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A transformação está em você

História de: Monja Coen (Cláudia Dias Batista de Souza)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2009

Sinopse

Em sua entrevista Claudia Batista enfoca sua "transformação" em monja Coen. Ao longo da narrativa temos a infância no Pacaembu, os colégios de freira, o casamento precoce, a vida como jornalista, a viagem à Inglaterra em busca do LSD, a relação com o rock e com os Mutantes, a vida nos EUA e o contato com o Zen naquele país, a ida para o Japão e a volta para São Paulo.

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História completa

P/1 – Pra começar, eu gostaria que você dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – O meu nome monástico é Coen, eu recebi minha denominação monástica no dia 14 de janeiro de 1981. Eu posso dizer que a monja nasceu aí. Antes disso eu era Cláudia Dias Batista de Souza, nascida em 30 de junho de 1947.

 

P/1 – A gente vai voltar um pouco na história da Cláudia antes de ser monja. Queria que você falasse primeiro um pouco sobre os seus avós. Você conheceu eles, teve contato com eles?

 

R – Ah sim, os avós por parte de minha mãe eram primos entre si. Eles eram do interior, viviam em fazenda. Tem uma cidade que se chama Apiaí, no interior de São Paulo, que era o nome do meu bisavô, ele era chamado de Capitão Apiaí. Eles, portugueses que vieram pra devastar as terras, prender os índios, chamava-se capitão do mato. Eles iam conquistando terras. Dizem que quando ele morreu, ele tinha 17 filhos e cada um ficou com 2.300 alqueires e a outra metade era da esposa, uma coisa meio extraordinária, inacreditável. O meu avô era o filho mais novo, e quando nasceu eles deram a ele um pequeno menino escravo pra cuidar dele. Ele vive o fim da escravatura, ficou grande amigo dos negros que trabalhavam na fazenda, gostava muito de música e ele aprendeu com eles a cantar e a tocar. Ele tinha um ouvido perfeito, ele tocava tudo por ouvido e nisso ele acaba se encontrando com a minha avó, que era uma prima dele.

 

Minha avó, que ia ser freira, ela não queria se casar porque parece que os pais dela não tinham um relacionamento muito bom, o meu bisavô teve seis filhos com a minha bisavó e ele tinha uma outra mulher e a minha bisavó sofria muito por causa disso e a minha avó não queria casar, ela dizia: “Não, coisa horrível, eu não quero passar pelo que minha mãe passa”. Mas quando ela conheceu o meu avô, que veio tocar violão na casa dela, declamava, tinha poesia, ela gostava muito de piano, ela tocava música. Naquela época todos aprendiam francês, era um tipo de educação. O pai da minha avó tinha uma comenda do reino, coisas desse gênero, e era um poeta - tinha poesias que fez pra ela, tinha reuniões na casa deles sobre poesia, saraus, naquela época era muito comum. E em um desses saraus o meu avô foi, eles se apaixonaram e se casaram. Precisaram até pedir autorização ao Papa, naquela época, porque eram primos muito próximos, mesmo, e casaram. Desse casamento, tiveram seis filhos, morreram três. Dos três que vingaram, a minha mãe é uma delas.

 

Minha mãe cresceu na fazenda. Ele foi diretor de escola, mas sempre fazendeiro. E a minha mãe morou na fazenda até os 12 anos. Disse que gostava muito de derrubar os tourinhos, que ela pegava pelo chifre e virava, andava descalça. E ele dava aula pros filhos em casa. Uma das coisas que ela conta, que eu achava muito interessante, é que ela queria provar muito ao mundo que ela não tinha medo. E naquela época dizia-se que nas encruzilhadas, à noite, apareciam mula sem cabeça, fantasmas. Ela acordava sozinha no meio da noite, ia pra estrada, ficava com o bracinho cruzado: “Quero ver se aparece. Não acredito que isso existe”. Desde pequenininha ela já tinha uma certa força.

 

Quando entra na escola, ela já vai pulando de anos. Naquela época era possível por causa das idades, ela passa alguns meses em cada ano da escola até que ela pega a turma da idade dela. Foi muito inteligente, sempre foi a primeira da classe e é nisso que ela encontra o meu pai. O meu pai é filho de imigrantes portugueses, o meu avô paterno queria ser padre, ele fez um pré-seminário em Portugal, ele trabalhava em uma paróquia e a irmã do padre é a minha avó. Ele se apaixonou pela minha avó e falou com o padre, que era o seu tutor, e o padre disse a ele: “E o que é mais importante pra você, a vocação ou o casamento?”. Ele disse: “A vocação” “Então mude-se, vá para outra cidade”. Ele se mudou e para uma terceira cidade, sempre trabalhando em paróquias, com padres. Na terceira cidade estava andando de bicicleta e viu a minha avó na rua, porque o padre também tinha se mudado para essa terceira cidade. Ele chegou a conclusão que era o que Deus queria e ele se casou com a minha avó e largou a batina. E ficaram em Portugal, tiveram três filhos e vieram para o Brasil. Na verdade ele queria imigrar para os Estados Unidos, havia uma grande imigração portuguesa no centro dos Estados Unidos e quando ele estava vindo, praticamente tudo acertado, um amigo disse: “Nos Estados Unidos há muita discriminação. Você vai ter muito preconceito, não fala a língua, é mais difícil. Por que não vai ao Brasil que é a mesma língua?”. E eles decidiram, meio de última hora - ele foi contratado pra ser professor em uma fazenda, na Noroeste.

 

E quando chegaram começaram os dramas: não havia ninguém esperando no porto de Santos, era um casal com três crianças, minha avó nunca havia visto negros, que era uma coisa que a deixava meio assustada, surpreendida. Foi difícil pra eles chegar a essa fazenda, foi uma coisa meio extraordinária, uma epopéia. E quando chegaram era casa de terra batida, uma casa muito pobrezinha, que ela não estava acostumada. Mas não era nem a pobreza da casa que a incomodava, eram as baratas, tinham baratas voadoras enormes e ela ficou muito apavorada. Ela fazia meu avô fechar todas as janelas, ficavam todos trancados, morrendo de suor, pingando, por causa das baratas.

 

E ela insiste muito com ele pra sair de lá, não ficar na fazenda. Ele era professor, fica na escolinha da fazenda, o contrato acho que era de uns dois anos, e ele se muda pra São Paulo. E aqui em São Paulo ele é professor no que naquela época se chamava Instituto de Educação Caetano de Campos, onde hoje é a Secretaria da Educação, lá na Praça da República. Ele trabalhava em três escolas, dava aula de Português, Francês e Latim. Alugou uma casa na Rua Barão de Itapetininga, que era um pensionato pra pessoas que tinham os filhos pra vir estudar em São Paulo e moravam no interior. Foi nesse pensionato que meu pai cresceu, com muita criança em volta - meus avós tiveram mais três filhos, o meu pai é o mais novo dessa família - e muita bagunça em casa, pouca comida, muito trabalho.

 

Coisas interessantes que ele conta da educação do meu avô: ele era chamado de “menino perigoso”, meu pai era muito levado e fazia coisas erradas. Aos domingos eles podiam assistir ao filme de Tarzan e o pai, na hora das crianças saírem, dava o dinheirinho certinho pra cada um pra comprar, era seriado e ninguém queria perder o filme. Se ele havia feito alguma coisa errada, quando chegava na hora, todo vestidinho, tomou banho, se arrumou, foi lá com a mãozinha assim, o pai dizia: “Não, você hoje não vai porque você fez isso, isso e aquilo”. E aquilo era a pior coisa que poderia acontecer, perdia o seriado do Tarzan. E com isso ele teve uma educação, vamos dizer, de prestar atenção no que faz, porque ia ser punido; não tem uma punição que depois é abrandada, não. Não batia, não gritava, mas punia.

 

Meu pai foi encontrar com a minha mãe na Escola Normal, que era formação de professores, os dois eram os primeiros alunos da classe. Aí, se apaixonam, minha mãe morava em um pensionato em São Paulo porque meu avô estava na fazenda ainda. Nesse processo a minha mãe perde uma irmã que tinha 20 e poucos anos e morreu, tinha tuberculose, foi fazer uma cirurgia e morreu da cirurgia. E é mais ou menos nesta época que ela se casa com o meu pai, eles se casam no interior, acho que em Pirajuí, e vêm morar em São Paulo.

 

Ela primeiro vem morar na casa da minha avó. Minha mãe veio da fazenda, da abundância, onde tudo era meio abundante e a casa da minha avó era a casa de uma pessoa que havia morado nas paróquias, havia um grande respeito de economia, de fazer tudo o mínimo possível. A briga era porque a minha mãe usava muito papel higiênico, deixava a luz acesa, coisas assim, tinha hábitos que não eram compatíveis com os da minha avó. E as duas tinham uma grande dificuldade de convivência. Nessa época o meu pai tinha se formado também em Biblioteconomia e ele trabalhava na Biblioteca Nacional, e pediram a ele que fosse arrumar a bibilioteca de doutor Adhemar de Barros, que era um político aqui em São Paulo. Ele foi arrumar essa biblioteca e doutor Adhemar pediu a ele se ele não podia ser o seu secretário. Ele ficou muito confuso porque não era o seu propósito, mas ele acabou aceitando. A minha mãe era professora, começo de carreira, e trabalhava em Santos. Então, eles se encontravam nos finais de semana porque ela passava a semana toda em Santos, trabalhando. Aos pouquinhos eles foram construindo condições.

 

No começo meu pai tinha três empregos, assim como o pai dele tinha tido três empregos, ele também tinha três empregos. E minha mãe tinha esse emprego em Santos, de professora. Aos poucos ela foi transferida para São Paulo e eles ficaram morando juntos e foi quando ele recebe esse convite para trabalhar no governo, era o governador na época eu acho, e ele vai fazer essa biblioteca e se torna secretário particular de Adhemar de Barros - o que ele fez durante quase toda a sua vida. Teve alguns cargos, Secretário da Fazenda aqui do Estado. Ele tinha profunda adoração pelo Adhemar de Barros, e eu acredito que pela democracia e pela crença ao partido que ele pertencia, que eu sei pouquíssimo sobre isso, chamava Partido Social Progressista, ele achava que aquilo representava um ideal de vida, era muito dedicado, realmente.

 

Tenho uma irmã mais velha, Branca, que nasceu dois anos antes de mim. Nessa época nós morávamos nos Campos Elíseos, que era perto do Palácio, um apartamento onde muitas vezes a gente jogava pelas janelas papéis do palácio ou coisas do governo. Criança brinca. E as pessoas tinham bar embaixo e eles vinham trazer os papéis, documentos importantes que voavam pela janela. Nisso meu pai se apaixona por uma mulher muito linda que trabalhava com ele, que era secretaria dele e minha mãe ele se separam. Nessa época eu devia ter dois, três anos de idade, então, eu tenho poucas memórias disso.

 

Tenho algumas memórias dos meus avós por parte de mãe, que vinham todos os dias pra nossa casa e amarravam as cortinas pra fazer balanço, traziam balas e a gente brincava muito. Os avós por parte de pai eu via muito pouco, talvez a minha mãe com a minha avó não tenham se entendido muito bem morando juntas e não tinham muita intimidade. Depois da separação dos meus pais ele construiu uma casa pra ela no Pacaembu e outra pra ele, dois quarteirões de distância com sua nova esposa. Naquela época era muito difícil as mulheres desquitadas, não havia divórcio, não eram bem vistas. Mesmo pra nós, pra ir pra escola, minha mãe achava que era importante estudar em colégio de freira pra ter uma boa educação, bons modos. Nos colégios não admitiam filhos de desquitados, a não ser que fossem internas. E minha mãe não queria que a gente fosse interna, então, tinha que mentir. A gente ia à escola dizendo que tinha pai e mãe em casa, não era pra contar pra ninguém que o pai não morava em casa. Era sempre uma situação meio difícil, que me impedia muito de ter amigas, eu não podia trazer amigas em casa porque iam ver que não tinha roupa de homem em casa. Criança logo percebe. Era uma situação... tinha uma mentira ali envolvendo a nossa intimidade familiar que não podia ser revelada na escola. Isso é um pouco difícil.

 

O jardim da infância eu fiz no Caetano de Campos, eu não queria ir de jeito nenhum, eu lembro da minha mãe me arrastando pelos corredores e eu berrando. Quer dizer, devia ser uma criança chatíssima. Minha mãe arrastava, eu berrava, ela dizia: “Vai ser bom pra você”. E claro, depois que as aulas começam foi divertido, mas eu gostava muito da minha mãe, de ficar com ela. Nessa época ela já era Inspetora Federal do Ensino Secundário, é um cargo que ela ia inspecionar os colégios do governo. Ela trabalhava para o Governo Federal, Ministério da Educação, e ver como era o índice de aproveitamento dos alunos e como os professores estavam ensinando e se os diretores estavam fazendo adequadamente o ensino. E muitas vezes ela me levava com ela, eu gostava muito disso. Não me deixavam muito com pajém. A gente tinha pajém em casa, pessoas pra cuidar, mas ela me levava junto e isso era extremamente agradável. Eu perder essa companhia e ir pra escola foi muito doloroso, eu ia pros colégios com ela, assistia aulas junto com ela e quando ela fazia as papeladas que ela tinha que examinar nos colégios etc, eu ficava ao lado desenhando e me sentia muito bem com isso. Então, o primeiro dia de aula foi um horror, depois gostei muito.

 

Lembro de algumas brincadeiras na escola, lembro de uma vez, uma brincadeira entre crianças e alguém enfiou um lápis, nem sei mais, acho que nesse dedo aqui, tenho ainda azulzinho aqui. A ponta do lápis entrou aqui dentro, foi uma coisa horrível, uma dor muito grande. E a gente tinha que dormir, depois de uma determinada hora, a criançada toda tinha que por a cabecinha na carteira e dormir. Aquilo era um sacrifício, mas era muito divertido. Foi uma época muito boa. Aí, mudei de escola, fui para um colégio chamado Santa Inês. Primeiro fui para um chamado Madre Cabrini, nesse era muito severo, se a gente fazia coisas erradas ficava sentada numa cadeirinha num banquinho e tinha um chapéu de bobo, aquilo era terrível. Tinha uns que amarravam as crianças com a cordinha na cadeira. Eu contei pra minha mãe e ela nos tirou da cordinha, do castigo, que eram sistemas muito antigos de educação. Os meus avós vinham todos os dias ficar em casa, almoçavam conosco, fins de semana a gente estava com eles, e meu avô contava o seguinte: que o professor dele batia com ele com a palmatória e muitas vezes punha as crianças sentadas de joelho em cima do milho porque não haviam se comportado. E que a nossa educação era muito fácil, que isso não era nada. Que era proibido falar à mesa, eram 17, alguns já eram casados, estavam todos morando juntos no mesmo lugar. Disse que o pai sentava na cabeceira da mesa e ele tinha um chicote, então, ninguém podia falar, mas por debaixo da mesa tinha a maior briga de cutucões, beliscões, etc, tudo com a carinha de que não estava acontecendo nada. E quando este meu bisavô morreu, ele foi morto pelos índios, em uma emboscada, pelas costas. Disse que era um homem muito grande, que pegava os índios, dois de cada braço, imagino que devia ser um gigantão, com os valores daquela época. E disse que minha bisavó assumiu a mesa e o chicotinho. Que continuou com aquele rigor de não se fala nas refeições. E isto ele geralmente dizia porque nas refeições eu e minha irmã brigávamos muito , era a hora da briga, de falar tudo o que não devia e ele ficava muito horrorizado que a minha mãe fosse tão permissiva. A minha mãe, como educadora e já entrando em Psicologia, que era uma linha que a interessava muito, ela acreditava que em vez de punição e bater era muito mais interessante você conversar e convencer. Então, o trabalho todo dela era isso, de uma abertura. Ela chamava os pais dela de senhor e senhora e nós chamávamos de você. Porque ela nos ensinou a chamar todos de você, já tinha uma visão mais democrática, de igualdade, eqüidade, não importa se mais velho ou não, equivalem o seu valor. Isso foi interessante nesse processo.

 

O meu avô tinha histórias que eu adorava, de valentias, a família era meio conhecida no interior, eram vários irmãos, fortes e bons de tiro. Então, uma vez ele foi em um bar, estava lá, parece coisa de saloon, de cowboy. Disse que chega um cidadão, levanta, pega o revólver e fala pra todo mundo: “Agora você dança, dança, dança”. E o meu avô ficou na fila. Disse que quando chegou na vez ele, ele olhou para esse senhor e disse assim: “Você me conhece”. O outro disse: “Lobo não come lobo, este não dança”. Eu achava isso maravilhoso. E disse que não era só ele, era a família dele. O irmão mais velho dele era muito respeitado, e era aquela época que a política era toda conseguida realmente por você ir lá, colocar a arma no peito do outro: “Você vai votar em quem eu estou mandando”. Era uma situação. E me contava também de uma irmã dele, que chamava Hermengarda casou-se com um homem muito tímido, muito covarde, e que então, quando chegou a época das eleições, o pessoal do partido contrário, do grupo contrário, veio na porta da casa deles pra assustá-lo, bateu na porta e ele se escondeu embaixo da cama. E ela foi lá, com a espingarda na mão, Hermengarda com a espingarda, abriu a porta, apontando pra eles: “O que vocês querem aqui?” e saiu todo mundo correndo. Tinha umas histórias de valentia que foi muito instigada quando criança. Outra vez ele tava andando na estrada à noite, tinha uma emboscada, e claro que ele percebeu e continuou caminhando e quando eles vieram - veio um de cada lado -, quando eles se aproximaram, ele já estava com o revólver na barriga do cara. Então, não houve muito emboscada porque ele era muito ágil, apagava vela à distância. São coisas que eram um outro universo, um outro mundo.

 

E o menino que havia sido dado a ele como guardião dele, pajém dele, quando ele nasceu, ele vai encontrar muitos anos mais tarde, também na estrada, também a cavalo, e ele estava a pé. Ele já tinha tido alforria, a fazenda que era do meu bisavô foi uma onde, quando houve a libertação dos escravos, a maioria ficou lá, só um foi embora, porque eles eram muito bem tratados, sendo que na do primo, que era ali perto, foram todos embora e só ficou um, foi o oposto, porque ele maltratava mesmo. Disse que meu bisavô, não, já tinha uma outra maneira de ser. E ele encontra esse jovem agora, e ele começa a segui-lo e ele diz: “Vai embora, eu estou indo para esse lado, você está indo para o outro, sua casa é pra lá, para de ma seguir”. “Não, sinhôzinho”. Até que meu vô resolve apear do cavalo, ele apeia, senta embaixo da árvore, conversa com ele muito tempo, contando a sua vida, contando tudo, e ele diz: “Agora te dou uma ordem, você vai embora”. Porque pra ele era um pouco filho dele, ele viu ele crescer e tal.

 

Meu avô teve algumas dificuldades, ele saía com os irmãos mais velhos, caiu do cavalo, entrou uma vara no peito, tinha uma deficiência no pulmão por causa disso. Outra vez caiu cal em um dos olhos, quase ficou cego. Uma outra vez pegou fogo na cabeça, ele saiu correndo. Ele tinha histórias que eram muito extraordinárias, não eram coisas comuns. Enquanto a minha avó, esposa dele, rezava o terço. Ela queria ter sido freira, adorava rezar, só pensava em igreja, sempre ficava pensando qual igreja ela queria ir, queria muito que nós fossemos religiosas, não que nos tornássemos religiosas, mas que fôssemos à igreja, que tivéssemos fé, comungássemos, beijinho de Jesus e coisas do gênero. E eu, com 13 anos, já começo a questionar toda essa estrutura, tudo o que eu estou vivendo, mas eles tiveram uma importância muito grande. Minha avó declamava, tocava piano, nós tinhamos sarau na nossa casa. Os filhos do César, que são os Mutantes, eles vinham, mas quem vinha era a mãe deles que era uma grande pianista, Clarice Leite. O marido, César, cantava. Então, nós tinhamos sarau quase todas as semanas, praticamente a família se reunia na casa de um ou de outro, que eram muitos filhos. O irmão do meu avô, que é o avô dos Mutantes, ele teve 13 filhos. Então, tinha sempre aniversário de alguém, tinha sempre alguma coisa acontecendo. E era sempre cantar, dançar, ninguém bebia, era interessante isso, não se fumava, não se bebia, cantava-se, tinha poesia, tinha música. Minha mãe declamava.

