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História

A Química do ensino

História de: Helio dos Anjos Menegon
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/10/2018

Sinopse

Neste depoimento Helio dos Anjos Menegon nos conta sobre sua infância, sobre as experiências químicas que seu pai fazia e da biblioteca pessoal que dispunha, o que acabou incentivando Helio nos estudos, a se formar em Química e, posteriormente, a lecionar. Lecionar é a grande paixão de Helio e ele vai destacar como era o ensino das escolas públicas da segunda metade do século XX, comparando-o aos dias atuais. Helio conta também sobre as mudanças que visualizou em São Paulo ao longo do tempo e dos anos da Ditadura Militar.

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História completa

P/1 – Bom dia. Eu queria pedir para o senhor começar falando seu nome completo e o local e a data de nascimento.

 

R – Helio dos Anjos Menegon, Paraguaçu Paulista, 2 de agosto de 1926.

 

P/1 – Como se chamavam seus pais e os seus avós?

 

R – Meus pais, Ítalo Menegon e a mãe Isabel Monteiro Menegon.

 

P/1 – O que seus pais faziam?

 

R – Comerciantes.

 

P/1 – Dessa cidade?

 

R – É.

 

P/1 – O que eles vendiam?

 

R – O meu pai tinha o seguinte, ele trabalhava com diversos tipos de comércio, carvão, madeira, algodão... E também gostava de fazer experiências químicas, deu gosto.

 

P/1 – O que ele experimentava?

 

R – Ah, ele extraia produtos da madeira.

 

P/1 – Por exemplo?

 

R – Ele tirava alcatrão, álcool metílico, propa... Aquele material todo obtido da destilação da madeira a seco, não é?

 

P/1 – E ele tinha um laboratório em casa?

 

R – Praticamente sim. Tanto que usava, todo aquele material usava para distribuir para os sitiantes para proteger moirão, acabar com... Usar como inseticida, curar bicheira de animais, que ele usava o alcatrão da madeira para curar bicheira dos animais. Aquelas coisas todas. E fazia isso, trabalhava, era o gosto dele.

 

P/1 – E os seus avós, como eles se chamavam?

 

R – Os meus avós chamavam-se José Menegon e Ângela Black Menegon.

 

P/1 – E eles vieram de onde?

 

R – Eles vieram da Itália, vieram da Itália. Naquela época em que havia imigração, que eles iam buscar imigrantes fora pra trabalhar aqui, não é? Meu avô ainda tem uma parceria, ele... Nas viagens dele foi um dos que ajudou a construir a Madeira-Mamoré.

 

P/1 – É?

 

R – É, a Madeira-Mamoré. Depois ele voltou... Ele viajou quatro vezes pra Itália e quatro vezes... Tanto que na minha família é interessante, os dois, meu pai e meu tio eram os mais velhos da família e nasceram no Brasil. E os outros dois tios mais novos nasceram na Itália.

 

P/1 – Porque a família ia e vinha.

 

R – Ia e voltava. Ele fez quatro viagens desse jeito.

 

P/1 – E ele ia e vinha por quê?

 

R – Ah por causa, acho que aproveitava, não é? Tenho a impressão que naquele tempo ele aproveitava, ele gostava, acho que era um tanto aventureiro. E gostava disso, tanto que a família ia lá... Viveu ali no alto da... Em Padova, daquela região da Padova. Então o meu pai conta que na infância dele ele brincava no rio Pó, no vale do rio Pó, entende? Então é aquele tempo lá, aqueles ancestrais.

 

P/1 – E a sua infância o senhor passou aonde?

 

R – A minha infância a maior parte, até catorze anos, em Paraguaçu.

 

P/1 – Como era a Paraguaçu da sua infância?

 

R – Paraguaçu é como toda cidade pequena, aquele ambiente familiar da cidade, todo mundo se conhecia, todo mundo era amigo. Então havia um relacionamento familiar do povo da cidade.

 

P/1 – E como era a casa da sua infância?

 

R – É uma casa, dentro daquelas, daquele ambiente, daquela condição, era uma boa casa, era casa de madeira.

 

P/1 – E quem morava nessa casa?

 

R – Ah, morava o papai, a mãe e nós, os filhos. Os filhos todos moravam juntos.

 

P/1 – Eram quantos filhos?

 

R – Eram seis, seis filhos.

 

P/1 – E do que vocês brincavam?

 

R – Ah, criava, não é? Brincava, criava. A gente criava animais, criava... A variedade da criação de galinhas, criação de porcos, cabritos, fazia de tudo, de dia... E criava brinquedo, que era mais importante.

 

P/1 – O que o senhor criava?

 

R – Ah, nós brincávamos de fazer brincadeira de trem, fazíamos brincadeira de trem e tudo mais. Era brinquedo de criança.

 

P/1 – Tinha escola?

 

R – A escola também era, era outro feitio de escola. Não era escola como... Naquele tempo quando muito teria quatro classes. Primeiro, segundo, terceiro e quarto ano.

 

P/1 – E o senhor estudou numa escola dessas?

 

R – É escola do Estado, não é? Ele só via escola do Estado.

 

P/1 – O senhor se lembra como chegou nessa escola, o primeiro dia?

 

R – Ah, o primeiro dia foi bonito. Foi levar o lanche e por problema era de idade e levei o lanche, eu e o meu primo, e acontece que não havia vaga pra mim. Então voltei pra casa e ele ficou com meu lanche. Até hoje eu me lembro que ele ficou com meu lanche.

 

P/1 – Que idade o senhor tinha?

 

R – Sete anos.

 

P/1 – E aí o senhor não ficou na escola?

 

R – Não. Um pouco depois, como eu insistia muito, aparecia muito na escola, eles me arranjaram uma vaga. E aí eu comecei a estudar.

 

P/1 – O que se aprendia quando o senhor entrou na escola?

 

R – Ah, posso contar a você que na primeira fase era aprender a ler, escrever, não é? Mas é... O ensino era profundo. Tanto que eu tenho a impressão que naquela época, eu me lembro quando eu ensinava problema de química para os alunos, naquela época no primário a gente já aprendia regra de três, regra de três composta e tudo mais. Se você chegar no terceiro colegial agora o aluno não resolve; pra fazer problema de concentração ele sofre e naquele tempo a gente aprendia no ginásio matemática, aritmética.

 

P/1 – Como é que o senhor aprendeu a ler e escrever? Como é que se ensinava isso na sua época?

 

R – Ah, escrevendo e lendo, não é? E lendo. E o meu pai tinha uma biblioteca muito boa, sempre foi mania dele biblioteca. Então naquela época tinha livro à vontade para ler, tinha vontade de ler... Às vezes havia algum assunto interessante que eu não entendia, pedia, ele vinha e explicava. Então era gosto dele, onde que ele tinha aquela biblioteca.

