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História

A gente quer realmente mudar o mundo

História de: Elissandro Carlos Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/02/2016

Sinopse

Elissandro Carlos Rodrigues relembra em seu depoimento, sua primeira professora, o primeiro dinheiro que conseguiu, por vender cobre a um ferro velho, sua paixão por empinar pipa, pelo skate e pelas bandas que teve na adolescência. Elisandro fundou sua cooperativa, a Cooperaacs, Cooperativa de Arte Alternativa e Coleta Seletiva, em 2004 e tem como trabalho a produção de projetos artísticos ligados à reciclagem.

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História completa

Nasci em Marília em 18 de março de 1975. Meu pai é Augustinho Carlos Rodrigues e minha mãe Adélia Zafred Rodrigues. A família da minha mãe é austríaca. Eles fugiram da guerra e minha mãe nasceu no interior. Ela conta até hoje muitas histórias da vida na roça, no campo. Eles plantavam e vendiam várias coisas, algodão, café, amendoim, arroz.  Do meu pai eu sei pouco, porque quando eu tinha cinco anos ele faleceu de acidente de moto. Daí a gente mudou pra Pirituba e cresceu um pouco isolado de familiares. Meus pais se conheceram no interior, acho que naquela coisa de jovem, de ir pros bailes, pras festas. O meu avô não queria que minha mãe namorasse meu pai. Então a minha mãe fugiu com ele pra São Paulo e constituiu família. Depois ficou tudo bem, mas no início foi meio polêmico a coisa. Nasceu a minha irmã, e depois acho que as coisas entre eles voltaram ao normal, vamos dizer assim, que o nascimento da minha irmã amoleceu o coração do meu avô. Eu particularmente tenho boas lembranças do meu avô. Era um avô bem dócil, eu gostava dele.

O meu pai trabalhava na Santa Marina, uma empresa de vidros, de louças e a minha mãe era do lar. Depois que meu pai faleceu que minha mãe veio a trabalhar porque ela acabou não casando de novo. Minha mãe conta que meu pai trabalhava nos fornos, era um trabalho bem árduo. Eu lembro, por exemplo, de eu andando na moto do meu pai, que ele levava a gente pra passear, tudo, essas lembranças. E o dia da morte dele eu lembro, eu tenho algumas imagens na cabeça. Lembro da minha mãe recebendo a notícia, por exemplo. Ele estava indo trabalhar e ele teve um acidente com um caminhão, foi fatal o acidente e ele morreu com 32 anos. Nessa época, a gente morava em Perus, na chácara, no meio do mato. E quando meu pai morreu não tinha condições da gente ficar lá sozinho, então a minha mãe recebeu uma indenização referente à morte do meu pai e comprou uma casa em Pirituba. E nós fomos morar nessa casa. A casa em Pirituba fica num bairro chamado Vila Nossa Senhora do Retiro, um bairro da periferia. Era uma casa simples, mas era uma casa boa. A gente morou durante muito tempo lá. Eu fiquei lá até uns sete anos mais ou menos que eu acabei indo morar no Belenzinho. As primeiras recordações que eu tenho de Pirituba é indo pra escola. Eu tive a sorte de ter uma professora boa, o nome dela era Laura Elisa. Uma professora que não tem como não lembrar dela e não tem como não ser grato a tudo que ela contribuiu pra minha formação. Eu estudei desde a primeira até a quarta série com ela. Da quinta a oitava série também continuei nessa escola.

