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História

Alemão de Taubaté

História de: Hans Otto Taube
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/03/2004

Sinopse

Imigração para o Brasil. Escolha do pai. Segunda Guerra Mundial. Infância em Taubaté. Educação. Concursos Literários. Formação em Engenharia. Trabalho em multinacionais. Volta para a Alemanha. Viagens. Casamento. Filhos. Empreendimento atual. Descrição de Taubaté dos anos 50 e 60.

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História completa



IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Hans Otto Taube, nasci na Alemanha na cidade de Braunscheweig, em 15 de fevereiro de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial.

FAMÍLIA
O meu pai, chamava-se Gustav Taube e minha mãe Stefania Taube.

IMIGRAÇÃO
Vim para o Brasil em 1949, com sete anos. Meu pai era nascido em 1900. Viu a Primeira Guerra Mundial, a guerra [dos anos de] de 14 a 18, e depois a Segunda Guerra Mundial, de 39 a 45. E quando terminou a guerra... Então, na verdade, tem quatro anos na Primeira Guerra e mais seis anos da Segunda, são dez anos somente em guerra, então ele tomou a decisão: “Vou deixar esse continente, vou pra outro continente onde haja um pouco de paz”. Nós viemos pro Brasil motivados, fugindo da guerra, mas na verdade, no primeiro momento, nós íamos para o Canadá, porque o irmão do meu pai vivia no Canadá. Então, ele disse: “Vamos para o Canadá”. Meu tio estava lá. Porém, quando nós apresentamos toda a documentação no consulado canadense, as imigrações foram fechadas e nós não pudemos ir para o Canadá. Aí, a segunda opção, por influências de amigos do meu pai, ele escolheu a Austrália. Então nós preparamos toda a documentação, inclusive passaporte e tudo, estava pronto pra ir pra Austrália, quando a imigração australiana foi fechada novamente. E já um tanto quanto irritado, ele chegou um dia em casa, abriu o mapa do mundo e olhou assim, falou: “O Canadá está aqui em cima, o que está aqui embaixo? Aqui embaixo está o Brasil, vamos fazer uma tentativa de ir ao Brasil, depois a gente sobe por terra até o Canadá”. Essa foi a forma que nós chegamos ao Brasil. No dia seguinte, ele foi ao consulado brasileiro, se apresentou e falou: “Olha, eu sou engenheiro de estrada, consultor de estradas, existe alguma possibilidade de imigração para o Brasil?”. “O senhor, o que o senhor é?” Ele disse: “Sou construtor de estradas”. “Nossa, nós temos N empresas procurando profissionais, está sendo construída a maior estrada que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, o senhor tem interesse?”. Ele falou: “Tenho”. “Então, apresenta amanhã os documentos que nós vamos encaminhar”. Em duas semanas, estávamos embarcando pro Brasil, num navio de bandeira americana, General Macrae, e assim nós chegamos ao Brasil e estamos até hoje. Primeiro, de avião, fomos para a ilha das Flores, no Rio de Janeiro. Ficamos quarenta dias em quarentena na ilha das Flores, e daí ele veio pra Taubaté, porque a empresa chamada TH Marim de Andrade era responsável pelo trecho de Jacareí até Cruzeiro, então aí ele veio pra Taubaté. Depois ele seguiu aqui, arrumou uma casa e tudo mais, ficou a pessoa responsável pelo trecho de Jacareí até Cruzeiro.

SEGUNDA GUERRA
Eu nasci em 1942, mas me lembro da Segunda Guerra Mundial, do fim da Segunda Guerra Mundial. Eu acho que o momento é tão dramático. Eu lembro que a minha mãe saía com o carrinho de casa, quando ela acabava de sair e foi fechar a porta, terminava de fechar a porta, bombardearam a nossa casa. Com três anos de idade, eu tenho vivo isso na lembrança. Tenho três irmãos. Todos mais velhos, são falecidos. O último faleceu agora, faz dez dias, o mais velhos de todos. Eles eram de 29, 30 e 31 - eu fui o temporão, vim em 42, em plena Segunda Guerra Mundial.

IMIGRAÇÃO
A viagem para o Brasil foi um encanto, porque um navio de bandeira americana, com os americanos, na época, deram todo o apoio. Nós fomos de trem da Alemanha para a Itália e embarcamos no porto de Nápoles com todo o conforto. Quer dizer, a viagem foi realmente um espetáculo e eles estruturaram a tripulação do navio, pra estabelecer uma certa ordem, então os próprios passageiros eram fiscalizadores. Eu lembro bem que minha mãe recebeu uma insígnia porque ela era fiscalizadora lá da ordem, pra evitar os jogos. Era uma alimentação excelente, pelo governo americano, e assim duas semanas depois nós já estávamos em ilha das Flores. Não sabíamos nada. A única informação que nós tínhamos era do cônsul brasileiro, que eu não me lembro o nome, mas me lembro do fato, porque meus pais é que contavam isso: depois de eles terem preparado a documentação pra vir pro Brasil, aí o cônsul brasileiro falou pra eles o seguinte: “Olha, vocês não precisam levar nada de roupa quente, aqueles agasalhos de frio, vocês podem dispor tudo, os acolchoados também, que lá no Brasil vocês podem dormir de baixo de uma palmeira, faz tanto calor. Agora, se preparem porque lá não tem, determinado alimento vocês não vão encontrar no Brasil, tem muitos macacos, e tem isso, tem aquilo, tem muita banana”. Então, foi essa lembrança que eu tenho transmitida pelos meus pais. Você vê como é que o Brasil era relatado em 1949.

INFÂNCIA
Veja a impressão sob a ótica de país era difícil pra mim porque eu era criança e não posso dizer... Mas eu posso dizer a primeira impressão quando eu fui pra escola. No primeiro dia, eu lembro, nós morávamos... Já viemos pra Taubaté em 49, e nós morávamos próximo ao local onde estava sendo construída a via Dutra, então era na Vila São José, porque eles tinham que ficar próximo ali, sempre tinham que trabalhar 24 horas. À noite, às vezes, eles buscavam meu pai, tinha algum problema, então ele tinha que sair de madrugada, porque era 24 horas a construção da estrada. Então eu fui matriculado em uma escola de bairro, eu me lembro bem da professora, dona Maria, como toda boa professora, e no primeiro dia, a mãe levou e falou: “Olha, vamos lá pra escola”. Fiquei lá não mais de cinco minutos, e no primeiro intervalo, já estava indo embora, eu falei: “Eu não vou ficar lá, eu não sei o que eles falam”. Mas assim foi no dia seguinte novamente, o mesmo trajeto, o mesmo local, e aos poucos a gente foi se aclimatando, se acostumando, aprendendo as primeiras palavras, e esse foi o início de Brasil, essa foi a primeira impressão de Brasil. Fiz uma parte nessa escola, e depois eu mudei para a escola das irmãs na Vila São José. Depois eu fui pro Lopes Chaves. Aí já tínhamos adquirido um terreno em Taubaté, meu pai já tinha adquirido um terreno, começou a construir a casa, então ficava no lado oposto da cidade. Aí eu mudei de escola, fui pra escola mista Corozita Lopes Chaves, primeiramente; depois acabei concluindo na Lopes Chaves o primário. Depois o secundário foi no colégio do estado, que na época Taubaté tinha o colégio do Estado e tinha o Colégio Taubateano. Eu fui pro estadual, colégio estadual. Terminado o ginásio, estava em construção o novo ginásio do estadual de Taubaté, que é próximo à rodovia, aí terminei o colégio no colégio do estado, ali próximo à Dutra, que ainda está lá até hoje.

