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História

A liberdade está na rua

História de: Fabio Calixto Pandolfo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Fábio nasceu em São Paulo. A morte de seu pai, quando tinha nove anos, desencadeou nele um alcoolismo, que o acompanhou para o resto da vida. Além disso, como filho mais velho viu-se obrigado a trabalhar para ajudar a manter a casa, já que o pai era o provedor. Com doze anos sente-se um fardo para sua mãe, e sai de casa. A partir daí, torna-se um nômade da cidade e passa por diversas moradias:mora na rua, em casas alugadas, pensões, albergues, volta por um período para a casa da mãe e chega até mesmo a morar no seu carro quando era taxista. As fases de sua vida são marcadas também pelos diferentes empregos e pelos três casamentos que teve. Agora, após o terceiro divórcio, está morando na rua e fala dos perigos dessa vida, que para ele significa, apesar de tudo, uma vida de liberdade. 

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História completa

P/1 – Fabio, você pode falar seu nome completo?


R – Meu nome é Fabio Calixto Pandolfo.


P/1 – Local e data de nascimento?


R – São Paulo, SP. 19 de agosto de 1958.


P/1 – Seus pais são de São Paulo?


R – É, meu pai era mineiro e, minha mãe paulistana.


P/1 – E seus avós maternos e paternos?


R – O meu avô paterno eu não conheci. O materno era da Bahia.


P/1 – E sua mãe é de São Paulo e seu pai é mineiro?


R – Era.


P/1 – Seu pai veio para São Paulo para que? Por quê?


R – Não, ele e minha mãe trabalhavam na tecelagem. Então eles se conheceram lá, meu pai já estava aqui em Minas, agora por que é que ele veio, eu já não sei.


P/1 – Aí eles casaram. Que tecelagem que eles trabalhavam?


R – Ah, não sei. Eu sei que é no Campo Belo.


P/1 – E aí eles se conheceram nessa tecelagem, eles eram tecelões? Operários?


R – Os dois.


P/1 – E aí eles se casaram? E foram morar aonde?


R – No primeiro lugar que eles moraram foi Parelheiros.


P/1 – Foi a casa onde você nasceu?


R – Não. Eu nasci na Vila das Belezas.


P/1 – Que é Zona Sul?


R – É. E fui criado na Praça Floriano Peixoto.


P/1 – Em quantos irmãos vocês eram? São?


R – Na época eram onze. Agora são três, quatro, cinco comigo.


P/1 – Morreram seis? E vocês moravam todos na mesma casa?


R – Todos.


P/1 – No Parque das Belezas? Jardim das Belezas?


R – Não, é Vila das Belezas.


P/1 – Moravam os onze nessa casa?


R – É.


P/1 – Como é que era essa casa?


R – Era um quintal grande, a casa nos fundos e, ela era comprida. Tinha um quarto, sala, cozinha e banheiro.


P/1 – Vocês dormiam todos no mesmo quarto?


R – Todos.


P/1 – Eram vários colchões? Como é que era?


R – Não, era beliche. Cada um dormia em dois, até ele comprar cama. Aí deu uma cama para cada um, parecia tipo gado. Não, Exército, vamos colocar assim. Uma do ladinho da outra, para morar todos.


P/1 – Como é que era a vida na sua casa? Quem é que exercia a autoridade? Seu pai ou sua mãe?


R – Eu acho que era os dois. Ali eu nunca vi discussão entre os dois. E agora a gente que cortava um doze na mão deles.


P/1 – Seu pai fazia o que?


R – Meu pai era prensista.


P/1 – Depois que eles casaram?


R – Prensista.


P/1 – E sua mãe?


R – Minha mãe era dona de casa, ele não deixou ela trabalhar.


P/1 – Depois ela parou de trabalhar?


R – Parou.


P/1 – E ele que levava dinheiro para alimentar os onze?


R – Era, sozinho.


P/1 – E quais eram as brincadeiras da sua infância?


R – Bolinha de gude e rodar pião.


P/1 – Você brincava com seus irmãos? Com o pessoal da rua? Como é que era? Quem eram os amigos?


R – Bom, eu era o responsável por eles todos, porque eu era o mais velho. Era não, sou o mais velho. Então meu pai saía para trabalhar, já falava para mim: “Cuida direitinho deles”, “Está bom”. Se fizesse alguma coisa errada, quem apanhava era eu.


P/1 – E você foi para a escola?


R – Estudei só até o terceiro ano do primário, depois que ele faleceu.


P/1 – Você ia para a escola como? A pé?


R – A pé.


P/1 – Era perto?


R – Não, era mais ou menos um cinco, seis quilômetros.


P/1 – E você gostava de ir para a escola?


R – Gostava, mas depois que ele morreu eu saí.


P/1 – Mas o que é que você mais gostava na escola?


R – Matemática.


P/1 – É?


R – Eu sempre adorei Matemática.


P/1 – Aí seu pai faleceu, você estava no terceiro ano?


R – É. Eu peguei e saí da escola.


P/1 – Do que é que ele morreu?


R – Ele foi atropelado.


P/1 – Ah, foi de repente?


R – Foi. Ele estava ajudando o meu avô em um bar que o meu avô tinha.


P/1 – Um bar?


R – É. Aí ele estava com uma caixa de fogo paulista nas costas, estava indo, um Sargento do Exército estava bêbado com duas crianças, com os dois filhos dele, que estudavam comigo e meu irmão e, bateu nele, jogou ele para cima, ele cortou o pescoço no fio. Aí eu falei: “Eu não quero mais saber de escola” e, batia no filho do Sargento de raiva.


P/1 – Você batia?


R – Eu e meu irmão. Só de raiva, mas todo dia dávamos um cascudo no moleque. E o moleque não tinha nada a ver com isso. Aí minha mãe recorreu e o Tribunal, sei lá, o Juiz, falou que ele pelo resto da vida da minha mãe ele tinha que pagar lá um dinheiro para ela. Mas ele pegou e fugiu.


P/1 – Nunca pagou?


R – Não, pagou durante uns dois, três meses. Depois pegou e desapareceu.


P/1 – E vocês passaram a viver do que?


R – Aí eu comecei a ser aprendiz de mecânico.


P/1 – Com nove anos?


R – Nove anos de idade. Aí aprendiz, levava “croque” do patrão na cabeça, mas aprendi. Aí ele falou: “Agora você vai ter um salário”, aí eu comecei a ajudar em casa.


P/1 – E seus outros irmãos também?


R – Não, eles não.


P/1 – E sua mãe foi trabalhar?


R – A minha mãe foi obrigada, trabalhou não sei quantos anos na Caterpillar. Aí depois eu...


P/1 – Você teve educação religiosa?


R – Não, eu sou católico.


