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História de: Odacyr Petti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2013

Sinopse

Seu Odacyr, filho de uma interessante família de imigrantes italianos, nasce e cresce na região central de São Paulo. Vivendo uma infância regrada e, ao mesmo tempo, cheia de brincadeiras, trabalhou como vendedor de livros na juventude e teve uma criação católica. Conhece a esposa em uma festa de família e imediatamente se apaixona. Tendo formado sua família, passa a integrar associações de pais e mestre onde, até hoje em dia, atua em conjunto da comunidade.


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História completa

P/1 – Bom, Seu Odacyr, para começar, precisava que o senhor falasse seu nome completo, a data e local de nascimento.

 

R – Odacyr Petti, 21 de outubro de 1937 e registrado em trinta de novembro de 1937. Nasci em São Paulo, no Bairro da Aclimação.

 

P/1 – Seu Odacyr, você tem lembranças dos seus avós?

 

R – Tenho, tenho sim. 

 

P/1 – Conta um pouquinho pra gente.

R – Bom, meus avós foram aquelas imigrantes italianos que vieram no fim do século passado. Da parte do meu pai, meu avô é nascido em Campobasso, no distrito de Santa Croce di Magliano, e ele veio pro Brasil naqueles navios que naquela época eram comuns, procurando um emprego e tal. Ele era alfaiate. Vindo pro Brasil, ele se instalou em 1894, mais ou menos, em Rio Claro, cidade do interior de São Paulo. A minha avó Maria, ela também era dos arredores de Nápoles, e ela veio para o Brasil mais ou menos nessa época. Só que a mãe dela, Filomena Fina, primeiro passou nos Estados Unidos, em Nova York e, por razões que não me foram passadas, foram para Buenos Aires na Argentina e lá ficaram durante no máximo nove ou dez meses, pelo que me consta. De lá, eles foram para São Paulo e em São Paulo foi indicado que eles fossem para Rio Claro, que era uma cidade que estava em pleno desenvolvimento. Aliás, era uma das maiores cidades do interior de São Paulo na época, lá era uma estação ferroviária importante. A minha avó foi pra lá, juntamente com a mãe dela Filomena Fina, que era minha bisavó, e lá, depois de um tempo, ela conheceu o meu avô, que era um alfaiate considerável, e acabaram se casando em 1896. Lá eles moraram, meu avô tinha um dom muito interessante. Ele era um alfaiate da roda mais elegante de Rio Claro, então ele foi bem sucedido, e eles tiveram doze filhos, entre eles meu pai. Lá, ficaram em Rio Claro aproximadamente até 1928, quando houve uma ruptura entre o meu avô e a minha avó. Meu avô ele se deu ao jogo, começou a jogar, jogador e tal, e também gostava de ingerir um pouco de álcool. Lamentavelmente minha avó começou a se se sentir mal com isso e se mudou para São Paulo com os filhos.

 

P/1 - Com todos os filhos? Os doze?

 

R - É. Impressionante, né? Mas os filhos já tinham seus trinta anos e tal. O mais novo mesmo, o mais novo, ele. Eu não me recordo bem por que esses dados foram me passados não com muitos detalhes. Mas eu sei que vieram pra São Paulo e aqui começaram a trabalhar meu pai, os meus tios e minha tia que, inclusive, namorava com uma pessoa que ajudou eles a mudarem para São Paulo, que por sinal foi minha madrinha de batismo. Ela chamava-se Filomena, em homenagem a avó dela. Aqui, eles se fixaram no Bom Retiro. Meu pai estudou, fez aquele... Na época era um curso de contabilidade e, na época, pelo o que meu pai me passou, o nome era “guarda livros”. Ele começou a trabalhar na joalheria Casa Castro, uma casa de nome, e assim foi. Os demais que se sobressaíram, principalmente, artisticamente falando, foi o meu tio Nicola Petti, que foi um dos grandes pintores... Eles diriam retratista, mas não é bem retratista, seria da arte tradicional na época. Ele pintava muito bem, vários quadros foram premiados, passou por várias exposições premiadas e tal. Inclusive, em 2004, foi o centenário de aniversário dele, quando houve então uma comemoração muito importante na cidade dele, Rio Claro, que ele retratou muito através de pintura. Escreveu um livro sobre Os Meus Conterrâneos Pitorescos, é um livro muito interessante. Eu até trouxe aqui um folder referente a esse evento de centenário de nascimento dele. É uma família, assim, que foi muito bem, mas lamentavelmente, o jogo e a bebida, como acontece até hoje, acabou por separar esse casal. Mas a família foi muito unida, eles se ajudaram muito. Eram, como eu falei, doze irmãos, e aqui ficaram e formaram suas famílias. Meu pai, Salvador Petti, que ajudou muito a família, veio a conhecer minha mãe, que era filha também de italianos. Meu avô materno, Miguel, era da região de Nápoles também, e minha avó Rosa Ângela, também era da região. É interessante que ela morava um pouco fora, distante um pouco de Nápoles, e ela contava muito interessada, com aquele português italianado, que ela conheceu o Miguel numa festa típica de Nápoles, na festa de São Genaro. O São Genaro tem uma igreja muito importante, quem vai a Nápoles sempre tem que visitar. Eu recentemente fiz uma viagem para aquela região e fui visitar, fui visitar a terra de meu avô, Campobasso e tal. E o fato é que eles se encontraram nesta festa, minha avó era muito nova, tinha catorze anos, meu avô se encantou e foi atrás. Ele tinha uma diferença de sete ou oito anos e, no fim, eles acabaram se casando. O primeiro filho ela teve com quinze anos, né. (risos) Depois disso eles tiveram mais dois filhos, e foi naquela época que as possibilidades de emprego na Itália estavam muito escassas. A convite daquele pessoal que eles conheciam, vieram para o Brasil. O Aldo Fabricio, vocês já devem ter ouvido falar deste grande ator italiano, fez aquele filme Os Imigrantes, que retrata muito bem o que foi aquela época. Eu assisti a este filme e a gente fica emocionado de ver como aquele pessoal saiu de lá muito bonito. Então essa é a história. Eu sei que depois que eles vieram para São Paulo, meu avô começou a vender sapatos, calçados... Ele tinha um cavalo, montava, minha mãe conta muito bem isso, ele colocava os sapatos amarrados em cima do cavalo e ia com o cavalo até os clientes e tal. Ele vendia os sapatos e depois voltava montado. (risos) Este era o trabalho dele, até que ele conseguiu montar um armazém na Rua Muniz de Souza. Imagina! E neste armazém ele tirava o sustento dele, pessoal, da família, e ao mesmo tempo uma renda que permitia a ele ter uma vida mais sossegada. Eles moravam na Rua Conselheiro Furtado, numa casa interessante daquela época. Enfim, sobre a minha família, o que eu posso dizer seria isso. A história da minha mãe, é claro! Minha mãe era uma dos dezoito filhos dos meus avós maternos. Ela fez somente o curso primário e depois aqueles cursos profissionais para aprender a costurar, não sei o quê e tal. Ela não tinha muita instrução, mas era uma mulher muito esperta e conheceu meu pai. Naquela época ele trabalhava numa sapataria. Lá meu pai via ela passar e olhava, aquela coisa normal daquela época. Até que houve a aproximação e assim eles começaram a namorar. Casando, tiveram três filhos: meu irmão mais velho, Odavlas Petti, que foi um ator e diretor teatral de renome, que faleceu em 1997, com 67 anos, prematuramente, infelizmente, devido a um câncer de pulmão. Eu briguei muito com ele para parar de fumar, mas ele não parava, tossia, não sei o quê e tal. Enfim, uma fase. E o outro irmão, Oroaldo Petti, que é advogado. E eu, que estou aqui dando este depoimento, um tanto quanto livre por falar com vocês, mas é... Enfim, era isso que eu poderia dizer inicialmente.

