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História

A Mooca das tecelagens

História de: Maria Helena Cavalcante Fernandes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Ainda na década de 30, os imigrantes italianos que chegavam à cidade de São Paulo, instalavam-se majoritariamente em bairros como a Mooca, o Belém e arredores. A família de Maria Helena estava por lá, com seus costumes e comidas italianas misturadas já nesse momento a uma leva de migrantes do nordeste. A cidade ainda era bem menor, e a natureza mais próxima. Nessa entrevista, a memória de Maria Helena nos leva até a piqueniques na Serra da Cantareira, as viagens à praia e a terrenos em ruas em que o asfalto ainda não chegara. Dos passeios culturais no centro da cidade e das cantorias de modinha com os primos até o trabalho nas fábricas de tecelagem da Mooca e as dificuldades enfrentadas durante o casamento, com o alcoolismo do marido, a história de Maria Helena mescla-se a do bairro do Belenzinho e Mooca e fornece detalhes importantes sobre a formação dos bairros de imigrantes. 

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História completa

P/1 – Dona Maria Helena, para começar eu vou pedir para a senhora falar o seu nome, a sua data de nascimento e o local de nascimento da senhora.
R – Meu nome é Maria Helena Cavalcanti Fernandes. Eu nasci no ano de 1932, dia 30 de novembro.
P/1 – E a senhora nasceu aqui em São Paulo mesmo?
R – Em São Paulo, no Belenzinho.
P/1 – Está certo. Dona Maria Helena, a senhora conheceu os seus avós?
R – Conheci os meus avós, paternos...
P/1 – Só os avós paternos?
R – Não, paterno só a mãe, minha avó, mãe do meu pai. Que veio do Nordeste para São Paulo. E justamente foram os inquilinos dos meus avós, italianos imigrantes, que eram... Chamavam nono e nona, né? (risos) E conheci assim, Francisco Milani, que era italiano, e João Cavalcanti e Luiza Cavalcanti, que eram de Alagoas. 
P/1 – E quando você fala dos seus avós, o que você lembra deles, como é que eles eram? 
R – A minha avó, a mãe do meu pai, veio morar, meu pai veio rapazinho lá de Alagoas tentar a sorte em São Paulo. E foi ser inquilino justamente da minha nona italiana no Belenzinho. Por isso que começou essa história, que eu conheci esse programa do Museu da Pessoa. Porque quando eu soube que ia inaugurar o Sesc Belenzinho, eu fiquei entusiasmada, falei: “Que bom. Mais uma coisa importante no nosso bairro.” E meus avós italianos tinham casa bem em frente onde agora é o Sesc. Era a antiga fábrica Santista, Moinho Santista. No balão do bonde, que eu pegava até esse bonde... Fiz a historinha, começou assim: eu fiz uma redação, que fazia na escola, uma redação contando que estava contente que ia inaugurar o Sesc. E eu comecei a lembrar de que eu pegava o bonde... Estou me antecipando muito? (risos)
P/1 – Não, não, pode ir. Pode ficar à vontade.
R – Eu pegava o bonde para ir à Escola Normal Padre Anchieta, que eu estudava, na Rangel Pestana. Fiz o primário lá, que chamava primário, né?
P/1 – E aí você fala um pouco dessa casa, que era o local onde todo mundo se conheceu?
R – Onde os meus avós italianos moravam, que tinha um quintal comprido, que usava assim muito, antigamente. E os meus avós foram morar junto, no Nordeste. Então toda a família se reunia lá.
P/1 – A senhora conheceu essa casa?
R – Oi?
P/1 – A senhora chegou a viver nessa casa?
R – A viver não, mas todo domingo a gente se reunia na casa dos avós. Que antigamente não tinha tanta distração como hoje, que ninguém mais nem tem tempo de ver quase a família, né?
P/1 – E como é que eram esses domingos? Como é que era quando você ia para casa? A casa em si como é que era?
R – A casa em si era quarto, sala e cozinha na frente, tanque separando outra casinha no fundo, que morava outro casal. Depois outra casinha no fundo, que morava esses meus avós. E se reunia a família toda, um vinha do Tatuapé, outro vinha do que antigamente chamava Mãe do Céu o bairro, era Mãe do Céu, que tinha a Igreja Nossa Senhora do Bom Parto. Até toda mulher que tinha nenê naquele tempo, o primeiro passeio depois que nascia o nenê tinha que descer a Igreja, na nossa família. E se reuniam lá, cafezinho, cada um levava uma coisa.
P/1 – Você lembra-se das comidas? O que se comia?
R – Comida muito italiana, né, porque... Coisas em conserva, sardinha em conserva (risos), italiana. Gostoso. Era ótimo. As primas, fomos criadas, a gente quase não tinha muita amiga, era a própria família. A minha nona italiana teve sete filhos, cinco mulheres e dois homens. Então, era muita prima e primo, primo também mocinho. A gente ficava ali, uma roda, cantando, um tocava violão, outro cavaquinho. Fazia uma rodinha.
P/1 – Você falou agora dos primos. Do que vocês brincavam na infância, o que vocês faziam? 
R – Eu pus até na redação também, a gente brincava... Nessa reuniãozinha era mais cantoria, cantava as modinhas, que chamava modinha. 
P/1 – Você lembra alguma música, alguma modinha?
R – Nossa, tinha. Outro dia mesmo eu estava lembrando com a minha filha, que o meu irmão de Brasília, que mora em Brasília, vai fazer Bodas de Ouro. E eu falei: “Eu tenho vontade de achar um disco que ele gostava que era O Velho Realejo. A gente se reunia na porta de casa, cantando, a moçadinha cantava O Realejo, sertaneja, tudo gravado pelo Nelson Gonçalves. (risos) É gostoso. A minha filha arrumou até a letra, pela internet, arrumou a letra toda. Porque eu já um verso já não lembrava mais. (risos)
P/1 – E aí, fora essas rodinhas de amigos com os primos, o que mais vocês brincavam? Vocês brincavam muito na rua?
R – Na rua, isso já na minha casa, na Itaqueri, mais para a Mooca. Porque esse Sesc Belenzinho é bem no centro do Belém. E eu morava um pouco mais para cima, na Siqueira Bueno, Itaqueri. E brincava de ir à rua, porque não tinha asfalto, era terra. Então a gente pulava corda, era terra bem batida, parecia até asfalto. Só quando chovia que virava escorregadio né, a lama. E na rua, pulava corda, corda de dois, lenço atrás, essas coisas. Passa anel, brincava também com os meninos lá da rua, brincava de bolinha de gude (risos), essas coisas.
P/1 – E Dona Maria Helena, a senhora já contou que os seus avós acabaram indo morar no mesmo lugar. Você sabe a história dos seus pais, como eles se conheceram?
R – Eles se conheceram assim. Porque minha mãe era filha da dona da casa que meu pai veio a ser inquilino. Que depois trouxe também a minha avó do Nordeste, de Alagoas, para morar junto. Era assim antigamente. Vinha um, depois trazia. Ainda é assim. Meu pai trabalhou 45 anos no Fontoura, laboratório Fontoura. Então, trouxe minha avó. Mas antes do Fontoura ele tem uma história muito longa, fez de tudo na vida, o que arrumava, ele fazia, serviços gerais... É que depois foi ficando interessado no laboratório, e fazia pomadas, cremes, químicas. Virou químico. (risos) 
P/1 – E a sua mãe?
R – Mas era assim... Tinha a minha avó, que morava na frente, tinha muitas filhas mulheres. Dava para escolher uma, foi minha mãe. (risos)
P/1 – Legal. E dos seus pais. Conta um pouco do seu pai e conta um pouco da sua mãe também. 