 

P/1 – O que o senhor lia nessa biblioteca?

 

R – Era mais de livro de História, tanto que eu me lembro que eu tenho em casa, até graças a ele, a história de Cesare Cantù.

 

P/1 – Como é essa história?

 

R – Ah, Cesare Cantù, todo pesquisador de História que não conhecer Cesare Cantù falha em alguma coisa. Porque era de pesquisa, não era de dar, era de pesquisa.

 

P/1 – Tinha alguma história que impressionou mais o senhor nessa época?

 

R – De História?

 

P/1 – É disso que o senhor lia?

 

R – Não, assim, não acho que eu tinha uma visão ampla. Não tinha. Agora eu não gostava muito era de história de guerra, essa eu nunca gostei, tenho ojeriza por isso.

 

P/1 – E o senhor também passou a juventude nessa cidade?

 

R – Não, até catorze anos eu fiquei, depois de catorze anos eu vim para São Paulo.

 

P/1 – Por que o senhor veio pra São Paulo?

 

R – Pra estudar, pra fazer o... Ah não, espera um pouquinho, primeiro eu estive em Piracicaba. Eu estive fazendo ginásio em Piracicaba, que foi de 1941 até 1945. Fui à Piracicaba. Na época em que terminou a Grande Guerra estava em Piracicaba. Então me lembro até hoje quando era de madrugada a turma soltando foguete, rojão, e o diretor lá do colégio piracicabano já trouxe a turma, que ele tinha alunos de toda nacionalidade. Eu me lembro até de desfilar de madrugada lá em Piracicaba porque terminou a guerra, isso foi em 1945.

 

P/1 – Era interno que o senhor morava?

 

R – Eu era interno, eu estudei interno.

 

P/1 – Como é que era o cotidiano nessa escola?

 

R – A escola tinha aula, depois à tarde estudos, ficava estudando e à noite também estudos. Então estudava, traba... A escola, a aula, eram aquelas cinco horas de aula e depois tinha umas oito, umas oito não, pelo menos seis aulas de estudo. Era interessante por isso, estudava mesmo.

 

P/1 – E era só menino?

 

R – Não, não, lá no Colégio Piracicabano havia o internato masculino e internato feminino.  Ainda era do tempo que eles traziam professores de inglês dos Estados Unidos, porque a Igreja pertencia à Igreja metodista. O colégio pertencia à Igreja metodista. Então eles traziam professores dos Estados Unidos pra ensinar inglês. A diretora era Miss Browne, tem até um ginásio aqui em São Paulo com o nome dela. É, fazia parceria com Mackenzie, as duas são Colégio Mackenzie.

 

P/1 – E o que se ensinava nessa escola? Tinha alguma diferença das escolas públicas?

 

R – Era pra democracia. O respeito, o respeito que tinha. O colégio era protestante, mas nós que éramos católicos tínhamos autorização, íamos à missa. Então no domingo a gente ia à missa, voltava, sem problema nenhum. Seguia, podia assistir o credo deles, sem problema nenhum. E dava o direito, havia... O que achava interessante naquele tempo é o grêmio. E os alunos do grêmio faziam peças teatrais, representavam. Era essa a fase. E os professores... Bom, como naquele tempo, naquela época havia terminado, foi a hora que houve a primeira alteração no ensino, porque antes de 1942 se estudava cinco anos e já fazia o pré pra entrar na universidade; em 1942 fizeram diferente, dividiram quatro anos de ginásio e três de científico, científico, a gente diz científico, segundo grau. E aí começou a diversificação e eu peguei essa fase, mas estudava francês, inglês, latim, que era interessante. E era estudo com profundidade, então dava um cabedal... Francês eu me lembro que eu fazia uns trabalhos para o professor de português da faculdade e ele trazia os latim. Eu falo: “Mas isso aí eu sei. Aprendi tudo isso no ginásio”. Então eu estudava assim, o estudo era mais profundo e mais sério.

 

P/1 – Entendi. E voltava pra casa no fim de semana? Como funcionava?

 

R – Não, eu ficava. Só nas férias que eu voltava, porque lá era interior, era Piracicaba, eu tinha que ir à Paraguaçu. Voltava à Paraguaçu. E a viagem era uma beleza, não é?

 

P/1 – Como ia?

 

R – Ah, porque passava pelo Anhembi naquela época, eu já estranhava ali no Vale do Anhembi que agora é plantação, naquele tempo era um deserto de dez, quinze quilômetros, “areião”, só. Tinha a cidade de Anhembi, que era característica. Subia a Serra de Botucatu, muito bonita também. Naquela época era assim, porque não havia escolas; a gente tinha que procurar escola onde tinha mais oportunidade. E deu certo de eu cair nessa escola e gostei, porque dá formação.

 

P/1 – E como eram os outros meninos, seus colegas? Eles viam da onde?

 

R – Eram todos, todos gostavam. Olha, vou contar, tinham, gostavam, fazíamos a brincadeira, mas uma brincadeira pra todo mundo se divertir. Eu me lembro que nós íamos ao cinema no domingo e a nossa turma, antes de começar o espetáculo, divertia o pessoal, que era só pra dar risada. Era desse feitio, não era brincadeira de machucar, era pra dar risada, fazia assim.

 

P/1 – E o que você assistiu no cinema?

 

R – Ah, o cinema... Naquele tempo, os filmes daquele tempo, era o tempo da Casabranca, é... Como se diz? Casabranca, O Fantasma da Ópera, aqueles filmes clássicos. São os clássicos do cinema. Eram filmes ótimos, tanto que eu em casa tenho a coleção, eu faço, onde eu encontro aquele tipo de filme eu já coloco na minha fitoteca. Coloco os filmes lá que é pra recordar.

 

P/1 – E quando o senhor terminou essa escola o senhor foi pra onde?

 

R – Depois que terminou lá? Aí vim pra São Paulo, aí já é 1946, eu vim pra São Paulo.

 

P/1 – Como é que foi São Paulo, o senhor já conhecia antes?

 

R – É, aquele tempo São Paulo era bom, não é? Eu, por exemplo, trabalhava numa fábrica de vassouras ali na Rua Barra do Tibagi no Bom Retiro, os patrões eram italianos e eles davam apoio pra estudar, estudava. Então quando eu tinha prova, alguma coisa, eles até liberavam mais cedo pra estudar pra ir fazer a prova, era assim.

 

P/1 – Então o senhor veio pra São Paulo pra estudar e logo começou a trabalhar nessa fábrica?

 

R – E trabalhar, isso.

 

P/1 – Onde o senhor morava?

 

R – Naquela época eu morava na Vila Sorocabana, ali na Rua do Bosque, na Rua do Bosque que é... Não confundir com o bosque aqui, Bosque da Saúde, lá era a Rua do Bosque que vai lá pra Freguesia do Ó.

