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A infância

História de: Gideon Marinho Gonçalves
Autor: Gideon Marinho Gonçalves
Publicado em: 31/10/2009

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História completa

A minha infância foi marcante. Sempre fui meio solitário e sem criatividade. Lembro que sempre os outros criavam as brincadeiras que brincávamos. Eu era um observador. Sempre observando tudo e calado. Não era tão calado. Tinha a fama de ser conversador e, de fato, gostava muito de conversar. Entrava noite adentro de papo com o papai, que era ótimo em conversar. Mamãe reclamava que, quando saía comigo, eu não a deixava sossegada, sempre perguntando sobre tudo. Mamãe me chamava de “metido”, dizia que eu era “metido” a tudo. Era a forma carinhosa de me elogiar.

É impossível falar de minha infância sem mencionar o tempo todo meu irmão, o Abraão, que eu chamava de "Braão". Ele sempre me impressionou. É um ano mais velho do que eu e, desde pequenino, tinha fama de ser forte, inteligente e com jeito para fazer as coisas. Era sempre ele quem fazia as brincadeiras como carrinhos, cabanas, burrinhas etc.. Era de fato inteligente (e ainda é, claro). Eu sempre apanhava dele. Não que ele fosse mal e vivesse me batendo, mas nas brigas ele sempre me vencia. Era parrudo e tinha um muque bem feito, o que nós chamávamos de músculos.

O Abraão não gostava muito de estudar, apesar de inteligente. Acho que isso se dava porque ele se impressionava bastante com as coisas físicas e dedicava todo o seu esforço em construir coisas. Ele gostava de movimentos, não de uma sala de aula. Lembro-me bem de como o Paulão, o Edison e ele subiam em uma árvore, pé de vagem, que ficava em frente à escola, bem de frente da janela da secretaria. Eles subiam lá e ficavam jogando as vagens nas professoras. A escola vivia reclamando dele para a mamãe. As notas em seu boletim eram sempre baixas, mas ele, conversando, sempre demostrava interesses em algumas matérias específicas, como História, Geografia etc. A letra do Abraão era de forma e muito feia. Claro que isso era o seu comportamento de menino. Abraão cresceu. Quando ainda adolescente, papai o matriculou no SENAI para aprender uma profissão relacionada à mecânica. Ele simplesmente se apaixonou pelo estudo e trazia as apostilas do SENAI para casa. Passava horas conversando com papai sobre mecânica geral, ferramentaria etc. Eu ficava prestando atenção na conversa deles e me impressionava como ele conseguia entender todos aqueles conceitos que, para mim, eram dificílimos e complicados.

Bem, mais tarde, Abraão começou a trabalhar em uma empresa localizada em frente de casa, era uma oficina de peças sei lá de quê. Mais tarde, trabalhou em uma empresa de construção de óculos. Parece que foi lá que ele se consolidou como ferramenteiro. Depois prestou concurso público para o cais do porto. Foi aprovado e trabalhou um tempo lá. Pois é, de tapado ele não tinha nada, muito pelo contrário. Era, e continua sendo, muito inteligente. Mais tarde ainda, Abraão parece que prestou outro concurso público e foi aprovado para o arsenal de Marinha. Trabalhou lá até se envolver em greves e ter que sair. Abraão sempre foi assim. Tinha ideias bem elaboradas sobre a realidade e era participativo. Mais tarde ele abriu o seu negócio próprio além de participar de atividades relacionadas a marketing de rede. Depois foi morar nos EUA, onde conquistou a dupla cidadania. Casou-se com Nilda, uma mulher muito inteligente e participativa. Conheceram-se quando adolescentes e membros da igreja da Obra da Restauração, em Magalhães Bastos.

Abraão, quando criança, tinha um problema de nervos que o fazia assombrado. Tinha medo do escuro e, à noite, sempre tinha pesadelos. Eu morria de medo, pois dormíamos juntos. Ele sempre acordava falando. Papai orava por ele e fazia com que recitasse o salmo 91. Só depois disso ele conseguia dormir. Quando éramos pequenos sempre dividíamos as brincadeiras. Eu sempre fui meio silencioso. Era instrospectivo, mas adorava conversar com papai e mamãe. Na verdade, eu entrava noite adentro conversando sobre tudo com papai. Desde cedo demonstrei aptidão para música. Aos 7 anos de idade, logo que aprendi a ler e escrever, quase que imediatamente aprendi música. Papai passava lições na “Artinha” para decorarmos, eu e Abraão.

