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História

"A música me comove"

História de: Lô Borges (Salomão Borges Filho)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/11/2004

Sinopse

Lô Borges relembra da sua infância com seus irmãos, o bairro onde morou em Belo Horizonte, os aprontos da adolescência, o momento em que começou a se relacionar com a música, também por influência de seus pais, os encontros com pessoas que incentivaram sua relação com a música, como descobriu os Beatles e se apaixonou por eles, sobre sua banda cover dos Beatles, sobre o seu apelido, o seu processo de composição, a experiência de morar no Rio de Janeiro, como foi fazer disco solo e gravar com sua família inteira.

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História completa

P/1 – Eu queria que você começasse, para a gente assim dizendo o seu nome completo, data e local do seu nascimento.

 

R – Bom, meu nome é Salomão Borges Filho, eu nasci em dez do um de 52, em Belo Horizonte, Santa Teresa. 

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é Salomão Magalhães Borges, minha mãe é Maria Fragoso Borges.

 

P/1 – Como eram os seus avós? Você se lembra deles?

 

R – Lembro dos avós maternos, os avós paternos morreram quando eu era muito jovem eu tinha dois anos, então não me lembro bem deles não. Mas do Vô Carlos que é o pai da minha mãe, e da Vó Raimunda que morreu há poucos anos atrás, esse pessoal eu convivi bastante, eu me lembro bem.  

 

P/1 – Você tem onze irmãos, nessa escala aí você está onde?

 

R – Eu estou exatamente no meio, eu tenho cinco irmãos mais velhos e cinco irmãos mais novos, são cinco mulheres e cinco homens.  

 

P/1 – Como foi a sua infância em Santa Teresa?

 

R – Bom, eu fiquei até os dez anos em Santa Teresa, então ali eu me lembro de brincadeiras na nossa casa, era uma casa cheia de árvores, um quintal enorme, a gente brincava naquele quintal, tinha bananeira, tinha goiabeira, tinha laranjeira, abacateiro, e a gente gostava muito de ficar brincando naquele quintal, e eu passei boa parte da minha infância brincando com os meus irmãos, eram muitos irmãos, depois eu me lembro quando eu fui me alfabetizar, fui para o primário, aí foi quase um certo trauma no primeiro dia que eu fui para a aula, minha mãe me deixou no Instituto de Educação, eu acha que ela estava me abandonando para sempre, aí eu chorei para caramba, custei a adaptar a coisa de ir para a escola, aí depois eu acostumei, e passava a minha infância até os dez anos eu passei indo para a aula brincando em casa, vendo meus irmãos jogar bola, vendo alguns bailes de carnaval que tinha em Santa Teresa, uma vida normal de uma criança normal, não teve grandes acontecimentos não, as coisas começaram a mudar um pouco na minha vida quando eu fiz dez anos de idade, e minha família se mudou para o centro de Belo Horizonte, e aí eu fui morar no Edifício Levy, e ali surgiu toda a história que começou a se inserir a música na minha vida, daí começou a se inserir a música na minha vida.

 

P/1 – Nessa época em Santa Teresa ainda, como era viver numa casa com onze crianças, o que isso mexeu?

 

R – Era muita brincadeira, eu me lembro da minha primeira infância, era tudo brincando, só farras, só festas, e algumas doenças infantis que você acaba... Uma família grande, eu me lembro teve uma vez que um cachorro, que estava com suspeita de raiva, mordeu a família quase toda, meu pai teve que vacinar todo mundo, foi uma loucura, isso eu lembro, ainda eu era garoto, devia ter uns cinco anos, eu lembro muito dos meus aniversários, eu tinha uns padrinhos maravilhosos, que não faltavam no meu aniversário que é dez de janeiro, aí levavam para mim brinquedos, roupas, aí eu não esqueço que uma roupa que eu tinha de canoinha, que era azul, que era super bacana, na minha casa as brincadeiras eram meio divididas por faixas etárias, eu tenho um irmão um ano mais novo que eu, brincava muito com esse irmão, tem também as coisas dos irmãos mais velhos, era tudo muito misturado, as irmãs também brincavam com a gente, e a gente gostava muito desse quintal que eu falei, que era onde eu passava a maior parte do meu tempo, jogando bolinha de gude, jogando finca, enfim tudo muito relax, não tinha... Uma infância gostosa, saudável, num bairro tranquilo, repleto de passeios, nos fins de semana meu pai levava a gente para o Parque Municipal, quando eu ia à aula eu ia a pé com o meu pai, atravessava o parque de mão dada com ele, parque que anos depois vim ficar super amigo do parque, jogava futebol todo o dia, depois que eu me mudei para o centro, mas foi tudo muito tranquilo. Adorava o meu irmão Yé, é o cara que eu ficaria mais próximo, a gente dormia na mesma cama, uma família muito grande, então não dava para cada um ter uma cama, então tinha os beliches, mesmos nos beliches, às vezes, tinha que dormir dois na mesma cama, e foi isso, foi brincadeira, jogando bola, jogando bolinha de gude, foi tudo que uma criança pode desejar na infância eu tive, e curtir bastante.

 

P/1 – A família da sua mãe tinha já uma ligação com a música, na conversa que ela teve com a gente, você se recorda disso? De tios, festas de família? 

 

R – Eu lembro do meu tio João que é vivo até hoje, ele gostava de tocar violão, de vez em quando ele aparecia lá em casa com o violão na mão e cantava umas canções bonitas, como que é? “Os olhinhos do menino marejou quando seu pai viajou, quando o seu pai viajou lá, lá, lá, lá.” Eu não lembro da música toda, eu sei que meu tio gostava de tocar violão, dizem que a minha avó tocava bandolim, mas eu não lembro da minha avó tocando bandolim, eu lembro do filho dela tocando violão, ele era um cara super musical, também gostava de jogar dama, era o rei da dama, ninguém ganha dele, era fodão o cara, um cara super inteligente, super talentoso.

 

P/1 – E a sua mãe tinha o hábito de cantar também?

 

R – A minha mãe eu não me lembro bem, mas ela cantou em corais de colégio, rapidamente a música começou a entrar dentro da minha casa, porque os instrumentos foram chegando, meu pai e minha mãe compraram piano, e só eles perceberam a tendência que as pessoas lá em casa tinha para a música, eles compraram um piano. Marilton logo arrumou um violão, ali eu ficava mais assistindo as coisas, minha mãe gostava de estudar piano, me colocou para estudar piano uma época, para estudar violão. Agora, os meus parentes mesmo assim, eu me lembro muito pouco, eu lembro desse meu tio só que tocava violão e tocava bacana umas músicas de Dorival Caymmi, e era um cara muito legal e muito musical.

 

P/1 – E quando foi que você percebeu assim, foi ainda em Santa Teresa, ou já foi no Levy que você curtiu o negócio?                                           

 

R – Eu era apaixonado por música, música me comovia, a música me deixava muito emocionado, quando eu escutava canções bonitas, na TV Itacolomi, quando terminava a programação da televisão tocava uma música do Dorival Caymmi, eu quase chorava toda a noite quando escutava aquela música, achava linda a música ia dormir com os anjos e com a Nana Caymmi cantando: “Boi, boi, boi da cara preta pega esse menino que tem medo de careta”. Então isso aí faz parte da minha vida mesmo, eu me emocionava com música como eu me emociono até hoje, então eu acho que foi o primeiro sintoma, que eu escutava as coisas, prestava a maior atenção, adorava escutar rádio, Anísio Silva, quer dizer, eu ouvia o que as pessoas ouviam na minha casa, eu não chegava e eu mesmo colocava discos, eu mesmo colocava... Escutava o que as pessoas escutavam, enfim, eu escutava por tabela tudo, mas era muito interessado em música. Agora a música chegou para mim mesmo, para eu intervir na música, começar a criar a própria história com a música depois que eu mudei para o Edifício Levy.

 

P/1 – Como foi essa mudança, sair de uma casa com quintal, árvores maravilhosas, brincadeiras de rua e chegar num edifício?

