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História

A habilidade de sonhar

História de: Wanderley Santos da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/01/2019

Sinopse

Filho de pedreiro e doméstica, Wanderley enfrentou as limitações da comunidade da Vila Albertina e, através da Fundação Gol de Letra, transpôs as barreiras de seu próprio futuro. Perdeu amigos para o tráfico, mas colocou o coração nas artes para expressar o que sentia. As brincadeiras e festas no terreno baldio são algumas de suas recordações da infância, mas foi através contanto com a cultura por meio da Fundação expandiu seus horizontes, fez amizades longínquas e construiu uma carreira. Da periferia para a capital das artes, a França, dançou e foi aplaudido de pé pelo público. Conquistou, dessa forma, a habilidade de sonhar.

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História completa

P/1 – Bom, primeiramente, obrigada por você ter comparecido para dar o depoimento pra gente. Para começar, Wanderley, eu gostaria que você dissesse seu nome completo, o local e a data de nascimento.

R – Meu nome é Wanderley Santos da Silva, com “w” e “y”. Sou da Vila Albertina, Parque Ramos de Freitas e... A idade?

P/1 – Você nasceu em que dia?

R – Eu nasci no dia três de março de 1985, em São Paulo.

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

R – Minha mãe se chama Maria de Lourdes e meu pai se chama Arnaldo da Silva.

P/1 – E qual é a atividade profissional da sua mãe e do seu pai?

R – Minha mãe é doméstica e meu pai, pedreiro.

P/1 – E você sabe a origem da sua família? Eles são de São Paulo mesmo?

R – Não, meu pai e minha mãe... Eles se conheceram aqui em São Paulo, mas são da Bahia, de Mata Verde e Vitória da Conquista.

P/1 – Os dois são lá da Bahia?

R – Sim, mas se conheceram aqui, eu não sei como, mas se conheceram aqui.

P/1 – E você sabe quando eles vieram pra cá?

R – Eu tenho 24 anos, a minha irmã tem 26, então tem uns 30 anos, 35 anos que eles vieram pra cá.

P/1 – Você já perguntou pra eles a história dele vindo pra cá? Você sabe disso?

R – Ah o meu pai... Eu sei um pouco da história da minha mãe, que ela tem parentes aqui em São Paulo, tios, e estava numa situação difícil lá na Bahia, veio pra cá por condições financeiras. O meu pai eu não sei como ele veio pra cá, mas também já tinha uma família aqui, já tinha parentes aqui que deram suporte pra ele vir.

P/1 – Então eles vieram pra trabalhar, mesmo?

R – Vieram pra trabalhar, o meu pai trabalhava na Seven Boys, e minha mãe trabalhava em alguma coisa assim também, com firmas, aí eles se conheceram. Eu sei que meu pai buscava minha mãe no serviço, os dois começaram a namorar e nasceu minha irmã.

P/1 – E quando eles vieram pra cá eles foram direto pra região ali da Vila Albertina? Como é que foi isso?

R – Quando eles vieram para São Paulo... Não, quando eu nasci... Na verdade eu não nasci na Vila Albertina, eu nasci na Vila Zilda, Furnas, que é um bairro próximo, mas é outra periferia. Eles moraram lá porque era época de invasão de terreno, e eles moraram lá durante uns cinco anos, cinco ou seis anos. Depois o meu avô cedeu espaço para o meu pai, e meu pai acabou pagando por esse espaço, ele quis ceder, mas o meu pai ficou naquela coisa: “não, eu vou pagar pelo espaço”, e meu pai acabou comprando o terreno e construiu. Ele construiu primeiro um barraquinho na região, depois... Era tudo pantanal, tudo bananeira, era muito aberto ali, o morro. E foi crescendo, ele construiu a casa de alvenaria por cima do barraco, então a gente dormia no barraco enquanto estava construindo por fora. Depois destruiu. Então foi tudo meio conturbada essa época de montagem da casa e tudo mais.

P/1 – Isso na Vila Zilda, né?

R – Não, isso já na Vila Albertina, na Vila Zilda eu não lembro, eu tinha dois anos.

P/1 – Então a gente vai voltar lá. Você falou do seu avô, né?

R – Meu avô.

P/1 – Então seu avô já estava por aqui?

R – Meu avô já estava por aqui há mais tempo que meu pai.

P/1 – Então seu avô veio antes e seu pai veio depois?

R – Veio depois.

P/1 – E a sua avó?

R – A minha avó também veio com o meu avô.

P/1 – E seu pai ficou lá na Bahia?

R – Ele tinha que fazer algumas coisas, ele trabalhava em roça. Acabou vindo logo em seguida, mas passou pouco tempo, não foi um tempo muito longo não, que ele veio pra São Paulo.

P/1 – E os irmãos? Você tem irmãos?

R – Tenho uma penca, igual banana.

P/1 – Como é que é a listinha? A escadinha?

R – Eu tenho dois irmãos − que moram na Bahia − por parte de mãe, que é o Mazinho e a Josélia. Depois vem minha irmã que é a Carmem, ela é dois anos mais velha do que eu, e depois vem eu. Tem o meu irmão, Celso, que é um ano mais novo que eu; Simone, que é um ano mais nova que o Celso; Letícia, que é uns cinco anos mais nova que a Simone e acabou por aí.

P/1 – Então vamos falar... Você começou a falar, mas vamos retomar isso aí. Quando você era criança... Você tinha quantos anos, na Vila Albertina?

R – Eu tinha dois anos quando fui para a Vila Albertina.

P/1 – O que você lembra, então, da sua infância naquele bairro?

R – Na Vila Albertina? Quando eu era pequeno, lembro que ali onde é o Bar do Gordo era um terreno baldio. Como não tinha quintal em casa e era do lado ali, era o nosso quintalzão, de todo mundo, na verdade, ali da viela três. Então a gente brincava ali, meu avô todo... Ele já morreu tem um tempinho, e ele toda época de festa junina, em junho e julho, ele fazia fogueira, quentão. Então vinha muita gente da comunidade ali, fazia festinha junina. Minha infância foi brincando por ali mesmo, naquele terreno. A gente brincava de bolinha de gude, fazia box e empinava dali, que era um terreno aberto. Foi sempre meio por ali. Minha mãe não deixava também ir para outro lado da Vila Albertina, que era um bairro, do lado. Ela não deixava, porque foi quando começou a surgir o tráfico e essas coisas, mas ainda era muito disperso, era um cara que mandava ali e outro cara que mandava do outro lado, mas começou nessa época da minha infância, com seis anos. Então era da escola pra casa, brincava ali, tomava banho, dormia, pra no outro dia ir pra escola de novo, de manhã.

P/1 – E você se lembra de alguma situação ruim por causa disso?

R – De violência e de tráfico? Antigamente não tinha tanta violência, era mais essa questão do tráfico assim, né? Teve uma época que começou uma chacina quando surgiu esse Bar do Gordo, que não era um mercado, era um barzinho para festas, pra som. Assim, um pessoal tocando pagode lá, uma casinha de show, e o pessoal ia pra lá de diversas periferias, diversos lugares iam se encontrar lá. Curtia um sonzinho e aí começavam as brigas, porque era gente de não sei onde e comprava briga, aí tinha pagamento de contas na hora, sabe? “Eu vou pegar ele lá, porque sei que vai estar lá naquela hora, naquele lugar”, e acabava surgindo bastante morte. Teve uma época que todo final de semana tinha um morto. Teve até um cara que morreu na porta lá de casa. Meu pai levava a gente pra escola de carro e ele não conseguiu sair da garagem porque tinha um cara morto na porta de casa. Era impactante, mas a gente estava tão acostumado com a situação assim, de ver a pessoa nesse estado... Não que fosse normal, mas o olho já estava acostumado, sabe? O coração não, a gente ficava angustiado de estar naquela situação e não poder sair daquele espaço, né? Mas o olho já estava acostumado de ver aquela cena, então foi uma época meio perturbada assim, de todo final de semana ter alguém morrendo, ter alguém próximo do bairro morrendo por causa de movimento com o tráfico, com droga, né?

P/1 – E você era jovenzinho, no caso?

R – Treze,14 anos.

P/1 – E você tinha um grupo de amigos?

R – Tinha não, eu tenho, ainda. 

P/1 – Você mantém o mesmo grupo?

R – O mesmo. Tem uns que se foram por causa disso também, se envolveram também, por não ter, nessa época, a Fundação Gol de Letra, um espaço onde as pessoas tivessem uma ocupação lá dentro e tivessem um espaço, tivessem orientações e tudo mais fora da família. Alguns foram para esse caminho e acabaram se dando mal, outros foram presos e faltou um pouco dessa orientação, naquela época. Na escola ainda não podia falar nisso, era meio que bloqueado, até de sexo... Para falar de sexo era aquela coisa.