 

Minha mãe foi uma professora de declamação também, ela disse que quando eu era bebezinha, no berço ela dava aulas de declamação enquanto me ninava. Então, isso foi também uma boa influência porque, com seis anos de idade, ela ficou muito orgulhosa que eu decorei duas poesias sem saber ler. E é interessante que essas duas poesias, uma dela chamava-se, “O menino bacural”, e contava a história de um menino negro que não pode brincar com os meninos brancos, eles fazem pouco dele, riem dele. E ele não tem dinheiro pra comprar doces nem nada e ele pega o que cai do chão. E no fim o menino morre, tuberculoso. Então, era uma poesia muito triste e, ao mesmo tempo, já tinha um cunho social. A outra poesia que eu decorei também era de um menino e se chamava “O vendedor de jornais”. Este vendedor de jornais anunciava o crime de hoje, e o crime que ele anuncia é o crime que o pai dele cometeu. Então, as minhas primeira poesias já eram poesias sociais e eu acredito que minha mãe tinha muito esse olhar. Ela declamava muito, principalmente na questão de mulheres, na questão de negros no Brasil. Esse olhar sempre foi muito de anti-escravagista, evidentemente, e de inclusão. E nós sempre tínhamos pessoa que trabalhavam em casa e ela sempre facilitava muito pras mulheres que tinham filho, colocar as crianças na escola, ela acolhia mulheres grávidas pra trabalhar em casa, mulheres com criança pequena, o que a vizinhança não fazia. Ela tinha um olhar de cuidar de mulheres de uma maneira mais ampla que as pessoas a minha volta.

 

Da família de meu pai, pouquíssimo convívio. De vez em quando a gente ia lá visitar vovó, vovô. Meu avô era muito alegre, muito brincalhão e a minha avó era séria, mãezonha, séria, mas era suave. Ela gostava de ficar no escurinho, não podia usar perfume, não podia usar nada, era muito sensível a qualquer odor, então, na casa, ninguém usava nenhum perfume, não podia visitá-la com perfume. Naquela época, começando a ficar mocinha, passava pó de arroz, mas pra ir pra casa da vovó não podia porque ela percebia e passava mal, não gostava.

 

Aí, fui crescendo com a minha irmã, brincando muito. A minha irmã é mais velha, importante irmão mais velho. Porque nos abre os olhares, nos mostra o mundo, dismistifica tantas coisas, e era sempre essa irmã mais velha que dizia: “Papai Noel não existe, olha lá o papai trazendo” e coisas do gênero. Brincávamos e brigávamos muito, aquela história “Não encosta em mim” etc. Ela vai fazer Medicina e quando ela estava no cursinho, eu lembro que um dia ela chegou e me disse: “Você sabe que nesse pedacinho de papel tem o papel inteiro?”. Isto foi uma coisa muito importante na minha vida, porque isso é o que o Budismo vem dizer, cada parte é o todo. Isso ficou gravado assim, foi uma jóia de informação que ela me deu. Então, ela me trazia informações muito ricas do mundo, de descobertas.

 

A minha mãe estudava. Depois que se separa ela vai fazer Faculdade de Filosofia e eu queria estar com ela, então, ela me fazia ler os livros que ela queria estudar. Então, isso deu aberturas incríveis. Com nove anos de idade eu comecei a ler Antropologia pra ela. E esse livro de Antropologia que me marcou muito era das várias sociedades na África, sociedades patriarcais e matriarcais, isso eu fiquei muito impressionada de ver valores, outras maneiras de ser no mundo, foi muito interessante. O que mais aconteceu nessa época...

 

P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe?

 

R – Meu pai chama José, minha mãe Branca.

 

P/1 – Como a sua irmã?

 

R – Como a minha irmã. A minha irmã mais velha recebeu o nome da minha mãe. A minha mãe queria me chamar Sílvia e meu pai foi registrar e registrou Cláudia, como ele queria. Então, ficou Cláudia porque ele quis assim.

 

P/1 – O Pacaembu, como era o ambiente naquela época? Conta um pouco do bairro, São Paulo.

 

R – O bairro era novo, a City tinha criado aquele bairro, o Estádio Municipal do Pacaembu tinha acabado de ser construído e a nossa casa eu acho que tinha só... Era a última casa da rua, tinha um terreno baldio do lado, ainda tinha muitas coisas em construção, o bairro não estava pronto, era considerado um bairro distante, perigoso e escuro. As pessoas, familiares, achavam que era muito longe pra visitar, era meio problemático. A minha mãe tinha carro, o que era uma coisa rara na época. Ela tinha um Ford maravilhoso, a gente andava pra cá e pra lá, a gente ia buscar o avô em casa, ele morava na Avenida São João. Era um bairro novo. Minha mãe tinha amizade com uma senhora que era viúva e morava duas casas abaixo da nossa e que tinha muitos filhos. Tinha filhos das nossas idades e esses que eram mais próximos de mim e da minha irmã eram os nossos amigos e a gente brincava muito com meninos, não tinha meninas na rua. A vizinha tinha uma mocinha que não brincava conosco. O que a gente fazia quando voltava da escola, eu principalmente: a minha irmã tinha uma bicicleta que era maior que a minha, a minha tinha rodinha, a dela não tinha, era uma Caloi preta, linda, e eu chegava em casa, pegava a Caloi dela e ia pro estádio. Eu ficava passeando no estádio, tinha muita criança na rua nessa época. A gente andava livremente, de vez em quando a gente pegava matilhas de cães, tinha muitos cães soltos, e trazia tudo pra dentro de casa e dava toda a carne que tinha na geladeira. Minha mãe chegava e ficava... Não podia. Ela buzinava quando chegava pra alguém abrir o portão pra ela, e tinha aquela matilha de cães, uns cinco, sete, sempre tive essa tendência de gostar dos bichinhos e trazer pra casa. Ela mandava tudo embora de novo.

 

P/1 – E essa proximidade do estádio, pra menina, mudava muita coisa, não?

 

R – Era gostoso o estádio, a gente brincava lá dentro, eles deixavam entrar. A gente entrava por onde entravam os jogadores de futebol e brincava no campo. Então, no estádio era o meu quintal, era uma delícia aquilo.

 

P/1 – Mas futebol, mesmo...

 

R – Não, futebol nunca joguei. Eu corria, gostava muito de correr. E a gente subia nos muros. A brincadeira era essa, não sei bem porque, mas gostava de andar no muro, subia no muro, brincava e andava de bicicleta. E, de resto, estudava, a gente estudava porque tinha o exemplo da minha mãe. Minha mãe adorava estudar, ela montava uma mesinha, punha os livros dela e falava: “Agora, não me incomodem que eu vou estudar”. E falava aquilo com a boca cheia e prazer, gostava mesmo. E desenvolveu na gente que estudar era uma coisa gostosa, era uma coisa prazeirosa, não era um sacrifício, uma obrigação. Mas a gente fazia mesmo por obrigação, a gente chegava, fazia lição, “Estou livre”, e ia brincar. Brincávamos juntas de lojinha, casinha, mas a minha irmã sempre me fazia ser a rainha, ou seja, a rainha vestia o vestido da mamãe e ficava sentada na cadeira, e ela fazia tudo . Eu brinco com ela dizendo que ela fez foi uma monja meditativa.  Sempre fui sentada, de criancinha. E ela fazia, ela vendia, era todos os assistentes do rei. Eu era a rainha parada: “Não, você não pode sair daí”. Quando brincava de casinha, ela era a mãe, eu era sempre a filha, eram as posições que ela me colocava, mas era bom brincar com ela.

 

Mas aos pouquinhos ela vai tendo amigas da idade dela, ela chega com as amigas e eu sou proibida de entrar no quarto. E aí, começam os problemas graves. Em uma das escolas, acho que era o Santa Inês, ela ia jogar queimada, eu queria jogar queimada com ela, e ela dizia: “Mas você não pode, então, você é café com leite”. Isso é a coisa mais horrenda que você pode dizer para uma criança. “Você está brincando, mas o que você fizer não vale”. Como não vale? Quando não deixava jogar eu chorava, e uma vez que eu estava chorando, a madre superiora passou e perguntou: “O que você está chorando?”, eu falei: “Porque ela não deixa eu jogar, que sou café com leite e atrapalho”. Aí, ela me levou na diretoria, me deu um bombom, me contou várias histórias, minimizou um pouco a minha dor. Eu gostava das irmãs, eu gostava do colégio, gostava mais de brincar e de correr, mas era suportável, não era insuportável. Minha irmã, não. A minha irmã já era muito agressiva e ela começou a criar uma coleção de santinhos, que a minha avó, que era muito católica, ajudava. Então, ela tinha um monte de santinhos assim. E uma hora ela estava brincando com os santinhos na hora do estudo - de manhã era estudo e à tarde tinha aula – e a irmã que tomou conta da classe e tomou os santinhos dela. E a irmã vendia santinhos, e minha irmã achou que eram os santinhos dela que a irmã estava vendendo. Ela levantou, fez um discurso contra as irmãs, que pareciam corvos, urubus, em cima das criancinhas, que as criancinhas eram carniças. Fez um discurso, chorando, vermelha. Ela ficava muito vermelhinha, tinha o cabelo bem liso, pretinho, assim. Vermelhinha, chorando e dizendo que as irmãs eram os urubus em cima das carniças, que eram as crianças. Os pais são chamados a escola, porque evidentemente as crianças ouviram isso de algum lugar e o meu pai realmente brincava com isso, dizia pra gente: “Olha lá as irmãs, parecem corvo, urubu” . E foi o que ela repetiu. E veio de novo a frase: “Essas meninas são muito indisciplinadas, elas só podem ficar aqui na escola se forem internas”. A minha mãe dizia “Internas não ficam” e a gente mudava de escola. A gente passou por algumas escolas por indisciplina e também pela questão do desquite dos dois.

 

Mais tarde a gente foi estudar no Instituto de Educação Caetano de Campos porque a minha mãe achava que lá era o melhor nível educacional da cidade. Realmente era, as escolas públicas eram superiores às escolas particulares em ensino; grandes professores, e foi muito agradável isso, foi muito divertido, era muito estimulante, tive uma experiência muito boa porque eu nunca havia colado, era sempre uma adrenalina: “Vamos colar, quem quer colar?”. Tinha uma prova, não sei se era Geografia, que eu falei: “Hoje eu vou colar, que delícia”. Peguei o livro, coloquei aqui embaixo. Eu tinha uma amiga, uma grande amiga, chamava Gláucia, e essa menina vê que eu tô lá colando feliz da vida, levanta-se e diz: “Professora, a Cláudia está colando”. Acabou. Eu tive muita dificuldade em ter amigos e amigas na minha vida. Essa menina me traumatizou pra sempre porque ela era a minha amiga. Aí, a professora veio: “Você está colando, Cláudia?”. Eu falei: “To colando”. Imagina, eu era a filha da inspetora, ainda tinha isso, dava o problema pra professora. Mas a professora não pôde fazer nada, pôs um zero e disse “Porque colou”. Levou a prova, porque os pais assinavam as provas. Levo a prova pro meu pai assinar, meu pai olha assim: “Que absurdo”. Faz um sermão. Dizendo “Você pode tirar zero por não ter estudado, por não saber, mas não por mentir, por fingir que sabia, isso não pode fazer”. Eu nunca mais colei. Realmente ela fez uma coisa boa pra mim, mas eu nunca mais tive nenhuma amiga, porque eram traidoras. Ela podia ter tido uma outra maneira de dizer. Antes ela disse: “Não cola que não é legal, não cola”. Eu falei: “Fica quieta, hoje eu vou colar”. Ela impediu que eu colasse na minha vida, mas impediu também que eu confiasse em pessoas, criou uma situação meio dúbia que ficou pra mim. Perdi essa amiga, não podia mais me relacionar com ela, não dava certo.

 

Tive um namoradinho, de telefone, de ficar horas. O que falava?! A gente fica pensando: “O que será que a gente falava tanto?”. E a minha mãe: “Desliga o telefone!”. Ficava horas. Chamava Marcelo, Marcelo Machado Vampré, inesquecível o nome. Esse é no Caetano de Campos. E depois acabou o primário. Era dividido, cinco anos de primário, depois o ginásio. No primeiro ano do ginásio eu ia muito bem, estava muito bem, tinha uma grande amiga chamava Lina Ribeiro, nós parecíamos irmãs, éramos parecidas. De novo, tô começando a criar um relacionamento e a minha mãe acha que estamos muito meninos, muito sem modos e que nós vamos estudar no colégio de freiras. E a minha irmã gostou, ela queria, e ela nos botou no Sion. E foi uma mudança muito difícil, primeiro porque eu perdi a minha amiga, mudar em outra escola você perde amigo. A irmã mais velha dela estudava lá, era uma menina lindíssima, foi uma das mulheres mais bonitas de São Paulo naquela época, nos lugares que a gente frequentava, Clube Paulistano. Chamava-se Luísa Ribeiro, era belíssima, linda linda. Era a minha deusa, eu olhava pra ela e falava: “Quero ser como ela”. Ela era muito bonita. Ela tinha os cabelos longos, era alta, tinha o nariz grande, reto, era muito bonita. E eu queria muito ser como ela. Ela pintava os olhos de preto, eu chegava em casa e pintava o meu parecido com o dela. Mas era diferente, ela era grande, era um mulherão mesmo, muito bonita. A gente estava na mesma escola, mas imagina se ela iria falar comigo. Eu era amiga da irmãzinha dela. E a mudança do Caetano de Campos para o Sion foi muita dura. Primeiro porque as meninas que estavam lá era mais ricas que nós, nós éramos classe média, elas eram classe média-alta. Tinham carros melhores que o nosso, motorista não tinhamos, tinham casa na praia, fazenda. Era muito difícil, isso. Elas já olhavam meio: “Vocês são menos aqui. Vieram de uma escola pública, nós estamos aqui desde o jardim da infância”. Então, houve uma rejeição muito grande da escola, que eu pelo menos senti assim. Talvez tivesse também de mim pra elas, mas eu não sei. Tanto que eu tive poucas pessoas que se aproximavam, que conversavam e brincavam comigo. Eu ia mais pra turma do fundo. Eu ficava mais à vontade no fundo da sala. Uma menina ficou meio minha amiga, depois ela foi embora. Ela era a bagunceira da classe e foi transferida para a Suiça, foi estudar na Suiça. Eu perdi a minha possível amiga na escola. Tinha uma outra que pedia para eu fazer as provas pra ela, era minha amiga porque ela não estudava. Então, eu fazia minha prova, ela passava a dela e eu fazia a dela. Veja se pode uma coisa dessas.

 

Mas o que me incomodou lá foi uma determinada época eles pediram pra que todas as alunas, só tinha mulheres nessa época lá, escrevessem uma redação para ver quem iria ganhar o prêmio e tal. Eu lia muito, com nove anos de idade, não só lia os livros de antropologia da minha mãe, eu comecei a ler Eça de Queiroz, gostava muito de poesia, Cassiano Ricardo, mas Eça de Queiroz foi uma descoberta. Ele era maravilhoso, comecei com Mandarim que era um livro mais fininho e fui lendo: Crime do Padre Amaro, Pedro Basílio, nem lembro mais, mas eu ia lendo e gostava. E todos os livros que meu pai dizia: “Isso aqui não é pra você, é proibido”, eram os meus livros. E tinha facilidade de escrever, pelas poesias que já tinha memorizado. E fiz um texto lá e ganhei, ganhei o segundo lugar na escola, o primeiro foi uma menina que estava se formando e as meninas da minha classe disseram que era mentira, que não tinha sido eu que tinha escrito. Então, foi a primeira benção de amor das minhas coleguinhas. Eu falei: “Mas claro que fui eu que escrevi”. Elas disseram: “Mentira. Se você sabe escrever, então escreve uma coisa pra gente ver você escrevendo”. Eu falei: “O que vocês querem que eu escreva?” “Uma carta de amor”. Falei, tá bom. Eu escrevi, elas disseram: “É mentira, você decorou”. Não tinha jeito, não ganhava nunca, só perdia, não tinha condição. E aquilo foi difícil.

 

E duas coisas acontecem simultaneamente nessa época. Primeiro, eu gostava da clausura e me sentia atraída pela clausura. Era proibido entrar. Então, eu gostava de ir lá espiar. E as freiras andavam pelo cantinho dos corredores, eu achava isso maravilhoso. Elas andavam silenciosamente pelos cantinhos e tinha a clausura, que eu espiava pela portinha sempre que podia, o que era a clausura. E quando eu ia pra capela, e muitas vezes eu ficava olhando pra imagem de Nossa Senhora e eu achava que ela mexia, e ela mexia. Eu falava: “Ela mexia, que maravilha, é comigo”. E eu vou falar pra quem? Eu vou falar pra minha irmã mais velha, maravilhosa, que diz o seguinte: “Qualquer pessoa que olhar fixo para uma imagem ela mexe, isso se chama ilusão de óptica”. Então lá se foi. Eu tive um sonho, quando eu estava na escola, que eu estava com as freiras e com Jesus tomando um chazinho. Nós estávamos todos sentados, Jesus estava ali, e nós tomávamos chazinho, ria, conversava. E eu contei isso pra madre responsável pra minha classe e ela disse: “Isso é um chamado. Nós dizemos que isso é um chamado, que você está nessa intimidade conosco, é um chamado religioso, você pense sobre isso”. Aí, fui toda feliz dizer pro meu pai que eu queria ser freira, que eu tinha tido um chamado e ele disse: “Tudo o que você quiser no mundo, menos freira”. E ele tinha uma crítica muito grande à Igreja. Na época eu não entendia, ele dizia: “São coisas muito hipócritas, porque falam e não cumprem”. E ele na política tinha tido experiência com alguns padres que iam fazer pedidos não só de coisas monetárias, mas pediam que trouxessem mulheres, que queria fazer umas pequenas festinhas íntimas. Então, ele tinha uma noção muito negativa à respeito da Igreja. E talvez, também pelo fato de meu avô, que depois de ter se casado como antigo padre ele foi excomungado. E foi só na minha infância que o meu avô voltou à Igreja. Meu avô nunca perdeu a fé, ele só quis se casar. E naquela época não era permitido. Então, acho que meu pai tinha um certo rancor que o pai dele, que ele adorava tanto, não fosse acolhido na Igreja. Então, ele era muito contrário à qualquer coisa relacionada à Igreja.

 

Se ao mesmo tempo eu tinha essa tendência, e a santa mexia pra mim, e Jesus tá me chamando, ao mesmo tempo eu ia com a minha mãe no cabeleireiro e aí eu começo a pintar o cabelo, fazer mechas, hoje se chama luzes. Eu tinha 13 anos de idade, ninguém fazia isso na classe e eu adorava porque era uma coisa que ia chamar a atenção. Eu fiz lá, e eu chegava me exibindo. Fui passar uma temporada no Rio com a minha mãe. Ela morou uma parte de sua vida, da adolescência, no Rio. Gostava, tinha primas lá. Quando voltei fiz uma amiga, essa amiga morava em um prédio chamado Bretani, que fica quase em frente ao Sion, e ela fez uma festa. Eu fui nessa festa e nessa festa eu encontro quem vai ser o pai da minha filha. O Scavone estava lá, Antônio Carlos Scavone, ele estava lá com amigos, de terno, imagina, um homem de terno me tirando pra dançar, achei o máximo. Com 13 anos de idade. Eu tive, entre o primeiro namorado foi o Marcelo Machado Vampré, que foi o telefone. Depois eu namorei o Marcelo, foi do Paulistano, que foi o meu primeiro beijo. O Marcelo, a gente se encontrou em uma festa, deu um beijo, que coisa maravilhosa. Na segunda vez que nos encontramos ele queria dar um beijo, eu falei: “Não, me disseram que não pode beijar”. É proibido beijar. Ele falou: “Você é toda ao contrário, as outras meninas, primeiro não beija e depois beija, você primeiro beija e depois não beija mais”. E o terceiro namorado foi esse, Antônio Carlos Scavone.