 

R – Eu acho que para a criança de dez anos tudo é festa, mudar de ar também foi muito legal, sair de um bairro e fui morar no Centro, aí era cheio de prédios, de carros, de outros amigos, outras crianças, a gente foi desenvolvendo uma vida nova, eu adorava o quarto que a gente... Aliás, eu gostava pra caramba do apartamento que a gente vivia, era um apartamento grande, e nesse prédio a gente começou a conhecer pessoas, e eu adorava, a gente morava no 17a andar, como toda criança bem animada assim de dez anos de idade, eu dispensava o elevador, gostava de descer tudo a pé, subir a pé, era um divertimento para mim, eu saí para brincar, e fiz logo amizades no prédio com as pessoas da minha idade tinha o Mark Miguel, o Gonçalo, o Gilberto Abreu, o Gilson Abreu, os três irmãos Gonçalo Abreu, e a gente fez logo uma turma, aí eu comecei a minha vida na cidade, no Centro de Belo Horizonte, que era uma vida completamente diferente de Santa Teresa, aí a gente tinha uma diversão, era uma coisa bem ousada, porque na verdade a gente gostava de assistir os filmes sem pagar ingressos, então a gente estudava uma maneira de entrar dentro dos cinemas de Belo Horizonte por entradas secretas, que não fosse a porta principal do cinema, então a gente entrava no edifício ao lado, entrava numa loja, passava por cima de um telhado, do telhado se abria uma janela, saía no ar refrigerado do cinema, no ar refrigerado você pulava para dentro do banheiro das mulheres, dos banheiros das mulheres... (risos). Então era assim, a gente tinha entradas secretas para vários cinemas em Belo Horizonte, até que um dia teve um acidente que cortou um pouco nosso ímpeto de entrar no cinema, foi um amigo da gente, quando a gente estava... Todos eram sete crianças assim, uns doze anos de idade, a gente entrando no Cine Tamoios, aí quando a gente estava para entrar mesmo, já tinha feito todo esse circuito, de entrar no prédio ao lado, passar por cima de um telhado, entrar por uma veneziana, aí quando a gente estava para descer uma escada que tinha, uma escada de madeira mesmo, aí pintou um vigia, aí foi todo mundo de volta para... (risos). Saiu todo mundo correndo, o vigia estava armado, aí saiu todo mundo correndo, aí o mais pesado de todos quebrou o telhado, quebrou o telhado na hora que a gente estava em cima do telhado, e caiu dentro de uma loja de louças, chamada (Lambas?) Louças, aí ele caiu nessa loja, caiu na promoção, assim pá! (risos). Caiu aquele cara enorme num monte de xícaras, esse dia foi... aí nós passamos correndo, aí nós vimos ele lá na promoção todo quebrado (risos), isso era uma das coisas que a gente fazia, outra forma que a gente fazia que era mais surreal de todas para entrar nos cinemas, era entrar quando o pessoal saía da sessão, a gente entrava andando de costas (risos). Vi muitos filmes dos Beatles assim, não ter o dinheiro para comprar o ingresso e assistir, porque a gente queria ver os Beatles todos os dias, depois que surgiram os Beatles, que é um capítulo super a parte, porque foi nessa época que a gente mudou para o Centro, as coisas que aconteceram muito rapidamente, eu conheci o Beto Guedes, a gente tinha dez anos de idade, no mesmo ano que eu mudei para o Centro, eu conheci o Beto Guedes num patinete, eu estava passando pela rua veio um cara em cima de um patinete maravilhoso, aí eu abordei o cara e quis saber onde ele tinha conseguido aquele patinete, eu vi que era um negócio artesanal, aí depois vim a descobrir que o pai dele tinha uma oficina de marcenaria com pintura, o pai dele era um grande compositor, Godofredo Guedes, e grande pintor também, grande marceneiro também, aí eu acabei falando: “Pô, você tem condição de fazer outro patinete desse para você, eu não tenho, vamos fazer uma troca.” Aí acabei negociando com o Beto Guedes, eu conheci ele em cima de um patinete, são coisas do destinos, depois a gente virou parceiros, fizemos mil coisas de música juntos, mas a gente se conheceu casualmente, e aí eu fiquei muito amigo dele, eu acabei ficando com o patinete, e dei para ele algumas coisa que eu tinha, não me lembro bem o que era, ele diz até hoje, depois de adultos, ele costuma dizer que eu não paguei tudo, que eu devo para ele uma parte do patinete até hoje, passados mais de trinta anos que eu acho uma situação esdrúxula, mas de qualquer forma eu estou prometendo invadir o palco dele de patinete a qualquer momento e entregar para ele um patinete novinho, parecido com o que ele me vendeu.

 

P/1 – Então esse espaço aí do Beto começou chamar a atenção da molecada?

 

R – Oi?

 

P/1 – Esses espaço de criação do pai dele, onde ele fez o patinete, começou a chamar a atenção? 

 

R – É, eu gostava de ir lá para a oficina do pai dele com ele, ficava vendo o pai dele, o pai dele pintava assobiando o tempo todo, o cara tinha um assobio maravilhoso, eles ficavam ali, o Beto fazendo coisas, o pai dele fazia instrumentos também, o pai dele chegou a fazer um piano inteiro artesanalmente, o pai dele fez violões, fazia instrumentos, o pai dele era um cara super bem dotado, eu gostava de ir para aquele espaço ali, mas gostava muito também de jogar futebol, eu tinha a minha turma, o Beto não gostava muito de bola, e eu gostava para caramba de bola, o Centro de Belo Horizonte era assim, era diferente, as árvores eram todas de frutas, tinha muitos casarões de milionários, casarões abandonados, a gente gostava de entrar dentro desses casarões, pulava o muro, aí ia tomar banho de piscina, depois tinha que sair correndo, porque sempre aparecia um vigia, a gente passou a vida correndo de vigia, de invadir os lugares, a gente invadia bastante casas no Centro de Belo Horizonte, nessa mesma época que eu conheci o Beto, eu conheci o Milton também, eu tinha a diferença de idade para ele de dez anos, eu tinha dez anos e ele vinte, a minha mãe me pediu para eu comprar o leite, e eu, como qualquer garoto de dez anos, dispensa elevador, igual eu falei, aí desci pela escada, quando eu estava descendo pela escadaria eu comecei a escutar um som de violão e uma voz linda, a medida que eu ia descendo eu ia me aproximando desse som, e quando eu cheguei no quinto andar, estava lá um neguinho tocando violão super legal e cantando com uma voz super maravilhosa, aí eu parei, sentei e fiquei ouvindo aquilo, aí ele me perguntou quem eu era, de qual família que eu era daquele prédio, aí eu falei que eu era irmão do Marilton, ele falou: “Eu já conheço o Marilton, já conheço o Márcio, como que você chama?” Eu falei: “Lô.” Ele falou: “Que legal, não sei o quê.” Aí eu fiquei sentado, foi aquela empatia na hora, ele começou a pedir para eu cantar com ele as coisas, ele percebeu já que o Marilton era musical, o Marcinho era musical, ele quis testar a minha musicalidade também, e começou a tocar e pediu para eu cantar umas coisas, eu fiquei cantarolando com ele algumas coisas, fiquei super amigo dele a primeira vista assim, o primeiro encontro foi super empático, super forte, eu me lembro que eu esqueci do que eu estava indo fazer, esqueci de comprar o leite, quando cheguei em casa depois tomei um cacete da minha mãe lá, porque ela falou: “Você demorou, era para demorar cinco, dez minutos e você demorou uma hora e meia.” Porque eu fiquei com Bituca lá no violão, lá na escadaria do prédio, e isso foi marcante para mim, eu conhecer ele dessa forma. Logo depois surgiu a história dos Beatles, posso falar dessa história, que é uma história super importante que mudou assim, porque na verdade antes dos Beatles eu gostava de ficar vendo os ensaios que tinha na minha casa, os ensaios eram de vários músicos, que na minha casa tinha piano então era um lugar onde as pessoas ensaiavam.

P/1 – Mas tudo em função do seu irmão Marilton? 

 

