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História

A superstição de um botafoguense

História de: Jorge Cláudio Cavalcante
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Em seu depoimento, Jorge Cláudio Cavalcante relembra seus tempos de estudo, sua formação em Economia e o doutorado que cursou no Canadá. Conta sobre sua jornada dupla com seu trabalho em uma universidade federal, como professor, e sua atuação no BNDES, na área de exportação, a qual de técnico se tornou gerente em quatro anos de trabalho. Fala também sobre a superstição que por ser botafoguense e estar acostumado a “sofrer tanto” lida melhor com desafios e situações problemáticas.

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História completa

P/1 - Boa tarde, Jorge, eu gostaria de começar nosso depoimento pedindo que você nos dê o seu nome completo, local e a data de nascimento, por favor.

 

R - Meu nome é Jorge Cláudio Cavalcante de Oliveira Lima. Eu nasci no Rio de Janeiro, no dia 12 de setembro de 1963. Sou carioca, nasci no Botafogo, bairro onde eu moro até hoje e time pelo qual eu torço (risos)

 

P/1 - Ah, é? (risos). Em relação aos pais, o nome completo dos seus pais e a atividade profissional.

 

R - O nome completo do meu pai é Francisco Tarcísio de Oliveira Lima. Ele é funcionário aposentado do INSS, natural do Ceará. Minha mãe chama Marilene Cavalcante de Oliveira Lima, também é professora aposentada do Estado, também é cearense. Ambos aposentados. Eu tenho dois irmãos; uma irmã, que se chama Isabela, e um irmão, que chama Marcelo. Sou o mais velho, né? São mais novos do que eu. Sempre moramos aqui no Rio. Passamos um tempo em Belém. Moramos quatro anos em Belém. Moramos um ano em Fortaleza e aí eu me desgarrei um pouco, comecei a dar aula, fui morar em Natal sozinho e depois tive a oportunidade de ir para o Canadá.

 

P/1 - Então, vamos lá, vamos com calma. Quer dizer, você fez a sua formação escolar aonde? Foi aqui no Rio?

 

R - É, eu fiz...

 

P/1 - Que escola que você fez?     

 

R - Economia na UFRJ, aqui na Praia Vermelha. Comecei em 1982, terminei em 1986. E já nesta época, um pouco antes, enfim, eu comecei a estagiar numa empresa, numa antiga empresa de financiamento que não existe mais, Metropolitana; era estagiário. Depois, tive a oportunidade de começar a trabalhar no extinto Banco Nacional. Trabalhava na área de mercado aberto. Sempre trabalhei nessa área de cálculo financeiro. Depois fui para uma empresa pequena do Grupo Nacional, Nacional Planejamento Estudos Ilimitada, e isso em 1985, 1986. Me formei, em dezembro de 1986 decidi fazer mestrado. Eu fui fazer mestrado na Escola de Pós-graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas. Então, eu fiz o mestrado lá em 1987 e 1988. Quando eu terminei o mestrado, eu voltei a trabalhar; fui trabalhar no Banco Bamerindus. Também voltei a trabalhar na área de mercado financeiro, que era sempre uma área que eu sempre gostei de trabalhar. E aí minha vida deu uma certa guinada porque a minha esposa... A minha esposa... A minha irmã era arquiteta, estava desempregada e ela me fez uma proposta da gente tentar fazer concurso para ser professor. E o concurso era na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Nós fomos fazer concurso, eu fiz concurso, ela também fez, ela não passou e eu passei. E já trabalhava em banco algum tempo, nesta coisa do mercado financeiro, era a época da inflação alta, estava... Não era algo realmente que me prendia muito. E aí decidi ir para Natal. Fui para Natal, foi uma época maravilhosa, meus pais não contavam que eu fosse gostar de lá, eu gostei, e aí a coisa se inverteu porque eu queria ficar lá e não queria mais voltar. Era na época de Pantanal, então aquela coisa de viver assim meio desgarrado, mais natural. E Natal é uma cidade muito agradável. A Universidade é atrás de dunas maravilhosas. Então, saía da aula às 17:00, ia andar na praia. E eu gostei efetivamente da aula, do contato com os alunos. Mas como eu sempre tinha estudado aqui, tinha vivido aqui, realmente eu ficava um pouco deslocado. Eu sempre tinha vontade de poder estudar fora, fazer o doutorado fora, de forma que eu fiz concurso de novo para a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, isso em 1989, passei e aí não tinha mais motivo para ficar lá apesar de querer. Aí voltei para o Rio em 1989, comecei a lecionar na Universidade Rural, eu era professor em dedicação exclusiva; fui chefe de departamento lá, fui coordenador de curso. Aí quando foi em 1992, eu tive oportunidade de dar seguimento a esse projeto que eu falei de estudar fora. Eu fui fazer PhD, fui fazer doutorado em Economia no Canadá. Então lá eu tive oportunidade de refazer o mestrado na Universidade de Montreal. Eu morei na cidade de Montreal, que é uma cidade de língua francesa, tive oportunidade de aprender o francês ou de melhorar, e fiz o doutorado na Universidade de (Maguilcan?), uma universidade de língua inglesa. Então, foi uma experiência fantástica porque é uma cidade onde se fala o francês e inglês, e muito interessante porque às vezes o destino escreve algumas coisas que a gente não se apercebe. Então, eu fui morar em um cidade, cidade de Montreal, que é a sede da empresa fabricante de _____ de Bombardier, que anos depois veio a ter uma ligação com a minha vida porque aqui no BNDES eu trabalho na área de exportação e eu trabalho diretamente com os financiamentos da Embraer, que é a grande rival da Bombardier. Então, o pessoal me fala um pouco que eu sou espião canadense aqui... (risos)                     

