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História

A promessa de Bituca

História de: Alaíde Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/09/2007

Sinopse

Importante voz do samba e da bossa nova no Brasil, Alaíde Costa nos conta nesta cabine um pouco de seu início na carreira musical e de sua participação honrosa no antológico disco Clube da Esquina, no dueto "Me deixa em paz", com Milton Nascimento. Com carinho, Alaíde lembra da promessa que levou à sua contribuição em um dos álbuns mais importantes da história da MPB.

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História completa

P/1 - Alaíde, obrigada por ter vindo. Eu queria que você começasse a entrevista falando o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R - Eu nasci... Ah!

 

P/1 - Nome completo. (risos)

 

R - Nome completo é Alaíde Costa Silveira, nome de nascimento. Depois eu tive o Mondin Gomide.

 

P/1 - E data e local de nascimento.

 

R - Eu nasci no Rio de Janeiro, no dia oito de dezembro de 1935.

 

P/1 - Alaíde, e o nome dos seus pais?

 

R - Ermino Silveira e Manuela Costa.

 

P/1 - Qual era a ocupação deles? Profissional?

 

R - O meu pai era forneiro. Ninguém sabe o que é forneiro. Aí eu até falei pra uma menina da produção que forneiro é aquele homem que vai lá e coloca aquele pão no forno, que cuida do pão…

 

P/1 - Alaíde, e na sua infância? Como era o Rio de Janeiro? Quais as músicas que você tem lembrança? Conta um pouquinho da sua infância pra gente.

 

R - A minha infância foi, assim... Tranquila em termos, porque eu morava... A gente tinha toda a liberdade de... Daquele calorão todo do Rio de Janeiro. Não tinha... Quem era pobre não tinha acesso a ventilador. Eu nem sei se existia naquela época ventiladores, ar-condicionado, essa coisa toda. E a gente tinha a liberdade de dormir com portas, janelas, tudo aberto. Acontecia absolutamente nada, você viva tranquila. Mas aquela dificuldade toda da família que não é bem remunerada. Como eu falei, meu pai era forneiro, minha mãe cuidava da casa e eu cheguei até a ser babá pra ganhar alguma coisa pra ajudar na casa. Ainda menina mesmo eu fiz isso.

 

P/1 - Você se recorda de música na sua casa? De rádio?

 

R - Eu me lembro, sim, me recordo. Mas eu era muito doida, porque eu não concordava com nada que eles gostavam. Muito agito pra minha cabeça. Eu gostava da calmaria, das coisas mais bem elaboradas, então era um negócio... Foi um negócio muito difícil pra mim trabalhar com essa coisa da música porque a minha vida quase que toda eu ouvia dizer assim: "Ah você tem... Você escolhe umas músicas difíceis pra cantar. Você tem que cantar uma coisa mais alegre, mais... Um sambinha..." E que não sei o quê. "Por que você vai cantar isso?" Então era assim que funcionava, né?

 

P/1 - E me conta como que você descobriu que podia cantar, que sabia cantar. Como você virou cantora?

 

R - Eu não descobri nada, quem descobriu foi o meu irmão mais novo. Eu vivia cantarolando, aí um belo dia ele resolveu... Soube que havia um programa de calouros no circo no bairro, lá na Água Santa, aí ele foi e me inscreveu. Mas esse programa de calouros, né? Não era, assim, dividido o adulto com a criança, era tudo junto. Aí ele me inscreveu e eu falei assim: "Mas, Adilson, como eu vou? Eu não quero ir, não quero." Porque eu não queria mesmo. Eu cantarolava mas não queria ir pra cantar assim. Aí ele falou assim pra mim: "Ó, eu te inscrevi, se você não for a polícia vem te pegar." (risos) Eu fiquei com muito medo. Eu tinha uns onze anos, por aí. "A polícia vem te pegar" Aí ele, com nove anos, dois anos mais novo que eu... E aí eu fui pro tal do programa de calouros e ganhei o prêmio. 

 

P/1 - Você lembra que música você cantou?

