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História

“A poesia vinha inteira, pronta”

História de: Aline Binns
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2015

Sinopse

Em seu depoimento para o Museu da Pessoa, Aline Binns de Souza Oliveira fala sobre sua infância, sobre as cidades aonde morou e da importância da escola e de seus professores. Comenta sobre como começou a se interessar por escrever, declara poemas e conta sobre os sarais que participa e ajuda a organizar. Ela fala sobre as obras que publicou, seu trabalho como desenhista e sobre a importância da arte em sua vida. Sobre a vida pessoa, Aline conta sobre seus dois filhos. 

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História completa

Meu nome é Aline Binns de Souza Oliveira. Eu nasci no dia 30 de março de 1981, em Santo André. A minha mãe chama Terezinha de Fátima Binns e o meu pai se chama Marco Souza Oliveira. Os dois são vivos. Meu pai é de Santos e a minha mãe é da Penha. Eles se conheceram na casa de uma amiga em comum. Meu pai foi visitar uma amiga e a minha mãe foi visitar a mesma amiga e eles se conheceram. A minha mãe era secretária bilingue e o meu pai, até onde eu sei embora seja muito nebuloso pra mim, ele era cantor de bares noturnos. Atualmente a minha mãe não é mais secretária, ela estuda, tem uma faculdade que chama FAT, que é Faculdade da Terceira Idade, em São Bernardo.

Meus pais são separados já há 23 anos. Meu pai trabalha vendendo frango frito, que ele mesmo prepara e vende. Tenho quatro irmãos. Nós somos cinco filhos, eu sou a caçula dos cinco. Eu fui criada em São Bernardo, mas essa casa é uma casa que é da família do meu pai. Quando eles se casaram, logo a minha mãe ficou grávida da minha irmã mais velha e eles foram morar nessa casa da minha avó. Minha mãe saiu de lá com a gente algumas vezes, mas ela sempre volta pra lá. Então quando eu tinha três anos a gente foi morar no Espírito Santo, mais ou menos três, quatro anos e com seis anos, seis pra sete anos voltou pra essa casa. Iniciei os estudos lá em São Bernardo mesmo e fiquei morando nessa mesma casa até fazer 19 anos quando eu vim morar em São Paulo.

A primeira casa que a gente morou era uma casa que tinha um quintal de terra, a casa de São Bernardo também tinha quintal de terra com árvore frutífera e tal. Mas essa casa tinha mais, tinha abacate, goiaba, carambola. Quando eu tinha mais ou menos três anos, que foi nessa época que a gente foi pra Vitória, o meu pai volta pra casa pra morar com a minha mãe. Nessa casa morava a minha avó e minha tia, que mora lá até hoje, a minha avó fez a passagem dela quando eu tinha oito anos, então eu convivi um pouco com a minha avó. Eu tenho muitas lembranças do quintal, muitas lembranças de brincadeiras de mais felicidade nesse lugar do que nesse período anterior. Antes de ir pro Espírito Santo também tenho lembranças felizes da casa, de ser criança, dar risada e ser bom e tudo bom. Nessa fase no Espírito Santo não, tenho muitas lembranças difíceis. E, nessa casa, que foi a casa onde eu nasci, minha sensação de casa é lá, até hoje.

Então não tinha essa coisa que eu percebo hoje, que eu tenho com os meus filhos, de ter essa atenção de ter o tempo pra criança, de contar história, de mostrar o livro, de brincar junto, eu não tenho nenhuma lembrança assim com a minha mãe. Eu me lembro que eu entrei na escola sabendo algumas coisas. Eu sabia talvez letras, talvez o alfabeto, números, eu sabia algumas coisas antes da escola então eu tinha algum contato, mas eu não consigo me lembrar exatamente. Eu escrevia primeiro muitos desabafos, os meus questionamentos. Eu tinha uma amiga, mas já é na adolescência, 13 anos, que a gente se encontrava para escrever e a gente criava coisas, mundos ilusórios, personagens, histórias, escrevia, mas sem ter uma intenção com aquilo. Era meio que mergulhando em questões místicas, vampiros, sereias, fadas, coisas que não tinham muito a ver com o meu universo exterior, mais com o meu universo interior mesmo. E a gente escrevia, escrevia, escrevia. E desenhava e tal.

Eu estudei no Cassiano, no Vladimir Herzog, no Pezzolo, nesses três lugares que eram bairros diferentes. Eu sempre gostei de escrever, sempre precisei. De alguma forma eu acho que, apesar das relações serem intensas, profundas, com as pessoas, com meus irmãos, com a minha mãe e tal, eu percebo que a poesia entra, a poesia escrita, o desabafo, a maneira como isso se inicia, se inicia porque é um diálogo mais íntimo do que uma conversa, falar coisas que são mais difíceis de dizer. Mas, bom, eu passei por uma fase muito difícil de somatizar questões emocionais e ficar muito doente e por conta disso muitas coisas se transformaram dentro de mim e eu comecei a escrever mesmo a poesia. E eu percebia que era como se ela tivesse chegando pra mim, preciso escrever sobre algo, ela começou a vir sem questionamentos.

