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História

Aceitou as lutas, venceu todas as batalhas

História de: Selma Alves dos Santos
Autor: Marcia Elias Trezza
Publicado em: 02/04/2019

Sinopse

Selma foi, aos quatro anos, viver com a avó. Teve carinho e paparicos. Brincou, nadou com os meninos, foi à escola, cresceu feliz. Mas seu sonho era viver em São Paulo. Empregou-se como babá. Cuidou dos filhos dos outros até ter os seus. Teve três, um deles especial. Lesão cerebral. Destinado, segundo lhe disseram, a vegetar. Ela se fez mãe-guerreira, aceitou todas as lutas, venceu todas as batalhas. Hoje Rafael fala e anda; se veste e toma banho sozinho. Autista, passeia com a instituição, interage. Viajou, curtiu o mar, quer andar de avião de novo. A história de Selma é uma história de doação, de entrega. Nada para ela é mais importante do que a felicidade do filho e os progressos surpreendentes obtidos indicam que valeu a pena cada renúncia e cada esforço. Provando que é assim quando o amor supera os prognósticos mais sombrios.

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História completa

Eu sou cria de avó. Aos quatro anos de idade fui morar com os meus avós. Saí de lá aos dezoito, contra a vontade da minha avó. Queria realizar o sonho de viver em São Paulo. Ainda me lembro dos gestos carinhosos da vovó - o acordar-me cedo; o cuidado com o uniforme; o dedicado preparo para eu ir para a escola. Tudo tem um preço: hoje, aos sessenta e dois anos, eu sinto a ausência de um vínculo maior com a minha mãe e as minhas irmãs. Mas, da infância gostosa, guardo as brincadeiras; os banhos de rio com os meninos; a ida travessa para a escola; a necessidade de decorar conteúdos. Meu avô (...) foi me ensinar o ABC: “Se você não decorar, eu vou lhe bater”. Aí ele pegou um chicote (...) e deu nas minhas costas. Aí fui crescendo e a cidade não oferecia nada. Uma casa que passava filme era o cinema; ficar conversando com os moleques na praça e pegar na mão era namorar. O primeiro beijo não aconteceu, porque o cunhado deu o flagra; ficou mesmo para São Paulo, com meu marido. Tinha bailinho, aí já mais grandinha, e aquelas roupas coloridas por causa da luz negra. (...) não tinha outra coisa a fazer ali. Aquelas moças grandes tudo com o pensamento infantil.

 

Cheguei em São Paulo. Contra tudo, contra todos. Chorei demais, “para mim era outro mundo”. Mas as luzes me fascinavam. Fui ser babá. Gostei e me dei bem. Só não trouxe minhas irmãs porque no caminho apareceu o casamento. Apesar de tudo, até hoje acho que não deveria ter vindo. É que logo em seguida morreu minha avó. De desgosto? E meu avô. De saudade dela? O povo, revoltado, só me avisou depois dela enterrada. Orgulho do interior. Aí, quem sabe a saudade, a tristeza, a solidão - ou tudo isso junto - me empurraram para o casamento. Até que durou muito: vinte e um anos. Depois, fiz a mala dele e me separei. Com três filhos, um especial. Eu não aceitava estar sozinha naquele sofrimento. Na verdade, quando nasceu o primeiro filho eu já parei de trabalhar. Era babá. Tinha muito amor ao que fazia e muito apego às crianças. A última ficou comigo até os quinze anos. A maioria é amigo ou amiga até hoje. Aprendi que cuidar dos filhos dos outros envolve maior responsabilidade, mas é certo que você tem mais segurança cuidando dos seus. Porque você cuida e educa. Nasceu o primeiro, nasceu o segundo, já no primeiro senti que a relação enfraqueceu: o marido parece que teve dificuldade para ceder o lugar de “primeiro eu” para o filho. Quando nasceu o terceiro filho, em Aracaju. aí sim... Aí tudo desandou e desabou: o parto aconteceu uma semana após o previsto, faltou oxigenação e o médico foi direto: “Você tem um filho que vai vegetar”. Ali começou a minha difícil e verdadeira trajetória de vida.

