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História

"A gente tem que criar uma história nossa"

História de: Vera Lúcia Miranda Caetano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Seria muito difícil contar a história de Vera Lúcia em poucas linhas; muito difícil e empobrecedor resumir uma vida tão cheia de experiência intensas em um resumo. Filha de portugueses, Vera dedicou a sua vida a uma constante migração, de empregos, de lugares em que morou, de emoções. Morou no Rio de Janeiro, em São Paulo, em várias cidades da Europa, incluindo em uma espécie de castelo no interior da França junto a um grupo de teatro... Fez faculdade, largou, formou-se em Sociologia, mas não quis se enquadrar apenas em um estilo de vida. Por isso também, sua fé é diversa e carrega desde sua ascendência católica até os seus movimentos ao redor do xamanismo. 

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História completa

P/1 – Vera, você pode começar falando seu nome, local e data de nascimento?

 

R – Meu nome é Vera Lúcia Miranda Caetano, eu nasci no ano de 1957, no Rio de Janeiro.

 

P/1 – Em que mês?

 

R – 4 de junho.

 

P/1 – Seus pais são do Rio de Janeiro?

 

R – Não, meus pais são portugueses, vieram emigrados de lá.

 

P/1 - Seu pai e sua mãe vieram juntos ou eles se conheceram aqui?

 

R – Não. Meu pai casou com a minha mãe em Portugal. Meu pai casou com a minha mãe em Portugal aí eles tiveram a minha irmã, passou um ano mais ou menos ele veio pro Brasil, pro Rio de Janeiro e minha mãe ficou. Quatro anos depois mais ou menos ela veio encontrar com ele, aí um ano, pouco depois, nasce eu.

 

P/1 – Você sabe como eles se conheceram?

 

R – Ah, bom, eles são da mesma - em Portugal se chama aldeia, né - da mesma cidade, né?

 

P/1 – E por que ele decidiu, eles decidiram que ele viria pra cá?

 

R – Bom, meu pai tem uma história, ele já é filho de imigrante, né?O pai dele, meu avô, no caso, era imigrante, ele ficou treze anos na França, eu acho, mais ou menos. Depois mais uns dez ou um pouco mais no Rio de Janeiro. Meu avô era jardineiro...

 

P/1 – Ah, o avô dele já tinha vindo pra cá?

 

R –O pai dele.

 

P/1 – O pai dele. Seu avô.

 

R – É. Então ele já tinha esse mito do pai, que era imigrante. Ele era filho único. E meu avô era jardineiro do Palácio da Guanabara.

 

P/1 – É mesmo? E ele você chegou a conhecer?

 

R – Não. Eu conheci minha avó, a mulher dele, muitos anos depois, quando eu já tinha vinte e poucos anos... Não, vinte e dois, vinte e três anos, quando eu já fui pra Europa, né?

 

P/1 – Mas aí seu pai veio porque seu avô já estava aqui?

 

R – Não. Ele imitou um pouco o percurso do pai, mas o pai voltou na meia idade, mais ou menos, e ficou em Portugal, né? Depois morreu uns anos depois. E nesse ínterim meu pai veio pro Brasil.

 

P/1 – E seu pai, quando ele chegou aqui no Brasil ele veio fazer o quê?

 

R – Então, meu pai veio pra trabalhar com um tio dele no Rio de Janeiro, que tinha um antiquário. Esse tio chamou, ele foi trabalhar com ele.

 

P/1 – Ele já trabalhava com isso lá?

 

R – Era irmão da minha avó.

 

P/1 – Quantos anos ele tinha quando ele veio?

 

R – Não sei exatamente. Acho que uns vinte e cinco. Entre vinte e cinco e trinta anos. Eu não...

 

P/1 – Aí ele ficou quanto tempo aqui? Ele já era casado com a sua mãe lá?

 

R – Já. Ele ficou no Rio de Janeiro dez, quinze anos.

 

P/1 – Não, mas ele já era casado com a sua mãe?

 

R - Já.

 

P/1 – Aí ele ficou um tempo aqui. Quando tempo ele ficou no Rio?

 

R – No Rio, né?

 

P/1 – É, no Rio.

 

R – Então, acho que quinze anos.

 

P/1 – Não, antes de sua mãe vir. Por que ele não veio na frente? 

 

R –É. Cinco anos, cinco anos.

 

P/1 – Aí eles ficaram separados esse período?

 

R – Separados.

 

P/1 - Eles se correspondiam? Como é que era?

 

R - Sim, né, ele mandava dinheiro. Eles se correspondiam. Só que ele estava esperando ficar mais estabilizado, né, como eles diziam, e trazer, depois chama-la. Aí ela veio num navio com a minha irmã sozinha.

 

P/1 – Sua irmã nasceu em Portugal, então?

 

R – Nasceu em Portugal.

 

P/1 – Aí ela veio de navio?

 

R – Veio de navio. Quinze dias acho que durou a viagem. Acho que foi a última viagem. Minha mãe sempre conta essa história. Que foi a pior viagem da vida dela, né, assim, foi horrível. Quinze dias em alto mar, né? Com um navio que já era um pouco, já estava assim um pouco... como chama?... O navio acho que foi a última viagem dele.

 

P/1 – E a sua irmã lembra dessa...? Ela era... Tinha quantos anos ela?

 

R – Ela tinha quatro, cinco anos.

 

P/1 – Aí eles vieram pro Rio de Janeiro? 

 

R – Rio, é.

 

P/1 - Que lugar que eles moravam?

 

R – Em Botafogo.

 

P/1 – Você nasceu lá?

 

R – Nasci lá.

 

P/1 – Até quantos anos você viveu no Rio?

 

R – Então, mais uns seis. Lá pelos seis, sete anos, mais ou menos. É, de seis pra sete a gente veio pra São Paulo.

 

P/1 – E você lembra de Botafogo nessa época?

 

R – Ah, lembro algumas coisas, vagamente.

 

P/1 – Que lembranças?

 

R – Eu tenho poucas lembranças de infância, não sei o porquê, mas lembro do Carnaval, da fase do Carnaval, acho que é a coisa que eu mais lembro. Lembro do morro, porque o morro era muito perto da minha casa. E meus pais tinham parentes que moravam no morro, que tinham bar no morro, né? Os portugueses tinham esses bares lá no morro, né? Então de vez em quando a gente subia. Isso eu lembro muito. A imagem de subindo o morro, lá em cima, pé de jaca... Aquela alegria, né? O bar. Era muito legal.

 

P/1 – E você ia à praia?

 

R – É... Na praia a gente ia, mas não muito assim, né, porque era uma vida mais, né? Não era aquela... De vez em quando ia, mas não era sempre, não.

 

P/1 – E lá você já ia à escola ou ainda não?

 

R – Então, eu fiz pouquinho, eu fiz jardim da infância, só. Minha irmã já estudou. Fez... Estudou no Pedro II. Eu só fiz acho que jardim da infância, só. Eu lembro um pouco desse jardim da infância, assim, vagamente.

 

P/1 – E a sua irmã estudou no Pedro II?

 

R –Estudou no Pedro II.

 

P/1 – A gente não deixou registrado aqui... Como é o nome do seu pai e o nome da sua mãe?

 

R – Então, meu pai é José Ferreira Caetano e minha mãe é Maria Irene Pereira Miranda. Nessa época as mulheres não punham, lá em Portugal, no caso, não punham o nome do marido. 

 

P/1 – E aí ele decidiu vir pra São Paulo... Lá ele tinha o quê? Trabalhava nesse antiquário com seu tio?

 

R – Ir pro Rio. É, ele trabalhou. Depois de um tempo ele quis ter a história dele, assim, ele quis ser independente. Aí ele foi trabalhar como vidraceiro, cortava vidro, punha nas casas, né, instalava. Ele quis ter o próprio negócio dele, né? Aí ele começou fazendo isso. E ele conta que ele rodava o Rio de Janeiro inteiro, acho que durante uns dez anos, sei lá, de bicicleta com aquelas chapas de vidro enormes, que ele ia instalar os vidros, né? E ele fala que ele ia à casa de vários artistas, né? Paulo... Sei lá... Paulo Gracindo, assim. Eu não lembro. Ele falava alguns nomes, assim, que ele ia instalar esses vidros e tal.

 

P/1 – Ele ia de bicicleta com o vidro?

 

R – De bicicleta. Eu tenho foto dele... É que eu não sei se eu tenho essas fotos. Mas ele era muito magrinho e ia com o vidro, segurando aqui aquelas chapas enormes e a outra... E tinha o bonde também. Eu lembro que ainda tinha bonde, né, que fazia... Ia pela Avenida Atlântica, né? Mas eu lembro vagamente, eu era muito pequenininha.

 

P/1 – E por que eles decidiram mudar pra São Paulo?

 

R – Teve um quiproquó lá, um desentendimento com vizinho, né? Na época tinha muita disputa assim de... E a gente morava numa vila e teve um problema lá com um senhor, tal, essa coisa de portugueses e negros. Sabe? E eles tiveram lá... Eu não sei direito a história, mas eles tiveram um desentendimento feio e essa pessoa começou rondar um pouco a casa e meu pai ficou com medo, achou que ele poderia fazer alguma coisa pra mim e pra minha irmã, né? E como ele ficava muito pouco em casa e tal... E tinha meu tio, que morava já em São Paulo. Na época São Paulo estava florescendo, né, assim. Aí ele falou: “Por que é que você não vem pra São Paulo, aqui a coisa é muito melhor pra negócios, não sei o que e tal”. Aí ele veio. Aí a gente foi morar na Vila Olímpia, que era onde morava meu tio, né? E logo depois meu pai foi pro Itaim e abriu um negócio no Itaim, na Joaquim Floriano. Era um... Tipo um antiquário, a mesma coisa que era desse tio dele lá no Rio, que era na Nossa Senhora de Copacabana, um super antiquário. Meu pai abriu uma coisa semelhante, né? Um pequeno antiquário, mas que fazia molduras, que fazia objetos de madeira. Era moldureiro, moldureiro conhecido lá no Itaim, né? Quer dizer, foi ficando conhecido, né? Aí...

 

P/1 – Ele era habilidoso com as mãos?

 

R – Era. Super, super. Eles tinham muito pouca instrução, assim, né? Tanto meu pai quanto minha mãe. Instrução lá no lugar deles era assim o primário, em geral, que eles tinham. E era muito sofrido, porque eles contam que nesse lugar em que eles moravam lá em Portugal eles iam pra escola a pé, e eles andavam assim, tipo, cinco quilômetros pra ir pra escola. Mas era uma instrução legal, apesar de ter só o primário eles tinham bastante preparação, principalmente nessa área de ofícios, eles eram muito habilidosos, assim. E aí meu pai enveredou por essa área aí, e sozinho, sem ninguém. Aí depois ele foi aumentando a loja, tal, foi ficando mais, assim, conhecido. Ele era bastante conhecido nessa área. Aí ele comprou uma outra... Aí ele comprou a loja. Aí ele foi comprando e foi aumentando a loja, foi ficando bem grande.

 

P/1 – E você lembra da sua chegada aqui em São Paulo? Você sentiu diferença?

 

R – Ah, eu lembro, foi a coisa mais traumática que já foi... Que eu lembro. Assim, que foi bem traumático assim. Porque eu era toda carioquinha, né? Assim, toda menininha de cidade de calor, de praia, né? Muito descontraído era o clima do Rio de Janeiro, não só de clima atmosférico, mas de jeito de ser, das pessoas, todo mundo conversava com todo mundo, e aqui em São Paulo é uma coisa mais retraída, assim. E aí eu lembro que a viagem foi uma viagem meio difícil, porque a gente chegou acho que no frio aqui. Porque eu lembro que eu sentia muito frio na viagem já. E a gente veio de ônibus, que eu lembro. E depois... Ah, depois eu lembro disso, na escola as crianças tiravam um sarro do jeito que eu falava e eu fiquei muito tímida, me deu uma intimidada, assim, eu fiquei meio tímida. Não sei se é porque eles gozavam por causa do sotaque um pouco, né? E… Ah, eu lembro disso, que foi meio esquisito. E eu lembro de uma coisa muito engraçada, que a gente não usava muito casaco, não tinha casaco no Rio, né, muito pouco, não tinha frio pra usar casaco. E aí meu pai me falou: “Não, vamos comprar uma japona”. E eu lembro dessa palavra, “japona”. Aí eu: “Japona?” E eu lembro dessa japona, assim, vagamente, aquela coisa de pôr um casaco, ir de japona pra escola. Tudo isso foi engraçado, assim, como ficou marcado. E aí na escola depois foi indo.

 

P/1 – Em que escola você foi estudar?