P/1 – Mas fez primeira comunhão?


R – Não, eu nem sei disso não. (risos). Eu não sei se eu fiz primeira comunhão ou não. Eu sei que quando deu doze anos eu falei: “Vou embora”.


P/1 – Saiu de casa?


R – Sai.


P/1 – Por que é que você quis sair?


R – Hã?


P/1 – Por que é que você quis sair?


R – Ah, eu queria cuidar da minha vida um pouco. Já estavam grande já, cada um já podia ajudar a minha mãe. Aí saí, fui para o bairro Capão Redondo.


P/1 – Mas você saiu, você queria fazer o que?


R – Ser músico.


P/1 – Você tocava já?


R – Já. Não, não tocava, mas aí eu comecei a frequentar barzinho.


P/1 – Com doze anos?


R – Doze anos. Aí aprendi a tocar instrumento.


P/1 – O que é que você aprendeu a tocar?


R – Surdo, tamborim, reco-reco, agogô, todo instrumento de percussão. Aí começou a aparecer grupo de samba para mim.


P/1 – Com doze anos?


R – É.


P/1 – E você foi morar aonde? Com doze anos?


R – Nós, os irmãos todinhos, minha mãe não ia poder cuidar de nós todos, então nós fomos distribuídos pela família, pelas irmãs dela, meus tios. Eu morei mais em casa de meus tios do que com a minha mãe.


P/1 – Mas com doze anos você saiu da sua casa e foi morar aonde?


R – Aí eu fiquei na rua. Aí uma tia minha, a tia Conceição.


P/1 – Na rua como? Dormindo na rua?


R – É.


P/1 – Com doze anos? Mas você preferia morar na rua do que com a sua mãe?


R – Não, eu achava que já era peso demais ela ficar com meus irmãos, então eu já comecei a pensar que nem gente grande, entendeu? Eu falei: “Então eu vou embora, você fica com um a menos”. Chorou até umas horas. Aí que nem eu estava falando, aí entrei para uma serralheria, como aprendiz de serralheiro. Aí virei meio oficial serralheiro e, depois serralheiro. Aí aprendi a soldar, comecei a trabalhar como soldador, fiquei trinta e cinco anos trabalhando como soldador.


P/1 – Mas vamos voltar. Aí com doze anos você foi morar na rua, que lugar da rua? Que bairro?


R – Bairro Capão Redondo mesmo.


P/1 – Morando na rua?


R – É.


P/1 – E quando é que você arrumou uma casa?


R – Isso aí foi com a minha primeira mulher, porque eu casei três vezes.


P/1 – Você ficou na rua todo esse tempo?


R – Fiquei.


P/1 – Morando na rua?


R – É. E depois eu voltei para a casa da minha mãe, depois saí de novo. Aí essa terceira minha mulher, ex-mulher, teve uma desavença lá que...


P/1 – Não, espera aí, vamos voltar. Aí com doze anos você saiu, foi para o Capão Redondo e você começou a trabalhar do que?


R – Serralheiro.


P/1 – Serralheiro? Mas você morava na serralheria? Você morava aonde?


R – Não, na rua. Eu saía do serviço, ia para a calçada.


P/1 – E seu patrão, tudo bem?


R – Eu não falava isso para ele, eu escondia.


P/1 – E quanto tempo você ficou nessa situação?


R – Ah, foi pouco tempo, uns dois anos.


P/1 – Aí você ficou dois anos na rua?


R – É.


P/1 – E o que é que você fazia com o dinheiro que você ganhava?


R – Hum, bebia. Bebia, nunca fumei droga, só cachaça e cigarro. Aí depois eu resolvi mudar de profissão, aprendi a ser escapamenteiro, trocar escapamento de carro. Aí fui, arrumei um serviço na DPaschoal e trabalhei lá quase três anos, aí aluguei a primeira casa, no Jardim Ângela. Aí eu já estava com essa terceira mulher, fiquei dez anos.


P/1 – Quantos anos você tinha?


R – Ah, a primeira mulher eu estava com dezessete para dezoito anos. Eu estava com vinte e três, vinte e quatro anos.


P/1 – Aí com a primeira mulher você foi morar aonde?


R – Capão Redondo.


P/1 – Vocês tinham uma casa?


R – Não, a casa era da minha mãe. Ela foi morar na casa da minha mãe junto comigo.


P/1 – E mais os irmãos?


R – É, e mais dois filhos.


P/1 – Aí você teve dois filhos com ela?


R – Dois, Ricardo e Hélio.


P/1 – Mas aí você trabalhava?


R – Aí eu já trabalhava. Aí eu já era profissional na minha arte de trabalhar.


P/1 – Vamos voltar, na sua adolescência você ficou no Capão Redondo como aprendiz de serralheiro?


R – Isso.


P/1 – Aí depois disso você fez o que?


R – Depois de serralheiro? Então, virei escapamenteiro.


P/1 – Aí escapamenteiro. E o que é que você fazia para se divertir? Você ia em bailes? Você saía?


R – Só samba. Eu rezava para chegar quarta-feira, porque aí eu fazia quarta, quinta, sexta, sábado e domingo o samba. E ganhava uns trocadinhos.


P/1 – Onde você fazia samba?


R – Guaraci.


P/1 – Você tocava?


R – Tocava.


P/1 – Cantava também?


R – Também.


P/1 – Você lembra uma música que você cantava?


R – “Eu nunca vi fazer tanta exigência”, naquele tempo ainda. Agora não, agora eu já estou há dezessete anos na rua, depois de velho. Fiquei dez anos com a terceira mulher, aí não deu certo, coisas e tal e, aí eu peguei e saí para a rua.


P/1 – Mas porque para rua e não para a casa de alguém?


R – Não, nunca. Aí eu já estava mais velho, eu não ia procurar a família mais. Tanto é que já faz não sei quantos anos que eu não vou ver minha mãe, vou hoje.


P/1 – E seus filhos? 


R – Também faz tempo.


P/1 – Então vamos voltar que a gente está pulando tudo.


R – (Risos). Mas dá para...


P/1 – Aí nessa época que você era do Capão Redondo, que você morava na rua, você morava do outro lado da calçada, você falou.


R – É.


P/1 – E comer, ir ao banheiro? Você fazia o que a noite?


R – Ah, pedia em padaria, lanchonete. Banheiro era mato.


P/1 – Mas você ficou dois anos assim?


R – Aí depois que eu arrumei...


P/1 – Porque você já bebia com doze anos?


R – Não, com nove.


P/1 – Com nove? Com quem é que você começou a beber?