 

P/1 – E, Seu Odacyr, quando seus pais se conheceram, eles foram morar onde? Onde o senhor nasceu?

 

R - Inicialmente, eles foram... Porque eu sou o caçula da família, eles casaram em 1929, e em 1930 nasceu meu irmão mais velho, Odavlas Petti, que eu te falei, e eles moravam ainda na Santa Ifigênia. Hoje tem aquele Viaduto Santa Ifigênia. Hoje, quer dizer, já é um viaduto muito antigo e, embaixo do viaduto, tinha umas casas. Numa dessas casas foi onde eles começaram a vida deles. Lá foi onde nasceu meu irmão mais velho. Posteriormente, eles mudaram para a Aclimação, na Rua Tenente Otávio Gomes, e lá nasceu meu outro irmão, Oroaldo Petti, que é advogado. Posteriormente, após quatro anos deste nascimento, nasci eu, em 1937, neste mesmo endereço.

 

P/1 – E o senhor lembra como era essa casa onde o senhor passou sua infância?



R – Eu, com quatro anos mais ou menos, meu pai comprou uma casa no Ipiranga, na Rua Mário Vicente. Eu não tenho muita lembrança desta casa. Parece que era um sobrado em cima da... Porque eram muito comuns nesta época estes armazéns, e a casa ficava em cima. Então, o que eu posso dizer é que eu não tenho muita lembrança desta casa. Eu tenho mais da Rua Mário Vicente, que lá eu fui aproximadamente com uns quatro anos, e foi mais ou menos na época em que o Brasil entrou no conflito mundial, da Primeira Guerra Mundial. Eu me lembro de que, como garoto, eu tenho várias passagens saindo, acordando logo cedo de manhã pra poder enfrentar a fila do pão, a fila do leite, a fila da carne. Então eram os meus irmãos e eu que ficávamos em fila. Minha mãe, meu pai evidentemente trabalhava, então a gente já saia cedo de casa pra pegar fila, porque naquela época era terrível, tudo era racionado e as pessoas tinham direito a certa cota. Foi uma época interessante, mas muito difícil. A noite tinha aquele blackout, não sei se já ouviu falar, as casas ficavam com as luzes todas apagadas com medo dos aviões dos nazistas bombardearem a cidade. Graças a Deus não houve nenhum problema desses, mas era sempre temeroso. 

 

P/1- O senhor se lembra de algumas brincadeiras que você fazia na infância?

 

R – Sim. Minha infância foi muito gostosa. Tinha uma “barroca” lá perto de casa. A gente chama de “barroca” porque tinha uma descidinha e tinha uma nascente, então era comum a gente buscar aquela água e, ao mesmo tempo, a gente gostava muito de pegar aquela frutinha chamada amora, não sei se você conhece. Era muito gostoso, tinha amora, tinham outros pés de outras frutinhas, então era uma diversão que a gente tinha.  Mas, fora isso, na época a gente tinha diversas atividades. Ou era pião, a gente jogava pião, ou era na época que tinha aquelas bolas de futebol, a gente jogava bafo, a garotada ficava jogando bafo, bolinha de gude. O mais normal era futebol, a gente botava duas do que tivesse, duas pedras ou não sei o quê, de cada lado e ficava jogando futebol na rua. Aliás, neste aspecto minha mãe era muito rígida, ela achava que eu tinha que estudar, que não tinha que ficar jogando futebol. Era curioso porque ela ficava muito brava e dizia: “Agora eu vou falar pro seu pai que você não estudou e tal.” Então eu tinha muito receio, apesar de que meu pai era uma criatura boníssima, mas meu pai, incentivado pela minha mãe... Ela conseguia, então ela dizia que “quando seu pai chegar...” Porque ela não batia, ela só achava ruim. A parte de bater em filho era a parte do meu pai. E meu pai tinha um carinho muito grande por mim por eu ser o caçula e, por ser caçula, não sei... Ele tinha uma... Eu notava isso e meu irmãos também. E minha mãe, ao contrário, tinha uma afeição maior pelo mais velho, o Odavlas, e o Oroaldo se queixava por ser filho do meio: “Ah, eu sou filho do meio, vocês não me dão atenção e tal.” Aquela coisa que é normal nessa fase. Mas eu chegava, dando sequência, eu ia deitar mais cedo, pra evitar de... Mas não tinha por onde, não conseguia dormir porque pensava: “Meu pai vai me bater.” E não dava outra, ele chegava, minha mãe esquentava a cabeça dele e tal, então ele vinha, dava uns tapinhas mais ou menos e dizia: “Você pára de jogar futebol e vê se vai estudar. Você tem que se formar, se não você vai virar um carregador de carrinho de rua.” Naquela época, carregador de carrinho de rua era a pior coisa que tinha, que era o tipo de ferro velho, que as pessoas tinham aqueles caixotes com rolimã, então ficavam passando nas caixas comprando ferro velho, essas coisas. O fato é que não era tão constante, que eu falava: “Mãe, eu faço o que você quiser, é que eu gosto de jogar futebol.” E às vezes ela aceitava um pouco. Se fosse na época de hoje, eu te garanto que eu estaria jogando futebol até hoje. Mas naquela época os jogadores de futebol não tinham uma fama muito boa, não se ganhava muito dinheiro com futebol. Então são peculiaridades, e a gente fazia aquelas brincadeiras de criança, empinava papagaio, todas essas coisas que hoje os jogos eletrônicos aboliram. Hoje as crianças passam o maior tempo possível com joguinhos eletrônicos e tal. Se bem que a violência na rua tá tão grande que as crianças acabam ficando presas, é. 

 

P/1 - E histórias, seu Odacyr, você ouvia muita história? 

