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História

A menina do lacinho de fita

História de: Luiza Ferreira Cordeiro Cavalcante
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/10/2019

Sinopse

Em seu depoimento, Luiza nos conta memorias de sua vida: a sua infância feliz, onde era conhecida como “onça pintada” por conta de sua vaidade - bastante ligada a sua aparência, adorava sair bem arrumada e com lacinho de fita na cabeça. Relembra seu casamento por amor que a deixou três filhos, seus diversos trabalhos: tecelã, revendedora de joias, baba, dama de companhia, doméstica. Por fim, comentou o seu maior sonho: ter uma casa, já que morava no asilo, onde pudesse receber visitas, cozinhar e fazer as coisas do seu jeito.

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História completa

P/1 - Bom, Dona Luiza, a gente podia começar o nosso papo aqui, tá, com a senhora falando o nome todo da senhora, o nome dos pais da senhora, dos avós e o local de nascimento.

 

R - Bom, o meu nome é Luiza Ferreira Cordeiro Cavalcanti, o nome do meu pai é Porfírio Ferreira e o nome da minha mãe é Inês dos Anjos Ferreira Machado, né, e o dos meus avós só sei o da minha avó, porque eles morreram em Portugal e eu não cheguei a conhecê-los, né, só conheço de nome uma, que eu me lembro: Albina, né, e José. São meus avós maternos. Agora os paternos eu não conheci, nem sei o nome.

 

P/1 - E o local de nascimento dos pais da senhora?

 

R - Portugal.

 

P/1 - E o da senhora?

 

R - O meu São Paulo.

 

P/1 - Vamos falar agora um pouquinho da infância da senhora, como é que foi?

 

R - A minha infância foi bonita, foi alegre, todos gostavam de mim, brincavam muito comigo, me chamavam de onça pintada, porque eu vivia com um papelzinho de... Esse papelzinho de seda, de cor, fazendo carmim. Então eu passava aqui como rouge e aqui como batom, nos lábios, então o meu apelido era de onça pintada, porque eu vivia também só sambando, não podia ouvir uma música que logo começava a sambar, né? Então eles me chamavam de a onça pintada, né? Mas era um apelido carinhoso, um termo carinhoso, né, de me agradarem. Então foi muito gostosa minha infância, mas só que foi assim atribulada pelo seguinte: que o papai era empreiteiro, então eu vivia de um lado para o outro, que ele lidava com madeira e a gente vivia assim sempre mudando de uma cidade para a outra. Mas foi uma infância feliz, alegre, estudei, né, cheguei a estudar, tudo, depois tive que sair para ir trabalhar, porque aí teve um problema: um irmão meu, ele era muito luxuoso, né, muito cheio de mimo, então ele gastava muito, né? Então a mamãe ficou endividada. Nesse tempo a mamãe já era viúva... Não, não era não! Papai estava em Portugal, que ele foi para lá para lidar, mexer com a herança lá da mamãe, que a mamãe herdou uns terrenos lá, umas coisas, e ele foi vender. Então quando minha mãe chegou de um lugar, de Cubatão, que ela veio para cá para São Paulo, que a mamãe foi trabalhar lá em Cubatão, que meu pai deixou uma empreitada lá e a mamãe estava lá, então quando ela chegou aqui em São Paulo nós não fomos, foi só ela e os trabalhadores, os empregados do papai, né? Então quando nós chegamos aqui em São Paulo... Quando a minha mãe chegou aqui, porque eu estava estudando, estava com uma irmã e esse outro irmão numa casa que nós morávamos no Belém, na Avenida Álvaro Ramos, o número eu não me lembro. Então, aí minha mãe chegou, estava uma dívida tremenda, então tive que sair do estudo para ir trabalhar para ajudar a mamãe, né? Mas quanto ao resto foi tudo muito bem, foi tudo bom, foi tudo ótimo, gostei da minha infância, foi boa. Tenho boas lembranças, só que eu não me lembro assim de detalhes, né? Mas foi muito boa minha infância, com muito carinho.

 

P/1 - Quantos irmãos?

 

R - Irmãos, sete.

 

P/1 - Sete.

 

R - Éramos em sete. Agora somos em quatro, porque faleceram três, duas irmãs e um irmão, o mais novo, o caçula faleceu. E duas irmãs minhas faleceram. Agora tem três homens e eu de mulher.

 

P/1 - Antes a senhora me disse que o primeiro bairro que a senhora morou e inclusive nasceu aqui em São Paulo foi Belém, né? 

 

R - Foi Belenzinho.

 

P/1 - A senhora traz alguma lembrança da casa, dos vizinhos?

 

R - Ah, trago. Os vizinhos eram ótimos, gente muito boa, gente simples mas boa, sabe? Gente muito boa. Então só tenho boas recordações de todos os vizinhos, porque a gente era muito ligada, os vizinhos ali se davam muito, era como se fosse uma família só, sabe? Era uma coisa que a gente tinha confiança, como se estivesse na própria casa da gente. Eu me sentia assim nas casas dos vizinhos que nós tínhamos. Era tudo gente boa, gente amiga mesmo, sabe?

 

P/1 - Até quantos anos a senhora morou nessa casa?

 

R - Nessa casa até que eu me casei, né? Eu me casei com 17, eu não tinha 17 anos ainda quando me casei.

 

P/1 - E sobre a escola, a senhora falou que estudou, conta um pouco para a gente.

 

R - Eu estudei num grupo, e eu era ótima aluna, a primeira da classe.