 

R – Então, eu estudava numa escola no Itaim Bibi que chamava Aristides de Castro. Aí depois eu fui pro Costa Manso, Ministro Costa Manso, que era uma escola bem conhecida também, na época.

 

P/1 – E você ia como pra escola?

 

R –A pé. Era na João Cachoeira e eu morava ali a umas três, cinco quadras, ali. Era muito tranquilo andar a pé, ir sozinho pra escola, não tinha muito problema, né?

 

P/1 – E como é que era na sua casa? Quem que exercia autoridade, seu pai ou sua mãe?

 

R – Meu pai, total. Meu pai, meu pai. Minha mãe zero, assim. Ele era extremamente autoritário, extremamente bravo, dono do pedaço, dono da história de todo mundo. E eu era bem rebelde assim, um pouco pelo meu jeito, um pouco por ele ser assim.

 

P/1 – E as comidas, sua mãe fazia comidas portuguesas, sua mãe tinha algum costume que ela trouxe?

 

R – É, tinha as comidas portuguesas, a base era portuguesa, mas depois tinha também comidas brasileiras normais. Tinha feijão preto, que é herança do Rio de Janeiro. Isso eu lembro, que na minha casa era mais feijão preto todo dia, assim.

 

P/1 – E educação religiosa, vocês tiveram alguma?

 

R – A gente teve, mas não era assim muito... ninguém era muito fanático. Mas tinha... Católico, né? Fizemos a primeira comunhão, essas coisas. Mas não tinha assim uma coisa muito exagerada, não. Era normal.

 

P/1 – Mas tipo, você costumava ir à missa?

 

R – Às vezes. Às vezes eu ia, mas não era também... Ia de domingo, era um costume das famílias. Igreja Santa Teresinha chama lá.

 

P/1 – E suas brincadeiras de criança, quais que eram?

 

R – Então, sabe que da infância mesmo eu não consigo ter muita memória? Não sei por que. É até meio triste isso. Eu lembro imagens só. Do Rio eu lembro algumas coisas, muito pouco, e de São Paulo também não tenho muito. Eu lembro de brincar muito na rua, ficar o dia na rua. Eu lembro de uma coisa engraçada, que na Joaquim Floriano, que agora é uma super rua, mas na época era uma rua relativamente tranquila, chovia e a gente fazia barquinho assim, formava aquela correntezinha, né, a gente fazia barquinho de papel. Eram umas coisas muito engraçadas, porque é uma coisa inimaginável hoje pensar ver um barquinho, criança pondo barquinho na Joaquim Floriano, né? E tinha sempre uns terrenos meio vazios, meio baldios, a gente brincava de esconde-esconde, inventava, né? Na loja do meu pai também tinha muito espaço atrás, então a gente passava muito tempo também brincando com aquelas coisas da loja, né, que tinha muito, tinha oficina... Pintava, restaurava, fazia os empregados, que meu pai tinha na época já... E a gente brincava muito com eles, eles davam madeira, dourava, pintava. Isso também lembro de... É, e depois as brincadeiras de criança assim, bola, bicicleta...

 

(Pausa)

 

P/1 – A gente está nas suas brincadeiras de infância, me fala da escola, que lembranças você tem da escola? Alguma professora da escola?

 

R – Ah, os nossos professores... Eu lembro que eu era bastante... Não era muito boa aluno, não. Até o segundo ano ginasial, que foi no Costa Manso, mais ou menos, ah, eu era... aprontava bastante também. Acho que a minha turma também, todos eram bastante rebeldes. Rebeldes, assim, muita brincadeira, muita bagunça, matava muita aula, a gente ia pro Ibirapuera, dava trabalho pros professores. E os professores eram bastante rígidos, assim, né, não tinha muita moleza, não, era bem... Aí acho que dava mais vontade de ser contra, né, de ser rebelde assim. Mas foi divertido. A gente aprontava muito... Na escola eu gostava muito da área de artes, de escrever sempre, né, gostava de escrever, mas nas outras matérias não ia muito... E educação física, adorava educação física, era fanática, vivia com a bola embaixo do braço, jogava vôlei pela escola, apesar de ser baixinha, mas na época não tinha muito isso de mulheres super altas assim, então não tinha tanto esse impedimento. Claro, as mulheres mais altas eram as cortadoras. Eu a gente era mais... eu era pivô. Mas eu era jogadora da escola, então passava mais tempo, às vezes, em competição também. Não precisava assistir aula na época, e jogando vôlei. Isso eu lembro que marcou bastante minha adolescência, que era uma coisa que meu pai ficava super bravo, puto da vida, porque eu passava mais tempo nisso do que estudando. E aí ele não queria, daí vinha falar com ele o pessoal da escola dizendo que eu era boa, que ele devia... Ele tinha sempre que ser ganho por alguém mais de autoridade, senão ele não deixava.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Minha mãe não, sempre deixou tudo e sempre dava um jeito de fazer as coisas que a gente queria, mas claro, dentro de uma medida.

 

P/1 – E dentro dessa primeira infância, assim, ginásio, tem alguma professora, assim, que você lembra?

 

R –Primário? Não. Vagamente... Que marcou, assim... Não. Aí depois como eu era muito travessa, no segundo ano do ginásio meu pai me mudou pra escola de freiras, porque as clientes da loja dele, que eram super assim mais esclarecidas, ele comentava: “Ah, minha filha...”, “Ah, leva lá pra escola de freiras, lá é muito bom, não sei o quê, é melhor pra ela, escola religiosa, não sei o quê, parará”. Daí eu fui estudar no Cristo Rei, que é uma escola de freiras, né? Quase ele me leva pro internato, mas não me levou. Na época era o Santa Marcelina, que era escola de internato... Mas aí eu fui pra esse Cristo Rei e aí eu virei super boa aluna, não sei o que aconteceu que eu dei uma virada, né? Eu era namoradeira, também já tinha namorado, e ele queria me matar, né, porque eu era...

 

P/1 – Com quanto anos?

 

R – Quatorze anos eu já tinha namorado.

 

P/1 – Foi seu primeiro namorado ou foi antes?

 

R –Treze, quatorze, eu já tinha namorado sério, assim. Aí foi pedir mão, na época você tinha que pedir, né, pro pai, pra deixar namorar, tal… Principalmente ele, né? Mas na época tinha costume de fazer isso, né? Tinha os primeiros bailinhos, eu lembro que ele deixava, mas ia junto minha irmã que era mais velha do que eu, então tudo que eu fazia, que ele deixava, a minha irmã tinha que ir junto. Então coitada da minha irmã, ela passou metade da adolescência, da juventude dela, cuidando de mim, né? E sendo essa, meio que por conta dela ir junto, eu podia fazer um monte de coisas, ela foi uma santa, né?

 

P/1 – E ela ia numa boa?

 

R – Ia. Ela era muito diferente de mim, super tímida, super boazinha, não aprontava nada, melhor aluna da escola, então ele confiava plenamente nela e ela não aprontava nada. Então ela que foi meio mãe, na verdade a mãe mesmo de cuidar foi ela.

 

P/1 – E esses bailinhos aconteciam onde?

 

R –Então, o pessoal da escola, no bairro, geralmente todo mundo tinha uma casa que embaixo tinha um salão, isso eu lembro muito, aqueles salões de festa. O salão de lazer, né? E aí eles deixavam, a gente ficava lá. Punha a música, a vitrolinha, né? A vitrolinha.

 

P/1 – Você lembra da música que rolava no bailinho?

 

R – Ah, ixi, agora bateu... Beatles ainda não estava, ainda estava começando. Bee Gees, que mais? É... Ah, não sei. Agora não me lembro direito, mas... Ah, basicamente música americana, rock n’ roll, pop, assim, mas bastante rock, né? Música nacional não. Nessa época ainda muito pouco, né?

 

P/1 – Você curtia dançar?

 

R –Nossa, adorava. Só que como eram umas festinhas que os pais estavam perto, assim, era tudo mais contido. Depois, mais tarde, é que aí já dava pra soltar a franga assim. Mas os bailinhos assim ainda eram meio... E outra, depois de um tempo eu já tinha namoradinho, então você tá sempre com o namoradinho, aí dança agarradinho, era mais a onda, era essa, né? Eu lembro da época do shortinho, que aí a gente usava um shortinho e por cima um coletão, assim. Era muito legal essa moda assim, né? A bota, o shortinho, era meio um material meio sintético, não lembro assim... Eu era muito chegada em moda, adorava roupa, e foi a época que a mulher começou a pintar a unha, não pintava... Quer dizer, nos 40 já começou, mas depois que já virou moda, assim, né? E meu pai não gostava. Era a maior briga essas coisas, se pintar, né? Fazer touca no cabelo. Eu lembro que a gente fazia aquela touca no cabelo, punha grampo, depois soltava, o cabelo ficava todo lisinho, né? Era a chapinha na época, a touca  A gente ficava sábado no cabeleireiro se arrumando pra ir pras essas festinhas, bailinhos, e pra ir ver o namorado.

 

P/1 – Você ia com a sua irmã?

 

R – É... Ia sozinha, isso aí não tinha problema, era mais...

 

P/1 – Não, pra ir pra baile, assim, você ia sempre com irmã?

 

R –É, mais ou menos. Depois de um tempo eu tinha um namorado. Eu tive muitos namorados na adolescência. Aí o segundo meu pai já deixava, porque o cara já era um moço sério, segundo ele, então aí eu já podia ir sozinha com ele. Ele já era mais velho, foi aprovadíssimo pelo meu pai, então, esse aí eu já viajava às vezes sozinha. Às vezes com a minha irmã, mas a gente já podia viajar sozinho. Isso eu tinha dezessete... Acho que eu já pulei pros dezessete, dezesseis pra dezessete, vai.

 

P/1 – Você saiu do Cristo Rei com quantos anos?

 

R – Ah, por aí, dezessete. Porque eu fiz até o colegial, depois...

 

P/1 – Ah, você se formou até o colegial? E você tinha, assim, alguma inquietação, alguma vontade de seguir alguma carreira?

 

R – É, então...

 

P/1 – Seu pai cobrava alguma coisa?

 

R – Ah, meu pai era uma pessoa assim pouquíssimo ligado a essa área cultural, o negócio dele eram os negócios dele, o comércio. Ele não estava nem aí muito com a gente, com as nossas... Ele queria que a gente tivesse carreiras que na época... Por ele acho a gente nem estudaria, na verdade, eu acho. Assim, eu lembro da briga dele com a minha mãe, ele falava: “Pra quê que mulher tem que estudar tanto?” Ele achava que não precisava, que mulher tinha que ter um mínimo de uma instrução boa, se quisesse estudar era pra ser mais assim, professora, que ele achava bonito. Quer dizer, na época a minha irmã fez clássico, que chama, né? Na minha época já não tinha mais clássico, mas minha irmã fez clássico. E minha irmã depois foi pra faculdade. Mas tudo isso ele achava uma besteira, assim. Ele fazia porque a gente meio que exigia e porque minha mãe fez um pouco de pé firme nessa história, ela falava: “Não, elas têm que estudar, é muito importante, tal”. “Pra quê?” Primeiro que ele falava: “As mulheres não precisam. Mulheres têm que ter bastante...” Ser prendada, ele achava, coisas da casa... E alguma coisa a mais. Se estudasse uma língua ele achava legal, e fora isso o que ele falava que ele já tinha a loja dele, né? Que a gente podia tomar conta da loja, a gente já tinha uma herança ali, né? Então na cabeça dele... A minha irmã já cuidava da loja, né? Minha irmã era meio... Passou um tempo ela acabou virando gerente da loja e ele largava isso já na mão dela. Eu também ajudava bastante, mas eu era meio... não estava muito aí com a loja. E depois ele falava: “Pra quê? Vocês têm a loja. Vocês precisam fazer esses cursos de decoração”. Tudo que era ligado às coisas...

 

P/1 – Da loja

 

R - Da loja. Aí podia gastar, investir nisso que ele apoiava. Mas nenhuma de nós duas foi muito pra esse lado, né? Quer dizer, minha irmã mais, né?

 

P/1 – E aí, mas você tinha assim tipo algum desejo de seguir alguma carreira?

 

R –Não. Então, quando eu era pequena eu era artista de natureza. Meu pai falava: “Ah, essa menina é artista”. Dançando, pulando, pintando, fazendo coisas, principalmente dança, assim. Tinha muito uma coisa pra dança e pra artista, pra representar, imitar, eu era muito palhaça, assim. Só que ele era muito repressor, então ele cortava tudo que eu... Ele gostava assim na hora, achava bonitinho, mas depois falava pra eu parar com aquilo, que não sei o quê... Então ele sempre me conteve muito, né? Ele foi muito repressor nesse sentido, e muito machista, né, machista assim ao extremo. Então, essas coisas que você tinha que ser mais espontânea, ele já cortava, ele achava feio uma garota ser assim tão... E aí então deu uma contida nesse lado, mas era o meu sonho, era ser de bailarina, acho que toda menina também, né? Bailarina e escritora, eu falava. Escrever já gostava, mas aí mais um pouco depois, mais na adolescência que, nossa, eu tinha diários, escrevia desde os doze anos. Eu tenho até hoje.