 

R – Ah sim, minha mãe contava histórias, ela tinha essa qualidade muito boa. Ela gostava de contar historinhas. Uma que eu guardei bem é a do Joãozinho e da Mariazinha, e eu ficava muito impressionado: “Puxa, mas como é que o João e a Mariazinha andavam pela rua, iam jogando milho...” E aquela história toda que você já conhece. Mas a questão do Joãozinho que ficava preso e que o dedinho dele... Ela dava bastante comida pra ficar gordinho, eu achava uma maldade isso. E minha mãe dizia: “Mas isso é história, você não tem que se preocupar.” Mas aí eles foram libertados, voltaram, então tudo bem, a historinha acabou muito bem. Eu mesmo pedia “Mãe, conta a história do Joãozinho e da Mariazinha.” Ela gostava muito também de fazer joguinho! Então ela pegava a mão assim e dizia: “Uma, duas ampolinhas. O rapaz que jogou faz o jogo do Japão, o Japão para ser Japão manda chamar o seu João, que lhe deu um beliscão.” Então tinha que se morder o dedo e assim ia sendo. A gente jogava isso em quatro ou cinco, então iam os dedos, os dedos iam até que ficava o último. O último que ficava com o dedo tinha que fazer um castigo, mas o castigo era uma coisa tranquila, ou tinha que recitar alguma coisa, era alguma coisinha assim, simples. Ela era dedicada a essas coisas. Era uma fase boa. Eu tive uma infância de que eu não pude me queixar não, viu? Foi uma infância muito boa, até que com sete ou oito anos nós nos mudamos pra Vila Monumento. Nessa época, então, meu pai comprou uma casa na Rua Irmão Justino, que na época era Travessa Engenheiro Lauro Penteado. E ali eu cresci, frequentei o Colégio Rainha dos Apóstolo, que ficava lá próximo de casa, até o quarto ano. Depois eu fui pro colégio do Carmo, que ficava na rua do Carmo, próximo a Praça Clóvis Beviláqua.

 

P/1 – Como era a Vila Monumento nesta época, Seu Odacyr?

 

R – É, a Vila Monumento era um lugar bem tranquilo. Se bem que a minha rua ainda era calçada, mas a maioria das ruas eram de terra. Então, para ir a escola em dias de chuva, eu me recordo bem, minha mãe comprava... Já ouviu falar em galocha? Então, a gente colocava a galocha pra ir pra escola, pra sair, pra qualquer outra coisa, porque realmente era ruim, era de barro, era de terra, tal. A gente tinha uma vizinhança muito interessante, a gente participava das coisas de um lado, de outro e tal. Um fato interessante que eu me lembro foi em 1950, quando foi inaugurada a TV Tupi, a primeira televisão em São Paulo. Na época, meu tio Nicola, como artista, era amigo do Chateaubriand, que era o dono da TV Tupi na época, e ele convidou meu tio pra participar da inauguração. Nisso veio aquele padre cantor, o José Mojica, não sei se vocês tem ideia, era um frade que cantava, e ele veio para essa inauguração. A gente era engraçado, olhava aquela coisa e não acreditava muito, parecia que estava olhando pra trás o que era. Até que meu pai comprou uma televisão depois de um mês ou dois. Era uma caixa, e eu me lembro bem que era uma curiosidade terrível, a gente não sabia: “Mas poxa, como que pode isso, como é que entra.” E os horários eram restritos: das oito horas até às dez. Tinha aquele indiozinho, aquele negócio e tal, e assim foi indo, até que a televisão começou. Eu me lembro, na época, que foram transmitidas algumas óperas do Theatro Municipal. Como a casa do meu pai tinha televisão na época e os vizinhos não tinham, era interessante, porque o pessoal ia tudo pra lá pra assistir. Apesar de não gostarem, porque a maioria, em matéria de ópera, era muito difícil. A gente não tem uma cultura no país para que a pessoa possa gostar da música erudita, principalmente uma ópera, que é uma coisa mais pesada. O fato é que o pessoal se reunia, era muito engraçado. A minha mãe e as outras senhoras iam pra cozinha, preparavam lá o cafezinho, o docinho e tal, e uma ópera é uma coisa de no mínimo duas horas, duas horas e meia, e a gente ficava naquilo. E assim foi aquela época, interessante. Brincava-se muito, principalmente nas festas juninas, no mês de junho a gente corria muito pela rua, jogava “buscapé”, um correndo atrás do outro, era uma coisa muito interessante.

 

P/1 – O senhor falou dessa escola na época da mudança para a Vila Monumento. Que escola era essa, quais suas lembranças dessa escola?

 

R – Naquela época chamava-se Externato Rainha dos Apóstolos. Nos dias de hoje se chama Notre Dame Rainha dos Apóstolos. Eu tenho uma história muito ligada a este colégio, por que eu fiz lá o terceiro ano primário em 1947, e em 1948 meu pai me levou pro Colégio do Carmo. Uma das curiosidades foi que esta classe — estava numa classe mista — tinha uma menina que chama Luci e, depois, em 1954, eu vim a conhecer ela numa festa de aniversário de uma amiga de uma prima minha que me convido. Eu fui e tal, conheci a Luci, nós começamos a namorar e depois casamos. Mas neste período que estudamos juntos, eu sabia que estava lá, mas vim a saber depois!

 

P/1 – Você lembra de alguma professora que te marcou, alguma passagem que ficou?

 

R – No Externato Rainha dos Apóstolos, foi a irmã Alessandra. Naquele tempo a professora ficava em tempo integral, não era como hoje, que tem as matérias, naquele tempo o terceiro ano primário tinha uma sequência de matérias, mas eram aritmética, português e tinha aquela questão do comportamento e aplicação. Tinham essas notas básicas e outras que não me lembro bem. Educação moral e cívica, que é uma coisa que faz uma falta hoje! Lembro-me que a gente chegava, hasteava a bandeira nacional, cantava o Hino Nacional... Aula de religião a gente tinha também, que pode não ser muito interessante, mas podia dar certo freio pra determinadas coisas que a gente vê muito liberalizadas. Falta muito a religião hoje. Em função disso, os meios de comunicação, eles estão... Enfim, é uma filosofia própria de quem viveu em anos muito diferentes dessas...

 

P/1 – Seus pais eram religiosos?

 

R – Meus pais participavam da igreja, das missas... Meus pais eram católicos praticantes, sim. 

 

P/1 – O Senhor falou dessa festa da amiga da sua prima. Como foi essa época de começar a ir às festas, aos bailes, de sair sozinho?

