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História

A minha missão não era ter grana, era ter saber e conhecimento

História de: Flávio Rocha (Flávio Rocha Silva)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2012

Sinopse

Flávio Rocha nasceu em Pernambuco. É filho de uma professora primária e um oleiro. Primogênito de cinco irmãos, iniciou os estudos muito cedo. Ao findar o ensino médio foi para Recife cursar jornalismo. Nesta época já trabalhava com artes cênicas. Após sua graduação foi aprovado em um concurso público, mas não seguiu carreira na área. Mudou-se para São Paulo e começou a trabalhar como ator em várias peças teatrais e na televisão. Atuou na Pedra do Reino e atualmente interpreta Tutuca em Suburbia.

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História completa

Eu sou pernambucano, me criei em Tuparetama, porém nasci em Paulo Afonso, na Bahia, na construção da usina! O meu pai tinha uma olaria, era sócio com os meus tios, e foram vender tijolos e telhas. A minha mãe foi grávida, eu nasci lá, mas o negócio não deu muito certo. Seis meses depois o meu pai voltou para Tuparetama. O meu pai e a minha mãe se conheceram no forró. O meu pai era namorador e conheceu a minha mãe. Os dois se apaixonaram e eu nasci de quatro meses!

Ela não casou de véu e grinalda, casou de vestidinho curto! Eu sei que fui feito em uma dessas festas, uma dessas escapadas de cerca. Minha mãe é uma mulher muito forte, meu pai também, é um cara que parece uma ave. Ele me incentivou a ir pro mundo! Eu sou filho de uma espécie de clã do interior de Pernambuco. A minha família morava toda próxima. Lá tinha um campo de futebol, com trave de ferro, redes, e o meu pai e tios tinham um time; e tinha uma pista de vaquejada. A minha família paterna era de perto de Caruaru, no agreste, e meu avô era dono de umas terras, e eles brigavam com os cangaceiros, o Antônio Silvino, e nessas brigas alguns tios-avós meus morreram.

E o meu avô quis se afastar, queria ser um homem pacífico, vaqueiro, domador de cavalos. Ele se mudou e criou novos documentos, o sobrenome dele antes era Gajão. Os irmãos da minha mãe, na década de 60, vieram pra São Paulo pra trabalhar porque era pouca terra. Meus avós, nenhum era rico, eram remediados. E a primeira vez que eu fui a São Paulo eu tinha 16 anos, e me apaixonei pelo mundo cosmopolita. Eu comecei a sonhar em ter uma vida urbana. Eu entrei na escola muito cedo, porque minha mãe era Professora primária na região. Ela educava a molecada, deixava o cara educadinho assim. E eu terminei o segundo grau não tinha nem 17 anos. A televisão foi minha janela pro mundo. Em 1978, antes da seca, chegou uma televisão Telefunken na minha casa! Eu comecei a assistir Sessão da Tarde, filme de faroeste, e juntava, no sábado à tarde, tipo 20 moleques.

Eu ficava assistindo televisão de madrugada. Eram dois mundos paralelos: tinha o meu mundo concreto que eu corria de jumento, tomava conta do gado e, de noite, eu tinha a televisão. Descobri na Casa de Cultura da minha cidade que a minha missão não era ter grana, era ter saber e conhecimento. E descobri a Biblioteca, a sonhar em ser escritor, mas toda vez que eu punha a cabeça no travesseiro eu pensava: “Se eu fosse ator eu ia ser feliz! Eu decidi: “Vou pra Recife”, mas meu pai não tinha como me manter lá. Ele vendeu uma vaca do meu irmão, que valia uma grana, e me deu o dinheiro e disse: “Você vai; se não der certo, eu mando buscar você”.

E eu fui pra casa de parentes! Fui de caminhão com um amigo meu, tentar a vida, estudar, buscar sabedoria. Cheguei e fui direto pra um curso de teatro, na Fundação Joaquim Nabuco, mas não fui aceito na turma. Então fui pra minha segunda opção, ser escritor. Vou fazer Jornalismo, aprender a escrever. Minha convivência com a poesia veio da cantoria, o repente, o embolador, o teatro de boneco, o cara que fazia o ventríloquo. O primeiro choque artístico que eu tive foi quando vi um cara fazendo ventríloquo com um macaquinho! Eu fui trabalhar numa Companhia de Teatro, como assistente de produção, e entrei na Faculdade de Jornalismo.

Mas logo eu saquei que o Jornalismo não era pra mim, comecei a perceber que a imprensa defendia interesses, mas aprendi a escrever. Terminei a faculdade e fiz um concurso na Escola Técnica Federal de Pernambuco e fui professor aprovado em primeiro lugar. Eu tava nesse emprego, já pra completar um ano, e eu falei: “Não é isso que eu quero na minha vida, não vim aqui pra isso, tô triste, tô infeliz!”. O Zé Celso estava em Recife, montando Artaud, e eu encontrei com ele. Aquele cara erudito, que tinha de repentista, improvisador, com cultura grega, indiana, com o teatro mundial, universal... Posso dizer que foi uma coisa de amor de arte que tive! Ele me perguntou: “O quê você quer ser?” “Nossa, agora nem sei!” Ele falou: “Faz essa cena comigo”. Eu improvisei uma cena e ele: “Você é ator, vai conhecer o Teatro Oficina”. Eu tinha de ir a São Paulo e fui. Aí fiquei.

O teatro me salvou várias vezes! Cheguei no Recife, me salvou, e mais uma vez também me salvou, deu certo. Tem gente que tem dificuldade, mas pra mim não foi muito assim, eu tive sorte! Eu fiz “Boca de Ouro”, depois um papel maravilhoso em “Bacantes”, que era o papel de um boiadeiro, e essa montagem me libertou como ator, porque o Zé falava pra mim: “Flavio, você tem talento, assume a tua loucura, você tá controlando muito!” E foi vendo essa cena de Bacantes que a produção da “Pedra do Reino” resolveu me chamar para fazer um teste. E “A Pedra do Reino” foi uma iniciação a um universo mágico que eu trazia dentro de mim! E agora estou em Suburbia.

A trama, pelo núcleo da família, aquela coisa ordenada, daquela paz, lúdica, romântica, tem muito a ver com a minha família. E quando entra a minha presença enquanto Tutuca na história, tem a ver justamente com a fragmentação, com a quebra da paz, da harmonia, pela violência e morte. Eu tô no papel de algoz e lá, na minha história familiar, nós estivemos no papel de vitima! É exatamente a mesma coisa. Um ator procura em si aquilo que tem que dar! Não é memória emocional, mas deixa vir do teu inconsciente, das coisas que te acontecem, de tudo que te moveu pro bem, pro mal, trazer isso pra cena e transformar isso em arte e depois se livrar disso.

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