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História

A literatura e a desobediência

História de: Pedro Bandeira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/08/2008

Sinopse

Pedro teve uma infância solitária, ligada aos livros e gibis, proibidos pela avó na casa onde moravam. Sua mãe o ajudava a escondê-los. A leitura de Monteiro Lobato foi sua grande paixão. Antes de se dedicar à literatura, foi ator na companhia de Plínio Marcos e jornalista. Nesta entrevista, ele nos conta sua trajetória.  

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História completa

P/1 - Pedro, eu queria começar a entrevista com o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R - Pedro Bandeira de Luna Filho. Desde jovem parei de usar Luna, porque todo mundo, ao escrever, vira Lima. (risos) Então eu sempre fui Pedro Bandeira porque o Luna é duro. Se você faz o ‘n’ com dois pontinhos vira Lima, como Lula, como Luma de Oliveira e eu sou mais bonito que ela, certamente.

Eu nasci em Santos em nove de março de 1942, na primeira metade do século passado. Sinal que eu sou bem velhinho, mas ainda estou por aqui.    

 

P/1 - Você podia falar o nome dos seus pais e a atividade que eles faziam?

 

R - Meu pai, como eu sou Pedro Bandeira de Luna Filho, ele se chama Pedro Bandeira Luna. Ele faleceu seis meses antes de eu nascer, ainda estava na barriga da minha mãe e ele trabalhava na alfândega de Santos. Era alguma coisa como hoje o guarda da alfândega. Aquele senhor que fica abrindo mala, sabe? Chatos... (risos) Ele trabalhava nisso. Minha mãe, dona de casa, Hilda - com H - Vitor Luna, que me criou com muitos sacrifícios por causa da morte dele e porque ela não voltou a casar-se. É isso.

 

P/1 - Você conheceu os seus avós?

 

R/- Não, eu só conheci o meu avô, conheci duas avós. Uma rapidamente, a mãe do meu pai, mas morava no Rio de Janeiro. Como eu nasci já sem pai, só uma vez ela nos visitou, então eu não tenho memória dela.

Tenho memória da outra, que era mãe de minha mãe. Era terrível. (risos) Quem já leu Garcia Lorca, tem uma grande peça dele chamada "A casa de Bernarda Alba", uma história daquelas coisas da Espanha. Aquelas mulheres de negro e a Bernarda Alba mantendo aquele bando de mulher vestida de preto e aquela moral rígida. Depois que eu fiquei mais velho, [minha avó] era a Bernarda Alba. (risos) Uma mulher terrível, extremamente católica, fanática; ela só sabia me prometer as chamas do inferno por cada coisa que eu fizesse, uma criança. E eu desenvolvi uma coisa, a surdez seletiva - não lembro de uma palavra do que ela me dizia, porque eu estava brincando e ela fazia aquele discurso. Eu não lembro, consegui eclipsá-la. [Foi] a avó que eu conheci.   

 

P/1 - E Pedro, como era Santos na época da sua infância?

 

R - Uma cidade, acho que calma. Eu me lembro o seguinte: sabe que lá não havia carros, havia bondes. A avenida Conselheiro Neves, mesmo na costa, você podia sentar na rua. Não passava um carro… Raramente passava um carro e quem tinha carro...

Era 47, vamos dizer. Eu tinha cinco anos. Quando eu tinha sete anos a gente ia a pé pra escola, a cidade plana - não tinha carro, não tinha nada disso. A gente gostava de colocar tampinha de garrafa de refrigerante no trilho porque aí o bonde passava e ela ficava retinha. A gente punha lá e ficava sentado esperando vir o ônibus, era assim.

Hoje é uma cidade congestionada, carro pra cá e pra lá. Outro dia, faz algum tempo eu fui a Santos e tinha um restaurante na ponta da praia que me indicaram. Não mais o grande Jangadeiro, onde nós comíamos o melhor peixe de Santos, agora lá tem o Docas na rua da construção, excelente. Se você quer comer um peixe, vai lá. Fui e não pude comer um peixe porque não tem onde parar o carro. Não tem estacionamento e nenhuma possibilidade de voltar, tive que desistir do restaurante. Assim está Santos hoje, não a reconheço. Não é mais uma cidade como era no meu tempo. O carro mudou São Paulo, mudou tudo.  

 

P/1 - E como era a sua relação com o mar?

 

R - Não era próxima. Eu tinha asma quando criança e era muito branco, o sol... O sol me fazia muito mal, me queimava.

Eu não era um menino de praia, nunca fui. Eu era um menino de ficar no quintal de casa, embaixo de um grande chapéu de sol, que acho que era maior porque eu era pequeno, se eu for lá talvez não era tão grande. Me deram a maior árvore do mundo, uma sequoia. (risos) Ficava lá embaixo daquela árvore sozinho, porque eu tinha dois irmãos muito mais velhos que eu, então fui moleque sozinho. Me lembro que eu ficava e pegava esse livro aqui, “Reinações de Narizinho”, do Monteiro Lobato. Eu ficava ouvindo o canto das cigarras, sentadinho, magrinho - na época eu era magrinho. Um sol e uma sombra gostosa, só de sunga, de maiô. A gente vivia pelado, descalço, lendo “Reinações de Narizinho”. Eu me lembro de chegar à última página, ler, fazer assim e reabrir na primeira e recomeçar a leitura.

Narizinho, minha primeira namorada. Sabe que Narizinho é a grande personagem de Lobato? Todo mundo diz que é a Emília; talvez, como criatividade, sim, mas quem é o autor de todos os livros é Narizinho. Narizinho que, sozinha como eu era, no sítio, com sua imaginação deitada num regato de águas claras, vê um peixinho saindo de lá, um besouro saindo de lá. Casa com o besouro, faz com que um besouro tutor que havia lá cure a mudez de sua boneca. É a sua imaginação que faz toda a saga de Lobato, tudo é Narizinho.

Pedrinho, por exemplo, vem de São Paulo, vem da cidade e não traz nada pro sítio. Ele vai lá entrar nas aventuras criadas pela grande imaginação de Narizinho. Então Narizinho é Lobato na verdade, não sei se é o Lobato é o criador de tudo o mais. Eu acho que ele se baseia em “Alice” do Lewis Carroll, que também meio [que] adormece ouvindo uma historinha e cria todo aquele sonho, acho que é a mesma coisa. Narizinho é o leitmotiv do melhor livro dele, que ainda é “Reinações de Narizinho”. Se eu fosse ele naquela época eu não teria continuado a saga, eu teria feito como fiz, escrever todos em diferentes livros. Tenho mais de 70 livros e todos diferentes, tenho quase todos diferentes. Fora a saga da “Droga da Obediência” (risos), que me obrigaram a fazer mais livros e continuam mandado e-mail: "Mais isso!"

Eu estou botando carro na frente dos bois. Vamos voltar ao meu quintal.   

 

P/1 - Voltando ao seu quintal, antes das experiências de leitura eu queria que você contasse um pouquinho do que você brincava.

 

R - Bom, como um moleque solitário em casa eu brincava muito sozinho, brincava de caubói sozinho. Ficava na frente do espelho sacando armas com John Wayne,  Roy Rogers e falando com espelho, me lembro disso. (risos)

A grande diversão do meu tempo era o cinema, não havia DVD nem nada. O cinema era matinê de domingo. Havia no Cine Atlântico, que era o cinema que ficava na Praça da Independência em Santos - claro que não existe mais - , havia matinê baby [às] dez horas da manhã. Então ia àquele cinema e vi curtas do Chaplin, Carlitos ou então do Gordo e Magro, Três Patetas. Desenhos curtos do Disney, Pica-Pau já tinha, Tom e Jerry eu não sei se tinha, acho que não tinha ainda. Vi o Gato Félix, eu vi ainda vivo - aliás tinha no tempo de Lobato, ele cita o Gato Félix em “Reinações”.

O cinema era mágico pra nós e era uma coisa interessante: na época não havia dublagem então os desenhos, todos os filmes passavam com legenda, o que ajudava muito a molecada treinar leitura rápida, porque se você não lesse depressa você perdia a legenda. Era a única diversão que nós tínhamos. Hoje todos os filmes são dublados, você pega o DVD, qualquer filme tem a opção do filme dublado. As crianças não tem mais essa oportunidade de treinar a leitura e isso fez muito bem pra nós.

Todos liam bem porque a escola era boa? Não, era um lixo, era um horror. Tão ruim como hoje. A história da educação brasileira é uma história de vergonha, né? Nós somos um dos últimos países do mundo em alfabetização, em conhecimento em matemática e aritmética, mas já éramos também na época. Quem tinha oportunidade de ir a escola e ser alfabetizado treinava no cinema e no gibi. Todos líamos gibis e trocava muito gibi. Hoje o gibi não está mais na moda, as crianças não leem mais gibi. O cinema não tem mais legenda para as crianças e elas então são analfabetas, não é? Fazem essas provinhas aí e todas são analfabetas, inclusive as ricas. Só que no meu tempo tinha uma coisa tremenda: em Santos só havia vaga para 30% das crianças na escola. 70% das crianças da minha idade tiveram que ou ficar mal alfabetizadas ou analfabetas. Essa é a história do Brasil.        

 

P/1 - É mesmo? E Pedro, você jogava futebol também?

 

R - Sim, eu jogava futebol. Um pouco mais tarde, quando eu estava na escola, eu era aquele que o grupo se reunia e escolhia: "Marquinhos pra cá, o Paulo vai pra lá, tal o Alcione pra cá.”  “É, pô, sobrou o Pedro?” “Bom, fica pra você.” “Comigo não, fica pra você." Eu sempre conseguia um lugar no time, ficava lá num canto. (risos)

Sempre joguei e sempre fui péssimo em esportes. Eu era bom em xadrez, mas sempre fui muito ruim em esportes, até porque eu não tive a imagem paterna. Fui criada na casa de Bernarda Alba, minha mãe tinha irmãs e aquela velha tremenda, uau, a bruxa da Branca de Neve. (risos) Não tive o exemplo paterno. Só na escola, mais tarde, que eu fui apresentado.

Ninguém torcia pra time nenhum, não havia futebol na minha casa. Só na escola, pela escola eu fui e tive a honra de ver Pelé com dezesseis anos ainda, no amador, jogando na Vila Belmiro, ai...    

 

P/1 - Opa, conta essa história.

 

R - Aí cara, eu estava na escola, num colégio importante de Santos. Era um colégio estadual que se chamava Canadá. Todo mundo queria ir pra esse colégio e esse colégio tinha um exame de admissão muito pesado, então entrar lá era uma maravilha. Só que na verdade é um exame de exclusão, era um exame que excluía 70% das crianças da cidade, então eu tive sorte de estar nos 30%.

Lá tinha filhos de rico porque a alternativa… Não havia escola particular forte, só havia escolas religiosas particulares, que eram fraquinhas. As escolas religiosas nunca tiveram força, então a escola pública boa era aquela, mas era boa pela convivência. Ali eu fui apresentado ao mundo e fui feito pela escola, já que minha mãe era uma pessoa maravilhosa, uma baixinha carinhosa, nunca me faltou carinho, mas era uma pessoa que tinha segundo ano primário. A minha avó não deixava a gente ler, ler era mau, Monteiro Lobato era comunista, sei lá o que ele era.

 

P/1 - Como assim, ela não deixava ler?

 

R - Não, ler fazia mal. Ler não podia. Havia um furor na minha casa, uma daquelas antigas caixas de descarga. Sabe aquela caixinha de descarga que puxava com cordinha, jogada lá… Era nessa caixa que a gente guardava gibis e livros que a gente tinha.  

 

P/1 - Escondia?

 

R - Escondia da velha e minha mãe protegia, minha mãe não perseguia. Mas eu me lembro que tinha colecionado um álbum de figurinhas da Branca de Neve e consegui ter completado. Ele foi descoberto e foi picado, rasgado. (risos) Era assim.

Não sei como eu pude me tornar um intelectual com tantas barreiras, mas isso é a história do Brasil, a história do antilivro.

Mas eu ia te contar do Pelé. Eu comecei a torcer pro Santos em 1955, tinha então treze anos, mas o Santos já tinha 54, já tinha um bom time. Foi pra lá o Del Vecchio, o Vasconcelos foi um jogador do Vasco, do Rio de Janeiro. Foi um grande jogador.

 

P/1 - O Zito também foi de 1955...

 

R/- É, o Zito. [Em] 55 ele já jogava, 54 acho que não era ainda ele. Bom, eu sei que em 54 o Corinthians foi campeão paulista do do quarto centenário, eu tinha doze anos. Só perdeu duas partidas, no Pacaembu e na Vila Belmiro, pra quem? Pro Santos Futebol Clube! Haha! Foi 2 x 0 no Pacaembu e 4 x 1 em Santos. (risos)  Ô, beleza! Gol do Zito, Urubatão jogava. Aí [disseram:] "Tem um menino que apareceu lá que parece que é muito bom, um pretinho lá, vamos ver o treino então." A gente ia ver. Antes do jogo principal tinha uma preliminar e geralmente jogávamos um infantil, aspirante; a gente chegava duas horas antes só pra ver porque tinha no ataque o Raimundinho, centroavante - o menino morreu esfaqueado -, e o tal do Pelé, menino magrinho. Cara, não era fácil, quando dava 9 x 0 é porque eles estavam mal, estavam sem vontade. Era um inferno você vai ver aquele moleque, com aquela força dos dezesseis anos.

A gente às vezes ia ver treino e uma coisa eu aprendi, porque esse cara foi o melhor jogador do mundo e talvez venha a ser pra sempre. Eu me lembro de um treino em que acabou o treino físico e eu estou indo embora. Acabou, todos foram embora e o Pelé não foi, ele ficou sozinho no campo treinando sozinho. Não é porque ele nasceu não, ele nasceu sim, mas se fez, o esforço dele era maior que todos os outros.

