Busca avançada



Criar

História

A luta de quem não se omite

História de: Eduardo Calero da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Eduardo Calero da Silva relembra momentos marcantes de sua vida, principalmente, sobre seu engajamento político, fala sobre suas prisões por organizar movimentos e trabalhadores, relembra como foi eleito vereador e como criou a Associação Brasileira de Ética Política e também fala sobre seus tempos como metalúrgico. Por fim, pede para que a nova geração nunca se omita para que consiga um país melhor.

Tags

História completa

P/1 - Onde o senhor nasceu?

 

R - Eu nasci em São Paulo, mais precisamente na Penha, no dia 23 de outubro de 1923. Meu pai veio da Espanha com 17 anos, chamava-se Eduardo Calero da Silva, e minha mãe nasceu aqui na Freguesia do Ó, filha de portugueses chamava-se Amélia da Silva. Eu nasci numa época em que o Estado de São Paulo, o Brasil todo, mas principalmente o Estado de São Paulo passava por uma crise, dado que a economia Brasileira na época era o café, e o café vinha fracassando nas suas vendas, razão pela qual houve o tenentismo, chamada fase Tenentista, por exemplo XVIII do Forte de Copacabana em 1922, eu nasci em 1923, em 1924 estourou o Novo Movimento Armado, em que acabou acontecendo o movimento chamado de Coluna Prestes que foi até 1927, em razão deste movimento armado, mamãe perdeu o leite, e eu tive que ser criado com leite condensado, papai dizia que andou três léguas e meia para conseguir achar em uma vendinha na Serra da Mantiqueira três latinhas de leite, então tinha que enganar _____ a água um pouquinho porque não sabia até quando aquele leite ia durar, não sabia até onde ia o movimento, se o leite ia aguentar, papai contava que deitou e ouvia barulho no quintal a noite, abria a janela e espiava, e só via... Naquele tempo falava-se Cabeça Chata né, porque usavam uns bonés que tinha arame, no dia seguinte, cedo, quando papai levantou tinha 64 canhões no nosso quintal, então papai fugiu lá pra Guarulhos que tinha lá umas oito ou dez casas. Em 1930, Getúlio assumiu o poder, e em 1931 seria o ano em que eu deveria ir para a escola, mas devido a todo aquele movimento armado, eu não consegui vaga, eu fui conseguir vaga em 1932, só no fim de abril, que aumentaram mais uma carteira em cada sala, em cada fileira da sala, ai que eu consegui, por azar quando foi no dia 9 de julho, estoura a Revolução Constitucionalista de 1932. Fiquei 2 meses sem escola.

Se for somar não da falta de 6 meses de escola, mas se for somar não dá seis meses de escola, passei para o segundo ano, mas devido à crise que existia em São Paulo, papai vendeu a casinha que tínhamos e comprou três alqueires e meio para lá de Sorocaba que chamava-se na época Campo Largo de Sorocaba, hoje somos Araçoiaba da Serra e o resto da minha escola foi o rabo da enxada.

Aos 19 anos voltei para São Paulo...

 

P/1 - Espera aí, perdão vamos voltar um pouco na sua infância, como é que foi a sua infância? Como é que foi você como menino...?

 

R- Minha infância foi bastante triste pelo seguinte, faltavam nove dias para eu completar três anos, mamãe faleceu. Então me criei sem mãe, durante um ano e pouco veio uma tia minha morar junto conosco porque a minha irmã mais velha, é cinco anos e meio mais velha que eu, portanto estava com 8 anos e ainda não dava conta do recado. Então, essa minha tia ficou um ano e meio com a gente lá, aí depois ela também foi embora, eles também estavam com problema de casa, e construíram uma casinha, tá? E ela foi, aí nessa altura minha irmã já tinha quase 10 anos e aí a minha mãe foi minha irmã. E o meu irmão que era entre ela e eu, mais velho que eu 2 anos, já falecido, durante o dia ficava na casa do meu avô, que só tinha uma casa no meio a outra de cima era do meu avô e o meu tio mais velho era sapateiro, meu irmão ficava lá o dia inteiro, só ia para escola, voltava e só vinha dormir em casa, então era eu e minha irmã. A minha vida foi trancado dentro de casa, eu não fui moleque de rua que nem os outros não. E do pouquinho tempo que eu fui na escola era aquilo, vai para escola e volta da escola, quando vi já estava habituado assim, fui obrigado ficar dentro de casa, então eu ficava inventando coisas em casa, então um dia papai chegou a dizer “Esse meu filho vai ser engenheiro” (choro). Pra engenheiro o que conta é a escola, nada com ele que eu faria _____. Que eu lembro meu pai, foi pai e mãe, foi bem. Então a minha infância foi isso que eu estou dizendo, uma infância dentro de um quintal inventando coisa, porque até coleguinha a minha irmã tinha medo que viesse lá com tudo que se falava na época. E não tinha uma pessoa maior em casa para tomar conta da casa. Eu acho que é isso...