A questão de coleta seletiva na minha infância não existiu. O que eu lembro é apenas uma coisa que se chama ferro velho. É a única coisa que tinha de reciclagem, não era nem de coleta seletiva. Uma das primeiras vezes que eu consegui ganhar um dinheiro foi porque eu juntei um pouco de cobre, fui lá e vendi no ferro velho. Eu lembro que no tempo não era muito dinheiro, mas o que eu fiz foi passar no açougue e comprar um pouco de carne, e provavelmente o que sobrou do dinheiro eu usava pra empinar pipa, que também era a minha paixão na infância. Com 11, 12 anos eu comecei a trabalhar. Eu tinha consciência que minha mãe era sozinha, eu tinha que fazer alguma coisa. Fui trabalhar numa tapeçaria como assistente. E comecei a fazer Senai; essa coisa de escola, eu sempre faltei muito, era meio rebelde nesse sentido, mas quando eu ia eu gostava de aprender e tinha facilidade. Isso foi numa fase também que eu comecei a andar de skate. Era uma coisa, nossa, de outro mundo. Isso é uma coisa que eu tenho certeza que pegou todo mundo daquela época. Eu fiz Mecânica Geral, que é tornearia e ajustagem, conheci muita ferramenta, conheci muita técnica, medidas. E muita conta e não podia usar calculadora. E eu sempre tive facilidade com Matemática, então eu me dei bem lá nesse aspecto. E quando eu estava na oficina fazendo as peças também eu gostava, me dava bem ali com aquela coisa de fazer, de construir. Quando eu comecei a andar de skate eu também comecei a montar rampas, obstáculos, a gente construía: juntava um monte de molecada lá, serrote, martelo, os pregos velhos que a gente procurava lá e montava no improviso. Aí terminei o Senai e foi tudo bem. Comecei a tocar guitarra, a curtir um rock and roll, e fiquei dos 16 até os 19 anos, naquela fase meio de pré-alistamento militar, que você não consegue trabalho também. Não prestei serviço militar, fui dispensado. Com 17, 18 anos montei banda, a gente cresceu meio que nessa coisa de bandas, da cultura das bandas de rock. A primeira, que era em 1990 e pouco, chamava Spy Death. Em 2000 mais ou menos eu montei uma outra banda que chama Cabeça Ativa, a gente teve uma repercussão bacana, mas aí o vocalista teve que mudar pro interior e a gente parou. E foi nessa fase que eu também estava iniciando a cooperativa. E a cooperativa é muita responsabilidade, é muito trabalho. Eu toquei em outras bandas depois, como toco até hoje, mas de uma maneira com menos dedicação, vamos dizer assim.

Em 2002 eu já tava nessa coisa da reciclagem, trabalhar com Arte, um amigo do Reciclasa me convidou pra trabalhar em um albergue de moradores de rua no Brás. E eu fui dar aula de artesanato lá porque como eu achei a minha profissão, meu ganha pão, nesse tipo de trabalho, eu falei: “Pô, se eu posso os outros podem também, basta ter uma força de vontade”. Porque eu não estudei Artes Plásticas, eu fui fazendo porque eu gostava. Quando eu tinha 22 anos eu fui trabalhar no Extra Anhanguera, com plantas, até então não conhecia nada de planta. Eu cheguei pro cara e ele falou: “Você conhece planta, você gosta de planta?”, eu falei: “Conheço, gosto”. Ele chamava Marcelo Engel, e sabia nome científico das plantas, ele gostava mesmo, ele fazia aquilo com amor, o cuidar das plantas. Eu comecei a gostar muito também. E foi ali que eu comecei a desenvolver essa coisa da Arte. Você tinha que combinar cores, eu comecei a compor, pegava uma planta daquele tipo e começava a compor ali na prateleira uma história. E também a questão do lixo. Porque como eu trabalhava nesse mercado, era um desperdício descabido. No mercado inteiro, não era só da parte de planta, porque você tem um vasinho de violeta lá com florzinha linda, maravilhosa. Só que a flor murcha, a flor morre e o vaso continua. Só que aí não tem mais um valor comercial. O que os caras faziam? Jogavam no lixo, um vasinho de violeta vivo. Com terra, com tudo. Então quando eu ia pra caçamba pra jogar planta fora eu via os caras vindo e jogando outras coisas fora também. Eu falava: “Nossa”, foi aí que começou essa sensibilidade pro desperdício. Um dia que eu estava na casa de um amigo, aí ele falou assim: “Vou jogar essas coisas fora aqui, você quer alguma coisa?”. Ele tinha umas tranqueiras lá, cabo de telefone, um pedaço de osso de mocotó. Eu falei: “Eu vou fazer uma obra disso daí, só pra mostrar que dá pra usar”. Fiz um bonequinho que é um guitarrista e a cabeça dele é uma garrafa PET que parece uma lâmpada, que eu quis dizer o quê? Que a reciclagem era uma boa ideia. E não parei mais. Eu falei: “Eu vou dar as caras nessa parada que eu estou fazendo”. Aí eu conheci o Movimento Ecocultural, é uma ONG lá em Pirituba, onde alguns artistas escrevem projetos e propostas de eventos culturais. Eu cheguei lá e falei: “Vocês deixam eu ficar aqui fazendo os meus trabalhos?”, os caras: “Não, pode fazer”. Eu comecei a frequentar lá direto, eu ia fazendo as coisas e ia ajudando o pessoal lá também nos eventos deles.