R – Eu vou contar essa história. Meu pai tomava tatuzinho naquela época, então só tomava caipirinha. Então ele tinha um copo duplo, ela fazia a caipirinha e deixava  em cima da mesa, aí eu bebia o copo inteiro. E uma vez ele teve que me levar para o hospital, porque eu passei mal. Aí depois daquilo ali, aí eu comecei beber, beber. Ele fumava, o cigarro era quente, eu pegava, antigamente usava criado-mudo do lado da cama, ele deixava o cigarro em cima, eu ia lá e pegava. Ele morreu sem saber que eu fumava.


P/1 – Com quantos anos você começou a fumar?


R – Nove anos. Primeiro maço que eu comprei, que a minha mãe deu o dinheiro, dizendo que era só aquele maço, eu falei: “Está bom, é só esse”, era Beverly. Aí eu comecei a fumar, fumar, não sabia nem tragar o cigarro. Aí uma tia minha, que é a tia Sônia, me ensinou como é que se tragava, você puxa a fumaça do cigarro e faz assim: (sopro). A primeira vez que eu fiz isso aí só faltou eu voltar para o hospital. Mas aí eu fui acostumando, acostumando, estou até hoje fumando. Fumando e bebendo.


P/1 – E sua mãe o que é que falou quando você tomou o primeiro copo de caipirinha que você foi para o hospital?


R – Ela não viu.


P/1 – E seu pai, falou o que? Eles não te levaram para o hospital?


R – Meu pai que levou.


P/1 – E ele falou o que depois?


R – Não falou nada, eu era muito criança. Só levou para o hospital, o médico ficou com, acho que é sonda que fala, uma mangueira assim e, eu joguei a cachaça fora. E eu joguei a cachaça fora e ele levou eu de volta para casa. Também ele não tocou mais no assunto, só que ele não deixava mais a caipirinha dele em cima da mesa. Ele ia, ele gostava muito de música sertaneja, ele fazia a caipirinha dele, levava para o quarto, deitava na cama, punha em cima do criado-mudo e ficava bebendo ele sozinho. Eu desandei mesmo na pinga depois que ele morreu, aí.


P/1 – Ele bebia muito?


R – Não, só bebia fim de semana. Só quando ele não ia trabalhar, que ele trabalhou também na Gazeta de Santo Amaro. Então quando chegava o fim de semana, ele fazia a caipirinha dele. E só, dia de semana ele não bebia. Eu não, pelo contrário, ele saía, se ele deixasse a garrafa de cachaça lá, eu ia lá, me colocava um golinho no bico. Só que ele não ficava sabendo e, eu não deixava minha mãe ver, senão ela contava para ele. Aí continuei, continuei, estou até hoje.


P/1 – Aí seu pai morreu, você saiu de casa?


R – É, saí da escola primeiro, depois eu saí de casa.


P/1 – Aí depois disso você tinha, assim, algum desejo, “Quando eu crescer, eu quero ser tal coisa? Quero seguir tal carreira?”, você pensava, “Quando eu crescer eu vou ser”?


R – É, de músico. Eu queria ser músico, de qualquer jeito. Peguei aquilo e queria ser músico.


P/1 – Alguém na sua casa já tocava? Era músico?


R – Meu tio. Era pistonista, mas já faleceu também.


P/1 – Você via ele tocar sempre?


R – Ele me levava. Paulinho Astronauta.


P/1 – Ele tocava em algum grupo? Algum conjunto?


R – Não, ele sozinho. Tocou em Nova Iorque, esses lugares aí.


P/1 – Paulinho Astronauta?


R – É.


P/1 – Que ano que é isso mais ou menos?


R – Hum, aí você me pegou. Mais ou menos, na década de 1980, 1980 e pouco.


P/1 – Aí você quando foi trabalhar no Capão Redondo, que você morava na rua, você tocava em bar de fim de semana?


R – Tocava sábado e domingo.


P/1 – Que bares você tocou?


R – É, Bierhalle.


P/1 – Você tocou no Bierhalle?


R – É, em Moema. Catedral do Samba na Bela Vista. como é que é aquela casa lá?


P/1 – No Bierhalle você tocou com quem?


R – O grupo não era conhecido, era o Nata do Samba, Grupo Nata do Samba. Capão Redondo eu toquei com Manhosos do Samba. Depois foi o, esqueci o nome do grupo, ah, vários os grupos que toquei.


P/1 – Mas você tinha doze anos?


R – Não, aí eu já tinha passado de maior, quando eu comecei a tocar em grupo.


P/1 – Mas com doze anos?


R – Com doze anos era só...


P/1 – Boteco?


R – Boteco.


P/1 – E mesmo quando você tocava em boteco, você morava na rua? Acabava o show do boteco?


R – Aí eu comprava a garrafa, sentava e bebia. Depois apagava, dormia. Acordava no outro dia, aí ia na padaria, o dono da padaria pegava, me dava café, me dava pão com manteiga, ou dava um sanduíche, ou um salgado. Pronto, eu ia continuando.


P/1 – Você não sentia falta de ter uma casa?


R – Eu pensava nisso na época. A única coisa que eu queria é que chegasse o fim de semana. Eu pegava, ganhava um dinheirinho e já comprava minha cachaça. Eu só pensava nisso e, continuei assim.


P/1 – Aí depois que você foi ser aprendiz de serralheiro, você foi ser escapamentista. Onde é que foi isso?


R – Escapamenteiro.


P/1 – Escapamenteiro.


R – Eu aprendi na DPaschoal a ser escapamenteiro.


P/1 – Você foi trabalhar lá?


R – Escapamenteiro-soldador. Aí trabalhei lá quase três anos.


P/1 – Aí nesses três anos, você teve casa?


R – Tive. Talão de cheque e aí fiquei mais importante.


P/1 – Mas você alugou ou foi morar com alguém?


R – Não, aluguei.


P/1 – Aonde você alugou?


R – Jardim Ângela.


P/1 – Como é que era a sua casa lá?


R – Era dois cômodos e banheiro. Aí depois saí, venceu lá, eu saí. Fui morar...


P/1 – Por que é que você saiu?


R – Porque venceu o contrato, eu não quis renovar.


P/1 – Você não quis?


R – Tsk, tsk.


P/1 – Por quê?


R – Ah, não sei, eu era assim. Dava na telha eu saía.


P/1 – Mas você ficou lá três anos?


R – Não.


P/1 – Na DPaschoal?


R – Na DPaschoal.


P/1 – Três anos?


R – É. Nesses três anos, dois anos eu morei na casa alugada.


P/1 – Morou na casa alugada e você bebia nesse período?


R – Ixi. Só que não assim, todo dia que nem eu faço agora. Eu bebia também em fim de semana, porque eu tinha que trabalhar todo dia e, lá não ia poder beber. Mas aí quando saía do serviço já começava a beber. Aí fui para o lado da Treze de Maio.