R – Então, minha mãe era filha desse casal aí, de imigrantes. Trabalhava de tecelagem também, de tear. Tem muita tecelagem no nosso bairro aí, Belém. Mooca, Belém, tudo vizinho. Sempre trabalhou, mesmo depois de casada. Eu lembro que essa minha avó que veio do Nordeste criou a gente, eu trouxe até fotos, ela que criou a mim e meus dois irmãos. Minha mãe sempre trabalhou para ajudar. Fizeram primeiro só quarto e cozinha, em Itaqueri, meu pai quando casou. Eu nasci na Rua Redenção, no Belenzinho. Com um aninho, meu pai já tinha comprado um terreninho na Itaqueri, e fez um quarto e cozinha. Mas aí começaram a vir mais parentes. (risos) Aumentou a família também. Ficou mais um quarto. E a casinha... Até que quando eu casei também vim morar nessa casa em Itaqueri. Minha mãe cedeu, porque não é como agora, que já casam com apartamento pessoal, tem mais facilidade de ir pagando também. Antigamente nem o terreninho dava para comprar, era uma sorte quando tinha um terreninho que dava para fazer um.
P/1 – Me conta um pouco dessa casa da Itaqueri, como era essa casa?
R – Era uma delicia. No quintal tinha plantação de caqui. Meu pai sempre fazia um balanço para a gente. Aqueles troncos mais fortes, e pendurava a corda, fazia um assentozinho, ficava ali, a gente cantarolando, alto no balanço pra lá e pra cá, a vizinhança também cheia de criança, de jovem, se juntavam na cantoria. E não era nem muro que tinha, era cerca viva. E tinha uma família portuguesa do lado, e eu ainda sou amiga da moça, que foi criada junto comigo, a gente até arrumou uma passagem, nessa cerca viva, para não dar a volta pela frente (risos), era tudo assim, sem muito conforto, bem simples.
P/1 – A senhora falou dos seus irmãos também. Conta um pouco desses seus irmãos. 
R – Cada irmão meu tinha bastante diferença de idade. Eles tinham mais cuidado de trabalhar para aumentar a casa. (risos) E quando eu me formei no primário, tinha até chance de continuar na Escola Normal Padre Anchieta, no Brás, mas meu irmão também já estava com... Era pequeno ainda, mas já se formando também, que são quatro anos de diferença minha. Hoje mora em Brasília. E eu fui aprender a cerzir, porque eles achavam que quem tinha que estudar mais era o filho homem, para manter a família, naquele tempo pensavam assim. (risos) Hoje em dia tem casa que a mulher ganha mais até né? E ninguém se envergonha disso. Quem tem mais sorte e capacidade ganha e pronto. Aí o meu irmão estudou Contabilidade, era contador antigamente, ele foi trabalhar em banco, trabalhou no banco de Londres, já rapazinho, ele foi até convidado, quando inaugurou Brasília, a agência fez alguns convites para alguns funcionários, se queriam ir, ele tinha vinte anos já. Dos dez aos vinte fez os cursos que tinha que fazer sempre, primário, ginásio, colegial, aquelas coisas. Aí estudou esse contador, trabalhou nesse banco de Londres, London Bank, foi convidado a trabalhar em Brasília. Tem foto também dele, em casa, de bota, porque Brasília estava começando também. Ele trabalhou lá, fez família lá, está lá, até hoje, vai fazer Bodas de Ouro, esse meu irmão. 
P/1 – E a senhora tinha mais um irmão ou irmã?
R – Tenho outro irmão, tive mais dois irmãos que faleceram com aqueles probleminhas que hoje em dia é dengue, essas coisas, que antigamente nem se sabia o que era, era infecção intestinal, não se sabia o que era. Dois. E fiquei com bastante diferença agora do caçula, tem quatorze anos a menos que eu, o caçula que é o João Carlos. Trabalhou na IBM, todo mundo, todos os filhos homens mais formados. Eu só que fiz o primário, depois fui aprender corte e costura. (risos)
P/1 – Mas a senhora fala um pouco do primário. A senhor lembra bastante do primário? Como é que era esse primário?
R – Era muito bom na Escola Normal, diferente de qualquer outra escola. Parecia já... Eu via, pela escola dos meus filhos, também municipais, essas coisas. Que a formação que eu tive era diferente já. Já era diferente a Escola Normal. 
P/1 – E como é que era a escola?
R – Escola Normal boa, com uniforme bonito, de gravatinha, sainha pregueada. E coral, toda aquela educação, que quando chegava convidado na sala, a gente levantava, cantava o Hino Nacional antes da aula. Aí festas no salão nobre, que iam convidados dos prefeitos, e essas coisas todas. Políticos iam assistir.
P/1 – E a senhora falou que ia de bonde para a escola? 
R – De bonde. Pegava o bonde justamente nesse balão do bonde, quase em frente de onde moravam os meus avós italianos. Pegava o bonde, tinha o bonde grande, e o ”cara dura” a reboque, atrás. A meninada se encontrava ali no ponto. E na saída da Escola Normal, a gente ia à garagem dos bondes que era na Rangel Pestana. Ficou muito tempo ali, a gente ia pegar o camarão, que era fechado, o bonde fechado. A turminha que morava do nosso lado, que tinha meninas da Mooca, de Belém, todas que estudavam lá também.
P/1 – A senhora falou um pouco do bonde. Para quem não conhece, o que é o Cara Dura e o Camarão? 
R – Cara Dura é o reboque. O Camarão é o fechado, que a gente vê até em filmes de outros países, até tem né, parece um ônibus, só que anda no trilho (risos). É igual a um ônibus, só que é no trilho. E o Cara Dura, o Reboque, era um bondinho menor, puxado pelo bondinho grande aberto. Tinha estribo, cobrador, motorneiro...
P/1 – Muita gente sempre conta história com bonde, sempre tem alguma história com bonde. A senhora tem alguma história, de que perdeu o bonde, alguma história engraçada ou alguma coisa trágica de um bonde?
R – No Camarão a gente ia ficar justamente quando acabava a aula, às cinco horas, a gente sabia que saiam bondes, que essa hora o trânsito já ia aumentando também, que os trabalhadores que saíam de firma, né? A gente ia pegar o bonde aí, no início, na saída deles. E a turminha da escola, que era para aquele mesmo lado, tudo ia lá para o final, cozinha que chamávamos (risos), na porta de saída quase, era uma farra. 
P/1 – Entendi. E deixa eu te perguntar de novo do primário. Do primário, você lembra de algum professor, alguma lembrança marcante, assim, dessa ocasião?
R – Eu me lembro do Coral, tinha aula de canto.
P/1 – E nas aulas de canto tinha alguma...?
R – (?) chamava. Cantava muito Hino, Hino Cisne Branco, tudo, que ninguém sabe hoje em dia. Hino Nacional então, tem que ter… E História e Geografia dos outros países, capitais, rios, serras. Fazia mapa com serras, rios, cidades, as estradas de ferro. Tudo assim. Sabia as cidadezinhas, as paradas do trem até Santos, Mauá, essas coisas. Nem eu lembro mais (risos).
P/1 – E Dona Maria Helena, a senhora falou que quando vocês iam se divertir, o passeio em geral era...
R – Era assim, tinha muito piquenique, tinha... O meu tio, que também era vizinho, que comprou, junto com o meu pai, o terreninho na Itaqueri, também construiu, ele trabalhava na Repartição de Água e Esgoto, esse meu tio, Alfredo Fortino. Era o único na família que tinha carro, ele levava a gente muito para Santos, que tinha parente em Santos. Mas não tinha ainda essas estradas, nem Anchieta, nem Imigrantes, nada. Era a Serra do Mar, a gente ia pela Serra do Mar, Curva da Morte, aquela estrada toda, né? E também não tinha para Peruíbe, que ia até Peruíbe. Isso eu já era adolescente, já mocinha. E levava sempre alguma sobrinha junto, porque ele só que tinha carro e minha tia e minha mãe eram irmãs, sempre levava, ou eu, ou outra prima. Muitas primas. P/1 – Como é que era esse Caminho da Serra do Mar?
R – Serra do Mar, né? Que tem agora até turismo. Como é que chama? Piracicaba...
P/1 – Piracicabana?