 

P/1 - Qual grupo?

 

R - Ah, o grupo eu não lembro o nome. Não lembro se era Belém... Se era grupo Belém, eu não me lembro. Não me lembro mesmo.

 

P/1 - Não tem problema.

 

R - E o Colégio onde eu estudei era no Largo São José do Belém com a Rua Belém, chamava-se Colégio São José do Belém. O que me marcou lá foi uma irmã que se chamava... Também tinha o meu nome, Maria Luiza. Que o meu nome é Maria Luiza (Ratma), que é o nome sírio de uma madrinha minha que era síria, mas eu não assino porque foi só de batismo. Quando me batizaram na Igreja, então ela pôs o nome dela em mim, né, mas eu não assino Maria Luiza (Ratma), que é um nome sírio, que era o mesmo nome da minha madrinha de batismo, então eu só assino Luiza. Então eu tenho essa freira, eu lembro muito bem dela, que ela chamava-se Maria Luiza. Ela me cativou muito, porque as outras eram muito bravas e batiam com a palmatória, sabe, eu levava palmada a torto e direito (riso), porque eu ia toda enfeitadinha, sabe, eu ia bem bonitinha, eu sempre gostei, né, de... Eu sempre fui vaidosa, por isso que eu era a onça pintada lá em casa, porque eu era vaidosa demais, né? Então interessante lá que me marcou é que a irmã que chamava-se também Maria Luiza, que ela era muito carinhosa comigo, ela tinha um dengo comigo, sabe, um carinho fora do comum, sabe? Ela gostava assim como se eu fosse uma filha dela. E essa freira, essa irmã me marcou muito, eu sinto muitas saudades dela.

 

P/1 - A senhora falou que levava muita palmatória.

 

R - Ah, sim, das outras.

 

P/1 - A senhora era muito levada?

 

R - Não, não era não. É porque eu ia sempre de lacinho, de fivelinha, de não sei o que, uma meia com lacinho, uma coisinha assim, eu queria estar sempre impecável, né? Andava muito bem arrumadinha, era vaidosa desde pequena, e lá não podia, no colégio, ir com um lacinho de fita aqui, todo cheio de pomponzinho, né, não podia. Então elas ficavam bravas, aí eu ficava de castigo, né, e a palmatória corria nas minhas mãos, sabe? (risos).

 

P/2 - Deixe eu só perguntar uma coisa, Luiza, você disse que viajou com seu pai, vocês viajavam muito.

 

R - Muito.

 

P/2 - Mas vocês viajavam para o interior?

 

R - Pelo interior.

 

P/2 - Você lembra das cidades?

 

R - Marília. Me marcou muito esta cidade, gostei muito de lá, né? Me lembro vários lugares de lá, né? Tem assim na memória. Presidente Prudente, Inácio Uchoa, mas aí eu era pequenininha, né, Inácio Uchoa. Qual mais que foi? Araraquara também, quilômetro 11 perto de Araraquara, que para ir na escola a gente andava três, quatro quilômetros a pé, eu e meu irmão, porque de trem não dava, que era perigoso, a gente era muito pequeno, então nós viajávamos a pé, fazíamos a pé pelas estradas, eu e meu irmão, Aniceto. 

 

P/2 - Então você chegou a estudar também no interior?

 

R - Cheguei a estudar no interior também, sim, nas escolas do interior.

 

P/2 - E as brincadeiras? Quando você fala da sua infância, e as brincadeiras?

 

R - Ah, as brincadeiras eram como de todas as crianças, né? Amarelinha, peteca, o que mais? Tinha uma porção de brincadeiras que eu nem me lembro mais. A gente jogava, brincava, esconde-esconde, né? Jogar coisinha, bolinha nas professoras (risos). Tinha tudo isso, né?

 

P/2 - Dentro da sala de aula?

 

R - É, dentro da sala de aula, as bolinhas de papel, né? E quem foi? (risos).

 

P/2 - Você disse que a palmatória...

 

R - Não, só aí. Lá no colégio não. No colégio não tinha disso.

 

P/1 - A senhora falou do trabalho, que a senhora começou a trabalhar depois, né?

 

R - Ah, sim!

 

P/1 - Preenchendo a ficha, a senhora falou de uma série de profissões que a senhora teve. Vamos lembrar um pouquinho desde a primeira profissão?

 

R - A primeira profissão minha que eu saí para ajudar a mamãe, meus pais, na despesa, financeiramente, foi como tecelã. Quer dizer, eu não passava de uma operária. Foi numa fábrica, na Avenida Álvaro Ramos, junto com uma linha de trem ali... Que passa ali... Parece que depois sai... Parece que cruza a Rua Visconde de Parnaíba. Me parece, eu não tenho certeza. Mas a fábrica dava com a Avenida Álvaro Ramos e uma outra rua que eu não me lembro o nome, tomava um quarteirão todo, né? Então foi nessa fábrica que eu trabalhei o meu primeiro emprego, né?

 

P/1 - Durante quanto tempo a senhora ficou?