 

R – Na época tinha dezesseis, dezessete anos, eram comuns nessa época os bailes de formatura. A gente saía com os amigos, tinha uma série de amigos, e íamos à porta do Holmes, do Paulistano, desses clubes que a gente ficava, ali na porta, principalmente com um amigo meu, Adolfo. A gente arrumava smoking, ia tudo direitinho, bonitinho. Quando vinha uma mãe com uma mocinha que estava sozinha e tinha o convite, a gente pedia pra ver se dava pra entrar junto, que a gente tinha esquecido o convite em casa, e entrava tudo normal e sem problemas, porque se fosse entrar, era proibido, tinha que ter convite. A gente ia nesses bailes e tal. Com isso, o relacionamento que eu tinha mais com uma prima minha, que morava perto da minha casa, me convidou pra esse aniversário, que era esse aniversário com bailinho, com bolo, essa coisa toda, mas muito mais simples do que hoje. Hoje um aniversário é aquela coisa sofisticada, naquela época era simplório. Então eu fui pra lá sozinho porque eu fui convidado só, participei, e foi quando eu dancei com a minha atual esposa. Foi uma cena assim, normal. Eu depois marquei o encontro com ela e tal: “Olha, a gente pode se ver?” Tudo bem e tal. Esse encontro foi realizado na igreja, que a gente frequentava a missa no mesmo horário, às dez, só que eu nunca a vi na igreja, porque… Mas isso foi num sábado, e no domingo seria a missa. Eu não sei o que aconteceu, eu dormi e não apareci na missa. (risos) Mas no próximo eu fui, pedi desculpas: “Ah, tudo bem!” E fomos andando até a casa dela, e aí eu perguntei se ela era comprometida, olha que bonito. Ela falou “não”, e eu disse: “Poxa, você gostaria de se comprometer comigo?” E ela falou “sim”, e eu disse: “Poxa, eu sou o homem mais feliz do mundo.” Até hoje eu brinco com ela. Foi uma época interessante, de muita pureza. Eu sei que, neste namoro, demoramos cerca de dois meses pra andar de mãos juntas, era muito difícil, uma coisa assim, bem... Enfim, foi uma época interessante. 

 

P/1 – Seu Odacyr, qual foi seu primeiro trabalho? Com quantos anos o senhor começou a trabalhar?

 

R – O meu problema em relação ao meu pai: meu pai não queria que eu trabalhasse. Ele achava que eu tinha que me formar e ser alguma coisa, médico, engenheiro, advogado, alguma coisa. Mas eu entendia que eu precisava trabalhar. Foi nessa época, aos dezesseis anos e pouco, que eu me aventurei numa editora, chama-se Editora das Américas. Eu fui lá e o gerente de vendas foi uma pessoa muito simpática, viu em mim alguma coisa e disse: “Olha aqui esse material, se você quiser, você pode.” E eu achei interessante e comecei a trabalhar com as vendas. Tinham livros como A História Universal, de um autor muito conhecido na época, nós tínhamos também as obras do Padre Vieira. Estas obras eram muito conhecidas, principalmente pelos advogados, que gostavam e tal. Então eu comecei a entrar nos consultórios de advocacia, e lá procurava mostrar essa obra. Alguns me recebiam bem, outros não tanto, porque nesta época, também, vender livros não era uma coisa muito comum. Hoje é muito comum e tal. E eu me lembro bem que eu até inovei uma coisa, eu fiz um cartãozinho onde eu colocava meu nome, colocava meu endereço e colocava “comunicador de cultura”. (risos) Foi muito engraçado por que o gerente lá falou assim: “Poxa, como que você vai?” “Ué, se eu estou vendendo obras culturais.” “Ah, é um comunicador de cultura.” Foi muito engraçado, recebi muitas gozações e elogios. Quando eu chegava num advogado e colocava “comunicador de cultura”, o camarada pensava: “Ah, vamos ver né.” E assim eu vendi muitos livros. Nossa... Foi muito bem, foi uma época boa, mas meu pai não queria isso, e quando ele soube ele ficou: “Mas o que você tá fazendo?” E como castigo ele me comprou umas três obras, olha só, que bonito. Depois ele conversou com meus tios e não sei o quê, e eu acabei vendendo pra família inteira. E foi assim que eu comecei na minha vida. Depois eu me formei. Nessa época, inclusive, antes um pouco, com catorze anos eu fiz atletismo, eu era atleta do clube atlético paulistano, esse clube aqui na Rua Columbia, continuação da Rua Augusta, e lá eu tive pelo menos uns dois anos, de catorze a dezesseis anos, algumas competições importantes, como a infantil, juvenil. Mas eu tive que parar com dezesseis anos porque eu entrei no colegial e começou a ficar mais difícil, já não tinha tanto tempo, então tive que dar uma parada, mas eu jogava um futebol, um vôlei, um basquete... Naquela época, no colégio Roosevelt, onde eu estava, tinha uma quadra pra jogar basquete e vôlei. É uma coisa meio errada, mas tinha e a gente praticava esporte. Até por curiosidade, duas quedas que eu tive, eu abri um pé de um lado, o outro pé do lado. Naquele tempo não tinha lá essas coisas, era tudo na base de benzedeira, a minha mãe me levava na benzedeira para fazer as massagens lá, etc. E até hoje eu tenho o pé um pouco deslocado, mas isso foi uma fase, né? Então, essas coisas que aconteceram na passagem da minha vida até 1956, 1957... Aí, em 1958 eu casei.

 

(TROCA DE FITA)

 

P/1 – O senhor tava falando das suas experiências de coroinha na igreja, conta um pouquinho.

 

R – É interessante... Quando meus pais iam à missa eu ia com eles na Igreja Rainha dos Apóstolos, e lá, um dia, um dos meninos que era coroinha, o Valdir — a gente brincava na rua —, e ele falou pra mim: “Você não gostaria de ser coroinha e tal?” E aquilo me deu certa vontade. Falei: “Ah, mas eu não sei nada.” E ele disse: “Ah, não tem problema, você vai aprender.” Daí ele me levou, me apresentou pro padre e eu passei a ser o coroinha auxiliar. Porque o coroinha tem aquela parte que responde ao padre. Naquela época, né? Hoje é um pouco diferente. Hoje acho que coroinha já não tem mais, é o assistente do padre que tem ali e tal. Então, como coroinha, eu comecei como auxiliar. Eu observava tudo que ele fazia, aquelas palavras, que naquela época a missa era em latim. O padre falava em latim, a gente respondia em latim, então foi minha introdução ao latim. (risos) E dali eu galguei um posto já de coroinha também. Quando eu entrei no Colégio do Carmo, lá era um colégio religioso de irmãs maristas, tinha a Ordem Terceira do Carmo, aos domingos tinha missa e eles me convidaram para ser coroinha também lá. A coisa curiosa era o seguinte: na Igreja dos Apóstolos eu fazia isso normalmente e lá na Igreja do Carmo, o pessoal da Terceira Ordem do Carmo, terminada a missa, eles davam um dinheirinho pra gente, sabe? Aquilo, no início eu recusei, mas falaram: “Não, não, isso é pra você tomar um lanchinho, não precisa se preocupar.” Aquilo foi uma atração pra mim, então quando eu podia tava lá pra ajudar também e tal. Então era essa minha atividade. Continuando, na época, tinha a famosa cruzada. Cruzada tinha que ter por aí uns nove, dez anos, então tinha uma fita amarela e a gente desenvolvia um trabalho lá. Até que chegou aos quinze anos e ali me convidaram pra ser Congregado Mariano, uma coisa que hoje você não ouve falar. Mas eu fui, entrei como Congregado Mariano, então eu tenho uma passagem pela igreja um tanto quanto forte. Então essa foi a passagem de coroinha até congregado.