R – Que tem turismo, tem uma caminhada...
P/1 – É, tem uma companhia que faz. Mas daquela época o que você lembra da estrada? Como é que era?
R – Perigosa. Tinha muito cuidado, beirando árvores e do outro lado já o abismo, passando um carrinho bem encostado no outro. E quando ia para Peruíbe também era pelo mar ainda, beirando o mar. Então meu tio sabia o horário que a maré abaixava, para a gente ir. Fazia até hora em algum lugar, lanche, levava já lanche. Não tinha nem tanto restaurante como tem agora nas estradas, nada. Aí ia para Peruíbe, meu tio conseguiu fazer o primeiro hotel de Peruíbe e a gente ficava lá, no hotelzinho dele, em construção ainda.
P/1 – Peruíbe era bem vazio então nessa época, como é que era?
R – Eu saía com meus pais, que a gente tinha... Antigamente tinha muita pensão em Santos. Aí apesar de a gente ser pobre, meu pai, todas as férias dele, tirava uns dias para a gente ir para Santos. Então era aquela festa que ia para Santos, nessa pensão dos amigos, ali na...
P/1 – Quando você fala pensão, como é que era uma pensão?
R – Pensão, uma casa grande, que a pessoa tinha mais quartos, dava a refeição, alugava o quarto e ficava naquele quarto a família, se precisava alugava dois e usava a casa da pessoa. Sempre era mais conhecida a pessoa, que um indicava para o outro, sabe? Os amigos: “Ai, vai à pensão tal, que a pessoa é boazinha.” Era conhecida também, muitos conhecidos nossos tinham, foram tentar a sorte assim, com pensão em Santos.
P/1 – E de Santos o que você lembra dessa época, dona Maria Helena? 
R – Em Santos, até agora ainda tenho um apartamentozinho lá, em frente ao Aquário. Gostava muito, mas é que agora eu tenho um probleminha de pele, não posso tomar muito sol, fico debaixo de árvores (risos).
P/1 – A senhora lembra a primeira vez que vocês foram para a praia? A primeira vez que você viu o mar, assim, de ter ido para a praia?
R – Ah, lembro. A gente ia arrumada de casa, com o maiôzinho. Ou então meu tio cobria o carro, o carro dele, chamava Buick parece, sei lá que carro era (risos), um carrão grande e preto.
P/1 – Aí ele cobria o carro?
R – Cobria para a gente trocar ali mesmo, a minha tia levava lanche. Assim, no Zé Menino, o carro entrava no gramado, que não era jardim, assim, bonito, que agora Santos tem o jardim mais bonito, está até no livro das curiosidades né, melhores do mundo. Nosso jardim em Santos pega de São Vicente, quase da Ponte Pênsil, até o Porto, isso tudo é jardinado. É lindo ali e agora eu tenho um apartamentozinho lá, sempre que posso.
P/1 – Está certo. E aí, em Peruíbe, era bem menos habitado né?
R – Era mais mato ainda. Agora é uma cidade já, também cheia de trânsito, acidentes, mas era... Até pouco tempo, fui ao enterro da última tia minha, morreu com 93 anos, em Peruíbe. E também formou família lá, ela tomava conta de uma Colônia que meu tio estudava, era Barão de Mauá no Brás, Escola de Comércio Barão de Mauá. E minha tia, essa outra minha tia arrendou, tomava conta, dava a refeição, tomava conta da Colônia. E com o meu marido também depois, casada, ele era contador também, a gente ficou sócio. Aí nossas férias já passaram a ser em pensão, já melhoramos e viemos para Colônia, todas as férias para a Colônia. 
P/1 – A senhora tinha dito que bem no comecinho que o seu tio construiu um hotel. Você lembra?
R – O primeiro hotel de Peruíbe. Praia Hotel, chamava Praia Hotel.
P/1 – E vocês ficavam lá enquanto estava construindo?
R – Tem foto. Tem esse hotel ainda, tem outros agora, outros hotéis. Essa outra minha tia que faleceu morava bem na Avenida Padre Anchieta, na principal, em Peruíbe. Fez a vida dela era trabalhando nessa Colônia, carregando, ia ao mercado, fazer as compras, procurar porque era mais em conta. Mas tudo de boa qualidade, que tinha a diretoria que ia sempre olhar se estava tudo em ordem.
P/1 – Entendi dona Maria Helena, a senhora falou também que tinham os piqueniques né, que eram...
R – Que esse meu tio, que estava melhor de vida, trabalhava na Repartição de Água e Esgoto, essas companhias sempre patrocinavam passeios para os funcionários. E tinha piquenique na Vila Galvão, na Cantareira...
P/1 – Na Serra da Cantareira?
R – Serra da Cantareira.
P/1 – E como é que era? Você lembra dos piqueniques?
R – Era também assim, tinha o bailinho à tarde, eu lembro que eu já era mocinha, tinha bailinho, tinha cantores da Rádio Tupi, que iam convidados. E o pessoal também às vezes ia ao piquenique mais para ver esses cantores. Tinha a dupla Ouro e Prata, que eu lembro bem da dupla Ouro e Prata, eu era mocinha adolescente. Mas gostava de rádio, a gente só tinha a diversão do rádio, não tinha televisão ainda. 
P/1 – Você falou agora do rádio. Conta um pouco para a gente. Tinha rádio em casa? Todo mundo ouvia junto?
R – Nós sempre tínhamos rádio em casa, ouvia como era? Manuel Durantes, que era radionovela, de domingo, era o seriado. Ouvia, não assistia, ouvia.
P/1 – E aí, quando ia ouvir, todo mundo parava, ouvia junto?
R – É, parava. Todo mundo ouvia o radio na cidade grande (risos). 
P/1 – A senhora lembra de alguma novela, algum capitulo?
R – Da Rádio São Paulo, tinha muita novela da Rádio São Paulo. Quando eu fui aprender a cerzir, que a minha vizinha... Quando eu saí do primário, fui aprender a cerzir. Porque na Mooca tinha muita tecelagem, lanifícios, então era o tecido que usavam, não era tudo assim, tropical, inglês, essas coisas, que depois começou a vir, e acabou com as tecelagens, porque vinha quase perfeita a peça. Quando eu aprendi a cerzir, fui aprender com uma vizinha que a lanifício dava peças para ela em casa trabalhar e eu fui aprender com ela, a cerzideira. A cerzideira puxava a peça de 50 metros mais ou menos, de caxemira, tudo em cru, depois ia para outra tecelagem tingir. E tinha a marcadora de defeitos da peça, que puxava assim, como se fosse um gol, de um lado a peça, do outro lado, a gente puxando para ver os defeitos. Marcava com um x, e a cerzideira ia acertando o defeito da peça.
P/1 – E o seu primeiro trabalho foi numa tecelagem?
R – Meu primeiro trabalho foi esse, aprendi primeiro a costurar, depois aprender a cerzir, com essa vizinha. Depois que uma amiga falou: “Puxa, você está aprendendo a cerzir, você vai trabalhar no Edifício Inglês”, que era também perto, um pouquinho mais abaixo da Siqueira Bueno, os Gasparian, firma Gasparian. Fui já ganhando bem, já fui trabalhar já registrada, tudo.
P/1 – Então primeiro você aprendeu com a vizinha?
R – Fiquei um ano trabalhando com ela. Depois começou a pagar um real por hora. Fiz duzentas horas no mês (risos), eu nem comia, eu era vizinha dela. E aí fui trabalhar, com 15 anos entrei no Edifício, saí com 21 para casar. Fiz um acordo com ele, sai porque meu marido naquele tempo também achava que eu  precisava ficar em casa: “Por que vai trabalhar?” Ele ganhava bem, ele trabalhava numa loja na Silva Jardim, também na Mooca, Belém. Era mais Belém. Ganhava bem, ainda estudava na Álvares Penteado, ele fazia Economia. Estava no segundo ano de economista. Estudava à noite e trabalhava nessa loja, entrou menino também nessa loja, de calça curta, ele contava né, e a gente se conheceu no caminho, ele ia almoçar, e eu saía para o almoço, era quase vizinho e a gente nunca se viu. Ele mudou o horário um dia para a Siqueira Bueno, e eu estava descendo, que a gente ia almoçar em casa. Uma hora de almoço e a gente corria a almoçar em casa. O movimento da rua era tudo moças que iam trabalhar, subiam para as suas casas para almoçar e voltava no outro período. A gente se encontrou, e aí deu certo, se gostou. (riso)
P/1 – E ele falou com a senhora? Como é que foi, ele estava passando?