Lembro de uma entrevista que ele deu em Santos ainda, como é que era? Ernani Franco era o narrador, grande narrador da rádio Atlântica de Santos e era a lenda porque o jogo era no rádio. Não havia TV e você ouvir no rádio era ótimo, todos os jogos eram espetaculares. Toda a defesa de Gilmar era (grita): “Espalma, Gilmar!” O cara fazia assim (grita): “Agarra, Gilmar!” Era uma atrasada, mas o cara era um entusiasmo. O futebol era muito mais bonito do que você vê.

Eu me lembro, uma vez então foram entrevistá-lo e falaram: "Pelé, você vai jogar contra o fulano lá de uma cidade de interior e lá com aquele Betão” - sempre com aumentativo: Ditão, Chicão - “e ele disse que vai acabar com você." "Mas onde é que você entrevistou ele?" "Ele estava no bar tomando uma cerveja" "É, eu estava treinando. Ele não vai me alcançar durante o jogo."

Ele era o melhor em tudo porque se dedicava. Eu aprendi isso, a vida tem que ser dedicação, talento não é nada. Nós vimos, eu vi. Tinha um ponta esquerda do São Paulo chamado Canhoteiro no meu tempo, ele eventualmente era um Garrincha na ponta esquerda, o cara era espetacular. Só que aquele tempo era outra coisa, o cara gostava de colocar o cotovelo no balcão e pedir uma branquinha, sabe? E não foi. O Pelé, em 1970, quando acabou, eu vi uma entrevista, já ele mais velho. Estava com o Rivelino junto na televisão. "Quando acabou aquela partida contra a Itália nós fizemos uma farra, enchemos a cara." O Pelé falou: "Eu não." Depois de ser tricampeão todo mundo foi comemorar e ele bebeu água mineral. Tens que ver, sinto muito pelo Ronaldinho Gaúcho e pelo Ronaldão, eles não foram e jamais serão o Pelé porque deixaram se levar, não têm a disciplina que o Pelé teve. O Pelé faz sessenta anos [no] dia 23 de outubro desse ano; está magro, elegante. Os outros, com 27 anos, gordos já e nunca ganharam o que ganhou esse cara. Ele ensinou muita coisa no trabalho, senão a todos nós. Ele sabe trabalhar. Bom, eu sou fã. (risos)       

    

P/1 - Você teve o privilégio de acompanhar...

 

R - Acompanhei. “Puxa vida, teve um gol contra.” “Olha, diz que foi aquele gol de placa.” Na época não se filmava.

Teve um gol contra o XV de Jaú, o jogo foi 6 x 0 pro Santos. O primeiro gol foi do Pepe, de falta. Pepe dava uns chutinhos que pelo amor de Deus, né? Você pegava na barreira matava o elemento, já saia inteiro porque não… [Era um] petardo. Segundo gol, o Pelé saiu já determinado no time adversário e deu três chapéus, um pra cá, um pra cá e um pra lá e deu uma bomba com o pé direito que bateu no travessão - pra mim não entrou, eu acho que não entrou - , bateu fora e o juiz mandou botar no meio do campo. Não dava pra não ser gol e foi o mais lindo gol dele. Ele fez muitos lindos gols, mas na época não tinha essa coisa de filmar, passar, replay, não tinha nada disso. Tem alguns filmes, perderam aquele gol que ele fez contra o Mão de Onça. Tinham filmado, eu vi várias vezes na televisão. Aquele famoso gol, que ele fez vários chapéus, o Mão de Onça pulou no pé dele e ele deu um chapeuzinho assim, aqui na mão e [foi] de cabeça pro gol. Foi lindo, me lembra até o gol daquele filme “Pelé eterno”, eles redesenharam. Esse gol existia e se perdeu...       

 

P/1 - Aquele que era contra o Juventus?

 

R - Contra o Juventus. Teve outro com o Fluminense que é o tal chamado “gol de placa” que ele sai driblando que nem o Maradona na frente do Castilho. Castilho foi um grande goleiro e ele joga no campo. Eu vi várias vezes reprisar, não sei por que perdeu-se isso. Não sei foi incêndio da Bandeirantes ou o que, mas não existe esse filme gravado - hoje qualquer bobagem está gravada, né? Tem muita coisa que está aqui que eu vi na Vila, ele jogando no gol. Na época não podia...

Eu tô falando bobagem, não tem nada a ver com literatura, mas vamos lá. Estamos entre amigos, né?

Na época não podia substituir se o cara machucava ou saía, então ficava fazendo sessão muscular, parado no campo, sem jogar. Uma vez machucou o Gilmar e o Pelé foi pro gol, não podia, mas ele foi. E eu me lembro dele jogando e eu torcendo e não tomou nenhum, também era um timinho fraco. (risos) A bola vinha fácil, ele dava dois passos pro lado e pulava pra encaixar. (risos) Era dele, aquele espaço era o palco cênico daquele gênio.    

 

P/1 - E Pedro, como era o ritual de ir ao futebol? Porque é diferente de hoje.

 

R - A pé, não tem essa coisa [de] hoje. A televisão criou a maldita da torcida organizada. Todo mundo ficava quietinho. Na hora que a Globo ligou a televisão começou a pular e gritar, é assim mesmo.

Na época era o jogo Santos x Palmeiras. Eu tinha dois queridos amigos, um morreu... (suspiro)  Conheçam meu irmão. Está aqui nesse livro, é a última lembrança minha dele, morreu agora no começo de abril. Ele era palmeirense e fomos ver juntos Santos x Palmeiras. Ficávamos sentados juntos, não tinha esse negócio de separar em torcida porque nós éramos amigos, porque se matam? Ninguém usava a camisa do clube. A gente ia lá pra ver o jogo, assistia sentado pra ver o jogo; hoje ninguém vê o jogo, fica pulando pra aparecer na televisão. Se você quiser assistir futebol tem que ver na TV e pagar na pay-per-view. (risos) Ridículo.

 

P/1 - E você ia com quem no estádio?

 

R - Geralmente eu ia com esses amigos. Tinha poucos santistas na época, o Santos tinha muito… Na minha geração os meninos começavam a torcer desde pequeno pros times que eram campeões, então era Corinthians e Palmeiras, principalmente. São Paulo não, porque não era muito campeão naquela época. Era tudo muito corintiano, Corinthians era um timão: tinha o Baltazar, tinha o Gilmar - o Gilmar era goleiro do Corinthians.

Meus amigos eram muito… Esses dois maiores amigos meus,  o João Alberto _____ e o Silvio _______ eram palmeirenses. Íamos juntos, curtíamos juntos, mas logo a gente começou a caminhar por um caminho intelectual. Começamos a fazer teatro amador e aí conheci um sujeitinho de Santos chamado Plínio Marcos.

Eu fazia teatro amador no Clube Saldanha da Gama, na ponta da praia, aí encontrei uma vez, na cantina do colégio Canadá um rapaz falando em fazer teatro - eu não vou falar quem é, porque ele entrou na história de um modo não muito feliz. Falou que estava precisando de um ator pra uma peça infantil pra eu ir tal hora e tal dia no Clube de Artes de Santos, que era na Avenida Ana Costa. Fui lá e tinha um rapazinho, ele usava o cabelo à la Sartre, curtinho, penteado pra frente, fumando. Baixinho, magrinho. “E aí?”

Era uma peça infantil de um grande autor de Santos, um médico cancerologista que faleceu há poucos anos em Campinas, morando em Campinas. Era casado com uma irmã do Paulo Autran, dona Gilberta Autran -  Oscar von Pfuhl. Era uma peça infantil que chamava "A árvore que andava". O enredo eram quatro meninas, crianças mesmo, que faziam um coelhinho, um jabuti e havia um lenhador, um terrível vilão e eu era esse lenhador. (risos) Fui escolhido pra fazer esse lenhador e aí fiquei amigo dele, fizemos muitas peças juntos.

Lá havia uma senhora que era meio dona da cultura em Santos, chamada Patrícia Galvão, conhecida como Pagu. A Pagu ficava nesse Cine Atlântico - embaixo do Cine Atlântico, havia o bar Regina, onde ela ficava lá tomando samba, que era rum com coca-cola. Ela parecia velhíssima, devia ter uns quarenta anos e eu a achava velhíssima. E a gente ficava ouvindo falar as memórias da Semana de Arte Moderna, ela contando e a gente menino lá. Isso foi levando a "tem um tal de Sartre, quem é esse cara? E tem um tal de Molière, nunca ouvi falar." Então você corria pra tentar ler, pra tentar não ficar fora do papo, então rapidamente…

Nós éramos meninos de começo de científico, fim de ginásio. Começamos a ser apresentados a essas coisas só pra pertencer, eu e esses amigos que começaram a fazer teatro. Aí já entra a política, na época do Partido Comunista Brasileiro, sem dúvida nenhuma. Aquilo a gente fez a nossa escola, foi a escola do desafio de conviver com a Patrícia Galvão e com o grande gênio, que foi meu querido amigo Plínio Marcos, gênio mesmo. Ele era um grande ator e diretor, avacalhado pra burro. (risos) A gente fazia peças e sempre ganhava festivais amadores.   

 

P/1- Como se chamava o seu grupo?

 

R - Chamava Corpo Teatral de Barraca. Era um grupo em homenagem ao La Barraca, que era o grupo do Garcia Lorca. Fizemos o “Escurial” do Michel de Ghelderode, um belga, e depois íamos viajar o interior e representar, sempre com amadores. Claro que o Plínio conseguia que a gente fosse e com ele tinha um precinho, ganhava algum e a gente não falava nada - claro que era pra ele. Mas tudo bem, não tem problema nenhum. Era muito engraçado o Plínio Marcos.

Viemos pra São Paulo em 60, 61 e ele também veio. Como eu já tinha ganho prêmios de teatro, eu vim pra tentar ser ator profissional. Eu em Santos era o primeiro ator da época. Era disputado, ganhava.    

 

P/1 - Que beleza? É mesmo?

 

R - Era menino, dezoito anos. Vim pra cá e a Patrícia morreu em seguida, se me lembro morreu em 63. Ela poderia ter sido minha madrinha, era muito amiga da Cacilda Becker.

Comecei a fazer teatro profissional aqui. Mas o teatro profissional é uma dificuldade muito grande, eu era filho de mãe viúva e não tinha dinheiro, morava numa pensão com cinco pessoas no mesmo quarto. O salário era baixíssimo, você não pega grandes papéis, você começa por baixo.

Fiz alguma coisa, cheguei a trabalhar com a Cacilda e com o Sérgio Cardoso, mais mas sempre o oitavo índio contado a direita, sabe? (risos) Só papel pequeno. Pra me sustentar comecei a trabalhar em jornalismo no [jornal] Última Hora.

Não precisei perder contato com o Plínio. Vendo as peças dele eu ficava embasbacado. Como era meu amigo, as primeiras peças do Plínio eu fiz em Santos como ator, “Fantoches” que depois ele chamou de "Chapéu em cima de um paralelepípedo para alguém chutar." Tem fotos, cartazes. Tem um rapaz que está fazendo, ele se chama Osvaldo Mendes e está fazendo a bibliografia do Plínio. Eu xeroquei tudo e mandei pra ele esse material que eu ainda tenho. Ainda fiz as primeiras peças dele.

Quando ele chegou em São Paulo, para ganhar um dinheirinho ele teve a idéia de escrever uma peça de dois atores só, sem cenário, pra indo de ônibus mambembar pelo interior e ganhar algum dinheirinho. E escreveu uma peça pra mim e ele fazermos. Eu falei: “Plínio, não dá.” Eu trabalhava de dia na “Última Hora” do Samuel Wainer e à noite tinha um empreguinho com a Ruth Escobar. Aí ele pegou outro ator e fez "Dois perdidos numa noite suja".         

 

P/1 - (risos)

 

R - Era pra eu fazer o Tonho e ele o Paco, aí um rapaz chamado Ademir fez o Tonho e é uma obra-prima, uma peça genial. É levemente baseado num conto do Alberto Moravia. Não tem nada a ver, inspirada; o Alberto Moravia leu o texto do Plínio e adorou, na época.

Depois ele fez "Navalha na Carne". Eu já era editor de uma editora, a Editora Senzala. Publiquei "Navalha na Carne" porque estava proibida na censura e eu tive a ideia então de publicar a encenação. Pegamos o elenco, eles foram representando, a gente foi fotografando e toda a peça está fotografada com os textos, ou maior ou menor, de acordo como o autor fala. Se ele grita, é em corpo grande; se ele sussurra é um texto em corpo oito. Uma edição histórica, lindíssima.

Logo em seguida, a Tônia Carrero - ela era filha de um general, o general Porto Carrero - conseguiu com algum pressão que a peça fosse liberada. Estreou a peça no Rio e tive a aventura de ir ao Rio só pra assistir aquela peça maravilhosa. Você não acredita, vai dizer que sou mentiroso: a Tônia Carrero estava feia. Conseguiu, estava linda fazendo a Neuza Sueli, acho que a maior interpretação da vida dela. E aí aquela montagem que nós tínhamos aqui foi encenada em São Paulo, essa que encenei em livro. Fiz alguma coisa, mas já comecei... Pra viver, fiquei só com o jornalismo.

 

P/1 - Deixa eu voltar, você vem pra São Paulo com dezoito anos?

 

R/- Com dezoito anos. Num apê em São Paulo, havia um apê na rua Augusta - aquelas casas antigas, pensão com quarto grande. Aquelas salas na frente, cinco camas e o quarto era limpo quando a gente mesmo pedia uma vassoura e varria. Mas era baratinho. Morava lá e fazia teatro, mas aí o jornalismo acabou. Pra viver eu comecei a me dedicar mais a escrever do que a representar, então o teatro foi perdendo o caminho, perdendo força; a gente ganhava tão pouco e eu não tinha a quem pedir.