 

P/1 - Do Banco, né? (risos)

 

R - No Banco, né? Então...

 

P/1 - Mas eu queria de perguntar uma coisa: quer dizer, a opção pela Economia. Como é que foi isso? Profissionalmente, quer dizer...

 

R - É, a opção pela Economia... Na realidade, como a minha mãe era professora ela sempre procurou dar uma assistência muito boa, assim, no que diz respeito a questão da escolha profissional, que não é uma escolha muito fácil. Eu sempre gostei muito de mar, sempre gostei muito de natureza, tanto é que o primeiro teste vocacional que eu fiz deu Biologia Marinha como... Eu fiz isso na... Seria oitava série, antiga oitava série, né? Deu Biologia Marinha. E aí eu estudava, nesta época, no Colégio da Imaculada Conceição e aí proximidade do vestibular, aquela coisa toda de procurar um curso que preparasse melhor para o vestibular, eu fui para o Colégio Santo Agostinho. E aí no Colégio Santo Agostinho, por desígnios da vida, eu fui fazer a área tecnológica porque eu sempre gostei muito de Matemática. O que dava, assim, o perfil para Engenharia etc. E aí eu fiz um segundo teste vocacional, na época, e que sinalizou para Economia. E aí... Porque eu gostava também muito de História. Então, a escolha de Economia foi um pouco balizada pelo teste vocacional, que na época eu fiz. E hoje, olhando para trás, eu acho que não me arrependo, gosto muito do que eu faço, né? E dei a, claro... Foi uma oportunidade que eu tive, mas eu acho que a minha família neste sentido foi importante porque procurou balizar a minha escolha, a gente conversava muito sobre isso, minha mãe é professora mas também orientadora educacional. Então, acho que foi uma escolha, vamos dizer assim, partilhada, compartilhada e tenho colhido bons frutos desta escolha, né?

 

P/1 - Agora, em relação ao BNDES, como é que deu o seu ingresso no BNDES, o que é que representava nesta época o Banco dentro da sua profissão e da sua carreira?

 

R - Bem, eu fiz Economia na UFRJ, que é um dos centros de excelência do estudo de Economia e que tinha, na realidade, vários professores que tinham uma certa ligação já com o Banco; sejam professores que eram professores... Funcionários do BNDES ou pessoas que vieram a ocupar cargos no BNDES. Então, eu me lembro claramente e até, o que é engraçado, veteranos meus na faculdade que vieram a fazer concurso no BNDES, hoje estão aqui... Então, eu entrei em 1982. Eu me lembro muito de um deles, o Fabio Giambiagi, que é gerente da área de planejamento. Ele é... Acho que é argentino, enfim. Ele me deu trote na faculdade, né? E ele fez o concurso de 1984. Ele fez o concurso de 1984, assim como outras pessoas. Então, essa foi uma primeira sinalização porque, se eu não me engano, muitas pessoas fizeram concurso nessa época. Eram pessoas com os quais a gente tinha contato. O segundo contato formal com o BNDES foi quando eu fiz uma cadeira de Introdução à Economia, que o professor fez uma visita e que nos trouxe ao BNDES. Bem, para um aluno que faz Economia naquela época vir para um prédio imponente como esse, aquilo fica gravado...

 

P/1 - Em que ano foi isso, você lembra?