 

Saí de lá, vim para São Paulo em busca de fazer dele uma criança normal. Ou quase. Aqui também, no começo, me tiraram as esperanças: que ele, de fato, iria vegetar - sem falar, sem andar. Os prognósticos eram os mais desfavoráveis possíveis - “Mãe, ele é um PC [paralisia cerebral]. A senhora vai ter que cuidar dele; ele vai ser, sempre, uma eterna criança”. E a realidade confirmava a gravidade do quadro: o Rafael convulsionava vinte e oito vezes ao dia! Chorava dia e noite. Até os cinco anos ele, simplesmente, vegetou. Aí ele foi para a AACD [Associação de Assistência à Criança Deficiente]. Nisso, já havia, a minha disposição de fazer dele uma criança como as outras, uma entrega total. Eu não aceitava a diferença. Tudo girava - como até hoje gira - em torno dele. E, infelizmente, impondo sacrifícios aos demais - os demais filhos, o próprio marido. Só que esse, pouco ou quase nada ajudava.

 

Como disse o filho do meio quando resolvi me separar: o pai deles e meu marido não nos amava. Então, a rotina incluía duas ou três visitas, por semana, à AACD. Nesses dias, o mais velho levava o mais novo à escola; um estendia a roupa na corda e o outro secava a louça, por exemplo. E ambos comiam comida gelada. Um com oito, o outro com quatro anos. E o filho do meio sempre me apoiando, sempre próximo ao irmão, invariavelmente otimista - “Mãe, meu irmão vai andar, vai falar como eu”. Chegou a ficar um ano afastado da escola para me permitir dedicação absoluta, integral, ao irmão doente. O mais velho chegou a me dizer que não era obrigado a estar ligado no irmão. Dois momentos muito, muito emocionantes e especiais neste rosário de lágrimas, que me trouxeram muita alegria, foram as duas maiores conquistas de Rafael, que eu considerei também um pouco minhas: a primeira vez que ele falou e a primeira vez que ele andou. Aos onze anos de idade. Ali eu tive a certeza de que havia valido a pena, de que dera um valioso fruto positivo todo o investimento feito no meu filho.

 

Só que, aos quinze anos, ele também foi diagnosticado como autista. Iniciou-se, então, uma nova e prolongada luta para enfrentar essa nova situação. O que significa ir em busca de uma escola para adaptação, para socialização do Rafael. E aí, foram ONGs de um lado - a todas eu recorria, em todas eu levava: médicos; psicólogos; fono; tratamentos; medicamentos - até cobaia ele foi; e, do outro lado, a escola, obtida somente aos dezenove anos. Porque somos humildes, tivemos nossos maus momentos, mas também fomos, inúmeras vezes, surpreendidos positivamente: a convivência de Rafael com a sobrinha, minha neta; a independência que ele conquistou, comendo sozinho, passeando sozinho, indo ao banheiro sozinho, se vestindo sozinho; sua vaidade, seus gostos, suas escolhas - tênis, restaurante, a viagem, a interação com o mar, a alegria do primeiro voo.

 

Por outro lado, protagonizou um episódio inimaginável em sua condição de autista, de quem viveria apenas para vegetar: na ONG que ele frequenta surgiu uma situação de risco envolvendo um colega e ele, com serenidade, com carinho, mas também com energia, resolveu. Simples assim: resolveu! Ou seja, tudo aquilo que foi passado para ele, ele agora consegue passar adiante. Graças a toda essa evolução do Rafael eu, finalmente, pude cuidar um pouco de mim. Voltar a ter minha vaidade, meus momentos, vida própria, amizades. Só que namorados não. Aprendi que mulher separada, e eventualmente namoradeira, e mãe de especial são incompatíveis. O meu melhor momento, e de toda alegria, foi quando ele começou a andar e a falar. Que eu vi que tudo que eu estava fazendo estava tendo retorno para mim. Mesmo ele nessa idade… Mas para mim é uma criança.

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