Mais tarde minha mãe veio pra São Paulo, morou num pequeno apartamento da Rua Asdrúbal do Nascimento, que é uma ruazinha que desce ali do Largo de São Francisco até a Praça da Bandeira. Eu morei com ela ainda, eu dormia na sala. Depois eu casei. E aí eu passei a viver de escrever, mas rapidamente veio em 69, depois do AI-5…

O AI-5 foi desesperador. Eu, já como jornalista, tinha ganho algum dinheirinho e eu e esse amigo, José Roberto Melhem, tentamos montar a "Barrela" de Plínio Marcos, mas a censura não permitiu e perdemos todo o dinheiro. À época era a direção do Alberto D'Aversa, um grande diretor ítalo-brasileiro, já falecido. Um grande amigo, uma pessoa querida, adorável.

Desde então eu abandonei o teatro, mas aí veio a tal da regulamentação da carreira de jornalista, que foi feita pelo Médici. Na ocasião, por razões… Talvez eu tenha uma fichinha não tão cor-de-rosa no DOPS, me cassaram a profissão de jornalista. Eu não tenho carteira de jornalista até hoje. Fui trabalhar como redator, que era uma figura que você podia fazer, então fui ser redator na Editora Abril, que publicava fascículos, publicava livros aos pedaços. Saía um caderno de dezesseis páginas a cada semana, depois você encadernava e fazia coleções. Fazia enciclopédias, mil coisas, foi um sucesso editorial muito grande na época.  

Fui trabalhar como redator e lá efetivamente eu aprendi a escrever, porque na época, todo mundo perseguido pela ditadura, ficou de trabalhar e o Victor Civita pegava e punha lá. Então você tinha um ex-reitor da Universidade de Brasília, do outro tinha um ex-reitor da Universidade de Porto Alegre cassado, que pra viver ficava lá escrevendo e eram pessoas fabulosas, você tinha a nata. Alguns deles tinham que toda semana comparecer ao DOPS pra dizer que estavam quietinhos. E na época não havia terror, eram chamados crimes de consciência. Só não éramos a favor dos militares, era o nosso crime: não achar uma boa ideia a ditadura militar.

Lá era difícil pra você aparecer, você tinha que que escrever bem. Uau, porque era um pessoal… O bate papo de café era uma aula de filosofia, era uma aula de política.

A partir de 72, além do salário… Eu já estava casado, casei em 69. Já tinha um filho em 71. Pra complementar o salário a gente fazia muito freelance de texto e começava a aparecer freelance de textos infantis. E eu pegava o que aparecia por que pra gente viver, o que pintar… “Sobre automóvel, é comigo mesmo.” A gente pesquisava e fazia. “Sobre mitologia grega? Vem cá, é comigo mesmo.” Comecei a fazer e a gostar de fazer histórias infantis. E nesse caso era muito importante a qualidade, em segundo lugar. Em primeiro lugar era prazo, você entregar na data porque tem prazo pra sair. E eu sou muito disciplinado, eu cumpria prazo e acho que a qualidade, razoavelmente...

Comecou a vir muita coisa. Chegou uma hora… Eu tenho uma amiga, colega do [colégio] Canadá em Santos que tornou-se talvez a maior especialista em literatura no Brasil, que é professora Marisa Lajolo. É minha colega de escola há...  Eu usava os nomes das filhas das minhas amigas [para as] personagens. Ela comprava na banca, já se interessava pela literatura e aí [perguntou:] "Por que você não escreve num livro?" Eu falei "Como? Eu escrever um livro?" Eu tinha mais de trezentas histórias curtas publicadas, mas em produtos de banca. E o produto de banca é perecível.  

 

P/1 - Em que produtora as revistas saíam? Na Revista Recreio

 

R - Revista Alegria, mas principalmente a Abril tinha umas revistinhas que tinham uma faca recortada e que você tirava e montava uns bonecos em pé, não sei se você lembra disso. Você lembra desse tipo de coisa? Coisas pra você pintar, vestir uma boneca e para não ser considerado brinquedo tinha que ter uma história junta. Essas histórias eram minhas, e era assim: “Vamos fazer um álbum de cangaceiros”, aí tinha a história infantil de cangaceiros. “Faz aí.” De faroeste, tem que ser uma história infantil de faroeste e você fazia. Sobre dinossauros, você fazia.

Eu tinha feito uma história que se chamava "Cedo", uma historinha curta para um álbum que você recortava as figuras de dinossauros e punha em pé, encaixando assim. Escrevi uma história chamada "O dinossauro que fazia Au!" Uma história curtinha e aí a… A historinha cabia na capa da publicação. Peguei essa história, desenvolvi e escrevi um livro, “O dinossauro que fazia au-au”.

Uma amiga dela, a Maristela Petrini de Almeida Leite, estava começando uma coleção na editora Moderna. Ela leu esse livro e publicou. E eu fiz com muito prazer. Gostei de fazer, o livro foi bem recebido, não foi um estouro, mas continuei a fazer. Fiz o "É proibido Miar", um livro que gosto muito, até hoje tem. Comecei [a pensar]: “Eu quero saber o que é isso.” Eu não sabia o que era isso, o meu ramo era teatro e literatura adulta. A literatura infantil eu não lia, aliás estava começando a nascer nessa época. O meu filho era um bebê, então eu não tinha filhos em idade escolar, eu não conhecia, não sabia.

 

P/1- (risos)

 

R - Mas eu queria lembrar o momento que eu conheci uma das maiores autoras da literatura infantil brasileira. Eu trabalhava na Abril e o cargo que eu exercia tinha o direito de receber o chamado reparte: tudo que a Abril publicava, tinha um exemplar na mesa da gente. De tudo, desde [as revistas] Claudia, Capricho até os infantis. Abri lá e tinha uns livrinhos quadradinhos de capa dura. Li um primeiro, chamado "Palavras, muitas palavras" e achei genial. Achei, “Nossa, que coisa maravilhosa! Ruth Rocha.” Fui lá e perguntei [sobre ela].  "Ela é colega sua, trabalha a cinquenta metros de você.”

Entrei na sala dela. Abri a porta, ela olhou e eu falei: “Você é a Ruth Rocha?" "Sou eu." "Eu te amo!" "Como assim?" "Acabo de ler o seu livro, você escreveu isso, mulher? Que coisa!" Desde então somos muito amigos e ela não parou em sua generosidade. Nossa, a Ruth é brilhante, é demais, é provocadora. Na época da ditadura ela provocava em livro infantil, nossa! Que mulher maravilhosa, que artista fantástica, que beleza. Mas onde é que eu estava?

 

P/1 - A gente queria voltar no tempo, só pra voltar na sua história com a leitura.

 

R - Pois é, você perguntou se eu ia à praia, se eu jogava bola. Não. Eu brincava de soldadinho, eu fazia muita construção. Pegava caixa de sapato, recortava com a gilete, fazia uma portinha, janelinhas, botava graveto e fazia postes. Fazia cidades no terreiro, mas principalmente o cinema era maravilhoso, só que era só no domingo.

O rádio era importante sim, a gente sintonizava a Rádio Mayrink Veiga no Rio de Janeiro, no rádio de ondas curtas, pra ouvir aqueles programas humorísticos, musicais, mas a minha diversão era ler. Era ler gibi, todos os gibis. Tudo que eu pudesse, porque o gibi tinha uma coisa boa: se eu comprava um, eu lia trinta, porque o gibi você trocava com os amigos, cada um comprava um e lia em rodízio.

E ler livros. Eu vivia num mundo da fantasia e da imaginação, não havia os autores que há hoje, brasileiros. Havia publicações de traduções, então a Editora Melhoramentos fazia muita tradução dos livros, das fábulas, como Hans Christian Andersen, por exemplo. Me lembro e ainda tenho uma edição do “Patinho feio”, do Andersen. Havia a Condessa de Ségur, que na verdade é um pseudônimo de outra pessoa qualquer; escrevia histórias morais, eu lembro disso.

Mas havia um grande nome, que era Monteiro Lobato. Eu já mostrei as “Reinações” e eu lia tudo que o Monteiro Lobato escrevia. Ninguém o imitou na época. Os outros autores que havia, Viriato Correia… Eram autores chapa branca. Havia uma literatura de fazer criança boazinha, e a literatura não é pra falar pra você ser bonzinho. A literatura é pra você não ser bonzinho e o único enfezado era Monteiro Lobato, em que desobedecer era importante. As crianças deles não eram boazinhas, a Emília não era boazinha, o Pedrinho e a Narizinho ousava e os adultos iam atrás. Dona Benta e Tia Anastácia iam atrás dos sonhos infantis.

O que restava pra gente era literatura estrangeira, então nós íamos para Mark Twain, pra "O príncipe e o mendigo", "As aventuras de Tom Sawyer", "Huckleberry Finn", "Um ianque na corte do Rei Artur", tudo aquilo ali. Eu ia pro Jack London naquelas aventuras no Alasca, gelo, “Caninos brancos”, neve. Os folhetins do começo do século XX, final do século XIX: Rafael Sabatini, “Scaramouche” ou “Pìmpinela Escarlate”. Emilio Salgari, Edgar Rice Burroughs - o “Tarzan”, todas as aventuras do Tarzan. Começo do século XX tinha o Maurice Leblanc, que escrevia as aventuras de Arsène Lupin, ai lia tudo aquilo e o Julio Verne, as aventuras... Hoje em dia venceu bem Julio Verne, os autores meio morrendo. O Jack London e o Mark Twain não morreram.

De repente você está ligado aos contos de Allan Poe e de repente você estava no… Me lembro de uma coisa engraçada: na época, eu gostava muito e já lia o Sir Walter Scott, aquelas aventuras de cavaleiro da távola redonda, Rob Roy, Ivan _____. Eu me lembro que na casa de um tio eu vi dois livros grandes encadernados em couro, bonitos. Eu folheei e tinha lindas ilustrações preto e branco, um sujeito magro de armadura de lança na mão. Falei: "Puxa, é um romance de cavalaria, vou adorar!”  Eu lia aquilo, tinha uns doze anos. Eu li “Dom Quixote de La Mancha” como se fosse uma aventura de cavalaria pra criança e eu acho que era porque eu achei ótimo, morria de rir. Tinha um ajudante baixinho, gorducho, chamado Sancho Pança, que era muito engraçado. Eu me lembro também que eu peguei um livro que era… Achei lindo, era uma história do Rio Grande do Sul, um gaúcho macho de espada na cinta, achei lindo. Era “O Continente” do Érico Veríssimo.

Eu estava indo e sem notar eu passei dessa literatura pra qualquer outra coisa, então eventualmente já estava lendo o "Capitães de areia", alguma coisa que pra mim era muito fácil de ler, o Jorge Amado. A literatura não era pra estar na escola. Aulas de literatura que eu fiz na escola era uma coisa de história da literatura: falava-se em Camilo Castelo Branco, falava-se quem eram os românticos, quem era os realistas, quem eram os trovadores. Ninguém te mandava ler, você não lia. Então eu lia porque lia, eu achava ótimo ler Augusto dos Anjos e depois declamar dramaticamente e ver:

“Ninguém assistiu ao formidável enterro dado a última quimera,somente a Ingratidão, essa pantera, foi sutil a companheira inseparável. Toma um fósforo acendo o último cigarro, o beijo amigo é a véspera do escarro, e a mão que afaga é a mesma que apedreja. Acostuma-te..." As pessoas ficavam impressionadas porque eu era ator, menino ator.

A literatura fazia parte da minha vida como diversão. Eu jamais li por obrigação, nunca. Aliás, fui um péssimo aluno. Imagina estudar? Aquela chatice. Estudar literatura era ler literatura, estudar análise gramatical ou oração subordinada modal, que coisa mais chata. Melhor ler Machado de Assis - os contos dele, maravilhosos. Nossa, que coisa linda. Ninguém disse pra mim, ninguém me obrigou, se me obrigassem eu ia achar chato. Como não me obrigavam, eu li "Eurico, o Presbítero" de Alexandre Herculano e achava ótimo. Eu lia "O bobo", eu acho incrível.

Eu me lembro do início de "O bobo" de Alexandre Herculano. O livro começa, eu acho fantástico: “A morte de Afonso VI, rei de Leon de Castela, quase no fim do século XII, de origem acontecimentos mais graves que os dantes ocorridos quando ele trocou o seu brial de cavalheiro e o cetro do rei, pela mortalha em que conduziram ao cadafalso no mosteiro de Sahagún.” (risos)

Poxa, fazia parte. Eu me ocupava disso, era meu brinquedo, não era nem pelo prazer. Hoje, a leitura… Os professores mandam as pessoas lerem os meus livros como obrigação pra nota? Eu escrevi um livro para as crianças sentirem tesão de ler. A literatura é diversão, é gostoso ler. Como é que transformaram o hábito de ler numa coisa chata? Me lembro de uma crônica do Rubens Alves e ele também escreve livros infantis, e ele disse que recebeu uma cartinha de um aluno dizendo o seguinte: "Eu gostei muito do seu livro, “O patinho não sei das quantas”, gostei muito. Depois a professora mandou a gente pegar o livro e sublinharmos todos os dígrafos que havia no livro." (risos) E o Rubens Alves fala o seguinte "Eu não sei o que é dígrafo. Porque é que eu tenho que saber o que é dígrafo?"

Será que faz alguma diferença quando eu vou escrever, saber se uma oração é sindética ou assindética? Por que uma criança pequena tem de saber disso? Não, ela tem que curtir, ela tem que pegar o Príncipe Escamado e ver se ele não fez... Eventualmente, como seria uma noite de núpcias com a Narizinho, entre o peixe e uma menina? (risos) Sabe, não era mais interessante? Não era muito mais divertido do que saber quantos dígrafos tem aqui nesse livro? Caramba, gente.

Bom, essa é a minha bronca que eu tenho. Eu sou muito adotado [nas escolas] e as pessoas lêem a minha história, principalmente os adolescentes. Se você entra no Orkut você vai ver quantas comunidades “Pedro Bandeira” tem. Eu sou o autor que mais tem comunidades no Orkut. Comunidades "Eu amo o Pedro Bandeira", comunidades "Amigos dos Caras" e tudo o mais. Eu tenho o maior número de pessoas inscritas em comunidades pra mim. Porque eles querem, não porque o professor mandou.