R - Isso foi 1983. Isso fica gravado muito na nossa cabeça. E isso foi propiciado por um funcionário do BNDES, que ainda é funcionário da casa, o Hernani Torres, que foi o meu professor de Moedas e Bancos, que também foi um excelente professor. Também eu fiz uma cadeira na faculdade com o Carlos Lessa, que é um papa aí da Economia, que foi diretor do BNDES na época de 1982, acho que a 1987, que criou até o S do BNDES. Foi ele que criou o fim social. E outro professor também, o Antônio Cláudio (Sorachevisky), que é irmão da Renata Sorrah, por acaso, que foi diretor do BNDES. Quando a gente começa a juntar um pouco isso, vai imputando informação para a gente que a gente vai juntando, vai guardando. Eu me formei em 1986, como você falou houve um concurso para o BNDES, se eu não me engano, em 1984, aí eu me formei em 1986, já trabalhava no Banco Nacional e eles sinalizaram com um concurso, eu me lembro isso, em 1987 porque eu tive vontade de fazer. Mas eu não sei por que cargas d'água o concurso não saiu. Eu até me lembro que comecei a estudar etc, mas o concurso não saiu. E aí quando o concurso não saiu e se iniciou esse processo de longo tempo sem concurso para o BNDES, a minha vida me levou para um outro caminho. Como eu te falei, eu comecei a dar aula, saí um pouco do meio financeiro, do meio, vamos dizer assim, mais formal, uma vez que a universidade permite um contato mais informal, um contato mais aberto com a sua profissão e aí fiquei meio desgarrado este tempo de, vamos dizer assim, de 1989 até efetivamente 1998 quando eu entrei para o BNDES.

 

P/1 - Como é que foi o seu concurso? Como...

 

R - O meu concurso foi...

 

P/1 - Você fez para que?

 

R - Foi interessante. Eu voltei do Canadá em janeiro de 1997. Então, eu voltei do Canadá em janeiro de 1997 e voltei já começando a dar aula. Formalmente assumi o meu cargo de professor, voltei a lecionar. E aí o concurso foi assim meio relâmpago, saiu, eu vi o edital etc, me interessei. Aí aflora todos aqueles amalgamas que a gente depositou aí tempos passados. Só que eu tinha uma questão que era uma questão muito difícil de resolver porque eu era professor da universidade, era uma universidade federal, ou seja, não podia acumular os dois cargos, e como eu tinha passado um tempo no Canadá com bolsa do governo, eu tinha assinado um termo de compromisso que dizia que eu não podia sair da instituição. Então, eu fui fazer o concurso não sabendo muito no que ia dar. Nem só pela questão da aprovação em si como questão formal de depois, em tendo sido aprovado, eu não sabia se ia poder ser contratado ou não. E aí começou... Foi uma fase angustiante etc. Então, eu me inscrevi, o concurso foi, se eu não me engano, em novembro de 1997. Aí foi uma experiência assim interessante porque o concurso foi um dia inteiro e eu sou, como todo bom botafoguense, sou muito supersticioso. Então, eu saí de casa sem falar para a minha esposa... Ninguém sabia que eu ia fazer concurso para o BNDES. Então, eu saí... Como eu dava aula muito no dia do sábado, eu saí como se fosse dar aula para o dia de sábado. Na realidade eu fui fazer concurso para o BNDES, né? Porque eu não queria... É o que eu te falei, eu não sabia como é que ia ser essa questão da universidade. Então, não queria criar falsas expectativas porque era complicado, enfim, a Universidade Rural é muito longe, é um desgaste muito grande, eu acordo às 5:00 para poder estar lá às 7:30 para dar aula, e tem um filho pequeno, e tudo isso passa a ter um certo peso a partir de um determinado momento da sua vida. Eu fui fazer o concurso completamente incógnito, né? E encontrei várias pessoas lá conhecidas minhas etc. E o concurso, como eu te falei, foi um concurso o dia inteiro; de manhã foi a prova objetiva, de tarde foi a prova discursiva. Bem, saí naquela de... Não sabia muito bem como é que tinha sido feita. Agora, é claro, eu estava quase que recém voltado do Canadá, eu tinha feito doutorado, então...

 

P/1 - As coisas estavam frescas também. (risos)            

 

R - É, as coisas estavam frescas, né? Estavam frescas na cabeça. Então, o concurso foi nessa base e tinham questões que se dividiam na minha cabeça. A questão de querer vir para cá eventualmente e ter que desenhar uma solução mas eu não sabia muito bem como. E esperava ter sido aprovado para primeiro dar início a esse processo porque eu não sabia quando ia ser chamado. Aquela coisa toda que a gente, às vezes, não dá para antecipar. E...

 

P/1 - Passou, né? No concurso?

