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História

A prisão que libertou

História de: Perfeito Fortuna
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

O depoimento de Perfeito Antônio Fortuna Serra Lopes tem início com a descrição da vida familiar em Portugal e sua chegada ao Brasil. Fala sobre como o enfrentamento da pobreza moldou características que foram decisivas em sua formação, como a determinação e a capacidade de inovar e de atuar – em sentido amplo -  pela realização de seus projetos. Perfeito relembra momentos de mobilização popular durante sua adolescência, sob a influência do discurso progressista de sua igreja, em prol de melhorias para o bairro, o que ocasionou sua prisão, com a acusação de que estaria ligado a organizações políticas. Conta como a breve passagem pela cadeia revelou-se uma experiência fundamental na vida e na carreira artística. Perfeito descreve o trabalho no teatro, que teve papel de resistência política contra a repressão da Ditadura, e comenta alguns episódios do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, que inovou o cenário cultural da época. Fala também sobre a influência desse trabalho na criação do Circo Voador.

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História completa

“Cheguei para resolver, não para criar problema. Nasci em Vila Nova de Gaia, num distrito de Serzedo, Portugal, em 1950. Minha mãe era de uma família tradicional, de certas posses, e meu pai era mais simples, analfabeto, trabalhava em fazendas. Tiveram quatro filhos, na verdade, cinco, porque um morreu antes de eu nascer. Minha tia, irmã da minha mãe, casou-se com um senhor que se chamava Perfeito: ‘Quando você tiver um filho, quero ser madrinha. E vamos botar o nome dele de Perfeito.’ É um presente espetacular, porque todo mundo se lembra de mim, nunca mais me esquece. Esse meu tio, meu padrinho, Perfeito, era muito rico, e emprestou dinheiro para meu pai vir para o Brasil tentar melhorar de vida. Minha mãe com quatro filhos, sozinha, passando o maior perrengue. Aquilo ficou gravado em mim, acho que foi a força da minha existência primeira: ‘Poxa, não vou deixar isso ficar assim’. Pequeno, lembro-me dessa energia de reação, ‘corra!’.  Conta a lenda que quando eu tinha cerca de um ano, e meu pai tinha vindo para cá, num discurso, falei: ‘Agora, eu sou o pai’.

Cheguei aqui com cinco anos, no navio North King, que fazia a penúltima viagem. Meu tio, irmão do meu pai, veio na última. A gente veio numa classe bem simples e era assim: vai chegar em Cabo Verde, ou em Dakar, algum lugar, e vão entrar uns pretos. Eu nunca tinha visto um preto. Fiquei completamente decepcionado, porque eles não eram pretos, eles eram marrons.

A rua que a gente foi morar chamava Nova Jerusalém e, dentro da nossa tradição, é a terra prometida. Era numa favela, na Avenida Brasil, na Baixa do Sapateiro. Quando chegamos, meu pai subia o morro com a bicicleta, que servia como uma carvoaria ambulante. Comecei a ficar muito vivo, a conhecer outros lugares, sair da minha região. O que movia a gente era sobrevivência.

Quando entrei na escola, era engraçado porque não sabia nada. Até hoje acho que os professores têm pouca sensibilidade, não percebem os indivíduos, querem enquadrar você naquilo que acham que é saber.  A escola de pobre é muito autoritária. Era muito esperto e passava aperto por isso: a professora explicava algo e eu entendia imediatamente, mas não tinha paciência para ficar ali, ouvir a repetição da explicação, logo me distraía.

Meu pai fez uma fábrica de bolsas e a gente foi melhorando de vida. Frequentava a igreja de São Geraldo, em Olaria, que tinha padres espanhóis avançadíssimos, com discurso de justiça social. Comecei a fazer teatro na igreja, a montar peça com a garotada, e dava aula à noite. Esses caras que iam ser carpinteiros, pintores, também podiam estudar e melhorar. Eu dava aula de geografia e a minha aula era sempre a última, ninguém dormia. Entrava fantasiado, pela janela, era uma performance.  Fazia a aula acontecer, a aula era viva.

Quando fomos presos, eu tinha 18 anos. A gente não se achava uma organização subversiva:  a biblioteca fechou ou o colégio tinha um problema? A gente tentava resolver. Mais tarde, percebemos que organizações políticas começaram a frequentar esses movimentos nessa igreja, e isso chamou a atenção da polícia. A acusação: Eu era o homem de ligação entre o Jango, o Brizola, os intelectuais, os artistas e a Igreja em 64, quando tinha 14 anos! Ninguém interrogava, porque quando baixaram o Ato Institucional nº 5 todo mundo podia ser preso sem nenhuma acusação.