 

P/1 - Tá bom, o senhor estava falando que aos 19 anos...

 

R- É, aos 19 anos eu voltei para São Paulo, profissão puxador de enxada, então o único lugar que a gente conseguiu serviço era em bar, trabalhei em bar aproximadamente 4 anos, cheguei a ser gerente de três bares de São Paulo, mas eu vi que bar só dava para o dono, o resto é sempre aquilo, e daquilo não sai, então parti para metalurgia. Trabalhei o resto... Quase todo o resto do tempo em metalurgia, houve um tempo que eu voltei a trabalhar em comércio, mas foi uma questão familiar esse meu irmão comprou um bar de sócio e o sócio dele ficou doente, então fui lá para dar uma mão até quando, depois voltei para a metalurgia de novo. Na metalurgia, cheguei numa firma só, a ser encarregado geral por mais de 2 anos, e me aposentei como metalúrgico. Infelizmente porquê... Eu acho que vocês conhecem bem, o Brasil todo conhece bem, qual é a situação do aposentado. Esperamos que um dia melhore, né. Porque até o 147 ainda não está completa, essa que é a verdade.

 

P/1 - Aí aos 19 anos o senhor veio para São Paulo, e em São Paulo o senhor morava com quem?

 

R- Quando eu vim para São Paulo eu fui morar com meus avós, aí eu fiquei com meus avós acho que uns três anos. E então aconteceu algumas coisas lá na família, eu achei que não estava muito bom, peguei e saí, fui morar em uma pensão. Aí aconteceu um fator curioso nessa pensão, eu morava na pensão e trabalhava pertinho da pensão, pensão era na Avenida Celso (Venâncio?) Garcia e eu trabalhava na Rua Tuiuti ali pertinho. E um dia lá o homem me mandou embora, acredito eu que tenha sido por políticas, mas alegaram que não né, mas tá tudo bem, de fato o serviço tinha diminuído, mas que precisava me mandar embora. E exatamente quando ele me mandou embora que eu estava procurando serviço, o cozinheiro Domingo saiu da cozinha da pensão e até hoje não voltou, então eu tinha falado que em casa eu que cozinhava, eu ia conversando com um dos donos, que eram três, eu falei que me criei sem mãe, quando minha irmã ficava doente, aí ele foi lá e me tirou da cama, e lá fui eu, fiquei dois anos e meio de cozinheiro. Bom, aí eu tive um problema no estômago, eu cheguei a cair na rua três vezes. Tirava chapa e não dava nada etc,etc e etc. Aí o médico chegou à conclusão que eu estava... Na chapa deu que o meu estômago é (cascatoso?) e o que estava me prejudicando era o carbono dos combustíveis dos veículos, as três vezes foi em esquina, exatamente quando o farol estava fechado que da aquela sobrecarga, então ele me recomendou que eu fosse para um lugar que tivesse pouco movimento. Eu tinha estado uma vez em Araraquara, e eu considerei uma cidade morta do ponto de vista movimento, lá não tinha mesmo movimento nenhum, então vim pra Araraquara, em Araraquara propriamente dito na cidade, serviço lá é um negócio difícil. Trabalhei de vendedor, não se ganhava nada, até que fui para a Américo Brasiliense que era um distrito de Araraquara, hoje é município emancipado, aí lá eu consegui trabalhar direito, voltar a trabalhar no Metalúrgico, voltei a metalurgia. De Américo Brasiliense, então tinha uma firma aqui em Barão Geraldo distrito de Campinas, que tinha pego uma fábrica muito grande para fazer da Bahia (FiSiBa?), Fibra Sintética da Bahia, estava com muito serviço, então o rapaz que é cunhado do dono e me conhecia, nós havíamos trabalhado junto na Usina São Martinho, lá perto de Ribeirão Preto, insistiu tanto que eu acabei vindo para Campinas para trabalhar nessa (mesma?) que chama-se Kleber.

 

P/1- O senhor tem uma ligação muito grande com a política, né? Como é que começou essa história de ficar rico lá?

