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História

A poesia está no sangue

História de: Ayrton Felix Olinto Sousa (Zinho Trindade)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2015

Sinopse

Em seu depoimento, o poeta e produtor cultural, Ayrton Félix Olinto de Souza, o Zinho Trindade, comenta sobre o legado de artes na família, comenta sobre sua infância, as brincadeiras nas ruas e como começou a gostar de literatura e escrita. Descreve seu envolvimento com o rap e a poesia na juventude, fala sobre seus poemas e recita-os, e conta um pouco sobre sua participação em saraus e grupos de poesia. Além disso, Zinho fala sobre o seu processo de escrita e seu livro publicado, Tarja Preta”. 

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História completa

Meu nome completo é Ayrton Felix Olinto de Souza. Eu tenho dois registros, um com Ayrton Felix Olinto de Souza, que é o que está no RG e na certidão que eu fui achar depois, antes quando eu fui registrado, está Ayrton Felix Olinto Trindade de Souza. Nasci em 18 de maio de 1973, em Embu das Artes. Um avô meu se chamava Ayrton, pai da minha mãe, e o meu bisavô, que na verdade era casado com a minha bisavó, que não era meu bisavô de sangue, se chamava Felix. Em homenagem a eles meu nome ficou Ayrton Felix. E era Ayrtonzinho, Felizinho, eu sei que ficou só Zinho assim, pronto.  O meu pai se chama Vitor Israel Trindade de Souza, o nome artístico dele é Vitor da Trindade, e ele é músico. A minha mãe se chama Mari Pereira Olinto, dona Mari como eu costumo chamar, e ela é dona de casa.

Eu trabalho com a minha avó, eu vivo com a minha avó, eu vou na casa dela roubar o almoço. Dona Raquel é uma figura espetacular. A minha bisavó que casou com meu bisavô Solano se chamava Margarida da Trindade, eu cheguei a conhecê-la, inclusive ela fazia aniversário junto comigo, no dia 18 de maio também. Ela faleceu no final dos anos 90. Solano Trindade foi pintor, teatrólogo e foi conhecido também como “poeta do povo”, foi um dos maiores poetas negros que o Brasil já teve e tem uma poesia muito viva. A casa que a gente morava em Itapecerica, era do lado do Embu. É essa casa que minha mãe mora até hoje, essa casa foi comprada pro Solano Trindade porque ele estava muito doente no final dos anos 60 e juntou Elis Regina, Roberto Carlos, acho que o Jorge Ben também, eles fizeram um show, a grana do show foi doada pro Solano pra comprar uma casa pra ele no Embu. Somos dois irmãos. Na verdade éramos, agora tem mais. Do mesmo pai e da mesma mãe é só eu e meu irmão, mas é um atrás do outro. Só que a minha mãe teve mais uma filha de um outro casamento, que é a Lara, e o meu pai teve mais três meninas, cada uma de um casamento, cada uma é com uma esposa. Vem eu, meu irmão – eu sou o mais velho. A gente brincava de muita coisa. Ali em Itapecerica eu era mais molequinho, então era bonequinho, pega-pega. Mas a minha mãe não deixava eu ir muito pra rua, ela deixava os meninos vir brincar em casa, mas não deixava a gente ir pra rua, ela tinha medo.