 

R - Passei, passei. E aí acontece que eu passei numa boa colocação. Passei acho que em terceiro lugar o que sinalizava que a minha contratação ia ser quase que imediata. E aí começou esse sofrimento que eu te falei. Porque como eu era professor de dedicação exclusiva, o sindicato dos professores tem um discurso que é: "Não, o professor tem que ser de dedicação exclusiva". A única possibilidade de eu vir para cá é se eu reduzisse a minha carga horária na faculdade para 20 horas, o que é super malvisto do ponto de vista do sindicato porque quer se manter cada vez mais o professor na faculdade. Então, eu tive que meio que negociar, foi um processo assim martirizante, martirizante. Mas, ao final de tudo, eu consegui conciliar até porque o meu concurso ele foi um concurso aonde você fazia a carga horária era de 6 horas e isso propiciava você ter uma outra atividade, que não a atividade do BNDES, o que veio a criar depois toda uma série de questionamentos em relação a nossa inserção. Do meu concurso especificamente que foi em 1997, apesar de ter havido um concurso anterior ao meu, de 1992, eles têm um regime de horário diferente do nosso, que criava uma ruptura muito grande entre os quadros de funcionários. Funcionários que tinham regimes de horário diferentes. E, ora, do ponto de vista do Banco é uma questão muito complicada de você equacionar porque algumas pessoas chegam mais tarde, mas quando chegam os outros estão na hora do almoço. Então, tem um problema muito sério do ponto de vista da estruturação da questão diária da rotina de trabalho. Mas o nosso concurso foi o primeiro concurso que foi feito sobre a ___ das seis horas.

 

P/1 - Você foi trabalhar em que departamento?

 