P/1 – Aí...


P/2 – Posso? Você voltava sempre para casa?


R – Como assim?


P/2 – Quando você teve casa, você sempre voltava para casa? Ou tinha dias que você ficava na rua?


R – Todo dia que eu saía do serviço eu ia para casa. Porque em casa mesmo, eu já passava no mercado e comprava as minhas bebidas e deixava em casa. Eu pegava, eu mesmo bebia em casa, mas o pior da coisa é que em casa a bebida durava, no boteco eu queria acabar com a bebida. Bebia no boteco e quando chegava em casa bebia também.


P/2 – E a tua mulher?


P/1 – Aí ele não tinha casado ainda. Tinha na época da DPaschoal?


R – Não, já estava casado.


P/1 – Onde você conheceu sua mulher?


R – Tocando. Eu tocava no Píer 36, 33, 36.


P/1 – Píer 33.


R – É, lá na Roberto Kennedy. Então conheci ela lá também, ela estava sentada em uma mesa bebendo. Italiana, uma coisa de tal, pensei que tinha dinheiro, senão eu não tinha cantado ela. (risos). Está bom, nasceu espontâneo. Então, aí nós fomos morar lá no Jardim Ângela, essa casa que eu estou te falando.


P/1 – Ela fazia o que? Ela trabalhava?


R – Ela era caixa de banco. Era caixa de banco. Mas aí quando eu vi que ela tinha a cava, falei: “Tem dinheiro, né”. Hum, prejuízo que eu tive, não tinha mais do que eu. Aí fiquei dez anos com ela e, ela teve uma filha.


P/1 – Com você?


R – É.


P/1 – Vocês tiveram um filho?


R – É.


P/1 – Ela bebia também?


R – Bebia só cerveja na época e, Saint Remy.


P/1 – Bebia todo dia?


R – Não, não. Na geladeira de casa sempre teve cerveja. Ela bebia, uma garrafa de cerveja de cerveja dava para dois dias para ela ali. Ela bebia metade, guardava na geladeira de novo. E eu chegava, já abria uma garrafa, não dava cinco minutos.


P/1 – E o que é que ela achava de você beber?


R – Não, nunca reclamou não. Aí depois de um certo tempo começou a sair muita discussão.


P/1 – Por quê?


R – Não sei, é de eu chegar tarde do serviço para casa e, não sei o que, ela começou a pegar no meu pé. Teve um certo dia, depois que nasceu minha filha, eu cheguei do serviço, estava um calor imenso e, a minha filha estava com uma blusa de lã. Aí eu fui tirar a blusa de lã da menina, aí ela disse que eu estava tentando mexer com a menina, eu peguei e dei uma cabeçada no nariz dela, aí acabou o casamento. Aí eu peguei, saí para a rua, eu estou até hoje. Aí depois dessa eu falei assim: “Nada de ficar morando mais com mulher”, casar, casar mesmo...


P/1 – Mas essa é a primeira que durou dez anos?


R – Não, essa é a última.


P/1 – Essa da filha Cristina?


R – Não, é Taís.


P/1 – Mas vem cá, não entendi. Você tocava no barzinho, você trabalhava na DPaschoal e ela era caixa de banco?


R – Isso.


P/1 – Não é essa a última?


R – É a última.


P/1 – E antes dela não teve outras?


R – Teve duas. A primeira foi a Fátima, que tem o Hélio e o Ricardo.


P/1 – A primeira então, quando você estava com a Fátima, você trabalhava aonde?


R – Serralheiro. Morava no Capão Redondo com a minha mãe.


P/1 – Aí você tinha quantos anos?


R – Dezessete para dezoito anos.


P/1 – Como é que você conheceu essa primeira?


R – A primeira não fui eu quem conheci, nem cantei ela, ela que me conheceu. Eu estava jogando sinuca quando ela chegou. Aí a irmã dela, que era, como é que era o nome dela, Marieta, chegou para mim lá no bar, falou assim: “A minha irmã quer conversar com você. Está a fim de você”, falou. E aí eu fui lá e conversei, ela: “Só que ela está namorando”, eu falei: “Então, fala para ela, vai lá, termina o namoro, aí a gente conversa” e, ela foi e fez isso. Aí começamos a namorar, aí veio o Ricardo e depois veio o Hélio. Dois com uma só e...


P/1 – Você estava morando na sua mãe?


R – Estava.


P/1 – Aí ela foi morar lá?


R – Foi morar lá.


P/1 – E era casa ainda de um cômodo, sala?


R – Não, tinha sala, dois quartos e a cozinha. E o banheiro é lógico. Aí minha mãe pegou e me deu uma parte da cozinha, assim, aí eu cerquei e fiz um quartinho que era para a gente ficar. Aí também não deu certo.


P/1 – Quanto tempo você ficou casado?


R – Seis anos com a primeira.


P/1 – E você continuava bebendo? Ela bebia também?


R – Não, a Fátima não. bebia cerveja de vez em quando também, não bebia todo dia. Ela trabalhava na Monark, bicicleta. Aí também não deu certo, eu separei e arrumei uma outra, a segunda. Aí teve um filho...


P/1 – Quando você se separou, seus filhos tinham quantos anos?


R – Agora eu não lembro. Não eram pequenos, mas também não era, agora o mais velho está com trinta e quatro anos, o outro trinta e três. A minha filha está com vinte e quatro, o Jeferson que é o da segunda está com trinta, por aí.


P/1 – Aí você separou dessa primeira, você saiu da casa da sua mãe?


R – É, saí. Saí e fui morar com a minha tia, tia Conceição.


P/1 – E os filhos ficaram com ela?


R – É, ficaram, mas quem criou foi o pai dela, o avô dos moleques.


P/1 – E você não ia ver os meninos? Você parou de ver?


R – Ia e, até depois de grande, que compraram moto, carro e tudo eu ia ver.


P/1 – E você dava dinheiro para eles? Sustentava?


R – Dava, eu trabalhava para isso. Aí eu peguei, você está falando da primeira?


P/1 – É.


R – Não, esses daí eu, aliás eu brigava com ela quando pegava os moleques e levava para a casa do pai dela e deixava lá.


P/1 – Por quê?


R – Nada, ela levava e, se eu não fosse lá buscar, ficava lá. Aí começou também discussão, discussão.


P/1 – Por que é que vocês discutiam?


R – Ih, era cada coisa mais boba que tinha, eu ficava muito em boteco jogando sinuca, tudo e ela não gostava. Aí eu peguei, também falei: “Sabe de uma coisa?”, chegou um dia lá que ela falou para mim, “Ou é eu ou a sinuca”, aí eu preferi a sinuca. Pronto?


P/1 – Aí você saiu? Aí você foi para a casa da sua tia?