Por que uma pessoa tem que ler por obrigação e depois tem que ter aula de gramática sobre uma poesia? Uma poesia como aquela que você citou: "Gente grande é tão chata/ Eu já não aguento mais/ Cada vez que aquela dona/ aparece lá em casa,/ sei que vou me aborrecer./ Vai dizer: “Como está grande!”/ Vai dar beijo lambuzado,/ beliscada na bochecha/ e tapinha no traseiro./ Um dia desses/ vou fazer como ela faz:/ Beliscar a cara dela,/ dar um tapa nos fundilhos/ e dizer com um sorriso:/ “Deus do céu, como está gorda!"

Eu não faço isso pra aulas de gramática, faço isso pras crianças se divertirem e é assim. A visita é chata, a visita despenteia o cabelo das crianças, dá tapa na bunda. Você acha que a criança gosta disso? Belisca a bochecha. “Ai, que gracinha.” Cara, você acha que eu fiz pra uma aula de gramática? Não, eu fiz pra mostrar como a poesia é gostosa, como é divertido, como é bom, como me fez bem, como foi gostoso.

Nas aulas de Ciências exatas eu colava. Física? Eu não tinha a menor ideia, mas eu tinha um colega que depois virou reitor da Unicamp. Ele era bom de dar cola, perfeito; era o primeiro da classe. (risos)

Por que eu ia estudar química ou física se eu podia ler? Na época, eu lia Sartre, não entendia merda nenhuma. Lia “L'être et le néant’, “La nausée”, lia com aquela cara de… Não entendi nada! Mas me diverti, foi gostoso, caramba.

Essas foram as minhas universidades, foram todas feitas de papel. As escolas que eu fiz foram muito ruins péssimas, ainda são. Não sei se pioraram, a escola é muito ruim, é péssima. Professor de português, ele dá aula de gramática porque é mais fácil. Ele transformou a língua numa ciência exata: o que é dígrafo, o que não é dígrafo. É muito mais difícil ensinar a escrever, discutir um texto, discutir estilo, discutir clareza num texto, discutir estrutura de uma redação. Não sabem, então preferem dar o mecanismo da gramática, porque não são capazes de ensinar a ler, elas não leem.

O professor não lê. Você acha que o professor lê? Não lê. Estão lendo romance? Não, elas estão lendo novela na Globo, tá?

 

P/1- Pedro, você nos contou um pouco da sua história de leitura. Vamos dar aquele salto pra Editora Abril. Ficava onde, na época?

 

R - Bom a Editora Abril, quando eu comecei a trabalhar, ela já tinha aquele prédio grande na Marginal, mas eu nunca trabalhei naquele prédio. Havia na Rua do Curtume, que é uma travessa da Marquês de São Vicente, ali na Lapa, uns barracões onde eu trabalhei, na Abril Cultural. Depois trabalhei nas infantis, que era na Rua Bela Cintra. Mas quando eu comecei a escrever, eu comecei a gostar. Deixa eu dar esse pulinho e voltar.

 

P/1- Foi a Marisa Lajolo é que te fala " Por que você não escreve um livro", é isso?

 

R - É pra crianças, Lajolo falou, fiz "O dinossauro que fazia au-au", a Maristela da Moderna publicou e eu comecei a falar: "Olha, eu quero aprender, me dá! O que é bom?" Aí o pessoal começou a me dar. O que vende bem, o que as crianças gostam.

Marcos Rey, que era meu amigo - eu fui a primeira pessoa a publicar como editor o "Memória de um gigolô". Eu li "Memória de um gigolô" datilografado por ele. Foi o primeiro a publicar na Editora Senzala. “Café na cama”, tudo aquilo publiquei como editor. Comecei a ler as aventuras que ele escrevia, histórias policiais pela Ática, da coleção Vaga-lume, aí começou: Odete Barros Mott, Estela Kahr, Giselda Nicolelis… Quem mais? João Carlos Marinho, que já fazia um enorme sucesso com "O gênio do crime", "Sangue fresco". Comecei a devorar aquilo tudo.

Comecei a olhar e pensei: “Poxa, espera aí. Isso eu faço.” E a Maristela falou: "Pega bem pra jovens histórias de aventura e suspense, mistério, policiais." Eu falei: "Ah, é? Então espera aqui.” Jovem de que idade? Aí comecei a pensar: nessa idade você tem turma, então vou fazer uma turminha de amigos. Criei uma turminha secreta, botei o nome de "os karas" e comecei a escrever uma história de aventuras. Eu não sabia o que eu ia escrever, uma história de mistério. Um mistério comum, mais crime? Crime não, não queria algo realista. Queria algo fantástico, algo fabuloso, algo metafórico.

Na época, eu tinha uma grande dor de cabeça chamada cefaleia de Horton e havia uma injeção que até minha mulher aplicava na veia e parava a crise. Um dia eu estava parado, tinha começado a esboçar a turminha, mas não sabia quando eu iria pra frente. E o laboratório suíço que fabricava esse remédio parou de fabricá-lo e vender no Brasil. Uma noite eu acordei com uma dor brutal, fui pra sala pra não incomodar minha mulher, e meu rosto inchava, lacrimejava sempre o lado direito.

Comecei a xingar esse maldito laboratório. Como um laboratório na Suíça determina, fabricando ou não um remédio, que um brasileirinho ia ter dor aqui no Brasil? Olha o poder que os caras têm. Eu, xingando com todos os palavrões que eu sabia, pensei na hora: “O que eu faço? Quanto poder eles têm, eles podem mais que um exército. Se um laboratório resolver não fabricar mais vacina antipólio, é capaz de dizimar uma geração de crianças de um país. Que poderes! Eles podem tudo, podem até dominar nossa vontade, obrigar-nos a obedecer o que eles querem, eles podem criar uma droga de obediência.”

Estava criada no meio de uma dor brutal a ideia. Eu escrevi aquilo que o Monteiro Lobato me ensinou: é preciso aprender a desobedecer. Obedecer, ser carneiro, é fácil ser carneiro. Desobedecer para saber um caminho melhor é difícil. Você tem que ter estudado e pensado e honestamente tentar descobrir uma alternativa para aqueles caminhos de uma geração que quer apenas repetição apenas, a geração conservadora, querem que a gente crie. É difícil desobedecer. Então por isso esse livro é um sucesso, ele fala de uma maneira positiva de desobedecer. Desobedecer é falar: “Tá bom, mamãe e papai, mas eu vou caçar um caminho um pouco melhor, o mundo precisa crescer, precisa mudar, ir pra frente. Eu parto do que você me ensinou, mas não vou repetir o que você me ensinou. Eu vou procurar um outro caminho, só desobedecendo você acha outro caminho.” Então meu personagem principal diz: "A obediência só leva a repetição de velhos erros. É a desobediência que muda o mundo." Por isso esse livro já vendeu um milhão e meio de exemplares no Brasil. Um milhão e meio, um pouquinho mais. E já está traduzido pro sérvio, pro grego e agora acaba de sair na Espanha - "La droga de la obediencia". No Chile também, mas o Chile é pequenininho. Espanha é um mercado maior, a coisa acontece lá.

Como eu sempre fui profissional, eu fazia sempre o que me mandavam como jornalista e como redator. A Maristela me falava: "Mas Pedro olha, pega bem uma história pras meninas, romântica." Romântica? Peraí: "A marca de uma lágrima", que faz sucesso até hoje. “Tá faltando poesia pras crianças.” Poesia? Peraí, poesia eu fazia soneto pras minhas namoradas quando eu era adolescentes. Mas como é que é?

Fui ler Cecília Meireles, poesia pra criança e não gostei, acho que a Cecília fazia poesia de adulto para criança. Aí eu fiz a criança em primeira pessoa. É uma criança de oito anos falando dela mesma, então ela tem raiva do vizinho porque ela tem a bicicleta nova e não empresta pra ela. Tem raiva da visita porque cutuca a bochecha dela. Está com raiva porque mamãe ficou grávida, vai nascer uma criança e vai tomar o meu lugar. E até hoje "Cavalgando o arco-íris", onde é que está?

Esse aqui é um sucessão: "Mais respeito, eu sou criança." Veja só o título, de cara é a criança em primeira pessoa, é dela o livro. Não é um coroa dizendo a ela o que é um livro, é dela, é ela falando. E assim por diante.

 

P/1 - Você não leria um poema do "Mais respeito"?

 

R - Do “Mais respeito”? Vamos lá, vamos ler um desse. Tem uns interessantes, vamos ver. Sem óculos é difícil, peraí. Tem dois óculos, é o de armação mais clarinha. Eu tenho um de computador, um de leitura, um de cinema, não é fácil a vida. (risos) Depois de certa idade ter 3 óculos diferentes, acredita? É esse aqui. Vamos ver. (pausa)

Então vamos ler o próprio:

"Presta atenção no que eu digo, pois eu não falo por mal.

Os adultos que me perdoem, mas ser criança é legal. (risos)

Vocês já esqueceram eu sei, por isso vou lhes lembrar.

Pra que ver por cima do muro se é mais gostoso escalar.

Por que perder tempo engordando, se é mais gostoso brincar.

Pra que fazer cara tão séria se é mais gostoso sonhar.

Se vocês olham pra gente, é chão que veem por trás.

Pra nós, atrás de vocês, é céu e muito, muito mais.

Quando julgar o que eu faço, olhem pros seus próprios narizes.

Lá no seu tempo de infância, será que não foram felizes?

Mas se tudo que fizeram já fugiu da lembrança,

fiquem sabendo o que quero,

respeito, eu sou criança."

 

É nessa base que a gente faz, tem uns bonitinhos. Ah, esse aqui:

"Vai lá pra dentro menino, vai lá pra dentro estudar.

É sempre essa lenga-lenga quando o que eu quero é brincar.

Eu sei que aprendo nos livros, eu sei que aprendo no estudo,

mas o mundo é variado, eu preciso conhecer tudo.

Há tanto pra conhecer, há tanto pra explorar.

Basta os olhos abrir e com o ouvido escutar.

Aprende isso o tempo todo, dentro e fora, pelo avesso.

Começando pelo fim, terminando no começo.

Se eu me fecho lá em casa numa tarde de calor,

como é que eu vou ver uma abelha? A catar pólen na flor.

Como eu vou saber da chuva se nunca me molhar.

Como eu vou sentir o sol se nunca me queimar.

Como eu vou saber da terra se eu nunca me sujar,

como eu vou saber das gentes se eu não aprender a gostar.

Quero ver com meus olhos, quero a vida até o fundo,

quero ter barros nos pés, eu quero aprender o mundo."

 

É isso aí. Aí aprendi a ser poeta. (risos)

Eu fiz o que é pra ser feito. Fala-se muito de inspiração, e você, Zé, que é poeta, o que é mesmo inspiração? Eu vivi num livro, num sonho e provavelmente dentro de mim tem uma série de coisas que pode aflorar, mas como aflorarão? Com esforço, pois tem que pescar dentro de si tudo que você sentiu, sofreu, chorou, riu, gargalhou, esperançou pra puxar pra fora. Essa capacidade só vêm do trabalho, você tem que tentar, você tem que sentar e insistir. Aquilo que eu falei do Pelé: se ele não treinasse feito um louco, mais que todos os colegas, talvez o talento dele não teria aparecido de maneira tão grande e tão fabulosa.

A arte é esforço. Será que a Meryl Streep sabe fazer aqueles grandes papéis assim, por fazer? Não, ela trabalha, ela estuda, ela vai atrás, se dedica, ela lê. Fazer arte, ser artista não é fácil. É muito gostoso, mas precisa de trabalho. Aliás, pra tudo precisa de trabalho.

 

P/1 - E como é o seu cotidiano, como é a vida de um escritor?

 

R - Olha, hoje em dia é muito complicado. Eu estou numa fase bastante difícil, a gente é muito exigido. Muito e-mail pra responder, há muito convite pra feiras, palestras, você administrar isso tudo. Porque eu vou no domingo, volto na sexta À noite, passo a semana inteira no Rio Grande do Sul visitando escolas, depois tem a feira de Belo Horizonte, não deu pra ir, deu erro de data entre mim e outros autores. Depois tem a feira de Ribeirão Preto, a Flip [Festa Literária Internacional de Paraty], você tem todas essas coisas no meio e tem que administrar a sua vida, você tem toda a vida e paga pra cá e cuida...

No fim, falta muito tempo pra escrever. Embora eu more numa chácara gostosa, se eu ficar quietinho eu ouço o passarinho cantando, viu? (canto de pássaros) Pois é. Mas eu não tenho a tranquilidade pra ficar pensando nisso. O telefone toca a toda hora. "Você não quer vir na cidade tal e dar uma palestra?" Só eu mesmo, pra ajudar não tem ninguém.

Cartas, eu tento responder com cartas padrão, tenho várias cartas padrão. Se tem uma elogiando a "Droga da Obediência" eu tenho uma resposta. Se for "Quero ser escritor" eu tenho outra resposta especial. "Tenho uma sugestão para um novo livro seu", eu tenho uma resposta especial. Já tudo impresso, eu boto no envelope e mando, não dá. Às vezes vêm muitas cartas. Agora diminui muito, o e-mail está começando a substituir. O correio deve estar com problemas porque não está faturando tanto. (risos) E-mails, muitos e-mails e tem projetos, colegas que fazem um projeto e pedem um conto, aí você faz um conto pra entrar numa antologia que um colega está fazendo.

Faz tempo que eu não estou produzindo um livro maior, mais longo. Isso está me incomodando, eu não sei como fazer. No começo eu escrevia muito porque não era conhecido, ninguém me conhecia. Eu ficava em casa o dia inteiro.