 

P/1 – Você tem?

 

R – Tenho. Altas poesias, aquelas poesias super existencialistas, né? “Estou aqui, mas não quero...” Aquelas coisas bem, assim, existenciais mesmo, muito legais. Assim, e de perguntar muito, fazia muitas perguntas... Era das injustiças. Eu ficava assim abismada com as injustiças do mundo e eu escrevia tudo isso: “Por que tantos têm tão pouco e outros têm muito?” Eu lembro das poesias que vinham muito em cima disso também, fora as coisas de amor, que aí também fazia parte assim, muitas poesias de amor.

 

P/1 – E aí foi chegando esse momento de escolha, você acabou o colegial? O que você fez?

 

R –Não. Eu lembro que eu ficava muito na loja do meu pai, mesmo que eu não trabalhasse muitas vezes tinha que ficar lá cuidando, assim, né? Ele ficava lá dentro fazendo as coisas e a gente ficava, quando não estava a minha irmã, estava eu. Isso eu já tinha doze anos. Então a gente passava muitas horas nessa loja, a gente não ficava muito em casa. Isso eu lembro que a gente nunca foi muito de ficar na casa mesmo... Engraçado porque a gente passava o maior tempo...

 

P/1 – Ficava na loja.

 

R – Porque era perto também, era a duas quadras de casa, uma quadra, duas quadras de casa. Mas a gente passava o dia. Não era uma coisa de menina, de ficar dentro de casa. Então eu tinha um pouco de inveja das minhas amigas que ficavam em casa vendo TV com as amigas, eu queria ficar também, né? Então eu ficava muito na loja e eram aqueles móveis antigos, todas aquelas... Tudo era muito antigo ali, aí a gente ficava muito nessa mesa e aí eu tinha que... eu ficava lendo muito, acho que o hábito de ler veio muito de não fazer nada, quer dizer, eu gostava, sempre fui viciada em leitura, assim, né? Então eu lembro que com doze, treze, quatorze anos eu já lia muito assim. Henry Miller, aquela Cassandra Rios, Herman Hesse... Que mais? Fernando Pessoa. Nossa, lia muito. Com treze, quatorze anos eu era uma devoradora de livros, assim. Ele ficava irritadíssimo, porque, nossa, eu ficava muito tempo com a cara nos livros... Que isso fazia mal pra mulher, ficar lendo muito assim, que a cabeça ficava... Já minha irmã não era muito de ler, assim... Engraçado. Ela era mais ansiosa, era mais ativa, assim. Eu lembro disso, a loja, aquela loja que entrava muito pouca gente, porque não é uma coisa que não é de ficar... não é um comércio de muita gente, né? E eu lá com aqueles livros, lendo muito, que eu gostava. Gato, eu lembro que tinha gato na loja, ficavam aqueles gatinhos assim. Um barato. Mas é que ele era muito bravo, então tinha essa coisa de ele sempre ficar bravo com qualquer coisa.

 

P/1 – Ele ficava bravo com a sua mãe também?

 

R –Também, com tudo. Ele era bravo o tempo inteiro. Não, com as outras pessoas de fora, não. Ele era assim “gentleman”, tal. Mas com os empregados da loja ele era super bravo. Ele não era déspota, mas ele era bravo. E com a minha mãe, comigo também.

 

P/1 – E com a sua irmã?

 

R – Com a minha irmã menos, porque a minha irmã nunca dava vasão pra ele, assim, pra ele ficar bravo. Ela sempre...

 

P/1 – Não dava motivo.

 

R –Ela sempre estava com medo dele, então ela evitava qualquer coisa que... E ela era muito boazinha, ela fazia tudo, não tinha namorado, não tinha quase amigos, era uma coisa, ela vivia mais até minha vida às vezes.

 

P/1 – Aí você ficava na loja do seu pai. Passou a adolescência também fazendo isso?

 

R – É. Praticamente foi. Jogava vôlei, escrevia muito. Eu tenho esses cadernos... esses cadernos... tenho diário. Questionário. Lembra que a gente fazia questionários? Eu acho um barato, adorava fazer essas coisas. Aqueles questionários que depois ficavam passando entre os amigos. Isso era uma coisa da adolescência, muito legal. Aí respondia, né, assim... Eu lembro... Cinquenta... Aí tinha as paquerinhas, não sei quê, mas eu tinha namorado, então, tinha...

 

P/1 – Sempre o mesmo?

 

R – Tinha o dos dezesseis. Dos quatorze aos dezesseis foi um. Dos dezesseis aos dezoito, dezenove foi outro. Então eram assim os namoros longos, né? Aí, quando você tem namorado você fica mais presa também, a vida fica mais… né? Aprontava, mas bem menos, com as amigas que eram mais assim... E as minhas amigas eu lembro que os pais eram muito mais liberais, assim. Então eu ia, vivia na casa delas, eu era aquela que estava sempre na casa das amigas, porque lá podia tudo, né, e na minha não, na minha era complicada a história. Não que ele não deixasse vir, ele deixava, tal, mas só que lá era tudo muito complicado, tinha que fazer tudo muito escondido. Então eu ia muito na casa das amigas. Eu achava aquilo incrível, né? Passava as tardes, né? Estudava. Sempre inventava uma mentira pra poder estar lá. A gente mentia muito pros pais, era um barato, né? E às vezes ele nem sabia onde eu estava.

 

P/1 – E aí você fez cursinho? Você fez...

 

R – Não. Então, eu fiz colegial, aí eu prestei... Fui pra jornalismo, fiz um... cheguei... É, fiz quase um ano de jornalismo. Prestei Anhembi e Cásper Líbero. Na Anhembi tinha começado naquela época, aí entrei, aí fiz um pouquinho, aí depois já fiquei na dúvida...

 

P/1 – Chamava Comunicação Social, uma coisa assim, não?

 

R – É, acho que não era Jornalismo... É, acho que era Comunicação Social. Minha irmã já estudava na FAAP. Às vezes eu ia lá, eu achava um barato, assim, faculdade, aquela coisa de...

 

P/1 – Quantos anos ela tem a mais que você?

 

R – Quase sete. Então eu lembro, assim, que eu fazia os trabalhos dela, minha irmã detestava escrever, e eu lembro que eu adorava, eu era boa assim já. Então às vezes ela tinha trabalho na faculdade e eu estava no primeiro ano do colegial. Assim, sempre, eu estava no primeiro ano do colegial e ela no primeiro ano de faculdade e eu fazia os trabalhos dela de faculdade, que tinha que escrever. Aí depois ela melhorava um pouco, mas eu fazia pra ela assim, a coisa de escrever, eu achava engraçado isso, ela não gostava de escrever. Aí eu lembro que eu fui na FAAP, era a época assim da alta repressão da ditadura, foi quando o Herzog morreu, né? No DOI-CODI. E um professor da minha irmã, da FAAP, estava envolvido, que era o Conder (?), né? E tinha informante na faculdade, gente que não era aluno, que era da polícia, que se infiltrava para poder saber quais alunos que eram ligados aos movimentos de política. Então tinha toda essa coisa em todas as faculdades, né? E eu lembro disso, dessa movimentação, mas eu era menina. Ainda, né, eu só via, eu ainda não participava diretamente. Minha irmã então era totalmente alheia a essas coisas. Ela era medrosa e não se envolvia com essas coisas. Aí depois no jornalismo foi pouco tempo. Depois eu conheci, me envolvi e andava muito com uma pessoa que era do Movimento Estudantil, que é o Marcos Caloi (?), que depois virou diretor da EU, presidente da União dos Estudantes, e ele estava prestando pra Sociologia. E eu lá: “Puxa, Sociologia? Que legal! Não sei o quê”. E me encantei. Prestei e entrei na Escola de Sociologia e Política, que era a melhor na época, ligada à USP, né? Tinha toda uma tradição, né, os professores, tudo. Aí eu fiz um ano e meio, quase dois anos lá, aí depois eu resolvi transferir pra PUC, porque eu achava lá muito pequeno e era muita patrulhagem. Tinha uma patrulhagem lá incrível, você não podia pôr um sapato melhorzinho que virava, assim, todo mundo ia pra cima.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Era muito forte isso na Sociologia. Não sei nas outras faculdades... Acho que não, não era assim. Mas em História e Sociologia principalmente era incrível essa repressão ao... Essa auto repressão, essa crítica, né, que a tudo você usava, na época, que era mais assim burguês, mais consumo, era visto como uma coisa horrível, né, você ser tão ligado ao consumo, à moda. E eu gostava muito, né, então ficava aquela dicotomia, uma vez que eu queria seguir a tendência, cada vez eu estava mais me politizando. Porque eu também não vinha de um meio muito politizado. Claro, meu pai e minha mãe eram... Meu pai principalmente, era bastante politizado, por conta de ser europeu. Os europeus têm uma formação...

 

P/1 – Ele falava de política na sua casa?

 

R – Falava, mas era bem reacionário. Eles eram salazaristas. Quer dizer, não bem salazarista, assim de defender... Mas eles achavam bonito o Salazar, apesar dos quarenta anos de ditadura dele. E aqui em São Paulo eles defendiam o Maluf, essas coisas, que na época era, né, a direita mesmo. E ele defendia, achava que o cara fazia as coisas, era um político que realmente prestava serviço, não ficava só no “blábláblá’. E quando eu comecei essa fase de estudar Sociologia aí eu virei, nossa: “A comunista!”. Quer dizer, a envolvida, engajada, né? E falava disso, a gente tinha altas discussões em casa por conta disso. Tudo que eu comentava ele achava absurdo, né, que eu estava virando... Então, cada vez eu fui me distanciando mais.

 

P/1 – Você comentava com seu pai em casa?

 

R – Comentava, comentava. Porque eu era faladora e rebelde e, claro, cheia de entusiasmo e de energia, porque era o auge da repressão também e todo mundo estava envolvido.

 

P/1 – Vamos voltar um minutinho?

 

R – Mas quando eu mudei pra Sociologia eu pedi transferência, aí eu tive que fazer todas aquelas adaptações, né?

 

P/1 – Por que você resolveu sair, voltando naquela parte da Sociologia, da Escola de Ciências e...

 

R – De Jornalismo?

 

P/1 – Da Escola de Sociologia e Política  e ir pra PUC.

 

R – Então, basicamente porque, primeiro, ela era muito pequenininha, era uma turma bem reduzida, e segundo que tinha muito isso, essa coisa muito de perseguir quem não era da mesma tendência, quem não era tão engajado, o pensamento era muito assim sociológico puro, né, quer dizer, não pela Sociologia pura, mas eu queria uma coisa mais aberta, uma coisa... um ambiente também muito mais aberto... E como eu ia na PUC, que eu tinha uns amigos, eu achei que ali era muito mais interessante, a formação, o ambiente, né? Mesmo porque eu achava que a Sociologia, pra mim, não foi a melhor escolha, talvez mais correta. Acho que o Jornalismo, que eu tinha começado antes, tivesse muito mais a ver comigo, era mais aberto, mais amplo, menos pesado. Porque era realmente uma pressão estudar Sociologia nessa época. Assim, essa pressão de você ser assim, ser assado, pensar desse jeito. Era muito mais limitante, assim, pra mim, que era uma cabeça muito mais aberta, né? Nesse caso acho que o Jornalismo teria sido... Até porque eu gostava muito de escrever. Na Sociologia também escreve, mas um pensamento crítico, né, uma coisa voltada mais pra uma coisa social mesmo. Já a literatura e o jornalismo é uma coisa muito mais aberta, até porque dá a possibilidade de você viajar mais, ter muito mais contato, que é mais a minha personalidade, muito mais do que de uma socióloga, principalmente a socióloga dessa época, que era mais economia a história, né, era voltado mais pra uma parte econômica e política. Depois a Sociologia se expandiu bastante, mas era muito pensando em termos econômicos e era uma coisa que, putz, estava muito longe de mim. Eu não curtia muito essas matérias, estatística, era super pesado, né? Mas mesmo assim eu gostei bastante, só que quando eu mudei pra PUC, aí eu resolvi mudar, fiz as adaptações todas, voltei algumas matérias e tal. Na PUC tinha uma coisa que chamava, acho que básico, se eu não me engano, não é? Aí eu fiz as matérias, tal, e aí foi muito legal, porque aí você tinha contato com outras faculdades, né, outras formações. Eu andava muito mais com o pessoal de jornalismo e andava menos com o pessoal da Sociologia. Tinha meus amigos, tal. Tanto é que depois de muitos anos, até hoje, eu sou amiga do pessoal do Jornalismo. Então eu acho que eu tinha mais a ver. Mas a formação na PUC era muito mais aberta, embora também tivesse uma questão do indígena, do indigenismo, a questão do Brasil, política, né, sociologia brasileira, as questões brasileiras, e muito uma tendência pra essa coisa do índio, para a questão indigenista. Já na USP era pra questão mais conceitual pura, tal, assim, a grosso modo. Isso também, pra mim, tinha uma questão. Mas, assim, a formação foi incrível tanto do ponto de vista de estudar quanto de ambiente, né, a PUC foi uma tremenda de uma escola de vida. E foram anos de efervescência, logo depois da invasão da PUC. Aí eu me envolvi com os movimentos estudantis também e com os movimentos políticos. Eu fui pra Liberdade e Luta, que é a Libelu, virei Libelu. E na época tinha as tendências, né? Caminhando, Libelu, Refazendo... E qual é a outra? Esqueci o nome da outra. Mas a Libelu era a mais liberal, assim, que aceitava mais as outras tendências internacionais. A gente era internacionalista, a gente não tinha essa tendência tão voltada só pra América, pra América Latina, que a Caminhando sim, tinha muito essa tendência, e só podia ouvir música latino-americana. As festas eram todas assim mais arrastadas. Mas as festas eram incríveis, né? Na PUC tinha aquele ambiente, né, o Centro Acadêmico, é... as festas, forró, né? A gente...