R - Bem, aí eu não sei muito bem como é que é feito essa questão da alocação. Quer dizer, eu imagino. A gente é obrigado a preencher um currículo, aquela coisa toda difícil. Então, eu acho que o fato de ter morado fora, ter morado no Canadá, falar inglês e ter aprendido francês me levou, quase que de forma inequívoca, à área de exportação, que é uma área que demanda, obviamente, idiomas etc. Então, eu fui para a área de exportação, assim como mais seis outras pessoas que entraram comigo, né? Nós entramos... No meu concurso, nós fomos de uma batelada 70 pessoas porque algumas pessoas já vinham se aposentando, já havia uma carência muito grande de pessoal. Nós entramos, eu fui parar em exportação. E aí, de novo, aí que eu começo a falar que às vezes a gente não sabe muito bem como é que as coisas são escritas. Eu fui trabalhar numa gerência que é uma gerência que dá financiamento para o setor aeronáutico, que é a Embraer basicamente, mas também a Helibrás, que é uma empresa de helicópteros. É o que eu te falei que são as coincidências da vida porque eu não imaginava que eu ia estar trabalhando em suporte a uma empresa que aparece como uma empresa que tem uma posição de destaque no cenário mundial e que faz concorrência com uma empresa que era praticamente minha vizinha. Eu não posso dizer que eu não nutro, assim, um grande respeito pelo Canadá francês, pela cultura, apesar de em 1995 ter vivido aquela coisa do Canadá se separar. Eu não sabia, estava fazendo doutorado, não tinha nada a ver, eu queria terminar meu curso, né? Mas é uma riqueza muito grande. Então, eu nutria, como nutro ainda, uma admiração muito grande pelo Canadá enquanto país, enquanto civilização que conseguiu resolver seus problemas. Mas a ligação era quase que... Eu falo francês, depois, acho que em 1999, veio um grupo do BNP, do Banco Nacional de Paris, prestar auxílio ao nosso departamento de financiamento aeronáutico, então eu falava com eles em francês. Então, criava assim uma certa desconfiança por parte da Embraer - "Pô, tem um cara que morou no Canadá, que fala francês"-, né? (risos) Mas aí essa é uma relação que é construída na base da confiança, né? Então, hoje eu continuo trabalhando na mesma área. Eu entrei, então, como economista, como técnico, hoje eu sou gerente responsável por esta área. Eu sou o único remanescente desse setor. As outras pessoas foram alocadas, algumas dentro da própria área de exportação e outras em outras áreas. Então, continuo. E aí é que eu acho que começa a ter uma série de coisas que são muito interessantes, que eu acho que o BNDES propicia, principalmente para o economista, que é muito difícil você valorar porque são oportunidades que são únicas. Eu tive a oportunidade e o orgulho... Esse briga Brasil x Canadá é uma briga que já vem se arrastando há uns quatro, cinco anos. E aí a área de exportação sempre participou dessas discussões lá em Genebra, que é onde funciona a Organização Mundial do Comércio, tentando resolver, ou chegar a uma situação que agrade tanto o Brasil quanto o Canadá, e eu tive a oportunidade de, em julho do ano passado, participar em Genebra dessa reunião. E aí eu sempre brinco que às vezes a gente está na hora certa no lugar certo. Eu passei 11 dias em Genebra... Eu fui escalado para passar três dias, né? E acabei passando 11 dias porque o trabalho começou a fluir super bem e a gente conseguiu efetivamente demonstrar através de uma série de artifícios, montar um banco de dados impressionante, que eu acho que foi muito importante quando se foi fazer a defesa dos interesses brasileiros lá na OMC, que eu acho que os canadenses não esperavam que a gente tivesse esta capacidade de resposta porque era um curto espaço de tempo e era um volume muito grande de informação. Então, eu me lembro que quando a gente entrou na sala para fazer a defesa, nós éramos três brasileiros e a delegação canadense eram 12. Era uma coisa assim e no final... E na realidade, saiu o resultado alguns meses depois de uma vitória brasileira. Então, eu tenho a certeza de que isso aí foi uma coisa, assim, ímpar na minha vida, de ter participado de um momento muito importante e que eu acho que dificilmente uma outra empresa teria capacidade de me propiciar. É claro que tem o elemento sorte, como eu te falei, de estar na hora certa no lugar certo, mas foi um momento, assim, muito prazeroso. E com relação a trabalhar também no apoio à Embraer é uma coisa muito interessante porque eu já tive a oportunidade de voltar ao Canadá várias vezes depois que tive aqui e é orgulho muito grande porque os vôos que são feitos de Montreal para Nova York, por exemplo, são feitos em avião da Embraer. Então, imagino a raiva que não deve ser porque a fábrica da Bombardier é do lado do aeroporto. Então, o avião da Bombardier pousa, ele passa por cima... Então, quando você entra em solo canadense num avião brasileiro é um orgulho muito grande. E de novo o fato de poder estar trabalhando com esse produto é uma coisa, assim, que me arrepia assim de uma certa forma. Então, eu, eu... Aquela coisa que eu te falei, que tinha, pô, tinha 18, 17, 18, 19 anos, que eu comecei a ver e admirar o BNDES enquanto uma instituição que podia representar muito eu não sabia muito bem o quê, eu hoje estou vendo o que é que ele pode representar em termos de... Nem tanto ascensão profissional, mas a questão mesmo de satisfação profissional, né? É a possibilidade de estar passando isso para os meus alunos, que... Conta-se nos dedos as pessoas que puderam ter participado desse processo, né? E a questão do dia-a-dia, que não é uma questão fácil, problema de orçamento, né? Muitas pessoas questionam o apoio à Embraer porque é uma grande empresa e a gente tem visto que o BNDES tem sido muito questionado no seu apoio às pequenas, médias e microempresas, que é um questionamento extremamente importante, pertinente. Então, muitas vezes a gente é questionado por isso, né? Agora, eu sou até meio suspeito para falar porque eu sou muito apaixonado por essa coisa que eu faço, né? E depois do 11 de setembro, que eu acho que é um fato importante a gente mencionar, as coisas ficaram muito difíceis, né? E, de novo, eu estou insistindo muito que eu sou botafoguense, mas acho que o botafoguense ele tem essa coisa. Como ele sofre tanto, né, ele não se furta a essa coisa de vivenciar desafios e coisas problemáticas. Aí entra a questão do doutorado no Canadá, um país difícil, muito frio, sozinhos, nosso filho nasceu lá, a gente não teve apoio de ninguém. Então, acho que tem uma sementezinha dentro de mim, dentro das pessoas que trabalham aí na área, de querer ultrapassar esses obstáculos que são quase cotidianos. Às vezes, de hora em hora. E dá uma satisfação muito grande você conseguir, no final do dia, ou ao final dos meses, estar ultrapassando esses obstáculos, né?

 

P/1 - Super interessante a sua avaliação, né? Eu queria te perguntar o seguinte: quer dizer, você está trabalhando com pessoas de uma geração, assim, que até muitos entraram na década de 70, pessoas que você mesmo considerou; ex-professores, os veteranos seus. Como é que é isso, assim, para você, como é que é um pouco dessa transmissão assim de valores aqui dentro do BNDES, transmissão de conhecimento? Quer dizer, você tem um espaço, assim, de diálogo, de discussão, com esse pessoal desta geração, assim, mais antiga do Banco? Como é que funciona isso, por exemplo, no seu departamento, você trabalha com uma pessoa mais antiga daqui, como é que é?     