P/1 – Deixa eu voltar só um pouquinho. Você lembra quando você era criança, como era o dia a dia na sua casa? Porque sua mãe trabalhava, seu pai trabalhava... Como que era o dia a dia lá?

R – Meu pai nessa época trabalhava de pedreiro na Vila Albertina, e ele saía pra trabalhar de manhãzinha. Eu sei que ele saía cinco horas, seis horas da manhã e chegava só às nove horas da noite. E minha mãe trabalhava ali próximo também, na casa de família, a dona Antônia, que virou um bar ali, e trabalhava pra eles. E a gente dentro de casa, eu e meus irmãos ficávamos dentro de casa, trancados até ela chegar do serviço. A minha mãe chegava antes e a gente tinha que brincar dentro de casa. Eu tomava a culpa de tudo que acontecia, porque meus irmãos brincavam e quebravam copo ou quebravam alguma coisa “é o Wanderley.” Então nessa época a gente brincava só dentro de casa. Eu tenho um irmão, o Celso, a gente brincava muito dentro de casa com carrinho. Tinha, antigamente, aquele caminhãozinho que tinha uns bois na carrocinha. Então era o top, era aquele carrinho com boi pra ficar brincando com variedades de bois, de animais, então esse foi o primeiro presente que eu quis, e mamãe me deu assim. E o new balance também, porque na época o new balance era um estouro. E brinquedo Johnson é uma parte mais forte na minha vida, a infância que eu lembro, né? Depois foram brincadeiras na comunidade: pipa, brincar de polícia e ladrão. Era legal, mas... Hoje em dia você olha com olhar diferente, brincar de polícia e ladrão tem outra coisa por cima. Antigamente, como era inocente, tinha aquela coisa “vou te pegar” e ninguém queria ser polícia, todo mundo queria ser ladrão, não sei por que, né? Mas era divertido, aquela época era boa.

P/1 – Só mais uma coisinha. Você falou que vocês ficavam trancados dentro de casa, né? Mas como é que era isso? O almoço? Vocês se garantiam?

R – Minha mãe deixava tudo pronto, à noite ela já deixava toda a comida pronta para o dia seguinte, então a gente se alimentava... O meu avô, que morava do lado, ele cuidava da gente também, se tivesse alguma coisa acontecendo. E ela trabalhava próximo também, era uma rua acima de onde ela trabalhava, qualquer coisinha meu avô, meus tios iam lá, chamavam ela e ela vinha.

P/1 – E sobre o trabalho do seu pai? Ele era pedreiro. Você chegou a ir a algumas construções que ele estava trabalhando?

R – Cheguei, tanto que meu primeiro serviço foi com ele, e foi pesado. Ele estava construindo uma casa no Jardim Fontalis, é um bairro também próximo de casa, e aí ele me levou para ajudar. Na época eu estava começando a criar um corpinho, já estava aguentando trabalhar também.

P/1 – Quantos anos você tinha?

R – Ah, eu estava com 12 anos, aí eu o ajudei a trabalhar, a carregar material. Eu não sabia nada, eu carregava material pra ele, ele estava construindo a casa. Mas a maior parte do tempo dele, de profissão, foi como pedreiro, e ainda é.

P/1 – E como é que foi, pra você, a escola, quando você começou a estudar? Você se lembra disso, a primeira escola, o primeiro dia de aula?

R – Lembro. A minha primeira escola foi o Esmeralda... Não, teve o prezinho, que eu fiz no Eudóxia de Barros.

P/1 – É ali mesmo, na região?

R – Ali mesmo na região.

P/1 – Seis aninhos, mais ou menos?

R – Seis anos. Eu me lembro de um... Depois eu fui para a primeira série, no Esmeralda, na Escola Esmeralda, aí eu lembro, porque... Não, no prezinho eu fiz outro prezinho, na verdade eu fiz dois prezinhos, fiz no Esmeralda também, eu fiz cinco anos no Eudóxia, e com seis anos eu fui pro Esmeralda fazer o pré também no Esmeralda. Aí tinha um concurso, eu me lembro de um concurso na época da escola, que era de desenho, no meio do ano sempre tinha esse concurso de desenho. E a professora me escolheu pra participar do concurso. A sala imensa, e tinha um pessoal da sétima série, o pessoal da quinta, sexta e sétima série, tinha um aluno de cada série pra fazer esse concurso, e os meninos todos desenhando lobos, umas coisas, um tipo bizarro, assim, de extravagante, sabe? E eu desenhei um solzinho preto, um barquinho, uma água, e aí o pessoal falou assim: “nossa que artista!” A professora falou que era o eclipse, e começaram a inventar história sobre aquele sol preto. Mas eu não sei também por que fiz, eu sempre fiz o Sol amarelo. Mas eu acho que também foi o gosto... Quando eu comecei a desenhar, comecei a ter essas motivações, de pensar na hora, de ter alguma coisa diferente, assim. E também no prezinho teve aquela primeira namorada, aquela coisinha, eu dancei lambada com ela.

P/1 – Você lembra o nome dela?

R – Josi alguma coisa, mas nossa, eu tremia, dançava lambada com uma faixa assim amarrada, roxa, brega, e dançando numa quadra da escola. Todo mundo dançando e eu tremendo com a menina, dançando lambada assim, meu Deus! Mas era bom, foi divertido, esse foi o meu primeiro ano na escola.

P/1 – Nossa, no primeiro ano! Bastante...

R – Bastante coisa já tinha acontecido. E aí na quinta série eu ganhei um concurso também... Não, esse de desenho eu ganhei também como o mais criativo, não sei por que. E aí, na quinta série, ganhei um presente da escola: eles me deram todo o material didático de caderno, livro e tudo mais para o ano seguinte, porque eu tinha sido um aluno exemplar, viu só? Eu não era bagunceiro, nessa época. Aí a escola me deu o material todo, e minha mãe ficou feliz “caramba, esse é meu filho”. Ela estava orgulhosa nessa época, até hoje é orgulhosa, mas eu aprontei um pouquinho no passado. Essas foram as memórias mais fortes, na escola, que eu tive.

P/2 – E você já tinha interesse pela dança?

R – Não, eu nunca tive interesse pela dança, na verdade. Eu comecei a dançar há seis anos, e nessa época eu entrei na dança na Fundação Gol de Letra, porque estava tendo a oficina de dança, e eu fazia a oficina de grafite. Aí eu ia lá no espelho... Porque eram uns vidros assim vazados, e dava pra ver do outro lado. Aí eu via as menininhas dançado, aí você já... Me deu uma coisinha mais diferente assim, sabe como é, né? Aí eu vi a professora também dançando, eu pensei “eu estou interessado nas meninas, não na dança.” Aí eu fui e a professora sempre me chamava “vem cá fazer a dança, nós estamos precisando de homens para dançar”, eu falava: “não, isso é coisa de bicha, isso é coisa de boiola, eu não vou não.” Ela insistiu durante o ano inteiro, insistindo pra eu entrar na dança lá, e eu sempre ia só para ver as menininhas dançando, com outros interesses, é lógico, faz parte. Aí ela pegou... Até que chegou uma época que eu entrei na dança só para experimentar, e acabei gostando, e logo em seguida teve o teste pro Ivaldo. Eu passei nessa audição pra entrar na companhia dele, aí foi tudo assim, muito rápido na dança. Fiquei cinco meses só com a Luciana, lá na Gol de Letra, e logo em seguida já teve audição para entrar na companhia, que era um projeto social, não era companhia ainda.

P/1 – A gente vai até retomar isso depois, eu só queria voltar um pouquinho, porque o negócio lá deve ser interessante. Você tinha falado da lambada, né? Por isso a gente pensa que na lambada já tinha despertado, né?

R – Eu não levava o mínimo jeito pra dançar, eu só dancei a lambada porque era a menina que eu gostava. Eu não tinha coragem não, se fosse pensar hoje em dia...

P/1 – Só uma coisa. Na escola, quando você estava estudando, você ganhou concurso e tal, mas a sua família tinha alguma ideia... Existia incentivo pra você estudar? Ou “ele vai estudar e vai ser tal coisa”? Você queria ser tal coisa quando estudasse? Você tinha um sonho, na época?

R – Na época de escola? Minha mãe sempre me incentivou a estudar, sempre todo mundo de casa. Era uma obrigação? De certa forma sim, porque você dependia... Você não fazia nada, então tinha que ganhar notas boas na escola, porque ela está dando base pra isso, pra você estudar, se formar e ter um futuro melhor que todo pai quer, ter um futuro melhor pro seu filho. E na época de escola... Qual foi a outra pergunta mesmo?

P/1 – Você pensava em fazer alguma coisa? Um sonho de ser tal coisa?