 

Eu era muito grande, cresci muito rápido, com 13 anos eu parecia ter mais idade. E a gente começou a namorar e a minha mãe já desesperada, ele tinha 20 anos: “O que essa moço de 20 anos vai fazer com a minha menina de 13?”. Ela não saía da sala, ficava grudada: “O que vocês estão conversando? O que vocês estão falando”. Tive um namoro muito vigiado pela minha mãe, a gente combinava de se encontrar escondido, ele subia pela janela do meu quarto. A gente teve um romance meio proibido. E numa dessas vezes ele me telefonou, que era pra combinar se ele vinha me visitar ou não, eu estava brava com ele, alguma coisa que ele fez e eu não gostei, nem lembro. “Então tá bom, até amanhã, passe bem”. E pá, bati o telefone. E ele achou que eu estava fazendo isso pra que minha mãe não soubesse que ele ia lá. E eu fui dormir. Briguei, estava de mal, fui dormir. Estou dormindo, de repente acordo com o meu pai batendo na porta do meu quarto, com uma fúria: “Abre essa porta!”. Eu falei: “O que foi pai, o que aconteceu?”. E ele com os sapatos do Scavone na mão. Ele tinha ido lá e ficou lá. Só que quando ele e a minha mãe viram ele entrar: “Onde que esse moço está indo?”. E nós tinhamos uma moça que trabalhava em casa e que era muito bonita e ela falou: “Vai ver que tá namorando a empregada”. Foi até o quarto da empregada, acordou a empregada, não estava lá. Só pode ser no meu quarto. Batia e eu não acordei, minha mãe disse que tocou várias vezes e eu não acordei. Acordei com a voz do meu pai, furioso, que foi chamado à noite da outra casa pra vim pra cá. Eu acordei, meu pai encontrou ele no jardim, saiu com ele e a minha mãe falou comigo, e a minha mãe: “Mas o que é isso, o que aconteceu? Como é que faz? Vocês ficavam conversando pela janela?” “Mas que janela, nada. Você não me pega”. Eu tinha uma coisa de dizer pra ela: “Não, ele subia aqui sim, a gente tinha relações sim e você nunca pegou. Você tenta me vigiar e não consegue”. Então, eu estava querendo dizer pra minha mãe que eu a enganava. E ele no carro com o meu pai, com muito medo, dizendo: “Não, a gente só conversava pela janela”. Tudo o que ele queria era que meu pai não ficasse bravo. E meu pai todo contente, veio dizer pra minha mãe: “Não, era só pela janela”, e a minha mãe: “Não, mas ela disse que não era pela janela”. “Então, vamos levar a menina ao médico”.

 

Aí, me leva ao médico pra fazer exame, se é virgem, se não é virgem, porque naquela época tinha que ser virgem pra casar. Imagina, se perdeu a virgindade perdeu a moça, o futuro da família. Nós vamos ao médico e o médico diz que eu sou virgem. Aí eu falo pro médico: “O senhor está errado, não posso ser virgem”. Aí, ele tem uma teoria lá que podia ser virgem, apesar de ter tido relação. Enfim, a conversa: é não precisa casar. A idéia era pra dizer: “Não case, você não precisa casar, você está inteirinha, não se preocupe com isso, esquece”. E eu comecei a bater o pé dizendo que eu queria casar, imagina, com 13 anos. A minha mãe consegue do meu pai o que ela sempre quis, uma viagem pra Europa: “Vamos fazer ela esquecer o namoro”. Então, fomos. Era pra ficar um mês, ficamos três meses e eram só cartas e cartas, tem pilhas de cartas de amor. Ele pra mim, eu pra ele. Mas a viagem foi linda, a Europa era maravilhosa, realmente tem uma expansão de consciência. A gente voltou de navio, estava todo mundo queimado de sol do navio. Quando chega ele estava tão palidozinho, lá no porto esperando, tadinho. E eu falei: “Nossa, eu vou casar mesmo”. E em Paris a gente comprou vestido, fomos em um... chamava acho que Givenchy. O vestido foi feito no corpo, tal, gastou uma fortuna, fez todo um enxoval de noiva, um baú cheio de coisas, roupas, e casei. E a minha mãe dizia: “Não precisa casar, se você não quiser casar, não tem importância”. E eu falei: “Não, agora vou casar”. E casamos.

 

Eu tinha 14 anos e ele tinha 21. Era uma boa diferença. E eu era muito criança, evidentemente. E mais tarde, quando ele começa a correr de automóvel, a se interessar por corrida, ele compra dois carros de corrida, ele foi uma das pessoas que inicia a Fórmula 1 no Brasil, em Interlagos, tal – ele mesmo não corria Fórmula 1. Ele me levava junto e eu não tinha papo, não tinha o que conversar. Eu era a bonitinha, eu sentava, me maquiava muito, não aparecia na frente dele sem maquiagem, o cabelo todo arrumado, salto sete e meio e sentava em silêncio porque não dava pra falar muito, o papo não rolava. E ele não queria que eu disesse, mas nessa época eu já tinha 15 anos, já tinha feito um ano de casado. Não era para eu falar que tinha 15, ele ficava sem graça. Diz que você tem 17, 18. E eu falava: “Não vou mentir”. Porque eu adorava quando falavam: “Você tem uma pele tão bonita, quantos anos você tem?” “15” “Ahhhhh”. Essa cara de fazer ‘ah’, eu adorava isso e ele ficava passado. E ele tinha 22 anos de idade.

 

P/1 – Vocês moravam sozinhos?

 

R – Morávamos sozinhos. Isso foi muito interessante porque se antes eu não podia ficar sozinha com ele, não podia dar beijo, não podia nada, no dia do casamento o meu pai me levou para o apartamento que eu iria morar com ele e eu falei: “Que coisa absurda, não é? Porque nós assinamos um papel, nós podemos morar juntos agora, antes não podia encostar!”. Tudo aquilo vai mexendo muito na minha cabeça, é muito forte. Eu não sabia fazer nada, ele me ensinou a fritar ovo, fazer macarrão, e a gente ia comer na casa da mãe dele. Fiquei muito amiga da mãe dele, da irmã dele. De novo, tenho coisas maravilhosas, minhas amizades são sempre muito interessantes porque, evidentemente elas me tratavam bem por causa dele e a mãe dele gostava de jogar no Harmonia, ela jogava bridge. Então, me deram um livro pra aprender a jogar bridge. Eu ia jogar bridge com a mãe dele no Harmonia, as pessoa deviam ter 40, 50, 60 anos e tinha a menina de 14 que ia jogar bridge. Tinha um mocinho também, de uns 18, 20 anos, éramos os novinhos, o resto era tudo de pessoa de mais idade. Eu gostava, achava bem, eu fazia o programa da mãe dele, e a com a irmã dele a gente comprava doce, comia escondido, coisas do tipo, éramos muito amigas.

 

Até que ele teve um acidente, ele foi fazer uma corrida, não queria que eu fosse com ele, eu estava com a minha mãe no Rio. Ele teve um acidente, não me contaram, só quando eu cheguei em São Palo que eu soube, ficou no hospital por um tempo depois foi pra casa. Quando foi pra casa a mãe dele queria que fosse pra casa dela e eu disse: “Não, ele é o meu marido e eu vou cuidar”. E aí, nós tivemos o primeiro embate e foi fatal. Mãe é poderosa. E elas iam, ela e a irmã, iam pra casa pra ver defeitos: “Não está cuidando direito, você é uma criança, você não sabe o que está fazendo”. Um dia a irmã dele chegou, eu tinha posto uma colcha branquinha em cima da cama, ele estava na cama e ela chegou, pôs o pé da rua em cima, ficou uma mancha preta e ela disse assim: “Olha como é suja a sua casa”. E ela tinha feito isso. E começou aquilo, aquela que era a minha amiga, que comia doce comigo, veio fazer isso de novo. Ele começou a sair com outras pessoas, a mãe dele queria ficar no hospital com ele, depois eu soube, porque ele tinha uma outra namorada e ela facilitava ele ter essa outra namorada. Foram umas coisas, assim: “Puxa, pensei que eram minhas amigas.”. E na verdade o casamento foi se desfazendo. Claro, a mãe e a irmã vão estar ao lado dele, evidentemente. Eu estou grávida, durante a gravidez a gente se separa.

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – 16 anos. Das várias brigas que tivemos ele vai morar com Baby Pignatari e das várias brigas que tivemos ele vem buscar as roupas dele com a irmã. Eu falei: “Não acredito, a minha amiga vem aqui junto levar a roupa dele, em vez de dizer: ‘pera aí, menos, façam as pazes, estão esperando um neném’. Mas enfim, foi embora, e não teve tanta importância assim que eu estava nessa descoberta de estar grávida. Ter neném, pra mulher, é uma coisa extraordinária, tem um bichinho lá dentro que está crescendo, se mexendo, aquilo era auto satisfatório, que não tinha importância se o marido estivesse por perto ou não. E eu quero morar no meu apartamento, meu pai nos deu um apartamento de casamento, em Higienópolis e eu moro nesse apartamento. Só que ele foi embora e não tem dinheiro. E o meu pai quer que eu vá morar com a minha mãe. Temos um pequeno problema, eu não tenho dinheiro, ele não dá dinheiro nenhum e meu pai disse que não vai dar, para eu morar com a minha mãe. Tinha uma mocinha que trabalhava comigo lá e nós duas só comíamos arroz e batata, que era só o que dava pra comprar com o dinheiro que a gente tinha. E nisso eu me preocupei mesmo, eu fui no médico e ele disse: “Não, você não pode sustentar uma criança com arroz e batata”. Eu acabei mudando pra casa da minha mãe onde eu acabei tendo o neném. Fui ao hospital, tive. E quando o neném foi nascer eu não queria que chamassem ele, eu falei: “Ele não me telefonou, não me procurou, não precisa chamar”. E a minha mãe: “Mas como? A criança precisa de um pai, tem que chamar o pai”. E no fim ela chamou porque ele queria que registrasse. Ele veio no hospital, comovido, enfim. Eu tinha uma coisa assim, que não podia falar palavrão, umas coisas daquela época, e ele entra no quarto pra falar comigo, comovido, tal e já solta dois palavrões, eu já fico furiosa e eu fiquei mais brava porque ele tinha ido com uma moça e outro moço, que eram amigos dele, mas eu desconfiei que era namorada dele e eu fiquei muito brava, puxa vida, na primeira filha que ele tem comigo. Já estamos separados e ele vem com um casal de amigos visitar? Era uma coisa mais pessoal, mais íntima. De novo, não quero mais ver, não quero falar. E ele se afasta mesmo, ficou muito tempo distante. O meu pai começa a cobrar pensão,  aquelas coisas, se não der pensão vai preso. O meu pai ficou muito bravo com ele, primeiro por ter tirado uma criança da casa e depois ter largado a criança grávida, meu pai tinha um relacionamento muito duro com ele. A minha mãe, não, ela dizia: “Você é o pai da menina, a menina tem que ter pai”. Durante muitos anos a gente se via pouquíssimo. Agora, cada vez que ele se encontrava comigo ele dizia: “Vamos voltar” e depois ia embora e não voltava mais. Eu falei: “Voltar é namorar. Vamos sair, vamos até o cinema”. Ele dizia: “Eu quero voltar” e sumia. Ele se sentia acho que culpado e, ao mesmo tempo, queria dizer alguma coisa. Ele acaba se casando, tem um outro filho. Ele se casa uma terceira vez e nesse terceiro casamento ele tem uma menina que é da mesma idade que a nossa. A moça com quem ele casou, eu não sei o nome dela, tinha uma filhinha que era da idade da nossa. Então, ele começa a levar a minha filha a passar os finais de semana com ele e ela começa a ficar maravilhada com o pai. O pai, o pai, o pai. E nisso ele morre. Ele morre no desastre de Orly, tinha 33 anos, o número do carro que ele corria era 33, coisas da vida. E todo relacionamento dela com o pai, que estava começando esse romance de conhecer o pai, desaparece. Eu perdi um amigo porque nessa época nós nos tornamos amigos e no dia que ele ia viajar, inclusive, ele havia me convidado: “Você não quer ir comigo? Vamos comigo”. E eu disse: “Não, imagina se eu vou agora”. Ele estava na Globo, acho que tinha uma corrida em Monza e ele fazia os comentários. Ele estava indo com a equipe, morreram todos, morreu Agostinho dos Santos etc. E foi interessante porque desde que a gente tinha se separado ele nunca mais tinha me tocado, eu não permitia, e nessa noite ele deu um beijo. E olha só, eu nunca mais vi. Nos despedimos bem. Eu vim saber pelo jornal, eu tinha trabalhado no Jornal da Tarde.

 

P/1 – Qual o nome da sua filha?

 

R – Fábia. Primeiro eu fiquei brava porque era mulher, eu falei “Mais uma pra sofrer no mundo de discriminações”. Eu percebia isso, a questão do desquite da minha mãe, ela tinha um certo ressentimento de ter perdido um grupo social que ela frequentava. Ela gostava muito de socializar, a família tinha esses saraus etc, quando o meu pai estava no Palácio ela declamava nas festas do Palácio, ela tinha muitos amigos, casais amigos que se encontravam. Com a separação ela perdeu tudo. Ele continuou no Palácio, ele continuou amigo dos seus amigos, mas ela perdeu esse grupo de amizades.

 

P/1 – E pra vocês, o relacionamento com a madrasta...

 

R – Pois é. Às vezes o meu pai levava pra passar o final de semana com ela e o que aconteceu foi que em um desses finais de semana eu voltei e disse a frase, essa dourada, pra minha mãe: “Ela é tão legal, mamãe! Eu queria que ela fosse a minha mãe”. Quando eu disse pra minha mãe, que eu achava a minha madrasta maravilhosa e que pena que ela não era a minha mãe, ela disse: “Não vão mais. Porque ela tirou o meu marido e não vai tirar as minhas filhas. Então, não tem mais fins de semana com ela”. O pai vinha buscar de manhã e trazia à noite, sempre sem a Marina, sem a mulher dele. A gente ia pra Santos, pra praia, ficava lá algumas horas na praia e voltava, mas nunca mais passamos o final de semana com ela.

 

P/2 – E a relação com o seu pai, depois da separação, como ela era?

 

R – Ah, bom, não era muito íntimo, não tinha a intimidade de morar junto. Eu tinha dois, três anos, não tinha muita intimidade com ele, tinha muito amor, muito respeito. Não era uma pessoa que eu falasse tudo o que eu quisesse, tudo o que eu pensasse, não, a gente era tudo assim, meio: “O pai chegou”. E a mamãe construiu isso pra nós, ela achava que era muito importante a imagem masculina ser forte. Ela sempre dizia: “O seu pai é um ótimo filho, ele é um ótimo pai. Ele não foi um bom marido, mas ele é uma pessoa muito honesta”. Ela elevava muito. Eles nunca brigaram na nossa frente. De vez em quando se trancavam no quarto e a gente imaginava que brigavam em voz baixa. As brigas que eles tinham, as discussões que eles tinham, ninguém escutava, ninguém sabia. E isso foi uma benção pra nós, que a gente não percebeu muito, não sentiu. Sabia, às vezes, quando a coisa pegava, mas era muito suave, não era na nossa frente. Isso eles fizeram questão de fazer, que eu acho que foi uma coisa benéfica pras crianças. Mas ficou muito, até hoje, eu não tenho muita intimidade. Minha filha tem mais intimidade com o meu pai do que eu. Ele é alguém que eu conheço, que eu sei pouco até. Ele me ajudou muito, em muitos momentos do meu crescimento, das minhas dificuldades. Eu lembro uma vez, sei lá porque, eu estava muito triste, chorando muito, ele falava pra mim: “Vai lavar o rosto, isso passa”. Ou então ele chegava pra mim, e dizia “Vem aqui”, me abraçava, olhava pela janela e dizia: “Olha o céu, olha a imensidão que é isso, não faça um drama muito grande. Tudo isso é passageiro”. Ele teve uma influência muito positiva, a gente sempre confiou muito ele. Na infância a gente fazia coisa errada e um dia, tinha uma moça que ficava conosco, era uma moça que a gente gostava muito, e papai chegou e ela disse assim: “Olha, vou ter que contar pro senhor. Sabe o que as meninas fizeram?”. E o meu pai, imediatamente: “Não venha falar das minha filhas para mim”. Que peso, que coisa maravilhosa. “Então, ele é extremamente confiável”, ele nos ganhou naquele dia. Pra sempre. “Ninguém vai falar mal das minhas filhas pra mim”. Então, era o protetor confiável.

 

P/1 – Você estava falando há pouco que sua mãe perdeu esse vínculo social e que quando a sua filha nasceu você estava pensando: “Nossa, outra mulher pra sofrer” e eu te interrompi nesse momento.

 

R – Tudo aquilo que minha mãe tinha sofrido e ela sofreu bastante o fato dela ser desquitada, ela não se casou de novo, ela teve alguns romances. Tinham pessoas no bairro que falavam: “Ah, lá é a casa da dona Branca, aquela ali que não tem marido”. Era como se fosse uma mulher de rua, uma coisa assim, e não era. Mas tinha preconceito. Então, nós vivemos essa dificuldade. Quando a minha filha nasceu, pronto, mais uma que vai... Se fosse menino, o mundo é mais masculino e é mais fácil, pelo menos no meu olhar feminino, o mundo era mais fácil do que o feminino. Mas nasceu, tá bem, que bom. Dei o nome de Fábia, tinha a carinha redondinha, assim. Cheguei em casa, nossa é uma maravilha. Tira a roupinha toda, pra ver como o corpinho todo tá funcionando, ela é lindinha. Aí, eu fiquei dois anos que eu não fazia outra coisa que não cuidar dela. Eu lavava toda a roupa dela, passava, dava de mamar. Dar de mamar é uma benção, dói, machuca, mas é maravilhoso. Então, me sentia muito completa como da parte instintitiva, do humano, a nossa parte animal, mais básica, estava satisfeita. Tinha completado a missão da reprodução e cuidar do neném era muito bom. Aí, o meu pai chega e diz assim: “E agora, o que você vai fazer?” “Como assim, o que eu vou fazer?” “Você não vai passar o resto da vida trancada em casa, ficar em casa embrutece. Você vai estudar ou trabalhar”. Eu falei: “Bom, vou trabalhar”. Sou mulher, mãe, vou trabalhar. Ele disse assim: “Você vai trabalhar em quê?” “Não sei, vou procurar emprego” “O que você sabe fazer?” “Bom, nunca fiz nada, mas eu começo”. Ele disse: “Eu não te ajudo, eu acho melhor você estudar”. Aí, ele habilmente me conduziu ao vai voltar a estudar.

 

Eu tinha parado na terceira série do ginásio e vou fazer o que naquela época se chamava Madureza, que era o Supletivo. Era lá na Praça João Mendes. Foi muito divertido, foi muito bom e foi muito estimulante. O meu vizinho Mauro, que era meu grande amigo, meu grande companheiro, ia comigo. Éramos amigos, só amigos, nunca houve nada.  Minha mãe dizia que ele era apaixonado por mim, eu não sei, ele era um grande amigo, depois que eu casei ele se afastou. Mas nós íamos juntos. E foi muito interessante porque, de repente, você aprendia quatro anos em um ano só e isso fazia sentido. Aquela equação de matemática que você vai usar para isso, depois tudo se encadeava e ficou muito claro pra mim e foi muito bom. Passei muito bem nesses exames e fiz um segundo Madureza depois, que era o Madureza do colegial, que também foi muito bom. Um dos professores desse cursinho abriu um outro cursinho e eu fui pra lá com ele.