 

R - É, na realidade, a área de exportação ela é uma área relativamente recente no seu formato atual, né? Diria para você que ela deve ter seis anos. Então, as pessoas que trabalham nessa área são também relativamente recentes. Quer dizer, o superintendente da minha área, ele é uma pessoa de um concurso... Acho que o concurso de 1986, alguma coisa assim. Quer dizer, é daquele concurso de 1984, que eu te falei, mas acho que ele foi sendo chamado ao longo do tempo, então era a pessoa efetivamente de dois ou três concursos antes do meu. Então, ele pode, de uma certa maneira, representar essa geração a que você se referiu. Agora, essa discussão, esse espaço de abertura, eu, pelo menos... E a gente lá na área de exportação a gente tem o canal muito aberto. Eu sou uma pessoa relativamente aberta, brincalhona, extrovertida, de forma que esse canal eu acho que eu não vejo dificuldade alguma com relação a isso e nas outras áreas eu também não vejo. O que eu vejo, às vezes, é, por exemplo, a distância entre o conhecimento formal cristalizado e o conhecimento informal que foi adquirido a partir da experiência rotineira das tarefas, que é, talvez, vamos dizer assim, é um dos ativos mais importantes que você tem nessa questão da transmissão. Porque o BNDES tem uma forma de operar, tem uma forma de funcionar, que não é obvia a uma pessoa que está entrando recentemente por mais conhecimento formal, que eu te falei, que tenha; doutorado etc. Porque os trâmites são mais ou menos consagrados, tem essa questão da visão jurídica, que é uma questão muito forte aqui dentro; tem a questão também da fiscalização, ou seja, a administração pública tem isso que você só pode fazer o que está escrito, diferente da administração de empresas, que você pode fazer inclusive o que não está escrito. Tem uma preocupação muito grande com relação aos procedimentos. Então, isso é um aprendizado, eu diria para você, importantíssimo, que a gente não tem no dia-a-dia, principalmente eu que tenho uma ligação acadêmica e que as coisas são construídas muito na base do empiricismo. Aqui não, tem uma coisa, é uma cartilha que tem que ser mais ou menos seguida. Então, sem dúvida nenhuma, no que diz respeito a isso, esse conhecimento que foi adquirido ao passar do tempo pelas gerações antigas é simplesmente fundamental. Agora, o BNDES tem uma coisa muito legal que é propiciar muito a questão de pesquisa, de abertura. Existe uma área de planejamento, que é uma área muito forte, e que permite você, por exemplo: eu trabalho, meu trabalho é um trabalho técnico etc, mas eu sou parecerista da revista BNDES, o que me permite ter também, ao mesmo tempo, uma visão mais crítica sobre conhecimentos que estão sendo produzidos, conhecimentos acadêmicos aqui dentro. Eu acho, estava até pensando um pouco nisso quando eu soube que tinha sido aquinhoado com essa possibilidade de dar um pouco o meu depoimentos, e aí tive que ir na casa dos meus pais para pegar foto antiga porque às vezes a gente não tem, eu tenho a impressão que muitas vezes a relação que a gente tem aqui dentro é uma relação de família, né? Onde você tem seu pai, sua mãe, que sabem, mais ou menos, o que é certo para você, muito mais com base na experiência que foi adquirida, quer dizer, não é a experiência formal, e muitas vezes é doloroso você pedir que as pessoas façam aquilo de uma certa maneira quando você já fez um relatório 10 vezes, a pessoa pede para você mudar a 11ª, mas é... Da mesma forma que um pai te pede para fazer uma coisa que... Não sair no fim de semana etc. Então, eu tenho a impressão que isso é uma ligação que é muito válida aqui dentro, né? É uma relação de respeito, é uma relação de confiança, é uma coisa que é construída a cada dia. Tem uma hora que você vai ficar zangado com seu pai ou com seu superior, mas no pesar do tempo isso se esvai. Na realidade, você chega à conclusão de que aquilo era efetivamente o encaminhamento a ser dado porque a gente quando entra é como a criança recém-nascida, com muito ímpeto. A gente traz uma bagagem lá de fora, que a gente tem vontade de colocar aqui para dentro de uma hora para outra e muitas vezes não é assim, como é na casa da gente. Então, eu tenho a impressão que essa relação é muito assim; é uma relação prazerosa, como é a relação familiar, porque é uma relação que é baseada no respeito, na confiança e, claro, é cheio de percalço, como é tudo na vida da gente. Mas é muito gratificante porque, como você falou, tem pessoas que são de várias gerações, são pessoas que vivenciaram momentos diferentes, momentos talvez de uma fartura maior, no que diz respeito a essa questão do pessoal. Mas a gente tem sempre que procurar um certo jeitinho de colocar um pouco as coisas, de obter as informações porque... Não que eu seja o mais novo das pessoas, mas são pessoas que já passaram muita coisa aqui dentro. Então, às vezes a gente tem que saber o momento exato de entrar com um tipo de questionamento como, de novo, na casa da gente. Falei muitas vezes: "Papai, comprou figurinha?" "Não enche, meu filho!" Tive um dia, né, o saco... (risos) Então, essa relação se reproduz muito aqui, né? Claro que não nesses termos mas, guardada as devidas proporções, dessa forma. Então... Aí, tem questões que não dizem respeito ao dia-a-dia, que são questões também um pouco complicadas do tipo: um pai, ou uma mãe, não discrimina entre filhos, tá certo? Ou seja, eles são amados da mesma forma. E pelas contingências que o Governo vem passando, é como eu te falei, os quadros têm... Como é que eu te diria? Eles são quadros diferentes. Ou seja, a questão do horário. Então, tem funcionários que têm o horário diferente dos outros. Então, é muito difícil porque como é que você vai criar, a discriminação, diferente entre pessoas que, no fundo, fazem a mesma, a mesma, a mesma tarefa. É como se um pai tivesse discriminando entre um e do outro. Isso cria um certo ranço. Então, essa é uma questão que não é fácil, né? Porque, inclusive, a cada nova geração que entra as pessoas, de uma maneira informa, batizam as pessoas. Então, a minha turma, quando entrou, nós somos chamados de Tostines, né? Tostines é... A geração antiga era os Frescarinis, né? É a tentativa de você mostrar que as gerações não são completamente parecidas. Então, você pode ter o cara do concurso anterior ao meu mas que entrou em 1996, que ele temporalmente é quase igual ao meu mas ele pertence a uma outra geração. E que foi uma geração, como eu te falei, que foi criada por contingências da administração pública. E que é uma coisa que cria um certo problema na medida em que muitas vezes você é um profissional mas você também é um ser humano e você tem questões como: se o pessoal do meu concurso entrou em 6:00, isso significa que ele pode alocar parte do seu tempo para outras atividades e, eventualmente, muitas pessoas fazem isso, né? Então, muitas vezes, é complicado viver em boa paz com esse tipo de situação porque a pessoa tem outras atividades que eram conhecidas e eram prerrogativas dessa pessoa, quando essa pessoa fez o concurso. Então, essa é uma questão que eu acho que o Banco está procurando resolver, mas que não é de uma resolução fácil, né? A gente já está aí, vou fazer quatro anos de BNDES e a gente vem procurando, por exemplo; plano de saúde. A gente... Hoje em dia já tem plano de saúde igual a gerações antigas porque se as condições são diferentes é como se tivesse discriminando entre filhos, como se tivesse um filho bem amado e o outro mal amado. A gente sabe que não é assim. A gente sabe que são contingências que o Governo ou que a administração pública criou. Mas, assim, a vontade de querer resolver esses problemas também é algo que é importante para que a gente desenvolva aí, na plenitude, as nossas tarefas, né?