R – Não, ela pegou e foi para a casa dos pais dela e, levou os dois moleques. Aí de vez em quando eu ia lá para poder ver os moleques. Aí ela pegava, queria cerveja, aí eu pegava ela e ia tomar cerveja com ela na lanchonete. Depois eu pegava, saía, ia para a casa da minha tia de novo.


P/1 – E depois disso?


R – Depois disso aí eu estava fazendo samba, aí conheci a Silvia. Não deu nem seis meses ela já engravidou.


P/1 – Você foi morar com a Silvia?


R – Morei na casa dela.


P/1 – Onde ela morava?


R – Capão Redondo. Tudo em Capão Redondo.


P/1 – O que é que ela fazia?


R – Quem?


P/1 – A Sonia.


R – Não, a Sonia não, a Silvia.


P/1 – A Silvia?


R – A Silvia, ih, o que é que ela trabalhava? Eu acho que era em casa de família. É casa de família mesmo.


P/1 – Aí ela engravidou? Vocês tiveram o Jeferson?


R – É. Aí eu peguei, quando eu separei dela, mas com ela não foi discussão nem nada, quem nem eu falei para você, me deu na telha, eu falei: “Eu não quero mais. Pronto, acabou”. Aí peguei o Jeferson, levei para minha mãe cuidar. Ele estava novinho ainda.


P/1 – Por que é que você tirou dela?


R – Eu gostava do moleque. Gostava não, gosto. Agora já está tudo, o Jeferson está casado já. Bom, o Hélio está, porque eu já vi o meu neto, o meu bisneto. Então para mim já casaram todos.


P/2 – E ela não foi buscar o filho?


R – Não, mas ela ia lá para ver. Porque ela trabalhava também, foi até bom eu deixar com a minha mãe, porque ela tinha aquilo, levar o moleque e deixar na creche para depois ir trabalhar. Então, levei para minha mãe, a mãe cuidou. Depois aí de um certo tempo, que ele já estava andando, falando, aí ela pegou e levou e, eu falei: “Legal, agora pode”.


P/1 – E nessa época do Jeferson você estava trabalhando com o que?


R –  Táxi. Que eu fui taxista também.


P/1 – É, você decidiu ser taxista? Você tinha seu carro?


R – Não, é frota. Carro de frota.


P/1 – Você era de que região? Taxista do Capão?


R – Não, eu trabalhava em tudo quanto é lugar, Capão, Santana, Pari, eu rodava, eu ficava o dia inteiro rodando.


P/1 – E nessa época que você dirigia, você bebia?


R – Ih, eu nunca parei de beber.


P/1 – Mas você bebia durante o dia, dirigindo?


R – Não tinha essa lei que tem agora.


P/1 – Nossa, ainda bem que eu não te peguei como taxista. (Risos)


R – Não tinha essa lei que tem agora. Agora é que o bicho pegou, eu falei: “Também, depois que venceu a minha carta eu nunca mais fui renovar”, aí eu falei: “Eu não quero mais trabalhar”. Aí agora eu só trabalho pegando latinha.


P/1 – Aí depois você foi ser taxista?


R – É, fui ser taxista, só.


P/1 – Quanto tempo?


R – Ih, devo ter trabalhado uns oito anos de taxista.


P/1 – E nesse período você morava aonde?


R – Dentro do carro. E depois aí...


P/1 – Você morou oito anos dentro do carro?


R – Não, oito não. Morei um certo tempo dentro do carro. Eu trabalhava, estacionava em um posto de gasolina, ia para o banco de trás, deitava e dormia. E de manhã, às quatro da manhã eu levantava e ia trabalhar. Tomava café, que aí eu já tinha um qualquer.


P/1 – Mas aí o que é que você fazia com o dinheiro que você ganhava do táxi?


R – No começo eu comecei a guardar no banco, mas depois eu fui tirando do banco, não guardava mais nada, só gastava.


P/1 – Gastava aonde?


R – Eu fazia muito a estrada do Alvarenga, na Pedreira, Santo Amaro. Então fim de semana, sentava em um barzinho, eu e mais um outro taxista da mesma frota, ficava lá. Enquanto estivesse com pouco de dinheiro, eu tinha que guardar a diária da frota, quando estava com pouco dinheiro, eu ia, trabalhava de novo. Aí resolvi alugar uma vaga em um pensão, aí comecei, fiquei na pensão, comprei TV e não sei o que. Depois sai da pensão, aluguei um quarto e, foi assim. Fui indo, pulando de galho em galho, até chegar onde que estou agora, na rua.


P/1 – Aí você trabalhou como taxista esses oito anos e, você via seus filhos? O que é que você fazia?


R – Ia, porque eu estava de carro, então dava para eu rodar e ver, voltar.


P/1 – Via os três?


R – Os quatro. São quatro.


P/1 – Você já tinha tido o quarto?


R – Já.


P/1 – Com a terceira mulher você já era taxista?


R – Já, com a terceira já.


P/1 – A terceira fazia o que?


R – Era caixa de banco.


P/1 – A terceira que era caixa de banco?


R – A terceira. A primeira trabalhava na Monark e, a outra era doméstica.


P/1 – E a terceira uma caixa de banco?


R – Caixa de banco.


P/1 – Vocês se apaixonaram?


R – É. Na época sim, mas com o tempo foi acabando.


P/1 – E quando você estava com essa, você visitava os outros filhos? Como é que era a convivência?


R – Não, eu levei o Ricardo e o Hélio para morar comigo, eu morava em Interlagos. Aí eu levei os dois para morar comigo, mas um fugiu e voltou para a mãe dele. Aí o outro falou assim: “Eu também vou”, eu falei: “Segurar eu não posso”. aí falei: “Vai então”.


P/1 – Por que é que eles fugiram?


R – Sei lá, acho que não acostumaram com a casa. O jeito de tratar era diferente que eles eram tratados com a mãe deles.


P/1 – Diferente como? Como é que era em uma casa?


R – Porque era muito rígido.


P/1 – Na sua casa?


R – É.


P/1 – Muito rígido como? Sua mulher era?


R – Não, ela não. Tratava excelentemente bem os moleques. Não, eu que colocava as regras, você entendeu? E eles não acostumaram com isso.


P/1 – O que é que você fazia?


R – Não, eu queria as coisas tudo certinha. Eles não queria, então, volta para as mãe. E eles foram.


P/1 – Nesse terceiro casamento, que durou dez anos, foi o que mais durou, né? você tinha umas épocas que você parava de beber? Como é que você ficou?


R – Não, eu nunca parei, tanto é que nesse terceiro casamento eu tinha o barzinho dentro de casa.


P/1 – Como assim?