IMIGRAÇÃO
Não tinha muitos alemães aqui no Vale do Paraíba. A família que nós encontramos é a família Wenzel, que existe até hoje. É uma família tradicional, eles também vieram antes da Primeira Guerra Mundial. Na época, em 49, 50, eram empresários bem-sucedidos em Taubaté, ela subsiste até hoje, mas ela está numa fase que não se modernizou, está quase em fase de extinção. A empresa existe. Ainda um dos herdeiros, o velho Otto Wenzel... Era o pai e três filhos: dois faleceram e um deles é vivo ainda, é o Henrique Wenzel, que ainda está à frente dessa loja. É uma loja e oficina e peça de reposição pra automóveis. Em São José tinha o pessoal que veio para o CTA [Centro Técnico Aeroespacial], então o CTA e o ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica] atraíram muita gente. Depois, com a Embraer então, mais ainda, é essa a razão do pessoal que veio. O que ocorreu aqui no Vale do Paraíba foi com o navio Windhurk, quer dizer, durante a Segunda Guerra Mundial teve aquele navio, o navio Windhurk, que ele fazia uma viagem de turismo para a África do Sul, e quando ele aportou na África do Sul, numa colônia inglesa, ele quase que foi aprisionado, então o comandante resolveu zarpar. Antes de eles receberem a ordem de aprisionamento, ele resolveu zarpar, zarpou sem destino e acabou chegando na costa brasileira. No meio do trajeto, eles pintaram o navio com bandeiras japonesas, como se fossem japoneses, e assim conseguiram chegar em Santos. Essa história está relatada no livro do Camões Filho e grande parte destes elementos, deste navio, foram prisioneiros e vieram para um campo - entre aspas - de concentração em Pindamonhangaba. E estes alemãs então eram a tripulação do navio, acabaram ficando aqui porque o processo se estendeu por quase dois a três anos. Acabaram ficando, uns foram pra Campos do Jordão, que o clima era mais adequado, foram para hotelaria, outros foram pro comércio. Então esse é o núcleo, vamos dizer, que eu conheça da Segunda Guerra Mundial. Além disso, não conheço uma imigração para o Vale do Paraíba, ou melhor, para Taubaté. Eu não conheço.

INFÂNCIA
De infância, eu cresci... Depois de dominado o idioma, aprendido o idioma, o começo, naturalmente - não é choque cultural, mas existia assim uma receptividade: loiro, olhos azuis, Segunda Guerra Mundial, todo mundo não sabia exatamente... Quer dizer, jovem da minha idade, não sabia exatamente o que se passava. Mas não existia nenhuma rejeição, nada. A gente era considerado como um elemento da sociedade, porém muito estranho, loiro, olhos azuis, tal, sotaque diferente com fala, e tudo mais, mas não havia rejeição nenhuma, não havia, nunca houve isso aí. Pelo contrário: a receptividade do povo foi muito grande, nós tínhamos vizinhos e amigos, nossa, que se dispunham a tudo. Então a receptividade foi grande, não houve rejeição nenhuma, não. Brincadeira de rua, na época, era bolinha de gude. A região onde a gente morava era muito arborizada, eram chácaras, então usufruía muito das chácaras, a chácara do Paduan, do Mariotto. Então, isso daí em Taubaté era quase que o início de Taubaté, porque Taubaté era uma província. Taubaté sofreu um pouquinho porque dentro da história taubateana você tem a era... o auge no Vale do Paraíba. Foi na época dos barões do café. Quer dizer, Taubaté, a região do Vale do Paraíba, viveram uma riqueza enorme por barões do café, porém 29, quando veio o crash da bolsa, na área do café eles foram à falência, desapareceram. Aqueles que iam todo ano pra Paris, pra Europa, sumiram de um dia pra outro. Então as propriedades ficaram aí, largadas. Aí começou a migração dos mineiros, com a pecuária. Entraram aqui no Vale do Paraíba e a pecuária tornou-se forte. A gente sabe muito bem que depois de 29 até 1950, 55, a pecuária era muito forte. Aos poucos, a pecuária também foi perdendo espaço. Hoje é pecuária de corte ou fazendas históricas com pousadas. A gente vê muito disso aqui no Vale do Paraíba, fazenda histórica com pousada, a rota do café, a rota desta fazenda toda. Isso existe. Cheguei com sete anos. Eu me lembro de uma passagem: eu acompanhei a minha mãe até o mercado municipal, esse que existe até hoje, e ela ia com dicionário - ela não falava nada - então ela ia com dicionário; ela olhava assim, carne, o que ela queria no idioma alemão, aí ela falava carne, aí o açougueiro olhava e falava carne, aí ela mostrava com o dedo o que ela queria, um quilo ou meio quilo, dependendo da quantidade. Então era por gestos, assim. E eu me lembro de uma passagem muito interessante: ela passava numa banca e ela via o - na Europa não existe fumo de rolo - , ela viu aquele fumo de rolo enrolado e disse: “Nossa, aqui vende lingüiça aos metros, e ainda por cima é tudo preto, este negócio deve estar estragado”. É passagem que eu não esqueço. Quando voltou para casa, ela contou pro marido e pros filhos e falou: “Olha, aqui vende a lingüiça toda preta, e ainda por cima é enrolada num pau e vende por metro”. Muito tempo depois é que ela foi descobrir que aquilo lá era fumo. Não existe este costume na Europa: na Europa se pega folha de tabaco, junta-se e corta-se, depois enrola-se o cigarro em papel. Isso já era desde a Segunda Guerra Mundial. E aqui não: era o jeca, estilo do jeca o fumo em rolo, e depois a folha de milho, a folha seca de milho. Este é um fato, e assim tiveram outros, muitos outros, que mostram as diferenças de cultura.

CIDADES
Taubaté Taubaté era uma cidade - eu diria era uma vila, não era nem cidade. A lembrança que eu tenho de algumas ruas, as principais, era rua Pedro Costa, rua Duque de Caxias, e onde revendiam ainda os fazendeiros. Os donos de fazendas pecuárias comandavam o processo em Taubaté até 1954, mais ou menos. Aí veio a primeira indústria taubateana, veio a Willys pra Taubaté - que hoje é a Ford, atual Ford - e aí a cidade começou a mudar de imagem. Vieram os americanos acompanhar a produção, acompanhar a industrialização. Depois, em 1957, veio a Mecânica Pesada, do grupo francês, e Taubaté começou a mudar um pouquinho a imagem dela. Mas até 54 era uma cidade única e exclusivamente de venda pecuária, das fazendas pecuárias. Então a gente já pode imaginar: carro de boi andando na cidade puxados a cavalos, carroças. Essa era a imagem de Taubaté até 54. 54 em diante, começou a industrialização taubateana.

TRANSPORTE
A Dutra foi construída em 49 até 1953, se eu não me engano, porque quando terminou a construção da Dutra - eu lembro bem - que meu pai foi transferido, passou a construir a Fernão Dias. Aí a empresa pegou um trecho na região de Atibaia e ele foi transferido. A Dutra já estava pronta, uma pista só, era uma pista só, e era um centro de atração. Naturalmente, aos domingos os taubateanos iam na ponte ver o movimento da Dutra. Isso era muito interessante: ver o movimento de São Paulo ao Rio. Isso era fantástico. Nós, como crianças, isso era uma atração. Já era movimentada, já era.

CIDADES
Taubaté Lembro, na época Taubaté não tinha supermercados ainda, eram armazéns. Era o armazém do seu Miguel Carter, no mercado; era a loja do seu Murad, Armarinhos Santa Terezinha; essas eram as lojas da época. Tinha ainda a Casa Abraão, tinha da família do Saad - não me lembro mais o nome da loja - mas eles hoje são os proprietários da escola Saad. Os pais dele tinham uma loja de armarinhos muito grande. Então Taubaté teve uma fase também de imigração libanesa muito forte. Taubaté tem uma cultura libanesa forte.