R – Do Marilton, o Marilton tocava com Milton, tocava com o Wagner, tocava com vários músicos (Rudum?), Marcelo Ferrari tinha várias pessoas, que eu não me lembro de todos, já passou muito tempo, mas Aécio Flávio... Tinha várias pessoas que tocavam violão na minha casa, que faziam ensaios mesmos com banda, contra-baixo acústico, daqueles grandões, eu gostava de ficar vendo aqueles ensaios, eu ficava prestando a maior atenção nos ensaios, e a hora que eu mais gostava era quando terminava o ensaio, que ficavam os instrumentos só para mim, todo mundo ia embora e ficava aquele monte de instrumento na minha casa assim, aí eu sentava no piano, tocava piano, eu pegava violão, pegava a guitarra de não sei quem, pegava o contrabaixo acústico, eu era tão pequeno na época que eu pegava o contrabaixo e sentava no contrabaixo, ao invés de tocar em pé eu montava nele como se fosse um cavalo, e ficava tocando o contrabaixo, era bem divertido, era bem engraçado. E essa história de ter música ao vivo na minha casa, as pessoas ensaiando foi despertando cada vez mais essa história de música, nesse encontro que eu tive com o Beto Guedes, a gente já tinha conversado sobre música, porque eu falei: “Olha, na minha casa todo mundo transa música, gosta de música.” Ele falou: “Pô, na minha casa também, meu pai é compositor, ele gosta de tocar.” Eu acabei ficando meio que transitando, eu ia muito na casa do Beto Guedes e assistia muito aos ensaios na minha casa, até o surgimento dos Beatles que mudou realmente a nossa vida, eu já dedilhava alguma coisa de Bossa Nova no violão que era o que mais se tocava na minha casa, o que mais se ouvia era João Gilberto, Tom Jobim, fora o Jazz Miles Davis. Aí aconteceram os Beatles, que foi uma coisa anunciada, como a gente gostava muito de entrar nos cinemas, aí estava anunciado lá o filme “Os Reis do iê iê iê” aí aqueles quatros cabeludos e eu fiquei apaixonado por aquilo, eu falei: “eu tenho que ver esse filme”, não conhecia nenhuma música ainda, aí comecei a ter informações que era uma banda que estava revolucionado o mundo, a juventude do mundo inteiro, estava ligado naquilo, que existia Beatlemania e não sei o que, aí o Marcinho e o Bituca me levaram para ver o filme, eu consegui que eles me levassem, aí eu assisti os Beatles, aí foi incrivelmente forte, eu já virei beatlemaníaco na hora, as pessoas gritavam dentro do cinema, eu gritava também, foi uma explosão mesmo, a partir disso o Marcinho e o Bituca também me deram o disco “A Hard Day's Night,” “Os Reis do iê iê iê”, aí eu peguei esse disco e levei para a casa do meu amigo Beto Guedes que tocava mais as coisas regionais, as coisas do pai dele, enfim, aí eu levei isso para o Beto, aí o Beto, no primeiro momento estranhou um pouco o visual dos caras, porque ninguém tinha cabelo grande, era uma coisa totalmente nova, a maneira dos caras se vestirem, o cabelo, e aí o Beto criou uma certa resistência, olhou e falou assim: “Esses caras estão meio, com umas caras meio de veado.” (risos). No primeiro momento ele não gostou, mas eu falei: “Escuta, aí eu coloquei para ele, na primeira faixa: “A hard day's night”, dali para frente o cara ficou completamente, mais beatlemaníaco do que eu, o cara se apaixonou na hora, e aí foi impressionante um mês depois nós montamos um grupo vocal, eu, Beto, Yé, meu irmão, e um cara que morava no Centro, um amigo da gente chamado Márcio Aquino, a gente cantava música dos Beatles e o grupo chamava The Beavers, os castores, começamos a ter uma atividade semi profissional. Tinha um programa chamado Petilândia na antiga Secretaria de Saúde e Assistência que hoje é o Minascentro, a gente participava de programa de televisão, aos domingos de manhã o programa chamava Petilândia, a gente cantava música dos Beatles, a gente era uma atração especialíssima do programa, porque os Beatles já eram uma novidade, quatro garotos de doze anos cantando as músicas dos Beatles era mais novidade ainda, era uma loucura para a gente, a gente cantava também na antiga Rádio Inconfidência, onde hoje é a rodoviária, tinha lá a feira da amostras, a gente cantava ali também, cantava no Jaraguá, que era um clube que existe até hoje perto do Aeroporto da Pampulha, teve até um caso curioso, uma vez a gente foi cantar, não teve o almoço, a gente tocava no almoço dançante que chamava, era o conjunto do Marilton que tocava, no meio da apresentação deles entrava os The Beavers, esse dia não teve apresentação, teve algum problema, acho que morreu um diretor lá do clube, o clube não abriu, e aí a gente foi como garotos, só queria saber de aventura, como não vamos cantar, fomos andar pelo meio do Aeroporto da Pampulha, na cercanias do aeroporto, lugar que é proibido andar, nós fomos presos esse dia, a gente foi entrando na área do exército, do exército não, da Aeronáutica, aí teve um desses amigos da gente, lá é uma região meio pantanosa, a gente começou a andar, quando a gente viu a gente estava num pântano, andando num pântano e começamos a ter dificuldade de sair, aí foi todo mundo saindo com as suas próprias forças, teve um que foi só descendo, o cara ia descendo, a gente pegou um pedaço de ferro que a gente achou e ficar puxando o cara, o cara quase sendo engolido pelo pântano, esse dia que a gente foi cantar e não teve show, quase que deu uma tragédia, daí a pouco apareceu uma kombi da Aeronáutica, e levou todo mundo preso, e a gente já tinha o cabelinho meio grande, imitando os Beatles, eles ameaçaram cortar os cabelos da gente, enfim... Essas histórias aconteciam, e muitas histórias assim, tinha uma coisa meio ridícula que eu acho, nós éramos quatro, tínhamos um empresário, o empresário era da mesma idade que a gente, então a gente era patrocinado por uma loja chamada Guanabara, que dava os uniformes para a gente, os uniformes era calça curta azul, e camisa branca tipo escolar, uniforme bem chinfrim, bem pobrinho mesmo, não tinha nada a ver com os Beatles, se eles fizessem uns terninhos para a gente, talvez fosse mais interessante, mas davam a calça curta e uma camisa de colegial. E aí a gente se apresentava, e era assim, ficavam os quatros Beavers cantando, e assim há um metro e meio de distância o empresário de uniforme também com os braços cruzados (risos), era uma situação ridícula. Teve um dia lá no Petilândia que foi muito engraçado, que acabou a energia elétrica no meio do programa, acabou a energia e aí a gente estava cantando nessa hora, a gente estava cantando, e foi estranho porque a gente teve que parar no meio da apresentação, porque acabou a energia, o som do microfone não funcionava, não sei o que lá, aí: “Pô, que sacanagem, que merda, que não sei que lá, ter que ficar esperando voltar essa energia, não sei o que lá.” Aí o Beto falou: “Puta que pariu, é foda.” Quando ele falou: “Puta que pariu, é foda.” Voltou a energia, na maior altura a platéia toda escutou esse comentário, (risos) na hora que voltou a energia estava o Beto dando uma torrada no que tinha acontecido, mas esse conjunto não durou muitos anos não, a gente ficou uns dois, três anos cantando as músicas do Beatles, e ficamos nos alimentado de Beatles para valer mesmo, enquanto isso eu continuava estudando, fazendo Ginásio, essas coisas, e visitava pouco Santa Teresa, eu dei uma abandonada a Santa Teresa, porque na verdade a minha primeira infância, foi muito a minha primeira infância mesmo, então seus valores, suas coisas são mais dentro de casa, eu tinha saudade era do Centro, depois que eu voltei a morar em Santa Teresa, eu ia todos os dias, eu ia para o Centro, porque foi exatamente, por exemplo, o Marilton e o Márcio quando a gente se mudou para o Edifício Levy, eles gostavam muito de ir a Santa Teresa, porque eles já tinham a idade de ter amigos, de coisas, iniciações, de todas as ordens, sexuais, de amizade, e tudo eles tinham as referências deles em Santa Teresa, quando eu saí de Santa Teresa eu não tinha a referência em Santa Teresa, eu tinha referência com a minha casa, com a minha família, como eu me mudei para o Centro, as minhas referências passaram a ser o Centro. Então meus melhores amigos, as coisas que foram mais fundamentais na minha vida foram pessoas que eu conheci no Centro de Belo Horizonte, quando eu me mudei tinha dez anos de idade, foi a idade que eu comecei a sair da barra da saia da mãe, comecei a sair para a rua, ter as minhas coisas na rua, ter amizades na rua, porque antes, em Santa Teresa, era tudo muito dentro de casa, tudo dentro de casa, a casa era grande, era enorme tinha quintal, tinha muita coisa, tanto que eu não me lembro dos meus amigos de infância, até os dez anos de idade eu não lembro, os amigos de Santa Teresa eu não me lembro deles não, só depois que eu voltei com dezesseis, dezessete anos de idade que eu reconheci algumas pessoas que eram crianças na época, mas eu não me lembro brincando com elas, porque minha família era tão grande, tinha tantos irmãos que eu não precisava de arrumar amigo para brincar, porque amigo eu já tinha bastante.

 

P/1 – E seus pais? Vocês eram garotos precoces, doze anos já tinham uma banda, eles eram rígidos nessa história ou até deram apoio?

 

R – Não podia parar de estudar, eles achavam legal a gente tocar, não tinha muito problema não, mas tinha problemas, por exemplo, se perdesse média na escola, se tirasse nota baixa na escola não podia cantar, então a gente tinha que estudar legal para poder cantar, se não estudasse legal não poderia... Na minha família principalmente, eu lembro que o Beto não tinha esses problemas não, sempre estava liberado para tocar, vários shows da gente que eu e o Yé, meu irmão, a gente não pode fazer, porque a gente estava mal na escola, aí a família: “se está mal na escola não vai cantar”, então uma certa pressão para que a gente estudasse mais, aí a gente acabou estudando mais, porque ficar sem cantar é... Era um grande prazer e um grande divertimento para a gente, e a gente não podia muito sair, era só cantar, se não fosse bem na escola não podia sair na rua, não podia brincar, a não ser dentro de casa, não podia encontrar com os amigos, não podia jogar bola no Parque Municipal, então tinha uma série de restrições quando a gente não ia bem na escola, até para cantar e até para brincar na rua com a turma de rua, com essa turma que caía dentro da loja... Como que fala? Loja de louças, enfim é isso.

 

P/1 – Quem era o público, dos meninos? Era na faixa etária de vocês ou não?

 

R – Era da faixa etária da gente em alguns lugares, nesse programa chamado Petilândia, a platéia era de crianças, os pais levavam as crianças, tinha muitos pais, mas eram mais crianças, na Rádio Inconfidência também tinha muita criança, os pais levando as crianças, e nesse clube no Jaraguá já era adultos, já era um público de adultos, era um almoço que tinha, a gente entrava como os garotos maravilhosos, entrava como garotos mesmo, mas era um programa de adultos, era um almoço dançante que eles chamavam, o pessoal ficava tocando a banda do meu irmão, e no meio da apresentação deles a gente entrava e fazia cinco, seis números e pronto.

 

P/2 – Era números cantados?

 

R – Cantados.

 

P/2 – E vocês começaram a tocar quando?

 

R – Nessa época só o Beto tocava violão, eu tocava violão, mas não tocava muito as músicas do Beatles, eu gostava mais de tocar mais Bossa Nova, que eram outros acordes, não tinha palheta, o Beto, pela história dele, ter tocava com o pai dele, e ser coisa de palheta, música regional, tinha mais proximidade, os acordes eram mais parecidos com os acordes dos Beatles, acordes perfeitos, maiores, os meus acordes eram todos de sonantes, era acordes de João Gilberto, não sei o que, então no primeiro momento os The Beavers era só o Beto que tocava violão e a gente fazia vocalização.