Então eu acordava à noite, acendia uma vela e escrevia a poesia e ela vinha inteira, pronta, com palavras que eu não conhecia, ou que eu nunca tinha usado, e deixar ela lá, ir dormir e no dia seguinte olhar aquilo e falar: “Meu, o que é isso?”, inclusive uma poesia minha que é uma das poesias mais importantes que veio bem nessa linha. E anos depois eu entendi o que era que a poesia estava dizendo pra mim. Não foi uma coisa criada ou trabalhada pela minha mente, consciente. Conheci em 2005, dez anos atrás, o Berimba de Jesus, o Caco Pontes. Pedro Tostes também conheci nesse momento. O Renato já não estava mais.

Porque a Poesia Maloqueirista se inicia em 2002, até onde eu sei, com o encontro do Berimba e do Limão, e logo depois com a chegada do Caco. Eles, além das suas próprias publicações, eles criaram uma publicação que se chamava “Não Funciona”, e eles fizeram o número zero da Não Funciona que era um livreto dos três juntos, basicamente. E depois ficou parado por um tempo. Quando eu conheci o Caco ele falou: “Bom, ótimo, que bom, uma mulher pra acompanhar a gente”, porque eram sempre homens. Nessa época também tinha a Inayara Samuel e também as Encantadeiras, que agora não existe mais, que eram a Alessandra Vilhena, Talita, a Aline Reis e a Inayara Samuel, quatro meninas que fazia um trabalho autoral. A Aline tem muita influência de música regional e tal.

E basicamente eram as músicas da Aline acompanhadas pela Alê e pela Talita, a Talita é percussionista, a Aline Reis, flautista e percussionista. Alessandra Vilhena, flautista e percussionista, e a poesia e a dança da Inayara. Mas apesar de ter esse trabalho com a poesia, de ter afinidade com o Caco, com o Berimba, no momento em que eu cheguei junto pra somar com esse trabalho ela esteve meio lá, meio cá, logo ela também teve um filho, Daruê. Então o Caco Pontes ficou muito animado de ter uma mulher. Mas o Caco Pontes é outra pessoa muito desafiante: “Quantas poesias você sabe de cor? Você sabe alguma poesia sua de cor? Porque não dá pra você entrar num bar e falar sempre a mesma poesia, não dá pra você ficar sempre fazendo a mesma coisa, isso cansa, vai cansar até você”. E ele era, ainda é, uma das pessoas que mais me desafia para o crescimento. Quando a gente voltou pra São Paulo a gente decidiu firmar mais o grupo e retomar o projeto da Não Funciona.

A Não Funciona número 1 foi independente e a Não Funciona número 2 até a número 19 ou 20, não tenho certeza, foi com o subsídio do VAI. É uma revista que publicava, porque inicialmente era um trabalho que era pra divulgar os trabalhos da Poesia Maloqueirista, mas sempre teve uma coisa de juntar gente, de aglutinar. Primeiro era muito o que a gente estava fazendo, onde a gente estava indo, fazendo os Assaltos Poéticos nos bares e fazendo mangueio, passando chapéu, vendendo livreto e tal. Só que a gente conhecia muita gente, muita gente boa, muita gente que inspirava a gente muito e a gente criou um projeto que se chamava CAI-MAL, Centro de Ação Informal. E esse trabalho a gente fazia eventos e convidava gente de todo tipo: artistas plásticos, músicos, poetas, pessoas pra fazer intervenções e tal. Não vou saber dizer quantas edições do CAI-MAL a gente fez, mas a gente fez em alguns lugares essas festas e tal, e em algum momento, não sei exatamente em que ano, a gente começou a se dedicar a trabalhar com sarau. Porque na verdade a gente fazia isso de uma maneira muito solta, aberta, fazia os saraus nos lugares, as pessoas se animavam e falavam.