Por alguma razão que até hoje eu não entendo, eu conseguia decorar tudo. Papai marcava, então, as aulas para “tomar a lição”, como ele dizia. Isso consistia em sentarmos à sua frente e recitarmos de cor todo o trecho assinalado anteriormente por ele para estudarmos. Confesso que era um terror. Lembro de como eu ficava tentando decorar aquilo tudo. Depois da "Artinha", nunca mais consegui decorar nada. Ainda hoje tenho dificuldades em memorizar. Tenho que me valer de treinamentos de memorização para conseguir o mínimo necessário. Enfim, aprendi tocar clarinete. Era um instrumento enorme para mim. Papai recuperou um instrumento velho e todo acabado para eu começar por ele. Lembro muito bem as noites inteiras em que papai ficava soldando as peças. O cheiro forte de breu que ele usava para colar as sapatilhas e os eixos brilhosos presos na moça que ele mantinha fixada na bancada. Papai recuperou o clarinete de 13 chaves e comecei a estudar nesse instrumento que, aliás, tenho guardado até hoje.

A minha primeira apresentação pública deu-se no culto que havia lá em casa todas as quintas-feiras. Nesse dia, papai preparou a estante com cuidado. Colocou uma cadeira preta ao lado da dele, para eu me sentar. Os hinos mais conhecidos, papai e eu já havíamos transportado para o tom adequado ao meu instrumento transpositor em si bemol. Aliás, por transportar os hinos do tom original para uma segunda maior acima, tornei-me craque em escrever partituras, mais precisamente, em copiar partituras. Também transportei diversos hinos do original para instrumentos em dó para o saxofone alto mi bemol que mamãe tocava. Eu tinha 7 ou 8 anos de idade. Ainda hoje tenho algumas partituras copiadas por mim que têm a data em que isso foi feito. Pois bem, voltando para o culto de quinta feira e minha estreia. Papai sentou-se a esquerda da porta de entrada, sentei-me ao seu lado e mamãe, que também tocava saxofone, sentou-se do outro lado do papai. Ficamos os três enfileirados para tocarmos no culto lá de casa. O primeiro hino foi o de número 1, “Chuvas de Graça”.

O clarinete era muito pesado para mim, pois eu era um pirralhinho franzino, tal como hoje é o Jean, meu filhinho. Eu não aguentava sustentar o instrumento com o dedão da mão direita. Por isso, apoiava o instrumento na minha perna direita. Papai não gostava disso e ralhava comigo, dizendo que o músico tinha que aprender a sustentar o seu instrumento adequadamente. Aliás, papai tinha uma postura muito interessante e destacada ao empunhar o seu saxofone tenor em dó. Ele ficava ereto com o queixo ligeiramente projetado para frente e o instrumento sustentando à sua frente com elegância. Os irmãos achavam interessante um menino tão pequenino tocar um instrumento que, segundo papai, e mais tarde eu constatei, era um dos mais difíceis de aprender. Mais tarde, fui aceito no grupo musical da igreja, onde o irmão Eliseu Rosa, que na época ainda não era pastor, regia.

O hino “Grande é Jeová” tinha um solo que eu fazia. Era muito interessante e gostoso tocar aquele hino. Viajamos para alguns lugares com o grupo musical para fazermos apresentação. Um dos lugares de que lembro bem é Petrópolis. Quando eu comecei a solar a minha parte, os irmãos corriam pelo corredor da igreja para me ver tocar, pois eu era muito pequenino. Papai ficava muito orgulhoso e eu, confuso. Os irmãos falavam o tempo todo, se referindo a mim: “Filho de peixe, peixinho é”. Mamãe também não escapou aos caprichos do papai quanto à música. Aprendeu a tocar saxofone alto. O interessante era que ela não sabia ler direito, mas conseguia ler a partitura dos hinos.

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