Quando comecei a fazer livros e eles começaram a vender, eu não aguentava mais [ser] editor, [Editora] Abril. Eu não sei comandar, eu sou ruim nisso. Aí eu falei pra minha mulher - grande orientadora educacional, tinha o seu salário… Falei: "Vou largar o emprego, vou largar tudo e viver de escrever." Eu não imaginava viver de direitos autorais, freelancer mesmo.  

 

P/1 - Isso com quantos anos?

 

R - Quando eu abandonei eu tinha 41 anos. Saí em 83, já tinha feito 41 anos e [era] diretor de marketing infantil da Abril.

 

P/1 - Você largou um cargo de diretor da Abril. Coragem, hein?

 

R - Mas o freelance era interessante, na época eu fui freelancer como modelo de televisão, de anúncio. Eu fiz milhares, centenas de comerciais. O que eu fazia de comercial era uma loucura e pagava legal. Um comercialzinho dava um mês de supermercado, dava legal. Daí você vai ficando mais velho, eu abandonei tudo. Mas eu podia fazer freelance de texto, não só viver de direito autoral, e talvez eu conseguisse um dinheiro - mesmo sendo um pouco menos, mas sendo mais feliz. Só que "A droga da obediência" explodiu de venda, "Cavalgando o arco-íris" vendeu muito bem, "A marca de uma lágrima" vendeu muito bem, aí comecei a fazer uns freelances, mas em alguns anos eu estava vendendo muitos exemplares.

Na época tinha um problema, havia muita inflação, então não dava de viver de direito autoral porque o dinheiro sumia. Inflação de sei lá quanto, quando você ia receber não valia nada o dinheiro. A partir de 94, com o Plano Real, você passa a receber o dinheiro que realmente recebeu e aí você não precisa mais… Posso viver de direito autoral. Mas eu não achava, foi um susto, eu não achava que ia dar certo. Achava que ia ser um freelancer.

 

P/1- Quer dizer, então foi "A droga da obediência" em 84, “Cavalgando” também. Então foi um marco na sua vida, esse período.

 

R - O fim de 83, 84 foi um marco. Logo em 86 sai "Feiurinha", que é um sucesso total, e "A marca de uma lágrima". Esses livros fazem sucesso total até hoje e "A marca" chegou a vender 100 mil exemplares em um ano. Hoje vendem vinte mil, mas vender vinte mil exemplares em um ano é uma marca estupenda. Ainda são os livros mais vendidos de algumas editoras, FTD, Moderna. "Feiurinha" até hoje vende vinte e tantos mil.

Vê quando acontece compra de governo vende um monte né. A "Feiurinha" uma vez vendeu quanto? Dois milhões de exemplares no tempo do Paulo Renato de Ministro. Vendeu dois milhões de exemplares, dois milhões e cento e tanto pra distribuição em escola, uma loucura. Claro quando é pra governo você ganha pouquinho porque o preço é bem baixo, mas, cara, dois milhões? Então dá pra viver, não luxuosamente, dá pra viver classe média boa e tranquila. O direito autoral me permitiu isso.

Outra coisa, é muito gostoso você trabalhar com criança e adolescente, trabalhando com o futuro. Você está trabalhando, é tão gostoso receber cartas, os e-mails que a gente recebe. Outro dia eu recebi um e-mail que me deixou tão feliz, uma menina que escreveu: "Pedro, eu sou promotora pública e até hoje, quando eu pego um processo e vou julgá-lo, eu digo: como um Kara julgaria esse processo?" Uma promotora pública.

 

P/1 - Isso é o melhor retorno.

 

R - O melhor retorno do mundo. Você é diretor de não sei o que… Valeu a pena? Não. Eu posso ganhar menos que um diretor da Abril ganha hoje, mas e daí? E outra coisa, quando eu morrer esses livros vão continuar. O Lobato morreu? Morreu nada, ele vive, cada vez mais vivo. O Shakespeare morreu? Machado de Assis morreu? Acho que não morreu. Morreu um pedacinho dele, o melhor dele continua vivo.

 

P/1- Eu queria que você falasse dos seus filhos e da relação deles com a literatura. Eles te inspiraram? Você escreveu pra eles?

 

R - Não muito, na verdade não. Na verdade não, porque os filhos vão crescendo e eu continuo escrevendo. Meus filhos todos [têm] acima de trinta anos e eu preciso escrever para alguém com doze. Os filhos ajudam pouco, eles passaram pelos doze muito depressa. Logo eles tinham treze e depois quatorze. (risos) Então não muito. Nem minhas netas, estão no meu colo e de repente já são mocinhas, não dá.

Você tem que estar focado, eu escrevo para as crianças de hoje. Eu não escrevo pras crianças que os meus filhos foram e nem pra criança que eu fui. Eu fui esta criança que está aqui, quer ver? Olha eu aqui com quatro anos de idade, eu até era bonitinho, nem usava bigode.

 

P/1- (risos)

 

R - (risos) Aqui estou eu, já de bigode. Não adianta, a criança que eu fui na cidade de Santos, na década de 50, 40, imagina. Isso é arqueologia, antropologia, não importa isso. Eu escrevo pras crianças que estão viva hoje. O meu leitor, hoje com trinta anos, eu escrevi pra quando ele tinha doze. Quando ele tem trinta, eu não escrevi pra isso, espero que ele dê meus livros pros filhos deles. Você tem que estar sempre focado no hoje.

Então, meu filho, as gerações passaram, leram meus filhos e agora pras minhas netas. Sabe, hoje eu dedico meus livros pras minhas netas, boto elas no colo quando elas vêm. "Vovô conta uma história pra eu dormir?" Aí vovô conta uma historinha pra dormir, canta pra dormir e é muito gostoso. E é gozado, elas decoram a história e eu esqueço a história, elas decoram. Eu começo a contar e elas: "Vovô, não é assim, vovô". Eu misturo as histórias e elas riem, aí não dormem, não conseguem dormir. (risos)

 

P/1- Você tem uma produção muito grande. Não dá pra abordar tudo, mas eu queria que a gente falasse um pouquinho então dos Karas, já que eles geraram o primeiro livro de sucesso. E o que acontece?

 

R - Pois é. As crianças inclusive, os leitores pedem que eu continue a saga dos Karas. E eu não sei, não tenho vontade, porque o tempo passou. O primeiro livro tem 25 anos, eu estou 25 anos mais velho, o mundo está 25 anos mais velho. Pra você ter uma ideia, quando eu escrevi não havia computador, não havia telefone celular, não havia iPod, i-não-pode, não havia nada disso. Blogs, chats, não tinha nada disso. As crianças pequenas levam celular na escola, elas vão de celular. Nas minhas histórias, o Chumbinho tem que falar, ele vai num orelhão. Os meninos entram pra ver os planos da droga da obediência e abrem aquelas gavetas de aço, arquivos de aço pra pegar pastas, imagina. E os Karas são aquilo.

Tem uma nova edição da "Droga da Obediência" [em que] eu mudei esse pedacinho: ao invés deles abrirem o arquivo eles ligam o computador do professor, veem o arquivo e leem lá. Eu até tentei, cheguei a escrever um livro chamado "A droga virtual", que ia basear-se em computador. Mas na hora que eu estava terminando de escrever o livro ele já estava ultrapassado - o computador já tinha mudado, não era mais aquilo. Tentei voltar e reescrever e ele também mudou, até que eu cheguei e “não dá”. Eu não posso ir atrás… Cheguei a conclusão de que o certo é escrever sobre aquilo que jamais muda, as emoções humanas.

Por que “Dom Casmurro” é um grande livro até hoje? Por que trata-se de um sujeito que adorava uma mulher que era muito superior a ele. Ele era um medíocre. Ele não podia entender como aquela mulher pudesse amá-lo, então aquele filho não pode ser dele; tem que ser do amigo dele, que era mais alegre e tudo o mais. É sobre o ciúme. (risos) Isso não acaba e jamais vai acabar.

Por que esta vivo Shakespeare até hoje? Ele escreveu sobre reis? Não. “Ricardo III” é sobre uma ambição desmedida, onde pode levar uma ambição que chega ao crime para obter seus desígnios. “Romeu e Julieta” vai morrer? Sempre vai haver um casal que se gosta e os pais não querem. E o desespero desse casal. Vai morrer “Otelo”? Nada disso morre porque eles não desataram, não do seu tempo, não desataram do ser humano. O ser humano não muda, por mais que a tecnologia mude. Não escreva sobre as tecnologias, escreva sobre as pessoas, tentem entrar…

Eu tento entrar no mundo de uma criança de doze anos, ela está quietinha. Aos doze anos ninguém fala com adulto, já notou? Ela fica quieta. Entre eles não param, não calam a boca, mas no meio de adulto eles ficam quietos, não falam nada. Estão só ouvindo. Eu tento olhar pra ele e ver o que se passa na cabeça dele pra fazer uma história pra ele que venha emocioná-lo. (suspiro) Poxa, que gostoso, que tesão você conseguir fazer isso.

Quando eu fui escrever "A marca de uma lágrima" eu quis fazer uma menina de quatorze anos apaixonada. Como é essa menina? Como é ela apaixonada? Eu já tive quatorze anos, já faz algum tempinho. Eu vivo apaixonado, mas nunca fui menina. Como é que é? Que gostoso fazer. E como é gostoso receber uma carta de volta de uma menina: "Poxa, você escreveu a minha vida, eu sou exatamente assim!, Que delícia. (risos)

Porque essa é a função de um artista. Shakespeare era um homem e não escreveu só Romeu, escreveu Julieta também. Julieta é um personagem mais bem desenhado até do que Romeu. Romeu é meio idiota, pra falar a verdade. Você vai escrever uma história? Bom, um homem escreveu "Madame Bovary", a história de uma mulher com um enorme tesão e [que] não está feliz com o seu marido.

 

P/1 - É verdade.

O Pedro é o entrevistado ideal, dá pra ficar dois dias entrevistando. (risos) Inclusive sobre futebol. Mas Pedro, vamos fazer uma rodada, falar de algumas curiosidades do seu livro. Por exemplo, qual foi o livro mais longo, que te deu mais trabalho de você terminar?

 

R - Olha, um livro pode te dar trabalho até sendo curto. O problema não é ser longo, talvez o que tenha me dado mais trabalho é aquele que exige muita pesquisa. "Pântano de sangue" é um livro [em] que eu tratei o problema da ecologia e eu situei no pantanal de Mato Grosso, então havia toda uma necessidade de conhecimentos da região. Por exemplo, o problema ecológico: eu quis dizer por que a ecologia lá está em risco, então isso tem que ser estudado, não pode chutar. Não só o desmatamento, a morte dos jacarés. Por que matar um jacaré é prejudicial, por quê? Qual a função do jacaré na cadeia alimentar? Isso tem que ser dito. A história de lá, o índio de lá, o que foi, o que ele é hoje. Como a população convive.

Eu me lembro que teve uma questão: o Miguel, protagonista das Drogas, ele tem que pegar um barco e ir para uma cidade A, para uma cidade B. Isso eu olho no mapa, então ele tinha como ele vai no barco, que barco. Qual a velocidade desse barco? Quanto tempo eu levaria da cidade A para a cidade B ? Quanto tempo leva um barco? Então você para o livro e vai atrás disso. Descobre qual o regime da velocidade da água, lá é um lugar meio plano, então os rios não são caudalosos. Não dá pra você ir rápido numa canoa, você tem que ir num barco a motor. Como é um barco a motor lá? É chamado corredeira, acho que sim... É voadeira, que é um barco até que meio levanta e faz “shiiii”. Tem tudo isso.

A piranha, se cai e como é que é o negócio da piranha? Tudo isso eu tive que estudar, então levei dois anos só de estudos, tive que ir a USP falar com um amigo meu de biologia, o escritor não pode saber tudo. Qual é sua especialidade? Não adianta ser especialista em alguma coisa, você fala da vida e a vida é tudo. A vida é política, tem sociologia, antropologia, tem biologia, tem tudo envolvido. E a psicologia principalmente, então você não pode se especializar numa coisa, todo livro exige uma pesquisa. O mais gostoso é quando você faz um livro só de fantasia. A fantasia é uma delícia porque você não precisa pesquisar, então “Feiurinha” foi uma delícia fazer. Foi uma maravilha, eu me lembro que eu inventei “Feiurinha”, eu sempre amei contos de fada. Eu sou filho dos contos de fada, porque eu adormeci no colo de minha mãe, que contava os contos de fadas pra mim. Minha primeira heroína, meu primeiro herói é a Branca de Neve. Meu primeiro vilão é o lobo da Chapeuzinho Vermelho ou a bruxa da Branca de Neve, porque eu adormeci de medo. Então eu amo aqueles personagens.

Tive a ideia: todos os livros de conto de fadas terminam com a heroína que casou-se com o príncipe encantado e eles foram felizes para sempre. O problema é: o que é ser feliz para sempre? A vida acaba no casamento ou ela começa? Como é a Branca de Neve e o Príncipe? Como é o passar do tempo com eles? O príncipe bonito, jovem, maravilhoso, começa a ficar barrigudinho, careca. E ela não vai ter filhos ou cabelos brancos? Então eu resolvi ir pro país das fadas, 25 anos depois do fim de todas as histórias em que todas as heroínas casaram com diferentes príncipes encantados para serem felizes para sempre. E lá fui encontrar uma senhora muito bonita, uma senhora com os cabelos negros como ébano, com fios brancos como a neve, o nome dela se chama dona Branca Encantado. O sobrenome dela de solteiro era “de Neve”, mas como ela se casou com o Príncipe Encantado ela passou a usar o sobrenome do marido. Ela tem várias cunhadas: tem a dona Cinderela Encantado, dona Rapunzel Encantado, dona Bela Adormecida Encantado, todas têm o mesmo sobrenome porque todas casaram com filhos da mesma família, a família Encantado, que só existia pra fornecer príncipe para casar com as heroínas de contos de fadas.