R – Não, eu sonhava sempre em ser jogador de futebol quando criança. Na época do Taffarel eu queria ser o Zetti, eu sempre sonhei assim, de jogar no gol, ver os caras pulando, eu não queria jogar na linha não. Mas era sempre paralelo com a arte. Como eu comecei a desenhar cedo, então era assim: “eu queria isso, queria aquilo”, mas não tinha muita noção ainda do que eu queria. Até hoje eu não tenho muita noção do que eu quero, realmente. Eu quero fazer faculdade de Artes Plásticas, mais para aprimorar tudo que eu aprendi no passado, pra não deixar estacionado.

P/1 – Mas nessa escola você concluiu, então, o segundo grau? Como foi isso?

R – O segundo grau eu concluí no Pedro Alexandrino, uma escola estadual.

P/1 – E você manteve essa linha de aluno dedicado?

R – Houve algumas oscilações. Dessa quinta série, da sexta série até a oitava, foi dos 14 aos 16 anos, foi um pouco conturbado, não por não estudar, sabe? Eu estudava, eu fazia tudo, mas por causa... É aquela velha história que a gente estava conversando de você pensar que você pode fazer tudo e querer aprontar um pouquinho aqui, um pouquinho ali e aí saía para fazer alguns rabiscos assim de pichações, e tudo mais assim. Você conhecer o outro lado da história é bom, participar um pouco dessa época também, pra você saber o que é bom e o que é ruim na sua vida. E teve coisas também que eu aprendi, não fazendo, mas vendo, o pessoal fumando e tudo mais, foi nessa época que foi minha bagunça.

P/1 – Você teve um grupo que era mais pesado nessa época? Você ficava mais distante ou se afastava?

R – Não, eu sempre andei, eu nunca desmereci a pessoa pelos atos. Mas eles aprontavam, aprontavam mais do que eu, aprontavam de roubar no supermercado, roubava chocolate no supermercado, aí eu falava “eu não vou não, se minha mãe pegar eu estou morto”, a gente comia todo mundo lá fora, depois, no pátio da escola, a gente comia o chocolate juntos. Mas aprontar assim... Eu observava, mas não fazia não.

P/1 – E de você mesmo aprontar, o que você lembra?

R – Nossa! De aprontar? Briga nem se fala, eu era briguento, eu tenho até hoje um ego muito forte, você não podia falar alguma coisa que queria ir pra cima. A pessoa só falou: “licença, deixa eu passar” eu falava: “não, não vou dar licença não”, naquela época, né? Mas de aprontar forte mesmo eu acho que foi mais envolvido com pintura assim, com pichação, com grafite e tudo mais, fazer grafite não autorizado. Foi nessa época que eu mais aprontei.

P/1 – Aqueles de prédio? Aquelas coisas? Você se lembra de algum super difícil?

R – Eu fiz em cima do Banco Itaú, e aí tinham uns guardinhas lá no Banco – sempre saía eu e mais uns colegas meus –, aí eu estava em cima e os caras estavam em baixo, ficavam jogando lata pra mim, em cima, pra fazer. De repente o guardinha saiu assim do nada, e até pular... Eu não sei como eu pulei, dei um pulo e cheguei todo ralado em casa, aí falava pra minha mãe que foi jogo de futebol. “Estava jogando bola, caí e ralei”, sempre havia uma desculpinha. Mas aprontei um pouquinho assim, não foram muitas coisas.

P/1 – Você tinha uma assinatura característica?

R – Diley.

P/1 – Tem ainda alguma marca sua?

R – Tenho. Eu faço ainda grafite, pinturas, mas sempre assinei Diley. Eu comecei com Wan, mas Wan era muito menininha, aí eu pus Diley, porque escutei a “madeira de lei”, aí eu coloquei Diley.

P/1 – E como é que pintou o lance que você falou... Agora vamos falar um pouco do bairro, porque você estava falando do bairro. Como era, antes da Gol de Letra, chegar no bairro?

R – Antes?

P/1 – Você se lembra da estrutura? O prédio antes da Gol chegar lá?

R – Ali foi uma escola, na verdade.

P/1 – Você conheceu?

R – Conheci assim de vista, eu nunca entrei lá. Eu entrava pra jogar bola na quadra, mas nunca no prédio. Nessa época os meus vizinhos estudavam lá, eu estudava no Esmeralda nessa época, era uma escola boa, o ensinamento era bom, tinha um espaço bom, mas a escola durou pouco tempo, não durou muito tempo, e aí foi desativada e virou um prédio pro pessoal da FEBEM, estavam reformando o prédio, alguma coisa desse tipo, e eles pegaram e entraram no prédio da escola na época, até que eles reformassem o outro prédio. E nessa época foi meio bagunçado assim, porque não tinha uma segurança boa pra suportar os meninos, e muitas fugiram. Até teve uma época que eu estava na rua, estava empinando pipa e eu ouvi uns tiros assim, mas até aí, eu nem sabia o que era, eu sabia o que era revólver, mas nem sabia o que era barulho de um tiro. Ou o que causa, de fato, vendo, né? Aí uma menina tomou um tiro na perna por causa dessa desavença entre a polícia e o pessoal da FEBEM, pra tentar controlar a situação. Mas muitos fugiram nessa época e a menina tomou um tiro assim, na minha frente. Aí minha mãe me chamou pra casa “entra, entra”; eu peguei e entrei, mas sem saber ainda o que estava acontecendo, depois que eu fui saber que foi por causa disso. Eu fui visitá-la, era em frente de casa. Ela estava com uma... Fazia assim, mas parecia tão inofensiva. Mas foi o meu primeiro impacto com o revólver.

P/1 – Essa molecada fugiu pelo bairro?

R – Fugiu pelo bairro, descendo, subindo. Você pensava que estavam brincando ou alguma coisa desse tipo, porque era mais ou menos a nossa faixa etária também. Mas foi uma época que estava meio assim.

P/1 – E daí fecharam a FEBEM, né?

R – Fecharam o prédio onde é a Fundação, hoje, e ficou um tempo desativado, até que depois veio o Raí e reabriu.

P/1 – E você se lembra desse momento, da chegada da Gol de Letra lá no bairro? Você devia ter uns dez anos?

R – Não, eu tinha 14 anos, quando eu entrei na Fundação eu já tinha 14 anos. E lá atendia de sete a 14 anos, eu entrei com 14 e fiquei até o final dos meus 14. E comecei nos 15, eu fiquei um ano só como aluno. Nessa época eu estava na escola, a minha mãe que me colocou lá. Me inscreveu e falou: “você está na Fundação, você foi chamado” e eu não sabia o que estava acontecendo, e que ia ser uma ONG do Raí e tudo mais, eu não sabia as atividades que iam ter, como funcionava e tudo mais. E quando eu entrei estava no processo de construção ainda, eram... As quadras do prédio já existiam, da quadra de cima da Fundação, eu me lembro pouco dessa época de como eu entrei, porque minha mãe que me colocou lá dentro.

P/1 – Mas na época que você entrou tinha entrado bastante gente?

R – Entrou bastante gente da comunidade, tinha um filho de cada pessoa ali da rua. E a faixa etária também, como eu entrei com 14 anos, tinha bastante gente com 13,14 anos que ia passar somente um ano, um ano e meio na Fundação.

P/1 – E como era uma novidade, existia um comentário no bairro: “nossa! está acontecendo isso”? Você lembra se existia um burburinho?

R – O primeiro comentário foi: “a escolinha do Raí vai ser escolinha de futebol”, foi o primeiro comentário. Depois falaram: “não, vai ter um monte de coisas lá, vai ter atividades, vai ter passeios”, e aí começou a família mesmo a se interessar pelo fato das atividades que iriam ter e que não tinham no espaço da comunidade, que iria suportar todas aquelas pessoas, pelo menos aquele bairro ali com atividades de educação complementar. Mas no começo foi isso, que eu me lembro foi isso.

P/1 – Você também achava que talvez fosse uma escolinha de futebol?

R – Eu também achei, pelo Raí e pelo Leonardo também, eu achava que a dois jogadores de futebol cabe uma escola de futebol. Mas na verdade foi totalmente diferente, depois que eu entrei.

P/1 – E como é que foi isso quando você entrou? Você se lembra das primeiras atividades?

R – Lembro. Tinha leitura (e?) escrita com a Vera, tinha teatro, música, tinha educação física também. Mas o que eu mais me identifiquei foi com a época de leitura e escrita com a Vera também, que era uma coisa que conciliava junto com a escola, tinha esses parâmetros muito próximos.

P/1 – Você sentia que... Depois que você entrou na Gol, teve uma mudança do seu desenvolvimento na escola?

R – Na escola não, na escola eu sempre fui aplicado na questão do estudo, mas na questão de comportamento mudou um pouquinho, porque como eu, nessa época, estava aprontando um pouquinho e a Fundação... Quando eu entrei, eu aprontava um pouquinho, eu mostrei a bunda na van.