 

R - Alí foi... Trabalhei bastantes anos, sabe, e depois saí de lá para me casar. Aí voltei a trabalhar lá depois que me casei, mas pouco tempo, aí isso foi muito pouco tempo, acho que foi questão de meses, depois eu saí, depois não trabalhei mais. Aí, quando meus filhos casaram então é que eu fui trabalhar novamente. Que eu morava num apartamento na Martins Fontes, morei lá 17 anos, ali pegado à Telefônica, no Saint Charles. Morei 17 anos lá, no 14° andar, num apartamento. Ali eu casei meus filhos, e depois eu fui... Fiquei lá depois que meus filhos casaram, mas era muito difícil, porque eles estavam começando a vida e eu não podia depender deles, né? E também eu sozinha não podia me manter, então eu fui obrigada a trabalhar, né? Aí fui para Araraquara, me mudei para Araraquara, fiquei lá uns dois anos, fiquei trabalhando de vender joias, prata, alianças de brilhante, tudo. Depois levei muito calote, aí tive que voltar para São Paulo, para trabalhar para pagar os calotes que eu levei. Porque eu não podia ficar devendo para o homem, que ele me entregava joias na confiança, aí eu levei calote, ele não tinha culpa, né? Eu tinha que pagar, dar o dinheiro para ele das joias. E fui trabalhar para pagar as dívidas, né? Depois, fui trabalhando sempre.

 

P/1 - Aí trabalhou de que?

 

R - Quando eu vim para cá?

 

P/1 - Isso.

 

R - Aqui... Vim para cá, fui trabalhar de babá, auxiliar de médico, auxiliar de dentista, fiz operação em boca, ajudei os dentista lá, olha, eu fiz tanta coisa na minha vida, filha, que eu nem sei mais, nem me lembro tanto direito, de tanta coisa que eu fiz, tanto emprego que eu tive. Aí fui trabalhar de babá, eu trabalhei uma porção de tempo de babá. Depois começou a dar problema na coluna, porque os bebês eram pesados, iam crescendo e iam ficando enormes e eu não aguentava, que eu era muito magrinha, né? Mais do que eu sou, que agora eu sou meia gordinha, né? (risos). Mas primeiro eu era bem magrinha. Aí eu saí de babá, fui ser dama de companhia, aí teve a história, o problema das tromboses, né, que me deu trombose, aí não podia mais trabalhar de dama de companhia nem de babá. Então eu precisava trabalhar, que eu precisava viver, então, meus filhos... Nunca eu pedi, nunca pedi auxílio para eles, nem nada, eu queria trabalhar para viver, para ganhar o meu pão, né, ganhar o meu sustento. Então, aí, eu fui trabalhar de empregada doméstica. Fiquei uma porção de tempo trabalhando de empregada doméstica. Tinha patroas ótimas, muito boas, mas tinha umas que era de roer o osso, sabe?

 

P/1 - Por quê?

 

R - Porque passava tanta coisa, passava tanta coisa.

 

P/1 - A senhora lembra de algum caso?

 

R - Não, lembrar, assim, de caso não. Lembro, olha, que eu era... Infelizmente, eu sempre tive muita presença, não sei se felizmente ou infelizmente. Porque às vezes é felizmente, mas às vezes é infelizmente. Porque quando eu trabalhava com as minhas patroas, tinham umas que eram lindas, muito bonitas, mas tinham umas que não eram, ninguém tem culpa, não é? Cada um é como Deus fez, não é verdade? Eu sou feliz como eu sou, né? Cada um tem que aceitar o que é, não é? E assumir a presença da pessoa, a sua pessoa. Bom, aí então batia, tocavam a campainha, eu ia atender. Estava de uniforme. Porque elas me faziam usar uniforme. Eu não gostava, mas... Em certas casas eu não usava, que me deixavam pôr minha roupinha. Em outras casas eu era obrigada a usar, né? Então, eu ia atender a porta, e ___ dizia assim: “Ah, a senhora, porque não sei o que, não sei o que lá, não sei o que lá.” Eu: “Espera um pouquinho, porque eu vou chamar minha patroa.” “Mas a senhora não é a patroa?” (risos). E a patroa ali atrás de mim escutando, quer dizer, depois eu que levava, né? Aí coitada de mim, né? Aí eu era obrigada a sair do emprego, porque eu era vistosa, sabe, Rosa, eu era vistosa, tinha um corpo muito bonito, né? Tinha aparência bonita, não tinha esse defeito na boca que eu tenho hoje, porque foi um tombo que eu levei, né, fiquei com defeito. Eu precisei levar pontos, tudo, ficou defeituosa minha boca. Então, elas me judiavam porque eu era bonita e vistosa. Outras tinham ciúmes do marido comigo, eu já precisava sair do emprego e ir para outro. Outras não sei o que que inventavam, sabe, sei lá. Porque sempre fui prestimosa, trabalhadeira, caprichosa, sempre cuidei muito bem das casas das minhas patroas. Cuidava mais das coisas delas, como se fossem minhas ou mais, entende? Então... Mas foi bom, foi uma experiência boa, sabe, que eu tive na minha vida, depois fui trabalhar de cozinheira. Sem saber fui trabalhar de cozinheira, que é lógico que eu sabia cozinhar, é lógico, cozinhava para os meus filhos, para a família, muitas vezes nas casas das minhas irmãs, tudo, mas era o trivial simples, mais moderado, né? Não tinha aquela sofisticação que tem nas mansões do Morumbi. Eu nunca tinha entrado numa mansão do Morumbi, nunca mesmo. Eu trabalhei em casas luxuosas, apartamentos luxuosos, mas nunca numa mansão no Morumbi. A não ser uma vez de dama de companhia, que eu trabalhei para a Dona Sofia, (que) era mãe da Dona Rosinha, que é dona das lojas Marisa; e o Seu Bernardo, né? Uma gente muito boa, ótimas pessoas, sabe, fui muito bem tratada ali, saí por causa justamente da trombose, que começou a dar trombose e aí eu não pude mais trabalhar. Então, depois fui ser empregada doméstica, aí depois já estava com vontade de me aposentar, né, que eu vivia sempre ruim da coluna, dos rins, sempre tive problema nos rins, e na coluna, então aí eu fui ser cozinheira no Morumbi. Sem saber nada praticamente, né? Porque o que eu sabia, o que eu fazia lá, eu nem acredito os pratos que eu fazia lá, e do jeito, do modo que eu fazia, né, eles estão vivos aí podem dizer, né, lá o Seu Raul e o Doutor Alberto, uma gente muito boa também, sabe, dois cavalheiros, muito finos, uns homens maravilhosos, sabe, gente boa mesmo. Mas, Rosa, depois aí eu saí, me aposentei, né, e não fui trabalhar mais. Aí fiquei aí no apartamento cuidando da minha irmã, que já quando eu estava trabalhando no Morumbi, que me deu mais duas tromboses nesta perna, lá onde eu trabalhava, na Giovanni Gronchi. Acho que o número é 273 ou 293. Um desses dois é. Eu me lembro vagamente do número, porque número de carro, chapa de carro, número de casa não guardo (risos). Mas telefone eu tenho, olha, uma lista na cabeça, né? Decoro facilmente, mas número de casa nunca consegui guardar, nem data, e nem carro... Chapa de carro. Se me perguntarem eu não sei. Então aí eu fui morar com a minha irmã, porque quando eu estava trabalhando meu sobrinho e minha sobrinha já tinham me pedido. Eu falei: “Olha, eu estou num emprego ótimo, né, agora, me dou muito bem aqui”. Lá eu era como se fosse dona da casa, no Morumbi. Eles deixavam tudo na minha mão, tudo. Então eu estava muito bem lá, tudo, né? Depois deu essas duas tromboses, eu subia muito escada e descia, porque eu cozinhava, né, eu só cozinhava e passava e lavava. Mas a roupa era tudo na máquina, né? Mas tinha muita roupa, muitas camisa, muita calça, muita roupa de cama, muita roupa de banho, então eu tinha que subir com aquela batelada de roupa, passadinha e tudo, e eu tinha ciúme quando eu passava, não queria que ninguém pusesse a mão nas camisa dos meus patrões, porque eu queria que pusesse lá como eu tinha deixado, passadinha, direito, tudo, não queria que os meninos levassem, eu tinha que levar. Então aí eu saí de lá, senti muito, né, sinto falta da minha cozinha até hoje lá do Morumbi, das coisinhas que eu fazia gostosa, né, dos pratos deliciosos.  