 

R- Nossa história é... Eu com 6 anos, o meu tio esse que era sapateiro, era anarquista, naquele tempo era anarquismo, então eu com sete anos já lia, e o meu irmão era duro de aprender as coisas e o meu pai ficava marretando ali, meu pai ensinava ele e quem aprendia era eu, com 7 anos já lia, uns jornais chamado (Afled?) e tinha um outro A Lanterna, que eu não sei se era semanal ou mensal, eu sei que aquele aparecia de vez em quando, que ele era mais pesado que o (Afled?), que era mais diário, né? E eu fui pro mato, mas eu sempre pensava naquele negócio que eu tinha lido, inclusive de vez em quando, quando papai vinha à São Paulo, eu mesmo vim durante o tempo que morei lá eu vim duas vezes, papai levava lá uma porção de jornais, e ali eu já lia. Então quando acabou a guerra, eu já quando vim de lá, eu já queria falar “não, eu quero ver como é que se faz negócio de partido comunista”, que eu sabia que tinha mas...bom quando acabou a guerra então ai abriu o Partido Comunista, eu fui, só que eu não entrei no Partido Comunista, os comitês distritais (que eram uma farsa?) e também existiam os tais comitês democrático popular. Entrei no comitê democrático, não era o mesmo comitê, porque teoricamente eu já tinha algo na cabeça, mas organicamente eu não entendia coisa nenhuma, então... Pra encurtar a história, ai eu votei nos candidatos dos comunistas, votei no Iedo Fiúza para Presidente da República, no Luiz Carlos Prestes a Senador e no Dr. Milton Caires de Brito para Deputado Federal, isto dia 2 de Dezembro de 1945. Eu só fui entrar em fevereiro de 46 no partido, ai que eu vi que tinha entrado em um negócio que não era bem aquele, se bem que fazia pouco tempo, há uns cinco seis meses que eu fiquei lá. Dali então, veio o fechamento do partido ou melhor, antes do fechamento do partido um dia eu estava pregando cartaz do _____ que Partido Comunista apoiou _____ e lá vou eu em cana, dia 13 de Janeiro de 47.

Aí em Maio de 47 fecharam o partido ai fomos lá escrever morra Dutra, Fora Dutra, abaixo ao Dutra porque ele que fechou o partido, e lá vou eu preso de novo, bom... E depois eu fui preso outra vez no dia da morte do Getúlio, que eu até tenho uma fotografia aqui, que no dia primeiro de maio de 1954, peguei uma porção de jornais mais velho e mais novo, analisei e falei “O Getúlio não vai chegar no fim do mandato e eu não vou fazer mais a barba enquanto ele for Presidente da República”. E no dia 24 de agosto, portanto 3 meses e 24 dias depois, Getúlio se suicidou não sou nenhum profeta não, não vamos confundir é só que agora também eu deixei a barba, falei enquanto o Color não cair eu não faço a barba, durou um mês e 7 dias entendeu? Não deu nem para tirar fotografia.

 

P/1- Seu Eduardo, você poderia falar um pouco sobre o Sartre e o Jorge Amado em Araraquara?

 

R- Ah sim, não me lembro bem, no começo de 1960 o Sartre veio ao Brasil e foi a alguns lugares, inclusive no Teatro Municipal de Araraquara, o cidadão que eu acompanhava em seguida intérprete era simplesmente o maior escritor do Brasil que é o Jorge Amado, e então o Jorge Amado fez a conferência dele e liberou a palavra, então um rapaz lá, não me lembro mais o nome, de Ribeirão Preto, o negócio girava em torno do socialismo, se podia vir o socialismo por vias pacíficas ou não tem como, então esse cidadão de Ribeirão Preto diz que o Brasil tinha todas as condições para as  entre outras coisas, o conteúdo concreto da coisa, que o Brasil tinha condições de passar para o socialismo por vias pacíficas, eu aguardei ali acho que um minuto mais ou menos, mas ninguém falou nada, ai eu pedi a palavra lá e um dia antes tinham feito uma chacina só porque falaram que queria reforma agrária, então eu levantei aquela questão, se fizeram a chacina só porque pediram terra para plantar há condições, não tem né, lógico de haver socialismo por via pacifica em um país desse, e joguei a bomba por cima do Sartre né, depois que eu argumentei, agora ele que é o sábio que responda se há condições ou não, eu sei que a turma toda levantou e bateu palma, ai o Sartre confabulou com o Jorge Amado e a primeira coisa que ele disse foi do partido. Fazia naquela época, oito anos que eu não ouvia Jorge Amado, ai então o Sartre respondeu o seguinte se ele fosse falar o que ele pensava que ele sairia preso do Brasil. Então era eu que estava sendo, que ele falava que por minha parte que era fácil porque ninguém ia correr atrás dele, ele então acabou na prática dando a resposta outras lutas que foram muito....

 

P/1- Que ano que foi isso?