O teatro fica nessa rua onde minha avó mora, o teatro é na frente. Então a gente, por exemplo, ia brincar de pega-pega. Era um barracão na época, então as janelas eram abertas, era de pau a pique. Então: “Onde vale?” “Vale até a quadra ali e o teatro”, esconde-esconde vale o teatro, polícia e ladrão vale o teatro, o morro, a cadeia era no portãozinho do Junê, ali, e valia isso. A gente sempre brincava no teatro, a única coisa que não podia era mexer nos figurinos, não podia pegar o figurino porque senão dava briga com a minha avó. Nem mexer nos instrumentos. Mas quando era o horário de ensaio eu via os instrumentos, o figurino. A minha avó ia se apresentar e eu também ia, era pequeno, mas eu tinha a minha roupa e ia pro teatro, pras apresentações, ficava tocando agogô, que o agogô é levinho, é pequenininho e fazia: “Agogó”, quando vai começar o maracatu. Tum, tum, tumtum, tum tum, tum. Tocava o agogô e tal. Depois quando eu fui ficando mais velho já não queria mais o agogô, queria o surdo, a alfaia, mais pesada. Via aqueles negões fortões catavam lá o bagulho Tum Tum Tum. E eu, magricelinho, quase envergando pra tocar o surdo, ficava com o braço todo arrebentando, mas não queria, comecei a tocar o surdo com 12 anos, 13 anos. Mesmo sendo franzino eu queria o surdão. O pessoal: “Não, fica no agogô, pega uma caixa” “Não, eu quero o surdo, quero o surdo”.

Eu aprendi meio que nos dois, eu lia um pouco em casa, um pouco na escola. O que me incentivou muito a ler foi revistinha, Turma da Mônica, Chico Bento, Cascão, gostava muito de ler história do Cascão, Chico Bento e me interessei muito por isso. Meu avô Aurino também tinha um bar em Embu, chamava Mais Embu, era um dos bares mais frequentados e ele tinha um acervo enorme de revistinha no bar. Tinham jogos lúdicos e tal, revistinhas e tal. Eu pegava e ficava lendo revistinha. Eu lembro que eu li muita revistinha. O primeiro livro que eu li foi A Bolsa Amarela.

Eu escrevia algumas coisas e na verdade a minha aproximação com a música vem com o rap. Porque a partir do momento que eu comecei a cantar rap, entrou na fase da adolescência, comecei a fazer umas rimas, a brincar, escrever e começou. Eu lembro que a minha primeira letra que eu tentei fazer foi depois que eu li uma matéria sobre o massacre do Carandiru. Eu li essa matéria sobre o massacre e fiquei impressionado: “Vou escrever uma letra sobre isso”. Mas já fazia umas rimas na escola, brincando. Escrevi. E fazia uma rimas, era ano 97, 98, estava entrando no primeiro colegial. Eu fiquei brincando de fazer rima até os 21 e com 21 que eu comecei a trabalhar sério esse lance de MC, de pesquisar, de procurar saber sobre o rap e tudo o mais. E começaram os trabalhos. Porque eu tive uma fase meio conturbada na adolescência, foi dos 16 aos 18, eu dei uma atrapalhada aí. Mas depois eu mudei o rumo de novo, com 20 anos eu me arrumei. O problema era droga, cara, molecão, você acha que você pode tudo. E eu me perdi nesse mundo, fiquei um bom tempo perdido. Fiz um tratamento e depois do tratamento eu voltei a ter uma vida normal. Então nessa época eu tinha tudo isso, era o esporte e a arte. E me perdi nesse caminho e eu só fui retomar tudo com 20 anos, que foi depois que eu saí da clínica. Eu saí em 13 de fevereiro de 2003. Eu entrei dia 28 de dezembro de 2001, passei o ano novo já internado. Eu fiquei esse tempão porque o tempo era nove meses que você fica, quando deu nove meses eu achei que eu ia ser monitor, que eu ia trabalhar com isso, eu queria trabalhar e tudo o mais, então eu fiz um curso um tempinho a mais para trabalhar. Eu já saía normal de visita, não ficava o tempo todo lá, mas eu fiquei fazendo esse curso, quando acabou eu fui fazer uma última saída para voltar, já pra trabalhar e nessa saída eu não voltei. Eu arrumei uma namoradinha e fiquei namorando e desencanei. E fui trabalhar, foi que eu voltei meio perdido, porque eu fui, precisava trabalhar. Eu já tinha parado os estudos, eu parei no primeiro colegial e fiquei três anos no primeiro colegial, repeti uma, duas, terceira vez me mandaram embora. De lá pra cá eu não estudei, então completo, completo eu só tenho até a oitava série, o segundo grau eu nunca completei. E eu peguei e fui trabalhar de garçom, e nesse bar o legal foi que eu aprendi muito sobre reggae, eu não conhecia nada de reggae. Escutava reggae 24/48. Foi uma fase bem legal porque eu não nenhuma responsabilidade nessa época, eu já morava sozinho, era tudo bem tranquilo, a minha vida era acordar, ir por bar e depois ir para alguma festa, era isso que a gente fazia. Mas o legal é que eu conheci muito de reggae, eu não tinha quase noção nenhuma e eu conheci muito, até procurar ler livro de reggae, história e tudo o mais, conheci muito sobre o reggae e fiquei trabalhando nesse bar um tempão. E nesse bar também a gente fazia algumas festas, então a galera ia tocar no bar, iam músicos, o Jai Mahal foi tocar, uma galera do reggae que toca no Brasil hoje em dia, a banda Veja Luz, mesmo na época chamava Varal Roots, os caras tocavam todo domingo. E além de trabalhar no bar eu era o apresentador da galera que ia tocar, então apresentava a festa e fazia algumas participações com as bandas fazendo rima, então, que eu comecei também a divulgar o meu trabalho e trabalhar como apresentador e fazendo rima. E depois, em 2004 esse bar fechou. Quando o bar fechou eu fui trabalhar em Moema, numa pizzaria, de ajudante de barman. Então a minha vida começou a ficar só isso. E nessa época eu já estava frequentando os saraus, eu já estava indo no Sarau do Binho. Foi o primeiro sarau que eu tive contato fora os saraus que eu conhecia. Porque como a minha família tinha muita ligação com poesia eu sempre fui em sarau, só que eu ia em alguns saraus que eram diferentes do que eu conhecia. O sarau era uma coisa mais, como é que eu posso dizer? Mais elitista. Era um sarau de pessoas intelectuais, você via que eram professores doutores e artistas que tinham um trabalho que não era ligado com a periferia.