Todas, menos a dona Chapeuzinho Vermelho, coitadinha. Como não tinha príncipe na história dela, ela encalhou. Ficou solteirona, coitadinha, devia ter casado com o Lobo, alguém. (risos) Tadinha, solteira ela, gorda, ficava comendo os brioches que estão na cestinha que está levando pra vovó. (risos) Então eu criei essa história, essa situação. E até fiz uma primeira cena, uma cena engraçada: a dona Chapeuzinho chega no castelo da dona Branca Encantado e elas começaram a conversar. Fofoca de comadre e tudo o mais, cadê o príncipe? O príncipe está caçando e as crianças estão… As meninas na escola de dança e os meninos na escola de esgrima. É porque deve ser assim, filho de príncipe se educar. Mas eu não sabia como ia pra frente. E daí? A Chapeuzinho chega "Branca! Tenho uma fofoca enorme pra te contar" Travei aí. Na época, eu escrevia a lápis porque não tinha computador e escrever na máquina de escrever direto é muito ruim porque você não tem como corrigir. Escrevi a lápis e borracha pra poder apagar as quinas nos cantos, só usava a máquina de escrever para passar a limpo.

Travei e ficou na gaveta até que eu li um livro da Marisa Majolo em que ela tem uma epígrafe que é assim: "O livro é um objeto social, para que ele exista é preciso que alguém o escreva e alguém o leia". Ai eu falei: “Ahã, taí!” Um livro, ele não existe porque há um escritor, existe porque há um leitor. O que é um cantor se não tiver alguém que o ouça, o que é um pintor se não houver alguém para admirar o quadro que ele pinta? O que é um escritor se não houver alguém que o lê? Então eu criei um personagem que desaparece porque jamais foi escrito e, por não ter sido escrito, não há quem o leia e o torne eterno. Branca de Neve é eterna por quê? Porque está no livro e ela jamais deixará de existir, porque sempre haverá alguém lendo aquela história. Chapeuzinho vermelho é eterna, até o lobo é eterno porque é morto pelo caçador, agora que eu li. Ele ressurge amanhã, porque outra criança vai ler aquele exemplar.

Então eu criei um personagem que desapareceu porque jamais foi escrito, Feiurinha. Criei uma heroína de conto de fadas que não existe e que sumiu. E as princesas ficam desesperadas: “Como uma de nós sumiu? Se uma de nós desapareceu, significa que o encanto sobre o qual nós vivemos, que promete que a gente vai ser feliz para sempre, também pode desaparecer e nós podemos desaparecer!” Então elas vão em busca dessa personagem, procuram um autor pra que procure essa personagem. Esse autor não encontra e fica desesperado, até que a empregada da casa dele: "Ah, Feiurinha, eu conheço essa história. Minha avó me contava." Então as histórias ainda estão vivendo na tradição oral. A velha conta a história e ele começa a escrever, então o livro começa no capítulo zero, segundo capítulo é zero e meio, depois zero e ¾, depois zero e tal, quase caindo no um, até que o livro acaba no capítulo um.

“Era uma vez, há não sei quantos anos”... Vai mostrando a importância de você leitor, eu talvez você seja um leitor que está me vendo aqui e falo numa boa: “Se você não me ler, então quem eu sou? Eu só existo porque você me lê, porque você existe. Nós, artistas, existimos porque você precisa de arte, mas se você não me consumir, nós não existimos. Pra que nós servimos? O que adianta eu tocar violão pra mim mesmo? Eu compor uma canção no piano se ninguém vai ouvi-la, ninguém vai cantarolar depois? Ela existe porque alguém gosta dessa música. Tantas músicas foram feitas e se perderam, porque ninguém a consumiu. Quantos livros desapareceram porque ninguém os leu? Felizmente, há 35 anos você me lê, então eu existo e vou continuar existindo, mesmo depois que eu não estiver mais aqui.”



P/1- Nossa, essa foi sob medida. Eu tenho uma pergunta sob encomenda. De um leitor, ele te manda perguntar por que, qual é a história… Porque você resolveu escrever "O mistério da fábrica de livros"?

 

R - Ah, essa é muito legal. Bom, quando eu entrei com os dois pés no mercado, então passei a conviver muito com as editoras pra aprender, não só pra…

Eu já fazia isso, trabalhava nisso. Trabalhei como editor de livros, editor de revistas, conhecia gráfica. Mas eu fui ler mesmo, conhecer tudo o que havia e também acabei ficando muito amigo do dono de uma gráfica que publicava os meus livros, Wilson Civiero. Ficamos amigos, tomamos cerveja, um rapaz muito bacana.

Um dia a gráfica dele fez aniversário e ele teve a seguinte ideia: “Eu queria dar um brinde aos meus fornecedores, gerente de banco, e todo dono de empresa fica dando garrafa de whisky. Eu queria dar algo que marcasse. Como eu imprimo livros,  Pedro, eu gostaria de dar um livro que o meu fornecedor levasse pra casa pra dar pro seu filho, pra sua filha. Você não quer dar de presente pra mim? Eu te pago um fixo, a gente faz um livro bonito de capa dura.” Aí eu falei "Claro Wilson, nós somos amigos, faço sim!" No meio da cerveja, tomando, fazer o que? “Se você faz livros, vamos fazer a história de um livro. Como um livro é feito.” "Boa ideia! Vamos fazer um livro desde o papel, como o papel é fabricado até o momento de chegar na mão do leitor." Então foi uma farra, nós fomos, a Maristela foi junto, o ilustrador foi junto. Então fomos na fábrica de papel da Suzano e vimos desde a chegada do papel, ver as toras e madeira, como aquilo entra na máquina, como é moído, como a polpa de papel é feita e aí chegam as bobinas, que serão entregues à gráfica. Eu inventei uma personagem, a história de uma personagem: uma menininha muito novinha, tinha um menino que ela gostava.  Tinha um bosque de eucalipto e o menino tinha um canivetinho; fez um coração e colocou a inicial da menina e dele. Era um eucalipto e ela tinha um carinho muito especial por ele, ela chama de ‘meucalipto’. Um dia, ela fica triste com o namoradinho dela e vai procurar, vai pra aquele bosque perto da casa dela. "As árvores foram cortadas. Como cortaram o ‘meucalipto’!"

Havia um homem ali, carregando o caminhão com toras e ela briga: "Você destruiu a floresta!" E ele falou "Não, minha filha" e aí começa a história: "Esse eucalipto serve pra fazer papel, mais para cada eucalipto plantado são replantados dois novos eucaliptos. Então quanto mais papel se faz, mais as florestas de eucaliptos crescem." "Mas não!”

Ela acompanha e vai na fábrica de papel. É recebida pelo gerente da fábrica de papel, que mostra tudo… E ela tem a ideia de usar o papel pra contar a história do primeiro amor dela, então ela fala com o Wilson, que é dono da gráfica: "Faz um livro pra mim!" "Não, eu não posso fazer esse livro, eu preciso que alguém escreva esse livro. Tem um amigo meu chamado Pedro." Então ela procura o Pedro - o desenhista me caricaturou - ela me procura, conta a história pra mim, eu escrevo a história. "Agora eu vou levar pro Wilson." “Não, agora você leva pro ilustrador.” Ela vai na casa do ilustrador, que também se caricaturou, faz as ilustrações do livro, os originais são levados pra gráfica e o Wilson vai com a menina… Na época, ainda não tinha editoração eletrônica então leva pra fazer o fotolito, composição e tudo o mais. O livro fica pronto, ela leva o primeiro exemplar ao menino e eles fazem as pazes.

Isso foi feito só como brinde, mas o livro saiu bonitinho e o Wilson disse: "Vamos experimentar lançar no mercado?" “Tudo bem.” O livro está fazendo vinte anos esse ano e continua vivo. E a ideia da continuação, eu fiz. Que livro é esse que ela mandou escrever? "O primeiro amor de Laurinha", que eu acabei escrevendo, e um livro que vem antes desse - seria como os dois se conheceram.

Tem um [livro de] quando ela é pequenininha, que [se] chama "As cores de Laurinha", ensinando como as cores combinam. Todo mundo acha que tem muitas cores aqui, não sabem que são apenas quatro cores. Dessas combinações das quatro tintas que é o ciano, magenta, amarelo e preto você obtém todas as cores, então faz uma historinha: mistura o lápis azul com o lápis amarelo, vê que dá verde. Isso acontece nas cores. É um livro técnico, que eu achei que iria ser chato, no entanto o livro continua até hoje. Coisa estranha, né? E já está ultrapassado, porque não é mais assim que se fazem os livros.

Eu, inclusive, queria mostrar como a arte gráfica se baseou na arte plástica. Todos os livros em cores são feitos… Se você pegar uma lente, [é cheio] de pontinhos. Eles não misturam o amarelo com o azul. Eles põem o amarelo ao lado do azul e o seu olho vê verde. Se você olhar bem, só tem ponto de quatro cores ali. E por que dá tantas cores? Porque tem mais pontos vermelhos num ponto, menos no outro.

[Essa técnica] Foi criada ainda no século XIX pelos pontilhistas e pelos impressionistas. O Van Gogh não misturava as cores. Se você olha muito próximo, ele dá pinceladas lado a lado, de longe você vê as cores se misturarem. Eu queria aproveitar e começar a refazer esse livro, procurando botar reproduções pra ser também um livro de introdução às artes. É muito gostoso trabalhar no meu ramo, é uma delícia. É um tesão, a gente faz o que a gente quer.

 

P/1 - E Pedro como foi a transição da máquina de escrever pro computador?

 

R- Aí que tá. Eu sempre perdia muito tempo, eu sou muito caprichos, então você escreve e escreve. Eu me lembro na Abril que a gente datilografava, depois a gente cortava com estilete, escrevia um outro e colava com durex. O original da gente ficava tudo, sabe pra botar mais um parágrafo e tudo o mais.

Quando surge o computador eu corri pra tentar. Chamava-se TK3000. Na época, a ditadura cismou que o Brasil ia ser líder em computador e proibiu a importação de computadores pra ajudar um amigão dos milicos, que só ele podia fazer. Então ele fazia uma carroça horrorosa e o Brasil ficou muito atrasado em informática graças a ditadura militar, porque era proibido comprar na ditadura. Tinha várias carroças TK3000; era uma coisa ainda pré-Bill Gates, era um processador de texto.

O computador não tinha memória, era uma máquina que você tinha que entrar com um disco. Era um disco grande, molinho. Entrava com esse disco, aí ele lia o programa e você entrava com o disco de dados, que era com o texto que você estava escrevendo. Isso ajudava porque você pode pegar, cortar.

Eu lembro da dificuldade de comprar a primeira impressora. Eu tinha escrito "Pântano de Sangue", meu primeiro livro no computador. Só que eu não conseguia lê-lo porque eu não tinha grana pra comprar uma impressora que era importada, custava dois mil dólares porque tudo era muito caro. E era contrabandeado, vinha do Paraguai, eram aquelas coisas infernais.

Foi o primeiro livro que eu fiz. Eu escrevi em 1986, o livro saiu em 87. É possível que eu tenha escrito entre 85 e 86. Devo ter começado em 84 o "Pântano de Sangue", logo depois de eu ter feito "A Droga da Obediência". Logo antes eu já comecei a estudar o livro, já fazendo no computador. A partir desse livro, todo o resto. Mas antes, "A caravana do arco-íris", "A marca de uma lágrima", "A Droga da Obediência", _______, "É proibido miar", tudo isso foi feito ‘a mãozona’. “Feiurinha” foi escrito em máquina de escrever, tudo na munheca.

O computador é uma maravilha, você não perde tempo. Porque depois eu pegava tudo rabiscado e largava e “pa-pa-pa”, passava a limpo. Ia ler, já mexia, já rabiscava de novo. Então pra passar a limpo ‘n’ vezes, ufa, você levava um tempão. Quando eu trabalhava na Abril, a minha secretária [era] quem datilografava. Saí da Abril, perdi a secretaria. (risos)

 

P/1- Pedro, você contou então que a vida de escritor não é só escrever, tem um pedaço de escrever e tem um pedaço de viajar. Você sempre fez isso?

 

R - Sempre, desde o início. Não sei se é porque eu sou ator,  mas eu sou bom de palco. Às vezes faço palestras para mil professores e ninguém dorme em palestra minha. Ninguém dorme, eu seguro. Já fiz palestras pra 4500 professores de uma vez e tinha telão pra me ver. Seguro, faço palhaçada, declamo, canto e pulo, eu estudei.

Depois que eu resolvi me dedicar à criança e adolescente eu tive que conhecê-los um pouco mais teoricamente. O básico é sensibilidade e você tem. Fui ler educação, psicologia; o fato de minha mulher trabalhar com adolescentes me ajudou muito. Não no texto em si, mas no falar, “o jovem é assim”, “o jovem é assado”. A relação do jovem com o pai não é bem assim. Então até o próprio convívio dela, falar dos alunos da escola… Ela agora aposentou-se, mas me ensinava muito.

Um escritor, eu falo muito, tem que ouvir, você tem que aprender. E no fim eu acabei me tornando um pouco especialista em educação, então dou aula de educação sem falar em literatura, falando nos problemas da educação brasileira. Na minha opinião, você tem que parar de dar aula e mandar a criança ler e escrever. Porque tudo que você sabe você aprendeu sozinho. O bom professor, ele te estimula a passar o resto da vida aprendendo. Você acha que em cinquenta minutos de História você vai aprender toda a história do mundo? Vai nada. Se ele for bom, ele vai lhe estimular a tal ponto que você vai ficar interessado o resto da sua vida. Você vai pesquisar história, vai ler, vai atrás, procurar no jornal. É isso: ninguém te ensina nada, você vai aprender sozinho.

Eu não estudava, não. Fui mau aluno, só que na véspera de prova de Física eu tava lendo Shakespeare ou Machado de Assis. Eu varava a noite lendo e tentava decorar as falas do “Ricardo III” (risos). Agora estamos no inverno de nossa desesperança. Ai no dia seguinte eu colava e pronto. Dava pra tirar um cinquinho.