 

P/1 – Seu Odacyr, uma coisa que ficou lá pra trás mas eu fiquei curiosa: o que você fazia com o dinheiro da venda dos livros?

 

R – Ah... Eu guardava. Eu guardava porque eu queria fazer uma economia que eu entendia que era importante pra mim. No sentido de comprar aquilo que me pudesse ser útil. Eu estudava na época, saí do colegial em 1957, e eu fui fazer o curso de agrimensor. Então eu, nesse ínterim que eu saí do colegial para a entrada na escola de agrimensura, vendia muitos livros e aquela coisa toda. Até que chegou o momento em que a coisa ficou complicada porque eu tinha que me deixar mais aos estudos. Ali, minha pretensão era comprar um carro, mas não deu. Meu pai falou: “Ai, eu te ajudo.” Mas falei: “Pai, deixa. Eu tenho que caminhar por mim, fica assim e tal.” Então foi essa parte a utilização dessa verba. Mas depois ela foi útil, sim, teve o casamento, então eu já tinha um pouquinho de economia. 

 

P/1 – O senhor falou da escolha por este curso de agrimensor. O que motivou essa escolha?

 

R – Bom, eu vou contar muito. Depois que eu completei o curso no Roosevelt e lá eu comecei a ser voluntário, porque eu comecei como diretor de esportes, organizei muitas competições esportivas, chamava o pessoal pra vir, isso tudo de maneira voluntária, não tinha outro interesse. Quando eu saí e fui pra agrimensura... Eu to com um lapso, ai... Voltando um pouco a sua pergunta, desculpe.

 

P/1 – O que motivou sua escolha?

 

R – Quando eu terminei o colegial eu me preparei pra fazer arquitetura, era uma coisa que eu tinha em mente, mas eu me preparei muito pelas matérias, naquela época não tinha um cursinho, não tinha coisa nenhuma, e eu não tinha ideia exatamente. Eu sabia que tinha um exame eliminatório que era desenho artístico. Eu conversei com meu tio que era pintor, ele disse assim: “Não, isso é coisa simples, não precisa se preocupar muito.” E até eu ia pedir pra ele me dar uma noção, mas fiquei meio sem graça, não quis entrar nisso, deveria ter feito. O que aconteceu? O exame era eliminatório. Eu fui lá, ele colocou um vaso com umas flores assim, e tinha que fazer aquela pintura daquilo lá. Um desenho, não pintura com crayon. Adivinha que eu fiz? Eu fiz o que deu né, até se fosse hoje eu seria premiado como arte moderna, naquela época não dava. E realmente eu fiquei naquela coisa. Então, pra não perder o tempo, porque naquele tempo ou você entrava na faculdade, tinha aquilo, era mais ou menos rígido, tudo na mesma época… Eu tentei entrar na arquitetura da USP [Universidade de São Paulo], né. Daí eu vi uma escola técnica de agrimensura e pensei: “Pelo menos eu não vou perder o tempo,vou fazer agrimensura.” E comecei a fazer o primeiro ano e gostei da história. Fiz os três anos e me formei em 1960, meu paraninfo foi o Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil, ele tava saindo em 1960. Pois é, até a fotografia que eu tenho, colocando nele uma faixa da nossa formatura, eu ia trazer, mas não consegui localizar, mas eu me comprometo a tal. Então foi essa a minha escolha. Posteriormente, em 1966, 1967, abriu a primeira escola de agrimensura e engenharia, em Araraquara. Depois que eu tomei conhecimento eu falei: “Bom, eu sou um técnico em agrimensura, eu quero ser engenheiro.” E lá eu fui, fiquei de 1966... Daí a primeira turma seria em 1969, mais ou menos, 1970, por ai. Ai eu me inscrevi pra fazer o curso complementar, que tinha matérias que eu deveria preencher, fiz o curso e me formei como engenheiro agrimensor.

 

P/1 – E foi mais ou menos nessa época que o Senhor se casou com a Luci?

 

R – É. No curso, quando eu fiz o curso técnico de agrimensura, de 1957 até 1960. Em 1958 a gente já tava noivo, eu tinha vinte anos, imagina, e ela dezenove. A gente se amava muito e tal, e aquele desejo de estarmos juntos e tudo... No fim a gente acabou conversando com os pais pra casar. Meu pai falou: “Mas, pô, você?” Porque naquela época a maioridade era 21 anos, então quem tinha que assinar era meu pai, para poder me dar, digamos assim, a maioridade. Bom, aí casamos em maio de 1968, foi assim que aconteceu o casamento, neste intervalo. 

 

P/1 – E como foi o casamento?

 

R – O casamento foi simplório. Casamos lá na Igreja da Consolação, no Largo do início da Consolação. Foi um casamento bonito, choveu. (risos) A festa foi feita na casa do meu sogro. Naquela época não tinha tanto aquela coisa de salão, essas coisas. Foi uma festa simples. Eu ganhei de presente uma casa do meu pai. É bom que se falei antes de tudo, porque foi interessante, eu queria comprar um carro e tal. Ele disse: “Escute, você não ta namorando? Porque você não compra uma casa, não é melhor?” Bom, quando ele falou isso, falei: “Puxa, é mesmo, então vamos comprar a casa.” Quando meu irmão mais velho casou, ele também deu de presente uma casa. Na época era assim, o pai dava um presente pra um filho e achava que tinha que dar pro outro também. Então eu sei que ele me deu essa casa. E os presentes que a gente recebeu de casamento... A gente recebeu uma geladeira, um fogão, aquelas coisas necessárias, um sofá, coisas simples. Eram coisas simples. Não era uma casa... Era uma casa boa, mas não era um... Hoje, pra casar, o sujeito precisa ter microondas, notebook, tudo aquilo que a gente já sabe. Naquela época, não, era o necessário. E essa casa, depois do casamento, nós fomos pra casa, e no dia seguinte meu sogro emprestou o carro dele e fomos pra Campos do Jordão. Passamos uma semana em Campos de Jordão e depois fomos pro Rio de Janeiro. Passamos alguns dias na casa de um amigo do meu sogro que se ofereceu, a gente passeou pelo rio, conhecemos tudo aquilo. Campos de Jordão foi uma beleza também, na época era bem tranquilo, não era como hoje, ficamos num hotel muito gostoso. Enfim, foi essa a coisa o nosso princípio de vida, até que em 1959, em fevereiro, nasceu nossa primeira filha, Mônica.

 

P/1 – E como foi ser pai para o senhor?