R – Ah, primeiro, eu conto para as minhas netas hoje em dia, e elas dão risada. “Vó, o que é isso?” Primeiro tirar na linha. Tirar minha paquera, a paquera que fica se olhando, com um, com outro, ficava um tempão, mês, se olhando, se cruzando, olhando, um mês. Depois tinha coragem de falar. “Eu vou falar com ela”. Aí a gente via que tinha qualquer coisa que dava uma simpatia, né? Eu conto para a minha neta: “Ai, vó, era assim?” “Era minha filha.” (risos) Só do lado assim. Se pegasse nas costas, na mão, a vizinha vinha vindo, vai contar para a mãe, fica longe (risos). Marcava encontro, não era assim, que já saía junto, nada disso.
P/1 – Ia buscar em casa?
R – Buscar em casa não, marcava numa esquina. A mãe fazia que não estava olhando, mas ia até a porta, queria ver quem era. Ninguém sabe quem é. Mas conversando, saindo, aí é lógico. Saindo junto, cinema, aí já começou o namorinho mesmo. 
P/1 – Então, antes da gente falar, entrar na história do seu marido, a senhora falou do bailinho também que tinham os bailinhos. Conta...
R – Depois dos piqueniques tinha o baile, depois do lanche, cada um comia o seu lanche, às vezes tinha churrasco, uma churrasqueirinha para fazer né? Levava a carne, fazia churrasco. Tinha o baile, cantava essa dupla Ouro e Prata, Hebe Camargo mocinha. Eu era não muito mais nova que ela não. Vou fazer 80 no fim do ano, agora em novembro. E ela tem já 80 e pouco, a Hebe né, já fazia diferença já, moça artista, de salto. A gente ainda não. 
P/1 – E fora os piqueniques, tinha bailinho na casa dos amigos, no clube?
R – Fazia. Vizinho, fazia qualquer aniversário tinha bailinho. E a gente era convidada e dançava com a moçada do lado, também vizinhos, muita criança tinha, muito rapaz.
P/1 – E aí dançava o quê? Junto, ou...
R – Mais bolero.
P/1 – Mas era sempre bolero?
R – Era bolero. Cantor famoso naquele tempo era Francisco Alves, Nelson Gonçalves. Depois começarem a vir outros. Era mais bolero, samba, essas coisas. 
P/1 – E aí a senhora falou também do cinema. Já tinha cinema então?
R – Tinha sim. Aí a gente começava a ir ao cinema com o namorado, no Largo São José do Belém, tinha lá, o cinema São José. Tinha essas... Que ficavam moços do lado, no Largo São José, e as mulheres passeando no meio. Eu ia pouco, nesses passados aí eu ia pouco. 
P/1 – E o que vocês iam ver no cinema? Você lembra algum filme?
R – Seriado. Tinha um seriado que todo domingo continuava (risos), para o pessoal ir, né? 
P/1 – Passava desenho? O que eram esses seriados?
R – Seriado. Era desenho, filme do Gregory Peck, Marilyn Monroe, essas coisas, esses filmes bem antigos. E as meninas também usavam, a gente copiava o cabelinho de um e de outro, ondinha. Eu trouxe bastante foto que a gente usava cabelinho igual das artistas. A Gilda, que era a Rita Hayworth...
P/1 – E você fala de vários lugares de São Paulo. Conta para a gente, os cinemas eram no centro, ou...?
R – E também veio morar com a gente uma tia da Bahia. Que essa minha prima também morou com a gente bastante tempo. Minha tia se separou na Bahia, pediu para o meu pai também se podia vir para cá, para São Paulo e trouxe já a filha menina, dois anos a menos que eu, a menina veio com cinco anos, e eu já tinha sete. Veio morar também nessa casa, aí já tinha mais quarto. Fizeram mais um atrás. Banheiro não era dentro de casa, banheirinho era fora. Saía da cozinha, um terracinho, o banheirinho.  Não tinha chuveiro elétrico, era de canequinha. Que nem a gente vê agora em novelas, naquele tempo era assim também. Tinha as famílias que estavam melhores, que já tinham. Depois, quando fez banheiro interno, aí era uma vitória, fazer um banheiro interno. Chamava: “Ai, eu tenho um banheiro interno”... (risos) Porque era tudo fora, poço, quando eu era menina, era poço no quintal. Era quase sertão. 
P/1 – Essa região, que você sempre morou nessa região, Mooca, Belém...
R – Quando meu pai comprou, o pessoal: “Nossa, você vai morar lá? Não tem nada!” Não era rua marcada, era picada. Quem podia comprar terreno para revender que ficou bem, né? Porque aí o pessoal começou a melhorar o ordenado, no tempo de Getúlio Vargas, no meu tempo, quando eu era menina, era o Getúlio Vargas. Porque eu nasci em 1932, justo na revolução, né? Que meu pai, minha mãe conta que meu pai, ela estava me esperando grávida, em estado bem adiantado, e meu pai ia ouvir o radinho... Logo que casavam, ficavam também logo grávidas. As moças não esperavam como agora, que estudam, trabalham, querem dar um tempo né? As mulheres ficavam logo grávidas. A minha mãe era nova, casou com vinte e um anos, ficava num quarto e cozinha que foi morar. Meu pai ia à vendinha da esquina escutar as noticias da revolução (risos). Ouvir rádio do jogo, essas coisas, ouvindo rádio. 
P/1 – E as pessoas que trabalhavam no bairro eram sempre as pessoas que trabalhavam nas tecelagens? Como eram as pessoas?
R – A maioria em tecelagem. Algumas famílias, todas depois foram progredindo um pouco e os filhos já foram estudando mais. Aí era escritório de contabilidade, mais contabilidade que tinha né? Que o lugar era pobre, começaram a vender terrenos, tinha a imobiliária também pequena, era a própria casa da pessoa. Um cantinho que era a imobiliária, uma escrivaninha, e uns cartazes, vendendo terreno.
P/1 – A senhora começou falando do Belenzinho. O Belenzinho também era assim, ou o Belenzinho já era um pouco diferente?
R – Quando eu nasci eu fui embora já com um aninho, para essa casa nova, quarto e cozinha. É a que eu tenho mais lembrança, dessa, que eu fui criada ali.
P/1 – E de lugares de São Paulo que vocês iam passear? Vocês iam passear no centro?
R – Ia passear na Praça da Sé... Essa minha tia que veio morar junto, ela é contadora também. Trabalhava na cidade, era toda de unhas bem feitas, porque as mocinhas nem cuidavam muito da unha, nada. Uma prima fazia para a outra a unha, sabe? (risos) Arrumava a sobrancelha (risos), enrolava o cabelo com bob. (risos)
P/1 – E aí vocês, então, passeavam na Praça da Sé...
R – Essa minha tia se arrumava muito bem. Que ela trabalhou em lojas boas, Joalheria Casa Castro, que era famosa antigamente. Eu tinha um tio, que era um tio mais novo, que também veio ficar com meu pai, ele trabalhou, foi gerente do Mappin, na sessão de calçados do Mappin. Ele contava que eram muito estrangeiros, aquelas mulheres estrangeiras que compravam sapato no Mappin né? Jardim Europa, moravam naqueles palacetes, e era tudo de couro, couro bom, sapato grande, sabe? 
P/1 – Vocês iam passear no Mappin também? Porque ele era grande. Como é que era o Mappin? 