 

P/2 - Que pratos deliciosos fazia?

 

R - Nossa, tanta coisa, Rosa, que eu não me lembro, porque aí, como eu não sabia muita coisa, assim, muita variedade, do que eles estavam acostumados a comer, ele comprou livros para mim. Tinha muitos livros lá, né, então eles me ensinavam! Eles me ensinaram fazer muita coisa que eu aprendi, né?

 

P/2 - Nesse período que você trabalhou, desde quando você trabalhou como tecelã até você se aposentar, teve alguma passagem, assim, importante?

 

R - (PAUSA) Não, que eu me lembro...

 

P/2 - Assim, coisas que te marcaram dentro do seu trabalho?

 

R - Não. Nada, nada. Não teve. Teve que eu tive muita alegria, porque quando minhas patroas ficavam felizes, né, de ver tudo limpo, tudo arrumado, ou quando convidavam o pessoal, a família, convidados. Lá no Morumbi, eles viviam convidando gente, né, porque diziam que a minha comida era demais e tudo. Então me elogiavam e eu ficava toda feliz, né, por isso. Mas somente isso, assim, nada que me marcasse não, não teve. Não teve porque eu não tinha tempo, eu não largava meu serviço por nada, estava sempre ocupadíssima, sabe, com a minhas tarefas, então não tinha tempo, assim, para eu ter alguma coisa diferente, né? E nunca me aconteceu nada, porque lá na mansão eu ficava sozinha. Eles saíam de manhã nos domingos, porque eu ficava na folga, minha folga era de sábado, e nos domingos de manhã... Meu medo era esse! Isso daí eu tinha medo, isso me marcou bastante, eu tinha um medo que ficava horrorizada ali. Eles saíam de manhã no domingo e iam passear com os cachorros, né? Eu dizia: “Doutor Alberto, Seu Raul, o senhor já fechou lá em cima? Fecha tudo e passa a chave, né, porque eu não quero nada aberto”. “Não, a gente não fechou nada, deixa tudo lá”. Aí deixavam o som ligado lá no jardim, na casa onde eram os escritórios, embaixo, perto da piscina, e eu ficava na cozinha, né, e a lavanderia era tudo aberto. E o muro era desse tamanhozinho. Desse tamanhozinho o muro! Quer dizer, não entrava quem não queria. Então eu dizia: “Por favor, vocês fechem tudo, porque se entrar alguém aqui e levar as coisas, o que que eu faço? Eu não posso fazer nada”. “Não, Dona Luiza, fica tudo aí, não vai entrar ninguém, a senhora fica aí. Tá, tá bom, se entrar, que leve tudo, pode levar, contanto que não façam nada para a senhora, não tem problema”. Eu falei: “Tá bom, então vocês estão sabendo, se acontecer eu não tenho culpa de nada”. E era esse o medo que eu tinha. Isso daí me marcou, porque eu ficava com medo mesmo. Uma casa enorme, né? Eu precisava fazer minhas tarefas, de repente podia entrar alguém lá pela frente ou pelos fundos, e eu não via porque eu estava ali no fogão, e no forno, e na geladeira, então estava com a mente ocupada, então podia entrar alguém que eu não ia perceber, né? Então isso daí que me marcou. Foi um ponto único que me marcou. Do resto eu tive muitas alegrias, tive muitas tristezas, meus empregos, né, porque me judiavam porque eu era bonita, vistosa e inteligente, e elas não admitiam certas coisas, né?