 

P/1 – Você só estudou... Você estudava de manhã, de tarde ou de noite?

 

R – … E era exatamente... Era uma efervescente da UNE, né? Que os estudantes eram extremamente politizados, principalmente dessas áreas, né?

 

P/1 – Que ano que é isso? Oitenta?

 

R – Começa em 1978.

 

P/1 – 1978?

 

R – E teve uma grande eleição, inclusive na UNE, que foi histórica, que foi lá na FGV...

 

P/1 – Mas você entrou pra PUC em 1978?

 

R – Deixa eu ver... Na PUC eu fui em 1979. Eu mudei pra PUC em 1979. Aí tinha as eleições, era tudo assim... Pô, era a maior efervescência. Tinha apuração de votos... Eu era ligada. Comecei essa história por causa do Caloi, que acabou virando diretor da UEE [União Estadual dos Estudantes de São Paulo], que era da Caminhando. Então a gente virou até assim, sendo inimigos em tendências políticas. Nas festas da Libelu era rock pauleira, rock liberado, enfim, tudo, né? Já as outras festas não. Então tinha essa fama, né, dos Libelus serem mais... Aí tinha as plenárias, as discussões sérias. Porque na época tinha que ser tudo muito escondido. Esses textos assim... Depois já começou a abrir um pouco, mas até os anos 80, mais ou menos, esses textos que a gente lia, lê, do Lenin, do Trotsky, eram todos passados por baixo, né? Não podiam ser assim muito vistos. A gente era tudo meio escondido mesmo. E as plenárias, que eram na USP, então, aí era tudo a portas fechadas, porque tinha muito perigo, a gente podia ser denunciado por estar envolvido com isso e tal. Então tinha que ser feito, assim, com muita estratégia, pra não ser descoberto, né? E isso tudo, lá em casa ninguém sabia muito desse meu lado, assim. E também foi meio “light”, eu nunca fui completamente envolvida com isso. Eu me envolvi, estudei, participei das plenárias, a gente panfletou muito as fábricas, porque a gente acabou virando apoio do Movimento dos Trabalhadores no começo, né? Então quando era pra chamar pras reuniões dos trabalhadores precisava dos estudantes pra entregar, panfletar, para a chamada das reuniões que o sindicato estava organizando. Então a gente ia pra porta de fábrica às cinco horas da manhã, virar massa de manobra, que chama. A gente ia lá e ficava lá, mas não podia abrir a boca, assim. Essa era a orientação, estudante não pode falar, né? Estudante está só apoiando o movimento, né? Mas a gente não podia interferir, né, falando coisas. Então a gente só era usado como... Assim, de apoio mesmo. Muita gente fez esse papel de apoiar, durante muito tempo a gente foi às... Como que chama? Às manifestações na rua, tal, né? Largo São Francisco, né, começou a ter muita manifestação. E a gente era muito unido, Largo São Francisco, a FGV, essas faculdades todas se uniam no movimento estudantil, tinha bastante movimentação. E também tinha, lógico, alguns alunos... Na minha escola tinha alguns operários que vinham fazer Sociologia para se preparem, né? Tinha uns dois ou três na minha sala pra se prepararem pra se tornarem líderes, né? E aí tinha muita briga, muita discussão em sala de aula. É... O Mercadante foi meu professor de economia. Na época estava começando, né? Era o xodó das meninas, né? Porque o Mercadante era super gato, ele era showman, dava uma puta aula, dava uma super aula, ele era muito bom. E os outros professores também eram ótimos. Mas na PUC tinha muito briga, briga mesmo, de diferenças ideológicas, de pontos de vista. Iam pro bar se pegar, às vezes, corpo a corpo, né, assim, principalmente os homens, né? As meninas eram...

 

P/1 – Você estudava de manhã, de tarde, à noite? 

 

R – À noite.

 

P/1 – Você trabalhava já, não?

 

R – Já. Então, já estava... Tinha feito dois anos de estágio na Secretaria, na época não existia Secretaria da Cultura, chamava Secretaria da Ciência e Tecnologia, Indústria, Comércio, Ciência e Tecnologia. Eram quatro nomes, né? E era lá no Palácio dos Campos Elísios. Eu fiz dois anos de estágio lá, né? É... E fiz alguns outros trabalhos, assim. Também pegava alguns freelancers. Trabalhei pra um sociólogo americano, fiz pesquisa pra ele sobre o esquadrão da morte, que ele fez, lançou um livro sobre isso, então eu tinha que ficar pesquisando pra ele, né? Trabalhei no Instituto de Antropologia, o IAMA [Instituto de Antropologia e Meio Ambiente], chamava. Não sei se existe mais, que é ligado aos índios. Eles apoiavam algumas tribos, os suruís. Fiz trabalhos também. Nessa área foi assim. Mas aí termina a faculdade, né, em 1981, por aí, pra 1982. Termina e aí começa a saga de procurar trabalho. Eu tinha vinte e um, vinte e dois anos.

 

P/1 – Você morava com seus pais?

 

R – Morava com meus pais. Aí, namorava também já, outro namorado. Namorava um cara que era da GV, que não tinha muito a ver, era outra história assim, mas... E aí foi quando começa a saga pra procurar emprego. Imagina um sociólogo nos anos 80, maior auge da repressão, a gente tinha que ter muitas cartas de recomendação pra conseguir trabalho. Então era um tal de duas, três cartas. Eu lembro que eu consegui uma do Cuia Bueno (?), me recomendando, alguém me conseguiu. Outra carta de não sei onde... Tudo isso pra conseguir uma entrevista pra possivelmente conseguir algum trabalho. Mas trabalhar onde como sociólogo? Então essa questão de pra quê ser sociólogo em um país que praticamente não tinha ainda esse mercado, né, até hoje ainda tem pouco, mas muito menos, né? Tanto na área de dar aulas, talvez, mas esse não era o meu perfil também, né? E muito era usado no Dieese [Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos], no IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], esses institutos que mexiam mais com estatísticas, que também não tinha nada a ver comigo. Eu tinha mais a ver com essa área cultural, com essa área assim. Foi aí que eu resolvi ir embora do Brasil, porque começou a virar essa coisa mais humilhante que foi as procuras de emprego. Cada emprego que eu ia, levava, fazia entrevista, era uma humilhação só. “O quê que você é? Socióloga? Mas sociólogo faz o quê?” Aí começava uma gozação, né? “Mas o que você acha que você pode fazer?” Aí eu comecei a cair na real e ver que aqui no Brasil a coisa estava muito feia e era um momento assim também muito obscuro, né, em termos de formação. E eu vinha da PUC, aquela efervescência. Aí eu vi que trabalhar mesmo ia ser... Aí eu tive oportunidade de ir pra fora, porque meus avós moravam em Portugal, e aí eu consegui então... Eu quis fazer Antropologia, uma formação em Antropologia. Aí eu fui pra França pra fazer Antropologia Cultural, que eu achava que era mais o meu perfil. Aí fui, conheci meus avós. Aí volta, né? A história volta, porque eu nunca tinha visto meus avós na vida.

 

P/1 – Aí você foi conhecer os seus avós e morar com eles?

 

R – Não, fui só conhecer.

 

P/1 – Ah, porque você estava na França, é?

 

R –Porque eles moravam em Portugal, ele moravam numa aldeia, assim...

 

P/1 – Num vilarejo. E como é que foi lá?

 

R – Aí eu fui conhecê-los primeiro. Fui primeiro lá... Fui com uma amiga, a Mônica, que é uma amiga minha até hoje. Aí cheguei lá, a minha vó... Aquilo lá foi um acontecimento, porque... Eu peguei um táxi aí já falei onde era, o cara: “Ah, você é neta de não sei quem”, eu falei: “É, sou”, “Ah, sim. Ela já está esperando”. Aí todo mundo já sabe, né? Aí quando você chega assim, de táxi lá na aldeia, você já é o acontecimento. E aí chega, minha avó na porta... Minha avó, aquela austeridade em pessoa, né, viúva, né, meu pai... Não, meu pai estava vivo ainda. Aí vai a única neta, primeira neta que ela conhece. Quer dizer, não, já tinha visto minha irmã antes. Aí ela começa a chorar, ela desaba, porque ela era uma senhora extremamente séria, reta, assim, alta, bonita, assim. Mas aí ela desaba e começa a chorar, não sei o quê, tal. Mas aí ela era uma figura muito dura, de poucas palavras, assim, não era muito...  Era afetiva, mas sem ser muito sentimental. Aí a gente fica lá e começa a andar pela aldeia, aí vai conhecer a outra avó, porque as duas avós moram na mesma aldeia. Eu fico na avó paterna, vou visitar a avó materna. Aí vira aquela coisa, né, de conhecer os ancestrais, o lugar que meu pai e minha mãe falavam sempre. Aí a gente fica lá. Aí depois já começa a bater o tédio, porque é uma aldeia.

 

P/1 – Quanto tempo você ficaram lá?

 

R – Aí tinha vinho e comida, todo dia alguém convidava pra gente almoçar no lugar e contavam a história: “E seu pai e sua tia...” Cada um queria saber a história de não sei onde, né? Era legal, mas aquilo era meio, pra mim, que tinha esse peso todo de não ser da família, de não ter aquela história, aquilo lá era legal, mas era estranho, né, porque era tudo muito repentino, assim, né? Eu tinha vinte e pouco, né, vinte e um, vinte e dois. Não, vinte e dois pra vinte e três, acho. E a gente fica nem uma semana lá nessa casa. E aí eles davam vinho, a gente tomava vinho o dia inteiro, a gente ficava... Já foi ficando, assim, bêbada de manhã, porque não estava acostumada a tomar vinho durante o dia. Lá eles tomam, né? Então chegava meio dia já estava super alegre, rindo com todo mundo. Tinha o bar da aldeia e a gente já ia junto com os caras, porque nenhuma mulher ia, mas a gente já ia. Daí foi, era muito legal, né, essa troca. Depois eu fui pra Lisboa, aí eu conheci amigas, aí essas amigas eu acabei indo morar em Paris com elas.

 

P/1 – Você conheceu em Lisboa?

 

R – Em Lisboa, é.

 

P/1 – Você ficou conhecendo algumas pessoas em Lisboa?

 

R – É. Uma amiga que virou uma grande amiga e que eu fui morar na casa dela em Paris depois. Aí eu fui morar em Paris e comecei o tal curso lá, de Antropologia.

 

P/1 – Onde que você fez?

 

R – É, a gente começou... Eu comecei fazendo, mas depois...

 

P/1 – Onde?

 

R – Na Sorbonne.

 

P/1 – Ah, na Sorbonne.