 

P/1 – E Lô, qual era a tua preferida dos Beatles?

 

R – John Lennon, desde o primeiro dia que eu vi os Beatles eu adorei a cara do John Lennon, a voz do John Lennon, as canções do John Lennon, sempre achei o John Lennon mais interessante, para mim é o que me chamava atenção, assisti aos filmes dos Beatles, vinte vezes cada filme, eu ficava o tempo todo olhando para o John Lennon, até me interessava pouco pelos outros, acha legal, mas o John Lennon era meu Beatle predileto, sempre foi.

 

P/1 – E das canções?

 

R – Das canções também, as canções dele são as canções que eu mais gostava, o cara fez tantas canções que eu não preciso ficar dizendo o número de canções, quais foram as canções, as canções do John Lennon são as que eu mais gostava.

 

P/1 – Só para uma curiosidade, com você chegou nesse nickname Lô?

 

R – Isso foi na minha infância, eu não sabia que me chamava Salomão, eu descobri que me chamava Salomão quando eu fui me alfabetizar, no primeiro dia de aula, que eu tive que aprender, no primeiro dia de aula não, nos primeiros momentos que eu tive que aprender a escrever o meu nome, eu falava: “Meu nome é isso tudo, desse tamanho? Eu achava que era só Lô”. Porque a minha avó, os meus irmãos desde que eu era garoto mesmo, de dois, três anos de idade bem pequenininho, todo mundo só me chamava de Lô, então eu não sabia que eu chamava Salomão, eu demorei uns cinco anos para saber que eu chamava Salomão, eu achava que era Lô, todo mundo me chamava de Lô, eu não sabia escrever, eu não sabia ler, para mim era Lô.

 

P/1 – Pelo menos você não foi chamado de Junior, ninguém te chamou de Junior?

 

R – Não, ninguém nunca me chamou de Junior, dizem que foi minha avó que me chamava assim, me botou o apelido de Lô, mas eu não sei, talvez algum irmão mais velho que vocês entrevistarem saiba melhor a gênese do meu apelido, mas eu lembro que eu sempre fui o Lô assim, Salomão foi poucas vezes, mesmo porque já tinha o Salomão, meu pai, aquele que era o Salomão mesmo, sou um Salomãozinho, sou mais um Lô mesmo.

 

P/1 – Quando acaba o cover dos Beatles você tinha quantos anos?

 

R – Eu tinha uns quinze anos.

 

P/1 – Aí qual era a novidade que entra para substituir essa jornada?

 

R – Aí entram as histórias de ficar esperando os discos dos Beatles, tirar todas as canções que saíam nos discos e ao mesmo tempo começou a acontecer os Festivais da Canção, aí eu virei um Chico Buarque maníaco também, eu tirava todas as canções do Chico Buarque, desde que apareceu ele cantando “A Banda”, “Tropicália”, tudo isso me chamava atenção, eu tinha aí uns quinze, dezesseis anos quando começou esses Festivais da Canção, Elis Regina, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré, essas coisas todas de música me chamavam atenção, principalmente os Beatles, que eu ficava esperando sair os discos, porque eu tirava todas as canções, dessa galera toda o meu predileto da música brasileira era o Chico Buarque, eu tinha o mesmo interesse que tinha pelos Beatles, saía o disco do Chico Buarque eu tirava todas as canções, eu já tinha facilidade para tirar canções dele, porque eu sabia tocar meio Bossa Nova, eu já tinha essa formação também, mas aí nesse momento eu tocava não só música brasileira Bossa Nova, Tom Jobim, quanto cantava também as canções dos Beatles todas, tocava de palheta e tocava sem palheta também, então para mim ajudou muito a desenvolver, eu ter um gosto diversificado, eu não gostava só de Beatles, eu gostava muito da música brasileira, como gosto muito até hoje. Aí começou a pintar a fase de voltar para Santa Teresa, e essa fase de voltar para Santa Teresa que eu comecei a compor, aí que eu comecei a pegar toda essas influências que eu tinha de Festivais da Canção, de Beatles para caramba, enfim, aí eu comecei a ousar a fazer minhas primeiras tentativas musicais de composição, e aí foi quando eu comecei a compor, foi super legal esse processo, foi meio tímido, foi uma coisa com critérios, eu achava que eu fazia ficava muito cheio de autocríticas demais, não chegava e fala assim: “Que música legal que eu estou fazendo.” Eu achava tudo começando demais, será que eu consigo, será que eu não consigo, eu não sei como era a iniciação das pessoas, mas eu acho que o compositor, normalmente no começo, tem um pouco de dúvidas com o que ele está fazendo, se está bacana, se não está banca, até ele se sentir libertado, falar assim: “Puxa, eu estou fazendo música, eu sei fazer música.” Isso leva um pouco de tempo, o processo é um pouco doloroso, e comigo não foi diferente, aí eu comecei a fazer as minhas primeiras dedilhadas, as primeiras obras, etc e tal, aí foi logo no começo também que eu comecei a fazer as músicas, aí eu comecei a mostrar para o Milton, o Milton já tinha desenvolvido a carreira dele, já tinha saído do Edifício Levy, já tinha ganhado o Festival Internacional da Canção com “Travessia”, e sempre que ele vinha à Belo Horizonte, vinha na casa da minha família e perguntava: “Cadê o Lô?”. Ele gostava muito de mim desde esse encontro na escadaria do prédio, falavam: “O Lô está lá na esquina tocando violão.” Aí a história do Clube da Esquina, que eu ficava na esquina tocando violão, no lugar que a gente chamava de Clube da Esquina, e num belo dia ele apareceu lá e resolvi mostrar a música que eu estava fazendo, aí ele acabou fazendo a música junto comigo, que foi o Clube da Esquina I.

 

P/2 – Talvez seja interessante falar das aulas de harmonia com o Toninho, foi nessa época da outra Santa Teresa?

 

R – Essa aulas de harmonia com o Toninho na verdade duram pouco tempo, foi a escolinha do professor Toninho. O Toninho queria incentivar a gente a aprender Teoria Musical, mas nós não éramos alunos aplicados, a gente gosta mais de fazer coisa de ouvido mesmo, era outra história, o Toninho já tinha o conhecimento teórico, era um cara que gostava disso, e via na gente talento para aprender música, mas a gente, eu, Beto, a gente se interessou pouco por isso, então essas idas à casa do Toninho para aprender música duraram pouco tempo, acho que não deu um ano nisso, foi uma coisa meio rápida, a gente gostava mais de ficar tocando violão mesmo com ele, tomando cerveja, as aulas eram logo desvirtuadas para outra coisa, e eu aprendi pouco de Teoria Musical, tanto com Toninho, quanto com a professora que eu tive quando era mais novo, a minha mãe colocou na aula de piano, a professora queria que eu aprendesse aula de religião um pouquinho antes da aula de Teoria de Música, eu achava aquilo meio chato, na verdade apesar que eu achava da maior importância a Teoria Musical, mas eu não me firmei nessa praia de Teoria Musical, a minha obra toda, minha ligação com a música toda é intuitiva, é toda ligada mesmo ao ouvido e a intuição.

 

P/1 – Você era bom aluno em Matemática?

 

R – Eu, a última prova de Matemática que eu fiz, eu precisava tirar dez para não ser reprovado, aí eu tirei dez, eu não era muito bom não, eu sempre ficava no final do ano precisando tirar uma nota altíssima, aí a única hora que eu estudava Matemática mesmo era no final do ano, aí eu tinha que estudar porque se não eu ia tomar bomba, eu ia levar ferro, aí no final do ano eu era bom em Matemática, só no final do ano que eu era bom de Matemática, porque aí eu me dedicava. Eu gostava de Português, Geografia, outras coisas.

 

P/1 – Tem uns que a Matemática está totalmente... Tem umas histórias interessantes de músicos com a Matemática.

 

R – No meu caso era só forçando mesmo, tem muitos músicos arquitetos, pessoas ligadas à matemática, mas não era muito o meu caso, se bem que eu achava Matemática interessante, eu só não tinha muito saco de estudar, não fui um grande aluno em momento nenhum da minha vida.

 

P/1 – E a música clássica, você tinha contato? 

 

R – Eu não tinha muito contato não, meu contato era mais com as coisas que se ouvia na minha casa, então quem ouvia música clássica na minha casa era meu pai e minha mãe, eles gostavam de música clássica, então eu ouvia meio que por tabela também, tem vários autores, Wagner, Mozart, ________, Ravel, várias coisas que eu escutei por tabela, nunca me interessei não, achava muito belo, muito legal, mas nunca foi objeto de estudo meu, deu chegar, pegar, colocar os discos e escutar, eu escutava mais o popular mesmo que era o que mais me interessava, tanto o popular internacional quanto o popular nacional.

 

P/1 – E a primeira composição foi o Clube da Esquina mesmo?