P/1 – Como foi isso? Fala pra gente?

R – Estava rolando um passeio na Fundação, eu não lembro pra onde, e eram vans que iam, não ônibus, era um ônibus que ia da Fundação com os alunos para o lugar do evento que ia ter. Aí eu não sei por que eu mostrei a bunda, o vidro de trás era visível pro pessoal, e eu peguei, abaixei a calça e mostrei a bunda. Também eu não lembro, teve alguma coisa assim pra...

P/1 – Foi um choque?

R – Foi exótico.

P/1 – Tem uma... Eu não sei se você vai se lembrar disso, teve uma atividade que as pessoas tiveram que fazer um desenho de alguma coisa... Como é que você via a comunidade? Você se lembra de ter desenhado algo?

R – Na comunidade?

P/1 – É, porque tem um lance de uma algema, alguma coisa parecida. Você se lembra disso?

R – Lembro. Fui eu que fiz, não foi?

P/1 – Então, o que foi isso? O que era aquilo?

R – Deixa eu ver se lembro. Eu acho que foi mesmo nessa época, quando eu estava com 14 anos, foi quando aconteceu esse acidente do prédio, três anos antes, quando eu estava com 11 anos e 14 anos eu desenhei isso, porque foi nessa época que começou o Bar do Gordo até essas confusões. Então era um clima meio pesado na comunidade, até mesmo como expressão. Quando eu coloquei as algemas, tinha umas mãos atadas assim, as pessoas antigamente rotulavam muito, o pedreiro era somente pedreiro, a doméstica era somente doméstica, e por que sempre foi assim? Ainda é, um pouco. Se você é um bailarino, você não pode ser ator, você não pode ser um pintor, você não pode ser um cineasta ou alguma coisa desse tipo, tem que ser aquilo pro resto da vida. Eu acho que foi isso que meus pais ensinaram também, que por eles não terem esse suporte pra poder fazer outras coisas... Porque quase todos da minha família são pedreiros e trabalham com mão de obra pesada, não tem... Não digo talento, mas não teve essa oportunidade pra exercer outras coisas mais culturais. E com as mulheres é o mesmo, a maioria trabalha de doméstica ou trabalham em lojas, mas não são coisas que elas gostariam de fazer, são coisas que foram obrigadas pela condição do momento, de família, financeira. Então eu fui privilegiado por estar ingressando nesse ramo mais cultural, de poder fazer o que eu gosto, ganhar pelo que eu gosto, receber e ser registrado por isso. Pelos meus familiares eu vejo eles muito... Eles me olham muito como espelho de: “ele consegue, ele conseguiu, então a gente também pode conseguir”, mas tem alguns que ainda pecam por pensar que eu sou... “Olha, está se mostrando, está achando que é o máximo”, mas não isso, é um objetivo e é uma ambição. Eu acho que todo mundo tem que ter ambição de conseguir melhores coisas e não ficar somente naquilo.

P/1 – Então você acha que quando você entrou na Gol e teve a leitura, escrita e essas atividades... Você se lembra dos projetos? Porque na época... Você se lembra do nome? Era Virando o Jogo, você tinha uma ideia do que era o projeto, quando você entrou ou você achou que era um jogo ou uma coisa assim?

R – Quando eu entrei pensei que era essa questão mesmo do jogo, mas no primeiro dia de aula a gente já tinha algumas explicações de que iria atingir essa questão social, de virar o jogo na questão da comunidade, de mostrar outras opções que existem pra comunidade. A gente não conhecia na época, era só jogar bola e esses lazeres básicos, e o grande jogo foi esse primeiro.

P/1 – Outra coisa: como eram as pessoas que participavam na própria Gol? Você acha que começou a mudar também a relação na comunidade? A ter uma integração pelo fato de estar participando na Fundação? Mudou a relação, também externamente, entre as pessoas?

R – Eu acho que mudou sim, tanto no fato de emprego, que começou o pessoal da própria comunidade a ter serviço lá dentro também, e o fato também de estar próximo com a instituição, de saber o que estava acontecendo. Muitas vezes acontece isso na época de escola, retornando um pouquinho que os pais não tinham o conhecimento do que os alunos faziam na escola, e ali a Fundação estava do lado, então você sabia o que estava acontecendo, você sabia o que seu filho estava aprendendo mesmo não querendo saber, sabia por outros ou pelo vizinho, ou por amigos. Então, por estar próximo assim, eu acho que teve uma ligação bem forte com a comunidade, e pelo momento que a comunidade estava passando e pelas necessidades, foi um momento bom a Fundação ter acontecido naquela época.

P/1 – Então uma coisa assim de... Não só mudar a vida das pessoas que estão entrando, não só os jovens, mas os pais também, né? Essa coisa também dessa mudança?

R – Querendo ou não atinge. Quando o filho está bem, acho que o pai se sente mais confiável, sente que está no caminho certo. Foi assim que meus pais viam, e alguns amigos também, porque se seu filho está num caminho bom, está num espaço legal onde ele possa fazer tudo isso e estar aprendendo e demonstrando que está aprendendo, tem outro valor. Tem uma coisa mais fina aí que é pessoal, de conquistas de pai pra filho.

P/1 – E dessa época lá, o que você se lembra das principais atividades da Gol de Letra?

R – Do Virando o Jogo ou dos outros projetos que eu fiquei?

P/1 – Aliás, de quais projetos você se lembra?

R – Nossa! Eu participei de quase todos.

P/1 – Você lembra o nome, assim, pra gente se situar?

R – Lembro. Primeiro foi o Virando o Jogo, que foi na época que eu era aluno. Depois eu fui monitor da Fundação na parte de artes plásticas. Logo em seguida já teve o outro projeto, que foi a Cara da Vila, a Turma da Vila, que aí teve teatro e tudo que começou a abrigar os jovens também na comunidade, não somente as crianças, mas os jovens acima de 14 anos. Depois essa Turma da Vila virou a Cara da Vila, onde teve essa oficina de hip hop, de grafite e logo em seguida ao Cara da Vila. O FAC, que é Formação de Agentes Comunitários, e aí começou a ter muito mais oficinas, que foi dança, teatro, grafite, música, audiovisual, artes visuais. Então foi um momento top assim da Fundação, a gente conseguiu tanto para as crianças de sete a 14 anos, quanto para jovens de 14 a 21, 22, 25 anos. Então a comunidade foi agarrada pela Fundação nessa época, e aí (foi?) onde cada um seguiu o seu caminho. Alguns foram pra dança, outros foram pro grafite, outros foram pra música, e cada um teve essa oportunidade de achar um caminho; teve várias opções e encaminhou pra isso.

P/1 – Então Wanderley, você estava falando dessas atividades que cada um acabou seguindo um caminho e você foi monitor nessas atividades, né? Como é que funcionavam essas atividades?

R – Eu fui monitor nas artes plásticas para as crianças, mas as atividades aconteciam no período da tarde pra noite, sempre das cinco, depois que acabava o horário das crianças do Virando o Jogo, que era em dois horários: das sete às onze e da uma às cinco, e logo em seguida aconteciam os projetos diversos, que eram do FAC e Cara da Vila.

P/1 – Então eram à noite, essas atividades?

R – Era da uma da tarde pra noite ou final de semana que... Por exemplo, o grafite, audiovisual era no período de final de semana.

P/1 - Ah é por isso que incluía outra faixa etária também, né?

R – Isso, e também já era focada pra eles. Pra eles não, pra gente, eu estou me excluindo.

P/1 – E você se lembra dos seus aprendizados? O que foi novo pra você quando você começou a fazer as oficinas?

R – O grafite... Tinha essa linguagem de arte, mas não tinha ainda essa coisa do grafite, que estava tão próximo de mim por ser periferia. Ali e ao mesmo tempo desconhecida. Então foi o primeiro trabalho que eu me identifiquei, nossa! Era muito louco os caras pintando. Eu falava: “nossa!” o pincel era pra pintar bicicleta só, e os caras conseguindo fazer traços super fantásticos assim, sabe?

P/1 – Ah, então vinham pessoas experientes pra ensinar?

R – Vinham, começou com a Cara da Vila, esse primeiro grafite que vieram uns franceses, foi um intercâmbio dos franceses com os brasileiros. E quando foi o FAC, os franceses saíram e continuaram os brasileiros, que foram o Marcão e o Felipe. Aí eles ficaram dois anos, e até hoje tem grafite, mas passaram por diversos professores. Foi o Celso, depois que foi em grafite estêncil, e a cada um ano ou dois anos trocava de professor, que culminava com as experiências, sempre vai aprimorando.

P/1 – Ah, você pegou essa vinda dos franceses?

R – Peguei.

P/1 – Como é que foi isso, o pessoal não estranhava? Porque o pessoal veio da França pra Vila, né? Como é que era isso?