 

P/1 - Dona Luiza, a senhora estava falando comigo também das alegrias da senhora, né, e uma das coisas foram os filhos.

 

R - Ah, sim.

 

P/1 - Eu queria que a senhora falasse do casamento da senhora, tá, como é que foi e tal, e dos filhos.

 

R - O meu casamento eu casei por amor mesmo, gostava muito do meu esposo, tudo. E quando eu ficava grávida, eu tinha esse detalhe que eu quero dizer a vocês, né? Quando eu ficava grávida, que eu engravidava, eu ficava... Eu me sentia outra mulher, eu me sentia a dona do mundo, eu era a mulher mais feliz que tinha no mundo, porque eu ficava tão diferente. Sabe quando vem o Natal? Que a gente fica eufórica, fica alegre sem saber o porquê, e quer cumprimentar todo mundo, e quer falar com todo mundo, né, então eu ficava assim (risos). Ai, mas como eu era feliz, sabe, nas minhas gravidezes! Então quando eu via alguém grávida, então eu dizia: “Você não sabe, você é a mulher mais feliz que Deus pôs na Terra, né? Porque a gravidez... Ter um filho é tão lindo...”, né? Eu ficava feliz demais, só isso. O que me marcou no meu casamento foi isso só.

 

P/1 - E o marido da senhora trabalhava em quê?

 

R - Meu marido era funcionário do Mappin. Ele trabalhava no Mappin. Naquela época era casa Anglo-brasileira, o Mappin Stores, né, stores, uma coisa assim. É, ele trabalhou muitos anos no Mappin.

 

P/1 - E como a senhora o conheceu?

 

R - Ah, era vizinho, né? Era vizinho lá, da vizinhança. Era bem perto de casa. Assim a gente se conheceu. É, de festinha, de aniversário, assim.

 

P/1 - Se conheceu e aí...?

 

R - É, a gente ficou namorando. Depois chegou o casamento, né? E foi o primeiro que eu namorei! O primeiro que eu namorei e me casei.

 

P/1 - E como que foi o casamento? A senhora tinha me falado já da Igreja...

 

R - Ah, o casamento?

 

P/1 - Isso.

 

R - Bom, mas o meu casamento... Primeiro eu casei só no civil, porque na época em que nós nos casamos, uma semana antes roubaram tudo da gente, do quarto, já estava arrumadinho tudo os móveis, tudo, a roupa do meu esposo, tudo lá, minhas roupas, meu enxoval, tudo. Roubaram tudo. Então, a gente se casou só no civil, na Igreja eu fui casar aqui no São José de Belém, onde eu morava, eu fui me casar depois de muitos anos, é que eu me casei na Igreja, sabe, não foi logo que eu me casei, casei só no civil.

 

P/1 - Primeiro casou no civil.

 

R - Só, só.

 

P/2 - Com os filhos acompanhando o casamento?

 

R - Não, acho que eles eram pequenininhos. Dois. Acho que eu ainda não tinha a Cleusa, ou tinha... Tinha sim, tinha a Cleusa sim. É, eles foram no casamento. Não foram! Ficaram esperando em casa, porque eu fui de carro com os padrinhos e depois vim para casa onde teve a festinha do nosso casamento.

 

P/1 - A senhora trouxe uma foto de férias, de vocês passando férias em Peruíbe. Conta para a gente.

 

R - Foi que ele teve licença no Mappin ou férias que ele tirou, e a gente foi para Peruíbe com as crianças, para eles tomarem sol, tomar banho de mar, né? E eu também e ele, né, aproveitar descansar um pouquinho do lufa-lufa, né, do dia-a-dia. (PAUSA) Que mais?

 

P/2 - Quantos anos ficou casada?

 

R - 12.

 

P/2 - Ficou viúva?

 

R - Fiquei viúva, mas... Viúva e não me casei mais.

 

P/2 - Por que?

 

R - Porque eu não quis, por causa dos filhos, né? Não quis casar mais (PAUSA). Achei que não valia a pena, né? Esposo é o primeiro e único, né, depois... chega.

 

P/1 - Dona Luiza, a senhora falou que foi dama de companhia. Naquela época a senhora lia o que, havia leitura, né?

 

R - Livros. Livros, assim, de contos.

 

P/1 - A senhora lia almanaques, por exemplo?

 

R - Lia, lia sim. Eu lia livros para ela, histórias, contos, para a Dona Sofia, romance, assim, aos pedaços, né, intercalados, porque a gente saía muito, ela gostava muito de passear, tomar chá nas casas de chá na Rua Augusta. Frequentei muito a Rua Augusta, casas de chá lá.

 

P/1 - E sobre os almanaques, assim, a senhora traz alguma lembrança, o que que a senhora gostava?

 

R - Não. Não. Eu sempre gostei de ler, tudo que vem à mão eu gosto de ler. Eu gosto de saber, sabe? Eu gosto de saber.

 

P/2 - E desses almanaques, lembra de algum?