 

R – Um pai inexperiente totalmente, um pai com 21 anos, mas uma mãe muito dedicada. Minha esposa sempre foi muito carinhosa com as crianças e tudo, como eu disse, ela não seguiu a carreira, ela se dedicou a casa exclusivamente, tenho uma fotografia com ela, com a Mônica minha primeira filha, muito boa essa foto, vou ver se eu mando pra vocês. E eu vou dizer, foi assim... É uma coisa que você não explica. Porque você tem uma vida aqui com a sua família, ela tem uma vida com a família, de repente você junta, aquela renuncia de uma parte com a outra, que a gente não tinha tanta experiência pra conseguir se comunicar melhor. Mas a gente foi, com o amor que a gente tinha, quebrando barreiras. 

 

PARADA NA ENTREVISTA – AGENDAMENTO PARA OUTRO DIA

 

P/1 –

 

R – Eu acho que eu tinha esses dezesseis, dezessete anos, e aí eu estudava no Colégio Roosevelt. Naquela época eu fazia o científico, né. Nós estávamos organizando um departamento de esportes, então eu fazia parte do grêmio estudantil, e nesse grêmio nós desenvolvemos algumas atividades, dentre elas o esporte. Foi nessa fase que eu experimentei algumas situações como voluntário, que é exatamente aquela decepção, você tentar fazer alguma coisa e as pessoas não compreenderem. Aquelas pessoas que a gente tinha, com esperança de levar adiante, desanimavam, ficavam pelo caminho. Então foi um princípio duro, mas aquilo estava direto em mim, sempre tive essa vocação. Depois, ingressei na Agrimensura e nós tínhamos o Grêmio Rui Barbosa, eu lembro do nome, e lá continuamos como voluntários. Inicialmente, eu fui secretário do grêmio estudantil e depois eu fui presidente. Na formatura eu fiz parte da Comissão de Formatura, juntamente com outros colegas. Nossa missão era arrecadar fundos pra nossa formatura, enfim. Então a gente fazia diversas atividades, inclusive esportivas, eu dei continuidade. Antes da formatura eu casei, praticamente. Eu casei em 1958 e eu estava ingressando na agrimensura. Eu me lembro quando foi a ocasião daquela coisa que os estudantes fazem quando entra um novo, né?

 

P/1 – O trote?

 

R – Isso! O trote por ter ingressado na escola. Eles fazem, cortavam o cabelo, não sei o quê e tal, e eu falei: “Olha, eu vou casar na próxima semana e quero ser poupado.” Então eu consegui. Foi mais ou menos por aí. E aí eu concluí o curso, fiz a... Comecei a minha vida trabalhando com livros, vendia livros, aquela coisa toda, acho que já falei da outra vez e, posteriormente, eu me formei em Agrimensura e desenvolvi um trabalho em 1963. Não, 1960, 1961... Eu me formei em 1960 e em 1961 eu fui pra Iguape, uma cidade do litoral paulista e lá eu desenvolvi aquilo que a minha carreira indicava, que era exatamente a agrimensura. Lá eu projetei, fiz projetos de loteamentos, fiz um projeto e executei uma estrada de rodagem, essa estrada ligada ao Sítio do Mathias, passando pelo Icapara até a Barra do Ribeira, então é uma estradinha bem interessante pra época. 

 

P/1 – Nessa época, em Iguape, a sua família foi contigo?

 

R – Sim, a família foi junto. Tinha duas filhas pequenas, a Monica tinha dois ou três anos, e a Regina tinha um ano, praticamente, um ano e pouco. Minha esposa ficava com elas numa casinha que a gente tinha lá e durante o dia eu ficava praticamente fora, acompanhando o desenvolvimento ou da estrada ou loteamentos, os trabalhos que eu fazia na região. Até 1963, quando eu mudei pra são Paulo. Então eu ingressei no DR, o Departamento de Estrada de Rodagem. Em 1964, 1965, minha filha mais velha, Mônica, ingressou no Colégio Rainha dos Apóstolos, e nesse período, em 1966, juntamente com vários pais que faziam parte do colégio, pais de alunos, nós resolvemos fundar uma associação de pais e mestres. Essa associação foi fundada em 1966 e somente legalizada em 1969. Eu participei dela desde o início como conselheiro e em 1969 eu fui secretário, primeiro secretário, 1969, 1970, e em 1971 até 1975 eu fui presidente da entidade. A gente trabalhou muito, fez muitas coisas importantes pro colégio, desenvolver principalmente o esporte, porque na época tinha educação física mas era muito... Nós desenvolvemos o basquete e o voleibol. E essas meninas chegaram até a ter títulos muito importantes, inclusive como campeãs estaduais do DEF, que era um campeonato importante tanto infantil e juvenil. Então esse era um trabalho que a gente fazia. Nesse mesmo período em 1964, 1965, foi fundado... Aliás, foi fundada, não... A Sociedade Hispano Brasileira, que é uma sociedade que foi fundada em 1898, ela tinha um terreno na região da Vila Monumento e nessa época construiu uma sede social e esportiva. E eu era diretor de esportes. Nós introduzimos a natação, fizemos um espetáculo muito interessante com o pessoal do Tietê, competições pequenas, demonstrativas, e aquela trupe de Aqualoucos, não sei se vocês têm ideia mas era muito engraçado, era o pessoal do Tietê. Eles tiveram, graças ao Senhor João Pedro Rosa, que foi uma pessoa que me ajudou muito na época pra poder fazer essa inauguração, e o professor Tetsuo Otsato, que era o diretor de natação do Tietê nessa época. Daí pra frente, a gente foi desenvolvendo esportes, acompanhando, criando diversas categorias de natação lá dentro da Sociedade Hispano, e participamos de muitas competições. Levava o pessoa, principalmente para competições de águas abertas, Piracicaba, Itanhaém, São Vicente, Caraguatatuba, Ubatuba, etc. Também eu participava em algumas provas, mas assim, pra acompanhar a garotada, eu também em natação não nadava muito bem.

 

P/1 – Águas abertas o senhor quer dizer nos rios das cidades?

 

R – Nos rios das cidades. Em Itanhaém, Piracicaba... Naquela época eram rios limpos, os rios, águas puras, não tinha essa poluição. E em Itanhaém também, nós saiamos de um determinado ponto pra chegar até o clube, tinha um clube lá de regatas, então... Continuando, nós em 1970, eu já estava como presidente da... Já falou até 1975, né? Em 1974 nós fizemos um curso, minha esposa e eu, chamava-se “Encontro de casais com Cristo”, isso começou em 1974, mais ou menos, e nós criamos um círculo de amizades muito grande. E foi daí que, quarenta casais que faziam o encontro, nós resolvemos fazer uma creche: a Creche Vila Monumento. Foi um trabalho voluntário de todos nós que se desenvolveu muito bem. Em 1979 eu assumi a presidência. Em 1991 foi a primeira fase minha. A primeira fase minha foi de 1991 até 1995. Nós desenvolvemos vários trabalhos. A creche, começou com 25 crianças, depois mudamos pra um lugar com 45, depois nós construímos um prédio no terreno que era da igreja, que foi cedido em comodato, uma creche grande com capacidade para 150 crianças. Em sequência nós tínhamos a associação de apoio e auxílio mútuo, que eu falei já.