 

P/1 – Entendi. E o seu trabalho na fábrica o senhor fazia o que exatamente?

 

R – Era escriturário.

 

P/1 – Entendi, e o senhor estudava onde?

 

R – No Roosevelt, Roosevelt na Rua São Joaquim, que agora coitado, o prédio foi abandonado. Coisa... Eu vi outro dia uma reportagem sobre o prédio, fiquei triste. Era o Colégio Campos Salles, era o prédio do Campos Salles, trabalhava... Era a tarde e a noite o Roosevelt ali, depois que mudou.

 

P/1 – E aí o senhor fez o quê?

 

R – O científico.

 

P/1 – O senhor fez científico lá. E o senhor morava com quem nessa época?

 

R – Nessa época aí eu comecei a morar na Vila Mariana, aí eu vim pra Vila Mariana.

 

P/1 – Com quem que o senhor morava?

 

R – Eu morava com uns tios, eu fazia companhia pra eles.

 

P/1 – Como era a Vila Mariana nesse momento que o senhor chegou?

 

R – A Vila Mariana, quando eu estava... Eu morava ali justamente onde é a estação da Vila Mariana, ali na Domingos de Morais. Ah, Domingos não! É Rua Lins de Vasconcelos, era ali, morava ali.

 

P/1 – E como é que era o bairro nesse momento?

 

R – Como todo bairro antigo. Conhecia os vizinhos, conversava com os vizinhos, fazia reunião, ia visitá-los, coisa rara agora, não é?

 

P/1 – Entendi. Como eram as casas?

 

R – Era casa, né?

 

P/1 – E como elas eram?

 

R – Eram térreas, todas as casas eram térreas, uma ou outra eram sobrados, mas geralmente térreas as casas.

 

P/1 – E tinha rios e chácaras... Como era ali?

 

R – Agora, na região que eu moro ali era chácara, chácara. Tanto que quando chegava onde que é a Avenida Dante Pazzanese, que era Oito de Novembro, quando você saia da Rua Conselheiro Rodrigues Alves, que fazia a volta para o Biológico, entrava ali na Rua Oito de Novembro, a gente vinha até a Rua Santo Amaro, Avenida Santo Amaro, embaixo de uma floresta. Era uma floresta ali. Hoje ainda, quando eu passei ali em frente a assembléia vi um restante dos eucaliptos daquele tempo, era só eucalipto. É porque aquela região era um pântano, não é? E era um pantanal ali. E eles plantaram eucalipto pra secar, pra tirar, absorver. Tanto que eu me lembro bem que quando nós estávamos no colégio estudando, era noite, um dos meus colegas era o desenhista do Aeroporto de Congonhas, e eu me lembro de ter dito a ele: “Mas como vocês vão fazer um aeroporto lá se até onze horas, meio dia fica neblina no bairro?”, entende? Era assim, todo dia até às onze, meio dia era neblina, como é que o avião vai descer? Olha, eu vejo agora, agora não tem neblina de jeito nenhum, também onde era pântano é só prédio. Ali toda, ali na região, por exemplo, na minha casa tinha um vizinho português que ali onde é o Hospital Dante Pazzanese era chácara, plantava verdura, toda aquela região ali.

 

P/1 – E nessas chácaras eles plantavam, é isso?

 

R – Eles plantavam, plantavam, vendiam verduras, plantavam verduras, toda aquela região ali.

 

P/1 – E já tinha o Biológico?

 

R – O Biológico já, o Biológico é prédio antigo já. O Biológico é do mesmo tempo do prédio do Butantã, tanto que a aparência é a mesma.

 

P/1 – E o que se fazia lá?

 

R – No Biológico?

 

P/1 – A mesma coisa que se faz hoje? Já era um instituto?

 

R – É, já era pesquisa, de pesquisa. Tanto que do lado da minha casa, no fundo da minha casa até recentemente, há uns oito anos havia... Eles tinham criação de porco pra fazer experiência, ovelha, gado, tinha aqueles estábulos do gado, plantação de trigo pra fazer experiência, banana... Eu me lembro até hoje que fizeram uma experiência com uma banana que veio da África e eu até peguei uma muda, pus em casa, tinha sabor de mel, você apanhava a banana com sabor de mel. Só que depois na segunda geração já perdeu, perdeu o sabor, eu não sei se era por causa da terra, o que era.

 

P/1 – E tinha um matadouro ali na Vila Mariana também.

 

R – Ah, o matadouro! O matadouro é onde agora é o centro do cinema, não é? Ali no matadouro até 1942 de vez em quando estourava a boiada, aparecia boi lá em cima na Domingos de Morais. Estourava a boiada. Depois foi pra Carapicuíba, não é? Foi nessa época que mudaram o matadouro pra Carapicuíba.

 

P/1 – O senhor se lembra como os bois chegavam ali? O senhor tem isso na memória?

 

R – Não, só sei que de vez em quando a gente encontrava o boi livre, passeando por aquela região. Escapava, escapava. Mas eu tenho impressão que naquela época não eram muitos, porque eu vejo ali onde deveria ser o curral, não daria pra colocar mais de trinta, quarenta bois. Então devia ser, renovar, eu acho que o boi ficava na gôndola, lá na Barra Funda e de lá vinha pra, ali pra, ou vinha, como diz, ______, ou vinha de carro, não é? Mas ali tinha aquele pátio na frente aonde que é a Avenida Amadeu Amaral, não, não é Amadeu Amaral, Raul, ali devia ficar, o gado também devia ficar ali, pra ser depois levado para o matadouro, ali tinha isso. O interessante é que naquela época o prefeito Prestes Maia tinha feito a ideia do metrô pra Santo Amaro, então havia toda uma estrutura para o metrô funcionar, que depois acabaram, quando construíram a Avenida Ibirapuera acabaram com tudo. Tanto que os bondes naquela época eram mais elevados do que as ruas laterais.

 

P/1 – Como era isso?

 

R – Era o seguinte, o bonde ia pelo centro, passava, ia... As ruas passavam por baixo dos trilhos do bonde. E eles acabaram com isso depois. Deixaram, quando veio, por exemplo, na inauguração do Parque Ibirapuera, ainda a gente descia de bonde ali na Avenida pra ir até o parque, pra entrar ali para o Parque Ibirapuera, ali onde que é agora o museu... Tem um museu ali, não é? Tem um museu ali perto, logo de fronte, quase de fronte ao Detran [Departamento Estadual de Trânsito].

 

P/1 – Que é o prédio da Bienal? É o prédio da Bienal, não é?

 

R – É Bienal, isso mesmo, prédio da Bienal, entrava por ali.

 

P/1 – E o senhor se lembra quando inaugurou isso?