 

R - Lembro, era uma música do... Que o Vicente Celestino... Olha só, o Vicente Celestino cantava mas não era aquela música, assim, toda... Como se diz? Era uma música mais elaborada. Chamava-se “Minha Terra”, eu não me lembro mais os autores. Chamava-se “Minha Terra”. Chamava-se, não. Chama “Minha Terra”. Aí eu fui, cantei essa música e ganhei o prêmio, no meio de outras crianças e adultos também. Daí eu saí de lá e os coleguinhas foram lá pro circo e tal, pra fazer torcida mesmo. Aí eu cheguei em casa, a minha mãe apavorada, já tinha corrido pra lá e pra cá procurando a gente, porque nós saímos sem ela saber. Aí eu ganhei o prêmio e uma bela surra por ter saído sem avisar. Eu e ele, o meu irmão. E foi assim que começou. Depois houve um concurso, aí eu tinha treze anos. Houve um concurso na TV. TV, não, não existia TV. Na Rádio Tupi, promovido pelo Paulo Gracindo. E daí ele queria uma menina pra cantar com um menino lá que tinha o apelido de Chuvisco. Queria uma Chuvisca pro Chuvisco. Aí eu fui e tal. Mas eu fui assim... Eu não me inscrevi, foi uma vizinha que me inscreveu, que eu tinha que ir, que eu tinha que ir... Porque a partir do programa do circo, dos calouros do circo, eu passei a cantar nos calouros do bairro. 

 

P/1 - Mas sem surra? (risos)

 

R - Não, sem surra. Aí tinha, assim... Muito, lá na Água Santa, do pessoal armar um palco na frente da casa pra fazer programa de calouro da garotada e de adultos mesmo, e eu passei a percorrer esses programinhas do bairro. Aí quando falaram assim: "Ah, você vai no programa do Paulo Gracindo." Eu falei: "Ai, meu Deus do céu, eu não vou." "Ah, mas tem que ir." Aquelas coisas todas... Aí eu fui e venci o concurso pra ser a Chuvisca. Mas a dupla nem chegou a ser feita porque o menino veio logo cheio de graça pra cima de mim querendo me namorar. Naquela época eu era muito ingênua, muito moça mesmo, queria nada de namoro... De namoro e tal. E não chegou a ser feita. Depois a Tupi pegou fogo e tal. Passou algum tempo, eu fui ser babá de novo. Eu vivia cantarolando e a mãe das meninas — eram três meninas, mas eu só tomava conta da menorzinha —, ela falou assim: "Por que você não vai no Ary Barroso, você tem uma voz bonita." Não sei o quê. "Vai lá, se inscreve." E não sei o quê. Foi quando eu me animei. Assim, né? Pesar, "eu vou". Eu ouvia muito a Rádio Clube do Brasil e o Silvio Caldas tinha um programa dele, dele se apresentando. E ele cantava uma música muito linda, belíssima, chamada “Noturno em Tempo de Samba”. E eu me apaixonei pela aquela música. Cada vez que ele cantava... Era rádio, não tinha vitrola, não tinha disco, não tinha nada. Cada vez que ele cantava eu ia escrevendo as frases que eu conseguia e decorando a música. Quando eu consegui decorar essa música, eu fui numa casa chamada Bandolim de Ouro, lá na Rua da Carioca, no Rio, e comprei a partitura. Eu fui, me inscrevi e fui chamada. Me inscrevi e dali algum tempo fui chamada. E fui ensaiar. Aí o pianista falou assim: "Ah, mas não dá pra você cantar essa música hoje porque o tom é diferente." Lógico, Silvio Caldas e Alaíde. Muito diferente. Daí ele falou assim: "Ó, você volta semana que vem dia x." Que eu também não me lembro mais o dia que era. “E daí eu vou passar pro seu tom e você vai se apresentar." E foi o que aconteceu. Ele transpôs pra mim e eu fui. Cheguei lá, o Ary Barroso era, assim, uma coisa... Um gozador. Eu cheguei lá magrinha, aquela perna fininha, toda mal-vestida, não sei o quê. Ele olhou assim pra mim: "Você vai cantar..." Eu falei assim: "Eu vou cantar ‘Noturno em Tempo de Samba’, do Custódio Mes..." Não, não, eu não falei nada de autores. Eu falei: "Eu vou cantar ‘Noturno em Tempo de Samba’." Aí ele perguntou: "E de quem é essa música?" Eu falei assim: "Custódio Mesquita e Evaldo Rui." Aí ele me olhou assim... "É, vamos ver." Aí eu cantei, ele adorou e me deu a nota máxima, que era cinco. (risos) E ainda ficou meu fã. Ficou meu fã, ficou meu fã... E daí a coisa ficou assim. Eu comecei a ir em tudo quanto era programa de calouros. Tinha “A Hora do Pato”, “Pescando Estrelas”, tinha “Papel Carbono”... Tinha uma infinidade de programas de calouros, eu me inscrevia em todos e ganhava todos. Mas aí eu tinha as concorrentes. Ellen de Lima, Marisa Gata Mansa... E daí chegou-se ao ponto que a gente combinava assim: "Quando você vai? Em que programa? Eu não vou." A gente passou a dividir, porque se fossem todas no mesmo lugar, empatava, e o prêmio era dividido. Então é assim. 