R – A gente passeava lá, fazia as comprinhas lá, ele atendia.
P/1 – O Mappin já tinha elevador? Tinha elevador no Mappin?
R – Tinha lá. O elevador com aquelas portas sanfonadas (risos).
P/1 – E aí a senhora falou da Praça da Sé, dona Maria Helena, tem mais algum lugar do centro que a senhora lembra?
R – Tinha cinema, tinha o Avenida Cinema, a gente ia de domingo de manhã, tinha desenho. Com essa minha tia, que estava melhor de vida né, que ganhava mais, ganhava mais que meu pai até. Eu cheguei a ganhar mais que o meu pai, de cerzideira. Que a gente trabalhava por contrato, quantas peças cerzia, a gente nem almoçava quase. Ia almoçar em casa, mas o lanchinho que a gente levava estava no colo, e a gente comia e cerzia para fazer bastante peça.
P/1 – Então vamos falar agora dessa época. Você começou a cerzir. Como é que você aprendeu? Você já tinha facilidade? A sua vizinha que te ensinou, você contou isso. Mas como é que foi o processo de aprender, dona Maria Helena?
R – Aprender? 
P/1 – A cerzir.
R – Foi nessa vizinha. Porque ou aprendia Corte e Costura, quem não podia continuar o estudo né, porque não tinha tanta escola que não tinha seleção para entrar. Era tudo quase Contabilidade. Esse meu tio que estava bem, que era vizinho, até ofereceu ao meu pai, que eu podia estudar então na Barão de Mauá, que ele estudou lá contador e também ficou no Grêmio deles lá. Meu pai: “Não, ela vai aprender Corte e Costura.” Sabe como é? Era assim. Era difícil quem estudava. Difícil na nossa classe social. É lógico que tinha as professoras, tinha gente importante. Mas não tanto como agora né, todo mundo estuda. 
P/1 – E aí na tecelagem mesmo, como é que era, o dia a dia? Você disse que tinha vez que comia um lanchinho.
R – Entrava às seis e meia da manhã, saía às 11 e meia para almoçar, voltava, ficava até as cinco, cinco e pouco. Se quisesse ficar mais, até ficava, para fazer mais peça. Puxar aquelas peças né, que vinham marcadas já, para ganhar mais.  P/1 – Dona Maria Helena, então você estava contando, você contou muito dos tios e das tias. Era normal esse fluxo? Eles sempre vinham? De onde eles vinham? Eles eram todos da Bahia? Conta para a gente.
R – Minha tia veio morar junto. Eu tinha tia em Recife, a de Recife, nós fomos lá passear em Recife também. Já cheguei com essa minha filha mocinha, que era mocinha. 
P/1 – A sua tia que era contadora e o tio contador vieram também?
R – Vieram morar com meu pai, com a gente, pediram para vir, se podiam vir para ficar. E ela me arrumava bem, porque eu saía com ela, a gente ia para a Praça de Sé, Jardim do Trianon, que dava para passear. Passeios bons ela fazia, museus. Ela era bem estudada também, levava a gente em museus.
P/1 – Você falou do Jardim do Trianon. Como é que era a Paulista nessa época?
R – Na Paulista passear. Tinha as docerias finas na Paulista, na Barão de Itapetininga, passeava por ali. A gente ia muito também... Eu ia muito também à Rádio Cultura, que meu pai... O Biotônico Fontoura patrocinava a Escolinha do Nhô Totico, que ele era tipo Chico Anísio assim, ele fazia vários personagens na Escolinha. A voz da professora, tudo ele sozinho, que nem o Chico Anísio, a voz da professora, dona Olinda, que chamava a professora... Tinha o nordestino, o italiano, espanhol, os alunos. Ele mesmo fazia. E também a gente ouvia pelo rádio. Mas meu pai às vezes ganhava ingresso para assistir a gravação na Cultura.
P/1 – E quando vocês iam vocês descobriam que ele fazia todos os personagens sozinho, viam assim?
R – Sozinho, sozinho.
P/1 – E a gente também ia muito à Rádio Cruzeiro do Sul, que era na Praça Patriarca, que essa minha prima, ela ia responder no Programa do Livro, Hora do Livro... Não lembro o nome do apresentador. Como esses programas que tem agora, de escola contra escola, essas coisas? Ela ia responder perguntas que sorteavam na hora. E eu em casa, torcendo, mais nervosa que ela, comendo as unhas (risos), nervosa. Às vezes eu ia junto e ficava assistindo, que era, assim, com um auditório, programa de perguntas e respostas, mas para um auditório, um auditório assistindo.
P/1 – E dona Maria Helena, me conta um pouco, eu queria te perguntar essa coisa do futebol, tinha futebol já nessa época?
R – Na Mooca?
P/1 – Futebol tinha muito torcedor, tinha uma tradição?
R – Meu pai era Fiorentino, e meus filhos também... Meu pai, depois que eu tive os filhos... Você quer saber desde menina, ou de mocinha?
P/1 – Desde mocinha.
R – Ainda tem, né? Aí meus filhos foram chegando, e iam para o Juventus. Com a molecada da vizinhança, os pais levavam os filhos para o Juventus, na Rua Javari. É perto da nossa rua, dava para ir a pé, cortando assim por dentro.
P/1 – E a Mooca sempre teve então tanto imigrantes nordestinos como muitos italianos também?
R – É, a junção dos italianos com… A feijoada, a polenta italiana, a macarronada. Não é feijoada, comida de nordestino é cozido, que eles faziam com mandioca, abóbora, essas coisas, farinha de mandioca.
P/1 – Na sua casa, o que vocês comiam, você lembra?
R – Meu pai aderiu muito à comida italiana, quem não adere né? (risos) Mas a minha mãe também agradava, fazia sossegada macarrão, feijão, a tal da abóbora, cozinhava abóbora para comer junto com farinha.
P/1 – Dona Maria Helena, eu vou perguntar outra vez da tecelagem. Por exemplo, hoje em dia as pessoas não têm nem ideia do que é uma tecelagem. Se você nos contar como era o lugar, descrever o lugar, como é que eram as tecelagens, as que você trabalhou?
R – Um galpão grande, com divisórias... Sem divisória nenhuma, mas o próprio maquinário dividia. Um monte de tear para fazer o tecido. A minha mãe era urdideira, ela preparava o fio para pôr o fio no quadro. Eu não sei bem o que era, eu sei mais do meu, que era cerzideira.
P/1 – Então conta um pouco do seu. 
R – O pessoal que terminava no tear fazia a peça, aquela metragem toda, já ia saindo dobrado embaixo, levava para a cerzideira... Para a cerzideira não, para a marcadeira pôr nesse “gol”, eu chamava de “gol” (risos), uma armação que puxava a peça e marcava. Tinha a marcadeira, tinha a pinçadeira, que ia com a pinça tirar nozinhos que tinha que emendavam o fio né, para passar no tear. Por isso que é bom as novelas de antigamente, teve novela já, com os filhos pequenos, que assistia, novela que passava a tecelagem, novela italiana também, “Esperança” mostrava a tecelagem, a maioria era tecelã. 
P/1 – E eram sempre mulheres nas fábricas?
R – Não, homem também. Meu avô, nono, italiano, ele trabalhou na Matarazzo, no Belém, na Celso Garcia. Na Matarazzo ele fazia aquelas rocas, trabalhava nas rocas. Eram umas rocas grandes, de fio, não era comprar linha pequenininha, era tudo grande. Entregava para as meninas lá, sei lá ele contava. (risos)
P/1 – E ai foi essa época que você falou que conheceu o seu marido. Quando você o conheceu, o que você achava dele? Como é que ele era? As primeiras lembranças, assim, do seu marido?