R – Primeiro eu achei engraçado, o corte de cabelo dos caras tinha um rabo de cavalo, e eles ficavam vermelhos fácil, fácil, por qualquer coisinha, a gente jogava assim bola em baixo da quadra, davam rolinhos neles, o pessoal rachava o bico. Então tinha aquela coisa meio descontraída, mas na hora de aprender com eles a gente tinha esse vínculo com os professores aqui do Brasil, que eram o Marcão e o Felipe, então eles acabavam fazendo essa ligação com os franceses. A gente não entendia merda nenhuma, mas o que não aprendia na fala, aprendia na parede. Eles ensinavam os traços e tudo como que tinha que fazer no degradê e tudo mais, então era aquela coisa “aprende no muro agora, senão já era”, o aprendizado passa, né?

P/1 – Aí foi do grafite. E o que mais você foi aprendendo?

R – Os cursos que eu fiz lá depois do grafite... Eu fiz o grafite e a oficina de hip hop, que antecedeu o grafite.

P/1 – Eram os quatro elementos?

R – Eram.

P/1 – E como foi?

R – Só não tinha o break, tiveram umas duas aulas de break só, mas parou.

P/1 – Já era pertinho da dança, né?

R – Já era, nossa! Mas antes eu nem pensava em dançar ainda, eu pensava só em pintar e aprontar um pouquinho. E mulher, nessa época era mulher, era o top.

P/1 – Mas você também compunha Rap?

R – Compunha, eu fiz um rap pra Fundação, que teve na...

P/1 – E você lembra, mais ou menos, de algum trechinho?

R – Lembro, quer que eu cante? Meu Deus do céu!

P/1 – Se você lembrar, né?

R – Era da comunidade, da Vila Albertina com a Fundação, era mais ou menos assim: “Vila Albertina, cenário de bamba, comunidade da rima, o hip hop comanda. Ainda bem que é ele, o hip hop é voz, Vila Albertina, a cara da Vila somos nós. São Paulo zona norte, Triuei e Tremembé aqui chegava de trem, aqui chegava de pé, pode botar fé, atitude e consciência, aqui a chapa é escrita, é o Gol de Letra, sabe o que é, irmão? Não conhece a história? Atitude se demora, vamos cantar agora. Maria Maia Lopes de Azevedo, a senhora rua vai estar...”. Não lembro tudo, faz muito tempo.

P/1 – Legal, é MC Diley. Está certo. E aí como que pintou a dança?

R – A dança veio por causa desse FAC, que tinha diversas atividades, foi quando a professora Luciana de Carvalho, a primeira professora de dança lá na Fundação pegou e me chamou pra fazer. Aí eu ficava meio assim pra fazer dança. Só os moleques, só tinham homens no grafite, eram aquelas cuecas, e faltava uma mulherzinha assim, né? Ao contrário da dança, na dança só tinha mulher, e a professora pegou e me chamou pra fazer aula lá, só que passou o primeiro ano e eu ainda fiquei meio que restrito com esse convite dela. Depois eu peguei e fiz dança com ela, fiz cinco meses de dança. Primeiro a intenção eram as meninas, pra ficar pertinho delas, e depois fui gostando, o porquê da dança e tudo. Tinha um trabalho bem forte, bem coerente que ela dava. Então eu fui gostando dos dois, eu era meio indeciso sobre o que queria: é um maloqueiro, é pichador, um dançarino, é um grafiteiro é o cantor ou o bailarino? Eu falei: “eu quero ser tudo, fazer um pouquinho de cada coisa”. Não mata ninguém, né?

P/1 – E você se lembra dos seus primeiros passos? A dificuldade? Porque seu corpo estava no...

R – Não, eu era duro, nossa! Você pensa numa rocha, petrificada ainda, quando estava naquela posição de borboleta de lótus, nossa! Eu queria sair tocando em tudo, meu Deus do céu! E abrir as pernas, eu parecia uma rã, mas foi sofrimento, eu não aguentava ficar naquelas posições não, doía demais, e com o tempo foi passando, foi um tempinho curto, mas a elasticidade foi com o tempo. Como tudo vai aprimorando, vai indo com o tempo, mas o corpo é pior do que as outras coisas, se você não alonga num dia, no outro dia está quebrado, você está dolorido, é complicado. Mas as meninas me motivavam. É bom mulher, engraçado, faz a gente passar por tanta coisa, né? Meu Deus, eu não sei como vocês conseguem.

P/1 – E da dança, então, você começou a treinar e tal. Agora, como que foi esse processo? Porque você seguiu depois esse caminho da dança, né?

R – Eu segui o caminho da dança porque foi o meu primeiro emprego registrado, foi com o Ivaldo Bertazzo.

P/1 – Não, espera aí. Antes disso, deixa eu aproveitar. Você falou “o primeiro emprego registrado”, a gente já volta nisso, só pra gente não perder. Você tinha falado que tinha trabalhado com seu pai. Depois você fez mais algum outro trabalho?

R – Fora do meu pai, não, eu sempre ajudei ele.

P/1 – Você tinha salário?

R – Não, eu tinha mesada na cabeça.

P/1 – Mesada na cabeça?

R – Não, (risos) eu ganhava um pouquinho, eu não sabia administrar dinheiro, eu comprava doce.

P/1 – Aí foi o seu primeiro emprego registrado? Então conta pra gente como foi isso?

R – Logo em seguida que eu entrei na dança passou uns cinco ou seis meses lá na Fundação Gol de Letra e o Ivaldo Bertazzo, que já trabalhava com dança há muito tempo, eu não o conhecia, mas já ouvia falar o nome, ele pegou e abriu inscrições pra fazer audição, porque ele queria montar um projeto social que ele tinha feito lá no Rio de Janeiro, numa comunidade lá também. Ele tinha terminado o processo lá com eles e veio aqui pra São Paulo pra fazer outro projeto, com as mesmas características, de jovens da periferia trabalhando em coesão pra fazer o espetáculo como produto final. Aí teve essa audição e a professora Luciana me chamou pra fazer. Eu falei assim: “não, eu não vou não”, tremendo, e ela falou: “vai, você consegue” e a gente foi junto, foi todo mundo da dança. Ela pegou e veio me dar... Ela que me deu a notícia de que eu tinha passado na audição, nossa! É super complicado, dança indiana, coisas geométricas assim, sabe, de raciocínio muito lento ainda, bater pé e mão ao mesmo tempo, falar e cantar tudo ao mesmo tempo. Então era muita informação. E foi legal no dia da audição, porque o Ivaldo estava sentado assim do meu lado e...

P/1 – Você sabia que era ele?

R – Eu não sabia, eu só conhecia o nome, mas não sabia que era ele. Ele estava sentado assim, mas ele não estava tão extravagante quanto uma mulher que estava lá em baixo, que era uma pessoa que cuidava da coordenação; ela estava de cachecol assim, parecia aquelas francesas, aquelas gringas que usam cachecol com as pernas cruzadas assim, só olhando, sem expressão, sem nada assim. Eu falava: “ela que é a dona do pedaço.” Aí eu zoei com o Ivaldo “e aí...” Nossa! No dia da audição “e aí, colega”, eu comecei a zoar com ele, ele começou a dar risada. Eu pensando que a mulher lá que era dona do pedaço, e de repente eu fui saber que era ele que era o coreógrafo, ele que era o dono do projeto e tudo mais. Meu Deus do céu, eu gelei no outro dia, quando a professora veio me falar que era ele eu falei: “nossa! eu zoei com ele, brinquei com ele e tudo mais”. Pensando que era a outra mulher, chamei ele até de careca. Barrigudinho, careca, ele parecia um Buda. Aí nesse dia eu fiquei com medo de poder ter acontecido alguma coisa, mas já estava dentro mesmo. Desde então... Como era projeto social, eu estreei o espetáculo...

P/1 – Então quer dizer que essa audição que você fez foi essa dança indiana?

R – Foi essa dança indiana com outros passos lá da escola dele, da academia e método dele. Eram umas coisas meio complicadas já, porque ele já tinha um método formado e tudo mais, e eu não conhecia nada, eu dançava contemporânea na Fundação. E logo em seguida teve um espetáculo, Samwaad, que foi essa ligação entre a Índia e o Brasil, esse intercâmbio. Logo em seguida vieram outros espetáculos, e a gente trabalhava também com a rede Sesc, então a gente sempre ia daqui de casa, tinha uma van que buscava da Vila Albertina até o Sesc Belém, no Belenzinho fazia esse trânsito direto. Foi assim que eu comecei a aprender o caminho desse trânsito social, do centro pra periferia e da periferia pro centro.

P/1 – Por quê? Antes já ficava ali no canto?

R – Ficava ali, sempre meio que de lado.

P/1 – Foi sua primeira saída pro centro?