COSTUMES
A cultura européia é muito diferente da sul-americana, em termos de consumo. Na Europa se consome muito pães escuros de centeio, misto, e aqui não tinha. Então ia pra São Paulo para se abastecer por um mês, um mês e pouco, porque aqui não tinha. Era inviável você conseguir um pão centeio, um pão misto; era inviável. Íamos para São Paulo de carro, de jipe. Na época, nós tínhamos um jipe. A ferrovia existia, mas a ferrovia era muito pouco utilizada, porque o tempo de ida... O ônibus mesmo, Pássaro Marrom, que existe até hoje, era um elemento também de ir a São Paulo. Em casa falava-se alemão. Mantinham a cultura original. Éramos quatro irmãos. Eu era o menor, os dois mais velhos trabalhavam, o intermediário ainda tinha uma profissão, era alfaiate e depois ele também começou a trabalhar em uma alfaiataria aqui em Taubaté. Os dois mais velhos trabalhava com o pai, eu ia à escola, e o intermediário depois também começou a trabalhar como alfaiate. Minha mãe sempre foi dona de casa: ela cuidava das roupas, cuidava da casa e tudo mais. Essa era a função dela. Minha mãe costurava, e dentro da filosofia pós-guerra, os irmãos usaram muitas cuecas de saco de estopa... Estopa não... Desse branco, alvejado, saco alvejado, que chama. Abria-se o saco de algodão, faziam-se os cortes e minha mãe costurava. Porque ainda era pós-guerra, uma nova existência.

FAMÍLIA
Na Alemanha só ficou um tio meu, um tio e uma tia. Depois, os demais familiares faleceram. Com esse tio, nós voltamos a ter contato em 1960, quando eu voltei à Alemanha, já profissionalmente. Fui visitá-lo, e foi o primeiro momento. Por carta também houve contato. Eu sei que os meus pais trocaram correspondência também, mas eu não tenho domínio disso.

IMIGRAÇÃO
Ao longo do tempo, a idéia de ir para o Canadá foi abandonada, porque meu pai... Ele veio com 49 anos, com duas guerras. Daí, a primeira coisa, depois de três anos, ele já construiu a casa dele, já fixou sede, os filhos todos trabalhando, o filho menor indo pra escola, então ele estava numa situação até confortável aqui. E com o passar do tempo, a idade foi avançando e o problema do clima também impactou muito - ele já começou a sentir o impacto do clima, reumatismo e tudo mais - e abandonou a idéia totalmente. Ele gostava do Brasil. Era o paraíso pra ele, ele nunca se arrependeu. Uma pessoa simples, nunca se arrependeu de ter deixado a Alemanha e ter vindo pra cá.

TRABALHO
Eu me formei engenheiro. Eu fiz engenharia aqui, depois eu fiz pós-graduação no ITA. Nesse período, eu trabalhava - me formei e comecei a trabalhar na Mecânica Pesada. Comecei exatamente quando a Mecânica Pesada fez um contrato de licença com uma empresa alemã. Então, nesse momento, o meu conhecimento de idioma aliado com meus conhecimentos técnicos eram valiosos para o grupo MAN. Então iniciei na Mecânica Pesada, na área de motores navais. Vinha tecnologia da MAN e, de cara, tive a oportunidade de voltar para Alemanha, fazer um estágio, e acabei ficando por vinte anos. Até assumi a gerência industrial dessa... Que era um cargo de confiança da matriz, porém devido à experiência acumulada, ao longo dos anos, eu acabei sendo indicado e aceito como gerente na área de motor do grupo MAN. Fiz engenharia na UNITAU. Me formei em 1967. Taubaté já estava num processo de industrialização. A Willys veio em 54. Em seguida foi substituída pela Ford. Aí veio a Mecânica Pesada. Depois veio a MAN, em 67. Então, Taubaté já tinha, vamos dizer, um apelo industrial. Era o começo da vida universitária em Taubaté, foi o começo da UNITAU, foi o começo com a faculdade de filosofia, engenharia e outros segmentos. CIDADES Taubaté O comércio teve muitas mudanças. Eu diria que a primeira fase foi de 50 a 60... Antes. Em 58 começaram as mudanças em Taubaté, começaram a vir grupos maiores. Na década de 60 a 70 foi mais forte, realmente: começaram a vir os supermercados, a cidade começou a mudar muito, muito. Sob a ótica do comércio, a indústria traz o emprego. Então tinha muita gente de fora, vinham os estrangeiros, automaticamente tinha demanda de produto, de comércio melhor, mais forte. Começaram a surgir restaurantes em Taubaté, já de certa qualidade. Eu lembro, em Taubaté tinha a cantina Toscana, foi o Bruno Tadiuchi, que é também um imigrante italiano, que fundou e ficou muito tempo. Ele percebeu a necessidade, justamente com a industrialização, com a vinda dos americanos na Willys, na Ford, não tinham cantinas próprias, eles tinham que almoçar na cidade quando recebiam algum diretor alguma... Aí a cantina Toscana era uma referência de Taubaté. O comércio começou a se transformar para atender esse público novo. Se fundou, na época, um restaurante muito além das expectativas da cidade: o Chamonix, um negócio extremamente chique em Taubaté, na avenida Nove de Julho, mas ele não sobreviveu muito tempo porque o público era relativamente restrito. Mas era fantástico, com cozinheiras formadas de São Paulo. Restrito que eu digo é porque fora os executivos, a mão-de-obra era mais simples, era o SENAI, pessoal em nível técnico. Não tinham, pelo poder aquisitivo, acesso a este restaurante, então eles sobreviveram um determinado período e depois sucumbiram. Taubaté tinha, naquela época, 50, 60 mil habitantes, não mais do que isso. Então, com o crescimento demográfico, com a vinda das indústrias, o crescimento demográfico imigratório foi muito grande em Taubaté, muito grande. Eu acho que se a gente fizer um levantamento hoje, acredito que até a população taubateana seja minoria. Eu vivi uma fase aqui, quando Taubaté era considerada a capital do Vale. Todos os órgãos federais, estaduais eram em Taubaté. O que aconteceu com o ITA, com o CTA, com a Embraer? Esse peso deslocou-se pra São José dos Campos. Houve um deslocamento, algumas instituições federais migraram também pra São José. Taubaté perdeu algumas instituições representativas do estado e do governo federal que foram pra São José. E São José teve uma política - eu acredito que pelo perfil de profissionais que vieram pra São José e pelo perfil de políticos que administraram São José - mais arrojada. Eles partiram muito mais... No primeiro momento, acho que foi uma abertura muito maior pra indústria, conseguiram atrair muito mais indústrias do que Taubaté. Automaticamente, eles tiveram um desenvolvimento mais rápido, muito mais rápido do que Taubaté. A cidade sentiu, até hoje sente. São José evoluiu e, se a gente comparar hoje, o poder aquisitivo de São José é quase que três vezes o de Taubaté. Ele é fruto da indústria. Tem o lado positivo e tem o lado negativo, a gente pode considerar os dois lados: de um lado é extremamente positivo, a cidade sofreu um boom, a cidade se expandiu, a cidade cresceu. Por um outro lado - a indústria tem isso - uma fase de instabilidade, e numa época de inflação alta, muitas indústrias deixaram São José dos Campos, fecharam de um dia pra outro. Então São José acabou sofrendo com isso, e hoje a gente sabe que o problema de índice de criminalidade de São José é maior, é de conhecimento público. Não precisa ir muito longe: há um ano atrás, a Soletron fechou 450 cargos, direto na rua. A gente pode imaginar qual o efeito imediato disso aí: nos primeiros três meses, ele vive com o salário do fundo de desemprego, depois ele vive com o salário do fundo de garantia, depois vai morar numa favela, depois acaba onde? Embaixo de uma ponte. Então São José sofre, a gente sabe que sofre. A indústria é positiva, eu acho que ela é positiva, mas tem que ser balanceada com a área de serviço. Se não for balanceada com a área de serviço, a cidade vai sofrer, vai sofrer e vai sofrer muito. Eu acho que isso é uma responsabilidade muito grande. Taubaté teve a felicidade - a gente pode chamar assim - que atrasou um pouco a área de desenvolvimento industrial, mas por um outro lado Taubaté busca na área de serviços uma identidade. Taubaté tem tudo pra isso, é um celeiro, quer dizer, além dos nomes que aqui passaram por Taubaté, que são de Taubaté, culturalmente Taubaté tem tudo, geograficamente, então, nem se fala: está situado entre São Paulo e o Rio, entre o litoral e a Serra da Mantiqueira. Existe situação mais favorável do que isso?