 

Aí, eu tenho um namorado, que já é um drama pro meu pai, que não pode namorar, é feio namorar, me viu dando um beijo no moço na rua, que horror, quase me bateu. Tinha coisas assim, era uma situação que eu não podia contar pra ninguém que eu tinha sido casada e tinha uma filha porque senão os homens iriam querer se aproveitar de mim. Então, de novo, eu tenho de viver um mistério, um segredo, é difícil se relacionar com pessoas sem você poder contar quem você é, o que você faz. Eu tento isso, mas logo desisto dos conselhos do meu pai. E nesse cursinho eu encontro esse moço, que vai ser o meu namorado, Jorge, ele tinha motocicleta e me ensina a andar de motocicleta, eu ando. Ele tinha uma Ducati 125, naquela época eram poucas motos em São Paulo, e foi maravilhoso. E quando chegam as primeiras Hondas eu compro uma Honda 65, gostosinha, caiu, entro num trilho, faço tudo que não pode fazer, mas aprendi e gostei muito e mais tarde eu vou comprar uma moto maior. Foi uma das coisas boas do Jorge na minha vida, me trouxe a motocicleta. E na época de fazer vestibular, quando eu estou fazendo o exame de Madureza desse Supletivo Colegial morre o Guevara e o nosso professor de História diz essa frase que fica marcada: “Morreu o último herói. Não haverá mais heróis individuais no mundo. Este foi um herói e não haverá outros heróis”. Olha que interessante. Fiz o exame, passei muito bem também e que vestibular eu vou fazer? Queria fazer Filosofia, gostava muito de Filosofia. E vem o meu pai: “Mas que absurdo, que carreira vai ter? Professor não ganha nada, não tem futuro. Escolha uma profissão liberal” “Teologia” “Mas Teologia nunca! O que vai ser, professor de Teologia não tem futuro”. E esse menino queria estudar Direito, eu gostava muito dele e disse: “Nós vamos estudar juntos.”.

 

Então, a gente ia na casa do Dudi Maia Rosa, que é um pintor, e a gente ia estudar, na Avenida Angélica. E já que queria fazer Direito, estudamos, fizemos vestibular pra Direito. Eu não fiz São Francisco porque precisava de Estatística, que eu não tinha estudado. Então, fizemos na PUC e no Mackenzie e entramos nos dois. Falei, vou pro Mackenzie, estudar de manhã cedo, e aí veio o problema: Não pode contar pra ninguém que foi casada e tem uma filha. Mas eu sou diferente das meninas, eu já estou vivendo uma fase diferente da minha vida, eu não fui lá pra namorar. Muitas delas iam, queriam casar. Então, eu já tinha sido casada, não estava muito nesse momento da  vida e eu me senti meio deslocada. Aí, eu falo: “Bom, quem sabe mudando pra PUC. Vou estudar à noite”. À noite é um problema. À noite, todo mundo cansado, foi uma coisa difícil, e nessa época o Dudi Maia Rosa me apresenta ao Gaiarsa, José Angelo Gaiarsa. Porque eu digo: “Olha, eu vivo em um conflito, eu estou com vocês aqui, eu tô pensando na minha filha. Eu tô com a minha filha, eu nem trato ela direito porque queria estar aqui com vocês”. Quer dizer não tá dando certo. E ele diz: “Por que você não vai fazer terapia com o Gaiarsa? É um cara legal, meu amigo, eu te apresento”. Eu fui. Eu fui, ele me pôs em um grupo, eu queria fazer individual, ele disse: “Mas que individual? Você vai pro grupo”. Pensei que meu caso fosse mais interessante. Aí, fiquei no grupo com ele, e nesse grupo tinha um jornalista, do Jornal da Tarde. E eu reclamo disso: “Meus pais me cerceiam muito, eu não posso namorar, tenho que mentir pro povo, quer dizer, uma vida muito difícil essa”. E ele diz: “Ué, por que você não sai de casa?”. Eu falei: “Sair de casa? Mas eu não tenho dinheiro, eu não tenho como me sustentar, o pai da menina não dá dinheiro, não tem como eu sair”. Ele diz: “Vai trabalhar” “Mas o que eu posso fazer?” “O que você gosta de fazer?”. Eu falei: “Ler, escrever” “Te arranjo uma posição no jornal, quer ir? Vai lá para uma entrevista”. Fui.

 

Cheguei pra entrevista, não era bem uma entrevista, eu falei muito brevemente com o Murilo Felisberto que era o Chefe da Redação e ele pensou que eu era outra pessoa. Aí que a história é mais bonita. Porque esse senhor, esse jornalista, tinha falado pra duas moças, eu era uma outra, eu não era aquela que ele pensou, mas ele pensou que eu era aquela. Enfim, ele chegou e disse: “Ah, venha amanhã pra fazer um teste”. Mal conversou comigo. Eu falei: “Eu tenho uns textos que eu escrevi” “Não, amanhã você vem fazer o teste”. Nem queria ler o que eu escrevi. Cheguei no dia seguinte, eles me puseram no que a gente  chamava Variedades, que era com o Flávio Márcio, que já morreu, foi um grande jornalista. E Flávio Márcio, era época de carnaval, Miguel Jorge, que hoje é Ministro de alguma coisa, Minas e Energia, e foi o primeiro com quem eu fiz a matéria. Era Carnaval, Miguel Jorge foi me dizer assim: “Agora você vai entrevistar Clodovil”. Imagina, Clodovil era um dos meus entrevistados pra fazer fantasias de Carnaval. Clodovil parecia um dos Beatles, ele tinha o cabelinho assim, andava com terninho pretinho, calcinha justinha. E eles falaram: “Veja se você consegue que ele faça um croqui de uma fantasia”. Fui, consegui, falei com ele, falei com outro, José, que era um estilista muito bom na época, voltei com a matéria e falaram: “Agora senta e escreve” “Ah?” “Senta e escreve”. Aí, eu escrevi e apresentei para o Flávio Márcio. O Flávio Márcio falou assim: “Ah-ha. Você não sabe o que é lead?” “Ah-ha” “A matéria tem um começo, um meio e um fim. Então, o começo é importante, veja se você põe as coisas mais importantes no começo”. Lá fui eu de novo, sei que eu saí de lá às nove e meia da noite, exaurida, de ter reescrito inúmeras vezes e ainda não tinha ficado bom e no dia seguinte saiu diferente. Aí, fui pra minha primeira aula e fiquei tendo aula diárias.

 

Eu era tímida, eu tinha muita dificuldade em entrevistar as pessoas, inúmeras vezes eu voltava pra redação sem as perguntas básicas. Miguel Jorge, antes de eu sair dizia: “Quem, quando, como, onde e por quê?”. Você tem que trazer essas cinco respostas. Então tá bom. E muitas vezes eu não trazia as respostas todas e eles diziam: “Volta”. E eu ia, morrendo de vergonha, tocar de novo a campainha, e eu tinha que perguntar da intimidade das pessoas, quando elas não queriam falar era horrivel aquilo, era um sacrifício, um sufoco. Até que eu comecei a perceber que não era pra mim que elas falavam, e não era eu que estava preocupando, era um público muito maior. Até você desfazer, como foi doloroso e difícil. E escrever também, no estilo do jornal, da maneira que eles queriam foi muito laborioso. E eles foram maravilhosos. Jornal do Brasil tinha “As meninas do Jornal do Brasil”, então, eles queriam ter “As meninas do JT”. Tinham três moças que entraram, eu e mais duas, a Valéria, que já estava lá há mais tempo e outra que tinha sido repórter, e foi assistir um desastre e desistiu, nunca mais saiu pra rua. E a gente estava lá.

 

Nisso, o que está acontecendo? Passeatas, estudantes saindo às ruas, nós estamos em 1968. Eu tenho essa menina que entrou junto comigo, Marisa Figueiredo, ela tá quartoanista de Direito na São Francisco, e tem passeata e eles dizem que não, as meninas não vão. E ela então diz: “Nós vamos. E ela vai comigo”. E ela sou eu. “Porque se não formos como jornalistas, nós vamos como estudantes, mas nós vamos a essa passeata”. Eles nos autorizam pra gente fazer a cobertura da passeata. E ela, então, me veste, eu andava só de saia, vestido, salto alto, eu tinha lá o meu estilo, de parecer mais velha, tal. Ela corta isso, vai por tênis, calça comprida, leva amoníaco no bolso porque nós íamos correr, a coisa pega. E a gente foi, realmente foi uma passeata, a gente foi empurrada, pra cá e pra lá, foi aquela onde mataram o menino lá na Maria Antonia, foram situações bem violentas. E eu sou jogada no fogo. Agora você é jornalista pra tudo. E ninguém pergunta se você é jornalista na hora de passeata, vem com cavalo em cima, gás lacrimogênio, soco, e o que fosse. Porque não há diferença mesmo, todo mundo com a mesma cara, tudo estudante.

 

E aí, começo a entrar no jornal com outro... Saio de Variedades, só fazia Artes e Espetáculos, viro repórter da Geral, faço algumas matérias boas que são comentadas, fui aprendendo, aprendi com eles. Cria da casa, o pessoal gosta. Comecei a fazer matérias especiais, matérias mais longas, matérias assinadas. A primeira matéria assinada de capa foi quando mataram um traficante que chamava-se Saponga. E o pessoal, o Percival de Souza, que era o nosso responsável por aquela parte policial, estava esperando aquela caçada que estava acontecendo, o desenlace disso, e no domingo de plantão meu, a única repórter que está lá sou eu, quem tá lá comigo é o Rabinovitch, e quem é que vai cobrir? “É ela, a noite é dela”. Ele vai comigo de carro, junto com o fotógrafo, é um morro lá, a gente sobe o morro, tinha uma procissão subindo o morro e tinha uma senhora nessa escadaria que dizia: “Eu preciso ir ver se é o meu filho. Será que é o meu filho?”. E não era a única. Muitas delas estavam indo ver porque podia ser o filho de qualquer uma daquelas senhoras que estavam subindo pra ver o corpo. E lá estava ele, acho que era o Fleury que estava lá, estava uma excitação de caçador, que pegou a sua caça. E tinha um corpo deitado de bruços, todo cheio de furos, com as formigas andando, e uma pedra. E o lead da minha matéria é isso porque foi o que mais me impressionou. E o Rabinovitch falando, o lead é o que mais te impressionou, o que foi que te pegou mais nisso aí? E aí me reconhecem como jornalista, ela entendeu, é capaz e faz.

 

Aí, eu começo a fazer matérias de todos os níveis. Namoro muita gente na redação; aquele namorado, que me levou lá ele fica pra trás porque jornalista só vive, come e dorme jornal. Aí, começo a ter uns namoros na redação, eu achava todos lindos. Todos eram muito bonitos, a gente sai muito à noite. E eu acho que jornalismo tem muita dor e não nos ensinaram a trabalhar a dor. A dor de você telefonar para uma pessoa e dizer: “Você tem uma fotografia do seu marido, ele acabou de ser assassinado aqui no banco”. Não dá. É muito sofrimento e você está em contato direto com o sofrimento das pessoas.

 

Mas a redação era maravilhosa, muito estimulante. Namorei várias pessoas na Redação, me apaixonei, me apaixonei pelo Hamilton de Almeida, não era o Ribeiro. Hamilton de Almeida era um grande, grande repórter na época. E aí, começam as invejas, chega alguém, eu faço a matéria e diz: “Ah, isso aí deve ter sido feito a quatro mãos, não pode ter sido”. De novo, é tão interessante, aquilo que aconteceu no Sion, começa a acontecer na redação. Quer dizer, eu faço um texto bom, mas “Não pode ter sido você porque, afinal, você não é capaz disso”. Isso me incomoda um pouco. Em uma determinada época nós temos a censura na redação, tentamos nós, repórteres, fazer uma greve contra a censura, mas o Rui Mesquita fez, o pessoal que trabalhava na gráfica não fez greve, então o jornal sai. Matérias antigas, tal, não dá certo, vamos por um outro caminho.

 

P/1 – E você saiu de casa naquela época?

 

R – Acabei saindo de casa, arranjei um companheiro, que era o Hamilton, fomos morar juntos, alugamos uma casinha, moramos juntos. Brigávamos muito, tinha muito ciúmes, bebidas. Nossa, coisa bem emocional, bem difícil, não deu pra levar minha filha comigo porque era muito emocional, ela vinha de vez em quando mas não dava pra ficar, ela acaba ficando com a minha mãe e a minha mãe acaba tomando conta dela e cuidando dela. Depois do Hamilton, nós nos separamos, eu continuei morando nessa casa por um tempo, depois volto a morar com a minha mãe. Então, sempre fica uma coisa assim, vai e vem. Morei em um apartamento, que também meu pai me deu, vou e volto desse apartamento algumas vezes. Compro a motocicleta, aí eu sou a repórter de motocicleta, que é uma delícia, dá uma abertura, uma liberdade muito grande, o contato com o ar, com o vento. E essa época foi muito boa, escrevia-se muito, falava-se muito, bebia, comia e dormia jornal. Antes disso, começaram a me dar livros. Eu fiz uma matéria sobre o Vietnã, um brasileiro que foi ao Vietnã e voltou dizendo que ficou rico, que a guerra era boa. E o pessoal mais antigo da Redação me cercou e disse: “Olha, você fez uma apologia da guerra e isso não se faz. Guerra mata. Você não pôs nenhuma coluninha dizendo quantas pessoas morreram nessa guerra, você disse que o carinha foi pra guerra, ficou rico e comprou uma casa”. Aí, eu falei: “Opa, mas foi o que ele disse. Vocês não me ensinaram a escrever o que as pessoas dizem?” “Não, espera aí, mas não é só isso, tem alguma coisa a mais”.

 

Aí, começaram a me dar livros pra ler, e um dos livros era de Trótski, era um livro fininho que falava que a revolução tem que ser internacional, não adianta um país só fazer uma mudança se todos não fizerem. Mas o livro contava uma história assim: um grupo político toma o poder à força, mata todo mundo e assume o poder. Poucos meses depois, esses novos ministros repetem o que os ministros anteriores estavam fazendo. A idéia de Trotski é: a revolução tem que ser internacional porque as pressões externas causam isso. A minha interpretação foi outra, a minha interpretação foi, se o ser humano não mudar na sua essência, não são sistemas políticos ou econômicos que vão fazer a transformação do mundo, é uma coisa de consciência individual e coletiva. Isso é a grande mudança. E eu acho que a imprensa, o contato com tantas pessoas, das mais pobres às mais ricas, e você vê todos os seres humanos, tantas injustiças e tantos absurdos e você fala: “O que eu posso fazer por isso? Será que a minha vida pode ser dedicada a levar a uma coisa maior?”. Nessa época tem jornalistas se encontrando, me convidam a fazer parte de grupos onde nós vamos discutir textos políticos, socialistas, comunistas. E eu vou a alguns encontros e de repente chega um momento que... eu era simpatizante, mas não era do partido, sei lá que partido era, e eu tinha um namorado que era muito lindo, do partido. Ele vai ser morto mais tarde. E ele resolve que vai sair pra luta armada. E ele me convida, eu disse: “Nunca. A minha luta não é armada, eu não acredito em luta armada e de jeito nenhum, não pego em armas”. Nós nos separamos porque o partido dizia pra ele que eu era o último resquício de burguesia que ele tinha. Luis Eduardo da Rocha e Silva Averlino. E na noite que nós nos despedimos ele me deu um livro de poesia de Maiakovski e eu nunca mais vi.

 

Aí, começa a questão da luta armada. Eu tinha também um grande amigo, que era Henning Boilesen, ele era vice-presidente da Ultragaz, ele e a mulher dele, a Cândida, era um casal de amigos da época em que eu era casada com o Scavone, que eu tinha 15 anos de idade e que nós íamos assistir aos programas do Silveira Sampaio, no que era então ao canal cinco. O Silveira Sampaio vai dar origem ao que hoje o Jô Soares faz. O Jô Soares estava lá, nos bastidores também, aprendendo com o Silveira Sampaio. E nós gostávamos do programa do Silveira, das entrevistas, comentários políticos, o sarcasmo dele era maravilhoso. E depois saímos pra jantar com ele, então, eram os dois casais, o Silveira e o assistente do Silveira, a gente ia junto quase todas as semanas. E criou-se uma amizade. E o Henning Boilesen vai ser morto pelo Lamarca. Então, eu tenho dos dois lados, vamos dizer, com pessoas que eu amo. Como é que eu posso dizer qual é o meu partido? Eu vejo o ser humano. Eu acho que uma coisa que o jornal me ensinou, e eu era mais especialista em fazer isso, era o aspecto humano dos eventos. Não era muito especialista em vez quantos policiais tem, mas como é que o ser humano se comporta nessa situação. Isso foi desenvolvido e isso acho que é muito importante, porque não dá para dizer, eu prefiro esse partido, ou aquele. Eu sou contra guerra, contra a violência, não queria que ninguém morresse. Eu queria que mudasse, mas eu não queria que ninguém morresse.

 

Nessa época eu tento o suicídio, que não funcionou, vocês estão vendo. Achei que tudo estava demais, o relacionamento amoroso estava muito conflitivo, eu quero acabar com isso, chega. Já deu o que deu, já entendi, não consigo mexer muito no mundo, o mundo tá mexendo demais comigo, vou embora. Não fui, fui encontrada antes de morrer. Nessa época eu já nem estava indo no Gaiarsa, mas ele foi chamado e me deu uma bronca danada, nunca vi ele bravo comigo: “Você quer morrer, tá louca? Você quer dormir? Então, vai dormir”. Me mandaram para uma clínica, o psiquiatra da clínica quer analisar porque eu queria me suicidar e eu não me dou com ele porque eu não reconheço ele como alguém que possa falar comigo. Teve uns pequenos problemas, acabo saindo, o Gaiarsa fala: “Chegou? Já dormiu bastante? Você queria dormir, descansar, agora sai, volta”. Passa essa fase, tem um pequeno acidente de carro com o Nirlando Beirão. Nós estávamos descendo, bebia muito, a gente enchia o caco mesmo. Saía da Redação, eu falava, era muita dor, e como é que lida com a dor? Vamos beber, vamos amortecer. E querer ser igual aos meninos, se você bebe eu bebo também, eu faço o que vocês fazem, era mais nesse sentido de igualdade também. Bati o carro. O cemitério do Morumbi tinha sido inaugurado, diziam que o amanhecer no Morumbi era lindo, nós fomos descendo, o carro capotou, saímos do carro. Eu com a orelha pendurada peço ajuda para um homem na rua, que olhou com horror. Eu falei: “Olha que interessante, ninguém ajuda”. Fui chamar o táxi, vamos para o hospital, o hospital diz que tem que ser nas Clínicas, vamos pras Clínicas. Aí, minha irmã já terminou Medicina na Santa Casa, telefono pra minha irmã, ela vem e eu tô lá brigando com o médico, com todos os palavrões, porque agora eu só falo palavrões, porque na imprensa eram três palavras, um palavrão. E eu lá brigando, xingando o médico, que ele não tá dizendo o que eu tenho, que eu não sou tigrona, que ele tem que explicar o que tá acontecendo comigo, que a minha cabeça tá doendo, o que ele vai fazer. E ele bravíssimo, porque tá lá o plantonista, cheio de gente acidentada e essa louca aqui, gritando com a orelha pendurada. Ele raspa a minha cabeça - começa a raspação da minha cabeça - pra costurar a minha orelha. Nisso, minha irmã chega, ele já tá muito bravo e ela fala: “Eu sou sua colega da Santa Casa, o que está acontecendo com ela?” Ele já solta um palavrão pra ela também, ela diz: “Ela vai embora, não vai ficar aqui com você” “Vai perder a orelha, não vai perder a orelha”. Enfim, vou pra Santa Casa, lá eles me dão uma injeção que é do soro de cavalo pra machucados, só que eu sou alérgica, quase morro. De repente eu estou lá deitada na cama, começa tudo a ficar verde, verde, começo a ver pessoas verdes na minha frente: “Que bonito, que maravilha”, e nisso entra o marido da minha irmã, que era médico também, tava de plantão, vem me ver e dá um grito: “Ela tá morrendo! Ela tá com alergia, vai morrer!”. E foi o tempo dele entrar, me dar uma injeção e me salvou. Então, eu tenho essa dívida de gratidão com ele que, bem aventurado, entrou na sala na hora que o mundo tava ficando verde.