 

P/1 - Que barato. Só um minutinho. Gabi, pega um guardanapo desses pra mim que o ar-condicionado me fez mal. Só um...

 

R - Ah, eu tô fazendo muito gesto e aqui é pequeno.

 

P/1  - É. Pode continuar? Alaíde, depois você foi procurada pelo João Gilberto e vai cantar Bossa Nova?

 

R - É... Então, deixa eu te contar como isso aconteceu. Eu estava cantando num desses programas de calouros, no “Pescando Estrelas”. Um músico que tocava na Rádio Clube do Brasil estava lá porque iria se apresentar depois com o grupo, me ouviu cantando e me falou assim: "Ó, o Dancing Avenida está precisando de uma crooner, você não quer fazer o teste?" Aí eu fui, fiz o teste, fui aceita e comecei a cantar no Dancing Avenida. Daí, um belo dia me surgiu um técnico de som da Odeon que mandou um cartãozinho pra mim e tal. Eu fui falar com ele e ele me disse: "Ó, eu vou tentar um teste pra você." Tudo com teste. "Eu vou tentar um teste pra você. Não te prometo, mas eu acho que vai dar certo porque você canta de uma forma que tem tudo a ver com o que a Odeon se propõe." Que nessa época tinha a Sylvinha Telles lá, Dick Farney. Os cantores mais lights. Aí ele tentou o teste e conseguiu. E eu fui fazer o teste. Gravei o meu primeiro 78 rotações, chegou a conhecer? 

 

P/1 - Eu vi hoje na internet, vários 78 rotações.

 

R - Então eu gravei meu primeiro 78 rotações e, quando eu já estava gravando o segundo, o João Gilberto estava no estúdio. Daí ele nem falou comigo, pediu o Aloysio de Oliveira, que era o diretor artístico, que falasse comigo e perguntasse se eu queria conhecer uns meninos que estavam fazendo uma música diferente. Esses meninos eram o Castro-Neves, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, aquela turminha. O Tom e o Vinícius já estavam famosos. E daí fui. Assim que fui conhecer a Bossa Nova, por intermédio do João. Só que ele me convidou, ligou lá pra uma vizinha e deixou recado, endereço e tudo. Eu fui e ele não apareceu. Ele não apareceu. Como se diz hoje, eu fiquei naquela saia justa, não conhecia ninguém. Cheguei lá, foi na casa de um pianista chamado Bené Nunes, que disse que já me conhecia, que tinha me visto cantando na Rádio Nacional. E eu fiquei muito amiga dos meninos, cantava com eles. Nessa época não havia o nome Bossa Nova ainda. Eram aqueles encontros, e eu não sei quem foi que deu esse nome de Bossa Nova. Porque logo depois que a Bossa Nova foi lançada, muita gente não acreditava nela, inclusive a gravadora na qual eu estava, já não estava mais na Odeon. Fui pra RCA Victor porque tive uma proposta boa pra ir pra lá. E daí tinha aquela coisa também, na RCA Victor eu não tinha ninguém cantando no meu estilo, e na Odeon tinham vários. Então eu achei que tinha mais chance na RCA e eu fui. Consegui até que o João fosse me acompanhar na RCA em duas gravações, que era o “Lobo Bobo” e, antes mesmo dele gravar, e “Minha Saudade”, só que as pessoas não acreditavam que a Bossa Nova pudesse se tornar assim tão famosa. E aí o diretor assim: "Ah, não. Porque a gente tem aqui os músicos." E que não sei o quê. Já colocaram um monte de empecilhos pra eu gravar a música, e depois ainda levar o João... Eu sei que a minha gravação parece rumba, porque ninguém sabia fazer aquela batida de violão que eles fazem, né? O Oscar, o João, o Carlinhos, o Menescau, essa turma toda... E eles não deixaram, olha. Não deixaram o João tocar comigo. Eu tirar o João às dez horas da manhã pra ir na RCA Victor tocar comigo, é uma coisa muito difícil.