R – Achei ele uma beleza. Nós tivemos um problema sério depois, por causa do alcoolismo. Tivemos um problema bem sério. Ele trabalhava de contador, ele foi trabalhar na rua Santo André, travessa da Rua 25 de março, numa loja boa, do Jorge Andrade. Ele ficou responsável, eu tenho até em casa documentos que ele assinou, assinado pelo Jorge Andrade, que transferia para o meu marido todo o serviço de lidar com dinheiro, a parte financeira. Como ele fez Economia, era economista, ele tratava dessa parte. Mas a bebida foi estragando tudo de importante que ele era, ele saía com a amostrinha debaixo do braço, dava até dó de ver depois, eu não acreditava, por isso que eu não abandonei. Eu falava: “Eu não vou abandonar, porque ele não era...” eu não conheci assim, ele não era assim, só ele que ficou dependente demais, sabe? Não sei se faz parte eu contar isso.
P/1 – Faz.
R – Aí, eu batalhei em tudo quanto era canto, porque ele não aceitava que precisava parar. A pessoa que está dependente não aceita ir a médico, nada. “Vai você! Você que está doente, você que é doida”. Não era, as crianças também estavam assustadas. Eu tenho um filho que tem diabetes, com 11 anos começou a diabetes dele, que foi já mais emocional, também fugia, se escondia, sabe como é? A vida de quem tem alcoólatra em casa é triste, assustador. A gente se assusta quando a pessoa está chegando. Eles ficam dependentes demais, demais, de ser internado, meu pai financiou um mês de internação, porque tinha um programa da Xênia na rádio, na TV, era a Xênia, que ela falava muito, e para encher o horário, ela convidava gente da AA, Alcoólicos Anônimos. E convidou também um dia pessoas dos AA, ficavam de costas, eles não se apresentam né, são anônimos, e convidou também de Associação Antialcoólica. Eu assistia tudo isso, eu via. Eu recebia também revista “Família Cristã”, era uma revista grande. Também recebi, um dia caiu em minhas mãos uma revista dessa Associação Antialcoólica. Então isso começou a me chamar a atenção. Antes disso, já tinha procurado milhares de lugares, tudo que falavam que havia cura, remédio. Ele chegou até a ir comigo, mas não adiantava. Tinha ele que entender que não dava, tinha que chegar a hora. Aí fui nesse AA, eu nem fui... eu ia numa reunião de uma amiga, que era do Círculo Esotérico, ela fazia reunião em casa. O meu pai era muito ligado ao esoterismo, era todo... Era na Rua São Paulo, na Liberdade. Era o Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, chamava e meu pai era associado, e toda segunda-feira a gente ia, assistia a palestras, tinha uma mesinha verdinha clara bonita, e ficava meditando, muito bonito. Eu fui criada quase assim, na católica, e nesse Círculo Esotérico. Aí essa senhora, ela começou a fazer reunião em casa, além de ir lá, ela fazia reunião em casa e me convidou, sabia do meu problema, porque ela o viu chegar. Já não dirigia mais carro, porque lógico, não ia dirigir, não tinha condições de dirigir, ia perder o carro, perdemos carro, perdemos tudo. Não perdemos a casa, porque meus pais ajudaram a segurar, que já era nossa, ajudavam com despesa de alimento. Também tiravam dele, e dividia. Morava perto, na Rua Itaqueri, onde eu morei quando casei, que depois comprei... Mas onde eu comprei era uma chácara antigamente, ali era tudo chácara. Vacaria, chácara, que a minha avó ia buscar leite para a gente na vacaria. Dava chá com leite, porque falava que a vaca já era assim, tinha que tomar chá com leite, não era nem café. Ou tinha leite ou tinha café, então era chá com leite. E aí o meu marido... Essa senhora me chamou para a reunião, e um dia desabafei lá, falei que não ia mais, que estava chateada, que cada vez que eu chegava em casa via uma cena triste. E ela: “Vem sim, você vai vencer. Você vai vencer” Deixa ele vir. Levei o livreto de bolso, aí isso os meninos eram pequenos, já ficando adolescentes, no primário, já passando para a Admissão, que chamava Admissão e também tinham vergonha de fazer trabalho em casa, tinha trabalho de equipe já. Já não chamavam ninguém em casa, que o pai chegava mal. E ela falou... Um dia ela me chamou fora do horário da prece, que tinha uma solução para o meu caso. Que um conhecido onde o filho dela trabalhava era presidente da Associação Antialcoólica. Então, se eu queria me encontrar com esse senhor, para... Era um senhor de cor, moreno, negro quase. Ele trabalhava nos correios, era também presidente daquela sessão dos correios, dirigente. E era dirigente da Associação Antialcoólica, aí eu fui, ele fez uma carta, chamando o José, meu marido José: “Tratar assunto do seu interesse”. Não pôs o que era. Então, o que eu fiz? Peguei a carta. É um sobradinho que eu moro, e a lateral, eu pus a carta por baixo da porta da sala, entrei pela lateral, eu já não estava bem na sala, eu fiz que vi aquela carta na hora: “Olha uma coisa aqui, uma carta. É para você, José Fernandes, é para você.” Não tinha nem condições de ver. Aí ele só pegou o envelope na mão: “Não tem nem endereço, não tem nem de quem é”. Picou a carta. Eu recolhi a carta, colei tudo de novo, fiz assim: “Olha, é importante, vai ver que é um emprego”, eu falava que já tinha perdido tudo, aí eu colei de novo a carta, e consegui que ele fosse conversar com esse senhor. Foi a nossa salvação, que ele aceitou ir à Associação, fez o voto. E lá me deram a instrução também, para dar muito coisa doce, suco, laranjada, tudo bem doce, para substituir, porque não é fácil, o organismo estava dominado pelo álcool. Então para eu dar bastante caldo de cana, para a caninha do caldo de cana substituir a cana, porque tremia, quando para de beber treme. Por isso que a pessoa bebe. Bebe, treme, se para de beber treme também. Aí toma mais uma para parar de beber. Para substituir aquela, que não devia tomar, aí eu dava goiabada, mel, colher de mel, para parar de tremer, chamava médico, o médico vinha e falava: “Não pode beber mais, vem me consultar”. Sabendo do meu caso já. Aí deu essa sorte. Aí que começou de novo um emprego lá mesmo na Associação arrumaram, um arruma para outro emprego, sabe, o pessoal dá testemunho, eu dava também, animava as pessoas que chegavam. As esposas também falavam em público, para animar aquela que estava chegando com o companheiro, para não desanimar. “Que aqui você vai melhorar. Eu melhorei, por que você não vai mudar de vida?” Ele ia buscar leite para mim, pão, não chegava nunca com o bendito pão, já vinha mal, acabava o dinheirinho na bebida. Assim foi a nossa vida, até que os meninos também entenderam, acompanhavam o pai nas palestras. Ele foi até presidente da Associação, porque sempre muda a diretoria, né? Tinha votação. Ele era muito capacitado ele era, é que infelizmente morreu mais novo agora, porque... faz oito anos que morreu, porque a bebida vai desgastando né, estômago, intestino, esôfago, problema de cabeça e pescoço.
P/1 – A senhora falou do grupo, como ele funciona, e a senhora também tinha uma participação?
R – Sempre. Meu pai pagava passagem para a gente ir de bonde ou de ônibus, porque a sede era na Vergueiro com a Paraíso. Não tem a Vergueiro com a Paraíso? Era por ali a sede. Não era própria, foi um prefeito que teve, não me lembro de qual, que deu, debaixo do Viaduto, em frente ao Palácio do Mauá... Na Maria Paula. Até numa ponta é a funerária, e nessa ponta, logo de cá, perto da João Mendes, é feita debaixo do viaduto. Os próprios recuperados trabalhavam, a gente ia de domingo trabalhar lá, as mulheres na cozinha, fazendo almoço para eles. E os homens trabalhando. Muito bonito, foi a melhor fase da minha vida eu acho que foi lá, ajudando também os outros que chegavam, com problema, animando para não desistir, porque desiste muito. O alcoólatra para, vai… Para mim deu certo, muita amizade boa. Ali mesmo arrumaram emprego para ele na Duplex, que tinha a Duplex Camisas e Gravatas. Um arrumou lá, aí um outro que também ficou amigo nosso, arrumou na Carroceria, para ser o contador dessa loja na Vila Maria, na Maria Cândida, Zona Norte. E aí fomos melhorando. Fomos já arrumando a casa, que a casa ficou daquele jeito. Qualquer reforminha é um dinheirão. Não dava.