 

R – Eu tenho recordação porque andava por lá, passeava por tudo aquilo. Eu me lembro, na Bienal tinha uma exposição de Química e a gente foi visitar os produtos químicos todos. Depois tinha aquela outra parte coberta, foi naquela época. Ali foi interessante, pena que acabaram com a floresta que havia ali que era o que eu achava mais interessante.

 

P/1 – Entendi. Como é que o senhor decidiu estudar Química?

 

R – Eu acho que me trazia do gosto do meu pai e porque eu achava que era a matéria mais difícil.

 

P/1 – Era difícil?

 

R – Bom, todo mundo fugia, então estudava porque achava que vencia, foi por isso. E o meu pai tinha muitos livros e a gente sem querer seguia as experiências que ele fazia. Naquela época, eu me lembro bem, na época da guerra, faltando combustível, ele já fazia uns trabalhos sobre combustível e usava nos carros a óleo diesel e um dia desses eu li no jornal que eles estavam fazendo aquilo. Eu falei: “Poxa, mas o meu pai já fazia isso em 1939, 1940”. Óleo de dendê, óleo de mamona, servindo como combustível líquido que era produção. Mas depois o nosso problema aqui no Brasil é o interesse comercial. Porque era muito, se faça a ideia, se plantasse o óleo dendê e a mamona para produzir óleo combustível, não é isso? Não importar e muita coisa assim, então pararam com isto. Mas naquela época já se fazia isso e não é só ele, tenho impressão que mais gente fazia isso, porque não havia combustível. E aqueles madeireiros, aqueles que iam buscar produto na roça, os cereais, tudo mais, tinham que buscar. E naquele tempo não era carretão, não dava pra carregar tudo isso não; primeiro que a viagem era de sete, oito horas e, apesar das estradas serem praticamente muito brutas, o caminhão ia até lá buscar. Então tinha que usar a óleo cru diesel. Naquele tempo meu pai fazia essa mistura e os caminhões andavam, o que eu achava interessante é que os caminhões andavam, e é economia; era feito com óleo de dendê, óleo de mamona, que agora eles estão fazendo, faz como se fosse uma novidade, já conhecia naquela época.

 

P/1 – E o senhor resolveu fazer Química, animado por isso. Como é que...

 

R – É mais o gosto de ver o trabalho, as transformações dentro de casa. Ele fazia uma série de produtos, ele produzia e vendia, adesivos e tudo mais.

 

P/1 – E como é que foi o seu curso, onde foi?

 

R – Foi um curso normal, foi um curso normal. Me lembro, o meu professor de físico-química tinha sido... Isso eu fui estudar no Paraná, lá na Universidade Federal do Paraná.

 

P/1 – Ah, o senhor resolveu ir estudar lá?

 

R – É, foi lá, foi lá.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque aí nessa época eu tinha mudado para o Norte do Paraná, a minha família tinha mudado para o Norte do Paraná. Lá ainda era sertão naquele tempo. Estrada se chovia três dias você ficava isolado do mundo, não havia estrada, não havia nada. Então eu me lembro que os padeiros, quando chovia a cidade ficava sem pão, porque não tinha trigo, não tinha nada, eles não faziam estoque muito grande, e as estradas eram desse feitio.

 

P/1 – E como era o curso?

 

R – O curso era um curso normal, não é? Depois que fez o curso de Química aí fez o curso de licenciatura, quer dizer, Pedagogia se fosse o caso. Estudar aquelas disciplinas pra poder lecionar.

 

P/1 – E tinha algum professor nesse curso que o senhor gostava?

 

R – Eu tinha um professor que marcou, pra mim marcou porque ele tinha sido assistente do Planck e quando ele dava aula tinha hora que você tinha impressão que ele estava na trans-altura, no trans-espaço, viu? Falando...

 

P/1 – Por quê?

 

R – Quando ele chegava parece que ele se iluminava pra dar aula, viu? Fazia, professor de físico-química. Era um professor de físico-química e fazia parte da filarmônica de Curitiba, era um pianista exemplar.

 

P/1 – Como ele chamava?

 

R – É, se não me engano, Pack. Pack era o nome dele, não me lembro mais, mas era Pack.

 

P/1 – E no curso como é que o senhor resolveu ser professor?

 

R – Porque aí quando fiz licenciatura... E naquela época, agora é um choque, o professor no Estado tinha o mesmo salário do promotor e do juiz de Direito. Tanto que quando eu, o primeiro ano que eu lecionei, as reuniões nossas, as tertúlias febris fazia na casa do promotor lá em Dois Córregos.

 

P/1 – Como era uma tertúlia febril?

 

R – Febril era conversar sobre todos os assuntos. Eu chamo isso de tertúlias febris, porque a gente conversava sobre todos os assuntos. O promotor de lá era o Chopin Tavares de Lima, que era irmão daquele padre, não é, de Tambaú. O irmão dele também foi professor de português. Mas naquele tempo ser professor, quando chegava numa cidade atrapalhava com a vida dos outros, porque ele tinha um salário muito bom; não era só o professor do curso secundário, professor primário também. Tanto que é comum, se dizia, quando alguém casava com uma professora, dizia que ele era chupim, porque o salário dela era muito bom. Para ter ideia, se o professor secundário tinha o salário do promotor, do juiz de Direito, faça ideia o salário da professora primária. Mas a formação da professora primária naquele tempo também era outra.

 

P/1 – Como era?

 

R – Ah, sem sombra de dúvida era superior a agora. O curso era, todas elas se salientava, elas tinham, tinham cabedal. E as escolas daquela época, por exemplo, aqui no Vale do Paraíba tinha escola famosa, não é? As professoras dali eram espetaculares. Também Botucatu, Itapetininga. Então dava uma geração de professoras, a geração. E o que é importante naquela época e ninguém lembra é que havia uma transição, não, vamos dizer, um transporte. Os professores famosos iam para as diversas cidades, um ia pra Casa Branca fazer, dar aula, dava aquelas aulas, aquela conversação, transmitia. Então os professores conhecidos, antigos, todos eles faziam isto. Então Casa Branca, Itapetininga, Botucatu, Guaratinguetá, eles faziam rodízios. Você fazia essa troca de ideia e levava esse pensamento aos alunos e professores. Eu me lembro, por exemplo, lá no Piracicabano, o Sud Mennucci ia dar aula. Chegava, reunia os alunos no anfiteatro e ele dava aula e a gente lembra das aulas dele, não é? Qual era o outro? Um outro professor de História famoso também aqui em São Paulo, autor de diversos livros escolares, também ia, fazia aquele rodízio. E aquilo era importante, que agora não se faz mais isto, não é? Porque quando uma pessoa estranha chega à escola e faz isto os alunos apreendem, eles não aprendem, eles apreendem, entende? E guarda aquilo, porque eles não estão acostumados a ver isto. Tanto quando eu era diretor, no Roosevelt era mais fácil, no Roosevelt nós tivemos um trabalho muito melhor porque havia um anfiteatro com 1,4 mil pessoas. Então lá nós criamos o clube do cinema. Adivinha quem que inaugurou o clube do cinema?