 

R – Eu comecei de ouvinte, pra ver como é que era. Não, e comecei também... Desculpe. Comecei a estudar, eu tinha uma base de francês só, um ano, né? Aí eu fui continuar estudante um pouco mais, porque não tinha ainda preparação total pra poder... Aí era um barato, porque tinha gente do mundo inteiro estudando, árabes... Eles eram... Puta, eles eram muito bagunceiros na escola, na aula e tal. E aí eu começo eu moro Paris. E pra falar a verdade, eu gosto, mas eu acho tudo muito formal. Eu venho da PUC, que é aquela zona, aquela faculdade super, assim, viva, e aquilo ali, pra mim, era tudo muito ortodoxo, muito fechado. Então, eu vou passear em Barcelona, fazer uma viagem de passeio, e acabo tendo que ficar lá, porque na época precisa de visto pra entrar na França na volta, eu não sabia, foi um rolo todo. Eu acabo ficando mais tempo em Barcelona do que o previsto e me apaixono por Barcelona, e falo: “Eu não quero morar em Paris, eu quero morar aqui”. Não tem nada a ver comigo Paris, assim, o tipo de vida, aquela aula que era muito formal. E aí eu começo a estudar então essa Sociologia Cultural em Barcelona. A Sociologia em Barcelona era pior do que no Brasil, apesar de ser Europa, aquela fama toda. Mas a nossa Sociologia dava de dez a zero neles. A gente era muito mais aberto, uma formação muito mais humanista, mais é... como chama? Mais integrada, né? A deles era muito certinha, né. Eu fui fazer Antropologia, eu escolhi um curso que era Mito, Magia e Religião, com uma mulher que era super famosa, chamava Ana Maria Bouchot (?), que era o supra sumo, assim. Aí eu entrei e começou, todo mundo apontando e ela: “O que é religião?”. Aí todo mundo anotando. Na PUC ninguém... O pessoal falava “o que é religião?” e já virava o maior debate do que era religião, lá não, a mulher dava aula ninguém abria a boca pra falar nada. Acabou ia embora. Isso pra mim foi um banho de água fria. Aí depois comecei a enveredar por outros caminhos. Eu acho que aquilo tudo não era pra mim, estava tudo errado. Aí eu começo a estudar medicina oriental, porque começo a me interessar por essa área. Começo a estudar dança, que era o meu sonho, que meu pai me cortou um pouco. Aí acho que é momento de retomar. Eu começo a pirar, né, porque Europa, Barcelona era um... Tudo era muito diferente do Brasil.

 

P/1 – Aí você conhece um monte de gente lá?

 

R – É, um monte de gente. Moro com músicos, moro com três caras músicos, todos muito doidos. Barcelona era um lugar assim de grande movimentação à noite. E de vida artística, cultural, festivais na rua, né? Aí eu começo a estudar dança e aí acho que minha vida vai ser a dança daí pra frente. Então eu começo a estudar dança, estudar principalmente a dança voltada pra questão da energia, não a dança clássica, né? A dança contemporânea e a dança voltada pra performance, né? Tudo isso. E também estudo medicina oriental, viro macrobiótica, enfim, várias pirações, assim... Aí eu caso com um cara lá, um catalão.

 

P/1 – Como que você virou macrobiótica?

 

R – Como que eu virei? Um pouco foi porque eu ia muito na casa de uma amiga que a mãe era macro, eu achava esquisito tudo, mas depois eu comecei a experimentar as comidas e comecei a achar que tinha tudo a ver, assim, a alimentação era muito mais interessante, né? Filosoficamente falando e pro corpo, né? E começo a experimentar e acho que aquilo é o máximo, né? E aí resolvo estudar essa área toda de alimentação, porque a medicina oriental e natural é voltada toda pra alimentação. E aí eu vou, faço três anos de medicina oriental com o Michio Kushi, que era o papa da macro na época.

 

P/1 – Lá em Barcelona?

 

R – É, geral...

 

 

P/1 – Mas você fez o curso lá em Barcelona?

 

R – É.

 

P/1 – Você ficou quanto tempo em Barcelona?

 

R – Eu fiz o curso com professores ligados ao Instituto Michio Kushi, de vez em quando Michio Kushi e a mulher dele vinham fazer curso.

 

P/1 – Quanto tempo você morou lá?

 

R – Então, eu morei quase dez...

 

P/1 – Ah, demorou muito.

 

R – Mas a primeira vez que eu fiquei sem voltar pro Brasil... Porque aí, bom, o Brasil pra mim já era nada, né? Não queria nem saber de Brasil. E aí também corte... Aí corte radical com meus pais, que isso era uma coisa importante pra mim. Porque era muito difícil a minha relação com eles e eles eram muito presentes na minha vida. Então ficar lá na Europa era um alívio, no sentido de fazer minha vida completamente à parte deles, né? Foi realmente um momento de libertação. E aí eu caso, vou morar junto com um catalão, que é poeta, é artista plástico, assim, também, estuda coisas orientais, estuda japonês. 

 

P/1 – Como você conheceu ele? Qual é o nome dele?

 

R – Riccar, em catalão, Ricardo, em espanhol. E eu conheço nessa casa que eu morava lá com os catalães, que ele era amigo íntimo, amigo chegado deles. Todos da mesma cidade, que chama Tortosa, que é uma cidade no final da Catalunha já, depois de Tarragona. Eram dessa cidade eles. E aí eu vou morar com ele, né? Também tudo assim meio escondido do meu pai ainda, né? Depois é que eu conto. Aí eu moro quase três anos com ele e aí foi o máximo. Só que aí a questão de trabalho... Como eu estava mudando completamente de área, fazendo coisas completamente diferentes, eu não tinha um trabalho assim, né? Eu fazia tudo o que pintasse, né? Pegava às vezes algumas traduções, fiz muito de modelo, modelo vivo, que chama, né, pra desenho. Pra me virar, assim, né? Porque eu recebia trezentos dólares para viver lá, né, era o que meu pai me mandava, o resto eu tinha que me virar. Era como se eu tivesse aqui e ele me ajudando, na época eu vivia com isso. E o resto eu ia por minha conta. Então eu pegava o que pintasse, às vezes trabalhava num bar, lá tinha muito isso na Europa, ficava... Às vezes ia viajar, ia pra Ibiza, trabalhava um mês, dois, e aí já podia ficar seis meses depois estudando, fazendo o que eu queria. Na Europa tinha muito esse esquema, né? E como eu morava com ele, num apê que era dele, eu não gostava muito, né? Ele era bastante bem de vida também, então não tinha muitos problemas, assim. Claro, tinha aquela coisa de estar sempre batalhando, mas... E aí eu fazia muito isso de modelo fotográfico, fotografava, porque eu já tinha feito algumas coisas de fotografia, que eu tinha estudado um pouco. Pegava às vezes uns “freelas” de fotografia também. Ah, e foi indo... Aí depois começou a bater a crise. Eu fui... De vez em quando eu ia pra Portugal, ia visitar minha avó. Aí eu virei europeia um pouco, né, assim. Virei um pouco... minha vida virou meio isso. Eu fiquei uns quatro anos sem voltar pro Brasil. Aí bateu, bateu a crise, bateu saudade, bateu... O casamento começou a ter um pouco de crise, eu queria ter um filho, ele não. Eles são extremamente liberais, eu também, mas assim, eu achava que estava no momento, então começou a pintar... Eu queria mudar de Barcelona, ele não. Aí bateu a crise, eu resolvi voltar pro Brasil. Até porque de trabalho também estava meio devagar, né? Aí eu volto pro Brasil. Aí foi a paulada na cabeça, depois de quatro anos: “Tiiim”. Eu lembro até hoje o primeiro domingo na casa da minha mãe: “Silvio Santos vem aí...” E eu assim, né, na televisão, fazia séculos que eu não via televisão, porque na Europa televisão era uma coisa totalmente... nessa época principalmente, ninguém liga a televisão. Não tinha televisão em casa. Aí “Silvio Santos vem aí”, minha mãe, a carne assada, eu voltei a comer carne. Eu era “macro”, mas minha mãe tinha feito carne assada, aquela carne assada da mãe, né? Aí eu falei: “Gente, o que é isso”. Aí eu passei mal, muito mal, fiquei num estado, acho que tudo bateu... A televisão, a família, a carne assada, a mãe, tudo, assim, sabe? Passei mal, mal, mal. Tive uma crise mesmo, assim, sabe? Tive uma crise no fim do dia.

 

P/1 – A carne assada, o Silvio Santos...

 

R – Não, a carne assada foi ótima, estava uma delícia, mas eu não comia, era uma coisa estranha. Mas era da minha mãe, aquela coisa de especialidade dela. Mas aquele Silvio Santos, aquela mesa, né? Meu pai super sério, quer dizer, ele estava mais animado, porque fazia anos que ele não me via... Mas mesmo assim, aquele jeito dele, né? Aquilo foi terrível pra mim, assim. Foi bom, mas foi muito estranho, assim. Eu lembro que eu dormia as primeiras noites, eu não tinha direito nada, assim, o barulho do Itaim, né? Na Europa não tem barulho. Era tudo muito complicado, a língua, né, eu falava, pensava já em outro idioma. Saía, batia com a cabeça assim, porque aquelas coisas de você estar totalmente com as referências diferentes, né? E aí crítica, muito crítica, na Europa você volta, o pensamento todo tempo... Aí o Brasil parecia uma loucura, aquela coisa... Mas aí foi indo, foi indo. Aí eu mudei, fui morar com amigas que também tinham acabado de chegar da Europa, um bando de... Tudo as loucas, que tinham a cabeça, tal. Aí fui morar nessa casa. Aí acho que eu fiquei quase um ano no Brasil. Aí quando eu estava quase pra fazer um ano, eu já estava enfronhada nessa área de produção, dançava, continuava dançando, continuava fazendo essa área de artes, representando um pouco, mas sempre voltada pra essa área mais da dança... A gente fez um espetáculo na época, que foi até bem legal, na Bienal. Trabalhava...

 

P/1 – Um espetáculo?

 

R – É. Fizemos um espetáculo baseado na obra do Duchamp, Marcel Duchamp. E tinha um monte de gente que estava começando, assim. Hoje em dia tem Malú Bierrembach, que é uma atriz assim meio famosa, aquele Edson Cordeiro cantou, acho que foi a primeira vez, uma das primeiras vezes que ele cantou. Ah, sei lá. Tinha um monte de gente que estava envolvida nesse espetáculo. Era uma performance, dança, uma mistura, na época essas linguagens era a tendência de misturar. E eu fazia muito essa parte de corpo, né? Eu estava trabalhando muito essa área. Comecei a dar formação nessa área, de fazer, chamava Formação Corporal, tinha feito Butoh, tinha feito várias técnicas, né, dessa área. Eu trabalhava disso também. Então eu sempre fui muito louca, começava, inventava uma coisa e ia, ia, ia, ficava aí, depois me desencantava e ia pra outra coisa. Isso é uma marca minha, uma marca boa e uma marca ruim, né, porque eu nunca me especializei em nada. E também era uma marca das pessoas dessa área, dos anos oitenta, essa busca sempre. E muito natureba, muito sempre... E aí começo a trabalhar no Mambembe, que na época é um espaço que... Madame Satã, Mambembe, Aeroanta, eram espaços, assim, de grande destaque nessa... que davam, aceitavam, faziam espetáculos pra quem estava chegando, pra quem estava começando, mulheres negras, Fábrica Fagus, [Grupo] Luni, Escova, Máfia, vários, né? E eu era produtora, ganhava pouquíssimo. Era na raça... 

 

P/1 – O que você fazia exatamente lá?

 

R – Produção, tudo. A pré-produção, desde fazer os panfletos, montar a programação, né? Escolher programação, montar, chamar artista, no dia do espetáculo criar toda... Fazer tudo que precisava pra acontecer o espetáculo. Eu também cheguei a criar algumas programações mais a ver comigo, com dança. Cheguei a montar espetáculo, um que chamava Mise-en-Femme, só de mulheres. Depois a gente foi pro Rio, tinha que acompanhar quando ia pra fora...

 

P/1 – Aí tinham mais produtoras ou era só você?

 

R – Tinha a Renata, que era a que fazia junto comigo, quer dizer, que eu fazia junto com ela. Não lembro quem entrou primeiro. E o Doula, o Marquinhos. O Marquinhos super famoso, porque era o cara da noite, da noite na parte cultural. 

 

P/1 – Onde fica o Mambembe?

 

R - Tinha o Aeroanta, que era importantíssimo também.

 

P/1 – Onde fica o Mambembe?

 

R – O Mambembe fica no Paraíso, perto ali onde é o Hospital Santa Joana, um pouquinho mais pra baixo. Um dos donos, acho que era o Paulo Betti, do PT, tinha mais gente. Todos do PT, ligados ao PT, nessa fase que estava começando.

 

P/1 – E tinha show todos os dias?