Eu comecei a frequentar o Sarau do Binho. Naquela época não tinha quase nenhum sarau ligado à periferia, tinha Cooperifa e o Binho. Só. Lógico que tinha outros saraus e tal, mas da quebrada, da periferia, pode falar o que for, que eu me lembro só tinha o Binho e a Cooperifa. E eu lembro até que nesse mesmo dia o Jairo, ele pegou e falou: “Pô bicho, você tem que conhecer o Sarau da Cooperifa, você tem que ir lá e tal, é numa quarta-feira”. Eu ainda demorei pra ir na Cooperifa, uns três meses indo no Binho, até ir na Cooperifa. Quando eu fui na Cooperifa eu lembro que eu fui com uma amiga minha que morava ali perto, ela conhecia a Piraporinha. Eu lembro que a gente foi até por dentro, fez o caminho da M’Boi Mirim, a gente foi por dentro. Eu curti a Cooperifa e comecei a frequentar também. A Cooperifa era bem menor do que é hoje, até o Bar do Zé Batidão não tinha teto de gesso, era bem diferente. O Bar do Binho também, o Bar do Binho com o tempo foi mudando também. E eu lembro que na Cooperifa o tratamento foi 100%. Eu cheguei, eu já conhecia o Sergio Vaz, o Jairo, o Pezão. O Pezão ainda estava junto na Cooperifa firme e forte, que depois ele se afastou um pouco, mas os fundadores da Cooperifa é o Pezão e o Sérgio Vaz, eles que começaram com esse trabalho lá no Taboão. E o Bar do Binho também, eu cheguei bem no começo do Bar do Binho.