 

R – Sabe que passaram-se muitos anos, então eu acho que antes eu ensaiei alguma coisa, eu teci alguma canção pré Clube da Esquina, mas a canção oficial que eu lembro ficou pronta assim, talvez tenha sido “Equatorial”, acho que é antes do Clube da Esquina, foi uma canção que eu fiz com o Beto Guedes e com o Márcio Borges, essa canção a gente fez quando eu morava no Centro de Belo Horizonte ainda, eu morava no Centro, ou eram as minhas idas ao Centro, já não estou me lembrando bem, mas a gente fez “Equatorial” mais ou menos a mesma época do Clube da Esquina, aí começou a vir realmente uma vontade de compor, vieram várias canções, o Milton fez o Clube da Esquina comigo e gravou o Clube da Esquina no álbum dele chamado “Milton”, que é o álbum anterior ao Clube da Esquina, e nesse álbum ele gravou “Para Lennon e McCartney” que era uma canção que eu tinha feito na minha casa com Márcio e com o Fernando Brant, e aí eu comecei a entusiasmar, porque as músicas que eu fazia era logo gravadas pelo Milton que já era o cara de nome nacional, eu falei acho que eu estou levando jeito, porque o cara está gravando as coisas que eu estou fazendo, então minhas primeiras composições já foram logo gravadas, então eu não tive muito tempo de elaboração de me firmar como compositor, de me sentir um compositor, as músicas que eu fazia já logo eram gravadas e foi sempre assim, tanto que eu fiz o Clube da Esquina, depois fiz o “Disco do Tênis”. O “Disco do Tênis” era um disco que eu fazia de manhã e grava a noite, era uma certa urgência, porque eu não tinha repertório extenso, as minhas primeiras composições foram logo sendo gravadas.

 

P/1 – Como que rola para você, teve mudança? O processo da criação mesmo, a coisa ela brota, é uma observação, é da vida, como é isso?

 

R – Compor para mim é coisa parecido com comer, tomar água uma coisa meio fundamental, básica na minha vida, eu costumo dizer assim, costumava dizer, ultimamente digo menos isso, mas eu sempre disse que o fato de acordar de manhã, estar vivo, ter um instrumento a sua disposição, já é um grande fator de inspiração. No começo da minha carreira eu tocava violão o dia inteiro, eu acordava tocando violão, dormia tocando violão, dormia com o violão na cama, gostava de deixar ele do lado, às vezes eu acordava no meio da noite e tocava alguma coisa, então assim, eu nunca tive muita ligação com fatos específicos que me motivasse a compor, aconteceu isso vou compor, aconteceu aquilo eu vou compor, compor é uma coisa meio compulsiva, era direto, eu gostava de estar sempre com um instrumento na mão e nem sempre compor, era tocar mesmo, eu gostava muito de tocar, alguma coisa virava música outras não, mas eu dedicava bastante tempo para tocar, toquei muito na minha vida, hoje eu toco menos, eu toco não tão compulsivamente, tem momentos. Eu fiz um álbum recente “Um dia e Meio”, que eu compus direto, parecia os anos setenta, fazia uma música atrás da outra, mas na verdade a gente vai passando o tempo e vai ficando mais espaçado um pouco, você vai só na boa mesmo, você toca, você aprendeu tanta coisa que quando você vai, quando você vai querer compor alguma coisa você já vai mais com a ideia mais ou menos elaborada, antes era igual a um cavalo solto, tudo virava música, tudo era música, e eu acho muito legal ter sido assim, como eu acho legal se fosse assim hoje, diferente do que era, acho que as coisas não são estáticas assim, a medida que você vai atingindo a maturidade o tempo vai passando, vai mudando a sua relação com as coisas, inclusive com a música.

 

P/1 – E a gravação do Clube você foi chamado, você e o Beto foram levados, como foi essa coisa?

 

R – Na verdade a ideia original do Milton era gravar um álbum comigo, porque ele estava gostando das composições que eu estava fazendo, então era surpreendente cada canção minha que ele gravava, era surpreendente, foi mais surpreendente ainda quando ele me convidou para gravar um álbum, aí ele me chamou para gravar o Clube da Esquina, aí foi uma complicação, um pouco complicado porque minha mãe me achava muito novo para ir no Rio de Janeiro, morar no Rio, interromper os meus estudos, mas enfim, eu acabei convencendo minha mãe e meu pai que aquele caminho é um caminho legal, só que o convite ao Beto, já foi um convite meu, porque eu falei para o Milton, eu só vou poder ir para o Rio se eu puder levar um cara da minha geração comigo, porque chegar lá vou ficar com seus amigos, eu não conheço ninguém, não sei o que, levar alguém que eu goste, eu falei: “A gente podia levar o Beto também.” Ele falou: “O Beto... Eu adoro o Beto, vamos levar o Beto também.” Aí fomos a casa do Beto pedir a mão do Beto em casamento (risos).

 

P/2 – Vocês estavam com que idade nessa época?

 

R – Tinha uns dezesseis, dezessete por aí, quando teve a ideia de ir para o Rio e fazer história, o disco saiu um ano e meio depois, eu tinha uns dezoito para dezenove anos já, quando saiu o disco, mas quando a gente teve o processo, na verdade eu não tinha as músicas, eu tinha que compor as músicas, enfim. Aí nós fomos na casa do Beto pedir, aí a mãe do Beto ficou super grilada, falou: “Vocês tem que tomar conta do Beto, porque o Alberto é um menino do interior, o Alberto não sabe nem atravessar a rua direito, Senhor Milton o senhor por pelo amor de Deus, senhor toma conta do Alberto direito para a gente.” Mas ela acabou deixando o Beto ir, aí fomos lá felizes, os três para o Rio, aí moramos um tempo em vários lugares do Rio de Janeiro, aí foi a fase Pré Clube da Esquina, que a gente começou a construir o repertório do Clube da Esquina, aí eu morei com o Milton em vários lugares do Rio, moramos em mil apartamentos, moramos no Jardim Botânico, moramos no Leblon, moramos em Copacabana, toda hora a gente estava mudando de casa, não sei porque cargas d’águas, mas toda a hora a gente mudava, morei em vários lugares do Rio de Janeiro, até a gente alugar uma casa em Niterói na praia chamada Piratininga que na época era super deserta, hoje você passa de avião por cima parece uma Miami, na época era super, estrada de terra, era super remoto o lugar, aí fomos morar nesse lugar, ali que realmente rolaram as principais intervenções de composições mesmo, ali que a gente compôs para valer as canções do Clube da Esquina, eu tive o prazer de ver o Milton compor cada coisa maravilhosa, e era super dividido, cada quarto da casa ficava alguém compondo, se abria um quarto estava eu compondo, você abria outro quarto estava o Beto, você abria outro estava o Milton, cada um fazendo as suas coisas em prol do disco, e foi muito interessante ter morado nessa casa, que acontecia coisa meio... Teve vários casos nessa casa, teve um dia que eu estava compondo “Nuvem Cigana”, estava caindo uma tempestade enorme, eu sentado numa cama com uma janela de vidro atrás de mim, e essa janela com uma estrutura metálica forte, pesada, e atrás dessa janela tinha um muro que era um corredor que passava atrás, e tinha um muro alto que levava para o segundo andar, de repente eu estava horas, chovendo, caindo raios e eu fazendo “Nuvem Cigana”, compondo, de repente eu resolvi levantar para mostrar para o Milton o que eu estava fazendo, aí eu levantei, quando eu levantei antes de eu chegar na porta, caiu a janela em cima do lugar que eu estava sentado, a janela e o muro, era para eu não estar contando essa história aqui agora, porque quebrou a cama que eu estava sentado tamanho o peso da estrutura, caiu a janela e o muro no lugar que eu estava sentado, eu fui salvo pelo gongo, o sexto sentido me tirou dali naquele momento. 

Tinha muitas histórias, essa casa é uma casa que tinha um caseiro, a mulher dele fazia comida para a gente, a gente achava um pouco estranho, eles tinham uns hábitos um pouco estranhos, eu não sei, era legal, mas uma época também de muita loucura, todo mundo bebia muito, tinha muita história, eu lembro uma vez o Ronaldo Bastos estava lá com a gente, tinha uma sede, uma unidade do exército mais ou menos próxima ao lugar que a gente estava, que a gente morava, e teve um dia que começou a estourar umas bombas, a gente tinha fumado baseado, sei lá o que a gente tinha feito que a gente entrou numa paranóia danada que a gente ia ser invadido, coisa de repressão, Ditadura Militar a gente achou que o pessoal estava soltando as bombas pra gente, eles estavam invadindo a nossa casa, a gente ficou super assustados, o Ronaldo Bastos chegou a entrar debaixo da cama de susto, a gente ficou apavorado. Mas foi um lugar fértil que a gente compôs muita música, praticamente ensaiamos e compusemos todas as canções do álbum Clube da Esquina naquele lugar, em Piratininga em Niterói.

 

P/2 – Além do Ronaldo Bastos, que outras pessoas frequentavam esta casa?