 

R- No começo de 60, a terceira prisão como eu disse, parece um contrassenso, eu deixei a barba, por que analisei achei que o Getúlio não ia chegar ao final, Getúlio tinha sido um carrasco anticomunista. Quando a mulher do Prestes para ele ______, acho que todos conhecem, e no entretanto eu tive a honra digo honra e com bastante honra tive a honra de ser o primeiro a chegar preso aqui no DOPS no dia da morte do Getúlio, mas eu pus calculadamente 12.000 trabalhadores na rua antes de ser preso, então parece um contrassenso, mas não é, não é vou explicar porquê. Naquele momento, ou melhor, o Getúlio eleito que já não foi o mesmo do Getúlio ditador, naquele momento Getúlio não representava Getúlio, Getúlio representava nacionalismo, representava o Brasil porque a coisa aconteceu por causa do petróleo. Então, começou por causa do petróleo, tinha que ter posto paz e petróleo, quer dizer, então o Getúlio assinou a criação da Petrobras os trouxe de americanos, que infelizmente ainda mandam aqui ou talvez até mais. Apertaram ele, mas como  o movimento era tão grande então ele ainda tolerar (dois ou três?) pressionado pelas massas brasileiras, no começo era pôr torre de petróleo nas praças aquela coisa toda, coisa que eu não fiz, então ainda foi tolerado, mas quando ele falou da criação da Eletrobras, então fecharam o círculo mesmo e ele teve que fazer o que fez, né? Então, aí morre aquilo que poderia se chamar de contrassenso, a gente foi defender a integridade da Nação, porque o golpe já era naquela. Diríamos que não adiantou, demorou mais dez anos, isto foi em 64 e eles conseguiram aplicar o golpe somente 64, exatamente 10 anos ai faltam uns meses. Então nessa época, na época do golpe valia a 10 anos por cento, eu tinha discordado de algumas coisas no Partido Comunista e não fiz grupelho como muitos fazem, peguei e me afastei, fazia 4 anos que eu estava separado do partido e assim mesmo os gorilas lá foram me buscar mesmo, sendo instalado uma peça lá, eu tinha vindo da Usina, e estava mais negro que essa coisa aqui e o bichão chegou “Desce daí” e me levaram. Sério, eu podia hoje aqui se não houvesse ocorrido isso, ter um bocado de documentos para mostrar, mais do que nunca e nem terei tá enterrado até hoje, não existe mais porque senão, estaria naquela ossada que está lá em Campinas na Unicamp, então mesmo estando fora, me engaiolaram mais uma vez, mas deixa para lá, não tem importância, o resultado está ai

 

P/1- Você falou que era amigo do Jorge Amado, como é que foi?

 

R- O Jorge Amado foi candidato a deputado por São Paulo, então quando ele esteve aqui eu não era do partido ainda. Ele andava como candidato, eu não era do partido ainda, mas tive a oportunidade de conhecer, depois que ele já era Deputado, ele veio duas vezes e exatamente as duas vezes nessa altura dos acontecimentos, eu já era secretário de comitê Distrital do partido e duas vezes ele veio em São Paulo, ele foi no comitê em que eu estava, então a gente já tinha uma certa... Tem uma outra reunião no comitê Municipal que só ia dirigente do apanhado do movimento de São Paulo no comitê Municipal que ia todos os dirigentes dos distritais, ele também esteve nesse daí. Não vem muito ao caso, mas é bom que se diga, este mês, eu completo vivo-morto 69 anos, já fui submetido a 13 intervenções cirúrgicas, por três vezes já fui dado como morto, estou vivo aqui, acho que não está falando com um fantasma, é apenas um detalhe.

 

P/1- Me fale uma coisa, depois de 64 como é que ficou essa coisa do envolvimento com o Partido Comunista? Depois de 64, o senhor se acalmou?

 

R - Eu fui preso e não conseguiram provar nada, aí tem um detalhe que é bom que fique gravado também, o meu filho chama-se Vladimir a senhora conhece né, bom  pois então a minha então mulher, eu tinha a menina, já era nascida e ela estava grávida, então o delegado me perguntou, “O senhor é casado?” “Sou casado”, “tem filho?” “Tenho”, “Quantos?”, “Um, mas a minha mulher tá esperando mais um”. Aí eu falei: “Mas só que tem um seguinte doutor, se nascer homem vai se chamar Vladimir em homenagem a Vladimir Ilyich Ulyanov, o Lênin. Vai se chamar Vladimir em homenagem a lenda”. Bom, devido às suas perguntas estou pulando aqui, e agora ultimamente a gente tem lutado como de costume contra tudo aquilo que a gente acha que é um prejuízo da Nação no todo ou de um povo, a gente tá aí na luta, eu sou membro da associação dos aposentados. A gente vive lutando aí negócio dos aposentados, a gente luta politicamente, voltei ao partido depois que aquilo que eu dizia acabou acontecendo, devido o que havia no partido acabou se dividindo em dois, que até agora o antigo PCB passou a chamar PPS Partido Popular Socialista. Sou membro novamente do partido, trabalhei para o nosso candidato lá, não sei se ganhou que agora e morosidade tremenda esse negócio de vereadores.