 

P/1 – Está bom, Jorge. Então, para finalizar, o que que significa o BNDES para você?                                              

 

R – Olha, essa é uma questão que eu acho que está em constante mutação. Como eu te falei, se você me perguntasse há um ano atrás, possivelmente o BNDES significaria uma coisa diferente que significa hoje em dia. Como eu te falei, por conta dessa experiência que eu pude participar lá em Genebra. Essa experiência em Genebra foi uma coisa assim, que eu tenho total certeza de que a possibilidade de, talvez, se repetir na minha vida, como na vida de uma outra pessoa, é muito diminuta, né? Então, por isso que eu vivenciei e, claro, pelas outras possibilidades que ela pode vir, ela representa, do ponto de vista, satisfação profissional, realização, capacidade de desempenhar tarefas que.. Na realidade, eu estudei na faculdade, então, a gente tem lá a cadeira de Desenvolvimento Econômico, né? A gente tem cadeiras onde a gente discute problemas de distribuição de renda. Não só distribuição de renda entre as pessoas, mas distribuição de renda regional. Aqui no BNDES por exemplo, a gente tem uma área de Desenvolvimento Regional que tenta atenuar diferença entre os diferentes Estados. Como eu falei, os meus pais são cearenses. Eu adoro o Ceará morei em Natal e a gente vê a discrepância que tem, às vezes, entre Nordeste e o Sul. Então, o BNDES tem essa perspectiva de querer mudar essa realidade, né? Ao mesmo tempo, o BNDES é um Banco que tenta pensar a longo prazo, que eu acho que é... O que todos nós desejamos. Eu desejo para o meu filho, pensar o que ele vai ser daqui há 10, 15 anos, assim como eu acho que o meu pai desejou. Então, o BNDES me permite pensar mais a longo prazo. Por exemplo, eu posso de um determinado momento achar que eu já cumpri a minha tarefa na área de exportação. Eu posso querer trabalhar na área de desenvolvimento regional. Então, o planejamento estratégico que foi feito aí no ano passado, que foi uma primeira direção, passo na direção de equalizar essas condições entre os quadros diferenciados e dar um rumo para Banco, qual é a posição estratégica dele no país, eu acho que ele ascendeu em todos nós esse dever, essa obrigação de pensar um pouco mais no futuro, né? Até porque como a gente estava preocupado muito em administrar o dia-a-dia, a gente não tinha como fazer isso. Então, esse setor que eu trabalho, setor de aviação, setor extremamente complicado, mas da maior importância. O Norte do Brasil completamente esquecido. Então, o BNDES representa para mim o mundo prático, que na faculdade, eu tento pintar. Eu trabalhando no BNDES, eu posso pintar com cores mais vivas o mundo como ele é. Quando eu estava na faculdade, eu pensava o mundo como, talvez, queria que ele fosse. Agora, eu posso pensar o mundo que eu quero e posso tentar fazer que aquele mundo que eu pintei para os meus alunos seja o mundo que efetivamente ele é.