 

R – Frequentavam muito músicos amigos do Milton, que eu acabei ficando amigo também, as pessoas visitavam, o Toninho Horta, o Novelli, o Robertinho Silva, várias pessoas do Rio de Janeiro de vez em quando ia lá pessoas que acabavam participando do álbum, gravando o álbum junto com a gente, mas teve um dia que teve uma história que a gente saiu para fazer umas compras, morava com a gente também o primo do Bituca também, o Jacaré, aí a gente saiu para fazer umas compras em Niterói, tinha uma lagoa do lado do mar que vários momentos do dia ou a água do mar entrava na lagoa, ou a água da lagoa entrava no mar, e esse dia estava à água do mar entrando na lagoa e o Milton estava deitado, apagado, a gente chegou, viu o cara deitado apagado, já era quase seis horas da tarde, escurecendo, eu falei: “Jacaré eu acho que aquele cara deitado ali é o Bituca e ele está apagado.” E caindo aqueles blocos de areia assim, e já chegando próximo dele, e a gente chegou, fomos correndo lá salvar o cara, o cara ia acordar dentro de uma lagoa, e isso foi uma coisa marcante também. Teve um tombo que eu levei que foi marcante, eu estava... Porque a ponte que levava, que atravessava essa lagoa era uma ponte bem precária, cheia de buracos, uma madeira velha, teve um dia que a gente foi passar, eu desci do carro, não era eu que dirigia, eu desci do carro para dar uma pista para o cara que estava dirigindo, como ele tinha que vir com a roda, então eu estou assim: “Para cá, mais para lá...” de repente eu sumi, tinha um buraco na ponte, eu caí dentro desse buraco e caí dentro da água, eu fui lá embaixo. As coisas que aconteciam... De qualquer forma foi muito legal ter morado lá, ter composto essas canções todas, e ter visto o Milton fazer coisas muito legais, ter convivido com o Beto, ter convivido com os amigos do Bituca. Bituca, nessa época, tocava com Som Imaginário, então a gente saía para ver vários shows, eu ia em todos os shows, o Beto ia em todos os shows, a gente era acompanhante do Bituca, a gente morava junto com ele, então a gente ia para vários lugares com eles, assisti várias apresentações históricas do Milton, foi uma época muito legal.

 

P/1 – Você tinha uma coisa extra que era o mar, conviver perto do mar, para mineiro isso...

 

R – Isso é maravilhoso, para o mineiro viver em frente ao mar era maravilhoso, a gente adorava, eu vivia tomando banho de mar, vivia nadando, tem até uma foto dentro do Clube da Esquina que sou eu, o Beto e o Milton dentro da água assim, pegando um jacaré, morar em frente ao mar é tudo que um mineiro gosta, então eu aproveitei muito esse tempo em que a gente morou em frente ao mar, a gente morava bem na beira da praia mesmo, tinha areia até na entrada da casa que a gente morava, era meio dentro da areia, e aquilo para a gente era o máximo, um belo dia que apareceu, teve uma coisa que fez, acho que a gente ia mudar de lá, que foi uma... Porque de vez em quando a gente via uma espécie de macumba, umas coisas assim na praia, teve um dia que amanheceu tinha uma cabeça com chifre e tudo de um boi, e o cachorro comendo o nariz do boi, uma cena meio forte, eu achei aquilo muito estranho e pouco tempo depois apareceu uma criança sacrificada também, aí a gente achou que o lugar estava ficando meio tenebroso demais, coincidiu que era a época da gente sair dali para começar a gravar o disco, aí a gente voltou para o Rio de Janeiro.

 

P/1 – E como foi a gravação do disco, você cantando, ou o Beto?

 

R – A gravação do disco foi uma festa, todo mundo tocando na música de todo mundo, todo mundo intervindo todo mundo, na época era dois canais só para gravar, então você tinha uma responsabilidade muito grande, as canções que a gente ia gravar com orquestra, com banda, tinha que gravar tudo ao vivo, eu não sabia Teoria Musical, tinha que gravar com orquestra, como se eu estivesse lendo partitura, sem estar lendo partitura, o Girassol foi gravado assim, tudo ao vivo, (Emílio Deodato?) regendo e a gente gravando ao vivo: “vento só...” só que eu não estava cantando, as vozes eram colocadas depois, colocava todo instrumental de uma vez só, podia ser só violão e percussão, ou podia ser orquestra com vários componentes que tinha que ser tudo ao vivo, e nessa aí a gente teve que criar uma experiência forçada praticamente, a gente tinha que ficar esperto para fazer isso bem feito, então eu gravei muitas canções, todas as canções que eu gravei foram ao vivo, e a voz a gente colocava depois, isso criou pra gente... A gente tinha que ficar muito afiado, muito ligado mesmo, muito atento, para poder acertar sempre, porque se você errasse você derrubava uma orquestra inteira, então isso revestia a gente de uma responsabilidade que aparentemente não tínhamos experiência, então a gente teve que criar uma experiência legal. 

 

P/1 – Como surgiu? Como foi o “Trem Azul”? Super, super clássico, com que é?

 

R – O “Trem Azul”, foi numa das minhas vindas à Belo Horizonte, foi antes do... Porque nesse tempo que eu morei no Rio eu sempre voltava à Belo Horizonte, eu adorava vir à Belo Horizonte. Eu frequentei aquela estrada Rio-BH aos montes, fiz este percurso que eu sabia qual curva, qual árvore, qual cidade que estava passando. O “Trem Azul” eu acabei compondo em Belo Horizonte, foi num domingo, eu tinha chegado do Mineirão, eu tinha visto o Cruzeiro jogar, um time maravilhoso que o Cruzeiro tinha, mas eu não fiz a música para o time do Cruzeiro, mas eu estava muito feliz no dia, o Cruzeiro tinha ganhado uma partida importante, e aí eu comecei a tocar num domingo no fim da tarde, eu comecei a tocar os primeiros acordes do “Trem Azul”, fiz essa canção, depois eu levei para o Rio, eu sempre estava vindo para o Rio e Belo Horizonte, aí levei e o Ronaldo fez a letra, foi uma canção que foi feita no domingo em Santa Teresa em Belo Horizonte.

 

P/1 – Você imaginou que ela fosse ter esse alcance?

 

R – Nada, as canções eram todas sem importância, a gente não dava grande importância de achar que poderia virar um clássico, ou uma canção que perdurasse tantos anos, a gente fazia tudo do cotidianamente, acho que aquilo ia ser uma coisa cotidiana, que ia ser gravada em disco, e que ia durar o tempo que os discos durassem, só que as canções duraram muito mais tempo do que a gente esperava, porque o Clube da Esquina fez trinta e tantos anos, e as pessoas cantam essas canções até hoje, a gente jamais imaginava isso quando a gente fez essas canções, não só o “Trem Azul” como todas as outras, “Para Lennon e McCartney”, “Girassol”, “Da Cor do Seu Cabelo”, foi tudo feito muito sem nenhuma pretensão, a gente só queria registrar num álbum, e não sabia que esse álbum ia marcar uma história grande, importante, de várias gerações, a gente não tinha essa noção não, a gente não fez com essa postura, uma postura despojada fazendo o dia de hoje, não pensando no dia de amanhã, pensando que aquilo podia chegar frutos anos subsequentes, foi uma coisa feita super despojada, sem nenhuma intenção de que tudo durasse que fosse uma coisa perene, que fosse durar por longos anos, até hoje eu tenho que tocar o “Trem Azul”, mas também eu acho quando as pessoas, isso é muito comum na vida de certos compositores, sem querer comparar nada, apesar do Tom Jobim ter gravado o “Trem Azul”, era impensável você ver um show do Tom Jobim que ele não tivesse que tocar “Garota de Ipanema”, assim vários compositores tem as suas canções que acabam tendo que tocar a vida inteira se não o público pega você de porrada.

 

P/1 – O público que tem que acompanhar mesmo? Público cativo.

 

R – É um público e os filhos desse público, netos desse público, a coisa vai passando de geração para geração.

 

P/1 – “Trem de Doido”, eu gosto muito dessa música, tem uma letra bastante interessante. Como foi a construção?

 

R – “Trem de Doido” também foi uma dessas canções da época de compulsão de compor, eu fiz ela meio que rapidamente, peguei o violão, toquei e como a gente compõe até hoje, aí eu chamei o Marcinho para escrever, era época da safra do Clube da Esquina, aí o Marcinho, eu não me lembro bem qual foi à ideia que o Marcinho teve para falar da letra, mas alguma coisa que ele pode dizer melhor, eu sei que eu fiz a canção como todas as outras que eu fazia, eu fiz porque achei gostoso estar fazendo, aqui tem uma canção dentro dessa harmonia, dentro desses acordes, mas não lembro de uma referência do dia, porque o Marcinho colocou o nome de “Trem de Doido”, isso tudo o tempo vai passando, você vai perdendo um pouco essa referência das canções, porque era uma coisa muito compulsiva, era compor o tempo todo, então as canções vão tornando-se, apesar de serem canções que duraram muito tempo, na época que elas foram feitas, elas não tinham grande importância para a gente, a não ser a celebração do dia, puxa, fizemos uma canção, ficou legal, agora você se reportar e tentar lembrar porque a ideia surgiu isso fica difícil, cada vez que eu sou levado a descrever esses momentos eu me enrolo um pouco, porque as canções foram feitas todas em sequência, as ideias vinham na cabeça do Marcinho, do Ronaldo. 

O Ronaldo, no “Trem Azul” falava do trem da Holanda que ia para Paris, a ideia dele era essa, e as pessoas acham que o “Trem Azul” era por causa do time do Cruzeiro, quer dizer, tem muitas distorções nas histórias, vários tipos de interpretações, mas na verdade era fazer música, seja que música fosse, a ideia era fazer, ficar pronta e a gente celebrar depois, a gente adorava celebrar depois, tomar uma cervejinha depois que a música ficasse pronta, enfim, isso que motiva a gente a fazer música, era a celebração subsequente.

