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História

A mistura do Brasil com Egito

História de: Adolfo Giuliana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/01/2016

Sinopse

Em seu relato, Adolfo Giuliana relembra sua vida cosmopolita no Egito antes do movimento nacionalista, sua criação francesa e italiana e a entrada no mundo dos livros como livreiro. Recorda a mudança para o Brasil, em 1960, devido aos conflitos no Oriente Médio e fala também sobre seu tempo de trabalho na ITT (International Telephone Telegraph).

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História completa

P/1 – Seu Adolfo, eu queria que primeiro o senhor se apresentasse, falasse seu nome, onde o senhor nasceu, a data, o nome do seu pai, da sua mãe.

 

R – Eu nasci na Itália, perto do Comune di Mulacio, província de ______, 13 de janeiro de 1916. E, logo, tinha talvez um ano, meus pais me levaram para o Egito onde eu fui criado e frequentei as escolas francesas e as escolas italianas.

 

P/1 – Como é o nome do seu pai e da sua mãe? Do que eles trabalhavam?

 

R – O nome do pai era Angelo Giuliana, ele nasceu no Egito e tinha uma fábrica de móveis, minha mãe era dona de casa, cuidava da casa.

 

P/1 – Senhor Adolfo, o senhor poderia contar um pouco da sua infância? Como é que foi sua infância, contar um pouco como é que foi a sua vida quando pequeno?

 

R – Eu fui criado nas escolas francesas. Lá tinha muitas escolas, cada comunidade tinha a própria escola, unidade grega, armênia, franceses, ingleses. Seu hospital também. Era um ambiente mais ou menos cosmopolita, lá todo mundo falava três ou quatro idiomas. Eu não cheguei a acabar o curso colegial devido à guerra e interrompi os estudos. Então, fui trabalhar numa livraria antiquária, durante a guerra, e depois eu abri uma loja de livros antigos para mim mesmo. Agora, em 56, infelizmente, veio a questão do Canal de Suez, que foi ocupado pelo ______________. E, aquele conflito ingleses franceses. Devido a isto eu perdi todos meus fregueses ingleses, franceses, israelitas... E, fiquei até 60. Em 60 tive de ir embora porque não tinha mais nada para...

 

P/1 – O senhor poderia contar um pouco sobre este período da guerra, contar algumas histórias da guerra do Egito?

 

R – No tempo da guerra no Egito, muitos “egitarianos” [egípcios] foram, a maioria dos “egitarianos” foram no campo de “concentramento” [concentração]. Eu nunca me tinha me ocupado de política, por isso só entre os povos que nunca ocuparam de política que ficaram fora.

 

P/1 – O senhor lembra de algum episódio, do cotidiano da guerra no Egito? Da sua vida no Egito quando adolescente? Do cotidiano, como é que era a vida?

 

R – Olha, a vida para os europeus em geral era muito fácil. Até 1936. E, depois, os movimentos nacionalistas, o Egito, coitado, passou uma ocupação dos pérsios, dos gregos, dos romanos, dos turcos, Napoleão, os ingleses e estavam fartos de estrangeiros. Então, aquele movimento natural de cada nação. Então, daí um movimento muito forte que acabou explodindo com a ocupação do Canal de Suez pelo _____________. Agora, eu como livreiro antiquário perdi a maioria dos meus clientes, ingleses, franceses, israelitas... Então, até 60, 1960, fiquei tentando sobreviver, depois não dava mais. Como tinha comprado uma biblioteca, nessa biblioteca tinha um livro em francês de Stefan Zweig que a tradução do título é “Brasil, terra do futuro”. Eu li esse livro e disse: “Eu vou lá”. Meu irmão foi para a Argentina. Eu disse: “Não, eu vou para o Brasil.”

 

P/1 – E como é que o senhor se tornou livreiro? Como é que o senhor aprendeu a trabalhar com livros e ter uma loja de livros? Como é que o senhor aprendeu a ser livreiro, a trabalhar com livros antigos?

 

R – Justamente, que eu comecei a trabalhar numa livraria antiquária.

 

P/1 – Foi seu primeiro trabalho?

 

R – Sim.

 

P/1 – E como era a rotina de trabalhar numa...?

 

R – Olha, eram livros sobre arqueologia, a história do Oriente, as religiões, a filosofia, tudo o que concerne ao Oriente, o Oriente Médio. As religiões, a filosofia, tudo, tudo o que concerne ao Oriente Médio, O Egito e o Oriente Médio Antigo, Idade Média e Moderna.

 

P/1 – O senhor sentiu alguma transformação de mudar do Egito para o Brasil? Qual é a diferença no modo de vida que o senhor sentiu?

 

R – Olha, a atmosfera que reinava de 56 até 60 não era uma atmosfera natural para o Egito, porque o povo egípcio é um povo muito hospitaleiro e, infelizmente, não era uma atmosfera comum e, para eles não era comum e para os europeus também. Agora, têm muitos europeus que foram obrigados a ir embora, tem o que foi para a Itália, os que foram para a França e cada qual para o país de origem. Eu preferi, tinha lido esse livro, preferi vir para o Brasil.