IMIGRAÇÃO
Eu acho que essa sensação de imigração, só vivendo é que a gente sente. Porque a gente parte de uma situação de razoável conforto, vai a zero e tem que recuperar tudo. De 14 a 18, na Primeira Guerra Mundial, meu pai tinha catorze anos, quando começou a guerra, e terminou com dezoito; se casou com 28, então começou a montar a primeira subsistência dele. Quando terminou de construir a primeira casa dele, para os filhos, em 1932, 33, alguns anos depois explode a Segunda Guerra Mundial. E ele perde tudo, vai a zero novamente. Não só vai a zero... Nós temos uma característica peculiar: é que o meu pai é de origem alemã e minha mãe é da divisa da Silézia - uma região que era uma hora alemã, outra hora Polônia - e eles acabam decidindo fixar residência em Varsóvia. Quando explode a Segunda Guerra Mundial, a primeira coisa que acontece é que meu pai é deportado pra Alemanha e a mãe fica em Varsóvia, com três filhos. Eles vêm depois pra Alemanha, eu nasci na Alemanha, inicia-se uma segunda fase em nossas vidas: depois da Segunda Guerra Mundial... E essa segunda fase, meu pai não queria mais fazer dentro de um âmbito de guerra e veio fazer no Brasil. Então, com 49 anos de idade, iniciar uma nova existência não é algo fácil. Precisa ter muita força de vontade e coragem. 49 anos de idade, quatro filhos e iniciar uma nova subsistência. E tudo isso é transmitido naturalmente. Então, pra nós, pra mim particularmente, eu não tinha que buscar... Eu tinha que estudar, eu tinha que buscar lastros financeiros por parte dos pais, eu tinha que me formar, não tinha jeito.

EDUCAÇÃO
Eu sempre fui à escola... Pra mim era uma trajetória de desafio, mais nada. Sempre era o primeiro lugar, ganhava prêmio aqui, prêmio ali, Semana Monteiro Lobato - até hoje eu tenho as coleções Monteiro Lobato. Eu fazia científico e disputava contra o clássico; disputava contra o clássico que eram as pessoas que se dedicavam ao estudo da literatura e tudo mais, e no entanto... Eu lembro bem do professor Cesídio, quando ele dizia: “Olha, vocês aqui, é melhor nem participar da Semana Monteiro Lobato, do concurso, porque vocês não têm habilidade, aquilo lá era um desafio”. Ele provocava a gente. Aí eu dizia: “Não, agora é que eu vou participar”. E quando ganhava, ele dizia: “Eu sabia que vocês tinham competência”. Era um concurso. Do concurso era escolhido um tema, dentro da literatura do Lobato. Na antevéspera... E tinha uma banca examinadora, que era o professor Jerônimo, um professor conceituado, um baiano, professor de português, famoso em Taubaté, professor Cesídio Ambrogi que faz parte da história taubateana, que trocou correspondência com Monteiro Lobato, e a professora Belinha, que ainda é viva - dos três ela ainda é viva. Então era a banca examinadora. Nós íamos numa sala e eles davam os temas e nós tínhamos que descrever os temas inseridos no livro do Monteiro Lobato na antevéspera. Participei e ganhei. Eu tenho ainda os livros lá em casa: a coletânea toda de Monteiro Lobato está em casa lá, com a dedicatória de Cesídio Ambrogi, Jerônimo de Souza e professora Belinha. Foi uma infância e juventude de muito estudo. Eu não tinha alternativa: é vencer ou vencer, não tinha mais alternativa. Escolhi engenharia, acho, que mais por parte do pai. Ele trabalhava nesta área, eu ia muito ao trabalho dele, ele me levava, eu via então... Feeling, puro feeling. Não teve nada que dissesse: “Era isso”. Eu gostava, eu adorava dirigir carro, então eu falei: “Olha, eu vou pra mecânica”. Houve momentos em que o pai permitia, então a gente dirigia os carros, e aí gerou o gosto, apareceu o gosto pela engenharia mecânica, e fui pra mecânica. Eu saí de Taubaté, depois, para estudar, mas no primeiro momento a opção era Taubaté. Eu me formei em 67, comecei em 62, 1962. Tinha vinte anos, 1962, e eu também tinha uma razão de fazer engenharia aqui porque o meu pai tinha saído, meus dois irmãos estavam com ele, o terceiro já tinha saído de Taubaté também. Só ficou a mãe, a casa e a mãe. E eu era o único aqui. Não tinha mais alternativa pra mim, eu tinha que ficar em Taubaté. O pai estava construindo, nesta época, ele estava na central da empresa, em São Paulo. A empresa tinha uma central e ele coordenava toda a parte logística da empresa, porque ele já estava com 62 anos, então ele já coordenava toda a parte logística da empresa TH Marin de Andrade, do alto da Mooca.

TRABALHO
Antes de eu ir para a indústria, eu dei aula. Quer dizer, paralelamente à engenharia, eu dei aula no colégio do estado. Eu fiz o exame. Na época havia falta de profissionais nessa área, professores, então eu fiz um exame e três meses de pedagogia, e ministrei aula no colégio do estado, de matemática e física, de 1961 a 65. Era nos intervalos, porque a engenharia tinha um determinado horário e eu procurava encaixar tanto no colégio do estado como no primeiro cursinho de engenharia, que era o Delta T, aqui em Taubaté - também dava aula [ali]. Era uma forma de subsistência, de já ter a própria subsistência. Depois eu fui pra indústria. Eu falei: “Não vou ficar nesta área de ensino. Eu vou pra indústria”. Aí eu fui pra Mecânica Pesada. Eu fui em 65. Comecei, ainda como estagiário. Em 69, eu fui pra Alemanha, fiquei até 71 na Alemanha, no grupo MAN. Voltei pro Brasil, me colocaram na área de projeto, no Rio - porque a área de projetos navais da Mecânica Pesada era no Rio de Janeiro - e eu fui pra área comercial no Rio. Fiquei dois anos. Foi a época que teve o boom aqui no Brasil: vendemos 51 motores navais. Na época, a Embratel estava em expansão. Todas as estações de emergência da Embratel... Vendemos tanto que a fábrica não conseguiu produzir. Aí, o diretor da indústria disse: “Agora o senhor vai voltar pra Taubaté. O senhor é o único que vi poder salvar essa área aí”. Eu voltei do Rio - fiquei quase três anos no Rio - voltei pra Taubaté pra assumir o departamento de engenharia de motores, e aí fiquei em Taubaté e cheguei até gerente. Voltar para a Alemanha... A primeira fase minha, eu só lembro da infância de rua e nada mais. Então essa volta quase que não existiu. Foi como uma ida, porque eu lembrava só dos colegas de rua, e nada mais. Do contexto Alemanha eu não nem lembrava mais, eu não tinha lembrança nenhuma, eu me lembrava só da cidade onde nós morávamos e de alguns amigos de rua. Isso foi em 69, voltei a visitá-los, alguns dele ainda reencontrei, reencontrei meu tio, minha tia, mas foi quase que uma visita nova. Não se pode dizer que foi volta. Depois disso, foi um tal de ida e volta... Eu ia duas, três vezes por ano pra Europa, pra Alemanha. E, sabe, dentro do contexto profissional, acabamos tendo que ir pro Japão - a economia ia mudando e nós íamos mudando, o grupo ia mudando as estratégias. Quando nós fechamos o plano naval, em 1970, eu lembro bem, eu fui pro Japão com o diretor comercial pra nós fecharmos as encomendas dos componentes importados, que nós não trazíamos mais da Europa - porque a Europa vivia uma crise econômica - , então aí fomos pro Japão, só que nós fomos via China, via China e Coréia. A Coréia estava em guerra, então eu me lembro bem, o comandante do avião: “Atenção, estamos passando em área de guerra, porém à distância”. Fomos pro Japão, fechamos a encomenda no Japão e voltamos via Alasca. Foi um tal de ida e vinda pra Europa que...