Então tudo o que eu sei, [eu] me fiz e é assim, o bom aluno é aquele que se faz. Eu tenho amigos meus que são médicos. Tem um que tem casa aqui, são médicos. Pô, eles ficam aqui o fim de semana inteiro estudando. Imagina se um médico parar de estudar? Imagina?

O diploma de médico o faz? Não faz nada. Ele não para de estudar, internet, não sei o que, as novidades. É uma loucura e assim é a vida.

Por que eu estou falando isso? Nem sei.

 

P/1- Por causa de você estar viajando pelo Brasil. Você deve ter muitas anedotas, você percorreu quase o Brasil inteiro. Você podia contar umas duas historinhas de contato seu com o público?

 

R - Esse contato, na verdade, é pouco produtivo pra mim porque eu vou levar, não buscar. Quando eu falo com mil pessoas, elas me ouvem, mas eu não ouço as mil. E rapidamente eu pego o voo e volto pra casa.

Os contatos maiores são aqueles contatos que eu faço pessoa a pessoa, com o meu leitor. Por carta, e-mails, o leitor me trata… Quando ele gosta de um autor ele passa a ter confiança nesse autor. Ele acha que esse autor sabe tudo. Passa a ser um confessor dele. E muitas vezes ele fala com você com mais franqueza do que fala com a mãe e o pai dele. Então muitas vezes a gente passa a consultor sentimental. "Ai, Pedro. Eu gosto tanto do Fábio da minha classe! Ele nem olha pra mim, o que que eu faço?" (risos) É uma delícia, isso. Agora tem coisas dramáticas tipo "Pedro, meu pai me bate muito." O que eu faço? Você vai responder “Foge de casa”? Porque a única saída é fugir de casa. E tem crianças pequenas que escrevem: "Pedro, eu quero uma bicicleta vermelha, me mande pro meu endereço." (risos) Ele quer vermelha, não de outra cor.

Tem uma maravilhosa, eu recentemente a conheci. Eu não conhecia, acompanhei muito. Ela, [quando era] menina, começou a me escrever e muitas ficam amigas para sempre. Tô cheio de amigos e até dedico meus livros a alguns. Umas pessoas ficaram amigas e mandam a foto do filho, convite de casamento. Eu tenho uma que mora na França, casou-se com um francês e até hoje me escreve. Tem uma carioca maravilhosa, foi para o Belém do Pará, casou-se e voltou pro Rio, sempre ela me manda fotos da Júlia, a menininha dela. Sempre acompanho a filha dela crescer.

A Janaína é um gênio, nossa! Pra você ver, eu fui numa escola [em] São João do Meriti - um lugar pobre, escola pública. Não sei como foi o contato grande, mas sei que depois, na quadra, eu estava encostado e tinha uma roda de adolescentes jovens. Tinha uma menina negra, olhou feio pra mim e disse: "Pedro, o que é a felicidade?" Eu falei: “Vem cá.” Ficamos amigos pra sempre. Uma menina bem pobre, que estudou no São João do Meriti. A escola é uma merda, claro que a escola é ruim, claro que era. E ela fez vestibular para três faculdades: passou em primeiro, terceiro e vigésimo quarto. Federal, um geninho. Perdi contato com a Janaína e agora ela me mandou uma foto com o filhinho dela, lindo o menino. Que gostoso.  

Teve uma do Rio Grande do Sul, ela começou a escrever pra mim quando criança e eu mandava carta, mandava livrinho pra ela… Sei lá se mandava ou ela comprava. Sei que a gente trocava ideia e ela foi crescendo, foi amadurecendo e eu a acompanhando. Eu guardei as cartas, quase todas. Até que ela começou, pintou o tal Fábio na vida dela. Passou o tempo, foi namorar, foi indo, até que ela me mandou uma carta: "Pedro, dei." Olha, que confiança! Ela falou da sua primeira experiência sexual. Eles confiam assim na gente, então a responsabilidade que a gente tem não é brincadeira.

Eu não sou artista, o artista maldito, sabe? Aquele cara que pinta pra sair na mídia. Na verdade, um escritor pra crianças e adolescentes não é tão livre como eventualmente o Plínio Marcos podia ser. O Plínio Marcos criou uma personagem de falar palavrão, de fumar, de dizer bobagem porque ele está falando com adultos e ele precisava aparecer na mídia. E eu não posso fazer isso [com] o meu leitor, não posso decepcioná-lo. Eu não posso pisar na bola que nem o Ronaldão, também ele não podia. O Ronalducho, mas é bacana. Você notou que esse evento não tirou o apetite dele?

 

P/1 - Não?

 

R - Ele continua gordo. (risos) Coitado, nunca vão perdoá-lo, esse dançou.

Estive agora na Itália com um casal de catalães, eram o Carlach e a Maria Rosa. Dizem que o Ronaldinho Gaúcho é da farra total, cheira todas e bebe todas. Ufa, eles são de Barcelona, torcem pro Barcelona e estão odiando o Ronaldinho Gaúcho. Diz que na cidadezinha onde ele mora, perto da praia, a cidade já perdeu a noite. Farra na casona que ele tem, imagina? Com a fortuna que ele tem, só farra e bagunça. Na hora que ele vai jogar, nem quer saber mais de bola.

Por que eu falo… Cada coisa no meio que não tem nada a ver.

 

P/1 - Responsabilidade com o público.

 

R - Claro. Por exemplo, pode ser um artista ou um ator, pode sair: “porque ele fuma maconha e não se pode” Ele é ator, mas ele é um grande ator. Ufa, você vê como ele é bom ator e pode?

Não, eu não posso. Claro que eu não sou nada disso, sou um homem de classe média.

Perguntaram se eu não ia escrever uma biografia. Que biografia? Uma vida boa de ficar em casa, escrever, ter filho e neto como qualquer um, não tem aventuras na minha vida. Mas a responsabilidade é muito grande eu não posso decepcionar essas pessoas. Eu sou uma pessoa com alguma esperança delas. Uma pessoa que a compreende. Que ela deve desobedecer sim, que ela tem os seus direitos sim. Tudo isso ela acredita, eu sou alguém que simboliza isso pra ela.

Pisar na bola vai ser ruim pra elas, inclusive até dos que estão adultos. Eu tenho que cuidar de mim, claro. Não faz o menor esforço porque sou o que sou e não vou mudar. Então perguntam: "Pedro, você não vai escrever um livro adulto?" Eu não posso. Se eu for escrever um livro adulto eu vou escrever para adultos com toda a liberdade que essa literatura me permitiria e ai vai ser ruim, eu vou quebrar um pouquinho da imagem. Não é o que eles têm de mim, não é que também eu não queira, porque quando você começa a se preocupar muito com uma faixa você acaba se alienando dentro daquela faixa. Eu só penso em histórias pra eles.

 

P/1 - Você escolheu.

 

R - Eu escolhi, há 35 anos. Mudar agora? Por que eu vou mudar? Não adianta.

Agora compraram a “Feiurinha” pra fazer cinema e me perguntaram: “Você não quer ser diretor?” Não. Eu já fui do teatro, eu já fui desse ramo, não sou mais. Você tem que ter a humildade de dizer: “não sou mais desse ramo.”

Dê pra alguém que saiba de cinema. Pega o meu livro, dê pra alguém, e eu não quero nem ler [o roteiro]. Não quero ler porque não vou gostar. Dizem isso: o autor nunca gosta. Eu não gosto de assistir. Gosto, são crianças, mas eu nunca acho que devia ser desse jeito; devia ser diferente, então eu prefiro nem ver.

Por que quando um livro sai, você que é autor, José, deve saber disso. Quando um livro sai da sua mão ele não é mais teu. No começo da minha carreira eu estava numa Bienal, alguma coisa assim, e passou uma criança com um livro meu, um livro infanti . Falei: "Que legalzinho, esse livro é meu.” "Não, é meu.. Ai falei, “Puxa, é mesmo, é dela.” É meu no sentido que eu que escrevi. Na hora que eu acabei de escrever não é mais meu, vai entrar na cabeça da criança e vai ser dela.

Eu me lembro, gostei muito da época que eu li “Gabriela” do Jorge Amado. O Valter Mancini fez uma novela na Globo e contratou a Sônia Braga pra fazer o papel. Eu fiquei decepcionadíssimo. Aquela nunca era a Gabriela, eu acho lindíssima a Sônia Braga, belíssima ela era, mas não era a Gabriela. Não era aquela baiana formosa de bunda grande. Fiquei decepcionado e vi uma entrevista do Mancini: "Mas que sorte que eu achei a Sônia Braga. É exatamente a Gabriela que eu imaginava." Cada um imagina o personagem como quer. Por isso eu não gosto, se você for ver os livros das drogas, os personagens não estão ilustrados. Eu não deixo ilustrar meus personagens.

Uma vez, eu recebi uma carta de Brasília, da cidade satélite, dizendo "Pedro, eu gostei muito de “A marca de uma lágrima”, mas tem uma coisa que me deixa triste e eu vou me queixar pra você. Por que você não escreve personagens negros? Eu sou negra." Mas, meu amor, de que cor é a Isabel? Eu não disse de que cor é, ela nem está pintada. Pode ser qualquer coisa, pode ser preto, branco, azul, verde.

É que a menina está tão acostumada a ser tratada como um ser que não merece nem história. Por que a Isabel de "A marca de uma lágrima" não pode ser preta? Ou japonesa, ou nissei? Então eu não gosto que ilustrem porque as pessoas se decepcionam. “O Chumbinho, ele não era assim”, então não pode desenhar o chumbinho. Eu só desenho mão, só deixo desenhar mão de alguém pegando não sei o que, uma algema, entendeu? A sombra de alguém… Eu não deixo desenhar o personagem.

 

P/1 - Hum, esclarecedor.

 

R - O personagem é do leitor. Por que se você for ler com cuidado os meus livros, eu me preocupo. Estou querendo fazer um livro de teoria. Quero discutir a maneira pela qual eu trato o foco narrativo, que eu acho que é a coisa principal na leitura dirigida pra criança ou adolescente. E eu estou querendo trabalhar nesse sentido.

Poxa, mas eu ia falar sobre isso? Eu estava falando sobre o que mesmo?

 

P/2 - Os seus personagens que não são desenhados, ficam mais universais.

 

R - Exatamente. Quero discutir isso. Um livro pra mim tem que ser um espelho, pro leitor gostar ele tem que abrir [e pensar]: “Olha eu aqui.” Uma obra de arte boa fala no teu emocional, pra tua alma. Se eu não passei por isso, poderia ter passado. Eu me emociono com a história do “Romeu e Julieta” por quê? Porque eu poderia ter passado por aquela situação. É um sentimento que eu tenho dentro de mim. Se eu for ver “Macbeth”, [você pensa]: “Nossa, eu sei o que é ambição. Tá vendo onde leva a ambição? Eu também tenho meus momentos de ambição.” E aquilo é uma lição pra mim: “Opa, eu posso quebrar a cara se eu for com tanta sede para realizar minha ambição, como foi Macbeth.” Quando uma leitora lê a história de uma menina que tem preconceito, que se acha gorda, que se acha feia, que acha que ninguém vai gostar dela e que tem os preconceitos que todo o adolescente sempre tem, e que depois dá certo. Eu mostro pra ela: “Tá vendo? Você vai dar certo.”

“Por que, Pedro, suas histórias têm sempre um final feliz?” Porque se eu escrevesse um personagem que, apesar das dificuldades, fez tudo certo, lutou, se virou… Eu tenho que mostrar que no fim ele [se] sai bem porque essa é a vida, eu quero mostrar pro meu leitor: “Sua vida é assim. Se você lutar e se você fizer a coisa certa, se você procurar acertar… Às vezes você vai errar, aceita o erro e vai. Vai dar certo, vai haver final feliz pra você.”

Pra você, leitor, se eu faço um sujeito... Sabe o Ulisses? O Ulisses quer voltar pra Ítaca, então ele quer encontrar Penélope. Aí ele sai, pega o navio, encontra as sereias e resiste ao canto das sereias amarrado num mastro. Depois ele encontra um gigante com um olho só, e tenta comer ele. Ele mata o gigante, passa por mil problemas, aí chega em Ítaca e encontra o Antino. Antino pega uma espada e o mata. Tem lógica? Não.

Homero escreveu a Odisseia. Na vida é isso, Odisseu vai passar, mas ele faz sempre a coisa certa pra chegar no fim e recuperar sua mulher e seu filho, e afastar os pretendentes de Penélope. Então há um final feliz no fim da Odisseia. Porque esse final feliz é lógico.

Se eu escrever a história de um vilão como escreve Dostoievski com Raskólnikov… Raskólnikov é um jovem que assassina cruelmente uma velhinha e fica o tempo todo naquela filosofia pra se justificar. Ele não pode no fim sair e se casar com a Gisele Bündchen, no final do livro. Ele tem que ser punido, porque é lógico. O que fez Dostoievski? Dostoievski está mostrando, ele discute o limite entre o certo e o errado. A necessidade de dinheiro do Raskólnikov vai até o ponto [em] que ele não pode destruir alguém pra ter dinheiro, então é certo que ele seja punido no final. Esse tipo de lógica tem que ter. Vai fazer um final feliz porque eu sou um babacão? Não, porque há uma lógica no texto e isso você vê nas grandes literaturas.

Por que no final triste morre Dom Quixote? Porque Dom Quixote está errado; apesar dele ser um homem bom, ele está fora do seu tempo. Nunca mais voltará o tempo das cavalarias. O mundo já é burguês, já é diferente. O mundo é dos Sanchos Panças, não mais do Dom Quixote, então é natural que no final, ele, velho na cama, morra. Não é bem o final infeliz, é o final normal de um velho morrer, mas o que faz ele, o Cervantes, é lógico, não podia eternizar. Vai voltar a cavalaria? Não vai mais.