Fui salvo por um negócio espetacular. Na cadeia, um homem chamado Baltazar Prates, engenheiro, tirou um terço do bolso, e eu falei: ‘A gente podia rezar todo dia, mesmo que não acredite, vai nos dar força.’ Às seis da tarde, havia uma energia enorme naquela cadeia, todo mundo: ‘Pai nosso que estais... Ave Maria, cheia de graça...’ O astral ficou muito elevado. Dali a pouco a cadeia estava rezando pela mãe do comandante ou por não sei quem que estava doente. ‘O Caetano [Veloso] está vindo’, falaram. Ele chegou, abriu a cela e ficou uns cinco minutos abraçado comigo, falou: ‘Pensei que nunca mais fosse ver um cabeludo’.

A cadeia não foi coisa pesada, não, lá, descobri que existia escola de teatro, o Caetano e o Ferreira Goulart que me falaram. Foi o maior salto que dei, isso me formou também. Por isso, quando está ruim, presta atenção que aquele momento pode estar dizendo ‘confia que tem, não desespera’.

Acabou a cadeia, como é que segue agora? Minha família resolveu morar em Portugal, me abandonou. Meu pai me deixou simplesmente uma bicicleta e um relógio. Primeira noite, dormi na rua. Comecei a fazer a escola de teatro e dormia na casa de conhecidos, no ônibus. Morei em uns 40 lugares diferentes nesses três anos de escola de teatro. Mas a gente chegava na aula e não tinha aula, uma decepção, tanto que nem peguei diploma.

Ganhei um papel na peça Calabar, de Chico Buarque, produzida pela Fernanda Montenegro. Fernando Peixoto, Bete Faria, Chico Buarque, Rui Guerra, comecei a ficar amigo dessa turma, mas a peça foi proibida.

Conheci Orlando Miranda, um cara muito importante na minha vida até hoje, que queria montar uma peça e aproveitou a estrutura, quase o povo todo de Calabar, para fazer Ator em Concurso. Foi o maior fracasso, iam dez pessoas. Só que a gente adorava fazer e todo dia experimentava um negócio novo.

No Asdrúbal Trouxe o Trombone, começamos a montar Trate-me Leão, que não sabíamos se alguém ia entender, pois tinha uma linguagem que a gente também não conhecia, além de ter levado para o palco os assuntos da juventude. Como o ponto de vista da nossa época era o da ditadura, o teatro virou um lugar político e fomos improvisar sobre os nossos assuntos: sexo, trabalho, violência, escola, educação. A gente estreou aqui no Rio e foi viajar pelo Brasil. Em Porto Alegre, no Teatro Presidente, cabiam umas mil pessoas. No primeiro dia, foram umas quatrocentas; no segundo dia, mais de mil. No terceiro dia, a rua toda estava cheia. Tivemos que ficar mais uma semana e não tinha vaga, a rua com mais de cinco mil pessoas, a gente se sentia os Beatles. A polícia tinha que abrir caminho para a gente entrar no teatro. E tudo jovem, gente que nunca tinha ido ao teatro. O Asdrúbal trouxe realmente um frescor para o teatro brasileiro, tanto que as pessoas não identificavam a gente com teatro, diziam ‘adorei o show de vocês’. Vivíamos da bilheteria, o que é maravilhoso.

Além de estar com o Asdrúbal, fui para a escola de circo, que é a coisa mais incrível. Abrimos um curso no Parque Lage e se inscreveram 500 pessoas, montamos um espetáculo e já apresentamos um resultado. Apareceu Cazuza, garotinho...  Dessa turma, uns 23 viraram artistas.

Aí surgiu a ideia do Circo Voador. A gente fazia improvisações sobre circos que voavam, e o nome do espetáculo era Paraquedas do Coração. Começamos a ver que era preciso um local para apresentar nosso espetáculo, então, fiz uma conta: Éramos 36 grupos, teatro, circo, dança, capoeira, educação, música, coral, cada um com umas 20 pessoas, 720 envolvidos no projeto. Se cada um vendesse dez ingressos, daria 6 mil. Então, no dia 15 de janeiro [de 1982] a gente inaugurou O Circo Voador, no Arpoador. Descobri que esse amontoado de gente tem poder”.

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