MIGRAÇÃO
Voltar pra Taubaté... É, realmente eu acho que a gente já criou raízes aqui, já tinha criado raízes, já tinha feito a faculdade, amigos, clube, quer dizer, tudo aqui já era familiar. Era a nova pátria, porque apesar de ter ido... A cultura alemã, apesar de entender o idioma, não entendia a cultura. A cultura é totalmente diferente da cultura daqui. Então a gente, lógico, jovem, se ajustou àquela realidade, aquele período em que eu estive na Alemanha. Mas ela não era simpática, vamos dizer, pra mim não era, porque é totalmente diferente, tudo arraigado, sabe, tudo protocolado, tudo certinho, até nos mínimos detalhes, e é difícil você se ambientar. Imagina só, você sair de uma cultura onde a pessoa diz pra você assim: “Passa em casa pra você tomar café”, onde ela não quer dizer nada, não quer nem que você vai tomar café, e nem que você passe na casa dela, é simplesmente uma gentileza, uma cortesia que ela está manifestando. Enquanto que chega lá a pessoa diz assim: “Vai lá em casa sábado, quinze horas que eu estou te esperando”, e aí, se não for... Então, essa mudança de cultura realmente é problemática, é diferente. Eu cresci, vivi em outro ambiente. Agora chego e é um outro ambiente. Eu me ajustei: ia lá às quinze horas, conforme combinado, estava lá. Mas, é diferente, é cultural o negócio. Não é um problema... Simplesmente, você desliga um botão e liga outro botão. Não é, é postura. Você tem que se ajustar. Vizinhos, convivência. Terminava o serviço e ia pra casa. No inverno, tinha que remover a neve da porta da casa, senão você não entrava, você tinha que fazer isso: de manhã, nevou muito, se eu saísse antes, então tinha que preparar o caminhos, jogar sal e tal. É uma nova cultura.

CASAMENTO
Eu voltei da Alemanha em 1971, segundo semestre de 71. Solteiro ainda. E aí eu me casei em Taubaté e fui pro Rio. Na época, a minha noiva fazia biologia em Taubaté e fomos no Rio verificar uma faculdade de biologia pra ela. Conseguimos a Santa Úrsula, e ela fez a transferência pro Rio, em meados do ano. Eu a conheci aqui em Taubaté. Na época em que eu dava aula no colégio do estado. Ela era irmã de uma aluna minha, coisa da juventude. Era a segunda irmã, a mais velha era minha aluna, de científico. Eu dava aula de física, a irmã era minha aluna, e ela fazia ginásio. Ela não foi minha aluna. Nos encontros que havia no colégio, nas festas que a gente tinha, acabava se encontrando. O casamento foi aqui em Taubaté. Com festa. Viemos do Rio e foi aqui em Taubaté, com os amigos e tudo mais. Foi muito bonito. Nós fomos pro Rio, ficamos dois anos no Rio, e tivemos que voltar para Taubaté, não teve jeito. E teve uma fase intermediária que eu ficava dois dias no Rio - porque era briga do diretor comercial e o diretor industrial - e eu tinha que fazer os projetos ainda no Rio. E eu tinha que desenvolver as encomendas em Taubaté. Então, eu fazia assim: normalmente, ficava segunda, terça e quarta em Taubaté, trabalhando aqui até dez horas da noite, meia-noite, e na quinta e sexta, eu ia pro Rio, desenvolver os projetos lá, na área comercial, por algum tempo. E ela fazendo a faculdade. Nós morávamos no Rio. Tínhamos apartamento e morávamos no Rio, nesse período.

FAMÍLIA
Ela se chama Célia. Daí vieram os filhos. O Gustavo nasceu em 1973, é o mais velho. Depois o Christian, em 77 e a filha, a última, em 79. São os três filhos, cada um seguiu a sua carreira. O Gustavo se formou em mecatrônica, na Politécnica, e depois, na metade do curso, ele achava que a mecatrônica da Poli não era o que ele queria. Ele queria abandonar e acabei convencendo ele: “Mas o que você quer fazer?”, “Ah, eu quero fazer administração”, “Então faça administração junto”. E ele aceitou desafio: acabou fazendo mecatrônica junto com a Getúlio Vargas, em São Paulo. Só que nesse período, eu já estava em São Paulo, eu não estava mais na Mecânica Pesada. Eu já estava na presidência da Bühler, em São Paulo, residindo em São Paulo. Primeiro fui eu, e vinha no final de semana - eles ainda estudavam aqui. Quando o Gustavo foi pra São Paulo, ficou ainda a esposa com mais dois filhos aqui, o Christian e a Suzane. Eu falei: “Vamos ver como é que a coisa se desenrola”. Aí o Christian também foi pra São Paulo fazer engenharia na FEI. Eu falei: “Agora vamos esperar a última, qual vai ser o destino da Suzane”. Aí, a Suzane decidiu fazer hotelaria, em São Paulo. Então nós ficamos... Já era um período em que já estava planejado me aposentar dentro da empresa. Então, eu falei: “Não, agora esse dois anos, nós vamos agüentar aqui em São Paulo”. E a minha senhora ficava com a minha mãe aqui, porque ela era viva - faleceu agora em setembro, com 99 anos e sete meses. Então, ela ficou aqui. Quando eu me aposentei, voltei pra Taubaté. O Gustavo já estava fora, já estava na Europa fazendo na ONU... Ele foi fazer pós-graduação em Viena, já tinha terminado; o Christian estava na etapa final e a Suzane também, na etapa final de hotelaria. Todos eles estão formados e a Suzane está aqui comigo, num empreendimento que a gente criou em Taubaté, o Christian também, e o Gustavo está fazendo doutoramento na LSE, em Londres.