P/1 – E a senhora pessoalmente...
R – Eu ajudei muito. Eu tinha conselho de parentes minhas, vivas, que fomos criadas juntas, que falava: “Eu não sei como você aguenta. Eu não aguentaria isso.” Eu falava: “Eu tenho que aguentar. Eu vou aguentar. Ele vai melhorar. Não é possível, ele vai melhorar.” Ele não era assim. Era bonitão. Tem foto, eu trouxe foto do civil, para a mocinha ver. Está nós dois no civil, bonito. Era bonito.
P/1 – E a senhora teve muita força então?
R – Eu tenho, graças a Deus, eu tenho. Agora mesmo, há pouco tempo, o ano retrasado, eu tive um infarto, coloquei três stands, por isso eu fico um pouco cansada. E ano passado, tirei uma mama, que me apareceu... Eu me descuidei um pouco da saúde. Até não aconselho ninguém a descuidar. Descuidei porque não sentia nada, aquela história de não sentir nada. Eu cuidei do meu pai, da minha mãe, dele também, que teve câncer na garganta, meu marido.
P/1 – Deixa eu voltar bastante no tempo, que agora a gente falou bastante do seu marido. E aí como é que foi ser mãe? A primeira vez, qual é a sensação, como é que é?
R – Nossa, foi uma festa, o meu filho. Morava nesse quarto, com a minha mãe e o meu pai, e esse meu irmão que era mais novo. Tem foto do menino adolescente, com meus filhos já no colo. Aí já podia ir ao hospital, nesse tempo ainda podia, foi antes de... Estava bem ainda de... Foi num hospital bom, a família visitar, apartamento pago, no hospital. Não tinha nada de plano de saúde, essas coisas. Depois que começou uma enxurrada de plano.
P/1 – (risos) E aí vocês foram morar em outra casa?
R – Aí, ele um dia chegou do serviço, eu morava na minha mãe, ele veio almoçar, e falou que tinha placa na chácara que estava loteando. A gente sempre via o trabalho lá de desmatar a chácara que acabou. Mas nunca imaginei que ele tinha esse interesse. Tinha que ter, porque eu tinha os dois filhos, morando com a minha mãe. Não cabia mais. Que os meus filhos têm um ano de diferença. Que a gente, antigamente, não era sabida como é agora. A meninada tudo, que se cuida. Ah, amamenta um, não tem perigo, essas coisas. (risos) Aí, quando um fez um aninho, eu já voltei do hospital com outro. Não faz mal, que são amigos hoje em dia. São quase gêmeos. (risos)
P/1 – E a senhora no começo então ficou morando com a sua mãe. E ele também morava com você, o seu marido, como é que era? Morava tudo junto no começo?
R – É. Eu ajudava a minha mãe no serviço da casa, ela fazia comida, eu ajudava na limpeza da casa. Não fui mais trabalhar. Mas sempre bem, ele sempre melhorando no serviço também. O que estragou as coisas foi quando começou a abusar. Mas eu também sabia que ele gostava de abusar. Nesses passeios, quando a gente ia para Santos, nos passeios, a gente na praia via que era caipirinha, caipirinha, caipirinha. E para falar a verdade, todo mundo gosta de uma caipirinha. Mas sabe que gosta e para, pior é quando não para. 
P/1 – Mas aí vocês foram para a chácara. Como é que foi esse negócio? Comprou o loteamento?
R – Aí compramos o loteamento. Esse meu tio, que estava bem, financiou... a loja chamava Forcinete, ainda eu me lembro, na Álvaro Ramos. O meu tio apresentou a gente lá, material a prazo, terreno a prazo, tudo assim, pedreiro a prazo... (risos) Tudo parcelado. Aí fizemos o sobradinho, fomos cada vez mais melhorando um pouco. Não pude nem fazer o muro com a vizinha, que todo mundo que comprou ali era todo mundo da redondeza, o pessoal vivendo apertado, comprou para arriscar mesmo fazer alguma coisa. Não podia fazer o muro, não podia pôr o portão. No fim, agora, todo mundo tirou o portão, porque todo mundo tem carro, dois carros às vezes na família, e não querem nem o portão mais. Ficou tudo sobradinho sem o portão.
P/1 – E é na Mooca?
R – Ali aquele quarteirão todo era uma chácara grande, que a gente mesmo comprava verdura ali, eu e minha mãe. É na Mooca, na Siqueira Bueno, com a RuaTobias Barreto. É muito conhecido. 
P/1 – É bem pertinho.
R - Perto da Paes de Barros, para baixo.
P/1 – E aí lá foi onde você começou a fazer a vida, né? Teve os filhos? 
R – Meus filhos estudaram Economia da Faculdade Paes de Barros, também economistas. Tem esse que tem mais problema, o filho que tem diabete, que foi esse que teve diabete novinho, ele já perdeu um pouco a visão, porque diabete... Estragou um pouco o casamento dele, é separado, voltou a morar comigo. Até é minha companhia agora. Que eu fiquei viúva, então meus filhos são meus companheiros. De vez em quando arranja uma companheira também. O pior é que quanto a gente começa a gostar da companheira, aí desmancha. Não dá certo, por causa do temperamento da pessoa, eu que conheço. Diabetes mexe muito com o temperamento da pessoa. Então, a mãe aguenta mais. Já conhece, já sabe a hora que pode falar que não pode. (risos)
P/1 – Mas a senhora fez questão, então a senhora conseguiu colocar todos na escola, mesmo a filha...
R – Ela fez Pedagogia, na PUC, um ano de Psicopedagogia. Mas fez também na São Judas, Normal, e professora. Todos estudaram.
P/1 – Mesmo com as dificuldades?
R – Ele também, quando ele melhorou, incentivou muito, ajudava muito, meu marido ajudou muito eles a estudar. 
P/1 – E vocês passeavam, era essa família de levar os filhos para passear? Agora como mãe, nessa outra situação, o que vocês faziam? Tinha muito almoço?
R – Sempre tinha. Esse negócio da bebida era ruim, porque tinha muita bebida também. Aí a família foi se afastando, quando viu que o negócio estava feio, o barco estava afundando, afundou também as amizades. Ficou um ou dois da família que ainda ia às reuniões com ele e com a gente. Levava de carro a gente na reunião. Eu cheguei a ir às casas de gente que pedia: “Ai, vai visitar o parente, que quer parar.” Um aceitava, outro não. “Vai só para assistir. Você entra anônimo, ninguém precisa saber.” Você entra, assiste à reunião, ninguém pergunta teu nome, nada. Só se você quer se associar. Senão você vai, assiste a reunião, e pronto. Depois que você entrou, que você fez o voto, você faz questão de ajudar o outro. Porque é uma graça, quem aceita. 
P/1 – Aí depois que vocês aceitaram, muitos programas giravam em torno no grupo, né?
R – Ele foi presidente de outros grupos, na Vila Formosa, ele que abriu esse núcleo, ajudou, foi com a presidente lá, era homenageado. Eu virei à primeira dama (risos), a primeira dama do alcoolismo. Estava recuperado, com orgulho. Todas iam com orgulho. As esposas depois ficavam orgulhosas de ver que o marido se recuperou. E eles davam... Graças à esposa também, e à família que colaborou. 
P/1 – E as coisas realmente mudaram dessa fase? Depois que ele conseguiu se recuperar com o grupo...
R – Nossa, aí recuperamos tudo, carro, casa, apartamento em Santos. Graças a Deus. Gente que confiou nele também, depois. É assim, todos que vão lá... É até bonito conhecer lá, essa reunião. Porque a gente sempre tem um conhecido que também abusa e não sabe como parar (risos). Quem não tem?