R – É, um barzinho com as bebidas todinha. Vivia em casa, bebia quando ia para o serviço.


P/1 – Você já levantava de manhã e bebia?


R – Não, de manhã não. Aliás, não era quando eu saía para trabalhar, quando eu saía do serviço para ir para casa. Primeiro passava no bar, tomava uma e, quando chegava em casa tomava mais umas duas ou três. Aí eu pegava, ficava assistindo televisão, depois eu ia dormir.


P/1 – Mas você ficava bêbado de cair? De ser agressivo?


R – Tsk, tsk, isso nunca. Eu nunca cai por causa de bebida.


P/2 – Você batia nos teus filhos?


R – Não, nunca encostei, só em um, não era o meu filho, era filho da Sonia, que é a terceira. Mas eu que criei e paguei os estudos. Eu dei um tapa no bumbum dele uma vez que ficou roxo, foi o único que eu dei um tapa. Nunca encostei a mão nos outros filhos.


P/1 – Mas você se dava bem com a Sonia?


R – Se dava, até ela falar essa coisas.


P/1 – Falar o que? Ah, a sinuca?


R – Não, não. essa aí não é da sinuca, a da sinuca era a Fátima.


P/1 – Qual foi a terceira? O que é que ela falou?


R – Então, como eu falei para você, eu saí do serviço, estava um calor imenso...


P/1 – Ah, da blusa?


R – É. Aí eu peguei e dei uma cabeçada nela, no nariz dela.


P/1 – Mas você estava de fogo quando você fez isso?


R – Não. Não, porque me deu...


P/1 – Por que é que você deu uma cabeçada?


R – Me deu os cinco minutos do que ela falou para mim. Você entendeu?


P/1 – O que é que ela falou exatamente?


R – Que eu estava tentando mexer com a minha filha. Minha filha com três meses de idade. Aí ficou preto meus olhos. Eu peguei, dei uma cabeçada nela e depois levei ela para o hospital. Só que eu estava dormindo, ela saiu, foi na delegacia, deu queixa. Aí quando eu estou, já estava dormindo, a polícia chegou e me levou. E levou ela também, porque era para ver as coisas. Aí o delegado chegou para mim, “Tudo bem que ela não devia ter falado isso, mas você também, olha o nariz dela”, estava com um curativo. Aí ele perguntou para ela, se ela queria dar queixa de agressão física, ela falou: “Não, não”. “Então a senhora está liberada”, eu já ia levando para ir também embora, ele falou: “Não, você aguarda aí”, falei: “Vou ficar preso”. Aí o delegado pegou e me chamou, bateu um papo comigo e, falou assim: “Meu, você não merece sair com essa mulher não. Se eu fosse você...”, eu estava de carro, “Eu ia na sua casa lá, pegava as minha coisas e ó, ia embora”. Foi o que eu fiz. Fui lá, encostei o carro, peguei minhas coisas, coloquei dentro do carro e saí. Nunca mais.


P/1 – Aí você saiu e foi para onde?


R – Era táxi, aí eu dormia no carro. Eu dormia no carro, até eu alugar este quarto que eu fui morar.


P/1 – Onde é que era?


R – No Largo Treze, era na Barão de Duprat.


P/1 – Como é que era o Largo Treze nessa época?


R – É, normal, comum. Não tinha nada de diferente, eu morava atrás da igreja do Largo Treze.


P/1 – É muito diferente de como é hoje o Largo Treze?


R – Ah, é. Ela cresceu demais. Acabou?


P/1 – Não, pausa para refletir. E aí você não teve mais contato com a sua mãe?


R – Não, eu ia direto lá.


P/1 – E ela? Ela sabia que você morava no carro?


R – Sabia.


P/1 – O que é que ela falava?


R – Nada. Era decisão minha, ela não falava nada. Aí eu entreguei o carro da frota e fui para Peruíbe a pé. Estava com uma caixinha de ferramentas que estava dentro do carro, peguei a estrada de trem, fui indo até sair em Peruíbe. E no meio do caminho eu ia consertando carro.


P/1 – Carro?


R – É. Consertando carro para poder ganhar um dinheiro, até chegar lá. Aí chegou lá eu arrumei um serviço de garçom, aí trabalhei como garçom, coisa que eu nunca tinha trabalhado na minha vida. Trabalhei, fiquei lá dois anos trabalhando.


P/1 – E onde você morava nesse período?


R – No próprio restaurante, que eles tinham os quartos para os funcionários que não eram de Peruíbe, que era de São Paulo, Paraná.


P/1 – E como é que foi morar na praia?


R – Hã?


P/1 – Como é que foi morar na praia.


R – Oh, coisa mais delícia que tinha. Eu trabalhava das duas da tarde às duas da manhã, depois eu ia para a praia jogar bola. Depois só voltava para almoçar, deitava um pouco, pegava às duas da tarde de novo. Não fazia mais nada. Servir bebida, aonde é que ele foi me colocar, servir bebida. Servia uma, bebia duas. Isso eu nunca parei, todo serviço meu eu bebi.


P/1 – Você nunca pensou em parar ou se tratar?


R – Não. quando eu comecei a beber foi por causa da morte do meu pai. Ou então eu não tinha viciado na cachaça e nem no cigarro. Se ele estivesse vivo aqui eu não estava bebendo, isso daí não vai parar mais. E eu não penso em querer parar e nem quero.


P/1 – Aí em Peruíbe você trabalhou nesse bar quanto tempo?


R – Dois anos.


P/1 – E as pessoas não percebiam que você bebia?


R – Não, não. Eu nunca bebia na frente deles, eu esperava eles disfarçarem, punha no copo, punha debaixo do balcão, na pia de lavar copo, quando eles davam uma virada, eu bebia. Só que eu bebia só bebida boa, que era vodka, Steinhaeger e, o mais forte que eu bebi era o conhaque.


P/1 – E você saiu por quê? Você ficou dois anos lá?


R – Pedi a conta. É que nem eu falei, dá o estalo e, o dono da lanchonete era um português e, o prefeito de Peruíbe. E eu trabalhava para ele. Eu só vinha uma vez por mês para São Paulo, para ir ver a minha mãe e, trazer algum. Depois voltava no outro dia porque tinha que trabalhar. E fiquei assim.


P/1 – Que ano que foi isso?


R – Ah, agora eu não vou lembrar. Foi coisa dos anos 1990, por aí.


P/1 – Teve algum dia que te marcou nesse trabalho? Que você lembra como se fosse hoje? Alguma coisa que tenha acontecido?


R – Tem, eu peguei piolho até uma horas na cabeça, tive que raspar. Depois disso eu nunca mais deixei o cabelo crescer.


P/1 – Pegou piolho lá? Como é que era o seu cabelo?


R – Era grandão.