 

P/1- Você podia explicar melhor esse negócio que o senhor disse que eu não entendi direito, que em 64 antes de ser preso, você colocou 12.000 trabalhadores na rua, quer dizer em 54, em 54 quando Getúlio morreu.

 

R- É que nós tínhamos um caminhãozinho que precisava empurrar para andar, colocamos um microfone lá e fomos falando, e eu parei quatro firmas, e fui preso na metalúrgica Matarazzo que tinha dois mil e 800 operários, mas deve ter parado mais três. E não voltaram para dentro não, as 8:30 eu já estava berrando em porta de fábrica, às onze e meia quando eu fui preso já tinha posto 12 mil pessoas na rua.

 

P/1- Mas isso foi na...

 

R- Na morte de Getúlio, no dia da morte de Getúlio.

 

P/1- Mas por que o senhor fez isso? Para comemorar a morte de Getúlio?

 

R- Não, foi para impedir o golpe, colocar o povo na rua para os gorilas lá não aplicar o golpe.

 

P/1- Então o suicídio de Getúlio já foi o contra...

 

R- É porque era um golpe aquilo lá.

 

P/1 - Não, Getúlio se suicidou para não existir o golpe né.

 

R- Entendeu? Que era os (...?) americano, que quem nos representava aqui era a famigerada UDN, Carlos Lacerda, aquela corja toda.

 

P/1 - Era o apoio ao Getúlio.

 

R- Entendeu? Então, eles é que tacharam o Getúlio, ou você renuncia, ou nós te tiramos, ele falou: “Só saio daqui morto”, então ele se suicidou, e até hoje ainda tem gente que teima que eles que mataram, eu acredito piamente que a carta que ele deixou é clara, fizeram o exame de caligrafia, e é dele mesmo, então ele foi bem mais homem do que esse que tá aí agora, é encostado, mas vai deitar.

 

P/1 - Me fala uma coisa, e o casamento do senhor? O senhor não contou como é que foi que conheceu sua esposa...

 

R- A minha esposa, foi o seguinte, como em Araraquara, como eu já disse não se arrumava emprego, eu trabalhei em uma banca de jornal, que foi a questão quando Sartre veio, que eu tomava conta lá da distribuidora, aí depois arrendei um bar, e então ela foi lá no bar, e lá nos conhecemos e ainda deu certo que o bar era em Araraquara mesmo, na Rua Nove de Julho, bem em frente à prefeitura, e a câmara, né? E ela era justamente da Américo Brasiliense, aí eu mudei para lá porque eu arrumei um serviço lá, aí junta a panela com a tampa, depois o resto deixa para lá. Agora, depois de 64 a senhora disse?

 

P/1- Sim.

 

R- É, depois de 64, quando os gorila lá acabaram com a lei da estabilidade e criaram o fundo de garantia então a firma lá queria fazer simplesmente o seguinte e a gente continuar a trabalhar, começavam depositar como fundo de garantia o dinheiro ficava lá e quando a gente saísse, ai então davam o dinheiro, entendeu? Pagava aluguel e ia continuar pagando aluguel com dinheiro lá e acumulando, aí a gente...Ah, um detalhe que eu esqueci, mas depois eu falo. Mas ele, não sei porque sempre tem uma certa liderança, eu falava não ele não assinou né, então o único jeito que eles acharam para que a turma assinasse era tirar o líder da frente, né? Então me pagaram tudinho e me mandaram embora, é que trabalha para outra pessoa encarregada essa coisa que eu falei, mas vamos voltar atrás, falando em trabalho e etc. Eu fui delegado por São Paulo morava aqui ao primeiro congresso nacional dos trabalhadores Metalúrgicos em Porto Alegre, Rio Grande do Sul em novembro de 1957. Em abril, porque nesse congresso que foi o primeiro, nós aprovamos que o nosso patrono seria o Tiradentes, então uma vez que o nosso patrono passou a ser o Tiradentes, então o congresso seria feito em abril, não mais para pegar o dia do Tiradentes no meio do congresso, então segundo o foi feito em abril de 59 aqui em Itanhaém para São Paulo, depois do terceiro que era na Bahia... Aí foi quando eu já tinha ido para Araraquara, então desmembrei da classe Metalúrgica, porque não conseguia serviços Metalúrgicos lá então, eu fui com todas as escolaridade que tive licenciador em 1950, passei no teste pra licenciador, tirei nota 100 no serviço. Acabei o setor de um outro lá que não deu conta do recado e ainda o agente municipal de estatística pegou ficou três meses lá trabalhando já com coisas semi-pronta para cima. Quando foi em 60, só podia ser licenciador quem tivesse pelo menos já na segunda série do ginásio correspondente a sexta série hoje que aquele tempo era dividida, e estava precisando, faltava gente foi o último dia de inscrição, ai eu fui lá né? Já chegou minha vez me chamou eu falei, não quero ficar por último aí quando chegou para ficar porque eu fiquei por último. Então aí, cadê os documentos? Não tenho diploma nem de primeiro ano, não, mas como pode, mas eu tenho isso aqui, tirei do bolso os papéis correspondentes aos de 10 anos antes, ele tá então que se lasque o regulamento, ele falou mesmo assim, mais diploma que esse impossível, né. E aí eu fui trabalhar, mas não vou nem falar nada...