R – Não pro centro, tinham as atividades na Fundação, de sair, mas de trabalhar pelo centro foi a minha primeira.

P/1 – E a resposta da audição, no caso? Porque você foi testado, né? E a resposta disso, você sabia? Como é que foi?

R – Que eu iria ficar na companhia? No projeto? Eu não sabia, fiquei até assim meio com medo. Errei muita coisa, eu errei quase tudo. E a Luciana queria me dar a notícia que eu tinha passado e tudo mais, e mesmo depois dessa audição tiveram outras dentro, né? Então quando eu conheci... A gente entrou depois de dois meses, o pessoal da Fundação que passou no teste entrou depois de dois meses que o pessoal já estava aprendendo com o Ivaldo. Então tinha o pessoal da zona sul, o pessoal da zona leste, era um grupo grande, era um grupo de 60 e poucas pessoas, e da gente passou só nove. Então você via um monte de gente dançando, batendo o pé, aquela coisa. Eu disse: “nossa, meu Deus do céu!” E eles pensavam o contrário da gente, depois eu vim perguntar pra eles, eles pensavam que a gente é que era os bambambãs, e eu que pensava que os caras eram... “Já estão há dois meses, já são feras”, e aí sim que teve essa ligação com a periferia e o centro.

P/1 – E você lembra quando você recebeu essa resposta?

R – Eu não acreditei, primeiro eu não acreditei, depois que ela falou: “você passou mesmo”, mas eu fiquei surpreso pelo pouco tempo de dança, cinco, seis meses já entrar numa audição e conseguir passar.

P/1 - Você tinha ideia do que significava ser selecionado pra essa companhia?

R – Não sabia o projeto final que iria acontecer. Eu pensava que iria resultar num espetáculo, mas não de grande porte, como foi. Porque todo dia era visitado por 400 pessoas, tanto que minha mãe foi no primeiro dia e ela chorou, ficou emocionada por ter me visto dançando pela primeira vez.

P/1 – Quando foi?

R – 2003, o primeiro espetáculo. E foi gratificante, mas nossa! Foi nervosismo total.

P/1 – E onde que foi?

R – Sesc Belenzinho, antes dessa construção, porque agora teve uma... Era um galpãozão assim, era tudo teatro, e atendia bastante gente, umas 400 pessoas por dia, e lotado todo dia.

P/1 – Uma coisa assim, eu imagino que pra dançar você não pode ser tímido, né? Porque você se apresentar... Você sempre teve essa coisa de não ter problema nenhuma de se apresentar publicamente, de falar? Sempre foi tranquilo isso, pra você?

R – Não, tímido eu sou com algumas coisas, mas com essa questão de se mostrar não, eu nunca tive preocupação não.

P/1 – Será que essas atividades todas, elas também te ajudaram, de alguma forma, a você se colocar mais? Essa passagem sua pela Gol de Letra com essas atividades?

R – Eu acho que aprimorou. A Fundação Gol de Letra me deu um aprimoramento mais consistente de poder se expor, poder encarar as coisas de frente, que era complicado. No primeiro dia da dança lá fiquei meio assim, fiquei meio restrito na Fundação Gol de Letra. Quando comecei a dançar, por ser o único homem lá ainda na Fundação... Depois entraram outros, entraram mais dois meninos pra dançar com a gente também, mas eu era meio restrito, e depois é que eu fui me soltando um pouco mais nessa questão corporal. Mas de achar o que eu penso assim, não, eu nunca fui bloqueado, ainda bem. As pessoas sempre me deixaram falar o que quer e o que não quer, tanto que eu mostrei a bunda lá.

P/1 – Dessas apresentações que você teve, teve alguma marcante, assim, que você se recorda?

R – Dos espetáculos? Eu acho que toda estreia de todos os espetáculos assim, depois desse Samwaad teve Milagrimas e Mar de Gente, cada um com uma intenção pro público. Samwaad foi da dança indiana pra dança brasileira, Milagrimas foi da dança africana com a dança brasileira, e Mar de Gente foi quando começou essa parte teatral, que foi a Fernanda Montenegro que fez com a gente, e a Denise Del Vechio, então foram pessoas de grande porte, de nome, e de pessoas... Porque são pessoas super formidáveis, mas toda estreia pra mim foi emocionante, de poder cada dia mais estar alcançando um espaço e de estar somando cada dia mais e cada vez mais isso pra minha vida. Porque daqui a um tempo isso está tudo registrado, tanto corporalmente como na memória, e as pessoas estão vendo.

P/1 – Então a partir daí a sua atividade profissional foi registrada... A partir daí e desde então tem sido essa, né? Então foi a primeira mesmo, né?

R – Profissionalmente? Foi, a primeira foi dança. Sempre tiveram trabalhos paralelos à dança, de grafite... Eu fazia trabalhos comerciais de dar aula aqui ou ali, eu dei aula também no Ivaldo, de reeducação do movimento, que é um trabalho que ele mexe. E na Fundação também, eu continuava dando aula, também focada para as artes plásticas. Então cada lugar tinha... Eu fazia tudo que eu gostava. Na Fundação era Artes Plásticas, no Ivaldo eu dava aula de reeducação do movimento e ainda dançava, e ainda fazia meus grafites por fora, então eu estava completo, na época.

P/1 – Então você conviveu com a Fundação mais diretamente de que período a que período, mais ou menos?

R – Diretamente? De 99 a 2007.

P/1 – E desse período todo, o que você lembra, assim, que se você fosse dizer: “ah, as principais mudanças que eu vi nesse período, que eu convivi com a Gol de Letra, foram essas”, o que você diria?

R – As principais mudanças? Tem o lado da coordenação, que mudou radicalmente de 2002 pra 2003.

P/1 – Ah é? Teve uma mudança?

R – Teve.

P/1 – Como é que foi isso?

R – A Sônia estava, na época, e teve um pessoal que saiu e entraram outras pessoas com os mesmos propósitos, porque a instituição sempre teve os mesmos valores, as mesmas ideologias, mas eram coisas novas que estavam acontecendo também o Giba, o Nelson, quando entrou, teve outras propostas também, porque aí entrou o FAC, aí entraram oficinas pros jovens. Então foi um momento que o adolescente de sete a 14 anos foram para 14 a 20 e tantos também. E a Fundação começou a abrir espaço pra comunidade também, com atividades que tiveram eventos, aniversários da Fundação. Isso, de certa forma, era compartilhado para a comunidade. Teve uma época que tinha Cine, o Cine Gol de Letra, que tinha todo final de semana, todo sábado acontecia um filme lá pro pessoal assistir.

P/1 – O pessoal da comunidade?

R – O pessoal da comunidade. Entrava, assistia... Teve a biblioteca que virou comunitária desde então, que era só para os jovens lá de dentro da Fundação.

P/1 – Ah, então ela era interna e depois abriu?

R – Depois ela abriu pra comunidade.

P/1 – Você lembra quando foi isso, mais ou menos?

R – Não lembro.

P/1 – Mas você se lembra da inauguração, da abertura? Ou quando você entrou já estava...

R - Não, quando eu entrei a Fundação era somente para os jovens, para os alunos, depois que ela abriu, mas eu não lembro como foi. Foi importante pra comunidade e pra pesquisas e tudo mais, e acesso a internet também teve, na própria biblioteca tinham computadores que eram liberados pra comunidade acessar. Tinha um período igual uma lan house.

P/1 – Então tinha cinema, tinha biblioteca...

R – E fora o espaço físico mesmo, né? A comunidade não tem como crescer mais pros lados, ali tem a Serra da Cantareira, que é uma área que já não pode ser... Que já é uma reserva, e pra baixo está tudo cheio. Então ou cresce pra cima... E como é periferia e as casas não são bem estruturadas pra crescer mais pra cima, a Fundação foi o único espaço grande pra acontecer todas essas atividades, porque ali mesmo não tem outro espaço onde possa acontecer tudo isso. Tem praças e tudo mais, mas é tudo da prefeitura, tudo do Estado, e ninguém quer mexer nisso, ninguém quer pôr a mão no bolo pra fazer, todo mundo quer a coisa feita. Então é o único espaço ali que eu conheço de todo esse tempo. E tinha o lixão, na época, onde a gente brincava, mas desde então acabou.

P/1 – Ah, não tem mais o lixão não?

R – Não, virou o mercado do gordo. Então tudo cresce, cada dia que passa está tudo crescendo, e só ficou a Fundação mesmo, que tem espaço pra poder fazer todas essas atividades.

P/1 – Então esse foi um marco que você localiza, né? Teria mais alguns outros momentos que você conviveu?

R – Na Fundação? Teve uma ida... Eu não fui, mas teve uma ida do pessoal da fundação, alunos, que eles foram pra França e outros foram pra Suíça, isso foi legal também, o pessoal contando foi muito legal.