 

P/1 - Alaíde, os seus primeiros discos, eu estava olhando hoje... Você também compunha, atua como compositora?

 

R - Aham.

 

P/1 - Como foi isso?

 

R - Desde a época de calouros eu mexia lá, terminava os ensaios... Aí eu ia pra lá pro piano, mexia e tal. Vinham as inspirações, por assim dizer. E foi assim que eu comecei a compor. 

 

P/1 - Que barato. Depois você vai cantar no “Fino da Bossa”, né? E faz um grande sucesso. 

 

R - Foi em 1964.

 

P/1 - Em 1964. 

 

R - Maio de 1964. Eu me lembro que foi...

 

P/1 - Os maios, né? (risos)

 

R - É, foi meu bebê, né? Eu tinha um bebê de três meses. Três? Não, quatro meses. Tava lá no camarim, no moisés, que chama aquela cestinha. Ficou lá no moisés, não tinha quem cuidasse dele. Minha família toda no Rio, não tinha quem cuidasse e tal. E daí, pra surpresa minha, foi sucesso. É uma coisa que eu nunca vou esquecer, porque o Oscar veio do Rio pra fazer comigo, comigo e com a Ana Lúcia, com outros artistas... Nós fomos ensaiar dois dias antes e ele falou assim: "Lalica..." É assim que ele me chama. "Lalica, eu fiz uma música e eu gostaria que, no próximo show, você cantasse." E aí ele cantou a música, eu fiquei apaixonada e falei assim pra ele: "Ah, não. Não vai ser no próximo, vai ser nesse." Aí eu aprendi a música, aprendi assim, rapidinho, e ele fez o arranjo também. Apresentamos em primeira audição, em primeiríssima e, no meio da música o povo levantou e começou a aplaudir. Meu Deus, aquilo é uma coisa que eu jamais vou esquecer, foi uma coisa... Assim, porque se é uma música que você conhece, já aplaudiu no meio, tudo bem. Mas ninguém conhecia. E eu conhecia pouco. E todo mundo aplaudiu daquela forma, eu tive que voltar três vezes. E a gravação que permaneceu foi a primeira, que eu fiquei cheia de emoção e gaguejei, mas foi a primeira que acharam que deveria ficar. E foi por aí...

 

P/1 - E festivais, você chegou a participar dos festivais?

 

D  - Eu participei de vários universitários, ganhei prêmios, inclusive, como intérprete. E participei de um FIC [Festival Internacional da Canção]. Esse FIC aí foi drástico, porque...

 

P/1 - O primeiro, Alaíde?

 

R - Foi. Foi o único, assim. E eu fui cantar uma música do Hermeto Pascoal. Isso em 1971, 1972...

 

P/1 - Não, o primeiro acho que é em sessenta e...

 