Os primeiros saraus que eu fui foi na minha casa, porque a gente fazia saraus em casa. Minha mãe, minha avó é poeta, minha mãe é poeta, que maluco, e a gente fazia saraus em casa, de recitar poesia, cantar música, colocar música pra dançar. A Poesia Maloqueirista, além de ter essa questão da poesia mesmo, a gente tem um projeto que se chama Experimento Prosótipo, que é um trabalho de música experimental que existe desde 2005 com poesia. E tem montagens e remontagens, já teve várias formações. A última apresentação foi 2012, se não me engano. Então uma das coisas que a gente fazia era fazer mais ou menos como um sarau sonoro. Tinha uma banda de apoio, que era bateria, baixo e guitarra, DJ Du, Zabumba, enfim, coisas que se mesclavam. Depois veio trompete, o Rômulo. Então o Chicó, Marcos Binns, meu irmão, baixista. E a gente acabava fazendo assim parava nas praças e fazia um som e começava a fazer esse sarau sem ter muito um lugar pra fazer. Eu me lembro da gente fazer saraus no Parlapatões. O CAI-MAL que acabava tendo esses saraus, mas que eram lugares diversos, que foi na Casa Verde, no Zé Presidente, e depois a gente conseguiu um espaço pra fazer na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, mas depois de fazer muitas edições no Parlapatões.

Em 2007 eu lancei os Cigarros Poéticos. Era uma caixa de cigarro que tinha quatro capas diferentes e dois conteúdos diferentes. Cada caixa vinha com 12 papéis enrolados, 12 cigarros poéticos. Eram quatro desenhos e oito poesias, basicamente isso, em cada um. E nessa época eu já tinha parado de fumar, porque em 2003 eu voltei a fumar e fumei até 2007. E quando eu parei de fumar eu fiz essa caixa de Cigarros Poéticos como uma prece para ajudar as pessoas a terem uma outra visão. Todos os trabalhos eram novos, não tinha nenhum trabalho anterior a 2005. Em 2007, 2008 eu lancei um outro livreto que se chamava Salto, e era uma folha de papel de seda com uma imagem e o livreto era dobrado e costurado dentro. Eu gosto dessa coisa do manual, eu também tenho as coisas do manual vindas do meu pai, de costurar, de pintar, de fazer coisas, eu gosto de construir esses objetos. Em 2010, quando eu fiquei grávida do meu primeiro filho, eu percebi que eu não ia ter mais esse tempo de fazer as construções, de ter todo esse tempo de imprimir, de cortar, de costurar, colar, que eu gosto de fazer, foi quando eu decidi fazer o meu primeiro livro que se chama Selva. O Salto é o de 2008. E fora isso teve as participações na Não Funciona que foi uma revista que durou anos, não sei quantos anos. E eu ilustrei o livro do Baffô, Giovani Baffô, chamado Delitos e Deleites. Também com ilustração eu ilustrei um romance que ficou entre os dez finalistas de 2013 para o Prêmio Jabuti, chamado Valentia.

Tenho dois filhos, o Ian Ruda e o Ravi Iori, os dois são filhos do Fábio, meu companheiro. O Ian Ruda nasceu em casa com uma parteira maravilhosa, chamada Vilma Nishi. E o Ravi não quis nascer em casa. Porque a gente iniciou o processo em casa, mas ele quis nascer no hospital porque a gente saiu de casa quatro e meia e ele nasceu cinco e três, em 33 minutos eu saí de casa, cheguei no hospital, o médico olhou pra minha cara, me examinou, ele nasceu. Então ele só não queria nascer em casa.

Eu estou me preparando para lançar o meu próximo livro, que não tem nome, mas que na minha ideia será um livro de colorir. Eu tenho um projeto de contação de história com um amigo que se chama William Gama, que a gente está começando a desenvolver agora. Acabei de sair do projeto lindo das Filhas da Floresta, que é um trabalho de canto de reza, mas é uma coisa que eu estava fazendo até agora. Continuo escrevendo muito, parando para escrever quando a poesia chega. Eu trabalho com artesanato, faço objetos, colares, defumadores, pinto folhas, faço coisas assim, entre ser mãe e ser Aline, as coisas fluem.

Atualmente eu, a Juliana Bernardo, a Carol Araújo e a Geórgia Martins, estamos com um projeto que se chama Terra Vermelha, que é um projeto feito por mulheres pra trazer à tona essa construção feminina. Não de uma forma excludente, de tirar os homens da cena, mas de criar esse espaço pra esse trabalho ser visto. E também para falar sobre o feminino, pra falar sobre o que é ser mulher, como a mulher é vista, qual é o espaço que a gente tem, qual espaço que a gente não tem. Enfim, criar esse espaço.

A gente se uniu, iniciou esse processo no ano passado, 2014, e esse ano a gente já fez duas edições, duas na Casa das Rosas, uma no hostel, e com participações especialíssimas de Tula Pilar, Leila Monsegur que é uma artista fantástica que trabalha com a poesia visual e com artes plásticos e com teatro de sombra, o trabalho dela é muito, muito forte, muito consistente também, uma pesquisa muito ampla, ela é uma artista da Argentina que vive aqui no Brasil há alguns anos. E junto com isso, falando sobre esse espaço da mulher, tem um outro sarau que está acontecendo que já, se eu não me engano, elas estão fazendo sarau desde 2010 – se não me engano, posso estar enganada – chama-se Sarau das Rosas. 

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