 

R - (PAUSA) Não, eu não me lembro, Rosa, sabe por que? A minha mente bloqueou. Depois que eu estou morando ali nessa residência, eu fiquei com a mente bloqueada, então para eu lembrar eu tenho que ver alguma coisa que me traga a lembrança, assim, senão eu não me lembro, não me lembro mesmo, sabe? E muita coisa que eu estou deixando de contar porque eu não me lembro. Eu preciso ver algo que me lembre tal acontecimento, tal passagem, sabe? Senão eu não lembro... Para contar, para falar, né?

 

P/1 - Eu já perguntei isso para a senhora, vou perguntar novamente: a senhora participa de alguma associação, algum partido político...?

 

R - Não.

 

P/1 - ... Um grupo religioso...?

 

R - Só católica, né, eu sou católica. Participo da Igreja, da comunidade lá, cristã, disso eu participo.

 

P/1 - Conta para a gente um pouquinho o que senhora me contou.

 

R - É maravilhoso. A minha capela é linda, né? Eu que cuido, eu que limpo, eu que encero, eu que limpo os vitrôs, eu que limpo as lâmpadas, eu que limpo o banco, eu que limpo o chão, eu que limpo tudo. Mas eu adoro a minha capela, é linda a capelinha, é tão bonitinha, é um mimo, sabe? Então quando eu deixo ela... Toda sexta-feira eu limpo, é sexta. Eu pensei que hoje era sexta. Por isso que eu falei para você: “Eu tenho que limpar a capela”. Mas é de sexta, eu pensava que hoje era sexta e hoje é quinta, é só amanhã. Então fica um brinco a capela, sabe? No Natal, eu enfeito tudo com flores, porque a gente não pode comprar flores sempre, fica muito cara as flores, né? Então eu procuro... Ponho azaleia, ponho samambaia de lá do jardim de onde eu moro, o asilo, né? Então... Não é asilo, é uma residência, mas antigamente era asilo, né? E ainda está lá: Asilo, né, São Vicente de Paula, nas damas de caridade, né, de São Vicente de Paula. Então eu arrumo como eu posso arrumar, o melhor que eu posso eu arrumo. Aí eu vou toda bonitinha para a Igreja, para o meu Jesus, meu Deus! Eu me arrumo para ele e para mim, né? Para ele sempre me arrumei. Sempre estreei meus sapatos novos, meus vestidos, minha roupa, tudo, tudo que eu punha novo tinha que ser primeiro na missa, né, depois aí usava. Mas primeiro era na missa. Então agora lá no asilo eu faço assim: todo domingo eu ponho uma roupinha diferente, como se eu fosse num banquete, numa festa, para mim ir à Igreja receber a comunhão.

 

P/1 - Há quanto tempo que a senhora está no asilo?

 

R - Dois anos, vai fazer dois anos. Dia 6 de novembro.

 

P/1 - E por que que a senhora foi para lá?

 

R - Ah, eu fui para lá porque eu não tinha condições de pagar um aluguel para mim, né? Porque eram muito caro os aluguéis e eu não recebia isso. Eu recebo uma coisa mínima de aposentadoria, como é que eu ia pagar um aluguel exorbitante, eu não podia, né? Então eu quebrei esse braço, em oito lugares, tive cinco tromboses na perna, tenho a coluna toda torta, que eu tenho artrose na coluna, tenho dores horríveis na minha coluna. É que eu não me entrego, de jeito nenhum. Posso estar mancando, mas eu vou em frente, sabe, eu não fico de cama, dormir eu só gosto de dormir depois do almoço, que eu tenho uma horinha para dormir, que aí eu não tenho roupa para lavar, roupa para passar, roupa para remendar, Igreja para limpar, vou ver se as flores dos vasos estão murchas, se caiu alguma, se precisa trocar, então eu tenho essa horinha só para dormir. Todo dia eu me levanto às seis horas da manhã, antes das seis, 15 para as seis, né? Aí faço a minhas obrigações, primeiro eu vou lá, abro a Igreja, né, aí faço a minha oraçãozinha lá rápida porque em casa tem outra batelada me esperando de orações. Enquanto eu não faço minhas orações eu não tenho paz. Eu tenho que fazer minhas orações do dia-a-dia, todo dia de manhã, à tarde eu rezo dois terços: um por todas as pessoas do mundo inteiro, pelos doentes, pelos excepcionais, pelos surdos, mudos, cegos, aleijados, ih, aí vai, olha, uma lista assim! Não posso falar aqui porque senão vai até de noite! (risos). Então rezo para eles, né? E por todas as pessoas amigas, conhecidas, por todo mundo que eu conheço... E quem eu não conheço também. E pelos meus amigos, e pelos que não são meus amigos, ou minhas amigas, né? Por tudo. Então, depois, à tarde, né... Aí vai até 6 horas quase eu orando, cinco e meia que eu termino, vinte para as seis. Aí vou esquentar minha jantinha, né? Esquento a minha janta, aí como, sentadinha, com a televisão ligada, a fofinha, né, que eu tenho uma fofinha  (risos). A Rosa já viu. É uma pequenininha, eu chamo ela de fofa, né?

 

P/1 - Hum.