“Não adianta, Pedro, você ter saudade da máquina de escrever, hoje é computador.” Dom Quixote está vivo, Dom Quixote sou eu que não consigo me adaptar ao controle remoto da televisão. (risos) Preciso da minha neta pra saber onde apertar o botão. Não é verdade? Então isso é muito importante e por isso eu estou tentando trabalhar um pouco isso, trabalhar o foco narrativo, trabalhar como eu conto tudo o que acontece no mundo. É testemunhado por todas as pessoas, seja ela uma criança, um adulto, um velho.

Eu quero escrever um livro, vamos dizer, sobre um casal que há muito tempo está casado e não se dá bem. Já vive às turras, brigando, já se agredindo, até fisicamente e quer separar. Esse enredo, se for bem escrito, seria indicado para quem? Naturalmente para adultos, para pessoas casadas. Se esse for um bom livro, será um livro adulto. Mas quer ver essa mesma história, usando como protagonista uma menina de doze anos que é filha desse casal? Ela está no quarto, fechada, deitada no travesseiro, ouvindo os pais brigando lá fora. E ela chora: "Meu Deus, meus pais vão se separar." Certo, eu posso escrever um romance adolescente, o fato é o mesmo. Mas eu posso narrar a partir do cachorrinho da casa, que acha absurdo os dois velhos malucos jogando prato de macarrão no outro, eu posso fazer uma historinha engraçadinha para criança pequena. A história é a mesma, o que eu mudei? O foco narrativo, a posição da visada da história. Então eu quero trabalhar isso. Eu quero mostrar como às vezes uma história pode ficar melhor se ela for contada na terceira pessoa.

Vamos supor, uma história como “Moby Dick”. “Moby Dick” é narrada por um grumete de um navio baleeiro, que tinha uma perna de pau e que foi atrás de uma baleia branca, chamada Moby Dick. Esse navio acabou e todo mundo morreu, menos esse rapazinho, um menino que deu na praia e está contando a história. Veja, mudou totalmente.

Quem é exatamente o capitão Ahab da perna de pau? É aquela pessoa ou a pessoa que os olhos desse menino viram? Muito mais que real, muito mais impressionante, porque ele foi narrado por um jovenzinho, um grumete ignorante. Aliás, ele fica no navio vendo pouco o capitão, mas ouvindo falar do capitão e ouvindo a perna de pau dele, toc, toc, toc no tombadilho. Uau, deu muito mais clima, não deu? Do que se fosse o narrador onisciente, aquele que fala "Havia um capitão, sabe um capitão? Que tinha uma perna de pau e ele queria muito matar uma baleia." A história talvez não seria o clássico que é Moby Dick, então veja, isso é uma lição, não só pra quem quer escrever como até pra quem quer ler. Você saboreia mais.

O próprio John Huston filmou o Moby Dick com Gregory Peck num papel espetacular. E o narrador, Richard Basehart, fazendo o Ismael. O filme é lindo, começa com "Call me Ismael", pode me chamar de Ismael. “Eu, quando era jovem, fui num barco, peguei esse emprego” e conta a história. Ele narra e o Gregory Peck faz mesmo um capitão Ahab maluco; parece um gigante, mas quem é? Ninguém é assim, peraí. É a imagem do Ismael narrando. E o John Huston fez isso em cinema também, você aproveitará mais bem o filme se você assistir percebendo como está sendo narrada a história.

E tem isso, o Mulligan também com o mesmo Gregory Peck… Proponho a vocês que peguem na locadora chama "O sol é para todos". É uma história passada no sul dos Estados Unidos, um filme sobre racismo.  E o protagonista é um advogado que vai defender um negro que está sendo injustamente acusado de estupro, só que a história é narrada pela filha dele, de sete anos. Então quando está acontecendo o julgamento, não aparece o julgamento porque a menina não pode entrar lá. As três crianças ficam no ombro do outro pra olhar pela bandeira da porta pra ver o que está acontecendo. É linda a narrativa e o personagem está sendo narrado pela moça já adulta, lembrando do seu tempo - o pai já morreu e o Gregory Peck só falta ser Deus. Está sendo narrado pela filhinha, é claro que é a pessoa mais importante do mundo. A representação do Gregory, ele não é um ser humano, a imagem da filha dele, da admiração que a filha tinha por aquele pai. Que beleza.

Existe esse livro publicado pela Companhia, mas pela leitura nacional foi distribuído pela Record. Procurem ler, agora pega na locadora que você vai ver. Ele pegou uma menina… Aliás, ela até foi candidata ao Oscar porque ela está genial, a garotinha. Uma beleza.

 

P/1- “O sol é para todos”?

 

R- “O sol é para todos”, do Robert Mulligan, o diretor, com o Gregory Peck. Pega na locadora, esse tem. Esse tem fácil e é brilhante o filme.

Veja só, esse é o meu pulo do gato. Quando eu narro a Isabel… Se eu sou um adulto, “coitadinha, menina de quatorze anos, ela tem preconceitos. Acho que ela tem espinha, sofre porque quer namorar o garoto.” Fica um livro chatíssimo, então fica o narrador ao lado dela, que só sabe o que ela sabe, como se fosse em primeira pessoa. Eu não opino nada, deixo que o leitor pense. Ela começa falando com o espelho. O espelho diz que ela é feia, e ela sofre.

É quase um filme, só mostro isso, tudo a partir dela. Não há nenhum… Todos os coadjuvantes só aparecem quando estão com ela. Não é multifocal. Eu não digo: “Enquanto isso…” Uma história de fadas é multifocal, “Branca de Neve não sei o que”, “Enquanto isso, na caverna dos sete anões”, “Enquanto isso, no castelo, a rainha estava se transformando em bruxa.” Você vê que é multifocal. É uma história ampla, é um personagem narrador que está em todos os cantos: ele está no castelo da rainha, na mina dos sete anões, junto com a Branca de Neve, ele está em tudo. E se você fosse narrar a história… Vamos dizer, a Chapeuzinho Vermelho: que tal você narrar a história a partir do lobo? Assim: "Pois é, eu estava na floresta, morto de fome e de repente veio uma menina.” É outra história. E se você narra a história a partir do Zangado? "Pois é, eu estava lá na mina com aqueles meus irmãozinhos, todos vagabundos. Não fazem nada, eu tenho que fazer tudo. Cheguei em casa cansado  e tem uma menina deitada nas nossas caminhas. Ainda manda a gente tomar banho." É outra história, então você escolhe como vai contar.

Toda a história é boa ou não, depende de como contar. Se você for analisar a minha obra você vai ver como procurei esse tipo de coisa o tempo todo. Sem julgar, sem aquela posição de cima pra baixo, que o jovem odeia: é a profissão do professor, do papai e da mamãe, que têm que ensinar as coisas pra ele. Eu venho pra baixo, “mais respeito que eu sou criança”. Não é o Pedro Bandeira poeta dizendo, “respeita criançinhas”. Não, [é] ela falando: "Eu também sou gente, qual é?" Por isso eles gostam.

A poesia, sem querer pichar, mas criticando a questão do foco narrativo, por exemplo a poesia da bailarina da Cecília Meireles. Ela diz " Essa menina, tão pequenina quer ser bailarina. Não sabe nem dó nem ré, mas fica na ponta do pé. Não sabe não sei o que e quer não sei o que." No fim vai dormir como todas as crianças. Pô, está criticando o fato de uma menina sonhar em ser bailarina? Ta criticando que ela não sabe nem dó nem ré, “que idiota”? Tá chamando a criança de idiota por que ela sonha? Poxa, o leitor não vai gostar dessa poesia, ele também quer o direito de sonhar, porque não?

Eu vou dizer ”esse menino quer ser jogador que nem o Ronaldinho” e “ele nem sabe chutar a bola”. Você acha que ele vai gostar dessa poesia? Eu tenho que dizer: “Ele pula, ele fez um gol de placa” e tal. Na verdade o goleiro é o ursinho que ele pôs ali, entendeu? Essa poesia vai agradar. Este é o pulo do gato.

Eu quero escrever isso, vou escrever com parceria com a Marisa.

 

P/1 - Nós vamos entrevistar a Marisa, porque ela é uma grande...

 

R - Vai? Faça isso! Nossa, ela é maravilhosa e está cada vez melhor.

 

P/1- Pedro, nós estamos chegando aqui no fim da entrevista, você tem seu compromisso agora. E Thiago, você tem alguma pergunta? Eu tenho então duas pra finalizar.

 

R - Diga.

 

P/1 - Você, que adora Vinícius, podia falar um início de livro seu que você gosta.

 

R - Hum… Nossa, eu tenho tantos. Deixa eu ver uma…

Eu tenho um… Também é uma preocupação, eu não sei se vou falar “de cor”... Eu tenho uma preocupação com a facilidade de leitura. Eu aprendi que a criança que está mal alfabetizada e lê mal, ela compreende melhor um texto mais bem organizado como, por exemplo, um poema. Uma poesia já traz em si a musicalidade natural da língua falada. Prosa não, é mais difícil de ler porque a prosa não tem a musicalidade da língua; você tem que saber ler aquilo, tem que saber onde na frase tem mais ênfase, menos ênfase, onde está a pausa, onde você respira, dar ênfase à interrogação ou exclamação ou ao prolongamento dos três pontinhos, das reticências. É difícil ler.

Um poema é mais fácil: "Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão." É a respiração natural da língua. Por isso eu procuro… Tem muitas histórias que eu faço histórias narradas em versos, como “Malasarte”. Às vezes, eu procuro fazer os primeiros parágrafos, quando eu quero pegar o leitor menor, cadenciado como se fala. É uma prosa, sem que a criança note que ele está metrificada.

Como é? Deixa eu me lembrar de como começo o ”Gente de estimação”. Eu falo... Ele está… Eu metrifiquei em redondilha maior, sem rimar. Está metrificado em redondilha maior e colocado num parágrafo, pra claramente a criança entender e continuar.

O primeiro parágrafo de um livro é tudo; se você faz o primeiro parágrafo chato, você quer morrer. Aquele primeiro parágrafo do Gabriel Garcia Marquez [em] “Cem anos de solidão”, ele disse que demorou meses pra fazer o primeiro parágrafo, que é lindo. "Só no momento em que estava na frente do pelotão de fuzilamento, Aureliano um dia lembrou-se do dia em que seu pai o levou para conhecer o gelo." Poxa, aí você não para. Ele já estava na frente do pelotão de fuzilamento e voltou à infância pra conhecer o gelo, então ele já mostrou que morava num lugar extremamente atrasado, [em] que não se conhecia nem gelo, era tudo o que ele disse. Cara, você quer conhecer o recheio o que está no miolo disso! Então essa preocupação minha do primeiro parágrafo…

Claro, quando eu escrevo já tem o primeiro parágrafo e eu sempre vou voltar a ele, para que ele seja forte, como no "A marca de uma lágrima". “Era o seu pior inimigo. ‘Feia”, “Ó, não diga isso.’ ‘Horrorosa’” - você não sabe o que está acontecendo, você leva um tempão pra descobrir que ela está se olhando no espelho e se odiando. Pô, você não quer ver onde é que vai isso? Se eu não fizesse assim, talvez você não pegasse no pé e um leitor jovem tem que ser pego pelo pé, senão ele abandona a leitura, com todo o direito. Se você liga a televisão e o programa está chato, você obriga a assistir? Você muda o canal ou desliga, não é verdade? Um livro é igual. A gente só não sai do cinema porque já pagou o ingresso, mas às vezes o filme: "Isso não vai rolar." Você não sente, às vezes? Raramente você levanta, mas dá vontade de levantar, não dá? Em outros casos, por que você não vai fechar o livro e fazer outra coisa melhor na sua vida? Não é verdade?

Jogo de futebol parece que está chato, mas pode ser que saia um lance, então você continua assistindo. Mas uma narrativa não, se não te pegou... Então é muito importante, é uma das minhas preocupações, o primeiro parágrafo. Depende de que leitor que eu quero pegar e como eu quero pegar. Gente, escrever, todo mundo pensa em ter uma boa ideia, Que nada, ideia não é nada; é “como”, é a forma.

A forma é tudo pra escrever. Grandes livros querem dizer grandes enredos? Enredo nenhum: “Dom Quixote” qual o enredo? Qual o enredo de “Dom Casmurro”? O sujeito casado, ficou com ciúmes no final e separou da mulher, aí encontrou um cara no trem e conta tudo isso. Essa é a história de “Dom Casmurro”, tá certo?

 

P/1 - Pior que é. (risos)

 

R - Tem aquela história do sujeito que queria um beijo da mãe, ficou muito chateado e à tarde foi buscar uma xícara de chá. É "Em busca do tempo perdido" de Proust. (risos) Sete volumes. Não é verdade? Então é o “como”.

Quando você diz que um filme é bom é porque o enredo é bom? Toda a forma está bem feita: os atores são bons, a iluminação está boa, o diálogo é bom, o diretor soube montar, é tudo. É tudo um “como”, a arte é “como”. Por que é bom o quadro do Van Gogh? Por que ele escolheu a paisagem? Não, porque como ele pintou a paisagem. É isso aí.

 

P/1 - Então, pra terminar a gente faz essa pergunta pra todo mundo: exatamente o que você achou de contar um pouquinho da sua história pro Museu da Pessoa?

 

R - Eu gosto do que seja o Museu da Pessoa, porque você me escolheu e disse assim "Pedro Bandeira, você é uma pessoa." É difícil ser uma pessoa, é difícil alcançar o direito de dizer "eu sou alguém". Você é alguém por que nasceu? Por que você mamou no seio da mãe? Alimentou-se, cresceu e morreu ou você deixou alguma coisa? O fato de você ter chegado nesse lugar chamado vida, vai deixar alguma coisa pros outros. Nesse momento é muito orgulho você dizer: "Pedro, você é uma pessoa". Obrigado por me considerar alguém. Beijo.





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