COMÉRCIO
Essa idéia começou quando eu voltei pra Taubaté. Em 98. Quando eu voltei pra Taubaté, vamos dizer, com tudo aquilo que eu vivi aqui na cidade de Taubaté, e também com a disposição ainda de continuar trabalhando, eu falei: “Olha, eu acho que não é o momento ainda de eu parar, de vestir o pijama e ficar dentro de casa. Eu vivi a vida toda como um empreendedor, viajando, realizando para os outros, eu acho que eu vou ter que fazer alguma coisa por Taubaté”. Nas minhas viagens, sempre via alguma coisa... Na Bühler foi uma fase muito interessante, porque foi a segunda universidade que eu tive, na prática. Porque eu saí do ramo de engenharia naval, motores navais, que era construir aquelas catedrais de dez metros de largura por quinze de comprimento por dez de altura, com o motor de 10 mil cavalos - que era o motor propulsor do navio, realmente, esses navios de 30 mil toneladas ou mais. No auge no plano naval brasileiro, que eram construídos no estaleiro Mauá, no estaleiro EMAQ, no Verolme, em Angra dos Reis, na Ischikawajima... Era o auge da indústria naval. Quando eu comecei na Mecânica Pesada, me lembro bem, era um motor por ano. Era o desafio em 1965, depois em 1979, nós estávamos fazendo doze motores por ano. Você vê, o que era um em doze meses, passou a ser um por mês; você já pode imaginar a evolução que foi isso aí. Então foi brutal, todo esse acompanhamento, toda essa evolução. E quando eu mudei, a mudança foi drástica. Por que saí da Mecânica Pesada da MAN? É simples, a história da economia não é ditada, acontece. Em 1980 veio a primeira grande crise do petróleo, quando ocorre a primeira crise do petróleo. A MAN, que era líder de mercado na época na área de motor dois tempos, perdeu a liderança de uma hora pra outra, porque ela montava todo seu conceito em cima de tecnologia e operação barata. Esse era o conceito da MAN. Quando veio a crise do petróleo, tinha que inverter o processo, tinha que dizer o seguinte: “Eu preciso de motor de baixo consumo de combustível, eu não preciso de um motor de baixa manutenção”. O conceito dela foi por terra. Para desenvolver motores de menor consumo tinha que baixar a rotação, quer dizer, o motor era na faixa de 150, 160 rpm, com consumo de 160 grama cavalo/hora, mais ou menos, pra poder chegar no 120 grama cavalo/hora, tinha que baixar a rotação, tinha que chegar no 120, 122. Se baixar a rotação, tinha que aumentar a relação do curso, e a MAN estava no limite da tecnologia. Ela saiu do primeiro lugar e foi pro último lugar. Financeiramente, ela estava muito bem. Numa época auge de construção, tanto na América do Sul quanto no Japão. Aí, o que aconteceu? Na Dinamarca, onde era a empresa em terceiro lugar - a segunda era uma empresa Suíça, a Sulzer - e a terceira era a Burmeister & Wain, uma empresa dinamarquesa. Só que esta empresa dinamarquesa era uma fábrica de motores e era uma outra fábrica de navios, era um estaleiro, então tinha o mesmo grupo uma fábrica de motores e um estaleiro, onde fabricava navios. Ao mesmo tempo em que veio a crise econômica, veio a crise da indústria naval européia, então o estaleiro Burmeister & Wain estava em péssima situação, não tinha condições de sobrevivência, e a Burmeister & Wain só tinha para oferecer ao mercado a indústria de motores. A MAN estava muito bem, foi lá e comprou a Burmeister & Wain, que era o terceiro lugar porém tinha condição de desenvolver a tecnologia pra atender a necessidade da indústria naval, porque era um sistema united flow system, com a válvula na cabeça, então o ar entrava por baixo e saía em cima, enquanto a da MAN entrava embaixo, fazia a varredura e tinha que voltar embaixo. Ela não tinha mais condições técnicas de fazer isso, então a MAN comprou a Burmeister & Wain e montaram uma nova empresa chamada MAN Burmeister & Wain Diesel. E essa nova empresa, toda a direção foi transferida para o grupo dinamarquês, e o grupo dinamarquês, nesse momento, pegou na Mecânica Pesada e disse: “Nós temos apenas uma participação acionária mas não temos mais em gerência técnica”. Você já pode imaginar o que isso representa: um elemento que coordenava toda a atividade daquela divisão. Eu falei: “Agora estou sentado numa cadeira com três rodas, qualquer dia, não sei pra qual direção que eu vou”. Foi quando eu decidi mudar. Eu percebia que por parte do grupo francês havia uma limitação de ascensão na minha carreira, porque vinham elementos de fora, porque a França vivia um momento difícil também, então eles traziam muita gente da França pra assumir cargos de liderança. Então eu resolvi mudar, e mudei para o grupo Wirth, num período curto e depois eu fui para a Bühler, que era um grupo Suíço. E no grupo Bühler, naturalmente, foi uma mudança drástica, porque ela é líder mundial na área de alimentos, alimentação humana, alimentação animal e subprodutos. Só para dar um exemplo, ela tem uma divisão de moagem - planeja e constrói moinhos de trigo - ; ela tem uma divisão de chocolate - planeja e constrói indústria de chocolate - ; ela tem uma divisão de óleo - planeja e realiza indústria de óleo. Então essa foi uma nova faculdade pra mim, porque daí eu entrei na área industrial e tinha contato com as diversas divisões. Cada divisão tinha um gerente que era responsável pelo processo todinho. Pra mim era fantástico isso, porque eu só tinha que cuidar da parte industrial, o resto era de graça, eu aprendia de graça: eu ia lá discutia com o gerente o processo, o porquê, o porquê não, e eu ia aprendendo. Essa foi uma faculdade, na prática. Foi um fascínio. Porque eu entrei em contato com os moinhos de trigo. Todos do Brasil, eu conheço hoje. Todos eles, não tem um. Indústria de chocolate, a Lacta, a Garoto, a Nestlé, eu visitava constantemente, me inteirava do processo todinho; a Sadia, a Seara, a Perdigão eram clientes nossos; na indústria de óleo, na indústria de ração. Eu estudava dia e noite, estudava e trabalhava novamente pra aprender esse novo contexto de alimentação, e daí é que veio, naturalmente... Quando já planejando o futuro, eu dizia assim: “Olha, o dia em que eu parar, vou fazer algum empreendimento nesta área de alimentação”. Eu não tinha certeza ainda do que eu ia fazer, quando eu voltei pra Taubaté. Depois de analisar o contexto todinho, eu falei: “Tem que ser um local especial, que represente algo historicamente pra Taubaté, e tem que ser algo que incorpore todo esse conhecimento”. E depois de muito estudar, nós chegamos à conclusão que deveríamos fazer um Plaza Mall, quer dizer: um centro de conveniência aberto, porém sinérgico com os empreendimentos que fossem montados lá. Aí começou o planejamento do Plaza Mall em Taubaté. O lugar é estratégico. O Plaza Mall está situado na praça da CTI - conhecido como praça da CTI, porque ali é o núcleo da industrializarão taubateana, Companhia Taubaté Industrial, fundada em 1891. Félix Guisard foi o primeiro industrial taubateano, veio pra Taubaté e iniciou uma indústria têxtil, numa época em que Taubaté era iluminado a tocha ainda, a gás. Taubaté não tinha energia elétrica. Ele montou uma usina elétrica em Redenção da Serra, trouxe a energia elétrica pra cá, e assim começou a Companhia Industrial Taubaté, em 1891. Então, eu diria que ali é o centro econômico de Taubaté. Agora, tem uma razão ainda subjetiva, muito profunda pra mim: porque a nossa casa. Quando meu pai construiu a nossa casa aqui em Taubaté, foi na Chácara do Visconde, ali ao lado do sítio do Pica-Pau Amarelo, na avenida principal Monteiro Lobato. E eu acordava com o soar da sirene da CTI: seis horas da manhã, quando a sirene tocava, eu acordava pra ir pra escola. Então, eu olhava na janela, a torre da CTI, seis horas da manhã: “Realmente, está na hora de lavar o rosto, escovar os dentes e se preparar pra ir pra escola”. Isso, historicamente..., isso está ligado puramente à emoção. Então isso fez parte, uma das razões, muito forte. Eu falei: “É aqui que nós vamos fazer esse Plaza Mall, que vai ser um verdadeiro tributo a Taubaté. Taubaté tem o centro geográfico, tem o comercial e tudo mais, mas Taubaté vai ter também um símbolo econômico de Taubaté”. E aí surgiu o