 

Depois disso o que acontece? Aparece um menino no jornal, que era desenhista, e outras pessoas estão falando de LSD. E este menino um dia falou assim: “Bom, vamos sair?” Antes disso, o meu primo Mutantes, que apareceu, o Serginho Mutante. Ele era um sol, uma luz, ele não bebia, só tomava coca-cola, por que ele bebe e fica meio melancólico, deve ter um baixo-astral na bebida. Ele era uma luz, uma alegria, ele saía na rua, brincando com todo mundo, eu saía bravinha porque homens mexem com você na rua, então você não pode dar bola, você não pode olhar pro lado. E ele não, ele cumprimentava quem passava ao lado, que bonito. Então, ele me traz uma luz muito grande. Foi enterro da minha vó, a gente se conheceu, se namorou um pouco, foi muito gostoso. Ele tinha namoradas, comentava das namoradas dele comigo, era uma amizade muito profunda, muito íntima mas muito amiga. Não de quero casar com você, não, outra coisa, muito terno. E ele foi muito importante. Andou de moto comigo, pra cima e pra baixo. E depois disso apareceu esse menino no jornal, ele fazia ilustração, e uma noite eu falei: “Vamos sair, vamos pro bar”. Porque tinha esses bares que a gente frequentava. Ele disse assim: “Você quer fazer uma coisa diferente hoje? Você quer tomar um LSD? Vamos tomar um LSD comigo?”. Eu falei: “Vamos embora”. Tomamos um LSD na casa dele, eu lembro que tinha uma esteira no chão, eu lembro que a gente ficou sentado naquela esteira e tinha visões, coisas muito interessantes aconteceram. Eu odiava pudim, eu comi um pudim inteiro, a mãe dele apareceu com o pudim, a gente comeu o pudim inteiro, eu falei: “Eu não acredito, o que está acontecendo comigo?”. E eu fiquei muito interessada nisso, que coisa.

 

No outro dia a gente ia fazer uma matéria sobre planadores, eu passei a noite inteira acordada e fui para um hangar desses, nem sei onde, entrei no planador, quase dormi no planador, não tinha nem como escrever, com sono. Mas aquilo me instigou muito: “O que é isso? O que é esse LSD, o que é a mente humana?”. E ele me disse que ele tinha sido muito usado pra curar alcoolismo. O início do LSD era um processo de curar alcóolatras. Ai eu falei, olha que interessante e eu falei: “Eu quero mais, eu quero experimentar isso mais” “De onde vem isso?” “Vem da Inglaterra” “Êpa, é pra lá que eu vou”. Aí, eu dei um jeito: “Olha, vocês me mandam entrevistar pessoas que vêm do exterior. Eu falo muito mal o inglês, eu preciso de aprender inglês, preciso de uma licença”. E eu consegui uma licença de seis meses. Não era paga, mas eu voltava e o meu cargo no jornal estava lá e iria passar seis meses na Inglaterra. Claro que estavam preocupados comigo, tive uma tentativa de suicídio e tive um desastre sério de carro que eles acham que é uma segunda tentativa de suicídio. Não foi, mas eles achavam que podia ser. Quer dizer, eu estou desestabilizada emocionalmente, o jornal está pesado, os relacionamentos estão tumultuados, ela ter uma pausa é bom, damos a pausa.

 

Fui pra Inglaterra aprender inglês, a minha filha ficou, foi muito triste, fiquei muito triste de deixá-la, vomitei daqui até lá, nunca vomitei em avião na minha vida, vomitei daqui até lá. Cheguei em Londres, achei um basement pra morar, tinha algumas pessoas, brasileiros, que me ajudaram a encontrar esse basement, me inscrevi em um curso de inglês, comecei a ter as aulas e cada um que eu encontrava eu falava: “Tem LSD?”. O pessoal me olhava e dizia: “Mas que coisa mais antiga. Ninguém mais usa LSD”. E foi fascinante descobrir isso, era uma coisa que estava fora de moda, a moda do LSD tinha passado e eu atrás do LSD. Foi muito difícil eu achar, mas eu não desisti, insisti muito. Até que encontrei pessoas que ainda tomavam LSD e a gente começou a tomar junto. E tinha um moço chamado Rick, que era mais ou menos um líder de um grupo de pessoas da Escócia. A gente sentava junto e fumava muito haxixe e tomava LSD, junto com a escola de inglês. E quando acabaram seis meses, eu mandei uma carta colorida pro Doutor Rui pedindo a demissão e dizendo que eu não iria voltar. Tinha todas as cores na carta, era um rainbow, um arco-íris. E mandei uma carta dessas para o Serginho Mutantes, que até hoje ele fala que chegou uma carta escrita em amarelo, que mal conseguia entender, que dizia: “Somos filhos de Ur”. Sei lá, de não sei o quê, que acho que era um dos álbuns que tinha na época.

 

Comecei a ouvir rock n´roll e maravilhei, maravilhei. A minha parte era mais da palavra, poesia, literatura, e de repente eu descubro a música, e tem The Who, Pink Floy, Yes, tem Carol King, coisas maravilhosas acontecendo. Tem uma casa em Londres chamada The Roundhouse, onde ia à noite. Essa liberdade de poder estar sozinha, de ser desconhecida e uma segurança incrível, que você pode ir a qualquer lugar e nada vai fazer mal a você. Aí, vou descobrindo universos, a minha pergunta principal era: “O que é Deus, onde está Deus? Quem sou eu e por que estamos aqui?”. E nisso eu vou tendo respostas, vou compreendendo aspectos da mente humana, foi muito interessante, foi difícil, foi sofrido, não era bad trip, good trip, não era nada disso. Não era pra brincar, ou pra fazer sexo, nem era pra dançar. A música, nós sentávamos e ouvíamos em silêncio. Isto era muito interessante, um grupo de pessoas que sentavam na sala e ficavam em absoluto silêncio ouvindo música. E quando acabava tinha uma palavra e ia embora; tomávamos chá, ninguém bebia. Aí começa o que o pessoa fala de grupos, das pessoas que usavam drogas que vão ter divisões. Não se mistura álcool com marijuana, não se mistura álcool com haxixe. Não se mistura LSD com nenhuma droga. Porque mescalina e LSD são viagens em uma direção e elas precisam ter acompanhamento. Quanta gente se perdeu por isso. Tinha um menino que vinha ouvir música conosco, nos visitar, ele não fechava mais os olhos. A gente viu muita gente detonada, muita gente. Que a droga realmente detona se não tiver um propósito, uma razão.

 

E eu acho que tive muita sorte porque eu tive um namorado nessa época e o namorado queria levar LSD pra Suécia pra vender na Suécia. Nós pegamos um barco. Ele comprou lá o LSD, naquela época era tudo em papel, ele comprou pílula. Fomos pegos e presos na Suécia, o que eu acho que foi muito importante na minha vida porque foram cinco meses de deixar essa experiência assentar. O que foi isso? O que era isso? Porque acho que se eu continuasse...

 

P/1 – Cinco meses de cadeia?

 

R – De cadeia. Na Suécia. Você veja que boa fortuna minha, bom karma como a gente fala: fiquei na melhor cadeia do mundo, sistema semi-aberto. No começo ficava num quartinho fechado, numa cela fechada com determinada hora, a comida era ótima, maravilhosa, tinha ar condicionado. Tinha mulheres suecas que se faziam presas nos invernos pra passar um bom inverno na cadeia. Era muito bem tratada, muito gostoso, tinha trabalho no jardim. Enfim, foi uma boa experiência. Tinha shows de rock n´roll que vinham lá tocar pra nós, filmes. O trabalho da Suécia, mesmo, é recuperação do ser humano. Mas eu negava, eu dizia: “Não, eu vou voltar pra lá, eu vou ficar me drogando. Imagina, vocês não me dobram, não.” “Mas você vai dar LSD pra sua filha?” “Vou, vou dar, sim”. Imagina. O que eu falava não foi o que foi feito. Depois disso voltei pro Brasil. A minha mãe, coitada, meu pai desesperado, você imagina, na Suécia presa, que horror. Tentaram ir lá me ajudar, mandaram um advogado. Eu tinha um advogado do Estado e estava muito feliz com ele. Aí disseram não, que iriam pagar um advogado. Pagaram um advogado, e o advogado disse assim: “Não diga nada, quando você for à corte, negue tudo”. Essa era a idéia. Tá bom. Chegou, o advogado falou lá, tudo, agora, o depoimento da réu. Eu falei assim: “Não, eu acho que LSD é ótimo pra acabar com o suicídio, se vocês tomassem LSD aqui na Suécia vocês iriam acabar com o problema do suicídio, porque daria valor à vida”. Foi assim, um astonishment geral e todo mundo falando: “Ela tem que ficar presa, não pode soltar a moça, ela tá dizendo que ela fez, ela acha que é bom”.

 

E foi interessante a experiência de estar lá, de ficar lá. Eu trabalhava com o jardim, a terra, o prazer de tripocar a terra, até o cheiro. Tinha um tratorzinho, quando o tratorzinho vinha, que tinha um cheirinho de gasolina, eu falava: “Ai, que cheiro de cidade, que gostoso, que saudade”. Teve um moço que eu conheci, um brasileiro que estava na Inglaterra, ele veio me visitar na Suécia, ele vinha de moto também, aí ele veio e disse: “Olha, eu trouxe LSD pra você” “Não, não quero”. Então, eu comecei a perceber que a coisa estava mudando, quer dizer, deu pra entender o que foi tudo aquilo e que o caminho não era bem este, que não ia continuar na mesma direção, o que eu tinha que entender já tinha sido atendido. Eu acho que lá eu fiz uma viagem de LSD, que alguém me deu. Em cadeia rola tudo, claro, mas não era uma coisa que eu andasse atrás. E aprendi muito lá também, de uma jovem. Ela era árabe, islâmica, drogada, mas tinha mulheres muito drogadas, veias arrebentadas, coisa que eu nunca cheguei perto, nem saberia dizer o que era. Mas era interessante porque essa daí, nós estávamos jogando vôlei e, de repente, eu dei uma cortada mais forte, ela olhou pra mim e disse: “Por quê?”. Ela sentiu que era uma agressão, e provavelmente era. “Por quê? Você sabe o que que você está vivendo aqui conosco, o que nós estamos vivendo, vai parecer um sonho? Nós nem vamos saber se isso foi real”. Tem algumas coisas que ficam inesquecíveis.

 

E aí, eu percebi, na minha agressão, e eu começo lá o processo de meditação. Eu começo a sentar todas as manhãs e a fazer Ohm. Eu sentava na minha cela maravilhosa, seis horas da manhã, vendo o nascer do sol: “Ohmmmm”. E como me fazia bem. E começo a perceber o meu processo e o processo das pessoas à minha volta. Quando me davam um cigarro, por exemplo, eu dava pra todo mundo e elas não acreditavam, porque na cadeia o cigarro é jóia. Minha mãe veio me visitar, me deu uma caixa de bombom, eu dei bombom pra todo mundo. Elas falaram: “Ela é meio boba.”. Achavam que eu era meio boba. Porque eu não tinha coisas minhas, eu não tinha essa idéia do meu. Woodstock, quando a gente vê, a idéia toda era essa, não é meu, é nosso. Se nós estamos nesse barco, estamos todos juntos. E eu vivia isso de verdade. Não tinha nada que eu separasse, dizia: “Eu vou comer escondida um bombonzinho. Eu vou dividir com vocês”. Foi interessante, foi uma época boa.

 

Voltei pro Brasil, uma saudade imensa da minha filha, só queria ficar com ela. Fui no Jornal da Tarde, doutor Rui Mesquita me recebeu e sabia de tudo, claro, eu contei pra eles, e ele disse: “O seu lugar está aqui, se você quiser voltar, o lugar é seu”. Saí de conversar com ele, fui cumprimentar o Murilo Felisberto e o Murilo disse: “Não, eu não quero que você volte. Eu não quero pessoas que vão e vem”. Eu falei: “Como é que eu vou voltar se ele não quer?”. Falei: “Tá bom”. Fui ficar com a minha filha, fui dar aula de inglês, aprendi a pegar alguma coisa, tinha um curso, não sabia muita coisa, mas sabia. Fui dar aula de inglês pra principiantes, fiquei meio perdida. E o pai dos Mutantes, o César, primo de minha mãe, a minha mãe fala com ele. Primeiro, eu disse que eu não ia dormir dentro da casa porque eu gostava de música e queria ouvir música forte. Então, tinha um quartinho que era das empregadas, a edícula, eu falei: “Vou morar nesse quarto”, pus uma cama no chão, comprei dois Gradientes desse tamanho e ficava lá ouvindo música. Que maravilha, com headphone ou sem headphone, o negócio era ouvir música. E a minha mãe muito preocupada, ela tá se achando uma outsider, ela não quer entrar na casa dela, quer ficar no quarto da empregada. Ela deve estar com problema, com toda a psicologia dela. Fala com o primo César, com a família. E o César diz assim: “Vamos por ela junto com os Mutantes, eles também são dessa turma, eles vão se entender”. Então, eles me levam até a Cantareira, onde eles estão morando, e eu fiquei um tempo com eles lá. Me vestia lá das minhas maneiras esdrúxulas de vestir, como eles também. Então, a gente teve uma certa afinidade, eu tinha a moto, ia de moto pra lá. Criou-se um certo relacionamento.

 

O Sérgio, que era meu namorado, tinha uma namorada, quer dizer, não era meu namorado. Era meu amigo, meu primo. Eu fiquei um pouco lá nessa época, criei um grande amigo, Chico, João Caetano Alves, hoje é um grande Psiquiatra. O Chico fica sendo meu amigo, ele morava ali perto, perto do Chico Buarque, e a gente ficava ouvindo música de tarde. De novo, encontrei alguém que ouve música do jeito que eu gosto, em silêncio. “Vamos ouvir música. Não vamos dançar, conversar, vamos ouvir a música”. E a gente ficava comprando novos álbuns, a gente trocava, ia ouvir um na casa do outro e nisso, um dia, ele tomou um ácido. A mãe dele era psicóloga, ele falou pra mãe dele que ele atravessava a mesa porque tinha capacidade de atravessar os objetos. E a mãe dele internou. E eu fiquei muito preocupada porque eu sei onde ele estava nessa história. E eu pedi pra mãe dele, eu fui lá na clínica onde ele estava internado: “Você quer sair daqui? Você pula o muro, eu te levo embora, coisa absurda você estar internado. Nós sabemos que LSD, na hora que você está viajando, você fala tanta coisa e faz tanta coisa que os outros não entendem”. E ele falou: “Eu não quero sair, eu vou ficar, senão eu vou fugir a minha vida toda”. Aí, eu falei com a mãe dele e a mãe dele disse que se eu me responsabilizasse pra morar com ele, ele poderia sair. Então, fui alugar uma casa. Ele queria uma casa perto do Liminha, que era o baixista dos Mutantes. Nós alugamos uma casa vizinha à casa do Liminha e da Dorinha, que era a mulher dele e fomos morar os dois lá. Ficamos morando lá uma temporada, no fim acabou não dando certo mesmo porque comecei a namorar não sei quem, ele achou ruim. A gente não namorava não, éramos amigos, amigos mesmo. E eu, sei lá, tive o caso com alguém, que foi lá pra casa, ele não gostou, foi embora, voltou pra casa da mãe dele. Aí, eu desfiz o aluguel, mas antes de desfazer o aluguel, Alice Cooper chegou no Brasil.

 

E quando Alice Cooper chega no Brasil, nós todos, nós Mutantes, fomos assistir ao Alice Cooper. E eu encontrei um moço que estava em um dos canhões da eletricidade do Alice Cooper. E nós namoramos. E a Dorinha que estava muito entusiasmada que eu tivesse um namorado, afinal, estava aí sozinha. No dia seguinte o grupo ia pro Rio de Janeiro, ele falou: “Você vai também”. Eu falei “Não vou pro Rio de Janeiro”. Ele falou: “Vai sim”. E eu sei que eu fui, ela me empurrou, empurrou, apareci no Copacabana Palace, ele estava lá na porta me esperando e depois que terminou o tour, no dia que ele ia embora, o menino começou a chorar no aeroporto. Eu falei: “Nossa, estou importante. Está chorando porque vai se despedir de mim”. E começou a telefonar, todos os dias: “Venha pra cá, venha pra cá, eu quero que você venha pra cá”. Eu falei: “Nossa, olha lá”. Eu tinha lido sobre Berkeley, a inteligência estava em Berkeley, as coisas mais interessantes no mundo estavam surgindo em Berkeley. Eu falei: “Eu quero ir pra lá, eu quero ir pra Califórnia. Nossa, o que está acontecendo lá...”

 

Eu pedi uma viagem pro meu pai, eu queria ir pra Índia, já tinha uma sedução pela Índia, não exatamente pelo Budismo, mas eu já tinha ouvido falar dos grupos alternativos que eram os zen-budistas na Califórnia, que já estavam vivendo sem agrotóxicos, com reciclagem, com energia solar. Eu falei: “Nossa, essa gente é linda, coisa tão bonita acontecendo, eu quero estar perto de gente inteligente que tenha idéias novas”. O meu pai disse: “Pra Índia, não. Índia é fim do mundo, é pobreza, você não precisa aprender mais coisa de pobre, nós temos bastante aqui, vai ver coisas boas. Você vai para os Estados Unidos, quando chegar na Califórnia você me telefona”. Fui pra encontrar com o menino, na Flórida, onde ele morava em uma casa a beira-mar, lindo. Só tinha show de rock n´roll, ele me levava para todos os shows de rock n´roll em Tampa, Flórida, que tinha um dos maiores estádios de rock n´roll dos Estados Unidos, e eu em backstage, enrolando cabos lá, mas assistindo os shows. Eu não acreditava, que maravilha. E foi uma época muita boa. E o tipo de música que me interessava, por exemplo, o The Who, é toda uma música social, o Pink Floyd tem um questionamento de compreensão da mente humana, que era a minha caminhada, era onde eu estava. Isso tudo vai reinforçar alguma coisa e a música é uma outra linguagem, era uma linguagem que eu estava descobrindo. Foi extraordinário, foi maravilhoso.

 

Mas estou sempre com saudades da minha filha, de novo estou na divisão: “Preciso voltar e ver a minha filha”. E ele diz: “Vamos pro Brasil”. Ele tinha equipamento de iluminação de shows, um caminhão cheio de equipamentos. E ele deixou esse equipamento com o irmão dele e nós viemos para o Brasil com os cachorros, um casal de Great Danes. Chegamos aqui na casa da minha mãe com o casal de Great Danes, a minha filha adora, estamos no céu, etc. Ele tenta arranjar emprego no Brasil, impossível. Todos olham pra ele: “Mas como? Você é norte-americano e quer emprego aqui? Nós queremos ir para lá. Há alguma coisa errada com você, de querer trabalhar no Brasil”. Algumas coisas de show ele faz, de eletricidade. Nisso o irmão dele rompe um contrato, tem um desastre e perde todo equipamento. Ele rompe um contrato com uma banda, por uma besteira que fez, tem o desastre na estrada com o caminhão e perdeu todo o equipamento que não estava todo assegurado. E o que acontece? Ele volta pra lá, pros Estados Unidos e eu fico aqui e nesses vai e vem nós resolvemos que vamos morar nos Estados Unidos, só que em vez de morar na Flórida, vamos pra Califórnia, que era o que eu queria, então, estamos indo pra Berkeley e estou chegando no meu objetivo.