 

P/1 – O que que acha do projeto... O BNDES está fazendo 50 anos, o que que acha desse projeto de memória e o que que achou de ter dado o seu depoimento?

 

R – Olha, eu acho superinteressante. Nesse convívio que a gente tem com pessoas que são de gerações, a gente acaba sabendo de histórias que são histórias muito interessantes. Mas é claro, como o convívio é o convívio pela sua inserção ele é restrito. Você só lida com algumas pessoas, você acaba não tendo a possibilidade de lidar com todo mundo, até porque já tem pessoas que foram aposentadas e que essas histórias, talvez, se perdessem, né? Então, do ponto de vista de concepção, de resgate, disso, eu acho que é uma coisa importante, né? E eu acredito muito e tem um pensador latino-americano superinteressante do _______, que diz “que um povo que não reflete sobre o seu passado está fadado a cometer os mesmos erros, né? Então, eu tenho certeza que muitos erros, talvez, a gente faça agora foram feitos no passado. Então, esses depoimentos, acho que também é uma tentativa de você não cometer erros que consomem recursos de um país que está procurando se desenvolver. Também do ponto de vista de criar uma ambiência, uma ambiência camarada, que é fundamental em qualquer empresa que você trabalha. Criar um vínculo entre os antigos. Então, eu tenho certeza que a gente vai saber de histórias muito engraçadas que se passaram com outras pessoas e que isso cria um outro vínculo que, de outra forma, se perderia porque eu não teria como acessar aquela informação, a não ser se eu trabalhasse com a e pessoa. Mas agora como a informação vem a mim, eu posso ir a essa pessoa. Isso cria um ambiente muito propício a troca, a camaradagem como eu falei. Acho uma iniciativa bastante louvável e espero que daqui há 50 anos tenha uma outra dessa que permita resgatar um pouco esses depoimentos que estão sendo dados agora e vê se efetivamente aqueles sonhos, aquelas quimeras que de uma certa forma a gente passa aqui, foram ou não passadas. Porque uma coisa que eu acho que é fundamental, que a gente esquece, pois é, Estados Unidos não nasceu desenvolvido, né? Ele se desenvolveu. Ora, se eles conseguiram, a gente pode conseguir também. E claramente o papel do Governo é um papel fundamental nesse processo. Eu não tenho dúvida nenhuma de que o BNDES é o organismo, é a organização do Estado, que está aí para fazer essas mudanças. Eu acho também que como as pessoas vão poder vir aqui, ver os depoimentos, ver fotos etc, é a maneira também deles terem uma visão menos burocrática da instituição e uma visão de que eu sou um ser humano como outro qualquer, que estou imbuído de uma responsabilidade, é claro, enquanto funcionário público, que na realidade, foram eles que me imbuíram. Eu fiz o concurso público, mas as pessoas pagaram para eu estudar etc. Então, essa de certa forma, é a maneira pela qual posso retribuir. Então, é o depoimento de uma pessoa que tenta mostrar que aquilo que foi depositado em mim, de uma certa forma ou de outras pessoas, está sendo bem empregado (risos) Pelo menos eu espero, né?       

 

P/1 – Está bom. Então, eu te agradeço, super obrigada.

 

R – Está certo. Obrigado.

 

P/1 – Muito obrigada.

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