Depois do Movimento Ecocultural eu comecei a fazer oficinas, dar aula, vender peça. Eu fazia as peças no quarto da minha casa, colocava dentro de uma mochila e ia pra rua. Ia pra evento, ia pra show, e expunha, vendia. Eu fazia contatos a coisa começou a andar nesse sentido. E nisso uma amiga conseguiu um contato no Conjunto Nacional, com o Sílvio Galvão, que é o que era o cenógrafo que foi contratado pra fazer a decoração natalina do Conjunto Nacional. Ele me explicou o trabalho, aí eu integrei a equipe de desenvolvimento em 2001. Eu era responsável de passar os projetos pras oficinas externas, a gente tinha mais de dez oficinas, que era a Penitenciária Feminina, pessoas com necessidades especiais físicas, a gente foi dar aula pra adolescentes com Síndrome de Down. Depois tudo isso voltava pra gente e a gente fazia a montagem final. Em 2002 eu estava trabalhando em um albergue e numa instituição na Luz, uma cooperativa em que eu dava aula de Arte com reciclagem. Esse ano a gente pegou essa turma pra fazer o Natal do Conjunto Nacional. Aí fizemos 2002, 2003 também, a mesma coisa. Em 2004 a síndica do Conjunto Nacional chama, doutora Vilma e a Cristina falam assim: “Por que você não pega esse pessoal que vem te acompanhando e monta uma cooperativa?”, eu falo: “Eu já tentei montar, mas me falaram que é tão burocrático, é tão difícil”. Ela falou: “Eu vou te dar uma pessoa que vai te dar uma assessoria”. Aí a gente começou a fazer reuniões com o Antônio Celso, que é o nosso contador. Ele sabia muito de cooperativa e começou a explicar pra nós. Eu convidei todos os amigos, os alunos, e a gente começou a fazer palestras. A gente fundou a cooperativa em 2004, a Cooperaacs, Cooperativa de Arte Alternativa e Coleta Seletiva. No começo a gente não tinha nem computador, alugou uma casa lá no Belenzinho e fazia os trabalhos numa casa que tinha uma garagem grande. E quando a gente ia fazer coisas grandes que não cabiam lá dentro a gente começava a trabalhar na calçada. Em 2006 a gente conseguiu alugar um galpão maior, e está lá até hoje.

A gente trabalha com qualquer tipo de resíduo. Por exemplo, agora a gente está trabalhando com tampinha, mas a gente trabalha muito com garrafa PET, já trabalhou com latinha. Eu já fiz uma obra também que era um monte de plástico misturado, qualquer peça que achava, que foi o Don Quixote, que eu tive o prazer de fazer o cavalo em 2005. E o cavalo nada mais é do que uma estrutura de ferro coberta com sucata. Eu poderia estar trabalhando com madeira, estar fazendo cenário, qualquer outra coisa, mas a gente escolheu trabalhar com material reciclado por causa da consciência. Acima de tudo o nosso trabalho tem uma mensagem, de falar: “Ó meu, vamos ver direito aí, vamos cuidar mais um pouco”. A gente escolheu trabalhar com isso justamente pra chegar no público e falar e mostrar essa necessidade. O nosso trabalho da cooperativa é um pouco utópico, a gente quer realmente mudar o mundo, mas eu vejo isso pras futuras gerações, para os filhos, para os netos, aqueles que vão vir ainda. O nosso trabalho está bem calcado em conscientizar, pra gente continuar de uma maneira que seja sustentável, de uma maneira que seja não poluente, de uma maneira que respeite a vida do planeta.

Eu tenho duas filhas maravilhosas, a razão da minha vida. Em 2006 a Ângela, que é a minha esposa, ficou grávida. A minha primeira filha tem síndrome de Down. E antes dela nascer a Ângela tinha feito um exame que já indicava a possibilidade de ser Down. Eu particularmente, como já tinha dado aula pra Down, já tinha uma vivência ali não foi uma coisa que me assustou, a minha esposa, pelo fato dela ser mãe, tudo, acho que ela ficou bastante preocupada durante a gravidez. E quando a Vivi nasceu foi de uma felicidade, de uma mudança na minha vida muito grande. Aí veio a Valentina, ela não é Down, e faz uma puta de uma companhia pra Vitória, as duas são grudadas, uma ensina a outra, uma apoia a outra. A minha esposa eu conheci quando eu trabalhei no Walmart, nessa passagem rápida, e a gente está junto já faz 15 anos. E ela acompanhou toda trajetória minha com a Arte e também foi trabalhar comigo na cooperativa um bom tempo.

O meu sonho maior mesmo é viver de uma maneira tranquila, feliz, harmoniosa. É a maior riqueza que uma pessoa pode ter.  É continuar fazendo esses trabalhos e trabalhar com Música, criar as minhas filhas da melhor maneira possível. Porque eu sei a falta que faz um pai porque eu cresci sem pai, então o que eu puder de ser um bom pai também, de instruir, tanto as minhas filhas como outras crianças também, outras pessoas.

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