nos idos lá dos sessenta me lembro que se estudava com assistência total, o Estado tudo pagava. Por que tanta insensatez, será culpa do Governo, do empresário burguês? Um culpando o outro todo dia, todo mês, esquecemos o fundamental, é que o Brasil, que é o freguês. Não temos mais humildade, somos esbanjadores, não sabemos poupar, somos sonegadores. Impera a lei da vantagem, além de outros horrores, a corrupção desvairada é pouco fiscalizada, a justiça quando pune a punição é uma piada, para um rombo de trilhão a figura é condenada a dez minutos de prisão, depois de intermináveis recursos se bobear prende o guarda e vai dormir na mansão. Representantes do povo, interior e capital, são quase sempre escolhidos sem ter talento para tal, na maioria dos casos nunca leram um jornal e decisões são tomadas por esse time infernal. Pensando melhorar escolhe-se o inteligente, que em boa parte dos casos leva o dinheiro da gente, tirando até do faminto parte rara do provento sem pena e cinicamente, como ocorre no momento. E as decisões são tomadas por esse time tormento na distribuição de renda, somos o último colocado e a miséria aumentando com muito desempregado. Se o sujeito compara casa no Plano de Habitação, enlouquece de vez com o aumento da prestação, pois mudam a regra do jogo, verdadeira alucinação. Quando recebe o carnê é um dia a mais de emoção, será que ainda vai dar? Acho que não vai dar, não. E abrindo bem devagar até que vê o cifrão, senta desanimado, com a família do lado e diz, é mulher, tá danado, vamos para o barracão. Nem é preciso lembrar sem saúde e alimentação, é um milagre quando resta um pouquinho de tesão, é um sacrifício danado para levantar o bichão, quando o raro levanta, a mulher responde, hoje não.”  - Lá na Escola Superior de Guerra - “Aumenta o desemprego, o Governo se endivida, rico fica mais rico, pobre junta ferida, para amenizar o problema só tem uma saída, a renda distribuída, de forma mais repartida, aí aumenta o consumo, fortalece a produção, diminui o desvario da conta para o fundão, do fundão para conta.” - naquela época que tinha isso - “O cotidiano é uma aflição, evitando outra desgraça, o dinheiro virava fumaça, desaparecendo da praça e deixando você na mão. E a Constituição, estou boquiaberto, pois ela é e não é, como miragem em deserto, é muito protecionista, traz a tortura do incerto e quanto ao desempregado, a técnica avançando, o robô é quem bate prego e vamos desempregando, temos que estimular aquele que mais emprega, para fomentar a indústria daquele que o país rega, com a nutrição do salário que a Constituição tanto prega. Que moeda temos, pergunto, e é até cômico, é uma necessidade ou um delírio econômico, como trazer capital nesse horror astronômico?” - Foi essa a porrada que eu dei na Escola Superior - “O que mais me intriga é que, por exemplo, esta Escola, que treina sumidades do outrora até o agora, e o país mais piora. O Fenômeno não é só aqui, está em toda educação, que problema será este, me canso em reflexão, será a perda da razão? A solução não é simples, pois além de gerencial, ela é comportamental e sem gerente competente bem treinado para tal, continuaremos doentes no estado terminal e se não mudarmos depressa o mundo vai assistir chorando o nosso funeral, minha contribuição, e aqui meu ponto final”. Aí eu fui agradecer para o comandante. “Ao comandante Fortuna” - apontei para ele - “e à Escola Superior de Guerra, parabéns pelo evento que hoje aqui se encerra. Citando a máxima árabe, de rara criatividade, o maior de nossos erros é ter pressa antes do tempo e ser lento na oportunidade” - aí parei.

 

P/2 - Ah, bacana.

 

R - Ambiente formal, desliga aí que eu vou falar uma última aqui do...

 

P/1 - De novo, por favor.

 

R - “A lenda da tribo que virou um pomar” foi numa tribo de índio: 

 

“Formosa a mulher do cacique, tomava seu banho no rio Xingu, estava desapercebida dos olhos tarados de Paracatu. E sem medir consequências, estando muito doidão, o índio pulou n’água atrás da índia tesão. Enquanto ela cantarolava com seus belos seios na mão, Paracatu veio por trás e cravou-lhe o seu canhão, desse ato de amor desastrado, Paracatu, o tarado, virou a sua grande paixão. Resolveram fugir pelo rio numa canoa feita de bambu, mas o destino afundou o casal nas corredeiras do rio Xingu. O cacique ficou muito puto com a traição do seu grande amor, então criou um castigo que era um verdadeiro horror para toda dupla safada que traísse o seu amor. O casal era amarrado tendo as pernas bem abertas enquanto famintas formigas esperavam bem alertas. Encharcavam a xereca de mel, e todo o cu e no pau e aí começava um terrível ritual, soltavam as formigas famintas que em correria mortal, mergulhavam com voraz apetite naquela xereca e no pau. Se formavam dois buracos muito rapidamente, era então colocado uma porrada de semente e depois da plantação em noite enluarada, a tribo então entoava o belo e rico refrão: menos uma xereca, menos uma piroca, essa é a grande lei da nossa querida maloca. De tanta traição a tribo virou um pomar, só um índio viado viveu para essa história contar”.  Gostaram? Então uma poesiazinha do fim do trabalho de Carajás, tá, está gravando?

 

P/2 - Está gravando.

 

R - O magma trouxe os metais, estavam tão diluídos, não tinham nenhum valor, seriam até esquecidos. Passando por Carajás, depois de vários caminhos, os mais importantes deles foram encontrando seus ninhos, e os ambientes propícios para seus enriquecimentos, produziu-se finalmente esses grandes jazimentos. Nos trarão muita alegria ou serão nossos tormentos?

 

P/1 - Obrigada, e a música?

 

R - Agora, uma musiquinha de encerramento, deste lamento. [som de instrumento musical]. 

 

Fim da entrevista

 

 

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