R - Não, não, não. Eu não fui no primeiro, eu fui já no final. Em 1971 ou 1972, por aí. E eu fui cantar uma música do Hermeto Pascoal chamada “Serearei”. O Hermeto é todo complicado com aquelas coisas dele de arranjo e não sei o quê. Era época da ditadura, uma coisa horrorosa... Daí tinha um júri internacional que classificou a música. Mas os brasileiros não queriam essa música. E não digo, assim, que ganhasse o festival, mas eu acho que ela deveria ter permanecido pelo menos entre as cinco finalistas. Eu cantei e o público vaiou porque não entendeu nada. Mas, mesmo assim, foi classificada porque o júri internacional conhecia, sabia das coisas. Aí lá fui eu pra final. Na final começaram a anunciar, eu era a segunda. Eu comecei a cantar. "Ai, serearei" Aí o público: "Uuuuuuuuuu! Uuuuuuuuu!" (risos) Porque eles não entendiam nada do que o Hermeto fazia. Aquelas introduções quilométricas, cheias daquelas nuances, coisa pra músico. E o público vaiando, vaiando, vaiando. Aí parou, veio lá um cara e falou assim: "Ah, estamos com um problema de som." E me tirou do palco. Em seguida apresentaram a concorrente número três. Lá fui eu pro camarim, e falei assim: "Ah, é? Por que tem som? Tiraram o meu som e já entra outra música em seguida." E lá fui eu pro camarim, o Hermeto e os músicos todos. Quando cheguei lá já havia até pancadaria, polícia. É, é, é... No camarim. E dizendo que o Hermeto ia colocar porcos e galinhas no palco, que isso era desrespeito. Que ele brincava muito, gritava... "Ah, vou colocar uns porcos pra fazer um som, uma galinhas..." Mas tudo era brincadeira. Aí alguém foi falar isso e acharam que era desrespeito, pápápá, pápápá. E no meio da canção iam entrar os porcos e galinhas, por isso me tiraram do ar. Aí foram lá, verificaram que não tinha nada e polícia, não sei o quê, aí falaram que eu tinha que voltar. Eu falei: "Ah, eu não volto." "Ah, mas tem que voltar, porque não sei o quê..." "O Hermeto vai ter que pagar não sei quanto de multa se você não voltar." Eu não ia deixar meu amigo pagar uma multa se eu não voltasse, daí eu voltei. Aí... Ia lá a introdução, aquela parafernália toda e o povo: "Uuuuuuuuu!" (risos) Vaiando... Aí terminou a introdução, eu comecei: "Gente, gente..." Eu só falei "gente" e cortaram o som de novo. Aí eu fiquei com muita raiva, peguei o microfone e joguei, joguei o microfone. Aí esse povo que estava me vaiando ficou de pé. (risos) Foi muito engraçado. E fui a mais aplaudida da noite. Depois da vaia.

 

P/1 - Alaíde, como é que você conhece o Milton Nascimento?

 

R - O Milton eu conheci por intermédio de um amigo que tinha o apelido de Virgílio Jacaré. O Virgílio Jacaré, na época do João Sebastião Bar, que foi um bar muito famoso aqui em São Paulo, o Virgílio falou assim: "Alaíde, eu quero te apresentar um moço que apareceu lá no João, que tocou, que tem umas músicas maravilhosas." E não sei o quê. Aí eu falei: "Tudo bem." Aí ele levou o Milton na minha casa, isso já em 1965, ele trouxe o Milton na minha casa. Aí o Milton cantou aquelas coisas maravilhosas. Não tinha “Travessia” ainda, ele cantou “Pai Grande”, ele cantou uma infinidade de músicas... Eu fiquei apaixonada... Mas eu também  passava períodos muito grandes sem gravar e não tive oportunidade de gravar o Milton naquela época. Daí, quando foi... Perdemos o contato quando foi em 1970. É, em 1970, 1971, por aí. Ele chegou num programa de televisão, “O Almoço com as Estrelas”, do Aírton Rodrigues. Eu estava no programa e ele também. Aí ele se apresentou e, logo depois, o Airton falou assim: "Ó, eu vou chamar uma pessoa que a gente gosta muito." E me chamou. Eu entrei e cantei. Ele pediu que o Milton permanecesse em cena. Eu comecei a cantar e o Milton nem conhecia a música. Quando terminou o programa ele falou assim: "Olha, eu vou te convidar pra cantar essa música no meu próximo disco."

 

P/1 - O Milton falou?

 

R - É, que era o Clube da Esquina. Aí o tempo passou, ele não me chamava e nada. Eu falei: "Ele esqueceu da promessa." Daí, um belo dia a Odeon ligou pra mim, que eu aparecesse, que tinha uma sucursal aqui em São Paulo. Aí eu fui e falaram: "Olha, é pra você ir pro Rio dia X, a passagem está aqui, pra gravar com o Milton Nascimento." Aí eu fui, cheguei e gravei “Me deixe em paz” com ele, que eu acho que foi o grande sucesso do Clube da Esquina.