 

P/1 – O senhor falou que tentou ir para Itália. O senhor chegou a ir para Itália procurar trabalho?

 

R – Em 57, depois da ocupação do Canal, eu fui para Itália. Tentei ir para Itália, fui para França também ver qual era a situação. Não era o que eu podia desejar, então disse: “Eu vou para o Brasil.” E, cheguei sozinho em 60.

 

P/1 – O senhor veio como, de navio?

 

R – Eu cheguei em abril, fiquei um mês em uma pensão e me aconselharam a comprar o Estado de São Paulo para ler as ofertas de empregos. E, em maio, eu vi, tinha uma oferta. Estavam pedindo um representante que falasse inglês. Eu fui lá, era a ITT, se chamava International Telephone Telegraph. Eu cheguei lá tinha uma fila de quase 150 pessoas. Eu quase ia desistindo, disse comigo mesmo: “Você não vai pretender ser o único no Brasil que fala inglês”. E, depois, disse “Não, vamos tentar”. Agora, a minha chance é que eu falava inglês, francês, italiano e árabe. Tinha um pequeno som de espanhol, conhecia italiano e francês. E fui escolhido. E, desde então trabalhei até fechar as portas da ITT. Quando veio a Embratel eu tive um susto porque o diretor me chamou e disse: “Olha Giuliana, vamos fechar pois vem a Embratel”. Eu disse: “Eu comecei a minha vida do zero novamente aos 44 anos, agora vou ter que começar novamente?”. E, depois, fui trabalhar com a Santa Hidrelétrica que pertence a ITT. Depois da Santa Hidrelétrica a ITT abriu, com a razão social, um escritório aqui, a ITT? ________ Comunications. E continuei até 84. Em 84 eu disse: “Chega! Vamos descansar um pouco”.

 

P/1 – Vamos voltar um pouco, contar como é que o senhor conheceu a sua esposa, como é que foi a história do namoro do casamento?

 

R – Olha, eu conheci a minha esposa pelo meio de uma vizinha que morava perto de nós e conhecia também a família de minha esposa. Então, ela me conhecia e conhecia a minha esposa. “Vamos ver, vamos juntar esses dois aqui, estão muito longe”. Morávamos no mesmo bairro, então, isso aconteceu.

 

P/1 – E como é que foi o namoro, o casamento, os filhos?

 

R – Tem um negócio que é... A minha esposa tinha a mãe dela, que veio também para o Brasil, era aquelas senhoras antigas, muito rígidas e eu não era, eu e minha esposa, não era aquele tipo extravagante, não mais. Agora, às vezes, eu quando ia embora ela fazia de tudo para ir na cozinha ou ir junto para nos acompanhar. E nós ficamos rindo, eu e minha esposa, minha noiva. Quer dizer, foi alguma coisa. Quer dizer, eu e minha esposa tínhamos mais que, quase, 30, 35 anos, né? Então, não era aquela juventude com 19, 20 anos é uma coisa normal.

 

P/1 – E aí o senhor casou no Egito?

 

R – Sim, casei no Egito sim.

 

P/1 – O senhor fala várias línguas, quais são as línguas que o senhor fala? Como é que o senhor aprendeu a falar tantas línguas?

 

R – Lá no Egito, eu fiz as escolas francesas, oito horas por dia, inglês, francês e árabe. Agora, era uma escola dos irmãos, da Escola Cristã. Eram muito rígidos. Quando o aluno não dava resultados o fim de semana era perdido para ele e para os pais. Sábado da uma hora às cinco horas da tarde era para copiar de um livro. Agora, os religiosos passavam atrás, quem não tinha boa letra: “Eu quero boa letra”. Arrancava assim “Próxima semana você volta novamente.” Você fazia isso uma vez, duas vezes, depois a bronca dos pais e ficar quatro, cinco horas escrevendo assim, se endireitava.

 

P/1 – O senhor aprendeu as línguas no colégio?

 

R - Na escola e na vida também. Tem uma coisa importante, era em 56, 57, na minha livraria. Um dia entra... Tinha a minha esposa e as duas meninas, entra uma pessoa bem vestida, um senhor de cor, preto, e eu nunca ia ao encontro de qualquer cliente, eu deixava o cliente. Ele começou a olhar os livros, nos falávamos, tudo. Depois de um pouco ele falou num italiano perfeito. E ficamos falando _______ depois eu disse “Mas como é que o senhor fala tão bem o italiano?” Ele disse: “Eu passei dez anos na Academia de Belas Artes de Roma”. Assim, todo mundo tinha a oportunidade lá de falar vários idiomas. Uma outra vez fomos num hospital, para minha esposa, e tinha um servente lá do hospital. Um hospital francês. Ele falava um francês, esse servente, também de cor, um francês, uma perfeição. Então, minha esposa perguntou, ele disse “Sim, porque eu trabalhei muitas vezes em muitas famílias francesas desde pequeno.” Agora, a Escola Italiana fiz também. Tem italiano, francês, inglês e árabe, são quatro idiomas, oito horas por dia e lá era caxias, né?