 

P/1 – Quem inaugurou?

 

R – Toda equipe do filme Floradas na Serra. Eles estiveram lá, todos eles e as diretoras. Então nós tínhamos o clube do cinema. E daqueles que faziam parte do clube do cinema, algum daqueles alunos, um deles eu sei que está escrevendo novela em Portugal, o outro trabalhava na Rádio Cultura, quer dizer, trazia aquilo dentro, formação deles. Nós tivemos fazendo uma entrevista, o diretor de cinema americano no palco fazendo cinema, porque ia passar um filme, foi numa outra ocasião, e a máquina de projeção dezesseis pifou. Ah, não deu outra, ele subiu ao palco, começou a explicar, contar e levou, enquanto nós achamos, fomos procurar no Ipiranga alguém que tinha uma máquina pra continuar a projeção. Clube do cinema lá nós fizemos. Lá também conseguimos fazer o Interact que depois acabou. Interact era um tipo de um rotary, os filhos dos rotarianos nas escolas faziam trabalho que o rotary faz no ambiente. Então eles tratavam da escola como se fosse coisa própria; a escola tinha uma outra movimentação. Era o Interact Club, foi o número um aqui de São Paulo que nós tivemos lá, tem uma satisfação de ter essa criação. E a gente tentou às vezes fazer isso, mas tem dificuldade, parece que tudo tem época certa, momento certo e o trabalho do momento.

 

P/1 – Seu Helio, eu queria voltar um pouquinho na sua vida de professor, como é que o senhor começou a lecionar?

 

R – Foi aquela, entra na escola e começa a dar aula com todo aquele entusiasmo e com todo aquele receio, não é? Porque é o primeiro a enfrentar. Mas naquela época havia poucos alunos, quer dizer, eu me lembro que eu tinha uma classe com treze alunos, outra classe com dez. Então havia uma outra participação, um outro momento dentro da escola. O que não é agora; agora o professor enfrenta a escola com quarenta, 45 alunos.

 

P/1 – Essa que o senhor começou era qual escola?

 

R – Na José Alves de Mira em Dois Córregos.

 

P/1 – E aí o senhor foi morar nessa cidade?

 

R – Aí eu fiquei um ano morando lá.

 

P/1 – E depois?

 

R – Depois de lá eu fui para Assis, que era perto da minha cidade. Mas naquele tempo, como você viu agora pouco, eu gostava, queria conhecer mais. Então de Dois Córregos eu fui para Assis. Fiquei um ano, aí lá morava na cidade, mas eu podia ir, era meia hora, uma hora de Paraguaçu. Eu ia pra casa visitar meus pais, Paraguaçu. Porque a escola já, ali já tinha criado mais escola, teve mais tempo. Mas havia muito pouca escola no Estado naquele tempo, era difícil. Eu já ______ a você que o Jânio Quadros pra poder criar as escolas aqui em São Paulo, aumentar, ele teve que usar o subterfúgio de criar extensões das escolas que já havia. Então foi aí que começou a funcionar extensão de escola, tinha escola que tinha seis extensões. O Brasilio Machado, por exemplo, teve tanta extensão que ele teve sete mil alunos numa época.

 

P/1 – Como é que o senhor chegou ao Brasilio Machado?

 

R – Depois de catorze, quinze anos de lecionar que eu cheguei ao Brasilio Machado, cheguei em 1968. Antes de chegar lá eu fui professor em Assis, professor em Mogi das Cruzes, de ______, porque o pessoal lá vinha tudo da colônia japonesa e era um outro tipo de trabalho.

 

P/1 – Como era trabalhar com a colônia japonesa?

 

R – Ah, eles eram aplicados. Fazia-se exposição de Ciências você ficava abismado de ver o que eles criavam, o que eles traziam, porque vinha essa experiência primeiro do convívio da família e outro da experiência que eles traziam da cidade deles. Era uma beleza em Mogi das Cruzes. Depois de Mogi das Cruzes é que eu vim para São Paulo, que aí morava perto, morava aqui na Vila Mariana. E aí então foi que, era bairro né, era de bairro a bairro.

 

P/1 – Como era o Brasilio Machado nessa época, em 1968?

 

R – Em 1968 o Brasilio Machado era uma escola assim, vinha da época ainda da revolução e como lá também no Roosevelt, não é? Roosevelt em 1964 pegou a revolução toda. Tem algumas passagens interessantes a respeito disso, da revolução...

 

P/1 – O que aconteceu?

 

R – Porque todo jovem é entusiasta, então aquela participação que eles tinham, contra aquele governo autoritário. E com facilidade o que acontecia? Eles se arraigavam, eles faziam campanha. E havia todo um trabalho feito, o próprio exército havia, tinha aluno matriculado nas escolas pra ver qual a atitude de professores e dos alunos. E eu me lembro bem que lá no Ipiranga, uma vez eu fui chamado ao DOPS [Departamento de Ordem Política e Social] pra saber a respeito de um aluno. Eu falei: “Isso não é nada, isso é entusiasmo da juventude”. E ficou por isso mesmo. Então tinha essa parte, ficou por isso mesmo, o rapaz não teve nada. Mas eles fiscalizavam, porque eu soube posteriormente que até a ficha minha eles tinham, de saber como é que era. Por quê? Porque trabalhava e dava aula pra gente deles infiltrada dentro da escola, fiscalizando. Então eles, atitude de professor sabiam, qual que era o professor, qual era atitude que o professor tinha, tomava, como que agia. Eu, graças à Deus, tudo que eu sei é que eles falaram que eu era, como que diz, eu tomava minhas atitudes, mas era honesto nas atitudes. Quer dizer, é aquela história, não criticava, mas criticava naquilo que devia criticar, não pra destruir. Então acho que aquilo ficou marcado. Eu soube que lá havia isso aí, posteriormente eu soube da história, mas eu sempre trabalhei livremente, nunca interferiram. Deixaram trabalhar, falar o que eu tinha que falar, que sempre gostei de falar o que tinha que contar, pra não fazer mal para o fígado. Engolir. E graças à Deus eu consegui. Aqui no Brasilio Machado já pegou uma época terrível. Nós tínhamos matriculado na escola aqueles que eram considerados até como terroristas, porque devia ter um, ali na Vila Mariana, devia ter algum núcleo. Tanto que tempos atrás descobri que havia uma casa ali na Domingos de Morais que adivinha quem se reunia lá?

 

P/1 – Quem se reunia lá?

 

R – Zé Dirceu, Genuíno, ______, eles reuniam ali. E o rapaz, o dono da casa, tinha um mimeógrafo e ele foi preso adivinha por quê? Adivinha por quê? Porque fazia o manifesto, saia da casa dele. Então diz que ele era inocente. Inocente se era na casa dele, ele não sabia quem recebia, não é? É aquela coisa toda, faz parte toda da vida deles.

