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A moça

História de: Pedrina Dias Sega
Autor: Maria Aparecida Sega Contesini
Publicado em: 31/01/2018

Sinopse

Simplesmente a história de uma mulher guerreira.

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História completa

Ela era uma caipirinha pobre e aos oito anos, foi trabalhar como babá, num lugar afastado de sua casa. A caipirinha sentia saudade do aconchego do lar, era dificil conviver com estranhos, suportar os receios e a saudade. Certa vez ela brincava com a criança, quando avistou pela cerca da casa, seu tio que realizava um trabalho de manutenção na estrada, então gritou seu nome até ser ouvida por ele que se aproximou, então ela pediu: "fala pra minha mãe vir me buscar..." Retornou ao lar humilde, porém logo teve que partir novamente, até que já adolescente, veio trabalhar em São Paulo, na casa de milionários, na Alameda Jaú.

 

Alí, ela fez todo o tipo de trabalho doméstico e tornou-se um dia, querida pela família Zarzur... Sorriso largo, lábios carnudos e bem humorada, em algum momento conheceu um jovem que morava no bairro e nas horas de folga, se encontravam no Parque do Trianon... apaixonaram-se! Ela contou para a patroa e logo todos na casa ficaram sabendo. Um dos filhos da patroa sentenciou: Eu serei seu padrinho! A cidade da moça era Suzano, marcaram a data do casamento e quando chegou o tão sonhado dia, a moça que estava na porta da igreja com seu padrinho, ficou encantada com o que viu! A igreja estava literalmente forrada de flores! Com os olhos brilhando ela comentou: "Acho que alguma moça rica de Suzano se casará hoje, porque eu nuca ví a igreja tão linda assim", ao que o padrinho respondeu: "as flores, são um presente meu para você."

 

O casal foi morar com os familiares dele, na casa que era próxima ao emprego dela. A moça caipira não era aceita na família que tinha hábitos burgueses... Após um ano de casados, nasceu a primeira filha, que a mãe levava consigo para o trabalho no palacete onde ficava até tarde, evitando assim o convívio com os familiares do marido. O rapaz era eletricista e muito inteligente, era um autodidata, tinha paixão por música e tocava Dilermando Reis ao violão. Certa vez, conversando com o engenheiro Maynard, que era responsável pela parte elétrica do Parque da Independência o rapaz expôs seu problema, então numa atitude de amor ao próximo e muita coragem, o engenheiro o autorizou a morar na Cabine Elétrica do Parque. Lá se foi a moça com a criança, viver uma aventura que durou dez anos. Nunca se soube que alí morava uma família! A vida alí era diferente: compartilhavam um pequeno espaço de dois cômodos com os enormes transformadores de 2.200 wats (ou volts), num lugar bastante quente e sem ventilação. Morar alí, era viver em isolamento. Nunca viram seus três vizinhos mais proximos, que tinham o sobrenome JAFET.

 

Naquele espaço, nasceram suas outras duas filhas e todas foram educadas com absoluto rigor, visando protegê-las da alta voltagem da cabine. A filha mais velha começou a frequentar a escola, já alfabetizada por seu pai. Começou então a convivência com outras crianças de sua idade pela primeira vez. Dizem que foi penosa a adaptação, pois a vergonha e o medo tiveram que ser superados. A vida do casal seguia bem, até que um dia o engenheiro disse ao rapaz: "Vocês terão que sair daqui, mas te arrumei uma casa da Prefeitura ao lado do Museu". O moço respirou aliviado. A família mudou-se para a Rua Xavier de Almeida, bem ao lado do Museu. As crianças cresciam e a mais velha foi para o ginásio num colégio de freiras. O pai ficou orgulhoso e feliz, as três filhas cresciam num bom ambiente e sua esposa era muito responsável.

 

Certo dia ele sentiu-se mal, foi para o hospital e não mais voltou...o casal tinha apenas 39 anos de idade! A moça caipira começou a ser questionada sobre casar-se novamente, ao que respondia: "Jamais! Tenho três filhas mulheres e não aceitaria um homem estranho convivendo com elas...", nós (as filhas) não entendíamos, na época. A moça caipira estava doente, era analfabeta, porém bastante inteligente, e esforçada. Assumiu sozinha a missão de criar as filhas. Dizem que foi tanta luta, que nem dá para contar. Venceu! As filhas continuaram estudando no colégio de freiras e quando voltavam para casa, ajudavam a mãe que fazia em casa um trabalho para uma gráfica. A filha do meio casou-se aos 17 anos e a mais velha, aos 19 anos. A filha menor tinha uma diferença de 9 anos da irmã, era ainda uma criança e foi a companheira da mãe. A moça venceu! Cumpriu sua missão com louvor, sozinha, da mesma forma que começou! Orgulhava-se em dizer: "Graças a Deus", nunca fiquei devendo nada a ninguém. A moça partiu aos 67 anos, deixando uma saudade imensa para as filhas e netos. A mulher digna, a mais digna que conheci e cujos exemplos de vida tenho na memória, que amou loucamente sua família, era minha mãe... Louvo à Deus por ter me dado a melhor mãe do mundo! Mãe: de onde você estiver, me manda a sua bênção...

 

Maria Aparecida - maio/2017

A moça: Pedrina Dias Sega

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