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Algumas memórias da minha infância

História de: Darcy Barreto
Autor: Darcy Barreto
Publicado em: 28/11/2012

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Vou relatar alguns fatos que eu gosto de lembrar, não vou reviver os tristes ou desagradáveis (não tem nenhum traumático), mas já esqueci. Passei toda a minha infância em três lugares, dois bairros do Rio: Cascadura e Penha, ambos subúrbios da Cidade e outro na época o Rio era Estado da Guanabara, o 3º era no Estado do Rio de Janeiro Município de Nova Iguaçu (antes da Fusão os Militares extinguiram o Estado da Guanabara).

Cascadura,  local onde nasci era uma Vila com casas grandes, mas muita antiga, mal conservadas, por fora todas as casas eram pintadas de cinza escuro, pertencia a um parente distante do meu avó-materno que era português, mas ele era pobre, era condutor de bonde na época em que a Light era estatal (esta Vila foi demolida). Na Penha moravam os parentes do meu pai, em sua grande maioria negros, são baianos miscigenados com índios e brancos. Em Nova Iguaçu era a casa da minha tia materna. Na Penha nós frequentávamos o parque Shangai, eu adorava andar no Trem Fantasma e Roda Gigante (a noite ficava com medo de dormi, corria para o quarto da minha mãe).

O parque de diversões mais antigo do Brasil continua soberano na Zona Norte, em toda sua existência, manteve-se incólume aos acidente. No mês de outubro toda a família vinha para a Festa da Penha, uma das mais tradicionais do subúrbio Carioca em homenagem a Nossa Senhora da Penha, a Igreja é linda. Independente da data festiva era muito comum fazer piquenique nos arredores da Igreja da Penha. Era ótimo. Na casa da minha tia em Nova Iguaçu era enorme tinha quintal com várias árvores frutíferas, pé de goiaba, abil, manga, jabuticaba etc..

Havia um balanço entre duas arvores gigantescas . Eu adorava me balançar, me lembro, ás 18:00h ouvia a Ave Maria no rádio. Me lembro daquele cheiro de farinha torrada, porque a minha tinha só gostava de comprar aquela farinha. Colocava o feijão a farinha depois que colocava o restante da comida. Lembro-me disso como se fosse hoje. Na casa havia uma varanda enorme e era quadrada, brincávamos de 04 cantos quem não conseguia se encaixar nos cantos, estaria sempre sobrando.

Geralmente íamos nas férias escolares. Meu tio tinha um Jipe, nos levava para a Praia do Recreio, de Grumarim, faziamos farofada, levamos tudo frango, farofa, fazíamos piquenique na praia. No dia a dia da rotina da casa entre escola e casa, brincávamos muito na rua de pular amarelinha fazíamos na rua riscando com graveto ou giz o riscado no chão, tínhamos que pular de uma perna só. Eu sempre gostei de brincar com meninos, jogava bola de gude, pião (que era feito de madeira com uma ponta de prego para fora) na realidade super perigoso se errássemos o alvo, poderia nos ferir seriamente nos pés, mas graças a Deus comigo isto nunca aconteceu.

Em casa naquela época não havia televisão tínhamos o hábito de ouvir rádio (a família nuclear era composta de seis pessoas dois adultos e quatro crianças, éramos dois casais duas meninos e dois meninos). Meus irmãos tinham o hábito de ouvir no Rádio o Seriado do Anjo, que era um seriado policial. Eu e minha irmã gostávamos de ouvir o Jerônimo o Herói do Sertão, que era um seriado passado no Sertão do Nordeste brasileiro, e a historia contava as aventura que Jerônimo sempre salvava alguém em perigo poderia de ser de um bicho ou alguma injustiça poderia se de um Coronel do local ou de um jagunço malvado. E o Jerônimo era auxiliado pelo moleque Saci que era um negrinho, que estava sempre alerta que ia na frente para avisar o herói do perigo, ele falava “Cuidado Jerônimo (ou era Rádio Nacional ou Tupi).