 

R - Então eu vou assistir a novela do... “Despedida de solteiro” e o “Deus nos acuda”, que é um Deus nos acuda mesmo, né? Olha, mas eu rio, mas eu rio tanto, que acho que as pessoas pensam que eu sou doida, as meninas lá, as outras, pensam que eu sou doida, né? Que a minha vizinha do quarto falou assim: “Nossa, a senhora ri tanto, né? A senhora está ficando boba?” Eu falei: “Não, eu sou assim mesmo (risos). Eu dou risada por qualquer coisa!”. Então é assim, eu me divirto sozinha, sabe, eu faço a minhas ironias comigo mesmo, eu rio e me divirto sozinha, eu não tenho tempo para tristeza, para solidão, não tenho tempo, não tenho, sabe? Que o meu tempo é todo ocupado. Quando eu não estou lidando no meu quarto, trabalhando com a minhas coisas lá eu estou orando. Quando eu não estou orando eu sento um pouquinho, às vezes eu sento um pouquinho lá fora para fumar, né, porque eu não gosto de fumar dentro do quarto, não gosto. Tenho horror.

 

P/1 - E as amigas da senhora lá do asilo, suas colegas?

 

R - As colegas lá do asilo?

 

P/1 - Isso.

 

R - As coleguinhas lá são tudo boazinha, sabe, são tudo legais, tudo. Mas cada uma tem um modo de vida, né, diferente. Eu já tenho um sistema de vida, né, elas têm outro. Mas a gente se dá muito bem, sabe, todos se damos. Nós nos damos muito bem, né? E a gente se quer bem, eu me apeguei a elas, já convivo com elas dois anos e já estou, sabe, num ambiente ali, quer dizer, que quando uma sai a gente já sente falta, sabe? Hoje mesmo que eu saí, quando eu chegar vai ser uma alegria para elas, sabe? Aí elas vem conversar, perguntar as novidades, tudo, né? Então é gostoso isso, né? Mas elas são boazinhas, sim, são legais. Assim, como pessoas idosas, são gente boa mesmo, gente que leva uma vida assim, normal, né?  Tem alguma birutinha, né, mas a gente deixa para lá, né (riso), passa por cima, e vai levando.

 

P/2 - Você falou que tem vontade de sair de lá.

 

R - Bom, eu tenho vontade de sair de lá, Rosa, pelo seguinte: porque lá antigamente a gente podia sair, podia ir ao médico, podia fazer umas comprinhas, tudo. Agora a gente não pode sair nem para se tratar, tem que ter a responsável. Eu tenho uma responsável, que é minha sobrinha, mas ela tem três filhos, ela é sozinha, ela cuida da casa, ela vai na rua, ela precisa fazer as compras, ela precisa lavar, ela precisa passar, ela precisa cozinhar, e tem os filhos que estudam e trabalham, eles têm horário. Então, eu tenho uma batelada de exames assim para fazer, eu tenho 11 exames para fazer. Esses exames levam tempo, porque eu vou lá, faço os exames já que estão marcados, que eu fui no médico, marcou, né, isso há seis meses atrás. Levo lá os exames... não: vou fazer os exames, depois tenho que buscar os exames, depois tenho que levar no médico esses exames, depois tenho que voltar outro dia no médico para ele... Alguma chapa que ele mandou tirar, e não pode sair mais. Então é por isso que tenho vontade de sair de lá, porque a gente está muito presa, e a minha mente... Eu sinto que estou ficando esquecida demais, eu não era assim, eu era tão ativa, eu não tenho mais atividade, comunicação, entende? Então eu sinto falta de aconchego com as pessoas, de comunicação, de palestra, de conversar, de trocar ideias, e porque ali a gente não troca ideias, trocar ideias de que maneira, por que, de que jeito? Não tem condições. Então a gente precisa disso, sabe? Mas não pode sair porque elas têm medo que aconteça alguma coisa com a gente, tem todo esse problema.

 

P/2 - E lá não tem nenhum tipo de atividade?

 

R - Não, atividade que eu tenho é a Igreja, né, e meu serviço do quarto, que já é... Para mim toma todo o meu tempo. É por isso que eu vou em frente, porque senão eu já estava caduquinha, em dois anos. Estava, já estava caducando. Porque eu estou ficando bloqueada da mente. Eu estou.

 

P/1 - Não tem outras atividades, festas?

 

R - Não. Festas, assim, não. Só tem, assim, no Natal, que vão as pessoas, dão um almoço, ou dão um lanche à tarde. Tem essas festas assim, isso... Essas festinhas, né? Mas assim atividade não. Agora tem... Na Igreja aconteceu o seguinte, que domingo esteve o bispo lá na nossa capela, está ficando importante, né? (risos). Então, e o padre que vai agora rezar a missa, ele é muito bondoso, é um padre muito inteligente, muito humano, sabe, e ele conversa com as pessoas, ele pergunta, ele tem uma atividade com a gente, assim, de comunicação, você entende? Porque ele pergunta: “Você sabe isso? Você sabe aquilo?”. Está certo que é de religião, mas já é uma coisa que puxa a mente da gente, né, que abre um pouco a mente, né? Mas do contrário é só isso. Agora, as missas agora têm ficado lindas, sabe, porque de primeiro tem o seguinte: as menininhas lá vão, mas elas não abrem a boca para cantar, elas não abrem a boca para rezar, então fica uma missa muda, silenciosa, é como se não tivesse ninguém na capela. Eu só que canto, a Cida canta e o padre, mais ninguém. Só escuta as três vozes: minha, da Cida e do padre.

 

P/1 - Por que é que elas não cantam?