P/1 – Enrolado?


R – Não, era penteado com galo. Black Power.


P/1 – Era Black Power?


R – É. Mas aí quem mandou raspar, porque senão eu não ia aguentar. Na época do calor lá você não aguenta ficar com cabelo daquele jeito.


P/1 – Voltando um pouco para trás, e no táxi, teve algum caminho? Alguma história? Algum passageiro que tenha te marcado? Que você lembra?


R – Não, tudo passageiro comum, a gente chamava de bonecos, os bonecos. Não teve nenhum não, ou teve? Não, não teve. A única coisa que marcou um vez foi quando eu peguei um passageiro e, o meu táxi, bom, isso aí a maioria do taxistas faziam, ele tinha um botãozinho que acelerava o tique-taque do carro. Acelerava, corrida que era para dar dez reais, dava trinta, só isso. 


P/1 – Você fazia isso?


R – Fazia. É, todo mundo fazia, aí eu mandei instalar um também.


P/1 – Estou descobrindo cada história de táxi aqui, que não ando mais.


R – E tem outra, antes do passageiro chegar, o tique-taque já estava, tic-tic-tic, aí vou parava o botãozinho, o cara entrava, nem percebia, você apertava de novo, era no pé, ele não ia saber, debaixo do tapete, você apertava, aí ele corria três vezes mais do que o normal e, aí quando chegava. Ah, teve um que me marcou sim. Uma vez eu peguei um passageiro e fiz isso daí, só que o cara pegava táxi todo dia e eu não sabia. E já sabia quanto dava, de onde eu peguei ele, até a firma dele. Queria chamar a polícia, eu falei: “Não senhor, não precisa pagar a corrida não”, peguei o carro e, saí. Se ele anotou a placa, nunca ninguém me parou por causa disso. Só foi esse aí.


P/1 – E depois desse trabalho em Peruíbe, o que é que você foi fazer? Você saiu?


R – Aí fui fazendo bico, fiz bico de pintura.


P/1 – Lá em Peruíbe mesmo ou você voltou?


R – Não, aqui para São Paulo. Voltei para São Paulo.


P/1 – E você veio morar aonde?


R – Aluguei quarto, fiquei dois anos lá, eu peguei um qualquer. Aí aluguei quarto, mas voltar para casa eu nunca quis mais. Desde pequeno, quando eu saí.


P/1 – Aí você alugou o quarto e fazia bico? Bico do que?


R – Pintura. Aí depois saí, bom, já estou avançando mais. Eu saí eu fui morar em albergue.


P/1 – Não, espera aí. Aí você voltou de Peruíbe e foi morar em que quarto, aonde? Que bairro?


R – Largo Treze de Maio.


P/1 – Largo Treze. Você já conhecia o pessoal?


R – Já.


P/1 – Você continuava visitando seus filhos ou não aí?


R – Eu ia, mas não ia todo dia.


P/1 – Mas ficava vendo todos, os quatro.


R – Todos. A Taís quando eu me separei da mãe dela, ela tinha quatro anos, agora está com vinte e quatro anos. Faz vinte anos que eu não vejo ela.


P/1 – E que momento é que você parou de ver os filhos e foi para o albergue?


R – Em 1998.


P/1 – O que é que aconteceu que você?


R – Do quarto?


P/1 – Que é que aconteceu que você decidiu ir para a rua de vez?


R – Então, depois que eu me separei da terceira. Aí eu vim para rua, comecei, aí dobrei a bebida mais ainda. Aí o albergue eu não quis mais, falei: “Vou dormir na rua”.


P/1 – Você lembra a primeira vez que você dormiu na rua?


R – Ih, meu Deus, cada pergunta difícil. O ano assim eu não sei não. Eu sei que faz tempo.


P/2 – E a primeira vez que você dormiu depois que você separou da terceira mulher, você lembra?


R – Eu dormi em uma borracharia, lá em frente ao autódromo de Interlagos. Dormi, depois peguei, saí a pé e vim parar no Parque Dom Pedro. Aí eu fui para o Arsenal, fiquei um ano e pouco lá.


P/1 – O que é que é Arsenal?


R – É albergue. Fiquei um ano e pouco e, lá dentro eu estudei.


P/1 – Como é que é a vida no albergue?


R – Ah não, nem queira saber, aquilo lá não, o que você mais pega ali é muquirana. E na rua você já não pega muquirana, então.


P/1 – Como assim, muquirana?


R – Muquirana, é uns bichinhos que te fica picando. Eu falei: “Eu não quero mais albergue não”.


P/1 – Mas albergue você vai o que? Você come, passa o dia fora? Volta? Como é que é?


R – É, no Arsenal você tem que passar o dia na rua, vai fazer o que quiser, mas na rua. Acorda cinco da manhã, até cinco e meia, seis horas você tem que sair para rua.


P/1 – E você tem um armário, alguma coisa para guardar as coisas?


R – Tem. Tem um maleiro na Alcântara Machado, que onde estão as minhas coisas e, aliás já venceu, eu tenho que ir lá pegar. Tem o Heber, o Heber é o meu carrinho, que eu pus o nome de Heber, “Se o meu fusca falasse”.


P/1 – Aí você foi para, como é que é o nome desse albergue do Parque Dom Pedro?


R – Arsenal.


P/1 – Aí você foi para o Arsenal, como foi a primeira noite?


R – Estranho, porque lá são 1350 e poucas pessoas. É estranho, mas todos os albergues são esquisitos, parece que você está em um presídio, entendeu? Você tem horário para entrar, tem horário para comer e, tudo fila. Tudo é fila, é fila para banho, é fila para jantar, levantar de manhã tem que passar na portaria, mostrar a carteirinha e não sei o que. E, na rua não, você dorme, você acorda a hora que quer e, eu comecei a pegar latinha.


P/2 – Você nunca teve medo, assim, de dormir na rua? Do que pudesse?


R – Já, no começo tinha, agora eu acho que já acostumou.


P/1 – Você tinha medo do que?


R – Eu vi uma cena em um lugar aonde a gente comia, que chama São Martim, um rapaz pegou um dinheiro de um outro rapaz e, foi comprar droga para o outro rapaz. Só que ele pegou e usou a droga e bebeu o resto em cachaça, quando voltou, ele ainda veio discutir com o cara que lhe deu o dinheiro. Aí ele pegou, tinha um sofá na calçada e, deitou e dormiu. Esse outro cara que deu o dinheiro para ele, pegou um paralelepípedo, sei lá, uma pedra. Subiu em cima do viaduto e soltou na cabeça dele, ele desmaiou, mas o cara não ficou feliz, pegou dois litros de Coca-Cola, foi no posto de gasolina, pôs a gasolina, chegou lá jogou tudo em cima do cara e no sofá e, jogou fogo.