 

P/1 – E no cotidiano da escola como é que apareciam esses anos mais duros?

 

R – Eles seguravam tudo, mas tinha hora que eles tinham necessidade de procurar mais, não é? Eu me lembro que tinha um que suicidou-se até, ou “suicidaram-no”, não é? O Masafum, que a família é de lá e ele quis contar, conversar comigo, como uma ideia e eu tenho impressão que eu cortei na hora o assunto porque eu vi e ele era meu aluno. Não só ele, muitos outros foram meus alunos e ficou por isso. Mas eu tenho a impressão que eles queriam arregimentar mais gente, fazer mais coisa.

 

P/1 – E eles queriam a sua ajuda o senhor acha?

 

R – Devia ser, mas era do feitio criticar, mas criticar pra construir, não pra destruir, não é? Então fizemos, sempre foi assim. Então havia esse trabalho de fazer, porque quem que vai dizer, você vai apoiar tudo que é? Não, você tem que criticar. Tem que brigar. Eu digo assim: “Tem que discutir”. E tem gente que não gosta disso, não é? Você fica ferido se você discute, se é contrário, aí não tem. O importante é discussão, cada um tem a sua ideia e temos que aproveitar o de bom.

 

P/1 – E durante o regime militar, mudou alguma coisa no cotidiano da escola?

 

R – Mudou sim.

 

(PAUSA)

 

R – Depois de uma certa época, porque houve uma grita geral pra deixar a escola mais acessível. Porque faça ideia que o aluno para ingressar na escola do Estado tinha que ter cabedal, ele tinha que ter formação. Tanto que as escolas do Estado, o Colégio Roosevelt, por exemplo, e outros, quem entrava nas escolas porque tinha mais condição era justamente os filhos do governador, filho do deputado, que iam pra essa escola estadual. Então houve uma grita geral na época da revolução para que a escola ficasse mais ao alcance do povo. E então terminaram e aí começaram a facilitar. E foi, aqui entre nós eu digo, a escola deve ser para todos, mas eu tenho impressão para aqueles que têm condições de estudar, que tem vontade, porque a nossa mente é livre e não pode ficar presa à situação financeira se a pessoa não tem condição. Então fecharam e abriram a escola pra todos, foi aí que começou a decadência do ensino. Começou que o professor não podia ficar, devia ter aquela cadeira que ele tinha, aquela mesa que ele tinha mais alta, tinha que ser da altura do aluno. E pra se o aluno ficar mais à vontade e resultado, e daí foi porque começou a perder aquele respeito, aquela natural diferença que tem entre o professor e o aluno. O professor pode ser amigo dos alunos, deve ser amigo dos alunos, mas tem que guardar uma certa distância porque dentro da sala de aula, na escola, ele é um farol. Então o farol tem que ficar no alto, não pode ficar na altura dos outros. E foi aí que o nosso ensino, infelizmente, começou a decadência. E próprio, e começou a facilitar também um exame, por exemplo, pra ingresso no magistério, levava seis, oito meses pra o professor chegar a pegar a cátedra dele, naquele tempo era catedrático. Levava seis, oito meses, representava despesa para o governo. Aí começaram a reclamar que os professores que não passavam no concurso eles continuavam dando aula. E por que fazer isso? Então aí cortaram esses exames que eram feitos, no meu caso eram quatro exames e nas outras matérias três, e o professor pra passar tinha que fazer o exame, tinha que dar uma aula prática. E tinha que ser naquela tabela, quer dizer, ele tinha cinquenta minutos pra dar a aula, para ter a nota máxima ele tinha que, não podia parar quarenta antes, não podia parar nos quarenta e nem ir além dos cinquenta, era assim. Então era uma seleção.

 

P/1 – O senhor passou por um exame como esse?

 

R – Passei por quatro, quatro exames. No meu caso eu tive que fazer prova de conhecimento geral, prova de arguição, prova prática e a prova de didática que era dar aula para os alunos. E todos os outros professores faziam isso, não é? Então vinha aquela, aí foram diminuindo, em resumo, os alunos, facilitaram a entrada dos alunos sem condição, acabou com o vestibular, vestibulinho. Foi caindo o vestibulinho. Também seria o caso, se não tivesse, se não houvesse, como diz, se ficasse vaga a escola teria razão, mas não era o caso, não é? Porque dava lugar para todos, mas aí o aluno não se preparava. Então nós temos essa condição do ensino atual, que o aluno não tem, ele não sabe ler, não sabe escrever e não sabe falar, dá dó de ver um aluno falando agora.

 

P/1 – O que o senhor mais gostava de dar aula, qual era a sensação de dar aula e ser ouvido?

 

R – Eu não sei se eu trouxe aquele professor meu que ia lá pra ______, tinha hora que parece que a gente saia do ambiente pra conversar com os alunos e percebia o interesse deles. A aula não era simplesmente aquela aula daquele momento, daquela lei científica. Tinha aquele que trazia para a lei, quer dizer, pra explicar aquilo como que o homem chegou até aquele ponto. E aquilo interessa, interessava aos alunos naquela época, tanto que tinha uma bibliografia toda quando ia ilustrar a aula, toda mais e fazia todo esse trabalho, todo assim. E também dedicava, valia a dedicação toda, porque a gente era naquela época bem remunerado, não é isto? Agora você faça ideia, um professor atual que se ele tem interesse, nem dá tempo, primeiro que ele precisa se desdobrar tanto que ele não tem nem tempo de ler o jornal do dia pra ter alguma novidade, saber alguma coisa, não tem. Então assim, é aquela conversação. E aí chegamos ao cúmulo, que quando faz aquelas reuniões pedagógicas ao invés da direção da escola tratar com os professores dos direitos e deveres deles, começa um tipo de pedagogia que eu chamo de um pezinho pra lá, um pezinho pra cá, que não leva a nada. Então esse é o problema nosso de ensino atual, é esse.

 

P/1 – Como é que o senhor chegou à diretoria do Brasilio Machado?

 

R – Uma vez porque eu trabalhei no Roosevelt e qualquer circunstância, não me lembro qual foi, eles pediram pra que eu ficasse na direção. E, como eu ingressei, eu fui pra Guaratinguetá, mas fiquei três semanas, foram me buscar em Guaratinguetá; o Sólon Borges dos Reis pediu pra que viesse lá pra administrar aquela extensão do Roosevelt e foi aonde que eu comecei como diretor, foi por essa razão, porque foram me buscar por causa da atividade que teve lá.

 

P/1 – Como era a atividade de diretor?