Plaza Mall, primeiro centro de conveniência aberto. Por que nós chamamos de Plaza Mall? Primeiro porque plaza é praça, uma palavra espanhola, e mall é uma palavra inglesa, uma expressão inglesa que significa conveniência. Então é uma praça de conveniência, só que é aberta. Qual a diferença de uma praça de conveniência fechada? Ela tem um muro, tem um estacionamento fechado, e ali não: o estacionamento é aberto em volta. Conveniência porque ela tem que agregar comércios que sejam sinérgicos entre si, isso é fundamental no Plaza Mall. A premissa do Plaza Mall foi estacionamento na volta toda... Quando nós discutimos com o arquiteto, dissemos o seguinte: “Essa faixa aqui, ao redor do Plaza Mall, será o estacionamento”. Nós não tínhamos ainda a concepção de como iríamos fazer urbanisticamente isso. Terminada a faixa é muito mais fácil inserir elementos urbanísticos dentro da faixa do estacionamento. É o que pode ser visto lá hoje, é simples. A segunda coisa não era o comércio. O comércio, é lógico, alguma coisa tem que estar por detrás como comércio, mas o empreendimento tinha que transmitir uma certa magia, uma certa atração, ele não poderia ser puramente lojinha de comércio: coloca lá dez lojinhas. Tanto assim, que tem uma passagem interessantíssima: quase no final da obra, me visita um empresário de São José dos Campos, e queria locar uma área. Ele falou: “Olha, queria locar uma área aqui”, “Mas que ramo o senhor é? Qual é o seu ramo?”, “Eu sou o líder na área moveleira aqui do Vale do Paraíba”. Eu falei: “Olha, meu senhor, infelizmente não cabe no meu contexto aqui dentro do Mall, móveis, não cabem; eu gostaria de locar essa área para o senhor, mas ela não cabe, ela não traz sinergia pro nosso empreendimento, pro Mall, eu preciso ter elementos sinérgicos aqui dentro, um não concorrendo o outro, porém que agrega valor ao outro. E a área de móveis não traz, não vai fazer essa função, o senhor me desculpa. Eu gostaria imensamente...”. “Isso é um desacato, onde já se viu o senhor fazer isso comigo” Eu falei: “Não é um desacato, o senhor tem que entender que pra mim seria o maior prazer locar alguma coisa pro senhor, mas não aqui dentro do contexto do Mall”. Então, os empreendimentos que estão lá foram escolhidos a dedo, porque eles têm uma magia. Se a gente olhar hoje o que está inserido lá no Plaza Mall... Tem a Dona Bella, que nós criamos a identidade da Dona Bella com a experiência que a gente viajou, que a gente criou, e tem uma razão pra isso, ela foi criada porque a gente avaliou o segmento de panificação no Brasil, e vê que durante cem anos não ocorreu nada, ele não evoluiu, é um segmento que foi dominado pelos portugueses, pelos espanhóis, mas não teve evolução nenhuma, comparado com empreendimentos da Europa, Estados Unidos. Aí falei: “Nós vamos fazer um negócio diferente, começar a mudar até o nome, não vai mais ser padaria, vai ser casa de delícias”. Então: Dona Bella casas de delícias. Eu falei: “Não quero mais esse link com o passado, de algo arcaico”. Começou por aí. Então, Dona Bella foi o primeiro empreendimento. O segundo empreendimento que a gente decidiu, era cuidar do cultural. Quer dizer: depois de cuidar do estômago, vamos cuidar da mente. Aí trouxemos a franquia da Nobel, que está logo em cima. O terceiro empreendimento é a saúde, então temos o empreendimento da saúde. O quarto empreendimento é o que diz respeito à área de entretenimento e lazer. Pôxa, num local de muita movimentação - o local de maior movimentação em Taubaté é aquela praça ali - nós trouxemos um artista plástico de Blumenau que ele faz, além da parte de artesanato, quadros, pinturas, e tudo mais, ele faz arranjos personalizados de flores. Quer dizer, é um negócio totalmente diferente, é um negócio que nós vimos na Europa. Quando eu dou um ramalhete de flores, não é um amarrado de flores que eu estou dando, eu quero transmitir alguma emoção, eu quero transmitir alguma coisa, ela tem que levar uma mensagem: é exatamente o que esse artista plástico se propõe. Então antes de mandar, chegar lá e falar: “Quero doze rosas com isso com aquilo”, ele pergunta pra que é, qual a idade da pessoa, qual é o gosto da pessoa, o que ela gosta, o que ela não gosta, cor... Tanto assim, que nós temos situações ali interessantíssimas. Nós temos gente voltando... Outro dia, veio uma professora que ganhou um presente do marido. Ela deveria ter lá seus 48, cinqüenta anos, falou: “A vida toda, não ganhei um presente tão personalizado como este, que me agradasse tanto”. Então é outro empreendimento que está inserido no Plaza Mall. E o último empreendimento é uma lan house, uma área para os jovens. Enquanto os adultos se divertem na Dona Bella, os jovens se divertem na Monkey. A gente buscou realmente uma sinergia com todos os empreendimentos ali, e um local onde os casais vão e conseguem resolver um monte de problemas num lugar só. Ele encosta o carro e, em cinco minutos, está resolvido o problema: pega o pão, pega o remédio e ainda pega a flor do aniversário; está cumprida a missão. Este é o objetivo do Plaza Mall. O Plaza Mall foi inaugurado em abril do ano passado, faz um ano e pouquinho. E tem uma coisa, um detalhe que eu acho importantíssimo citar aqui a respeito da praça da CTI: além de ela estar inserida no contexto econômico de Taubaté, na época que Félix Guisard iniciava a construção da indústria, ele tinha um engenheiro chamado Fernando de Matos; e Fernando de Matos, numa dessas idas dele pra Europa, ele esteve em Paris, e acabou trazendo o projeto da praça Etoile, de Paris, onde fica o Arco do Triunfo, em Paris; trouxe e apresentou pra Félix Guisard: “Nós poderíamos fazer uma réplica da praça Etoile”. E não é que fizeram? Hoje, onde está a praça da CTI, se a gente comparar com a praça Etoile, onde está o Arco do Triunfo, é uma réplica. São várias entradas e várias saídas, completando num total de oito, porque são entradas e saídas e a praça Etoile tem essa característica. Quer dizer, é a praça da maior bagunça de Paris, entram e saem, mas todo mundo é feliz, é similar à praça da CTI. Pra mim foi um desafio muito grande, foi um desafio tão grande, que durante a construção eu recebia a visita de amigos meus, colegas de escola que diziam assim: “Isso aí não é pra Taubaté”. Numa determinada fase do empreendimento eu falei pro arquiteto: “Por favor, eu quero que você preveja flexibilidade na obra aqui, de maneira que caso isso venha ocorrer, eu possa transformar em um outro empreendimento, pra não correr o risco do investimento. Então me deixa assim, algo derrubando a parede pode ser uma outra coisa”. E neste momento, quando vinham questionar, eu já tinha a solução. Dizia assim: “Se isso não for pra Taubaté, vira borracharia. Eu tiro aquela parede ali, a entrada por outro lado, vira borracharia. Aí será pra Taubaté”. Foi um verdadeiro desafio, um verdadeiro confronto com Taubaté. Terminado o empreendimento, pouco a pouco, como é típico de uma cidade interiorana... Primeiro se olha de longe, vai se aproximando... Hoje representa o cartão-postal de Taubaté. Os taubateanos abraçaram aquilo e hoje representa novo cartão-postal de Taubaté. Era exatamente o objetivo, o tributo a Taubaté era tornar o Plaza Mall o novo cartão-postal inserido dentro do contexto da CTI, que hoje não existe mais. A arquitetura ao lado, existe a torre que é a área social da prefeitura, tombada, existe todo um contexto ali. Eu acho que hoje está bastante coerente a coisa ali. Os clientes, eu diria, grande parte são os taubateanos e grande parte é de migrantes de fora. Eu acho que o percentual do pessoal que veio de fora e hoje adotou Taubaté é maior do que os taubateanos. Nós temos ali muita gente... Realmente é um negócio fantástico. Taubaté, com 15 mil universitários, nem todos são de Taubaté; tem família de Andradina que vem; tem médicos, cirurgia no hospital, vêm de São Paulo e passam aqui dois, três dias, filhos de médicos; Mato Grosso, até de Campo Grande. Quer dizer, hoje o horizonte de pessoas que conheceram ali, profissionais que vieram para Taubaté, não são taubateanos, não nasceram em Taubaté, porém migraram para Taubaté.