P/1 – Você lembra?

R – Dos comentários? Primeiro que eles não entendiam nada, mas por estar viajando de avião... Porque são poucos da comunidade que têm o privilégio de poder ir pra outro país, conhecer outra cultura, e tudo. Mesmo que não saiba falar ou entender o que está acontecendo, mas de ver, pelo menos, o que acontece pra fora. Eles ficaram muito contentes, o pessoal que foi.

P/1 – E foi tranquilo pro pessoal da comunidade, só um grupo participar? Por que você não foi?

R – Teve uma seleção na época, e nessa época eu não era mais aluno, eu já trabalhava na Fundação, e era somente pros alunos, então era com os alunos... Se fosse uns dois anos antes eu poderia até ser selecionado pra ir, mas tinha uma cota de pessoas que poderiam ir.

P/1 – E teve uma seleção entre os alunos?

R – Teve uma seleção.

P/1 – E foi tranquilo entre os alunos?

R – Porque o que ia num ano pra França, no outro, se fosse pra Suíça, já iam outros, nunca foram repetidos, então sempre teve esse controle de revezamento.

P/2 – E como era feita essa seleção?

R – Não lembro.

P/1 – Bom, dessa época Gol de Letra, é claro que você contou o lance da sua exibição exótica, mas que fatos curiosos que você lembra que aconteceram na Fundação?

R – Que aconteceu na Fundação?

P/1 – Isso, histórias.

R – Tinha uma história que o senhor Gerson que era um cara que trabalhava na limpeza, ele era antigo na Fundação, ele contava que ali era um cemitério, não enterraram um pessoal no Gol de Letra. O pessoal que fazia curso até a noite ficava assim: “está perto do cemitério e ainda tem gente enterrada na Fundação” aí o pessoal tinha um pouco de medo, e tinha um pessoal que sacaneava, a parte de trás ali é escura, porque ali tem umas casas pra trás, e o pessoal aprontava, fazia barulho pra assustar, então era pra sacanear. Eu nunca tive medo dessas coisas, mas tinham umas meninas lá que não iam pro outro prédio... Porque são dois prédios separados da Fundação, elas não entravam naquele prédio, mas nem se pagasse. O senhor Gerson aprontava de contar essas coisas, não sei se é verdade, mas ele contava umas histórias assim, por ser mais experiente ele contava muitas histórias de vida dele, do Rio de Janeiro, porque ele veio do Rio. Ele pegou e ficou com uma menina lá, conheceu ela num barzinho e começou a beber com a menina, e a menina chamou ele pra ir pra casa dela. Nessa casa dela, ele falou: “tá bom, eu vou ficar na cama aqui enquanto você vai lá tomando banho e tudo mais” ela falou: “tá bom.” Quando ele foi abraçar a menina, assim, ele foi apalpar a menina, era um travecão. Nossa Senhora! Eu falo pro seu Gerson: “dormiu com um travecão” “não, eu só peguei” “olha!” Ele aprontava, eram as histórias do povo.

P/1 – Wanderley, eu sei que vai ser repetitivo, mas o que você diria que aprendeu com a Gol de Letra?

R – O que eu aprendi com a Fundação Gol de Letra? Fora todas essas atividades, né? Eu aprendi a concretizar o sonho, porque era um sonho do Raí construir tudo aquilo, todo esse projeto, e do Leonardo, de estar fazendo tudo isso. Eu vi que estava dando certo pra comunidade, estava atingindo a comunidade de alguma maneira ou outra, e por não ter aquelas atividades quando era mais novo, percebi que era possível de alcançar todos os meus objetivos, porque hoje eu tenho quase todos assim, que era construir uma casa... E tem coisas que é a partir de agora, sozinho, que eu vou conseguir. Mas a base eles que me deram, de poder sonhar com o que você pode fazer e concretizar isso. Acreditar que pode... Ter esperança, eu acho que foi um top assim de ensinamento que eles me deram assim, ocultamente, mas foi isso.

P/1 – Isso pra você, né? Você acha que o geral, pra comunidade, isso também é possível de visualizar, essa ideia? Também existe essa ideia?

R – Eu acho que é visível. Em qualquer lugar, mas uns pegam isso pra você e seguram com as duas mãos, guardam e vão em frente, têm outras que não, deixam escapar as oportunidades. O espaço está lá, o espaço Gol de Letra está lá, mas não queira que a Fundação te dê... É igual aquela coisa “vou rezar que vai acontecer”. Não vai acontecer se você ficar rezando. Pode dar um clima legal pra você conseguir as suas coisas, mas assim, ficar só rezando, ficar só no espiritual, só no mental da coisa não vai, se não colocar a mão na massa ali, se não fizer por onde. Eu acho que a Fundação é um espaço físico onde você tem o começo, mas dali você tem que partir pra fora, pro mundão, se jogar e meter a cara. Eu acho que a Fundação... Alguns da comunidade acham que a Fundação é obrigada a fazer tudo, e não é, nada é, nada tem a obrigação de fazer tudo, nenhuma instituição, nenhuma pessoa da instituição tem essa obrigação. Acho que é isso alguém que quer, realmente, pega ali com suas mãos e corre atrás dos seus objetivos, e quem não quer...

P/1 – Mas essa ideia você acaba tendo só quando entra mesmo lá, pra perceber isso, né?

R – Na comunidade?

P/1 – Assim, uma pessoa da comunidade que tem essa ideia, ela vai entrar e começar a participar, aí ela percebe isso, né? Que você está falando que não basta esperar que as coisas venham na mão, não é isso?

R – Também, mas é igual eu falei, tem coisas que você... Não sei, pelo menos eu aprendi, não precisa fazer pra saber o que é errado e o que é certo. Observando você já está ciente do que pode acontecer. Uma pessoa que entra na Fundação e se dá bem, não com a Fundação, mas pela Fundação, algo tem ali, né? Alguma coisa tem ali. Quer dizer, se uma pessoa entra ali triste e sai sorrindo, por quê? Então alguma coisa tem que faz com que ali tenha alguma coisa que funcione, ali dentro daquele espaço. Então muitas coisas são... Você não precisa morrer pra saber que a morte é boa ou ruim.

P/1 – É interessante que você falou uma coisa que faz parte do que é colocado como missão do Gol de Letra, os valores da Gol de Letra, que é possibilitar que as pessoas transformem a sua realidade, que é um dos valores, e isso é colocado para as pessoas que entram lá ou isso você vai sentindo na prática?

R – Os valores são colocados sim, mas o significado desses valores são na prática. Você vai perceber que existe isso e que você está iniciando isso a cada dia. De comportamento ou de planejamento futuristas assim, isso vai vindo na prática, mas os valores são falados, são ditos, com palavras que aos poucos vão sendo demonstrados.

P/1 – Se você pudesse traduzir a Gol de Letra em algumas palavras, como você traduziria?

R – A instituição, ou como um todo? Acho que pra mim a Fundação foi base, ela foi base pra mim, tudo que eu consegui em termos profissionais e como pessoa hoje em dia, sim, ela teve um... Como eu poderia falar? Uma coisa especial, tanto na... Pela época de tudo, daquilo tudo que eu já falei estar acontecendo, como deu um suporte... Ela me deu muito suporte, foi muito importante pra mim, como pessoa e para eu ingressar na carreira profissional. Eu agradeço muito as pessoas que trabalharam lá dentro, que a cada um que passou por lá, eu tive um ensinamento diferente ,e foi isso que foi somando. Aquela questão de: “não aprenda só com o mestre, aprenda com vários pra que você possa ver realmente um mestre.” Então esse foi um presente que eles me deram que eu vou levar para o resto da vida, porque é importante.

P/1 – Bom, a gente está fazendo esse trabalho, esses depoimentos, porque a gente está resgatando esses dez anos da Gol de Letra, registrando a história. O que você acha da ideia de fazer esse trabalho de memória da Gol de Letra?

R – Acho que precisava. Muitas coisas foram se perdendo com o tempo, e você só relembra quando tem alguém para dar essa chacoalhadinha na poeira, porque muitas coisas eu não lembro assim, porque se tivesse isso desde o começo, registrando desde o começo, muitas coisas ficariam mais nítidas, mais claras assim. Mas é superimportante, a Fundação foi base pra muita gente, foi espelho pra muitas coisas, e você estar trabalhando com essa lembrança das pessoas é muito importante, porque ali, de um jeito ou de outro, daqui a outros dez anos são outras pessoas que vão estar contando esses primeiros dez. É como se fosse uma Copa do Mundo, você relembra quem jogou na década de 70, como foi emocionante, pra mim não foi tão emocionante como foi a de 94. Então são coisas que daqui a um tempo a gente vai parar, vai pensar se vai se lembrar de como atingiu essas pessoas. Eu acho que se tivesse mais isso, mais essas coisas de você estar trabalhando assim, se tivesse acontecido antes, isso poderia ter dado uma base maior para a fundação, mas em dez anos já construiu uma história grande, e como virão outras pessoas aqui ainda, vai dar uma base bem forte até pra comunidade, pra relembrar o que aconteceu, e os que virão daqui a dez anos, vai estar registrado.