O legal é que os saraus cresceram muito, cara, de um tempo pra cá. Isso eu estou falando em 2004, 2005. Em 2006 já tinha mais saraus, eu lembro que em 2006 já tinha Sarau da Brasa. Não sei se eu estou me enganando, acho que já tinha sim, eu acho que o Elo da Corrente já tinha em 2006, o Sarau da Brasa, se não tinha em 2006, em 2007 é certeza que ele já tinha.  O Burro acho que é 2008, 2009 já. Mas foi nessa época que começou esse negócio de sarau a dar uma expandida. Eu sei que foi de 2010 pra cá. Antigamente você podia contar assim: separa sua segunda e quarta que tem sarau. Depois é segunda, quarta e quinta, que era o do Elo da Corrente que era em Pirituba. Depois o da Brasa, que é de sábado. Apareceu um lá, como é aquele sarau que tem na Cidade Ademar. Sarau do Ademar. Vem o Sarau do Ademar. Depois eu já comecei a ficar meio tonto, hoje em dia eu já não tenho mais noção, eu sei que tem sarau todo dia. O Sarau do Buzo mesmo é 2008. E eu sempre frequentei esses saraus, sempre procurei, tanto que o meu livro eu lancei em quase todos os saraus que eu pude.

O livro “Tarja Preta” eu saí escrevendo. Eu guardo muita coisa, eu escrevo tudo a mão, eu tenho esse problema, eu não uso muito a tecnologia, eu não confio na tecnologia. Eu conheci o Berimba, lembro que eu vi eu falei: “Vou começar a escrever umas poesias também, vou sair pra vender, porque vou ganhar um trocadinho, pelo menos se eu vender dez poesias a um real já fiz dez contos. São dez contos, já tenho uma grana”. Dez contos tantos anos atrás dava pra você fazer alguma coisa. Eu comecei, inclusive um pessoal do Resta Maloqueirista estava começando, eles me chamaram pra participar, eu acho que eu participei da primeira Resta. E o Berimba virou meu parceiro, o Caco. E em 2007, 2008 a galera começou a lançar livro, que antes como eu falei tinha só essa galera que tinha livro. E depois começou a lançar o Akins Kinte junto com a Elizandra Souza lançou o Punga, acho que foi 2008. A edições Toró começou a lançar a galera, lançou o Daniel. A minha ideia era lançar com a Toró, tanto que cheguei no Allan da Rosa e falei: “Tenho umas poesias, tem como lançar?”, só que ele falou: “Meu, a gente está sem ter como lançar, a gente não tem verba porque a gente já lançou o Daniel, o Sílvio Diogo, a Dinha, o Akins Kinte, a Elizandra, então a gente não tem grana”. Eu peguei e falei: “Bom, vou continuar escrevendo, vamos ver o que acontece”. Em 2009, um dia trocando ideia com o Berimba, ele falou: “Meu, vamos lançar um livro?”, do nada. “Vamos” “Me manda suas poesias”. E em 2008, olha que engraçado, parece que eu sabia que ia lançar o livro em 2009, porque em 2008 eu peguei tudo o que estava solto nas minhas folhas e passei tudo pro computador, dei um tapa nas poesias. E em 2009 o Berimba falou comigo e eu já estava com uma cota boa de poesia. Eu mostrei, o Berimba foi em casa, ficou lendo as poesias, deu algumas opiniões e tal. E nessa época também eu estava trabalhando bastante no Rio, então eu ia pro Rio de Janeiro recitar poesia, sei lá fazer o quê.

O Sarau da Kambinda a gente começou ele há dois anos, vai fazer dois anos agora em julho, e comecei pra fortalecer a poesia no Embu. O Embu, apesar de ser conhecido como a cidade de Embu das Artes, a arte com o tempo se perdeu muito. Ela foi muito forte, muito resistente, movimentos e tudo até os anos 90. Depois dos anos 90, com o industrianato e tudo o mais, e os próprios artistas, o tempo foi passando, faleceram muitos, tem pouquíssimos hoje dos anos 60, porque o tempo passa. Então se perdeu muito. Com isso eu falei: “Pô, vou fazer um sarau aqui no Embu”. Fiz em homenagem à minha avó, a gente faz no Teatro Popular Solano Trindade, é uma vez por mês, toda primeira quinta do mês, às oito horas da noite. Sempre tem o lançamento de um livro, alguma apresentação especial de teatro, dança, música, mais o lançamento do livro. E a galera do Embu, os jovens hoje e os antigos, todo mundo se encontra lá pra recitar poesia.

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