 

P/1 – O senhor poderia falar um pouco os países que o senhor já conheceu?

 

R – Fui na Grécia. Em 57, indo para Itália, na volta fui para Grécia. Na ida o navio foi para Grécia, não pude descer na Grécia porque ainda não tinha relações diplomáticas, da guerra, tudo isso. Uma outra vez, então, fui para Grécia, desci lá, vi Atenas, Corinto. Na França, na Suíça, no _______, um país maravilhoso. Itália, várias cidades da Itália.

 

P/1 – E o senhor sentiu muita diferença do modo de vida do Egito para o Brasil?

 

R – O modo de vida é quase igual com o tempo de antes desse movimento nacionalista. Que todos os europeus, os egípcios era tudo uma coisa comum, como uma comunidade, uma irmandade unida, apesar das diferenças de opiniões mas todo mundo vivia em paz. Então, o Brasil é mais ou menos como os bons tempos do Egito.

 

P/1 – O que o senhor gosta mais do Brasil?

 

R – Do Brasil? Gosto do Brasil, que eu considero um paraíso. Gosto do povo que apesar de ser sofredor ainda pode sorrir. Tem gente que sorri apesar da situação. Agora, mais do que isso? Não sei. Se gosto do país e do povo apesar de ser sofredor? Agora, é um país que infelizmente foi mal administrado. Isso não é de ontem é uma série de governos. Não sei, incapacitados ou, bom, como disse Stefan Zweig “Terra do futuro.”

 

P/1 – O que o senhor faz atualmente?

 

R – Atualmente? Estou aposentado.

 

P/1 – O seu cotidiano como é? O que o senhor faz diariamente?

 

R – Diariamente estou tentando dar umas aulas de italiano, de inglês, de francês. É um pouco difícil porque a situação está difícil para todo mundo.

 

P/1 – Seu Adolfo, quais são as suas perspectivas de futuro? O que o senhor ainda gostaria de fazer, seus sonhos, o que o senhor sonha ainda fazer?

 

R – Meu sonho é que a situação do Brasil melhore para os brasileiros e para todo mundo. Porque aqui tem dificuldade, mas tem muito mais liberdade, tem menos ódio e menos preconceitos que outras cidades e que outros países.

 

P/1 – O senhor gostaria de voltar para Itália?

 

R – Não. Não porque seria começar tudo de zero e já me acostumei aqui. Estava no Egito, estava contente. Veio aquele negócio do nacionalismo, que não tenho nada contra porque os coitados: séculos e séculos uma invasão atrás da outra. A posição deles lá, cada um queria ocupar. Agora aqui não tem outro jeito, para onde ir melhor que aqui? Aqui tem uma crise mas vai olhar em volta.

 

P/1 – O senhor acha importante deixar gravado em vídeo a sua história de vida?

 

R – Também seria importante para outras pessoas fazer uma opinião. A minha, aquela de outros, que não seria a opinião de jornais ou opinião de pessoas jornalistas. Serviria para outras pessoas para ter opiniões de pessoas, italianos, grego, armênio, árabe, israelita. Porque aqui não tem os conflitos que têm fora e vamos esperar que continue assim.

 

P/1 – Queria que senhor desse uma mensagem para as gerações futuras, para as gerações mais jovens, as crianças, os adolescentes que estão por aí. O que o senhor diria ou desejaria para eles?

 

R – Eu desejaria que o povo tivesse mais instrução e mais oportunidades de Ter boa saúde e não depender de promessa de políticos. Que tivesse verdadeiramente uma boa situação para todo mundo. Então, seria o paraíso terrestre de verdade.

 

P/1 – O senhor estava contando a viagem para os Estados Unidos, gostaria que o senhor contasse um pouco dessa coisa que o senhor disse, que agora quer continuar viajando. Como é essa história?

 

R – Eu tive a oportunidade de ganhar essa viagem. Eu vi o interior dos Estados Unidos, é muito bom. Fui em ___________, fui no Canadá, em Windsor, são cidades maravilhosas, têm um modo de vida muito mais elevado. Desejaria que esse modo, esse estado de vida fosse também o estado de vida do povo brasileiro, que sofreu e está sofrendo muito. O povo mesmo, não aqueles que estão lá em cima. Tem alguns que se salvam, mas tem outros que não colaboram. É um egoísmo, um egocentrismo, tudo deve convergir para mim e tudo deve partir de mim para os outros como eu quero, como quero. Seria um pouco mais de justiça social.

 

P/1 – O senhor gostaria de contar alguma coisa sobre a sua vida que o senhor não contou ainda?

 

R – Aqui? Graças à Deus eu não tenho do que me queixar. Depois de um mês que eu cheguei aqui, cheguei em abril, em maio já estava na ITT e fiquei até 84. Tive oportunidade de ir para o Paraguai, ganhei uma viagem prêmio para os Estados Unidos e São Domingos, fui para Brasília quando o chegou o General _______, fui para o Paraguai também. Não tenho do que me queixar, trabalhei, fui útil para alguém e aproveitei das oportunidades da vida, não é só do trabalho.

 

P/1 – Obrigada seu Adolfo.

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