Meu pai detestava samba, ele dizia que negro tem que estudar e não sambar, eu não, eu sempre gostei, acho que está no sangue, perto de minha casa havia o Bloco Arranco de Cascadura. De vez enquanto eu dava as minha escapulidas e ia lá. Mas havia uma coisa interessante na sede do Bloco, que meu pai permitia que nos freqüentássemos. Era a sessão de cinema. Lembro-me como se fosse hoje, aquele filme em preto e Branco do Super Homem”, é um avião, é um pássaro., não, é o super homem”, não sei dizer a idade, mas era bem pequena eu fiquei extasiada, encantada em ver pela primeira vez este filme.

Tínhamos hábito de dormir cedo, imposto pelo meu pai. Mas as vezes escapava,quando à noite brincávamos na rua tínhamos o hábito de contar estrelas e verificar onde estava a Estrela Dalva as Três Maria, era maior barato nos dias de céu estrelado, mas agora esqueci não identifico mais. As brincadeiras eram inocentes, mas às vezes um pouco violenta, brincar de garrafão, já levei bastante tapão nas costas. Gostava de brincar de esconde-esconde, pular corda. A brincadeira mais picante era Pêra, uva e maçã, eu sei que uma era abraço, outro aperto de mão e outra era beijo.

Não me lembro mais a ordem. Com o advento da televisão lembro-me que na Vila onde eu morava havia um morador que trabalha nas Lojas do Ponto Frio e comprou uma TV. Era a primeira vez que eu havia assistido TV na minha vida. Era uma sensação á noite todas as crianças reunidas na casa desta vizinha para assistir a Novela “ O Direito de Nascer”. Eu Adorava ver a mamãe Dolores, era uma negra, que fazia a personagem de uma empregada doméstica da família, ela lembrava bastante a minha avó-paterna. Lembro-me do Gurufim que acontecia somente nos Velórios. Na Penha os Gurifins eram sempre na casa da minha tinha, ela tinha o apelido de” “Mulata”, como sabe a família é toda miscigenada, existem várias tonalidades de cor.

Para nós crianças era muito divertido, os adultos estavam ocupados com outras coisas, na casa da minha tinha havia uma mesa (de madeira maciça com um buraco no meio, o caixão em cima da mesa, e nós brincávamos em passar pelo buraco um correndo atrás do outro. Era a noite toda os adultos conversando contando piada, bebendo cachaça e licor de genipapo (feito artesanalmente pela minha avó-paterna). As crianças comendo sanduíche de mortadela, café, coca-cola, grapete, guaraná caçula, eram os refrigerantes da época.

O gurufim é herança dos escravos bantos e foi muito popular nas comunidades pobres do Rio até meados dos anos 60. Como as famílias não tinham dinheiro para alugar as mesmas capelas usadas pelos ricos, optavam por velar os parentes mortos na própria sala de jantar. O corpo do defunto ficava deitado sobre a mesa e as coroas de flores espalhadas pelo corredor. Para distrair a família do morto até a hora do enterro, os vizinhos faziam brincadeiras de adivinhação, lembravam histórias antigas e para matar a fome e o sono eram servidos sanduíches de mortadela e garrafas de café durante toda a madrugada. Quando chegava de manhã na hora que o carro preto chegava para apanhar o corpo, todas as crianças eram retiradas da sala e os adultos começavam a chorar,na hora da despedida do defunto. Me lembro do hábito que a minha mãe tinha de comprar na feira flores naturais flor de campo, margarida etc, para enfeitas a casa, achava lindo.

Meu pai era uma pessoa bastante autoritária, minha mãe submissa, mas bastante carinhosa com os filhos e era apaixonada pelo meu pai. Mas ele tinha bastante bom humor. Tinha o hábito de chegar em casa assobiando geralmente músicas para mexer com a minha mãe, ás vezes ele assoviava e ás vezes ele cantarolava. Antes de chegar na porta ele assoviava, somente minha mãe ouvia este assovio nos ficávamos impressionada com a ligação que ela tinha com ele. Me lembro da música que ele cantava. Minha mãe ficava danada, mas levava na brincadeira: "Levanta, levanta, nêga manhosa Deixa de ser preguiçosa Vai procurar o que fazer Nêga, deixa de fita Prepara a minha marmita Levanta nêga, vai te virar Deixei embaixo do rádio Uma nota de cinquenta Vai à feira, joga no bicho E vê se te aguenta Economiza, olha o dia de amanhã Eu preciso do troco Domingo tem jogo no Maracanã Do bate bola eu sou um fã!" (Compositor da música Herivelto Martins) 

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