 

P/1 - Pode falar.

 

R- Não, mas é que aí fica chato né.

 

P/1 - Pode falar.

 

R- É que na primeira aula que ele foi dar, que foram três aulas, eu tenho que chamar a atenção para as outras duas aulas, que quem deu foi eu, e ele que era agente municipal de Itapevi. E todos que vão fazer na sede eram professores, que a sede dava só para professores, eu do sítio então, que vinha do mato, deixa para lá. E modestamente, um dia era 10:30 da noite me chegaram em casa, era o último dia para inscrição para vereador, toda a papelada pronta e eu não queria de jeito nenhum. Aí me bateu um “Pla” na cabeça, porque tinha ficha no DOPS. Eu falei bom, quer saber de uma coisa agora é 8 ou 80, eu vou aceitar para ver como é que tá a minha situação da ficha no DOPS, porque se a ficha tá lá não vão aceitar, e aceitaram meu registro e fui eleito como primeiro suplente, cheguei a assumir como vereador lá em Américo Brasiliense.

 

P/1- Em que ano?

 

R- Eu assumi em 71.

 

P/1- Você já participou das greves dos Metalúrgicos de todos os metalúrgicos da década de 70 na época em que apareceu o Lula?

 

R- Em 60 eu já estava para lá, então não participei. Exatamente em 60 eu tinha a banca de jornal, que eu tomava conta e outra parte foi esse bar que foi quando Sartre foi.

 

P/1- Então o senhor tava mais no interior, o movimento estava mais em São Paulo.

 

R- Alias, até fizeram errado na carteira colocaram 1º de Maio, mas ninguém começa a trabalhar em primeiro de maio, ninguém registra, então consta lá que comecei a trabalhar na metalúrgica no dia 1º de maio de 1961, então isolado, lá naquele lugar, não dava pra participar de nada, depois daquilo. E agora, nesses movimentos últimos todos aí além de ter trabalhado, entrei na campanha eleitoral na medida do possível, que é claro que com essa idade a gente já não é mais de ferro, e sou também sou membro associado na associação dos Metalúrgicos Aposentados de Campinas, e em Campinas foi fundada uma associação ABEP, Associação Brasileira de Ética Política e eu sou secretário dessa Associação, está registrada, é de âmbito nacional e até tenho um panfleto dela, e a gente estava lá, devido a eleição até o prisioneiro estava licenciado que pelo estatuto, ele não podia participar porque se candidatou a vereador e o estatuto nós tivemos o cuidado de fazer o seguinte, primeiro a ideia de quem era de partido não podia ser da diretoria. Então não existe, porque se ela é de ética, a política cidadã tem que entender de política e para entender de política, tem que (entender?) de partido. Então, fizemos estatuto da seguinte maneira o cidadão só pode pertencer a diretoria, um de cada partido para não haver perigo de usurpação para não chegar lá dizer assim senta lá e toma conta, então deixa de ser super partidário, passa a ser só de um cidadão do partido, então criamos isso, e outra coisa se o cidadão foi dirigente do partido também não pode, e se ele é candidato também não pode, ele pode ser sócio do vereador, deputado, aliado, não, chamar todos eles para lá, pode ser sócio, mas dirigente não, para não haver perigo de partidarizar aquilo lá, é supra partidária, vamos ver se nós começamos com um pouquinho de ética nesse Brasil, aliás na conferência que fizemos na Unicamp em Campinas ao finalizar as minhas palavras, inclusive, eu disse o seguinte, porque havia uma controvérsia entre o presidente e o outro cidadão que é fundador também que aliás também tá licenciado, que também foi candidato a vereador um dia que podia ser a curto tempo e a outra longa tempo, eu rachei no meio porque pode ser até a médio, mas é mais possível chegar a longo prazo eu vou dizer porque eu comentei e quase finalizei dizendo o seguinte: porque não vai ser fácil acabar com a podridão de 492 anos. Que a realidade nua e crua, para mim é essa, que a podridão do Brasil tem 900... Não, 492 anos, que já nasceu podre. A carta descoberta não foi vendida, trocada e vendida, então já nasceu podre isso aqui.

 

P/1- Seu Eduardo, o senhor chegou a conhecer o Prestes?

 

R - Como?