 

R – Ah, quase todo dia, mas de grana mesmo dava muito pouco, o que dava mais dinheiro mesmo eram os shows de rock, de punk, na época, Ratos de Porão, isso aí lotava. Era muito chato. Chato assim, que dava mais trabalho, assim, aquela moçada, mas era onde entrava mais dinheiro, porque era muito mais gente, aí cobrava, dava pra cobrar, né? Dos outros cobrava, mas não dava pra viver tanto disso, né? Mas rolava, a gente ia se virando. Eu trabalhei no Sesc. Nessa época ainda compartilhava com o Sesc isso, porque eu trabalhei, eu comecei fazendo na parte do Sesc Pompéia, fazendo...

 

P/1 – Mas o Sesc Pompéia foi em que ano?

 

R – 1986, 1987, por aí.

 

P/1 – Mas isso foi no ano em que você voltou da Europa? Tudo isso em um ano?

 

R – Tudo nesse ano que eu volto.

 

P/1 – Aí você arrumou namorado aqui?

 

R – É. Tinha um namoradinho, mas aí alguém falou: “Vai chegar um catalão, aí, bacana, vai ser legal, porque aí ele vai te conhecer também”. Ah, aquela coisa, porque morou em Barcelona também. Aí ele chegou...

 

P/1 – Outro catalão?

 

R – É.

 

P/1 – Porque o Ricardo é catalão?

 

R – É. Aí tem uma festa na casa da minha amiga, a Natália Dulunhe (?), ele estava hospedado lá, e aí a gente bate o olho um no outro, assim, ele fala: “Você é a Vera? Eu trouxe uma coisa pra você”. E eu abraço: “Ah, você, legal. Obrigada”. Uma amiga que tinha mandado um negócio pra mim. Ele: “Eu vou te dar depois”. Foi tudo uma grande coincidência, né? Porque Vera em Barcelona quase não existe nenhuma. Então quando eu falei “Vera” e essa amiga em Barcelona falou: “Quando você encontrar a Vera você dá o presente pra ela e dá o abraço nela”. Quando eu falei: “Eu sou a Vera”, ele falou: “Você é a Vera?” Aí me abraçou e foi uma grande coincidência, assim. E aí a gente começa a sair, ele vai pra minha casa, e a gente casa, né, casa mesmo. Ele me pede em casamento, ele veio morar no Brasil um ano, a gente casa no papel e aí eu volto pra Barcelona.

 

P/1 – Aí você ficou um ano aqui com ele?

 

R – É, um pouco, mais ou menos.

 

P/1 – Mais um ano. Você ficou dois anos aqui no Brasil?

 

R – É, não chegou a um ano...

 

P/1 – Vocês foram morar aonde?

 

R – Aí a gente procurou, rodou um pouco por Floripa, um pouco no Ceará, porque ele estava buscando, assim, fazendo uma busca, achando que talvez ele pudesse morar aqui, mas ele não queria morar em São Paulo de jeito nenhum. Ele era artista de circo, ator e artista de circo. Ele tinha uma companhia de circo em Barcelona que, por coincidência, um dos últimos espetáculos que eu vi antes de sair de Barcelona foi o espetáculo dele. Era na rua, né? Porque lá tem muito disso, do artista circense estar na rua. Mas era uma companhia bastante boa, assim, famosa lá em Barcelona.

 

P/1 – Como que é o nome?

 

R – Em catalão é Perigueux (?), é Cirque Perigueux, que é circo perigoso. Eles gostavam de trabalhar com medo, com o perigo, era a marca deles. Então eles faziam muitas brincadeiras entre eles e com o público, que mexiam com risco e perigo. E ele era acrobata equestre, andava de monociclo, fazia várias habilidades, trapezista, super bom trapezista. E o engraçado que essa história me marcou, que eu fui com o Riccar, que era na época, a gente tinha se separado mas a gente era amigo, a gente foi ver um espetáculo deles e a hora que acaba o espetáculo, sai a menina que era a acrobata também e passa por nós e vai pro bar, e a gente vai também pro bar, assim, aquela coisa de público que vai ver e acaba indo junto. E aí ele passa por mim, né? Esse que virou meu marido. E eu olho e falo: “Nossa, que homem!” Porque ele era todo forte por causa do trapézio. Eu: “Nossa! Putz, que forte”. Aí um ano e pouco depois eu caso com esse homem. Então, é legal essa imagem, né? E... Aí a gente casa, ele começa a trabalhar com uma companhia francesa, né, que chama Royal de Luxe, porque ele estava em crise, não sabia se queria voltar pro circo. Ele não queria mais, ele queria mais trabalhar só com teatro, mas um teatro diferente, ele não era do teatro tradicional, né? E eu também não era da área do tradicional. Aí ele fala: “Ah, só se fosse essa companhia, eu trabalharia nisso”. Aí passou um dia toca o telefone, essa companhia, que era o sonho da vida dele trabalhar, que ele já tinha feito algumas participações, o cara que é um dos principais atores a mulher fica grávida, não sei quê, e ele resolve parar pra ficar, porque já era o segundo filho dele e ele perdeu o primeiro, de acompanhar, né? Eles viajavam muito e ele topa substituir esse cara, né? O principal ator. Ele fala: “Bom, agora nós temos que ir embora, né?” Aí a gente vai embora pra França. A companhia deles é lá perto de Toulouse, eles moram num castelo que foi doado por um conde, que doa esse castelo pra essa companhia, pra morar, né? A companhia tinha umas vinte, trinta pessoas, né? E a gente vai morar lá, porque ele tem que rapidinho aprender tudo que o cara fazia, em um mês, pra cair de novo na estrada, na vida, né, em todas as turnês que eles já têm vendidas, preparadas, né, pra eles. Então eu vou acompanhar ele, né, porque é a história... A gente vai pra lá e mora nesse castelo, mas ele tem um caminhão-casa, então um tempo a gente levou o caminhão-casa pra lá. Morou um tempo dentro do castelo quando era muito frio. E o resto a gente morava no caminhão-casa, que era o nosso. Aí foi, putz… Imagina, né? Piração total... Mudar de vida, sair de São Paulo e ir morar num castelo no interior da França. Um castelo mesmo, que você fala: “Gente, isso não é possível”. Morar num Castelo! eu acho meu príncipe que vinha num cavalo, indo morar num castelo, é tudo muito cinematográfico. Aí vem gente do Brasil, fica lá com a gente, né? A Natália chegou a ir pra lá... “Gente, que loucura isso aqui”. Era meio fora do normal assim. Cada um com a sua loucura. Eram muitos quartos, cada quarto era uma história, porque tinha gente de tudo quanto é tipo na companhia, né? Desde o mais maluco que você pode imaginar até o mais careta, assim, vegetariano, super sério, o quarto dele parecia de um príncipe. Até o outro lá que era o maior... E de tudo, né? Muitos deles, dessa companhia, eram de Paris, eram garotos que estavam na rua, assim, bem da pesada, né? E que aí passam a trabalhar nessa companhia e se transformam em grandes artistas e técnicos, né, muito bons todos, eles são assim... Pra mim, foi a maior escola de vida que eu já tive, né? Porque eles são, assim, todos muito profissionais, assim, eles fazem de tudo, desde o parafusinho até, se precisar, interpretam nos espetáculos, dirigem caminhões, fazem de tudo. As mulheres também, as atrizes são excepcionais, né, incríveis. E a história de vida de todos, tem de tudo lá. Desde grandes brigas, ciúmes, relacionamentos no meio, que um descobre. Então era realmente muito intenso, né? E aí a gente começa a viajar pelo mundo...

 

(Troca de Fita)

 

Então, coincidentemente, que a primeira turnê que já estava, assim, toda programada e que esse Lhatse (?) meu marido entra pra substituir, era uma turnê na América Latina, incluindo o Brasil, que era a maior parte da turnê, é quase toda no Brasil, e em alguns países. Então eles precisam, além dele, como ator, eles precisam de alguém que fale português e espanhol, e eu falava francês também. Então eu cai como uma luva também, porque além de tudo eu ainda venho trabalhando, eu não venho como mulher dele, né? Porque eles davam também essa chance de quando o cara acabava de casar, de trazer de, se quisesse, trazera mulher, né, porque, pô, o cara vivia em turnê... Então também não dá pra ficar tanto tempo longe da mulher. Quando eles são assim meio recém-casados eles convidam nessas turnês para ir junto, porque isso é um privilégio. Mas eu, no meu caso, como eu já era produtora e eu falava os três idiomas, então eles acabaram me contratando também como produtora e como intérprete. Então eu vim nessa turnê junto. Incrível... Além de muito bem casada, trabalhando, que foi muito legal a experiência, porque a gente passou uns dois meses viajando, para o Chile, Uruguai, Argentina e Brasil. Brasil foi mais tempo, Brasil foi um mês quase. Então foi engraçado, porque depois de um tempo a gente volta de novo pra América Latina com essa turnê, tal, bem legal... Aí todo meu trabalho junto, né, de fazer, de intérprete e tal. E no Brasil a gente começa a rodar algumas capitais. Cada capital é uma história, né? Algumas a gente estava com um esquema muito bem montado, hotel legal, tal. Em outros uns esquemas bem fuleiros, assim, né, e bem fracos assim, e pra eles aquilo lá também é uma puta experiência, porque pra eles, eles nunca tinham vindo pro Brasil, e um espetáculo de impacto, assim, pro brasileiro... Foi marcante a chegada do Royal de Luxe no Brasil. Até hoje, fez escola no teatro, porque era um teatro muito diferente, assim, de rua, mas com um grande esquema, parece cinema, quando você vai ver o esquema de montagem, é como se fosse um “set” de cinema, né? São vários técnicos fazendo duzentas coisas ao mesmo tempo e tudo acontecendo ao mesmo tempo. O diretor tem um roteiro mínimo e cada espetáculo é uma coisa completamente diferente da outra. Esse era um espetáculo muito especial, né, que era em cima dos principais roteiros de cinema, e é muito efeito especial, muitos, centenas de efeitos especiais divertidíssimos. O público fica completamente tomado. Então no Rio foi na praia em Copacabana, aqui em São Paulo foi na Praça da Sé. E foi incrível, assim, uma multidão assistindo, muito legal. Aí eu volto pra São Paulo e é muito engraçado, porque você volta com um outro esquema. Aí eu fico na rua Aurora. “Pô, que legal, na rua Aurora, em São Paulo”. Então foi muito legal essa passagem por aqui, né? Aí a gente continua, volta pra Europa, faz Europa, continua nas cidades lá na França e tal, Portugal, Espanha e depois a gente vai pra Rússia, aí é um convite especial, que era na época da Perestroika, 1989, quando começa a abrir pro ocidente, porque até então ninguém entrava lá. Eles convidam a gente pra abrir uma coisa que chama Caravana e Mir (?), que é uma caravana da paz, pra poder entrar na Rússia, né, na União Soviética. Aí e gente é convidado especial do presidente da Rússia. E aí essa caravana vai por outra via, a gente não é da caravana, mas a gente vai junto com eles, né? Então foi um acontecimento também muito legal isso. Os primeiros artistas que entraram na União Soviética, essa foi uma experiência incrível, porque ir pra União Soviética por essa via, né? Muito difícil entrar lá. E foi desgastante, foi difícil, não foi fácil, foi muito estranho, assim, ir pra um país comunista no auge do Comunismo ainda. Bolchevique com tudo ainda. A gente é o tempo todo seguido por um comitê, você não pode andar sozinho, é muito complicado a história assim. E alguns vão em avião, outros vão de ônibus, o Royal tem um ônibus só dos artistas. E eu resolvo ir de ônibus, eu não fui de avião. E aí a gente vai de ônibus e faz, atravessa toda a Europa, vai pela Polônia, não sei quê... E começa os espetáculos, né? Em Moscou e Leningrado. É verão, né? Eu passo meu aniversário, o verão de lá. Eu passo meu aniversário lá, mas lá é outra história, na época não tinha comida, pra você comer era uma maratona conseguir uma boa comida. A gente estava acostumado ao comer francês, ou lala, altas comidas. Chega lá não tinha nada, né? Pra você conseguir um negócio era complicadíssimo, era uma burocracia incrível. A gente fica lá no hotel que pode ficar, né, que é preparado pros turistas, que é reservado pra esse tipo de turista, uma coisa estranhíssima naquele hotel. Para chegar no quarto aqueles corredores enormes, você leva meia hora pra chegar no teu quarto, aí tem que pegar a chave, a chave fica com não sei quem. E ninguém falava outro idioma a não ser russo lá nos lugares, né? E a gente tinha uma intérprete que estava com a gente, mas não podia estar com todo mundo ao mesmo tempo. A gente era em vinte e poucas pessoas e tinha uma intérprete que a gente levou. E ela ia mais a situações de trabalho, então no dia a dia ninguém falava nada, eles não sabem falar inglês, francês, nada, só russo, né? Então a comunicação era só em sinais. E a gente... Eu lembro quando a gente falava alguma coisa, falava: “Brasil”, que eu era brasileira. Aí eles: “Pelé”. Aí quando falava Pelé, era a palavra chave, o resto não tinha nenhuma palavra que pudesse falar, assim. E nada de inglês, nada, eles não sabiam falar nada. E não tinham contato com nada do ocidente em todos os sentidos, consumo, livros, nada. Tudo que tinha era por baixo também dos panos. E aí a gente vai fazer os espetáculos e é bem legal, assim, a experiência foi incrível.