CIDADES
Taubaté Eu acho que hoje Taubaté está numa situação bastante favorável. A gente pode ver que os empreendimentos que são feitos aqui não são mais daqueles taubateanos tradicionais. Taubaté era uma cidade relativamente fechada, se limitava ao centro, mas hoje Taubaté já atingiu uma outra dimensão: ela não é mais aquele centro. Aquele centro vai ficar pra história; vai ser o centro comercial de Taubaté, vão colocar num livro, encadernar, porque ele vai funcionar das oito às 18 horas e acabou. Não vai ter mais opção, centro comercial. Mas se você olha Taubaté hoje, com cinco supermercados... O Abílio Diniz - do Pão de Açúcar - é tão bitolado que ele coloca cinco supermercados em Taubaté. Por fora, tem ainda o Champion, tem os outros, tem outras redes aqui em Taubaté. Isso significa que com 300 mil habitantes... - Taubaté está próxima de 300 mil habitantes - , eu acredito que ela está sofrendo uma transformação muito grande.

RELAÇÃO COM O COMÉRCIO
Pessoalmente, eu faço compra em Taubaté. 99% em Taubaté, 1%, às vezes, a gente vai pra São Paulo, está em São Paulo, então... Mas 99% é em Taubaté. Para o Plaza Mall vêm algumas coisas de São Paulo, que não existe ainda fornecedor regional. Um exemplo típico, para a Dona Bella, um exemplo bobo, pão de centeio: vem de São Paulo. Aí tem uma razão: a população do pão de centeio é relativamente pequena, então você instalar uma indústria, você se dedicar a isso é inviável economicamente, então é preferível você trazer. São José tem a mesma situação, nós estamos em condições de igualdade, nesse aspecto. No Plaza Mall trabalha a família. A filha que se formou em hotelaria coordena a Dona Bella e o Christian está coordenando agora a Nobel. É muito legal. Eu acho que cada um tem a sua responsabilidade. E a gente só tem a função de coordenar um pouquinho, transmitir um pouquinho da experiência de vida da gente, discutir os problemas. Eu acho que isso é muito legal, não existe restrição nenhuma por ser familiar. A família não tem um histórico de comércio. Isso é muito interessante. Nós apanhamos bastante, varejo não é indústria, os primeiros momentos foram difíceis, mas a gente aprende tudo na vida. Pra quem fez duas faculdades, fez uma faculdade na prática, reciclou-se, então o importante é se reciclar a vida toda, eu acho que isso é fundamental. Então hoje estamos nos reciclando no varejo. Vencer ou vencer. Em um ano e meio, a Dona Bella já tem uma franquia em Campos do Jordão. Sábado agora eu estava em Campos do Jordão e recebemos a visita do presidente da Gradiente. Eu estava lá por acaso, aí ele veio, olhou aquilo e falou assim: “Parabéns, isso aqui é um empreendimento padrão São Paulo”. Eu coordeno mais a parte de compra da Dona Bella e a coordenação com franquia de Campos de Jordão. É que eu tenho outro empreendimento em Taubaté, que é o Rodão. O Rodão é um posto de gasolina modelo aqui em Taubaté, é o referencial em Taubaté hoje. Eu acho que o desafio sempre foi esse: a bagagem que você traz da indústria em termos de qualidade total, você tem que adaptar esses conceitos ao varejo. É óbvio, não tem condição de você assumir diretamente, mas são válidos no varejo do mesmo jeito, resolve o mesmo conceito na indústria. A indústria busca qualidade total. No varejo, você tem que buscar tanto de produto quanto de atendimento, de postura, de ética, de empresa e tudo mais, você tem que fazer isso. Na realidade, o que a gente faz hoje é uma adaptação do conhecimento industrial para o varejo. Está sendo uma experiência bastante interessante.

AVALIAÇÃO
Comércio Puxa vida, em pouco tempo como comerciante aprendi que os quatro pês de marketing do Phillip Kotler continuam valendo. Ele agregou mais dois pês ainda. A partir do momento que a gente se expõe pra trabalhar no varejo, num segmento desse, lidar com o ser humano, a primeira coisa que a gente tem que detectar é quais são as necessidades - não é necessidade sob a ótica de marketing. Eu dizia no começo que o empreendimento tinha que ter um objetivo claro: era a magia do empreendimento. Então, hoje eu me pergunto: “Atingi este objetivo?”. Eu digo: “Sim”. Não por minha resposta, por resposta dos clientes que vão lá, porque constantemente estou observando. Eles chegam e olham e dizem: “Mas como é bonito isso daqui”, “Nossa, nunca vi um negócio desse”. E eles mesmos me procuram: “Olha, meus parabéns, na minha vida, eu nunca encontrei um negócio desse, igual isso daqui, eu não vi”. A gente vê pessoas de trinta, quarenta anos, nessa faixa etária. Então, na parte da magia, a gente atendeu; a parte de beleza, a parte da ambientação. E aí, nós fomos buscar outro... Eu acho que a necessidade humana não pára aí, na beleza material do empreendimento. Nós fomos buscar a beleza do produto também. Nós temos de apresentar um produto à altura do consumidor, de uma forma diferenciada, que lhe agrade, que goste, então nós fizemos temas de auto-serviço na área de panificação. É outra coisa que agrada, quer dizer, é o segundo momento que os olhos deles enchem ali com esses produtos, que dizem: “Nossa, aqui eu tenho uma opção muito grande”. Você tem o terceiro momento, que você analisa ali quando o cliente está fazendo compras. Ele tem a oportunidade de degustar o produto, não apenas levar: “Leve porque é bom”. Não: “O senhor quer experimentar? Experimente o produto, se lhe agradar o senhor leva, se não agradar o senhor não leva”. Então ele tem a segurança do produto, está levando aquilo que ele quer. E o último elemento é o atendimento: “Muito obrigado, volte sempre”. Com isso nós fechamos o círculo do varejo, eu acho que com isso está fechado o círculo do varejo. Não tem muito mais do que isso. É o que eu dizia: você adaptar a realidade de marketing. O varejo, a gente sabe, ele é criado por pessoas, às vezes com falta de experiência, falta de formação, de escolaridade. Não conseguem enxergar isso daí. Este que é o grande problema: as pessoas, às vezes, no passado, se alvoroçavam só com as experiências. O sapateiro aprendeu com o pai dele como é que se prega sola, mas nunca fez um curso de sapateiro. E hoje não: hoje, ele faz um curso de sapateiro, ele é um profissional, ele sabe orientar. E é a mesma coisa em todos os segmentos. Eu acho que ele está se profissionalizando. Não pode ser mais amador, não adianta você levantar as portas e dizer: “Estou aqui pra vender”. O cliente não vai entrar se você não tiver um atrativo à altura. Esse empreendimento diferenciado é um tributo a Taubaté. Era, realmente, o que estava planejado. O objetivo era este mesmo: era dar um presente a Taubaté pelo que Taubaté me deu, ao longo dos anos que aqui estive e que ainda estou. Eu gosto muito dessa terra.

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