 

P- Luiz Carlos Prestes.

 

R- Se eu conheci?

 

P- Sim

 

R- O dia do comício Getúlio Prestes...não, Getúlio Vargas e Luiz Carlos Prestes no Vale do Anhangabaú. Eu fiquei com sapato só no pé e uma baioneta parou a mais ou menos um palmo do meu umbigo, e quando o senhor Luiz Carlos Prestes vinha em São Paulo, quase todas as vezes, principalmente depois que eu passei a ser secretário do distrito, eu era um dos seguranças, do então camarada Luís Carlos Prestes e o dia da morte de Getúlio era para se houvesse qualquer coisa, correr dois de cada lado do carro, se tivesse alguma azeitona ficar com a gente, né? Apesar que fui só eu, que os outros não conseguiram, que foi quando eu perdi o sapato, tem certas passagenzinhas curiosas né.

 

P/24- E o que o senhor acha do Prestes?

 

R- Continuo considerando se não maior um dos maiores brasileiros até hoje. Que me desculpe Tiradentes, mas cada coisa no seu lugar na sua época, correto. Tiradentes foi quem foi, tanto é que eu como metalúrgico ajudei a por ele como nosso patrono, mas foi uma coisa, vamos dizer assim, mais rápida, mas foi um movimento curto, ele então não teve, poderia até ser mais capaz que o Luiz Carlos Prestes, mas ele não teve a sua chance de mostrar realmente o que ele era, ele era pela emancipação aquela coisa, bom pela liberdade, vamos assim. Agora o Luiz Carlos Prestes não, ele batalhou, ele desbravou nordeste, essa é a verdade que o partido do qual eu pertenço, eu acho que foi um tanto injusto com ele. Eu acho que quem faz, deve ficar com o mérito para o resto da vida, e errou, não volta pro zero, só porque errou, não desaparece tudo que ele fez, não pode desaparecer, então eu acho que o Prestes... Um dia, o partido estava fechado numa reunião clandestina, não sei porque razão, eu não era o maior do distrito e eu que fui convocado, no distrito que eu digo no comitê distrital. Mas ninguém falou que era nem o que não era, ai passava uns 10 minutos do horário, aí entrou um menino lá que ele é do meu tamanho, ele entrou lá e todo mundo, era o Prestes, e ninguém sabia, todo mundo foi convocado, mas ninguém sabia, para evitar o perigo, né? Sabe como é que é, estava ali fechado na clandestinidade, aí ele falou “É companheiros, eu tô aqui de passagem to indo pro Rio Grande do Sul, ta?”, e tinha havido um negócio parecido com esse que tá vendo agora, de choque de economia aquela coisa ele falou negócio estourou esses dia eu não tive tempo de fazer uma análise profunda, eu vou agora para o Rio Grande do Sul, na volta se tudo der certo, aí eu vou fazer uma explanação completa, eu agora vou dar só um detalhe. Era 8 horas, era meio-dia e meia e esse homem ainda estava falando, você vai pedir uma palavra, só em economia, sem mexer em um papel, parecia que ele tinha lá dentro uma fitinha e a voz dele era o microfone para um alto falante soltando, na capacidade também. E o que ele fez na Coluna Prestes provou que era capaz, não sei se vocês conhecem, mas é aquela história da estratégia que deram nota zero para ele, depois do mesmo... Na época, era então era Coronel tinha dado nota zero, depois falou que agora que ele sabia porque que tinha dado nota zero, porque era uma estratégia própria que só ele entendia. Então o que mais falta? Tem mais alguma pergunta?

 

P/25- E aí, qual a sua perspectiva pro futuro?

 