 

P/1 – E... vocês se apresentavam também em lugares públicos, sempre...?

 

R – Sempre. E na Rússia isso era um barato, porque os parques, tudo é pensado, quer dizer, pensado, existe já esses concertos ao ar livre, era um hábito do povo russo. O cara sempre, de tarde, vai ouvir um concerto, tudo sem pagar. Isso era um barato, né? Tudo era... O metrô custava, sei lá, dez centavos, era um absurdo. Mas a gente recebeu em rubros, muito a gente recebeu, só que não tinha nada pra fazer com aqueles rubros, né, porque fora da União Soviética aquele dinheiro não valia nada, né? Então a gente estava com um monte de dinheiro, mas não tinha o que fazer com aquilo quando saísse da Rússia. Então a gente tinha que comprar coisas, assim, comprar o que se a Rússia não tem nada quase pra comprar? Então era um tal de procurar coisa pra gastar e comprar. A gente com um monte de dinheiro, um monte de rubros. Então era uma situação absurda pra quem era capitalista, assim. Aí a gente começa a comprar coisas de circo, aquelas “carpas” enormes, que chama em espanhol, assim, que protege...

 

P/1 – A lona?

 

R – As lonas, para ver se vendia, para fazer dinheiro. Caviar a gente comprou assim, nossa, dez mil latas de caviar. Não, dez não, umas mas mil latas de caviar. No final, ninguém conseguia vender aquele caviar... Tudo que a gente podia ver que aqui, na Europa, podia vender, né? Na verdade aquilo lá foi uma grande aventura. Nunca se iria recusar um convite daquele, mas em termos de dinheiro foi a coisa mais bizarra que a gente já teve, porque não sabia o que fazer com aquele dinheiro. E aí a gente... na volta, que eu voltei de ônibus, o nosso ônibus era um ônibus alemão, era Mercedes Benz, e o ônibus quebrou no meio do caminho. E o que acontece? Na Rússia não tem, né, como arrumar, não existe... Aí a gente fica parado, ninguém veio ajudar, foi uma loucura aquilo lá. A gente esperou, o comitê soviético falou que a gente não podia sair do lugar, não pode ir buscar... Eles iam voltar e buscar pra gente. Aí acho que passou umas oito horas, não apareceu ninguém. Era tudo muito sinistro ali, sabe? Tudo, todo o tempo era muito sinistro, tudo assim... E fora que não se entendia muito bem. E aí a gente espera, eles não aparecem. Então o pessoal do Royal começa a ficar desesperado, porque a gente já tinha apresentação na França, e o pessoal esperando já, quem foi de avião. A gente há mais de dez horas parados na estrada, sem comida já. Porque lá a gente só comia pepino, tomate, salame, que eu lembre assim, batata, essas coisas que tinha na Rússia, não tinha mais nada além disso. Então eu lembro que na volta a gente fez até música com aquelas balalaicas, que eu tinha, eu trouxe um monte daquelas balalaicas. E a gente dez horas parados na estrada, não podia sair do lugar, todo mundo fazendo musiquinha com as balalaicas e falando da música, tomate, pepino... Não sei o quê... Que ficou, a gente estava traumatizado com aquele tomate, aquele pepino... À noite pra conseguir aquilo você tinha que fazer fila. Filas na Rússia pra você comprar um par de meias eram filas assim. E aí a gente volta e não consegue, ninguém vem, ninguém vem fazer nada com a gente... Aí os técnicos do Royal vão e fazem uma peça pra por no lugar da peça que quebrou. Eles com tudo, maçarico, não sei quê, eles fazem uma réplica e conseguem adaptar a e gente volta, atravessa, quando a gente entra na Alemanha todo mundo entra em estado de orgasmo, de êxtase, assim, porque um mês depois a gente entra no ocidente. Primeiro nesse entreposto que tem tudo, como é que chama?

 

P/1 – 24 horas?

 

R – É, nesse entreposto que tem tudo.

 

P/1 – Conveniência?

 

R - Conveniência, né, que chama... A gente estava há um mês... Parece um bando de criança e compram absolutamente tudo, compraram a conveniência inteira, né, porque... E aí a gente volta pra Europa, faz os outros espetáculos lá nos outros lugares e continua por lá. Aí depois eu vou pra Barcelona, Espanha, na montanha, onde eu vou morar.

 

P/1 – Ele já morava lá? Vocês compraram? Como é que foi?

 

R – É, então, essa casa ele já tinha. Aí a gente pegou uma parte do terreno lá e fez uma outra casa, adaptou um celeiro, e fizemos uma casa nova no celeiro. Aí a gente fica morando lá, meio na França também. Meio lá e meio cá, né? Quando era inverno a gente vinha pra essa casa e quando tinha turnê...

 

P/1 – Vocês ficavam trocando de casa?

 

R – É. É um pouco o ritmo de lá, né? De quem trabalha nessa área... Aí depois deu... Bateu a crise de novo em mim. O que eu estou fazendo aqui? O que eu estou fazendo aqui?

 

P/1 – Mas o seu casamento deu alguma crise, assim?

 

R – É, um pouco de crise. Eu sem saber direito se era isso mesmo que eu queria, bateu um vazio de novo, cultural de novo. A cultura bateu assim: “Quê que é isso aqui? Não é bem isso”. Aí, eu acho que a minha adaptação era muito boa, já era a segunda vez que eu morava na Europa e eu achava que não era aquilo que eu queria mais pra mim. E, no caso, eu acho que era mais fácil pra ele ter se adaptado no Brasil do que eu, eu acho, em termos de casamento, não tanto em termos de trabalho, assim, de estilo de vida. Aí também ele mudou bastante, quando a gente estava morando lá o estilo dele era outro. Aí eu resolvo voltar e volto. Aí começa toda a minha história. Isso já num outro momento de vida.

 

P/1 – Como que foi a volta, você voltou pra onde?

 

R – Pra São Paulo.

 

P/1 – Pra casa de quem? Da sua mãe?

 

R – De uma amiga, essa amiga que eu já tinha morado antes.

 

P/1 – Estava tocando Silvio Santos?

 

R – Não. Aí já era outra... aí já era outro momento, né?

 

P/1 – Você já estava com quantos anos?

 

R – Então, aí eu já tinha uns quase trinta, por aí, quase já. Aí eu venho meio sem saber direito se eu ia ficar. Eu venho meio numa crise de casamento, meio “Vai lá. Vê qual que é. Vê se é isso mesmo, né? Não precisa separar, não sei o quê”. Aí eu venho, começo a fazer uns trabalhos, moro com essa amiga, aí eu me apaixono por um brasileiro. Aí depois vem esse meu ex-marido, vem pra cá, tenta resgatar a história, mas eu acho que não. Aí eu já estou apaixonada pelo outro e descubro que eu estou grávida. Então aí eu fico com essa pessoa, tenho minha filha, que hoje já tem dezenove, quase...

 

P/1 – Que faz estágio no Museu da Pessoa...

 

R – Que está aqui, todo esse momento, está aqui na verdade. E aí eu começo então a buscar minha vida de novo em São Paulo e foi muito duro, porque tudo que eu não queria era morar em São Paulo. Eu voltei pra São Paulo, mas já querendo ir pro Rio de Janeiro ou pra algum outro lugar do Brasil, não sabia direito qual. Mas como eu estava acostumada com outros estilos de vida, de cidade, né? São Paulo não era exatamente o que eu queria, era muito grande em termos de... Era um tipo de vida que eu já não queria mais, só provisoriamente. Mas aí eu acabo ficando grávida e fico aqui, e acabo ficando aqui, esse relacionamento não dá muito certo. Aí passa dois anos eu caso novamente com um brasileiro, que eu já conhecia antes, né? Porque a gente era amigo, assim, né? Aí eu estou trabalhando no Sesc, eu volto a trabalhar no Sesc, viro programadora e tal, e entro muito nessa área cultural, de cabeça, né? E faço muito festival, produzo e organizo muitos festivais, que na época tinham bastante festivais, com a Ruth Escobar.

 

P/1 – Que festivais você fez?

 

R – Ruth Escobar fazia vários importantíssimos aqui, muito legais. Então eu pego muito esses eventos internacionais, franceses e catalães, principalmente, ou de língua francesa e espanhola. E muito esses eventos grandes, de rua por conta de eu ter tido muito essa escola de produção nessas grandes produções de rua.

 

P/1 – Que eventos? Quais que você fez aqui desses grandes?

 

R – Então, o Plastic au Volant, um trabalho de franceses que ele vem com grandes plásticos e eles andam por todas as avenidas e ruas de São Paulo. Não sei se você chegou a ver algum. São grandes modelos em plásticos assim, e que tem toda uma história, que vão pra um lado e vai para o outro, aí depois termina em fogos. São alegorias, assim, né, são espetáculos plásticos, estéticos também. E o Plastic au Volant, o Negra Box a gente fez também, que é outro espetáculo, que é uma grande caixa negra que saem coisas de dentro e são várias coisas acontecendo ao mesmo tempo. Que mais? Um pouco Nafura (?), fiz algumas coisas com eles assim. Assim, dos grandes tem outros, mas agora não está vindo os nomes.

 

P/1 – Aí também...

 

R – E muitos ligados ao Sesc. Esses também eram do Sesc, mas também  o festival da Ruth se juntou muitas vezes com o Sesc. Com o Sesc eu fiz festival de animação, enfim, muitas coisas, muitas coisas de animação também, que chama, né, que é de bonecos, mas não é só de bonecos também. É animação em geral, esse eu fiz bastante também. Música também, né, algumas coisas. Aí foi indo. Fazia muito isso, né? E programação de rotina do Sesc. 

 

P/1 – Aí você conciliava com as suas filhas pequenas? Você já estava com as duas?

 

R – Não. Aí eu estava só com a Sofia. Aí eu casei com o Américo, que era de teatro, mas não só de teatro. Ele era ator, mas ele também, durante o dia tinha o trabalho dele lá de consultor de sistemas, mas ele era já de teatro, família artista, de teatro. Então ele trabalhava muito com teatro infanto-juvenil, assim. E aí a gente ia conciliando as coisas. Aí depois eu fico grávida e tenho a Nina, então, com o Américo. A gente fica sete anos juntos, seis, sete anos. E aí a gente separa. Ele vai pra essa área cultural, passa a ser, passa pra trabalhar com a questão da cultura popular, que era uma coisa ele gostava bastante, a família dele é todo mundo ligado muito com isso. E aí ele vai, entra pra essa área do Minc, né, do Ministério da Cultura, e passa até a morar em Brasília e a ser secretário da Diversidade Cultural, e eu fico em São Paulo.

 

P/1 – Ainda não conseguiu sair...

 

R – Continuo em São Paulo. Trabalho ainda. Continuei muitos anos ainda fazendo trabalho nessa área e projetos também. Aí depois na época da Nina eu fiz projeto em tecnologia, né? Eu quero me especializar mais nessa área, eu vou pra essa área, e sempre seguindo também com muitas áreas ligadas ao corpo, com a espiritualidade, eu sempre estudei muito nessa área. Até uns dois anos atrás eu dei uma parada, faz uns dois anos só. E aí eu fico aqui fazendo essas coisas e cuidando dessas duas meninas, porque o pai também vai morar fora, né? E é isso. Fico nessa história de área cultural, meus trabalhos, escrevendo, fiz vários cursos nessa área também e tenho essa ligação com a Europa muito forte, tanto por família, né, como pela minha vida, que foi bastante intensa lá, né?

 

P/1 – Você tem família lá ainda?