 

P/1 – Tem duas coisas na sequência, uma é falar do Clube da Esquina II e outra é falar do teu primeiro disco, seu solo, eu acho que a gente pode continuar no Clube da Esquina II, e aí a gente volta, o que você acha?

 

R – Ta, Clube da Esquina II, o álbum?

 

P/1 – O álbum. Aí foi um clube mesmo que saiu dos mineiros e...

 

R – É o Clube da Esquina II, já foi uma história diferente para mim, porque no Clube da Esquina I eu tinha muito mais responsabilidade, eu dividia o disco, eu assinava o disco, metade das minhas composições eram composições minhas, então eu tive uma responsabilidade maior, no Clube da Esquina II a ideia do Milton já foi diferente, foi reunir várias pessoas, de diversas tendências, diversas características musicais, aí ele convidou Mercedes Sosa, Toninho Horta, Beto Guedes, Flávio Venturini, Chico Buarque, aí ele abriu um leque grande, e eu entrei nesse disco com uma responsabilidade bem menor, então na verdade eu não participei ativamente do Clube da Esquina II, eu fui lá com minhas duas canções, cada um tinha direito a duas canções, ou era convidado para fazer duas canções, eu levei as minhas canções, gravei, participei de algumas canções do Beto Guedes, algumas canções do Beto, principalmente, que me lembro, do Flávio, e a minha responsabilidade nesse disco foi só de participante mesmo, convidado como os outros foram, eu não ia aos estúdios todos os dias, eu não tinha que compor toda hora para poder fazer música para o álbum, enfim, isso já foi um tempo depois, porque antes disso eu já fiz o “Disco do Tênis”, Clube da Esquina II foi em setenta e não sei quantos.

 

P/1 – Setenta e nove? Setenta e oito?

 

P/2 – Setenta e oito. Vamos falar do “Disco do Tênis”?

 

R – Bom, depois do álbum Clube da Esquina, a Emi Odeon gostou do resultado e me convidou imediatamente para fazer um disco solo, que para mim foi motivo de orgulho e também de espanto, porque eu tinha certeza que as canções que eu tinha são aquelas que fiz para o Clube da Esquina, eu não tinha a bagagem de compositor, que eu tivesse um baú cheio de músicas para poder tirar várias canções e falar assim: “Vou gravar”, eu estava iniciando como compositor, então foi um processo meio que maluco eu fazer as canções de manhã, o Marcinho escrevia as letras a tarde e a noite a gente ia para o estúdio e gravava, então foi um disco urgente, foi urgentíssimo, tanto que ele revela isso, você vê o conteúdo do disco, são dezesseis ou dezessete canções, cada uma mais curtinha que a outra, vários recados rápidos assim, é um disco que eu gosto, foi uma provocação criativa que eu tive, eu tinha que fazer as músicas, isso para mim era legal, mas alguns momentos eu me sentia pressionado, eu falava: “não tenho que fazer música por obrigação de fazer música, tenho que fazer música porque eu gosto de fazer música”, então como o estúdio estava gravado, a gravação marcada, para não cancelar as coisas eu comecei a compor assim: “tem gravação hoje a noite? Tem música?” “ah, não tem”, “eu vou fazer”, então a gente fazia música e isso era criativo, isso era como se fosse um laboratório, esse foi o disco mais laboratório, os arranjos estavam todos criados na hora também, não teve nenhuma elaboração de nada, foi o disco mais visceral, tudo acontecia na hora, acordava de manhã o instrumento, fazia a música, o Marcinho sentava ao meu lado e fazia a letra, a gente a noite ia para o estúdio, botava aquela música na roda, gravava aquela música, fazia os arranjos todos dentro do estúdio mesmo, então foi um disco feito tudo ao vivo, tudo registrado no momento que era concebido, e durava um dia cada canção, para você fazer, fazer a música, a letra e os arranjos e gravar e registrar, então foi um disco todo feito assim.

 

P/1 – Você acha que ele é um pouco um auto-retrato seu?

 

R – Eu acho um auto-retrato daquele momento, daquele momento que eu vivia, aquilo ali que eu estava vivendo, sem tirar nem pôr, eram as emoções mais frescas, mais do momento mesmo, era registro, tipo foto três por quatro, era assim “cla, cla, cla flashes”, eram flashes de tudo que estava vivendo naqueles dias, eu tinha que registrar naqueles próprios dias que eu estava vivendo, sem tempo para elaboração a não ser um final de semana ou outro que você pegava a fita e falava: “eu gravei isso essa semana, gravei isso, isso, semana que vem vou gravar o que? Não tem música, então vamos fazer”, era tudo, eu acho que um retrato do que eu vivi naquele momento sem dúvida.

 

P/1 – E aquela capa?

 

R – Aquela capa eu quis botar o tênis na capa, porque era mais ou menos um sintoma do que aconteceu depois, um tênis na capa e eu queria parar, eu estava me sentido pressionado, então eu queria pegar a estrada. E era uma época muito difícil de ditadura, de pessoas sendo mortas, pessoas sumindo, juntava mais de três, quatro pessoas numa casa, aquilo já poderia ser considerado aparelho subversivo, eu lembro que tinha um quadro no programa do Flávio Cavalcanti aos domingos que era mais ou menos correspondente ao Faustão, ou Domingão do Faustão hoje, o programa da principal TV aos domingos, um programa de entretenimento, de música, tinha um quadro que era “Denuncie seu vizinho e ganhe um milhão,” era o nome do quadro, então era época de terror mesmo, era uma época que eu não queria mais morar no Rio de Janeiro, não queria estar mais tocando a minha carreira daquela maneira, de ter que ficar fazendo música uma atrás da outra, por obrigação, então eu coloquei um tênis na capa, para simbolizar o que eu estava a fim de fazer, que era pegar a estrada e fazer as coisas que o pessoal da minha geração estava fazendo, que era ou você pegava em armas se juntava em alguma célula subversiva, considerado de resistência à ditadura, ou você ia virar meio que bicho grilo, ir para a Bahia de carona, pegar estrada, e a minha opção foi essa pela minha idade, as pessoas sete ou oito anos mais velhos do que eu já tinham a consciência política maior, eram mais politizados etc, eu na verdade, queria fazer o que a minha geração específica estava fazendo, que era pegar a estrada, conhecer o Brasil, sem compromisso, eu peguei esse “Disco do Tênis” e sair viajando, peguei um ônibus, fui para Porto Alegre de ônibus, uma viagem romântica, aí cheguei em Porto Alegre, não conhecia ninguém, me hospedei numa pensão, aí saía nas cidade, chegava nas praças, onde tinha uma turma que eu achava mais simpática e dava o disco de presente para as pessoas, depois percorri, fui até Belém de ônibus, eu fiquei viajando o Brasil de ônibus, com o meu disco debaixo do braço e fazendo a divulgação nas praças, tipo um camelô, um camelô que não estava vendendo, estava distribuindo o produto, eu tinha ganhado cinquenta ou cem discos e saí romanticamente com esses discos fazendo a divulgação pessoal, entregando para as pessoas que eu achava interessante, e hospedando as pensões. E com o dinheirinho que eu tinha conseguido no Clube da Esquina eu custei essa viagem, fui para a Bahia, fui para Arembepe, fiquei morando em comunidade hippie, essas coisas, aí eu desbundei mesmo, eu desbundei legal, eu falei: “não quero saber de gravadora, não quero saber de Rio de Janeiro, não quero saber de disco, de shows, eu cansei dessa vida, agora eu quero aproveitar meu Brasilzão, viajar, conhecer coisas, conhecer pessoas, conhecer lugares”, e foi um gesto libertário, porque para mim a música estava virando uma obrigação, e eu me julgava muito novo para ter que cumprir todas essas obrigações, eu achava tudo sendo um pouco precipitado, eu achava que tinha que gravar um álbum depois do Clube da Esquina, assim três anos depois, três anos depois seria legal compor, eu ia ter calma para fazer as coisas, mas não foi no próprio ano do Clube da Esquina, o pessoal me ofereceu contrato, eu já tive que entrar no estúdio daí seis meses, oito meses, uma coisa que não deu tempo de respirar, de digerir o álbum Clube da Esquina, o show do Clube da Esquina que a gente fez no Teatro Fonte da Saudade, então para mim aquilo começou a ficar uma coisa assim, eu me sentir pressionado, me senti pressionado e chutei o balde, chutei o balde mesmo, e falei: “está aqui o “Disco do Tênis”, agora eu vou viver minha vida e depois eu volto para a música quando me der vontade, quando eu tiver saco, por enquanto eu quero viver minha vida sem obrigação de fazer música.”

 

P/1 – Aí veio o “Via Láctea”?