P/1 – E aí então, a senhora falou do apartamento de Santos, de vocês se reerguerem. Como é que foi essa...?
R – Ele curtiu bastante também o apartamento de Santos, ele já recuperado, ainda não tinha tido nada grave. Ia bastante, gostava. A minha filha que incentivava bastante da gente ir. Na sexta à noite já ia embora. Sabe quando compra uma coisa nova, que quer curtir o máximo, arrumar? Comprei já não era novo, com tudo dentro já, mobiliado, fogão, geladeira, uma delícia. Era só chegar e... Ou levava coisa adiantada, feita, comida, uma carne temperada, ou ia comer, tem muito restaurantezinho bom, comida por quilo. Quando começou esse negócio de comidinha por quilo... Muito bom.
P/1 – E os filhos foram crescendo, foram indo embora...?
R – Todos casaram, tem dois separados, dois filhos separados, e a moça casada. Que não casou muito nova também, mas... Casou com um argentino. Está uma disputa de brasileiro com argentino.
P/1 – (risos) 
R – Vive bem, ela vive bem, não teve filhos, porque ela não pôde ter. E os outros têm. Eu tenho duas netas na Paraíba, que os dois são separados, foram para a Paraíba com a mãe, e uma no Sul, em Florianópolis. Eu sou amiga das noras ainda, porque o problema foi deles, não comigo. Ligo, perguntam como estou, ligo para elas. Essa minha neta do Sul, Ana Luísa, ela até foi para o Quênia agora, na África, ela foi voluntária. Foi a passeio agora direto para o Egito, e Turquia, tudo para aquele lado. 
P/1 – A senhor falou agora de ser avó. Como é ser avó?
R – Sou avó de três moças. Duas de um filho, e uma do outro. Não tenho neto homem, são três mulheres. Ah, uma delícia, aquele carinho das netas. “Vovó!”... No telefone direto (risos). Já dei ovo de Páscoa agora para uma, uma camisa de chocolate, uma caixa, uma camisa, um ovo. Uma camisa com o distintivo do Corinthians (risos), que ela é corintiana, a camisa, e a caixa também escrita: “Timão”, coisa assim. Ela tem foto, já pôs na internet a foto dela com a caixinha. Na formatura dela eu já fui, na Paraíba, se formou Fisioterapeuta. E ela também teve uma apresentação dos formandos, que era com a bandeira do Corinthians, cantando o hino (risos), uma delícia.
P/1 – A senhora tem alguma memória do futebol, alguma coisa que foi marcante para você?
R – Eu torço quando tem jogo do... Eu torço esse meu filho sobe, não quer saber de nada, lá com a internet dele, e eu que fico vendo o jogo (risos) brigando com o outro, que chutou para fora, que perdeu, o outro que machucou. Que agora eu fico brava, que jogam agora com os pés e com as mãos estão jogando, na cara do outro a mãe né? Machuca, arranha o outro...
P/1 – A senhora sempre gostou de futebol?
R – Sempre, por causa do meu pai, que era são paulino. Eu assistia jogo. Meus irmãos não ligavam tanto para jogo como eu, meu pai. Fazia companhia para o meu pai. Meu pai agora ficou viúvo, minha mãe faleceu, eu fiz um quartinho... Eu já tinha esse quarto. Todo sobradinho quase tem o quarto com o banheirinho. A gente só acrescentou, aumentou o quarto e o banheiro. Que meu pai ficou sem força nas pernas. Morreu com 93 anos. Aí ficou dependente da gente, pus uma pessoa para me ajudar. Que eu achava que eu conseguia fazer tudo sozinha. Por isso que eu descuidei de mim. Assim, mesmo de idade, ele via jogo, tinha a televisãozinha dele no quarto, banheirinho do lado, com a porta maior, para entrar a cadeirinha, a cadeira higiênica, de roda assim. Foi muito em família, a gente viveu muito em família. 
P/1 – E a senhora... A gente está indo um pouco para o final já, a senhora fez um balanço da sua história, como é lembrar tudo isso?
R – Eu sou muito saudosista. Eu gosto de lembrar, gosto de abrir minha maletinha de fotos e ficar olhando. E tenho primas, e a gente também fica lembrando coisas, do tempo de mocinha.
P/1 – O que dá mais saudade?
R – Tudo tem saudade. Quando fala: “Ah, aquele tempo era bom.” Todo tempo é bom. Eu penso assim, graças a Deus que eu cheguei quase aos oitenta. Fui à festa de outra prima no dia de 70, festa surpresa. Sempre quando comemoram os setenta, oitenta, a família vai fazer festa surpresa. Porque sempre acha que é a última né? (risos) Eu sou otimista, eu acho que a hora que chegar, chegou, ninguém sabe. Pode chegar de uma hora para outra, posso ter um problema grave e morrer de outra coisa, né? Ninguém sabe.
P/1 – Como é que foi a entrevista? O que você achou de contar...?
R – Ah, adorei. Adorei vocês, uma beleza. Eu adorei conhecer também, porque começou tudo assim, porque outro dia, na CBN, a minha filha ouviu um programa do… contando a história do bairro, parece. E ela falou: “Você não quer fazer, mãe?” Porque eu sempre fui boa de redação. Apesar de ter só o primário. Aí eu estava feliz, quando eu soube que ia inaugurar o Sesc, que ia melhorar o nosso bairro. Que já estava bem melhor, porque as firmas tinham saído, acabado as firmas, e nesse lugar fizeram prédios de luxo. Tem muito prédio luxuoso ali. Por isso que o trânsito está demais na Radial Leste, não se anda mais. Aí esse papel foi rodando. O Sesc ... Teve um que não deu muita noticia, acho que mandou para o Sesc. O Sesc que deu mais retorno, falou que... Tudo bem. Depois de dois anos que a mocinha ligou, se queria falar. Eu fiquei curiosa: “Museu? Mas eu vou para o Museu?” Mas adorei. Pessoal agradável, muito bom. 
P/1 – E dona Maria Helena, eu vou fazer uma última pergunta, eu queria que você falasse a coisa dos alcoólatras anônimos. Se você pode deixar uma mensagem. 
R – O nosso... Eu cheguei a ir num alcoólatras anônimos, era na Caio Prado, eu e uma mocinha, que foi muito amiga minha naquela época. Quando construímos, as duas, naquele aperto, construímos a casa. Todo mundo fez com aperto. E ela via o que eu passava. Ela também falava: “Quer ir aos alcoólatras anônimos? Vamos?” Até fomos nós duas, imagina só, eu fui. A gente vinha brincando na condução. Acho que falaram: “Qual das duas que tem problema, né?” Não deu certo. Ele chegou a ir a Caio Prado, no ambiente. Acho que não tinha chegado a hora. Deu mais certo na Associação de Alcoólicos Anônimos. Mais simples, mais popular. Lá ficava tudo muito mais amigo depressa. 
P/1 – Mas se você puder dizer, deixar registrada uma mensagem para quem tem algum problema...
R – Para procurar, quando precisar de ajuda. Familiar ajuda muito também. Mas tem que insistir muito, que nem todos aceitam logo. Fica difícil. A gente sabe que é difícil. Não é como uma outra doença qualquer, que tem uma dor, você vai procurar. Não dói. Cada vez que bebe não sabe nem o que está acontecendo, não acredita que fez. Depois que passa, que você conta,  chora,  conta o que foi feito, e envergonha: “Ah, não fiz isso, imagina!” Para aceitar, eu acho que a pessoa é bem valorizada depois que se recupera. Nós também valorizamos muito. Às vezes ele fala: “Graças à minha esposa.” “Não, graças a você, que teve força!” (risos)
P/1 – Está certo, dona Maria Helena. A senhora quer dizer mais alguma coisa que a gente não perguntou?
R – Não, agradeço só. Estou feliz de ter essa oportunidade de conhecer o Museu (risos), da Pessoa. Muito bom. 
P/1 – Obrigada, dona Maria Helena.
R – Obrigada a você. Que bom, gostei.

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