 

R - Sei lá, elas não têm animação, sabe? Animada, estrambólica ali sou eu, sabe? Por que eu sou o rojão ali, é, sou. Eu, né, sou danada. Eu sou alegre, eu corro para lá, corro para cá, eu não paro, sabe? Mas é assim, elas não têm essa animação que eu tenho, né? Então a missa fica triste. Mas agora, há três domingos, está indo uns jovens lá, duas moças e dois rapazes, tendo mais um, né, então eles cantam, animou a missa, a missa está ficando muito bonita lá, sabe? E enche a Igreja, tem ido mais gente, entende? Então está ficando muito bonita a missa. (PAUSA) É isso, Rosa.

 

P/1 - Tem mais alguma coisa, assim, que a senhora gostaria de...?

 

R - De dizer?

 

P/1 - A senhora já participou alguma vez de um tipo de trabalho assim, dando depoimento da história de vida da senhora, a senhora já fez isso alguma vez?

 

R - Não, acho que não.

 

P/1 - E aí, o que a senhora acha de estar participando, de estar contribuindo?

 

R - Eu acho bom.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Não, acho que, assim, se tivesse as perguntas mais assim, abria um pouco mais a minha mente, porque eu estou com a mente, assim, não sei, esquisita, sabe?

 

P/1 - A senhora contou tanta coisa aqui para a gente...

 

R - Ah, não acho, né? É coisa simples, banais, né? Eu queria me lembrar dos fatos que aconteceram na minha vida. Isso eu não lembro não. Não lembro mesmo de nada, assim, que me marcasse muito. Deve ter tido, é lógico que deve ter tido, quedas que eu levei, né? Cortes que eu levei na mão do meu irmão Aniceto, que ele era parecido com japonês, né, tinha os olho rasgadinhos, eu chamava ele de japonês. Então, aí eu me preparava, né, porque vinha coisa para cima de mim, apanhava, me cortou uma porção de vezes, eu tenho toda uma carga de cortes dele, olha, esse dedo aqui, olha. Uma vez ele me jogou a machadinha. Sabe aquela machadinha de cortar lenha, né? Jogou a machadinha, me cortou tudo a mão, foi sangue para todo lado, sabe? Mas isso tudo passou, né, coisa de criança. Mas deve ter tido outras coisas interessantes que eu não me lembro mais. Não sei porque, eu que tinha uma memória tão fantástica... Não tenho mais. E cada dia eu estou ficando pior.

 

P/1 - (riso)

 

R -  É, Valéria. É sim, eu sinto as coisas, bem. Eu sinto.

 

P/1 - Dona Luiza, só para a gente concluir, a senhora tem algum sonho, assim, alguma coisa que a senhora gostaria de fazer?

 

R - Sonho? Hum, se tenho! Nossa! (risos) Uma casa, eu gostaria de ter uma casinha só minha! Onde pudesse levar uma pessoa de lá que eu gostasse muito e que eu visse que era assim da minha maneirazinha de ser, das minhas coisas tudo em ordem, tudo limpinho, tudo bonitinho. Uma casa. Isso seria o meu sonho, né? Ter uma casa muito bonitinha, limpinha, arrumadinha, com todos os móveis novinho, né? Isso eu gostaria. Tive até vontade de pedir para o Silvio, né, uma casa, mas... Deixa para lá. Ficou só na vontade (risos). Esse sonho eu tenho, sim. Tenho. Ter minha casinha, ter minhas coisinhas, fazer minhas coisinhas gostosas, que eu faço cada comida gostosa, modéstia à parte. Faço cada sobremesa, hum! (risos). Isso eu tenho vontade. Ter meu fogãozinho, né, já pensou? Hum!

 

P/2 - Dona Luiza!

 

R - Mas isso é só sonho.

 

P/2 - O que a senhora diria para as pessoas das outras gerações?

 

R - Das outras gerações?

 

P/2 - Agora, por exemplo, que a gente está gravando aqui, a senhora teria alguma coisa para dizer?

 

R - Essa nova geração?

 

P/2 - É, para o pessoal que vem aí, para os seus netos, que que a senhora acha que a senhora aprendeu da vida para dizer para essas gerações?

 

R - Que a gente precisa ter muito amor dentro de si, para dar para os outros, ser bondoso, ser honesto, ser pacífico, porque a violência está demais, né? Ser honesto sempre, em primeiro lugar, a honestidade em primeiro lugar acima de tudo. Ter caráter, que é a honestidade, né? E ser bondoso de coração e auxiliar sempre um idoso, uma pessoa carente que está aleijada, que está paralítica, que precisa de auxílio na rua, ou atravessar uma rua, ou que está numa cadeira de rodas, um auxílio assim, ou de roupa, ou de que puder dar, da maneira que puder auxiliar. Acho muito importante isso, a bondade no coração dos jovens, eu acho demais isso importante. Porque eu tenho essa bondade dentro de mim, sabe, eu tenho. Felizmente, eu tenho essa coisa boa dentro de mim. E tenho muito amor para dar e carinho para as pessoas, sabe? Eu sou muito carinhosa, eu sou carente também, sou muito carente, porque eu gosto de ser mimada, né? (risos). Ter carinho comigo, né, as pessoas, então eu sou carente, mas eu gosto de dar. E para a geração eu digo isso, né? Que elas participem com bondade do mundo, com bondade, com honestidade, com caráter bom, mas assim o coração limpo, né, porque tem pessoas que está te agradando mas está com a maldade dentro do coração, não adianta! É essa minha... que eu tenho para os jovens, a minha mensagem, que eu tenho para eles. É isso, bem (risos). Tá bom?

 

P/1 e 2 - Obrigada.

 

R - Nada.

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