 

R – Bom, no meu caso, a primeira coisa é dar o exemplo, não é? Dava o exemplo, participava de tudo. Ah, você faça ideia, se a gente conseguiu naquela época criar o Interact, criar um clube de cinema, era um trabalho que o aluno gostava e que participava, então a participação do aluno sempre levamos isto, levei sempre isso comigo. E sempre trabalhando pela escola, sempre fazendo alguma coisa pela escola.

 

P/1 – A escola teve um teatro, não é isso? Não foi criado um teatro no Brasilio Machado?

 

R – O Brasilio Machado tem, mas é de muito tempo esse teatro. Por exemplo, numa primeira fase que eu estive no teatro, aí além de ser professor às vezes passava esporadicamente pra direção, eu comecei, fiquei durante dezessete anos na APM [Associação de Pais e Mestres]. Como meus filhos estudaram comigo lá, eram ______. Então ou era diretor executivo ou era tesoureiro, trabalhando. Numa época puseram fogo no teatro do Brasilio Machado, puseram fogo pra roubar não sei o que, acho que era, nós tínhamos máquina de cinema pra passar filme para eles e para roubar alguma coisa lá eles puseram fogo. Nós da APM reconstruímos o colégio naquela época, o teatro naquela época, o colégio foi reconstruído. E trabalhava, tanto que o mesmo orientador que está agora lá com o teatro do Brasilio Machado já naquela época começou a trabalhar com os alunos. Então havia professores que representavam, faziam aquele trabalho. Como a escola naquele tempo não tinha verba, eram os alunos com o teatro que arranjavam verba pra comprar alguma coisa pra escola. Esse trabalho era feito pra comprar gravador, pra comprar aquela peça toda; naquele tempo não tinha ainda televisão, mas eles trabalhavam, os alunos trabalhavam pra ter aquilo que era deles. Havia um outro sentido de escola, o aluno sentia que a escola era dele porque ele participou pra alguma coisa. E havia também aquele outro caso, que aí é um problema de... Eu não sei se é de injustiça social, que eram os alunos do curso noturno.

 

P/1 – Como era?

 

R – Os alunos do curso noturno, eu usava o termo que o colégio era a estação do metrô, vê se vocês entendem o por que; porque ele trabalhava na cidade e saia da cidade, pegava o horário da aula, primeira aula do colégio, estudava no colégio e estava ali. E um problema sério é que ele morava onde? Que condição que ele tinha? Chegava ali ele encontrava aquela escola com cadeiras, tudo mais, e na casa dele ele não tinha cadeira. Então vinha a revolta, no curso noturno aparecia quebra de cadeira; por exemplo, no Brasilio Machado nós conseguimos uma vez colocar em cada banheiro um aquecedor, chuveiro elétrico, advinha o que aconteceu?

Desapareceram. Quem carregou? Ninguém viu. Quer dizer, não podia ser de... Era benefício deles. Então acontecia isso, esse vandalismo, mas agora é pior, porque agora eles não cooperam para trabalhar, para construir, e só fazem, acham que é obrigação. Não sei o que é, da onde que saiu isso, se é falta de orientação, mas eu tenho a satisfação, de vez em quando eu passo por alguma sala de aula e o professor conversa com os alunos e percebe que os alunos gostam disso. E que há aluno que quer a escola, quer criar a escola, quer fazer, participar da escola, mas há aqueles poucos que dominam. Então uso um princípio: quando os bons se omitem, o que acontece com os maus? Eles prevalecem, não é verdade?

 

P/1 – Seu Helio, o senhor se casou e teve filhos?

 

R – Sim.

 

P/1 – Conta um pouco dessa sua vida familiar, onde foi, em que bairro...

 

R – Eu casei, voltei depois de quatro anos de noivado, casei com uma moça de Dois Córregos, quando eu comecei a trabalhar, trabalhei lá. Depois vim pra São Paulo, veio junto. E criamos os filhos, graças a Deus, todos eles bem. Como sempre, como existe agora, o arquiteto desempregado, mas os outros, graças a Deus... A minha filha trabalha no IBAMA [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], está em Porto Velho trabalhando e falando sobre a situação lá. Ela escreveu ainda, que é o problema da falta de conservação ao meio ambiente, o ataque ao meio ambiente e ela diz a satisfação que ela tem, porque ela é da equipe técnica, de ver que as crianças da quinta à oitava série brigam para a conservação do ambiente. Os indiozinhos, porque tem índio lá, também não entendem porque o índio chefe tem avião. Porque a cultura deles é diferente, a cultura do índio é diferente, tudo é deles. De repente tem um que tem um avião, eles não entendem isso, os índios não entendem isso. E tem os outros jovens, parece que é tradição daquela região, o meio ambiente, lutam para a conservação do meio ambiente. Eles, as crianças. Quer dizer, se não fizermos as crianças adotarem esse processo nós vamos ter dúvida, não é?

 

P/1 – E os seus filhos estudaram na escola que o senhor era professor?

 

R – Primeiro fizeram todo o segundo grau nas escolas e foram meus alunos.

 

P/1 – Foram. Como que é ser professor dos próprios filhos?

 

R – Ah, primeiro tem que dar o exemplo, tem que mostrar, tem um caminho a seguir, não é? Caminho da retidão, caminho da honestidade, tudo mais, sem problema nenhum. Eu vejo e eu acho que sou satisfeito com isso, porque eu vejo que eles estão fazendo, aprenderam isso. E eu falei pra eles: “Olha, vocês têm que aprender que quem, primeira coisa é honesto, ela pode falar alto e ninguém tira essa vontade de falar alto, mais alto que os outros”. Então dá exemplo a eles, eu dou exemplo a eles de quanta coisa que eu enfrentei, por ter esse critério pra eles. Então eu vejo que isso pesou e criou, deu a eles essa formação. Todos eles, graças a Deus, não é? Tenho um filho que já é advogado no Tribunal de Contas, outro é da BMF [Bolsa de Mercadorias e Futuros], tem essa minha filha geóloga lá em Porto Velho, tem o filho arquiteto que é desempregado. E tem um outro que trabalha, esse é mais sossegado, esse não quis, fugiu da escola.

 

P/1 – Pensando que o senhor formou tantas pessoas, o que acha que deve ser a função da escola?