 

P/1 – Essa que completou os 25 anos?

 

R – Sim, essa que completou os 25 anos agora, foi fundada em 1987, essa foi mais uma entidade que eu participei ativamente, sempre como voluntário, um cargo de diretoria aqui e lá. Então eu assumi a presidência em 1990 mais ou menos, fiquei quatro anos como presidente, e aí nós passamos a desenvolver a associação como... Porque a associação de apoio e auxílio mútuo surgiu por uma necessidade de reunir diversas entidades filantrópicas sem fins lucrativos, no sentido de se ajudarem mutuamente. Por isso era associação de apoio e auxílio mútuo. A ideia era fazer uma cooperativa onde a associação comprava todas as necessidades que as entidades tinham, desde material de limpeza, higiene, móveis, por que isso na compra em quantidade era mais barato e facilitava, e a gente também trocava experiências. Tinham entidade que tinham dificuldades que a gente se auxiliava, o que uma entidade tinha mais passava pra outra e assim por diante. Era muito importante. Posteriormente, essa prática da cooperativa passou a não se poder mais mexer, porque deveríamos fazer uma legalização difícil, então nós resolvemos fazer uma captação de recursos através de promoções beneficentes. Essas promoções beneficentes nós fazemos até hoje e ela está no vigésimo quinto ano de série. O que é essas promoções beneficentes? Nós fazemos 1100 números, colocamos de primeiro prêmio um carro, e depois mais outros prêmios menores. A captação é interessante porque a associação é exclusivamente dirigida pelos presidentes de entidade, então não é terceirizada, e com isso toda a receita fica na própria entidade e esse dinheiro ajuda a entidade nas suas necessidades. Então, se alguma entidade tem problemas financeiros, elas pedem aquela importância, é emprestado sem juros, e ela pode pagar tendo um prazo de carência de seis meses, pode pagar até vinte meses essa diferença. É muito útil e está sendo muito bem aproveitado pelas entidades. Então, nessa associação beneficente, todas as entidades pegam os bônus e da gente da Associação somente a despesa da compra de carro, etc, é que é cobrado. O resto é das entidades. Isso salvou muitas entidades de dificuldades. Nós já falamos da ASAPAN [Associação Santo-Augustense de Proteção aos Animais e Meio Ambiente], da Associação de Pais e Mestres, do Clube... Agora, em 2003, eu reuni uma série de pessoas amigas e fundamos a AMAVIM [Associação dos Moradores e Amigos da Vila Monumento], cuja preocupação é desenvolver programas e projetos em benefício da comunidade. A finalidade é proporcionar uma qualidade de vida melhor pra população e temos feitos alguns projetos interessantes. Fizemos o primeiro passeio ecológico da Vila Monumento. A Feira da Vila Monumento, anualmente, que além de ter uma parte mais comercial, a dos expositores que expõem seus produtos à venda, o que dá um retorno financeiro pra custear a estrutura necessária pra feira, e lá as entidades de diversas finalidades tem oportunidades de expor seus produtos e todo o trabalho comunitário que eles fazem. Os colégios também apresentam trabalhos que foram feitos, nós temos uma Feira da Saudade dentro e contamos com a colaboração dos hospitais, farmácias... 

 

P/1 – Toda a comunidade é envolvida de alguma maneira?

 

R – Exatamente. É uma feira que você entra gratuitamente.

 

P/1 – É na rua?

 

R – É dentro da Sociedade Hispano Brasileira. Eles têm dois salões bons, espaços externos, lá temos a Feira da Saudade com diversas especialidades, cuidar do visual, acústica, glicemia, esses exames de sangue, medição de pressão... Enfim, uma série de exames. E também temos brincadeiras pras crianças, o CET faz uma série de apresentações com as crianças para motivar elas no transito, pra já ir aprendendo alguma coisa. E temos uma praça de alimentação bem interessante, com bastante diversidade. Esse ano fizemos no sábado e no domingo, é sempre em setembro, tendo em vista o sete de setembro, a Independência do Brasil e o monumento, que é símbolo da nossa associação. Em síntese, nesse trabalho todo, passamos por diversas situações difíceis mas, em compensação, tivemos bons momentos.

 

P/1 – Conta algumas dessas situações difíceis pra gente.

 

R – Desentendimentos naturais, em que você tem um ponto de vista e você é contrariado nele, e as pessoas não chegam a dialogar. Eu mesmo me coloco nesse ponto, talvez por falta de dialogar. Então um dos problemas sérios que aconteceu foi no Colégio Rainha dos Apóstolos, que naquela época as irmãs faziam festas juninas e a Associação de Pais e Mestres ajudava. Só que essas festas eram feitas se baseando na venda de votos das crianças para que elas pudessem ser proclamadas no dia da festa junina como rainha de tal ano, ou princesinhas, etc. Mas era aquela questão de vender votinhos, e numa das assembleias que nós tivemos eu me opus aquilo dizendo que a gente tava expondo as crianças a uma situação que eu entendida como vexatória, porque aquilo não representava mérito disso ou daquilo, mas quem tinha mais dinheiro, porque os pais compravam votos, esse tipo de coisa. Minha filha Mônica foi convidada a participar e eu tive que considerar muito seriamente com ela e dizer: “Filhinha, você é a rainha aqui em casa. Lá os papais vão gastar muito dinheiro com as filhinhas e vão ganhar, e você vai participar de uma coisa que você não vai poder ganhar, então é melhor não fazer, você concorda com o papai?” “Ah, pai, não sei o quê e tal.” Mas, no fim, acabou ficando. Então eu entendi, naquela época, que aquilo era prejudicial, porque tornava a criança campeã como uma super... A criança pega aquela vaidade, aquele complexo de superioridade porque ganhou das outras, e as outras que perderam têm o sintoma de inferioridade: “Puxa, eu não ganhei aquele concurso.” E, realmente, isso não é bom. E a maioria daquela época entendia que aquilo deveria ser feito, que não teria nada demais. Quando eu assumi a secretaria, nós mudamos o sistema, fizemos diferente. Como presidente ou como secretário, convidei todos os pais pra uma reunião e começamos a fazer uma festa mais com sentido de festa, todos nós trabalhando gratuitamente, sem qualquer... Mesmo comprando o material. Por exemplo, você entrava na festa, eram dois dias, você comprava aquilo pra comer ou brinquedo, sem qualquer vantagem financeira na história, e foi muito bom por que com aquele dinheiro nós fizemos uma quadra, contribuímos com uma quadra de esportes, fizemos muitas coisas pro colégio. Essa é uma das partes curiosas. Têm muitas outras que não vêm ao caso. Ser voluntário é uma coisa muito seria. No seu percurso de voluntário, você percebe que tem pessoas que querem ser voluntárias mas, depois que elas começam, depois do primeiro tombo, elas desistem, então é complicado.