 

P/1 - E a música, quem escolheu? Foi essa mesma música que você cantou no programa de televisão? 

 

R - Isso, foi ele que escolheu.

 

P/1 - E quando você chegou no estúdio, estava só ele? Quem eram os nomes?

 

R - Estava ele, o Wagner Tiso, que fez arranjo... Estava ele, o Wagner Tiso... Quem mais? O pessoal do Som Imaginário.

 

P/1 - Gravaram e ficou belíssimo, né? Maravilhosa a canção. Alaíde, quando você conheceu as músicas do Milton, tinha como definir algum estilo? Porque não era Bossa Nova.

 

R - Não, mas era um estilo assim, diferente. Porque essa coisa de Bossa Nova eu não sei como definir. Tem muita gente que faz música que não tem nada a ver, que tem tudo a ver com a Bossa nova e não é classificada como tal. O próprio Tom Jobim morreu fazendo Bossa Nova, embora não tenha aquela coisa de batida de violão. Quando fala em Bossa Nova as pessoas acham que Bossa Nova é aquela “Garota de Ipanema”, “Chega de Saudade”, que não sei o quê e papapá. Mas não é. Não é. A Bossa Nova abrange universos da música. E o Milton, sem querer, ele faz parte. Eu acho que faz parte, embora... Porque inovou alguma coisa também. Também como o Ivan Lins, como tantos outros...

 

P/1 - Vai trocar a fita? Ele vai trocar a fita pra gente poder fazer mais algumas perguntinhas.

 

R - O meu estilo...

 

P/1 - O que você dizia? Sobre o “Me deixa em paz”? Você dizia que o “Me deixa em pazera uma música de...

 

R - Foi música de Carnaval. Porque antigamente, eu acho que os compositores tinham acesso, muito acesso ao Carnaval. Então as músicas tristes, elaboradas e tudo mais, entravam pelo Carnaval. Agora você imagine o “Me deixa em paz”. "Se você não me queria..." Era assim, com uma alegria... E daí eu falei assim: "Eu vou cantar essa música, mas eu vou cantar do meu jeito." E foi assim que o Milton me ouviu cantando e gostou.

 

P/ 1 - Alaíde, depois que você ouviu o disco pronto e as outras músicas do Milton e dos outros compositores do Clube da Esquina, o que você acha que o Clube da Esquina traz de inovação? Como é que definiria o som do Clube da Esquina em relação à música do mundo?

 

R - É que vieram coisas, músicas diferenciadas do que estava acontecendo naquela época. Eu acho que foi uma inovação porque, naquela época, estava muito aquela coisa de sambão, inclusive. Era tudo sambão. E vinha também logo depois do Iê-Iê-Iê. Então, um estilo completamente diferente do que vinha acontecendo. Eu não saberia como qualificar, eu só sei que, pra mim, soou tudo divinamente maravilhoso e diferente.

 

P/1 - Você falou que sempre gostou de músicas mais elaboradas, né?

 

R - Sempre.

 

P/1 - Você encontrou isso nas composições dos mineiros? Você acha que eles...

 

R - Ah, com certeza, com certeza. Tem uma música lá que é do Clube da Esquina, que... Ai, qual é? Eu não sei se é do Lô ou se é do Beto... “O sol na cabeça”.

 

P/1 - É “O Trem Azul”?

 

R - É, “O Trem Azul”?

 

P/1 - É do Lô e do Márcio.

 

R - É, do Lô. Ah, vários ali... Muito legal.

 

P/1 - Alaíde, agora o Clube da Esquina está se tornando um museu. O que você achou dessa história?

 

R - Ah, eu achei muito bonito, que dá um espaço maravilhoso pra gente contar a nossa história e só tem que desejar muitas felicidades pro Clube da Esquina, pro Museu do Clube da Esquina e que tenham muita sorte.

 

P/1 - Você gostou de ter participado da entrevista?

 

R - Gostei muito.

 

P/1 - Alaíde, eu gostaria imensamente de agradecer sua presença, fiquei muito feliz de conversar com você, de conhecer... Muito obrigada mesmo.

 

R - Obrigada, vocês.

 

P/1 - Ok. 

 

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