P/1 – Uma coisa que você falou, que serviu de espelho para muitas pessoas como serviu pra você. Você se lembra de outros casos como o seu, que conseguiu dar certo?

R – Que se deu bem? Lembro. Tem um pessoal que teve um intercâmbio da Ashoka, o pessoal da Ashoka que trabalha também junto com a Fundação. E era um projeto onde tinha ligação com a Aliança Francesa. Eu não participei não, as meninas que participaram... O pessoal fez curso de francês pela Aliança Francesa, de graça. Passou um tempo, eles se formaram, eles ficaram uns três, quatro anos fazendo curso, e aí eles foram pra França trabalhar na França. Trabalharam um ano lá na França, depois voltaram e já sabiam francês, enriquecido de sabedoria, de conhecimento. Hoje em dia eles têm uma língua nova, tiveram oportunidade de conhecer outro lugar e estão empregados com carteira registrada e tudo, e recebem super bem. Então hoje em dia é gratificante você trabalhar no que você gosta, ser registrado e ganhar bem. Hoje em dia está difícil ganhar bem, eu acho que é o que todo mundo quer, ser valorizado pelo que você faz, e eles conseguiram, eu consegui, eles conseguiram, então a porta está aí.

P/1 – Wanderley, tem alguma coisa que você gostaria de falar que a gente não tenha abordado? Uma pergunta que a gente não tenha feito?

R – Que eu me lembre agora, não.

P/1 – Sobre a sua carreira? Sua família?

R – Eu já falei, eu acho que eu sou um cara realizado nessas questões profissionais até hoje. Daqui pra frente são outras coisas, como eu falei, mas as pessoas que fizeram até aqui, que me ajudaram até aqui, que são importantes pra mim, não pode esquecer se somente eu que consegui, sem essas pessoas eu não teria conseguido.  A Fundação, o Raí, o Leonardo, o pessoal que trabalhou. Porque às vezes falam só do Raí e Leonardo, mas esquecem um pouco das pessoas que trabalharam por trás, os educadores que deram experiência de vida, até.

P/1 – Você se lembra de algum?

R – Lembro. O professor Henrique, em Educação Física, o professor Márcio, Vera, a Sônia, o Marcos Vinícius... Tem bastante gente. Assim, todos os professores da Fundação deram uma contribuição de aprendizado, de experiência de vida, porque é importante não ficar somente no teórico, ficar também na prática da vida da pessoa, e você conviver com a pessoa quatro horas, oito horas por dia, acaba que não é mais um professor, é um amigo, uma família. Virou família já, porque você passa oito horas com a pessoa... Mas tudo isso foi por causa dos meus pais, que foram formidáveis assim de dar... Em ter as condições necessárias, porque na época eles conseguiram suprir as necessidades de educação e de respeito como ser humano. Então eu agradeço muito a eles dois e à Fundação. À comunidade eu agradeço, mas... Ela tem um papel forte na vida, a comunidade, mas não tanto quanto a Fundação. São amigos que fizeram parte da comunidade e tudo o mais, mas lá dentro foi mais forte, a adolescência ficou mais presa e mais presente com a fundação, porque o resto era um pouco banal. Coisas que aconteciam, mas é melhor esquecer um pouquinho ou não... Deixar de lembrar.

P/1 – O que você achou de estar participando, dando seu depoimento?

R – Legal. Eu pensava que era só sobre a fundação, no começo, eu pensei... A gente estava conversando ali e perguntei: “ela vai perguntar umas coisas e tudo mais?” Ele falou: “vai perguntar umas coisas sobre a sua vida também, ela vai perguntando, mas é um bate papo, assim, super legal.” É legal, eu gostei muito, é supernatural, muito bom.

P/1 – Então está bom, a gente agradece o depoimento.

R – Que é isso, estamos junto e misturado, feito paçoca no mel.

P/2 – Bom Wanderley, só pra retomar: como é o seu cotidiano agora, dançando? Porque você deve viajar bastante, né? Como é que é isso?

R – Bom, hoje em dia o que era projeto social do Ivaldo Bertazzo virou companhia profissional no mercado de trabalho, e a gente já viajou pra vários lugares, em São Paulo, assim, quase todos os lugares na rede SESC, no Brasil inteiro também, mas as duas viagens mais importantes pra mim foi pra França e pra Holanda, primeiro França, em 2004, e em 2006 pra Holanda. E você ser aplaudido de pé por pessoas que estão envolvidas com a arte e até mesmo as que não estão, mas que acabam tirando um pouco aquela inhaca do seu cotidiano pra ir para um teatro e acabam enfrentando um puta trânsito... De briga com namorado ou com patrão, acaba levando aquele tédio inteiro, e senta num teatro, senta pra assistir um espetáculo e acabam por uma hora e meia se esquecendo de tudo aquilo. Você ser aplaudido por isso, pelo seu trabalho, é muito bom. Mas as duas viagens mais importantes pra mim foram a da França e Holanda, em Amsterdam.

P/1 – Você lembra a sua sensação de estar saindo do país? Porque da Vila Albertina, pra sair do país, o que significou isso pra você?

R – A primeira foi de avião. Nossa! Eu nunca tinha ido de avião pra nenhum lugar, e eu falei assim: “nossa, vai ser emocionante!” A primeira foi pra França, 18 horas, eu pensava que ia ser mais louco, igual ao Playcenter, mas não, era suave, mas teve... Esse é bom de falar, teve uma turbulência quando a gente passou no mar, não foi o 447, não foi da Air France, não. A gente estava no mar já, e eu fui ao banheiro soltar um barrão, porque aguentar 18 horas no avião não dá né? Comendo aqueles lanchinhos, você vai comendo lanche e tem uma hora que tem que ir. Aí bem na hora que eu entrei no banheiro e estava bem bom assim, fui apertando um monte de botão inglês, e eu não sabia falar inglês e outra língua, e eu “meus Deus!” Apertei os botões sem saber o que era, fui fuçando. Um era pra água, outro era pro papel higiênico sair de um compartimento, eu fui apertando. E de repente o avião começou a tremer na turbulência, mas eu não sabia, eu estava no banheiro, e o bicho pegando lá, a bostona saindo (risos) e eu mexendo nos botões todos lá. De repente o avião começou a entrar numa turbulência muito forte, e eu falei assim: “nossa! Eu estou fazendo merda aqui, literalmente”, e eu pensando: “meu Deus do céu, o avião vai cair por minha culpa, tanta coisa pra apertar”, e tinha um botão vermelho, e nessa hora que eu apertei um botão vermelho, um botão grande assim que eu não sei pra que era, eu apertei o botão assim e o avião... Eu falei: “nossa! Vai quebrar, não é possível” aí era o botão da descarga. Eu apertei o botão da descarga e falei: “já era, morri”, aí eu abri a porta e todo mundo calmo assim, e falaram: “e aí mano, você viu a turbulência? É muito louco” e eu falei: “o quê?” Eu nem sabia o que era turbulência, falei: “o que, do avião?” “é mano, agora, você foi ao banheiro” Eu falei: “meu Deus do céu, eu apertei uns botões lá e eu pensei que ia morrer ali dentro”, nossa senhora! Esse foi um pagar mico legal. Não, pagar mico foi do meu colega, essa eu tenho que contar também. O meu colega, na França, os seguranças lá do aeroporto pediram, quando já estava desembarcando, os seguranças pegaram e falaram assim... Estava saindo todo mundo com aquelas malonas enorme, porque a gente ia ficar lá um tempo grande, e na França é um baita frio, e todo mundo de japa que parecia o Bope, aí o segurança lá também não falava português, e ele: “Brasil, Brasil?” E a gente : “yes, yes", e a gente passando. Aí chegou num camarada meu lá que estava de touca, cachecol e tudo e ele: “Brasil, Brasil?” Aí segurança falou pra ele fazer assim e ele pegou, abraçou o cara e falou: “é, Brasil, tudo bom...” Nossa senhora! Era pra revistar e o cara pagou mico, a gente zoou com esse maluco, nossa! foi o Zé Mário. Essa viagem foi gostosa, e cada coisa, né? Turbulência, pagar mico pro segurança, e fora de ter apresentado, foi muito bom.

P/1 – Faz parte do aprendizado então?

R – Faz parte, é só comédia no grupo, meu Deus do céu!

P/1 – Então está bom. Agora eu acho que a gente pode fechar. Mais uma vez, agora, obrigada.

R – De nada.                                                  

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