 

R – Tenho família assim, irmãos da minha mãe, né? São bem de idade já. A gente foi em 2010, fui levar a Sofia pra conhecer esse lugar. Foi um barato. Sofia se divertiu pra caramba com eles lá. Que é engraçado, né? Só que agora já não tem tantos velhos lá. A época que eu fui... Agora a vida tá mudando, né, e Portugal até se modernizou muito, mas ainda tem um ranço, uma coisa bem arraigada, assim, forte, mas também está bem cosmopolita também, né? Mudou muito Portugal. Eu nunca quis morar em Portugal, apesar das raízes profundamente... assim, o lado do meu pai também era espanhol dele. Então eu acho que eu tenho mais a ver com esse lado espanhol, embora Espanha mesmo eu não vivi muito, porque a Catalunha, onde eu morei, não tem muito de espanhol exatamente, né? Eles nem gostam que falem de Espanha eles nem tem nada a ver com Espanha, né? É outro idioma, outra cultura, outra formação, embora estejam dentro da Espanha, né? Mas nesse sentido, do ibérico, mediterrâneo, né, tudo isso, acho que as minhas raízes estão todas aí. Mas o que eu achei curioso, que ela até falou, a outra pessoa que a gente viu, é que quando eu fui pra Rússia, porque na Europa meu nome não existe, Vera, né? Nessa parte Ibérica tudo, Vera, ninguém sabia meu nome lá. Mas na Rússia o que eu encontrava de Vera era um barato, né? Achei um barato, porque o Vera lá é que nem Maria, na Rússia, né? ‘Vira’, eles falam. “Vera. Oh, Vera”. Eu achava um barato. “Oh, Vera”. E na Espanha, eles “Bera”. Eu falava “Vera, não ‘Bera’”. Não falavam bem esse nome. O meu maior amigo, um dos meus maiores amigos que eu fiz lá na época, nos anos oitenta, quando eu cheguei na Espanha, ele teve agora uma filhinha aos quarenta anos, quase cinquenta. Aos quarenta e cinco anos, quarenta e oito ele teve o primeiro filho dele, agora uns anos atrás, e ele botou o nome da filha dele de Vera. Falei: “Que legal”. Primeira Vera que eu...

 

P/1 – O quê que mais mudou a sua vida? A primeira maternidade? A segunda?

 

R – É, então, eu acho que mudou tudo, né? Fez eu dar uma... Fez eu ficar de ponta cabeça em todos os sentidos. Eu acho que eu nem nasci assim muito pra ser mãe, porque às vezes eu fico pensando: “Caramba, como é que eu consigo?”. Porque eu sou a “antimãe” às vezes. Embora seja super protetora, né, e acabo até me envolvendo demais com essa coisa de ser mãe, acho que por conta de ter tido uma mãe extremamente protetora e mãe demais até. Acho que eu, do lado dela... Quando veio a Sofia, nossa, o maior sonho da minha vida era ser mãe, assim. Independente do pai ou não. Mas quando elas vieram aí mudou bastante, porque eu tinha uma vida muito, assim, anárquica e livre, e um pouco fazendo tudo o que eu achava que queria fazer, sem grandes planos. Eu não conseguia ter uma linha, assim. Eu sempre ia pelos caminhos que me interessavam na hora e ia: “Ah, esse é o caminho?” E sem planejar muito as coisas. Isso tem um preço, né? E aí quando vieram as meninas complicou, porque aí eu tive que ter um plano e ao mesmo tempo São Paulo, que era uma pedra no meu sapato. Eu sempre achei que São Paulo não era o lugar que eu queria ter o meu dia a dia. Ah, acabei ficando, fiz minha casa, eu moro eu mesma, por minha conta, do jeito que eu queria e tal. E consegui fazer minhas coisas dentro de um esquema, mas muito longe do que eu queria... Sei lá, né, no ritmo que eu gostaria. Então isso custou muito também. O fato de eu ser muito crítica, de ter morado na Europa e achar que estava tudo errado às vezes aqui. Então ficava sempre um debate, né? E a questão do trabalho, por eu não ter escolhido, assim, uma coisa só. Aí custou mais pra... E também depois, quando o meu pai morreu, também o fato de ele ter deixado parte do que ele já recebia, aí veio pra gente, aí dei uma certa relaxada pra eu poder fazer as coisas mais do jeito que eu queria. Aí as meninas acabaram tomando bastante conta da minha vida por falta do pai, praticamente ausente, né, os pais delas, né? Então acabei assumindo várias funções e várias tarefas que não tem com quem dividir. Isso deu uma pressionada, deu uma forçada, assim, né, na barra de ser mãe, que aí é mãe e pai e tudo.

 

P/1 – Vera, se você olhar para a sua trajetória de vida, se tivesse que mudar alguma coisa, mudaria ou não mudaria?

 

R – Sabe que eu sempre penso nisso? Às vezes eu acho que eu devia ter ficado na Europa. Mas eu também não sinto que a Europa é o meu lugar, né? Talvez não tivesse deixado esse marido espanhol, que sempre eu fiquei meio confusa, perguntava por que é que eu deixei. Tem todas essas questões, que eu talvez tivesse sido mais feliz se eu tivesse seguido com essa pessoa, que era um ótimo companheiro, uma pessoa integra, super talentosa. Essas questões, né? E de trabalho, de ter focado uma área, mas isso também, não tenho uma preferência muito clara, eu também gosto muito dessa diversidade e isso complica às vezes. E tem essa coisa do Jornalismo, em vez de ter feito Sociologia, ter feito Jornalismo. Isso eu acho que foi o primeiro erro, foi aí. Teria me dado mais, sei lá, mais abertura, não sei, mais coisa de escrever, né? Eu teria acho que ido com mais certeza no que eu queria. Então acho que eu teria mudado talvez... Mas aí talvez eu não tivesse ido para a Europa, não teria feito todo esse percurso que eu fiz, né? Que foi muito rico, mas… Não sei se… A segunda filha também não sei se eu queria muito, mas também agora eu acho o máximo. Então não sei se a gente sabe muito dizer o quê que dá pra mudar.

 

P/1 – Qual que é seu maior sonho hoje?

 

R – Ah, bom, isso a gente até já falou. Eu gosto muito do mar. Acho que o Rio de Janeiro... Dizem que a gente tenta voltar sempre pro nosso lugar de origem, não sei se isso é mito ou não é, mas eu tenho esse mito. O Rio de Janeiro, não o Rio de Janeiro, não o Rio, a cidade, também... Mas o fato da presença do mar, não sei, eu tenho muito essa história com o mar, né, o andar a pé pela cidade, né, assim, o calor, né? Isso é uma coisa que eu sinto muito a falta, então eu tenho vontade de voltar pra isso. Eu já tentei e não rolou. Elas não querem, ou o trabalho, ou a casa, ou vários fatores... E a gente acabou não indo, né? Já tentei, mas não... Mas isso é um fator, né? A história de escrever hoje em dia já... É legal, mas hoje em dia já não é meu foco, assim: “Eu quero trabalhar com isso, eu quero escrever”. Hoje em dia já não tenho muito isso. Escrevo porque eu gosto e tal. Queria muito abrir uma coisa, assim, que tivesse a ver comigo, com essa versatilidade. Então, um lugar em que eu pudesse fazer tudo isso que eu já fiz. Trabalhar um pouco esse lado meu, xamânico, que eu gosto muito. Um negócio que lembra um pouco... Sabe assim aquela coisa da lavanderia, que vai todo mundo ali todo dia e troca ideias e faz cursos e num lugar que tivesse mar... Isso é uma imagem que eu tenho de uma coisa que eu acho que teria a ver comigo, mas não tenho grandes anseios. Já pensei muito em morar fora de novo, voltar pra Europa... Hoje em dia já não. Também já fico feliz, só não gosto de São Paulo muito, assim, do ritmo da cidade. Não de São Paulo, das pessoas, nada disso, mas do ritmo dessa cidade, dos valores que tem aqui, principalmente, me irritam profundamente, né? Por cima do humano, a correria, tudo isso, e as pessoas mesmo não se encontram, né? A Europa tem um pouco essa história de todo mundo viver, ter a pausa, né, ter o momento de... Você trabalha pra viver e não o contrário, né?

 

P/1 – O que você achou da experiência de contar o depoimento?

 

R – É, achei bacana, achei legal. A gente fica confusa, porque são recortes. Cada recorte abre uma janela, né? Poderia abrir várias... A parte da espiritualidade que é muito importante pra mim. Muitas coisas, né? Mas acho que aqui é um panorama. No meu caso, o panorama principal, a colcha, né?

 

P/1 – Você quer abrir essa janela da espiritualidade? A gente não falou, falou pouco.

 

R – É. Isso foi sempre, desde que eu saí do Brasil isso foi sempre uma grande busca, um trabalho meu, uma questão minha que eu acho que é importante e no ocidente a gente tem pouco essa... Aprofunda pouco essa área. E eu sempre procurei isso e gosto muito. Hoje em dia eu estou bem longe disso, né, do que eu era, de antes, mas sempre foi um trabalho. Eu acho que é bacana a gente conhecer, estudar. Na escola isso deveria ser mais aprofundado, as crianças saberem mais, né? Esse autoconhecimento, a história, do inconsciente das pessoas, da força, da energia, tudo isso é muito legal e isso é pouco falado no ensino, no trabalho do dia a dia das pessoas, das crianças, principalmente, adolescentes. A formação cristã, no meu caso, eu que fui atrás, e isso acho que é tão legal pras pessoas, pra vida mesmo, né? Para o conhecimento. Não pra informação, para o conhecimento mesmo. 

 

P/1 – E aí deu essa pincelada geral... Dava pra ficar horas. Mas e aí? Pra você esse balanço o quê que foi?

 

R – É, para você poder ir longe aí já acho que é uma coisa assim muito... É muito íntimo, né? É mais uma coisa muito emocional também, né? Cada momento, cada desdobramento aí já envolve uma emoção, no meu caso de pessoas, de relacionamentos, né? Isso também marcou muito, né? Cada relacionamento, cada pessoa com que eu convivi criou uma nova janela, um novo olhar sobre a vida, me levou pra algum lugar diferente, alguma história. Tem pessoas que tem uma coisa mais linear, né? Eu já... Assim... Cada história me levou pra um lugar, né? E isso também é outra marca, que não era eu que também dava a nota do samba, né, era um pouco o samba que dava a minha nota, né? Talvez quando chega na maturidade a gente vai buscando uma nota nossa, né? Isso é muito forte. Depois dói, dói assim, a gente quer retomar um pouco disso, porque você estava acostumada a ir mais pela... né, o ritmo que o outro ia dando. Você: “Opa, eu vou por aqui. Legal isso aqui, vou por aqui”. E aí quando você está mais com você, você já vai buscar: “E a minha nota? Meu samba? A minha melodia, qual que é?” Então tem esse trabalho, principalmente quando você volta pra um país que é teu útero, a tua história, que você já não pode mais ficar conhecendo só coisas novas, né? Aí você fica naquele lugar, planta raízes, aí você fica de novo, né, qual é a tua história, qual que é a tua história... E aí eu acho que isso tem um pouco a ver com os imigrantes, né? Voltou... Quem é filho de imigrante acho que tem um pouco essa marca, né, de não ter uma história de verdade. Eu vi minha avó com vinte e poucos anos, eu nunca peguei... ela nunca me pegou no colo, nunca dei um beijo nela, não tinha nada a ver com ela, nem com a bisavó, nem tias. Mesmo os tios, cada um tinha uma história. E meus tios, no caso, cada um vivia num país, eram imigrantes de vários países. Meu outro tio era imigrante na África, quando veio a revolução, e voltou. O outro era dos Estados Unidos, trinta, quarenta anos, então de vez em quando vinha aqui. Então esses tios, toda essa família, era toda fragmentada e os valores não tinham... Diferente de uma família que tem a sua história, suas raízes plantadas, os relacionamentos são todos mais coerentes, parece, né? Eu acho que quem é filho de imigrante, desse tipo de imigração, é meio, né... Meu pai era filho único, também não tinha muito mais família, né? Então a gente tem essa história meio esfacelada, meio perdida, meio apagada, né? Quando se pergunta eu não sei dizer muito, até você inventa um pouco às vezes, né, pra ter uma história mesmo, né? Porque um imigrante acho que não tem muito isso não. Chega a ter uma certa nostalgia, um certo toque de tristeza, né, porque não teve isso. E os pais estão sempre contando histórias de lá. Nunca eles estão ligados à história daqui, né? Isso eu acho que é outra marca do filho de imigrante, né? Teus pais estão sempre falando de alguma história de lá, que eles viveram lá, que eles passaram lá, eles vivem nessa eterna nostalgia, né? Porque pra eles também foi dura essa quebra, né? Principalmente desses povos. Acho que português, espanhol, mais até o português, eu acho. Então tem mais essa marca eu acho, né? E a gente tem que criar uma história nossa, e fica muito diferenciada da história dos pais também, né? Não é assim uma continuidade, não é?

 

P/1 – Obrigada!

 

R – Obrigada.

 

P/1 – É isso aí.

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