 

R – Vem o “Via Láctea” anos depois, aí foi um processo que poderia ter sido com menos tempo, se eu tivesse gravado o “Disco do Tênis” três anos depois do Clube da Esquina, talvez o “Via Láctea” viesse sem grandes interrupções, aí o “Via Láctea” veio um tempo depois, uns seis anos depois, aí o Milton me convidou para gravar o “Via Láctea”, ele falou assim: “Eu queria produzir um disco seu, depois do “Disco do Tênis” você desapareceu, você não fez mais nada, você largou a música, você deixou a música para lá”. Mas aí eu já estava compondo legal, eu já tinha um tempo que eu estava precisando, o time que eu estava precisando eu tinha conseguido isso, eu já estava bem mais seguro, eu tinha o repertório suficiente para fazer um ou dois álbuns, eu já tinha me sedimentado como compositor, já tinha uma bagagem, já tinha um baú com canções, vamos gravar um disco? Vamos, eu já estava mais seguro para fazer o que eu tinha que fazer, já não tinha dezoito, dezenove anos, já tinha 24, 25, então aí foi legal, aí o “Via Láctea” foi uma coisa bacana. O Milton me convidou, fiquei super entusiasmado, falei: “vou retomar a minha carreira”, que foi muito bonita no começo, mas que foi muito abrupta o processo, foi tudo muito rápido assim, aí fiz o Via Láctea, ensaiei aqui em Belo Horizonte com uns amigos que eu tinha conhecido, uns músicos, o Paulinho Carvalho o Mário Castelo, Fernandinho, uma série de pessoas, eu fui para o Rio de Janeiro e... O Telo Borges também nessa época começou a lidar com música, aí o Telo era o cara que tocava teclado nesse disco, eu gravei música dele nesse disco, o “Vento de Maio”, e aí foi um disco bem mais tranquilo, foi o disco mais tranquilo que eu gravei, eu acho, porque eu estava afim de gravar, eu estava com saudades de entrar em estúdio, quer dizer, deu tempo até de eu ter saudade para estúdio, coisa que naquela época eu estava assim, aquela época do Clube da Esquina e do tênis eu estava afim de fazer outras coisas na minha vida que não fosse gravar, e o “Via Láctea” foi um disco bem produzido, o Milton produziu magnificamente, foi um disco que as pessoas gostam muito até hoje.

 

P/1 – Esses quadros contemporâneos, Os Mutantes, você teve algum momento com essa moçada?

 

R – Não, essa moçada dos Mutantes, do Terço, essa rapaziada eu era fã do pessoal, eu achava legais os discos, eu comprava os discos, tinha os discos, mas não tive nenhum relacionamento pessoal com eles a não ser com o Terço, porque o Flávio Venturini era um cara aqui de Belo Horizonte na época, iniciando a carreira dele ele foi tocar no Terço, depois teve um outro tecladista do Terço, o Túlio Mourão que é também daqui de Divinópolis, aqui de Minas que eu tive mais contato. Agora Os Mutantes eu adorava, eu tinha os discos, aprendi a tocar as canções, gostava para caramba, mas não tinha nenhum contato pessoal, nenhuma coisa, como eles também não tinham com a gente, a gente não tinha com eles.

 

P/1 – E o disco dos “Os Borges”? Esse a gente tem que perguntar, não dá para falar de Clube da Esquina sem colocar toda essa família...

 

R – O disco dos “Os Borges” foi uma ideia da Dona Maria do Carmo Leal que era a esposa do Marcinho na época, ela chegou na Emi Odeon e fez essa proposta, porque ela ficava encantada porque todo mundo na minha casa gostava de música, todo mundo sabia tocar alguma coisa, todo mundo compunha, todo mundo não, mas uma boa parte da minha família compunha, e ela teve esta ideia que foi uma ideia muito legal, a Emi topou a ideia, só que eu estava com a minha carreira solo já em curso, eu estava fazendo uma turnê do álbum “Via Láctea”, então a minha participação no disco foi mais assim, foi no intervalo de uma turnê que eu estava fazendo em São Paulo, eu visitei o estúdio para participar, eu participei pouco dias nesse álbum da minha família. 

Eu participei desse álbum assim, eu não tive tão presente quanto eu gostaria de estar, porque primeiro que já estava bem cuidado que eram vários músicos, várias pessoas ali, vários repertórios, dos componentes da família cada um cuidando da sua parte com o maior carinho, e eu no intervalo de uma turnê e outra fui ao estúdio e fiz a minha participação, gravei as minhas canções, dei opinião a respeito das canções das outras pessoas, mas não foi um álbum que eu tenha participado ativamente, porque eu estava em turnê e era o único profissional, digamos assim, naquele momento, que saía em turnê e tal. Então eu gravei mais numa brecha da minha agenda, eu entrei no estúdio, foi até o dia em que eu conheci a Elis Regina, ela estava gravando um álbum no estúdio da Emi, então ela veio caminhando na minha direção, eu vi entrando no estúdio chegando em São Paulo, aí eu entrei, ela chegou perto de mim e falou: “Você é o Lô Borges?” Eu falei: “Sou.” Ela falou: “Muito prazer, Cláudia” ela era super irônica, Cláudia era aquela cantora de São Paulo que as pessoas falavam que imitava ela, não sei o que lá, ela falou: “Pô, bicho, estou cantando uma música sua.” Aí eu assisti a gravação do “Trem Azul”. Quer dizer, a gravação do disco dos “Os Borges”, me proporcionou a conhecer a Elis Regina e assistir ela gravar o “Trem Azul” que foi show de bola, completo, eu nunca vi uma pessoa cantar assim, desse jeito, parecia que ela estava até se exibindo para mim, porque cada vez que ela cantava, ela cantava mais bonito, e o César Mariano que estava produzindo o disco estava assim: “Está bom, não precisa cantar mais nenhuma, gravar esta aqui está ótima.” Ela falou assim: “Não, vou fazer uma melhor, o autor está aqui na minha frente, vou fazer uma melhor.” Chegava e cantava outra vez, ela cantou umas cinco, seis vezes o “Trem Azul”, cada vez mais bonita que a outra, eu nunca vi uma pessoa com capacidade de se superar assim, porque botar a voz no disco eu já tinha certa experiência, eu cantando, vendo até o Milton um dos maiores cantores do mundo, às vezes as pessoas consideravam a gravação definitiva com muito mais rapidez, ela dava show de bola, ela cantava cada vez melhor, então para ela se precisasse cantar quinze vezes a mesma coisa, a 15a vez ia ser melhor que a 14a, então uma pessoa que eu fiquei muito chocado de ver era a capacidade dela de cantar bem. 

Agora o disco dos Borges foi isso, eu participei, fiz a minha participação, fiquei muito feliz com todo mundo gravando, maior festão quando eu cheguei, quando eu cheguei o disco já estava em curso, as pessoas já tinham gravado bastante coisas, e eu com saudade da minha família e vendo aquele disco sendo feito ali, aí eu me envolvi mais com o disco, assisti várias gravações, fiz a minha participação e foi um álbum histórico que eu me orgulho muito de ter participado.

 

P/2 – Sobre as novas gerações, você teve importância fundamental, no caso como o Samuel, até o Rogério Flausino, como você vê isso? Como é isso para você?

 

R – Eu acho que a música é uma coisa atemporal, dependendo do que você faça, independente da etariedade das coisas do momento histórico que você fez, eu acho que a música tem o poder de trazer as pessoas, de aproximar gerações, de aproximar pessoas, e o fato deu ter uma bate bola super legal com a geração nova, isso para mim é uma casualidade da música mesmo, a música me proporciona isso, eu tenho maior orgulho de ter shows com o Samuel Rosa, de ter parcerias com ele, ter sido gravado por “Nenhum de Nós”, pela banda Ira, por pessoas de várias gerações, assim como eu tenho maior orgulho de ter sido gravado pelo Tom Jobim, pela Nana Caymmi, pelas gerações anteriores a minha, quer dizer, na verdade música serve muito bem para misturar as gerações, então eu tenho maior orgulho de bater bola com a geração mais nova, como tenho maior orgulho de bater bola com a geração mais antiga também, eu acho que é uma coisa da música mesmo, e eu acho legal, eu tenho um projeto de fazer um disco com o Samuel Rosa agora, a gente vai juntar mesmo para compor várias coisas, sendo que as nossa parcerias estão sendo legais, aí a gente se entusiasmou e quer fazer um disco novo, aí bola para frente que atrás vem gente.

 

P/1 – E esse projeto encabeçado pelo seu irmão de resgatar a história dessa esquina, como você vê esse projeto?

 

R – Eu vejo esse projeto como uma coisa muito legal, uma coisa importante de se registrar um movimento que durou tanto tempo. Eu acho muito importante a história do museu que o Marcinho sonhou com esse projeto, que foi tão significante para a música no Brasil, a história do Clube da Esquina e o Márcio trazer isso para abrir para muitas pessoas, para as pessoas visitarem, ter acesso a essa história que chama tanto a atenção de tantas pessoas, durante tantos anos, tantas gerações, eu acho realmente que é pertinente, eu acho que foi uma ideia legal, o que eu puder colaborar com essa ideia eu estou a disposição, porque eu acho que o Clube da Esquina foi uma coisa muito importante na música brasileira, e é uma coisa que dura até hoje, as pessoas têm grandes interesses, as pessoas compram os discos até hoje, os discos antigos, lêem o livro do Márcio, as pessoas tem interesse, ficou uma coisa bem carismática, eu acho muito boa a ideia e quero saudar o Márcio Borges por essa ideia.

 

P/1 – Muito obrigada.

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