R- Bem, apesar de ter apanhado já que nem cavalo na luta, apesar de ver o que aconteceu nesses dias, a nulidade de votos, voto branco, e etc, que dá sim para gente chega a dar sim, um certo desanimo porque o povo tá difícil de acreditar na coisa de achar a, que aquele povo é que vai resolver, é aquele povo que tem que resolver né, Não são os bonitinhos de lá de cima não, é ele, está difícil, mas ainda acredito a prova mais cabal de que eu ainda acredito é a razão de eu com mais... Não sou eu o criador, deixar a coisa claro, criamos essa Associação Brasileira de Ética Política. Agora é aquilo que eu disse, é a longo prazo, mas se nunca começar nunca vai chegar, então os objetivos nosso, da Associação, é ensinar ao povo, mostrar ao povo que a pior opção que um homem pode ter é a omissão, vote errado, mas vote, tome uma opinião, tome um partido, que ai você tem direito de falar depois, quem se omitir, quem for ficar em cima do muro, não tem nem o direito de depois reclamar, ele não participou, se vai lá na urna é porque é obrigado, só para não pagar a multa, senão nem lá compareceria, quer dizer, um dos objetivos é ensinar o povo, outro objetivo é ensinar o mesmo povo a cobrar do cidadão, que ele vota no cidadão, depois nunca mais vai na câmara, não quer nem saber, quer dizer, ele não está sabendo se o homem que ele elegeu esta fazendo algo de bom pra ele, se não está fazendo nada, ele não quer nem saber, e assim como ele vai ter condições de dali a 4 anos, saber se ele deve ou não votar outra vez naquele cidadão que ele votou, se ele não acompanha. E a medida que ela crescer, que a gente for tendo mais força, criar um departamento, que aliás nós já temos departamento jurídico, mas criar um departamento exclusivo lá dentro para controle das ações dos políticos, eu mesmo nessa campanha, eu vi um pedacinho de papel de propaganda no chão, eu tenho problema na coluna, bico de papagaio, problema de rim, mas eu abaixava lá e passava a mão, tem um montão daqueles todos que foram eleitos, agora eu vou separar, já estou com um pedaço não peguei de todos, de documentação, cidadão no grupo, vai lá bebe nós somos da Ética Política, nós queremos que você cumpra o que prometeu, se não você está fugindo da ética e etc. Fizemos uma vigília no dia 14 de Julho na Câmara Municipal de Campinas, aliás um fato curioso, e o safado, porque infelizmente sou obrigado falar assim, presidente da Câmara Senhor Marquinhos Chedid, Marquinho como é chamado, dentro da câmera, nós mandamos um ofício lá, falando da Beta explicando que era Beta, ele nos mandou uma carta, aí dá uma ótima ideia, não sei o quê, não sei o quê mas na carta, mas palavras da câmera, por intermédio dele presidente, fazer a vigília, mas ele não respondeu nada. Aí fomos atrás, não temos nem condenado, mas conseguimos chegar na chefona do gabinete dele. E apertando, mas ele não tá... Qi bom, ele não pode fazer não, mas ele pode ceder o salão e nós fomos os vereadores naquele dia.

 

P/26- Seu Eduardo nós queríamos agora finalizar, então uma última pergunta, o que o senhor deixaria de mensagem para as outras gerações, para as crianças, os adolescentes?

 

R- Essa mensagem, teria que ser grande se fosse relatar tudo, né? Eu acho que essa questão da criança, é questão de regime, quer dizer, enquanto nós não tivermos uma política em que o cidadão que trabalha tenha realmente condições de sustentar seus filhos, a questão criança vai continuar. O pai e a mãe vão trabalhar, os dois ganhando não conseguem, essa que é a verdade, infelizmente, e olha na cidade isso aí deve ser no mínimo 65%, então deixa seu filho em casa, já fica largado. Uns só isso, outros piores que isso o próprio pai, a própria mãe porque não está dando que eles ganham, falam vai fazer isso, então ele vai lá hoje encosta no engraxado, sem ninguém ali, então começa a formação do marginal. Então a culpa do pai que não deu educação, mas como é que ele ia dar educação se ele sai de madrugada e chega a noite? E como disse há os que ele mesmo, fala para o filho, “Vê se se liga se não, não vai ter o que comer” muitos quando tem um arrozinho para comer no almoço, na janta não tem, isso no que diz direito a questão econômico financeira familiar, agora e a questão administração?

 

P/1- Eu só queria... Tem pouco tempo agora, com poucas palavras que o senhor dissesse assim, uma mensagem mesmo, dissesse o que o senhor aconselharia...

 

P/2 - Com todo esse conhecimento, essa vivência que o senhor tem de 69 anos, o que o senhor diria para essa juventude, para esse grupo, esse pessoal que vem vindo agora?

 

R- A primeira coisa, é que procurem fazer o que eu fiz, de que com seis meses de escola, chegar nesse fraquinho ponto em que cheguei. Aproveitar o que se lê, aproveitar o que se aprende, porque infelizmente a turma vai na escola, mas de tarde não sabe o que estudou de manhã. A segunda coisa que abandonem uma vez, tenta abandonar e aqueles que não entraram que procure não entrar no campo das drogas, que só leva o prejuízo em todos os sentidos, e que procurem desde já, essa juventude, ir acompanhando a vida política da Nação, para que amanhã saibam escolher bons dirigentes, para que essas mesmas crianças, a mesma juventude tenha realmente um apoio, que não falte escola, que o salário dos pais seja o melhor, para poder frequentar escolas pagas, uma vez que o estado não tem conseguido dar aula da escola para toda a juventude, saber se nós temos amanhã, nós vamos ter amanhã no Brasil. Com capacidade de conhecimento, de compreensão, que seja capaz de escolher bons dirigentes, e fazer boas leis, para que não haja mais essa corrupção que avassala nossa nação.

 

P- Obrigada.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+