 

R – A função da escola é a formação do homem. Formar, mostrar as coisas, ensinar a parte propedêutica que faz falta, entender que há necessidade, porque não é o caso de começar esses administradores nossos, esses políticos, tirar matéria. Por exemplo: “Ah, mas por que que vai aprender latim?”. Eu sempre dizia a eles: “Eu não entendo vocês por que não vai”. Porque a Alemanha, Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, estudam latim. Lá na Rússia o engenheiro tem que saber latim, ele é mais valorizado quando sabe latim. Por quê? Porque o latim exige raciocínio. E na Inglaterra, as palavras, entender que as palavras é inglês... Porque diz que a literatura... Ao mesmo tempo que eu... A literatura inglesa por quê? Porque ela usa muita palavra do latim, fica ali camuflada, mas existe. Por quê isso? Porque tirou do nosso? E nós que somos latinos. Então o aluno perde a noção disso, quer dizer, é a formação que tem que ter. Francês é necessário. Inglês, não fica naquele. Agora diz que uma escola aqui vai aprender, vai ser bilíngue, francês junto com o português, mas se o aluno não sabe o português como que ele vai aprender o francês se não tiver base? Então é uma falta de orientação, é uma pedagogia que eles usam de facilidade, de criar só assunto. Não é isso, a formação propedêutica é importante. Ah, mas que ele vai usar matemática. Qualquer dia eles tiram a matemática, mas aí o aluno não sabe multiplicar dois mais quatro, porque agora só usa maquininha. O aluno não sabe tabuada, quer dizer, se ele bater o dedo errado ele não percebe que não podia dar aquele resultado. E se ele estudou tabuada ele sabe. Se ele estudou aritmética que é mais importante. Não se estuda mais aritmética, que é a formação que ele faz o raciocínio é aritmética, não tem isso. E vão tirando essa parte e fica naquela, vai chegar lá no computador. O computador no meu ponto de vista, posso estar errado, porque como diz a outra, a gente não tem, mas o computador vai obliterar o raciocínio deles.

 

P/1 – Por que você acha?

 

R – Porque ele quer uma resposta ele bate o dedo, não é? Ele quer saber o significado coloca o dedo lá e recebe. Quando eu era estudante eu pegava o dicionário. E o que acontecia pra achar aquela palavra? Eu ia encontrar diversas palavras semelhantes com significado diferente, próxima daquela. Então aprendia só de consultar, agora não. Este que é o nosso problema mais sério, é esse. Então faça ideia, que no próprio Japão que eles são fãs do computador os educadores lá estão achando que aquilo retroage o raciocínio do aluno, do indivíduo. E por que nós aqui? Porque é mania, não é? Então a escola não tem eletricidade, a escola não tem carteira, mas tem o computador, fica enfeitando lá. E quem vai ensinar a usar o computador? Porque também tem essa facilidade de informação que é muito importante, o computador como informação. Agora como formação eu não sei.

 

P/1 – Entendi. Seu Helio, o senhor se aposentou quando?

 

R – Em 1996.

 

P/1 – Ah, é recente então.

 

R – Faz tempo já.

 

P/1 – E o que o senhor faz hoje?

 

R – Ah, hoje eu primeiro fico lá me divertindo com meus filmes, segundo vou à escola. Sempre tem um trabalho lá que é junto, faz com os professores.

 

P/1 – O senhor frequenta a escola?

 

R – Frequento. Ah, quando eu falto eles reclamam: “Como é que o senhor faltou, ficou doente, tudo mais”. Pra não ficar enferrujando em casa.

 

P/1 – E o que o senhor acha que a escola mais ensinou na sua vida?

 

R – Eu tenho impressão que na minha época a escola pra mim foi a minha formação. Foi a formação. Já peguei, no ginásio já peguei aquela formação democrática do ensino americano da Igreja Metodista, não é? Olha, você faça ideia, a Igreja Metodista e eu católico, estudei quatro anos lá, isso aí não alterou nada, entendeu? Porque é aquela história de comparar e de ver a razão e o outro, é aquela formação. Aliás, o problema das igrejas não é isto, quando ela é liberal ela forma o indivíduo de uma maneira, quando não é ela faz a lavagem cerebral, esse que é o perigo.

 

P/1 – E se o senhor pudesse mudar alguma coisa nessa sua história, mudaria o quê? O que o senhor teria feito?

 

R – Não mudava nada, continuava do mesmo jeito. Quer dizer, eu fico contente do jeito que é, não sofro do fígado, não tenho problema nenhum, porque deve ter sido boa a minha vida, é ou não é? Não tenho problema nenhum. Não mudaria nada não.

 

P/1 – E o senhor acha que hoje a escola tem que servir pra quê?

 

R – A escola tem que ser formação, tem que ser formação, mas tem que ter disciplina. Atualmente a gente percebe que as disciplinas nas escolas é não sei o que o Estatuto da Juventude tudo mais, não pode chamar, o professor tem medo de chamar a atenção do aluno. E tem que ser, não é? No meu tempo, eu como professor, não havia problema. Quando eu tinha que chamar a atenção do aluno chamaria a atenção do aluno, tanto que eles tinham receio de que eu ao comentar a situação dele falasse a verdade, porque todo mundo tem medo da verdade, a verdade dói, mas é necessária. Então o aluno vai numa sala de aula, joga papel no professor, xinga o professor e ninguém escuta isto sem problema nenhum. Tem que chamar a atenção. E nós temos problema de ver que os alunos são simplesmente à solta, como o estouro da boiada, fazendo o que quer; arrebenta vidro e faz cenas que machuca a gente que já tem uma formação. “Ah, mas a juventude agora eu não sei o quê”. Mas não é isso. Há um limite que tem que ser seguido, há um limite de moral, não é? O que não acontece isso. Então os problemas atuais quais são? Se você analisar bem quais são os problemas atuais, principalmente da juventude? Esse problema de mãe solteira, problema de doença, de AIDS e tudo mais, doenças todas. Por quê? Quando o governo fez aquela preparação da educação sexual nas escolas ele devia ter feito uma preparação pra dizer que aquilo era pra evitar uma série de problemas, mas deu a ideia a eles que era liberado. Então nós temos todo esse problema. Você vê, ainda no jornal de hoje traz a proporção dos jovens de catorze até 25 anos que estão com AIDS. Por quê? Não é? Como que é possível, como se explica isso? Então é aquela formação que deram, aquela informação que deram foi sem dar formação, pra saber por que estavam aprendendo aquilo.

 

P/1 – Seu Helio, o que o senhor acha de poder contar a sua história num projeto como esse?

 

R – A vida da gente é esta. Simplesmente a satisfação de ver, se alguém puder aproveitar pra tirar alguma experiência, tudo mais, o importante é isso.

 

P/1 – E que coisas que o senhor ainda pretende fazer na sua vida?

 

R – Na vida? Olha, do jeito que eu estou levando a vida está bem, não é? Mas...

 

P/1 – Como é o seu dia?

 

R – O meu cotidiano é aquele, é ver, chamar atenção pra alguma coisa, discutir algum assunto, principalmente estes que são da realidade, do dia-a-dia, e criticar a situação. É isso. E poder discutir, e poder andar e poder fazer o que a gente acha que deve fazer. A religião, problema de religião, eu digo: “Religião é aquela que a gente traz no coração”, se não pode ajudar uma pessoa pelo menos não atrapalha a vida dela, não é? Se não pode ajudar, não atrapalha a vida de ninguém.

 

P/1 – Então queria agradecer muito a sua entrevista, muito obrigada!

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