 

P/1 – E hoje em dia, as associações que o senhor faz parte são sua principal atividade?

 

R – Na AMAVIM, por exemplo, eu sou presidente atual, e na Comunidade Assistencial Rainha dos Apóstolos, que mantém a creche, também sou presidente. Minha gestão termina em abril agora, de 2013. Na AMAVIM é o contrário, assumi agora em 2012 e devo ir até 2014, então é uma atividade que eu tenho. Na própria ASAPAN eu faço parte do conselho fiscal. A gente tá sempre em atividade. Eu participo de todas elas, das reuniões e tal, é uma coisa que eu gosto, que me faz bem.

 

P/1 – E hoje em dia, quais são seus sonhos, Seu Odacyr?

 

R – Hoje em dias, os sonhos que eu tenho se reúnem em várias viagens, então não é um sonho, são vários sonhos, mas eu acredito que como sonho, assim, de realização familiar, foi o fato de que a minha família é bem sólida, e nós, as três filhas que eu tenho, são bem formadas moral e profissionalmente. Uma filha, minha filha mais velha, Mônica, é oceanógrafa, é doutora em oceanografia na especialidade que ela pesquisou, decápodes, e foi examinada numa banca internacional na qual eu estive presente. Eu fiquei muito orgulhoso de ver minha filha defendendo uma tese em inglês, francês e português. Eu tenho a outra filha, Regina, que é agrônoma e está se aposentando agora da Secretaria de Agricultura, a especialidade dela é justamente as atividades agronômicas, ela faz muitas palestras, principalmente pra prefeituras do interior, sobre a economia agrícola. Tem cursos de pós-graduação, mestrado, etc. A mais nova, a Débora, fez matemática acoplada à informática, então ela, desde pequena, aliás, todas elas... Eu tive escola de natação também, até esqueci disso, foi em 1969 até 1983, foi uma das primeiras escolas de natação de São Paulo. Mas isso foi uma atividade profissional paralela à minha profissão que eu exerço até hoje, eu ainda exerço a profissão, sou engenheiro agrimensor e a minha especialidade hoje é transporte coletivo, dou consultoria empresarial dentro da especialidade de transporte coletivo. Então eu tava falando da minha filha mais nova, que trabalhou comigo já a algum tempo, desde dezesseis aos dezessete anos. Hoje está com quarenta anos e tem o escritório dela junto com o marido dela, trabalha com faturamento médico, dão assistência aos planos de saúde de médicos, e ela sempre me ajudou principalmente na parte financeira, ela que cuida dos meus cartões de crédito, do que eu tenho que pagar no banco, então eu não tenho esse problema pra me preocupar, eu me preocupo com o desenvolvimento da minha profissão.

 

P/1 – Entendi. Mas o senhor falou dos sonhos realizados. Das coisas de agora pra diante, tem alguma coisa que o senhor gostaria de fazer, alguma coisa que chama atenção?

 

R – Realmente, eu tenho. Eu gostaria de ver meus netos. Eu tenho um neto de 26 anos, que é formado em Relações Internacionais, e o outro está fazendo faculdade de Cinema. Meu grande sonho como avô é ver a realização profissional dos meus netos, uma coisa para a qual eles estão caminhando, e vão conseguir esse objetivo. Quanto aos meus sonhos pessoais, eu sou um sonhador de realizações no sentido de viagens, realizar viagens. Eu estou com um projeto de fazer uma viagem agora, eu já fiz várias, eu já fui pro Egito, fomos pras pirâmides, pras esfinges; fui pra Israel andar, conhecer toda Israel, até o Mar Morto. Você imagina que o Mar Morto a gente tinha aquela ideia de que a salinidade é tão grande, que a água tem a densidade muito grande e eu tinha a fantasia de sentar. Então, eu sentei na água, aquilo é tão denso que você não consegue afundar. É impressionante. Então foi um sonho que eu realizei e fiquei muito feliz. E outras... Fui até Paris, conhecer a Torre Eiffel, andar no Reno, ir até Roma, visitar o Vaticano, ir até Pisa ver a Torre... Meu Deus! Londres, o famoso Museu de Madame Tussauds, aquele museu de cera. E Argentina, gosto muito da Argentina, quase todo ano eu vou passar pelo menos uns cinco dias lá, acho muito gostoso. Ir pra Europa é sempre um pouco puxado, as viagens, então você vai pra Argentina e se sente como se estivesse na Europa, do meu ponto de vista. Então eu conheci Portugal, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Suíça, Áustria, África do Sul... Uma das coisas bonitas que eu fiz foi uma viagem marítima, cruzeiro, saindo de Santos e indo até Gênova, na Itália, passando pela costa brasileira, ilha de Fernando de Noronha, atravessando todo o Atlântico até Dacar, capital do Senegal. Aquilo lá foi uma coisa triste. A gente desceu... Mas quanta miséria aquilo lá! Depois saímos, fomos até a Ilha da Madeira, portuguesa, muito interessante, depois nós fomos até as ilhas espanholas, Tenerife, que tem a capital. É muito interessante. Tem uma característica muito interessante das casas, com seus terraços todos cheios de flores, depois a gente foi pra Espanha, descemos em Málaga, fui conhecer aquela cidade árabe... Fugiu o nome, deveria ter marcado num papel, depois conhecemos Granada, depois o avião portou em Gênova. Fizemos um roteiro pela Itália muito bonito e tal, para não se alongar muito.

 

P/1 – Seu Odacyr, o que o senhor achou de contar sua história, reviver tudo isso aqui para o Museu.

 

R – Olha, sinceramente, eu nunca pensei em fazer isso. Sempre achei que seria alguma coisa de ufanismo, alguma coisa meio careta, ficar falando da sua vida assim, como se fosse uma maneira de se apresentar, falando: “Não, puxa, eu fiz isso, fiz aquilo.” Da maneira com que vocês dirigem a entrevista, ela é muito significativa no sentido de ser um testemunho de vida que pode servir de alguma coisa. E é isso que eu vim fazer, dar um testemunho de alguma coisa que pode ser aproveitada por alguém, que eu acho que é o fundamento da nossa vida. Alguma vida que não tem alguma coisa, alguma essência, não é uma vida produtiva, é mais ou menos por aí.

 

P/1 – Bom, Seu Odacyr, gostaria de agradecer em nome do Museu, que o senhor veio aqui essas duas vezes compartilhar toda a sua experiência com a gente, e com isso a gente pode acabar a entrevista. Muito obrigada.

 

R – Eu que queria agradecer pela paciência, viu? E, sobretudo, pelo alongamento das memórias, a gente começa a falar de assuntos... Agradeço muito a você, Olívia, a você, Nádia, e ao Museu do Homem, que nos proporciona essa face diferente da nossa vida, muito obrigado. 


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