P/1 – Você viu acontecer tudo isso?


R – Não, mas no outro dia ainda o cara estava, só aparecia os dentes. Eu falei: “Não, não. eu não quero saber disso não”, e outra, na rua você não dorme direito. Você tem que dormir com um olho aberto, outro fechado.


P/2 – Por quê?


R – Porque para nego matar é dois palitos.


P/1 – Por que é que eles querem matar?


R – Eles não gostam de morador de rua.


P/1 – Quem não gosta?


R – Ah, tem muitos. Tem nego que faz só por diversão, joga fogo, te esfaqueia, dá paulada na cabeça.


P/1 – Mas que tipo de gente é essa que não gosta?


R – Não sei, a gente nunca vê. A gente nunca vê. Então você cochila um pouquinho, já acorda. Vê o passo de alguém perto, você já acorda, fica sentado horas e horas, as vezes nem dorme mais.


P/1 – Você já ficou quantos dias sem dormir.


R – Onze dias.


P/1 – Sem pregar o olho? Como é que o senhor conseguiu?


R – Não sei. Mas eu fiquei onze dias.


P/2 – Por quê?


R – Nada, ficava bebendo, bagunçando. Quando não tinha nada para fazer, jogar baralho, jogar dominó, jogar palitinho. Ficava se divertindo. Acordava, acordava não, levantava às vezes cinco horas, às vezes quatro horas, já bebia de novo.


P/1 – E nenhum filho teu foi te procurar? E as mulheres?


R – É isso que eu fiquei sabendo, foi a semana passada, se eu não me engano. Diz que uma sobrinha minha e o marido dela foram lá na Tenda me procurar. Mas não pegaram o nome de quem era, coisa nada, falou que era para eu ver minha mãe urgente que ela estava doente.


P/1 – E você?


R – Eu vou hoje.


P/1 – Saindo daqui?


R – Quando acabar aqui eu já, aliás já estou ansioso, ouviu?


P/1 – Vamos acabar rápido para você ir. É, você começou a catar lata quando?


R – Isso aí já vai fazer quatro, cinco anos.


P/1 – Você decidiu catar lata, daí, para?


R – Para não trabalhar mais de empregado para ninguém. E dá um dinheirinho, então.


P/1 – E aí que você tem o Hebert?


R – É aí que eu ganhei o Heber. É Heber.


P/1 – Heber?


R – Ele não gosta que chame ele de Herbert.


P/1 – É Heber?


R – É.


P/1 – Aí quando você ganhou o Heber foi aonde? Em alguma entidade de reciclagem?


R – Não, eu acho que vocês conhecem, foi o Vavá que me deu.


P/1 – Tá com o ________


R – Não, o Vavá. O Vavá, ele está aí também nas coisa. Ele que me deu, me deu dois. Aí um quebrou eu vendi no ferro-velho e, o outro está no maleiro na Alcântara Machado.


P/1 – Você não está usando agora?


R – Não, vou pegar agora porque venceu. Agora eu estou carregando as latas nas costas mesmo.


P/1 – Você vai pela rua?


R – Ixi, eu vou andando, até onde eu cansar.


P/1 – Que lugares tem mais lata?


R – É, no Brás, no Largo da Concórdia e Vila Alpina. E Vila Prudente, Vila Alpina, aqueles lados.


P/1 – Você anda pelas ruas?


R – É.


P/1 – Onde tem bar? Essas coisas?


R – Não, vai catando. Lixeira, não tem essas lixeiras verdes que eles colocam nos postes? Então, vai passando, vai pegando, as que estiverem no chão e vai enchendo. Tem vez que eles te dão dez, tem vez que dá quinze reais por dia. E vai indo. Às vezes não dá nada.


P/1 – E onde que você vende essas latas?


R – Ferro-velho. Qualquer um, tem um monte de ferro-velho que eu vou, o que estiver mais perto da onde eu estiver pegando, é aonde que eu vou vender. Isso tudo para beber e comprar cigarro.


P/1 – E você não tem vontade de voltar a ter uma casa?


R – Tenho. Aliás eu estava pensando, com esse dinheiro do PIS aí que eu vou pegar, renovar a minha carta e voltar a táxi. Eu não sei se pode ainda renovar depois de tanto tempo que está lá, está no Poupatempo lá da Sé. Não sei nem se pode renovar ou não. Vou lá, eu vou perguntar, se puder renovar, eu vou tirar o cadastro de novo, que eu perdi, pegar o cadastro de taxista, ir em um frota qualquer aí e, ir para a praça de novo.


P/1 – E seus filhos, você não tem vontade de ver de novo?


R – Tenho. Tenho, mas do jeito que eu estou, na rua, eu não vou. Eu tenho mais vontade mesmo de ver é a Taís, que eu deixei com quatro anos de idade. Ela eu tenho vontade de ver.


P/1 – Olhando a sua história, tudo o que você passou, se você pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o que é que você mudaria?


R – Cada pergunta difícil. Eu não vou saber o que eu mudaria, tem muita coisa que eu mudaria. Mas só quando chegar a hora de eu mudar que eu vou ver, você entendeu? Agora assim, uma coisa que eu queria que acontecesse, era arrumar a minha casa. Arrumei minha casa, pronto, aí eu saio da rua. Aí eu vou pensar em trabalhar, alguma coisa, mas nunca mais de empregado. Pego um caro em uma frota, vou trabalhar para mim. E pronto, acabou?


P/1 – O que é que você achou de contar a sua história aqui para o Museu da Pessoa?


R – Oh, isso daí, que nem eu falei para a Odê, estou me sentindo um artista. A Odê dá risada, falou: “Não, mas você já é um artista por sobreviver”. Falei: “Então está bom”.


P/1 – A Odê você conheceu aonde? Ela trabalha aonde?


R – Na Tenda.


P/1 – Na Tenda?


R – É, ela é Assistente Social.


P/1 – O que é que é a Tenda?


R – A Tenda é um espaço que a gente pode ficar o dia inteiro, depois que sair de lá vai dormir. De manhã...


P/1 – A Tenda é um tipo albergue, mas onde você passa durante o dia?


R – Não, é uma cobertura de lona, entendeu, toda aberta dos lados, tudo, não tem nada preso. Você entra, sai, tem as cadeiras, senta, fica assistindo televisão e pronto. Eles colocam filme...


P/1 – E tem Assistente Social? O que é que tem?


R – É, a Odê é a Assistente Social.


P/1 – É do Governo?


R – Aí eu não, eu acho que é. Ou é da Prefeitura, uma coisa.


P/1 – Queria agradecer a entrevista.


R – O prazer foi todo meu.


P/1 – Obrigada, muito bom.

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