 

Vou chegar na Califórnia com ele à procura de emprego. Vamos os dois procurar emprego, é mais ou menos isso que acontece, vamos morar na casa de uma atriz, que tem uma filhinha, eu gosto muito de criança e ele me proíbe a brincar com a criança porque babysitter tem que ser paga nos Estados Unidos, coisas assim que você diz: “Pôxa, realmente é um outro universo.”. E foi muito rica essa experiência, e eu começo a praticar com o Paramahansa Yogananda, self-realization fellowship. Nisso eu já estou cada vez mais me entranhando em meditação. Self-realization fellowship me manda lições pelo correio, eu pratico em casa, sozinha, e depois eu passo a frequentar o self-realization, passo de uma etapa pra outra e começo a me interessar em lótus completa. Um vizinho me dá um livro sobre ondas alfa mentais, eu percebo que o que eu estou fazendo em meditação é entrar em alfa, me parece que é. Eu vou procurar o Zen Center de Los Angeles e de lá não saio mais. Entrei no Zen Center e falei: “É a minha casa”. Eu acho que tudo aquilo que eu tinha aprendido na minha procura por Deus, pelo caminho, pelo o que é o ser humano, a mente humana, o que é a vida, de repente eu descobri que fazendo zazen você chega lá. Você não precisa de nenhuma droga, você não precisa de nada fora de você; é do ser humano, é da mente humana e basta treinamento pra você acessar talvez o que nós chamamos de o lóbulo direito do nosso cérebro, que a maior parte do tempo está adormecido, ele tem pouquíssimo instantes de manifestação e de repente você percebe que é tão fácil de acessar porque ele é seu e tá aí à disposição.

 

Então, eu comecei a descobrir que o zen era a minha praia, era a minha casa, era tão tranquilo, o cheiro de incenso, a maneira de fazer meditação, tudo tinha muito sentido pra mim. Comecei a praticar o zen, pedi pra ser monja, eles falaram: “Você nem conhece o Budismo, como é que você vai ser monja?”. Eu falei: “Eu tenho certeza que eu vou ser, eu espero o tempo que for necessário. Enquanto você quiser eu espero, eu estou aqui, a sua disposição, mas eu vou ser monja”. Aí, fui. Esperei três anos, depois de três anos eu recebi a minha ordenação. Aí, me mostraram os panfletos sobre o Japão, os mosteiros.

 

P/1 – Posso te perguntar uma coisinha, curiosidade minha, desculpa interromper. Como é que é esse processo, pra você ser monja você tem que passar por algumas coisas. Como é que funciona? É aprendizado, qual é?

 

R – Eu acho que nós somos as mudanças. Tem uma frase do Mahatma Gandhi que eu gosto muito: “Somos as mudanças que queremos no mundo”. Quando nós tomamos consciência disso, nós passamos a agir de maneira diferente. Eu acho que comecei os meus processos meditativos sozinha, em casa, até que eu descobri o Zen Center de Los Angeles, comecei a fazer zazen e nesse zazen eu vou perceber que tudo aquilo que havia acontecido na minha vida até então fazia parte da tapeçaria dela. Não há nada pra jogar fora, nada pra dizer: isso foi inadequado. Sim, teve erros, teve acertos, corrigiu-se erros e isso vai traçando a tapeçaria da vida. Esse olhar pra trás que às vezes podia ter de rancor, de insuficiência ou de questionamento, apenas é como é porque tendo sido como foi nos coloca hoje como somos e o que estamos agora. E isso é importante. Porque o que somos agora é o que está criando o que será. Então, não fico olhando para trás. Aquele olhar pra trás que a gente faz em meditação é inevitável, qualquer pessoa que inicie um processo meditativo vai olhar pra trás, toda a sua vida vai repassar ali, mas você vai ver a sua vida com os olhos, que eu digo, de Buda, com os olhos de tentar compreender e não de julgar. São inúmeras as causas e condições para que qualquer coisa aconteça, não é uma ou duas causas, são inúmeras. E todos esses vetores vão tornar possível a nossa existência.

 

Então, eu vinha do self-realization, a gente sentava na cadeira e eu tinha muito interesse em sentar com as pernas em lótus, muita dificuldade. Eu arranjo um emprego no Banco do Brasil em Los Angeles e sou funcionária local do Banco do Brasil. Como é uma atividade muito sedentária, e eu gostava de balé, eu arranjo um lugar para fazer balé clássico. Então, eu vou ter aulas de balé clássico com bailarinas profissionais, uma grande dificuldade porque eu não era bailarina profissional, era amadora, principiante. E as aulas eram muito exaustivas. Tinhamos uma professora que havia treinado com o balé russo e cada movimento era feito 32 vezes; o que nas outras salas de aula se faz quatro, oito vezes, no máximo 16, era cada um 32. Então, dava uma precisão muito grande, e uma exaustão muito grande. Um controle do corpo muito grande, e um conhecimento do corpo. Tudo isso foi mais ou menos necessário e vai criando as condições para o que vai acontecer depois. Tem uma vizinha minha que faz o Beverly Hills Diet, e ela me convida a fazer com ela. Eu emagreci, fiquei pesando 47 quilos de músculos, porque eram três horas de balé clássico por dia. Eu saía do jornal e fazia três horas todas as noites e no fim de semana chegava a fazer cinco horas de balé, sábado e domingo. Então, eu tava em muita boa forma quando encontrei o zen. Eu praticava meditação todas as manhãs, eu tinha uma barra de balé no meu quarto, eu acordava, fazia exercícios, ia para o banco, trabalhava, voltava. Tinha um cachorro, passeava com ele, fazia um jogging de manhã pela rua. Eu acordava muito cedo, dormia cedo, ninguém bebia na casa, não tinha esse hábito, trabalhava no banco e, do banco, ia para o zen center.

 

Encontro o zen center e digo: “Isso aqui é o meu lugar”. Uma grande afinidade, como se tudo fosse conhecido e fosse íntimo, e comecei a ir todas as manhãs. Eu levantava, eu morava em Hollywood onde tem aquele sinal da montanha, era Beachwood Drive, essa rua eu saía de lá e passava pelo zen center de Los Angeles para ir até o centro da cidade onde ficava o Banco do Brasil. Então, era muito conveniente. Eu fazia dois períodos de meditação e tinha atendimento, quer dizer, todas as manhãs eu poderia falar com uma das monjas mais antigas que era Joko Beck, uma grande mestra que se aposentou acho que o ano passado com 96 anos de idade. E todas as manhãs eu falava com ela, me consultava com ela, se fosse o caso, sobre o que estava acontecendo comigo e como que eu colocava isso em prática na minha vida. Não era questão de ser monja, nesse momento, era questão de como é que eu vivo melhor. De novo eu estava em um relacionamento, já estava há 7 anos casada, mais ou menos, e nós já estamos em conflito, brigamos, a coisa está muito repetitiva e, “O que eu faço? De novo isso, outra vez? Por que isso se repete? Eu tenho que olhar pra mim”. Não é dizer, eu vou trocar de parceiro e vai mudar, não vai mudar. Se eu não mudar, não vai mudar. Então, eu começo a ter esse olhar de ‘eu quero mudar’, tem alguma coisa em mim que não está batendo, não está bem, e eu preciso ser diferente. E é muito difícil porque nós temos hábitos, esse olhar de como eu sou e como reajo ao mundo é que começa a mudar. E Joko Beck, essa minha mestra, ela era muito hábil nisso e ela me dizia o seguinte: “Tudo o que acontece com você e todos que você encontra são seres iluminados disfarçados a te mostrar o caminho. Então, não rejeite nada”. Eu falei: “Mas eu brigo com o meu marido, a gente fica discutindo, é tão desagradável”. Ela disse assim: “Faça gasshô pra ele, coloque as mãos palma com palma quando for brigar, não brigue. Às vezes nem faça isso na frente dele, mas faça no seu coração. Porque ele está te ensinando alguma coisa, ele está te mostrando um lugar em você que pega, você está se autoconhecendo. Ele é o mestre, não sou eu”.

 

Aí, começa a inverter. Quando nós começamos a entrar nos nossos aflitos e conflitos, eu começo a fazer gasshô interno. Você não está brigando com alguém e faz na frente, fala: “Ah, muito obrigada”, não funciona. A pessoa fica mais brava ainda. Então, era uma coisa mais interna de: “Puxa, ele está me ensinando, está mostrando coisas em mim que eu não estava percebendo. Sou eu que reajo assim, a raiva é minha, não é dele. Ele bateu no meu botão da raiva, no meu botão da alegria, no botão da sexualidade, no botão da tristeza. Eles estão todos em mim. Sou eu isto”. E uma manhã, foi muito importante porque eu estava no banco, eu fui fazer uma colagem, pus vários papeizinhos na máquina e uma senhora entrou e voaram os papéis e eu fiquei com raiva. Mas a primeira vez na vida que eu me percebi com raiva na hora da raiva. É diferente de dizer ‘eu estava com raiva, tive um acesso, ou ia ficar’. Naquele momento, tudo o que existia era apenas a raiva. E eu estava sendo treinada para reconhecer isso. E eu reconheço, a raiva, ela é minha. Eu sinto raiva. Raiva de quê? De papéis? De papeizinhos que voaram? Como eu sou insignificante. Estou me achando tão poderosa, sou uma tonta, e poder rir de mim mesma. E lembrar um pouco do Siddarta, do Hermann Hesse. Que ele dizia isso, nenhuma gota d´água passa duas vezes no mesmo lugar. Eu aprendo a rir de mim mesmo com o rio, porque o rio parece que está gargalhando, tchi-tchi-tchi-tchi. E eu pude, pela primeira vez na minha vida, rir de mim mesma. Em vez de ter ficado com raiva, engolido o sapo, eu não podia brigar com ela, se alguém chegasse eu iria falar bravo com a pessoa. Não. Nada disso. Isso é raiva, ela existe no ser humano, existe em mim. Que interessante. Como é que fica minha respiração, batimento cardíaco? E como é que eu trabalho com essa raiva, trazendo essas informações. Isso passa, tudo tem começo, meio e fim. São papéis, vou ficar até as quatro horas da tarde aqui, são oito da manhã, tenho oito horas pra fazer isso, por que brava?

 

E isso dissolveu. E isso dissolveu alguma coisa em mim, foi muito forte isso, foi muito interessante. Porque aí começa o processo de autoconhecimento, a raiva é minha, não é do outro. Você é culpado de eu sentir raiva? Não. Eu sinto raiva, eu tenho ciúmes, inveja, eu tenho tudo em mim. Como é que eu lido com essas emoções? Como é que eu lido, comigo, ser humano? Acolhendo o humano que eu sou, não sendo supra-humano, mas sendo isso. E como é que eu conduzo isso de forma a criar harmonia, comigo e com os outros? Aí, começa o processo belíssimo, dificílimo, interessantíssimo. Todos os retiros que eles tinham, retiros de três dias, cinco dias, sete dias, eu me inscrevo em todos, vou começar a pedir licenças no jornal. Eu tenho um grande relacionamento um senhor que também já morreu, que era o nosso gerente geral, era um homem extremamente católico, com uma família maravilhosa, um grande pai, um grande marido, aquele ser que você pensa “Que coisa rara que ainda exista isso no mundo”. Ele estava com toda a família lá em Los Angeles, ele nos tratava a todos os funcionários como filhos dele, com ternura, com respeito. Ele facilitava que eu viesse ao Brasil, me dava licença, não-remunerada, claro, mas não perdia o emprego. Ficava com a minha filha, minha filha vinha, ficava. Então, a gente tinha um relacionamento muito bom.

 

E eu fui fazer um retiro de uma semana, esse foi um marco importante, várias coisas aconteceram nesse Sesshin, chama-se Sesshin que significa ‘unificar a mente’, é um retiro zen budista de sete dias. E é muito difícil, nos primeiros dias o seu corpo reclama, a sua mente reclama, tem pensamento, tá tudo tumultuado e, de repente, por si só, se aquieta e, de repente, você está apenas sendo, intersendo com tudo o que existe. É extraordinário, é uma coisa mágica. E tinha uma senhora que ficava no meu quarto, as pessoas de fora vinham, compartilhavam quartos. Eu morava na comunidade já. Essa senhora, muita católica, e o filho tinha dado de presente pra ela, de Natal, um retiro. E todas as manhãs eu acordava, fazia 108 reverências completas até o chão. Não era do zen budismo japonês, mas eu tinha ouvido isso em um lugar e era muito agradável. E essa senhora rezava o terço. E à noite a mesma coisa, antes de dormir eu fazia 108 prostrações e ela rezava o terço. E não nos falávamos porque os retiros são de silêncio. Quando terminou o retiro nós conversamos pela primeira vez, depois de sete dias. E ela me contou o seguinte: “Pelo quinto dia eu não aguentava mais, minha perna doía tanto, eu estava tão desesperada, achava que ia desistir. E nisso eu me lembrei de Jesus, e que ele foi crucificado, e quantas coisas que ele sofreu. Como é que eu estou reclamando de uma dorzinha na perna. Na hora que eu invoquei Jesus, tudo se transformou e eu fiquei bem até o fim. Como eu agradeço ao meu filho e a você”. E ela me fez a doação para os meus hábitos monásticos. Foi muito interessante. Absolutamente católica.

 

E comigo aconteceu uma coisa paralela, porque acontece com todos nós: no começo nós questionamos o que é estar sentado aqui, estamos enlouquecidos, paranóicos, obsessivos, olhando para uma parede, em silêncio, dia após dia, o que é isso? E todo o seu processo mental vai ficando transparente. Até que o corpo se aquieta, para de brigar. Tá doendo, você quer levantar, mexer, você fala ‘Não mexe’. Quanto menos você mexer, mais o corpo vai se adaptar a essa postura. Mas a gente não acredita. Até que chega o momento que você para de brigar. Eu tenho uma professora de Ioga que me diz o seguinte: “Nós não temos que afastar a escuridão, não se preocupe com isso. Deixe a luz entrar, é natural, é simples”.

 

E isto foi o que aconteceu. Quando terminou esse retiro, eu era atendente do meu mestre, eu levava incenso pra ele e eu chorei durante a cerimônia inteira, comovida. Não saberia dizer nem do quê, apenas comovida. E nesse dia eu pedi a ele que eu queria me tornar monja e queria me mudar para a comunidade. E ele disse: “Você é de uma família cristã, católica. Como é que você, que nem conhece o budismo, como é que você vai se tornar uma monja budista?”. Eu falei: “Eu vou”. Eu falei, queria me tornar uma freira. Em inglês, a gente fala nun, ele disse: “Não tenho nuns aqui, eu só tenho monks. Eu falei: “Então me faça monk”. Ele disse assim: “Vamos ver”. E fui falar com Joko, que era a minha orientadora. E a Joko disse: “Você pensa que existe uma coisa muito charmosa, glamourosa em se tornar monja? Não. Nós limpamos a sujeira do mundo, tudo aquilo que as pessoas não querem fazer nós vamos fazer. Todas as funções que ninguém quer, são essas que nós vamos escolher pra fazer. Você acha que você está pronta pra isso?”. Eu falei: “Acho que sim”. E ela não queria que eu saísse do meu emprego. Eu cheguei no meu emprego e falei: “Eu estou pedindo demissão, eu queria que o senhor me desse já e que eu fosse embora hoje. Eu não quero ficar mais nem uma semana aqui” . Ele olhou pra mim: “Mas o que é isso?”. Ele ficou muito comovido, a outra secretária disse: “Nossa, ele até chorou que você vai embora. O que você está fazendo? Ele é como um pai pra você”. E eu disse: “Por isso que estou fazendo isso, ele me entende”. E era interessante que tinha chegado um gerente geral no banco que havia sido religioso, ele tinha sido criado, como muitos brasileiros são, na Igreja Católica, ela acolhe os jovens, dá educação etc. E ele dizia pra mim, quando eu voltava dos retiros: “Você veio de olhos azuis”. Porque ele dizia, a cor dos nossos olhos muda. Ele brilha tanto que parece que está azul. Que é chamado o olhar iluminado, o olhar da espiritualidade. Este me compreendia muito bem, ele dizia: “Eu estou saindo da vida religiosa pra vir trabalhar no banco e você sai do banco pra ir pra vida religiosa. Nós estamos trocando de papéis” .

 

Fui morar na comunidade, fui ser o que a gente chama de trainee, o praticamente por três meses. Pagava-se uma quantia lá, eu tinha dinheiro guardado, de ter trabalhado no banco, tinha um bom salário, tinha um carro. Eu acabei vendendo esse carro e fiquei morando na comunidade. E esses primeiros três meses nós estudávamos juntos e tinhamos uma prática como os monges teriam. E cada vez confirmava mais, e cada vez ficava mais simples essa vida. Imagine, de repente você só tem uma chave. Eu me desfiz dos cartões de crédito, cortei os cabelos, dei todas as minhas roupas. Pra trabalhar no banco comprei roupas bonitinhas. Eu tive a minha fase do jeans, do Woodstock, de um par de jeans que você compra novinho e ele fica velho, cabelo todo solto. Aí, começa a trabalhar no banco, começa a pentear o cabelo, começa a por roupas que são adequadas para essa circustância. O meu marido que era um roqueiro de cabelo até a cintura, com dois braceletes de prata e aquela, como é que chama, que os índios norte-americanos usam muito, aquela pedra azul... De repente tudo isso se vai, tá ele de cabelo curto, de terno, tô eu lá de taillerzinho, trabalhando no banco. A gente se olha e fala: “Nossa, o que aconteceu aqui?”. E quando eu entro na comunidade budista eu vou cortando o cabelo, também tinha o cabelo comprido, até quase a cintura. Vai cortando, cortando, ficou bem curtinho, e pedindo ordenação. E toda semana eu ia pro mestre pedir ordenação e ele dizia: “Não”. E, ao mesmo tempo, a minha mãe aqui no Brasil dizia: “Minha filha, que absurdo”. Isso é lavagem cerebral. Por que você não vai a uma religião das nossas? Se você quer ser religiosa, vai ser freira católica, por que no Budismo? E foi maravilhoso, porque pra explicar pra minha mãe eu tive que me convencer no mais íntimo de mim mesma. E isso é uma das coisas que Buda diz: “Você não pode se tornar monge ou monja sem que seus pais consintam. Vivos ou mortos. Você tem que convencer o seu mais íntimo”. E ela questionava muito, e pra respondê-la eu acabei respondendo pra mim mesma.

 

E uma noite eu tive uma meditação muito interessante. Veja, eu fui criada católica, minha avó quis ser freira, meu outro avô foi padre, então, tem a idéia de trair Jesus como uma coisa medonha. E às vezes eu ficava assim: “Será que estou aqui traindo Jesus?”. E de repente eu tive essa visão de Jesus e Buda sentados lado a lado. Eles não brigavam, não estavam lá dizendo isso é meu, aquilo é seu, se você pegar um meu, vou pegar um seu. Quer dizer, isso são fantasias da mente humana. Esse conhecer a mente humana foi desfazer-se, inclusive, dessas coisas que colocam na nossa infância, libertar-se disso. Um dia eu ligo e minha mãe diz: “Você, sendo religiosa, minha filha, você está servindo ao que eu chamo de Deus. E servindo a Deus, em qualquer religião, você estará abençoada e você tem a minha benção”. Meu pai, como eu já disse, não tem nada a ver com religião, não se interessa: “É isso que você quer minha filha? Seja feliz!”. Eu falo com a minha mãe de manhã cedo, vou bater na porta do meu professor e dizer: “Então, o senhor não vai dar a minha ordenação?”. Antes que eu abrisse a boca, ele abre a agenda e diz: “Vamos marcar a sua ordenação?” E o que eu digo é isso, tudo acontece no momento certo. Nós criamos causas e condições, mas elas precisam ter maturidade. É o momento da maturidade das causas e condições para que alguma coisa se manifeste. E isso que se manifesta já é causa ou condição de um outro momento que está sendo construído. Neste momento que isso se construiu, ele acolhe o meu pedido, mas já estava claro, eu já vivia como monja.

 

Quando as pessoas queriam ser monjas em Los Angeles, nós ficávamos um ano morando com o mestre. O mestre era casado com uma norte-americana, tinha filhos. Então, era empregada doméstica 24 horas. Dormia, comia, acordava. Era a primeira a acordar, a última a dormir, fazia comida pras crianças, lavava, limpava a casa, ia pras cerimônias religiosas, fazia as práticas religiosas, voltava, cuidava dos carros, das plantas etc. Mal tinha tempo de ir pro banheiro, era um céu. Era uma maravilha. Porque você percebia, a cada instante, as pequenas pegadas da mente humana, as pequenas coisinhas nas quais a gente ainda está preso e parece que não desenrola. E de repente aquilo ia se desenrolando, se dissolvendo. Foi muito bonito. No dia da minha ordenação a única pessoa que veio foi o meu vizinho que tinha me dado o livro de ondas mentais alfa, era um senhor de 86 anos, que todas as manhãs corria na rua, chamava-se Walter, ele corria com uma bengalinha, e ele era o meu único convidado, o resto da família estava longe. Muitas das pessoas, quando tinham sua ordenação monástica, faziam festas, teve uma até que teve dança do ventre, tinha cerveja. Na minha teve um café da manhã muito simples na casa do mestre com esse único convidado, porque em seguida nós tinhamos o que fazer.

 

Essa transformação não é que eu estou com cabelos longos e um dia eu raspo meus cabelos e tudo muda. O processo é incessante, ele vai acontecendo, você é o processo, a transformação está em você o tempo todo. Você vai apenas permitindo que ela se manifeste. O dia da ordenação foi um dia felicíssimo pra mim, de grande alegria. Imediatamente eu comecei a trabalhar, eu continuei o trabalho com o mestre, aí, me deram um panfleto sobre um mosteiro no Japão, e eu quis ir pro mosteiro no Japão. E ele dizia: “Olha, a situação das mulheres no Japão é muito diferente da mulher nas Américas. Não sei se você vai ficar lá, mas se você quiser ir, eu organizo. Ele organizou, eu fui, no dia que chego no mosteiro, a minha superiora me recebe e diz: “Você pensa que somos todas santas aqui? Seres iluminados nós não somos. A vida monástica é colocar pedras dentro de uma jarra, pedras com pontas. Nós fechamos a jarra e vamos sacudir. E vai bater uma contra a outra e vai doer, mas quem ficar redonda primeiro não vai mais ser ferida, nem vai ferir ninguém”. Eu era muito presunçosa, eu achava que já tinha tido minha experiência iluminada, afinal eu tinha tomado tanto ácido, tinha tido tantos encontros espirituais com a verdade, tinha feito tantos retiros de meditação. Claro que eu estava pronta. E claro que eu iria falar do coração pro coração pras pessoas e não precisava saber falar japonês.

 

E aí, me puxaram o tapete. A vida nos puxa o tapete, qualquer orgulho, qualquer idéia de ganho é imediatamente tirada de você. Então, cheguei no mosteiro achando: posso tudo, consigo tudo. E, de repente, como era difícil. Como era difícil não falar a língua, como era difícil os relacionamentos humanos. Acordar cedo é fácil, manter uma rotina de acordar, de trabalhar, de meditar, isso não era difícil. Difícil era relacionamento humano. E aí foi esse aprimoramento. Oito anos, oito anos achando que minha abadessa, minha superiora, não entendia, que ela não me compreendia porque cada vez que eu ia na sala dela reclamar de alguma coisa, ela dizia: “É você” “Como sou eu? A menina está dormindo, não sou eu” “É você”. Porque eu tinha que mudar o meu olhar, todo esse processo, vivendo no Japão oito anos em internamento, internada em um mosteiro. A gente só saía pra pedir esmolas, onde você só via o pé das pessoas. Maravilhoso, foi dificílimo, foi sofrido, teve dois primeiros anos que eu não entendia o que falavam, era de enlouquecer. Você começa a entender o corpo das pessoas, mas as palavras não. Então, você começa a entender a linguagem não verbal. Isso foi um outro aprendizado maravilhoso. E eu subia na biblioteca, que era o único lugar que tinha cadeiras, onde eu podia ler e traduzir textos. E o sultra da flor de lótus, é um sultra, um dos ensinamentos de Buda maravilhoso. Esse vai me dar força pra continuar, nunca pensei em desistir. Tive uma ruptura no joelho, de uma cartilagem, extremamente doloroso e as monjas: “Você vai voltar, você vai voltar!” “Não, não vou voltar. Eu vou ser monja que anda em pé, vou ser monja que senta em cadeira, talvez eu só possa fazer enterros, eu não sei, mas eu não vou voltar”. E acaba corrigindo. E a minha superiora dizia: “Arrependa-se. Tudo o que acontecer com você, com o seu corpo, você é responsável. Arrependa-se”. Outra frase maravilhosa era: “As pessoas dizem, ‘estamos todos nas mãos de Buda’, e o meu mestre, que mais tarde vai ser mestre, que é o Abade superior desse mosteiro dizia: “Nós somos a mão de Buda, essa é a diferença”. Você é a mão sagrada, seja essa mão sagrada no mundo.

 

E aí, começa tudo a fazer sentido. A menina que declama a poesia social, a jornalista que tem a preocupação com as mudanças sociais, que vai ser uma revolução meio através de LSD, de comportamentos de ter pouco, de não precisar de quase nada, que vai ter um processo de americanizar-se, toda aquela sociedade americana que quando eu estou no Jornal da Tarde e que eu vou nas passeatas eu digo: “Ditaduta entreguista, faz o jogo imperialista”, depois eu chego lá e me apaixono por um americano e pela contra-cultura americana, que tá fazendo a grande transformação no mundo, que é uma revolução, Woodstock, toda aquela juventude que se levanta contra a guerra e que vai criar uma maneira alternativa de ser neste mundo, que talvez seja isso que até permita hoje a gente ter Obama como presidente, e as mudanças que nós estamos vivendo. E tudo isso vai ser encaixando no que hoje eu sou uma monja que prego o que? Uma cultura de paz. Eu não quero que todos se tornem budistas, isso não é essencial pra mim, como é que nós podemos criar juntos uma cultura de não-violência ativa? E não-violência não é só seres humanos com seres humanos, é com a natureza, tudo o que existe é o nosso corpo. A Terra não é a nossa casa, é o nosso corpo. Nós não vivemos em partes do nosso corpo, não vivemos sem as plantas, a água pura, sem o céu puro, ar puro. Precisamos de tudo o que existe e temos que cuidar. Não sabíamos disso, eu não sabia disso. E agora que nós sabemos, nós precisamos fazer alguma coisa a respeito. É isso que eu vivo agora.

 

P/1 – Quero voltar um pouquinho. Posso? .

 

R – Pode .

 

P/1 – Eu queria que você contasse um pouco da vivência no Japão. Quando você fala que existia essa dificuldade de compreensão sua, em vários aspectos, claramente também tinha a dificuldade de compreensão de outras pessoas. Como é muito longe da gente, não só a cultura budista, mas também a cultura japonesa, como é que foi essa vivência lá? E depois você falar: “Agora vou sair daqui e vou pro Brasil”. Esse momento.

 

R – Teve várias coisas interessantes. Primeiro, acho que quando aprendemos uma língua, nós aprendemos uma outra maneira de pensar, e nos relacionarmos com o mundo. Em japonês, o verbo vai no final, a última palavra da frase. Eu não é importante, tudo o que você faça pra diferenciar-se do outro não é considerado bom, você pode ter grupos de pessoas que se vestem de uma forma, mas você pertence a alguma grupo. E sempre o grupo é mais importante que o indivíduo. Então, toda a educação japonesa, pra qualquer pessoa japonesa é essa: o grupo é mais importante do que você.

 

E eu tinha uma certa dificuldade em relacionar com as monjas que estavam lá, eu era muito crítica delas. Então, naturalmente era mútuo, se eu era crítica a elas, elas eram críticas a meu respeito. Se eu não sabia algumas coisas da cultura japonesa, como abaixar-se pra falar com os outros, elas também não sabiam da minha. Nós tinhamos muitos choques com isso. Tive uma professora da cerimônica do chá que foi maravilhosa. Porque, se eu não conhecia as palavras, eu tenho memória visual mais fácil. E a cerimônia do chá você aprende fazendo, olhando, vendo. E a sala em silêncio. Em muito pouco tempo eu me especializei um pouquinho nisso, na cerimônia do chá. E me facilitou a entrada na cultura japonesa, através do silêncio, de compreender. Por exemplo, tinha uma monja que tinha uma birra comigo, as pessoas são assim, temos pessoas com mais afinidades, outras com menos. E essa monja era discípula da mestre de chá, e um dia, a mestra sabendo dessa rixa, chama ela na sala e diz: “Faça chá pra Coen. Vamos ver o quanto você é boa nisso”. E ela fez como se eu fosse a melhor amiga dela. Isto é uma coisa que no Japão é altamente estimada, e que nós no Ocidente achamos feio. Na sua frente, se eu estou com você, eu vou te tratar da melhor maneira, mesmo que eu te odeie. Eu jamais deixo isso transparecer. Agora, por trás, eu vou dizer a todos que você é má, que eu não gosto de você, só vou contar seus erros. Mas na frente não falo. E isso pra nós é um horror. No Japão é uma arte, é uma arte que é desenvolvida. As crianças aprendem isso. Pra conviver com isso, até aprender que isso fazia parte desta cultura... eu nunca me tornei japonesa, mas eu preciso compreender isso. E aí, você começa a compreender outra coisa, o piscar, aquele olhinho que mexe de leve e já quer dizer tudo. Não é isso? Pode não falar, o seu rosto pode não ficar assim, não gosto de você. Mas o olho diz, eu não gosto de você. E você sabe e o outro sabe. A gente aprende uma sutileza de relacionamento que é muito interessante, muito interessante. Principalmente se você está em um lugar tão fechado como o mosteiro, e o nosso mosteiro tinha no máximo 20 monjas.

 

Aí tem problemas que encontro no Japão. Sou delegada, sou escolhida entre as outras monjas, pela nossa superiora, a representar o nosso mosteiro em um grande evento. Um grande evento de pessoas que vão receber os preceitos budistas. Isso na nossa ordem é feito, há cerca de 150, 200 pessoas que vão receber os preceitos. Ficam hospedados durante sete dias em um templo, um templo que abriga 300 pessoas. Então, você imagina o tamanho desse templo. Tem 300 pessoas dormindo no templo, é um templo do interior, não é o nosso templo sede. A gente não tem proporção no Brasil do que é o budismo no Japão. Nesse pequeno templo do interior que acolhe 300 pessoas por sete dias, eles só precisaram trazer esses banheiros, o resto eles tinham tudo, cozinha, tudo. Mais de cem monges servindo. Eu sou a representante das mulheres na cerimônia, a monja representa as mulheres. Mal falo japonês. Eu entro em todas as cerimônias, na frente, junto com os monges. E faço todas as preces juntas, com o meu livrinho em romaji, escrito em inglês. A leitura japonesa da forma que nós escrevemos. E, de repente, aquilo é a minha casa, e de repente eu sei fazer aquilo. De onde vem isso? Eu tô em casa, ninguém precisa me ensinar, eu sei pra onde eu tenho que ir, eu sei que o livro abre na página, eu não procuro por nenhuma prece, a coisa acontece, ela se abre e desenvolve. Eu sou a pessoa que leva os alimentos para o abade superior, para o mestre, que seria o Papa da nossa ordem. Eu levo a comida pra ele e saio em silêncio, não precisa falar nada com ele, mas o clima extraordinário acontece. Só que quando chega no último dia, é o dia que a monja e o monge, tinha um jovem monge que representava os homens, vão fazer perguntas para esse abade. E tem um paninho que a gente abre pra fazer reverência antes de fazer. E o monge abre o pano dele por extenso, o meu é pra ficar dobrado. Eu falei: “Não, por que? Eu quero abrir o meu”. Não, não pode, porque você é monja. O monge vai na frente e abre o pano, você, como é monja, vai atrás e abre menos. Aí, eu chorei. Aquilo estava tão lindo, era tão maravilhoso, era tudo perfeito mas, porque eu era mulher, era monja, não podia abrir o meu paninho. É tão simples abrir um paninho, não podia abrir o paninho. E aí, houve uma coisa muito extraordinária, houve uma cisão e todos que estavam lá começaram a questionar, porque eles me viram o tempo todo, eu era muito visível, era uma estrangeira, uma brasileira que não falava japonês. Eu estava no céu lá, eu fluía com tudo, feliz. E, de repente, eu chorei. E todo mundo: “Por que ela chorou? O que aconteceu?”. Por causa do paninho, não abriu o paninho. É a discriminação com mulheres. E houve uma divisão. Alguns disseram: “Ela não pode abrir, porque os nossos textos dizem que não podem”. E outros: “A gente muda o texto, deixa ela abrir o paninho” . E no dia da cerimônia, um dos auxiliares desse abade superior chegou pra mim e disse: “Eu vou ficar do seu lado, se você quiser você abra o pano todo”. Mas eu não abri. Havia uma coisa em mim que dizia: “Se não concordam, como é que eu vou fazer? Tem que ser uma coisa que todos concordem.”. Hoje as monjas todas abrem o paninho. Porque eu chorei no dia. Não é fascinante isso? Eu só chorei, fiquei triste, uma coisa de nada. Mas que comoveu, pela simplicidade. Eu não fui fazer um movimento de libertação das monjas: “Monjas tem que abrir o paninho, lutar pelos direitos”. Não, não teve isso, mas a mudança aconteceu, porque foi do coração.

 

Foram pequenas coisas na minha vida no Japão. Claro que há discriminação, há esse problema, as pessoas que não conhecem. O nosso curso principal, o curso principal final que eu fiz no Japão, depois que eu me formei no meu mosteiro eu fui fazer uma pós-graduação. O que nós estudávamos? Discriminação. Há discriminação no Japão? Um monge de alto nível foi pros Estados Unidos, em Princeton fazer uma palestra, e alguém perguntou: “Há discriminação no Japão?”. Ele disse: “Não”. Esse monge foi processado pelo movimento contra a discriminação no Japão, porque a discriminação existe. E ainda está em fase de acabar com ela, não acabou completamente, como nós sabemos que no mundo a discrimação não acabou, ela existe, em vários graus, níveis diferentes. E, de vez em quando, como na Europa agora, começa a surgir de novo. Então, sabemos que existe. E ele queria dizer que não no plano do absoluto, no plano relativo existe a discriminação.

 

Então, o nosso curso acabou sendo direcionado para a discriminação. Discriminação que existe na Índia, quando fala dos párias, das castas. As castas que tem toda uma discriminação entre elas. Isto nos textos budistas vai passar pra China. Chega no Japão e como é que eles chamam as pessoas que eles discriminam? De não-humanos. Como é que você chama um ser humano de não-humano? Como é que você escreve numa estátua sagrada, fulano de tal, não-humano, e põe no túmulo de alguém. Nós fomos fazer uma revisão de toda essa discriminação que existiu porque se eu entro nessa ordem, essas pessoas que vieram antes de mim são meus ancestrais, eu estou concordando com eles, ou discordando. E se eu discordo, o que eu faço? O que eu faço hoje pra transformar isso? Então, o nosso trabalho, essencial na minha formação de professora no Japão era discriminação, não admita, não faça. E isso foi importante pra mim, fazer uma revisão em mim. Será que eu tenho? Claro que tinha. Muitas, claro que ainda tenho. Ainda trabalho com isso, incessantemente. Não é dizer tenho ou não tenho, ou, não discrimino nada. É mentira, discriminamos ou contra ricos ou contra pobres. Ontem à noite o pessoal do MST passou na frente do meu templo e haviam pessoas que diziam assim: “Ai, eles estão aí!”. Eu falei: “E daí? Eu também não tenho terra, eu não tenho. Eu posso fazer parte do Movimento Sem Terra, eu não tenho nenhuma propriedade. O templo não é nosso, nós alugamos uma casa. Nós somos sem-terra. Por que ter medo do sem-terra? Está com medo de quê? De que aspecto de você mesmo?”. É ser humano, e essa capacidade de você ver cada humano, como um humano semelhante é que é preciso despertar a cada instante, cada momento, senão vamos separando, dividindo. Toda idéia do Buda e do budismo é essa, você entrar nesse espaço da não-dualidade. O que os neurocientistas vão dizer que é o lóbulo direito do cérebro estimulado. Estimular isso e perceber que estamos ligados com tudo, eu estou ligada a essa cadeira, prótons, elétrons, tá tudo se comunicando aqui. E, ao mesmo tempo eu sei a diferença, que o meu lóbulo esquerdo me diz: “Não, isso aqui é a cadeira, isso aqui é o seu corpo, a sua pele”. Mas, há um outro lado, eu sei que tudo isso aqui está intercomunicando. E aí, a partir dessa visão, como é que você pode discriminar e dizer que aquele é melhor, aquele é pior, esta etnia é melhor que aquela, esta religião é melhor que aquela? Então, esse aspecto no Japão foi muito importante.

 

Agora, tinha um problema nesse curso, eu não sabia japonês suficiente pra falar de discriminações. Eu tinha aprendido o japonês que fala de Buda, dos ensinamentos de Buda, do mestre Dogen, que é o nosso fundador, um ser extraordinário, viveu no século XIII no Japão, uma luz brilhante, um grande poeta, um grande escritor, um grande monge. Ele é a minha paixão, meu namorado, meu amante . Dogen Zenji morreu em 1253. Leio e me entusiasmo com ele.

 

Então, eu estava fazendo um curso especializado na discriminação e uma revisão crítica dos textos budistas clássicos. Então, nós vamos rever todos eles vendo aonde há discriminação, não pra apagar os textos, mas pra por notas e explicar pras pessoas que naquela época, na Índia, a discriminação existia, mas isso não é uma coisa que nós vamos transmitir pras gerações futuras, que nós já temos um outro olhar. Mas eu não conhecia muito essa liguagem. Eu conheço a linguagem dos textos budistas, mas não linguagem do dia a dia, não muito comum. E temos vários professores que vem dar aula e às vezes é difícil de ler os textos. E um jovem mogem se aproxima e vem me ajudar a ler os textos. Ele era jovem suficiente para ser meu filho, então, se com os outros homens que podia, eventualmente, ter algum pensamento de relacionamento, com esses eu não me aproximo, deste menino eu me aproximo. Afinal, é uma criança. E ele vem, me ensina isso, me ensina aquilo, faz chá pra mim. E um dia ele se declara que está apaixonado. Aí, eu falei: “problema”. Então, eu vou para os meus superiores, nós estamos em um programa especial, três meses de treinamento intensivo, internados em um mosteiro, numa cidade maravilhosa perto de Kioto. É um dos primeiros mosteiros do mestre Dogen, fundador da nossa escola, fez lá no século XIII. Estou felicíssima de estar lá, estou no terceiro ano, falta só mais este ano e o próximo para eu me graduar, quando esse jovem aparece e se declara. Chego para os meus superiores e digo: “Olha, ele está confundindo. Não tem mulheres aqui, é natural”. Tinha eu e uma outra monja japonesa. “É natural que ele se entusiasme, ele está se entusiasmando pelo dharma, pelo que eu significo, por aquilo que o meu mestra me ensina, que ele tem curiosidade, não é bem por mim. Então, eu queria que vocês falassem com ele”. Mas o que eles falaram? É o seguinte, os monges no Japão, todos se casam, tem mulheres e filhos. As monjas, a maioria não se casa, porque, quando se casa, deixa a profissão, vai cuidar dos filhos e deixa de ser monja. Então, há um estímulo à monja de que não se case e não tenha relacionamentos. Não é obrigado o voto da castidade e do celibato, no Japão não é obrigatório. Então, o que os monges que se casavam achavam: ‘Coitadinha dela, não é? Ela não tem marido, não tem namorado. Ela deve estar precisando namorar. Vai lá, namora ela”. Então, em vez de dizerem, ‘pára com isso’, estimularam o menino, aí, ele veio com tudo. E, evidentemente, eu estou carente, sozinha, e é bom ter alguém que goste de você, é uma delícia, e a gente namorou. Namorou e casou.

 

E aí, nós casamos e foi um meio problema. O problema é o seguinte, eu estava seduzindo o monge porque eu tinha mais de 40 anos de idade, ele tinha 20 e poucos anos de idade, então, só posso ser eu a sedutora. Então, o avô dele, que bonitinho, me telefona um dia, dizendo que eu me afastasse do neto dele, que eu estava seduzindo o neto dele. E aí, eu briguei com o avô dele no telefone, eu falei o que eu quis falar. E ninguém fala pra um monge, mais velho que você, hierarquicamente superior, o que eu falei. Não falei nada muito grave, eu falei: “O senhor nunca errou na sua vida? Quem é o senhor pra me dizer e me jogar pedra? O senhor é um homem perfeito? Nunca teve nenhum erro na sua vida? Fez tudo correto? E quem disse que fui eu que seduzi o seu neto? Por que não pode ter sido o contrário? Quem disse que foi assim?” O homem ficou furioso, bateu o telefone e começou a criar um drama dentro de toda a ordem. “Isso não pode acontecer, é o meu neto, ele vai ter uma carreira brilhante”. Realmente, o treinamento que nós estávamos fazendo era pra professores de mosteiros, abades. Pouquíssimo monges no Japão fazem isso, a elite da elite monástica. É uma seleção que se faz de pessoas que tenham capacidade, condição e vocação pra ser professor de mosteiro. Não é que seja melhor que os outros, mas é vocação. Então, essa é uma elitezinha que é tratada como abelha-rainha, com melzinho melhor, os melhores professores, melhores treinamento. E nós estávamos juntos nisso.

 

E quando essa questão do casamento acontece, o avô dele fica muito desesperado, achando que vai prejudicar a carreira do neto. E é nisso que ele está pensando, e eu entendo isso também. E o meu mestre diz assim pra mim: “Eu acho que é melhor vocês se casarem. E eu faço o casamento”. O meu mestre era o professor dos professores abades de mosteiros. Dentro da nossa hierarquia ele era um dos níveis mais elevados. Acima dele teria só o abade superior, como a gente chama ele, ‘o Papa’, vamos dizer assim. Ele é o futuro ‘Papa’, e o que ele fala no Japão, dentro da nossa ordem, é lei. E ele diz: “Eu faço o casamento de vocês”. E ele diz pra mim: “Você sabe que não vai ser eterno. Você sabe que essa diferença de idade, vai chegar um momento que vocês vão distanciar em caminhos diferentes, mas eu faço. Vocês estão tendo uma relação que está a 50 anos adiante do que as pessoas julgam aqui, não tem nada a ver com idade isso. Casem-se”. Fez o meu casamento, o avô do menino não foi, ficou de mal. A minha superiora mandou um telegrama muito polidamente, mas enfim... Casamos e ficamos trabalhando no templo de um amigo dele, alugamos uma casinha muito pobrezinha, um barraquinho, fomos os dois morar no ‘amor, uma cabana e nada mais’. Fomos morar no nosso barraquinho, muito simplesinho, pobre mesmo. Já foi tirado, era uma favelinha. Moramos nessa favelinha, fomos trabalhar no templo do amigo dele que emprestava o carro. Não tinhamos nada. Ele largou tudo, ele realmente tinha uma carreira brilhante, ele largou tudo. Eu trabalhava em um templo perto do Monte Fuji, que era um templo que foi construído, eu estive lá na construção desse templo, do irmão mais novo do meu mestre, e eu era a responsável por esse templo. Eu tinha também uma carreira brilhante acontecendo ali. A idéia era que eu ficasse no Japão e recebesse estrangeiros que viessem praticar no Japão, que quisessem ser monges ou fossem treinar. Então, eu tinha um futuro brilhante, eu também, e a gente largou tudo isso e fomos morar no amor, uma cabana e nada mais. Sem nada. Com as roupinhas. Fazíamos as meditações juntos, namorávamos, brigávamos, casalzinho novo. E esse amigo dele nos recebe, nos dá trabalho, o pai do amigo nos dá um carro de presente. No Japão isso é comum, carro velho é barato e ele dá um carro. Conseguimos um emprego em Hokkaido, no norte do Japão. Vamos trabalhar, lá é frio, uma delícia, maravilhoso. Trabalhar muito, muito, muito. Cada um tem um carro, trabalhamos o dia inteiro, uma coisa muito interessante, que entrar dentro da cultura mesmo. Porque aí eu já sou japonesa, mesmo, sou mulher de um japonês, o meu olhar muda, o meu relacionamento com a comunidade muda, eles mudam o olhar comigo. Vou dentro das casas das pessoas para rezar para elas, faço enterros, faço serviços memoriais. Quer dizer, você está no mais íntimo. Vocês viram aquele filme “A Partida”?. Eu vou fazer a missa depois daquela preparação, as pessoas estão comovidas. Então, um relacionamento de grande intimidade. Isso muda todo o olhar. E os monges recebem muito bem.

 

Nós alugamos um apartamento em Hokkaido, gastamos muito porque temos que pagar esse aluguel, compramos dois carros, maravilhosos . E fora disso, rezamos o dia inteiro de uma casa pra outra, enterros, enterros, enterros, memoriais, memoriais, meditação, etc. E vamos acumular dinheiro. Pra quê? Pra vir pro Brasil, porque ele quer vir pro Brasil. Ele acha que seria extremamente fascinante trazer o budismo para um país que tem muitos poucos budistas. E eu falo: “Por que a gente não fica? O Japão é tão bom. No Japão os monges são bem respeitados, tem um nível de vida muito bom”. Tudo extremamente agradável. Ter um templo no Japão que pudesse acolher estrangeiros seria uma idéia boa, havia possibilidades disso, mas ele insiste muito: “Vamos tentar o Brasil, vamos tentar o Brasil”. Então, juntamos dinheiro, compramos tudo pra comprar um templo, os instrumentos pequenos, não muito grande, mas compramos tudo pra poder vir ao Brasil e montar um templo. Falamos com a nossa sede administrativa, eles concordam e aqui no Brasil, o monge que veio para o Brasil, ele reconstruiu a sede no Bairro da Liberdade e há possibilidade da gente vir trabalhar aqui também.

 

Então, fazemos a ponte, viemos pra cá. Vou ficar de novo na casa da minha mãe, com um monte de coisas que estão vindo de navio e vão chegar depois. Então, tem uma certa pressa de alugar onde eu vou morar, onde vou trabalhar. Passam-se alguns meses, ele tinha uma ilusão que com o dinheirinho que a gente acumulou dava pra comprar um terreno em Mairiporã e que a gente iria construir um templo. E aí, descobre que não é bem assim, o que está escrito no jornal é diferente. E não conseguimos comprar o que a gente pensou que podia comprar, o dinheiro vai sendo gasto, fomos trabalhar no templo da Liberdade e houve então uma mudança. O monge que construiu esse templo volta pro Japão, teve um desentendimento com a diretoria brasileira e volta pro Brasil, e pedem que eu assuma o templo. Oras, eu tenho nível pra isso, eu sou uma monja, dentro da hierarquia, eu já chego com um determinado nível de capacidade de liderança e ensinamento. Eu sou qualificada em ensinar monges em mosteiros e cuidar de templos, etc. Ele não, ele ficou num nível um pouco abaixo do meu, mas enfim. Chegamos e ele dizia: “Vou ser seu atendente a vida toda. Não se preocupe que eu cuido de você, vou te servir para sempre”. Eu falei: “Nossa”. E o meu mestre: “Olhe lá, hein.”

 

Assim viemos pra cá, o templo é colocado em nossas mãos, e tudo aquilo que aprendemos no mosteiro, de não discriminação, a nova maneira de tratar o budismo, de tratar a comunidade, que benção. Caiu na nossa mão do céu, vamos por em prática. Nós mudamos muitas coisas na comunidade, detalhes pequenos mas que são de grande importância dentro da ordem e da visão do mundo de equidade, de não diferenciação por dinheiro, alguém vai lá e compra um título de morto, por exemplo, não tem cabimento. Nós acabamos com tudo isso e democratizamos o Zen Budismo aqui no Brasil com a nossa chegada. E trabalhávamos muito, porque o templo era muito grande. Acordava cedo, fazia a meditação, limpava o chão inteirinho, todos os altares, era uma delícia. Aparece um primeiro aluno, uma pessoa dizendo: “Eu quero me tornar monge”. Eu falei: “Vamos ver, eu estou aqui. Venha”. Ele começou a vir todos os dias, ele se torna monge. Começam a ter missas memoriais. E, de repente, eles pedem que eu faça.

 

Agora, o que aconteceu quando eu cheguei? Havia alguns monges mais velhos que trabalhavam no templo, e quando eu cheguei eles queriam oficiar a cerimônia e que eu iria ser a atendente deles. E este meu marido diz: “Não, nós somos atendentes dela”. E isto foi um outro drama, porque eles não queriam, eles não engoliam isso. E a mulher desse monge dizia: “Este não é um templo pra mulheres, esse é um templo de homens. Homens é que devem cuidar desse templo”. Então, nós vamos bater de novo com a discriminação. “Como vamos lidar com isso?”. E ele tinha feito esse mesmo curso comigo, então, estava muito forte isso, e onde ele ia ele dizia: “Gaijin não é ela, somos nós. Nós não somos brasileiros, isso aqui é Brasil. E ela tem qualificação e vocês não tem. E vocês vão levar o incenso pra ela”. Foi uma coisa meio desagradável porque eu não faria isso, eu não chego e digo: “Agora sou eu quem mando”. Não dá, não funciona. E ele quebrou todo esse gelo. E a colônia japonesa, ele me fazia oficiar todas as missas. E começou a aumentar o número de missas no templo porque foi reconstruído, era agradável. Começou a vir tanta gente, tanta gente, que eu saía arriada no fim do dia de tantas missas que fazia. E as pessoas pediam que eu fizesse. Por quê? Porque os avós, os batchan, os ditchan, não falam português. E os netos não falam japonês. E eu falo japonês e português. Então, eles queriam que eu fizesse as missas porque eu podia rezar em japonês e falar pra eles em japonês e falar para os netos em português. Então, aquilo encheu de gente, foi uma coisa muito extraordinária.

 

Uma noite por semana, tinha uma palestra do dharma, ensinamentos. Vinham quatro, cinco pessoas. Começaram a vir 50, 70, 100 pessoas. Eu comecei a traduzir os textos, comecei a fazer grupos de estudos, então, o templo teve um crescimento extraordinário, muito bonito, o que causou algum problema. Aí, queremos um homem, japonês, mais velho, que assuma. Precisamos ter um oficialmente do Japão. Mas eles estavam certos, precisavam ter um líder. Só que o meu marido ficou bravo, disse assim: “Por que não faz ela o líder? Porque ela não é japonesa, não é isso? Porque ela é mulher. Porque se ela fosse homem e fosse japonês, vocês empossariam ela nesse cargo. Porque ela tem toda a documentação, tudo o que é necessário. Mas vocês não estão empossando porque ela é mulher e não é japonesa.” E aí criou-se um grande impasse, uma grande dificuldade e finalmente mandaram uma pessoa do Japão pra cá. Só que essa pessoa chegou achando que eu não ia passar o bastão pra ele, que eu ia querer ficar ‘o templo é meu e não dou pra vocês, são meus alunos’. Ele era o meu superior, eu tô numa ordem religiosa, pelo menos eu acredito que estando numa ordem religiosa e me mantendo numa ordem religiosa, se um superior chega, eu obedeço. Mas aí ele achou que eu não iria obedecer, houve várias intrigas... A gente pensa que não, mas em toda parte acontece e no final você olha e diz: “Tudo isso é um dharma, tudo isso é a verdade se manifestando belíssima como é. Porque graças a tudo isso, que benção, eu saí de lá”. Durante o tempo que eu estive lá eu fui Presidente da Federação das Seitas Budistas brasileiras, nunca uma mulher, uma não-japonesa, foi eleita. Aconteceram coisas extraordinárias, eu não pedi, não lutei, não batalhei por isso. Não tem isso, as coisas acontecem, elas se abrem. Era o momento. A sede no Japão me reconheceu, não oficialmente, mas extra-oficialmente eu era a responsável. Eles me colocaram, meu marido me ajudava a fazer as traduções dos discursos solenes em japonês. Ele escrevia, eu lia, que maravilha! Português eu falo, japonês ele escrevia. Muitos casamentos. Foi uma coisa extraordinária. Houve um movimento contrário, chega um outra pessoa, tem que sair. Opa, começo de zero. Aí eu me lembrava de Edith Piaff.  Jogo tudo fora, começo de zero outra vez.

 

Saí do templo, um aluno meu disse: “Por favor, venha dar aula pra nós aqui, na sala de visitas da minha casa. Não tem móvel, mesmo, a gente faz zazen lá”. Cabiam umas dez pessoas, no máximo. Uma vez por semana a gente se reunia lá. De repente, quem aparece? O Chico Pinheiro vem me entrevistar. “O Frei Betto falou de você” “Frei Betto? Eu não conheço Frei Betto” “Ele falou de você, eu vim te entrevistar porque você está fazendo coisas muito bonitas, teve discriminações com você”. E aí, eu começo a aparecer na mídia. Como, por quê? Eu não fui atrás, eu não pedi. Porque eu fui jornalista é mais fácil? Eu acredito na mídia, sem dúvida alguma. Eu sei que a mídia pode manipular também, mas também muita coisa boa passa. Afinal, eu vivi isso. Eu começo a dar entrevistas, nós começamos um movimento de fazer caminhadas pelos parques. Porque, entre os períodos de meditação, a sala era tão pequena que não dava pra gente ficar em pé e andar. E a gente começou a sair pelo estacionamento do prédio. Fomos pras praças públicas fazer caminhada meditativa. Eu falei: “Acho que tenho uma coisa boa para dar ao Brasil”. Não é que os brasileiros vão dar pra mim, que eu vou ter um grupo forte, poderoso, vou ser rica e maravilhosa. Não, o que eu tenho a dar? O que esse budismo tem a dar que possa melhorar a vida das pessoas. Como é que elas podem se tornar menos violentas, menos agressivas? Caminhar é bom, respiração consciente, vamos fazer isso no parque. Porque tem muita gente que não vem ao templo. “Não quer ser budista, vou lá, vão cobrar”. Não, é de graça, vamos até o parque oferecer um serviço público. E a gente começou. A idéia era fazer todos os parques da cidade, da rede de metrô. Mas a gente chegava e o pessoal estranhava: “Quem são esses, não são aqui do bairro. O que estão fazendo?”. Aí, a gente fechou mais no Parque da Aclimação, hoje a gente está no Parque da Água Branca, e continuamos fazendo, uma vez por mês, caminhada meditativa, oferecer a alguém alguma possibilidade.

 

Com o marido, ficamos casados sete anos e, como o meu mestre havia dito, fomos nos separando. Quanto mais eu comecei a entrosar a ter alunos, ele me ajudou muito, foi meu atendente mesmo. Quanto mais eu comecei a entrosar e ter alunos e me envolver com isso, o relacionamento foi se tornando menos importante. E aquilo que você não cultiva, o que você não utiliza, atrofia. Então, nós criamos entre nós uma ternura, uma amizade profunda, mas deixamos de ser marido e mulher. E aí, ele começou a sair à noite, as pessoas queriam que eu não deixasse ele sair à noite. Eu falei: “Por que não? Deixa ele descobrir a vida. Vai, passeie, saia na noite”. E, com isso, ele acaba se apaixonando por outra pessoa e o pessoal disse que nós tinhamos que nos separar, que era muito impróprio, nós morávamos juntos e ele namorando. Eu falei: “É, vocês tem razão. A gente é monge, é melhor divorciar”. Fizemos o divórcio, ele continuou morando comigo, começaram a falar mal de novo: “Você é divorciada, morando com ele, ele namora”. Eu falei: “Eu faço o casamento dele, se for o caso, não tem isso”. Enfim, ele mudou-se de apartamento e quando esse novo superior chegou eu não podia mais pagar o aluguel da casa que eu estava pagando, ele também não estava mais comigo, eu mudei de volta pra casa de minha mãe e ele se mudou para um outro apartamento. Mais tarde ele volta pro Japão, nós nos comunicamos quase que uma vez por semana por telefone durante os primeiros meses, sempre com muito respeito, com muita ternura. Ele se casa no Japão, tem uma filhinha e morre. Teve um infarto e morreu. E assim as coisas são, são inexplicáveis, a nossa vida está sempre por um fio. Perdi um grande amigo, um contato importantíssimo pra mim no Japão. Ele chegou no Japão, ele gostava muito da política da igreja, da ordem, ele elegeu um dos amigos dele em um dos cargos mais elevados, estava muito cansado porque foi um esforço muito grande. Foi em um banho em um ofurô, ele estava fazendo massagem depois do ofurô quando morreu. Pelo menos morreu bem. Morreu de forma agradável. Deixou uma filhinha, uma mulher.

 

E eu, do meu lado, comecei a ter meus alunos, um envolvimento mais em como ensinar, a minha superiora dizia assim: “Leva dez anos pra fazer um monge, 20 pra fazer um professor e 30 pra fazer um mestre”. Eu tô nessa fase de virar mestre. Então, eu ainda erro um pouco com meus alunos, coitadinhos deles . Mas a minha intenção é a melhor possível, de que o melhor número de seres possam alcançar a libertação, a iluminação. A iluminação significa libertar-se de amarras que nós criamos para nós. E ser livre é um ser responsável, porque nos percebemos na teia da vida, a rede da vida, e o que a gente faz, pensa e fala, mexe nesse universo. Eu gosto da Terra, eu gosto do ser humano, acho o ser humano maravilhoso, acho que viver aqui é um delícia, eu acho que é bom que muitas gerações depois de nós possam apreciar isso. Então, o que nós fazemos agora pode criar causar e condições para que pessoas continuem apreciando a vida humana na Terra. É isso.

 

P/1 – Muito rapidinho, as últimas dúvidas. Qual seria, hoje, depois de passar tudo isso, o seu sonho agora? Ou mais lúdico ou mais louco? Um sonho.

 

R – Tem algumas coisas que eu penso que eu acho que seriam boas pra acontecer, mas eu já penso em termos de comunidade. Da gente ter um lugar que seja um pouquinho, não dentro da cidade, exatamente, mas não fora da cidade. Mas que pudesse ter um pouco mais de silêncio, vamos dizer, de silêncio de carros e movimento pra ter um pouquinho do som da natureza e que a gente pudesse fazer retiros e ter uma convivência mais intensa. O que eu tenho no momento é uma casa alugada. E nessa casa alugada as pessoas não podem morar lá. Mesmo se as pessoas quisessem passar um mês comigo, a condição é muito precária, tem que dormir na biblioteca, não tem condições adequadas. Eu queria ter um lugar que tivesse condições adequadas pras pessoas que querem praticar juntos, convivermos juntos, mesmo que por curtos períodos de tempo, se possível. Isso é um sonho. Tanto dentro da cidade, como fora da cidade. Isso é uma meta, a curto prazo, que eu tenho. A longo prazo é que todos os seres se tornem iluminado. Todos, sem exceção.

 

P/1 – E a última pergunta: o que você achou de contar pra gente um pouco de sua história? Como é que foi essa experiência hoje.

 

R – Primeiro eu achei fascinante, eu não sabia que esse Museu existia como ele é, da capacidade da gente poder se inspirar nas coisas que já aconteceram e que estão acontecendo, e que nós podemos transformar o mundo e que a gente pode ver as transformações pra que nós possamos assumir responsabilidade na nossa vida. O que nós fazemos muda o mundo, o que cada um de nós pode fazer é lindo. Eu gosto de algumas coisas do Al Gore, mas tem uma frase dele que eu gosto muito, que ele diz: “Esta é uma geração que tem de ser de heróis, heróis e heroínas. Nós temos que oferecer a nossa vida para um bem maior, que é pro bem da nossa casa, do nosso corpo, da nossa terra, da nossa espécie. E essa espécie não vive sem as outras”. E essa é uma transformação de consciência, de modelo mental. E eu acredito que vocês aqui estão pegando várias pessoas que caminham nessa direção, a gente encontra de áreas diferentes, de pontos de vista diferentes, mas o propósito comum é o mesmo, ‘como é que nós criamos um mundo cada vez melhor’. E ele está melhorando muito, muito.

 

P/1 – Obrigada Monja, a gente agradece muito pela entrevista.

 

R – Que sirva sempre pra isso, pra cada vez o mundo melhor. Muito obrigada.

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