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História

Altos e baixos

História de: Isolina Miranda Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Nessa entrevista Isolina Miranda Santos relata o drama que viveu com a separação de sua família ainda criança, quando foi raptada por uma mulher que trabalhava para sua mãe. Depois de muitos anos e muitas lutas travadas com a vida, Isolina mandou uma carta para sua mãe biológica e a reencontrou. Isolina relata ainda as brincadeiras, felicidades e momentos da infância, as mudanças de casas, como conheceu seu marido e as histórias que compartilhou com ele e seus filhos e da felicidade da primeira vez que viu o mar.

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História completa

P/1 – Dona Isolina, a gente vai começar a entrevista. Queria dizer que é um prazer receber a senhora, estamos muito honrados e agradecidos, obrigada desde já. Para começar, a gente queria que a senhora falasse o seu nome completo.

 

R – O nome completo é Isolina Miranda Santos.

 

P/1 – E o dia do seu aniversário?

 

R – É no dia 25 de maio.

 

P/1 – E a cidade em que a senhora nasceu?

 

R – Abaíra.

 

P/1 – Na Bahia, não?

 

R – Abaíra, na Bahia.

 

P/1 – Dona Isolina, vamos começar lá na Bahia, bem distante, bem longe, com os seus pais, o nome deles.

 

R – A minha mãe chama Josefina... Eu esqueci o sobrenome da minha mãe, é que eu...

 

P/1 – Só Josefina tá ótimo!

 

R – É, Josefina. E o meu pai se chamava Deoclides Oliveira.

 

P/1 – O que eles faziam lá na Bahia?

 

R – A história da minha mãe eu não vou nem contar porque é triste.

 

P/1 – Tá bom.

 

R – A de meu pai, depois ele... Aliás, ____ vou contar.

 

P/1 – É.

 

R – Eu sei que depois que minha mãe ficou grávida de mim, o pessoal do meu pai não quis que ele casasse com a minha mãe porque ela já tinha três filhos do outro marido, que tinha morrido. Isso aí não precisa escrever, não. Só estou contando para vocês saberem o começo da história.

 

P/1 – Isso.

 

R – Então, o meu pai veio embora para um lugar, de nome Piripá, e queria me levar, e minha mãe falou assim comigo: “Menina, você vai com essa mulher? Essa mulher pode até te queimar com uma água quente ou tição de fogo”. E eu fiquei com aquilo na mente.

 

P/1 – A mulher era a mulher do seu pai?

 

R – Do meu pai, a segunda mulher. Então, quando o meu pai veio me buscar, minha mãe falou: “O seu pai está aí, Isolina, veio pra te buscar”. Eu cheguei, sentei, meu pai sentado, assim, depois eu falei: “Ô meu pai, eu não quero ir, porque essa mulher sua diz que é muito brava, vai me queimar com água quente ou tição de fogo, por isso eu não vou”. Ele disse: “Sua mãe meteu isso na tua cabeça?”; “Minha mãe me falou”; “Então, agora quem não quer te levar sou eu. Porque tu fica com isso na memória e com ela não vai dar certo”. Meu pai era certo. Então, por aí, acabou a história. Isso é só o começo da minha vida. Pois bem, minha mãe tinha cinco filhas e quatro homens. Mas isso daí também não precisa escrever. Esse lugar que eu morava chamava de Abaíra, como eu já falei. Essa mulher, que lavava pra minha mãe, e aí é que vai começar a história. Essa senhora se chamava Catarina, ela lavava, passava e botava água, porque naquele tempo a água era buscada nos rios, nas cacimbas, era assim; ela trabalhava pra minha mãe, e quando foi um dia – e vai começar a minha história – ela pediu a minha mãe para ir na casa de um compadre dela que morava em João Correia. Era uma légua de Abaíra a João Correa, ficava do lado de cá do rio. Quando ela me pegou, pediu para eu levar e eu fui, e ela disse assim: “Será que ela aguenta caminhar?”; “Aguenta, nós vamos cedo, chega lá, ela aguenta a caminhada”. Quando chegamos do lado que tinha aquelas casas, no João Correia, ela atravessava o rio comigo, e eu falei: “Vai atravessar o rio por quê? Você não disse que o compadre mora do lado de cá do rio, por que é que você vai atravessar o rio?”. Ela disse: “Porque ele mudou”. E nós fomos caminhando, caminhando, caminhando, eu não aguentei mais caminhar, falei: “Eu já estou muito cansada, eu não aguento mais caminhar, e estou também com fome”. Aí venho uns cavaleiros de Juciaba, era um lugar de Abaíra a Juciaba. Eles pararam e ela disse assim: “Moço, o senhor conhece dona Pomba, aquela senhora que mora na ponta da rua?”; “Conhecemos, quem no mundo não conhece a dona Pomba, uma senhora tão boa?”; “Pois leve essa menina e entrega ela lá pra mim”. Nós dormimos na casa de dona Pomba, no outro dia, nós viemos pra Barra da Estiva, fui raptada na minha mãe! A história começa por aí, tá bom? Eu fui raptada pela minha mãe, a história começa assim.

 

P/1 – A senhora ficou morando na casa...

 

R – Eu passei fome, eu passei tudo. Passei nueza, tudo isso eu passei. Mas depois o marido de Neném era jogador, ele levava até oito dias em casa, e ela teve uma criança. Aí me chamaram, falaram que tinha essa menina, que podia ficar com ela pra dormir à noite e ficar com ela para ela não ficar tão só. E eu fui pra casa da Neném e lá eu fiquei.

 

P/1 – Então, depois de morar na casa de dona Pomba...

 

R – Não, na casa da dona Pomba eu não morei, só dormi uma noite, que foi em Jussiape, e aí já é Barra da Estiva, onde eu fiquei com Neném. Eu sempre fui muito ativa, eles me davam tudo escrito e eu ia comprar; elas eram costureiras, as meninas escreviam tudo o que eu ia comprar e eu ia, entregava ao Seu Clímaco e à Dona Nália a nota, eles faziam o pacote e me davam para eu vir pra casa. Quando eu ia pela Rua do Meio, que a gente já saía de frente do sobrado, um moço disse: “Menina, não passa por aí não, que aí vai ter um tiroteio”. Eu falei: “Meu Deus, por quê?”; “Deixa de saber, passa pela outra rua”. Eu fui pela outra rua, tornei a subir na outra rua, cheguei lá, dei a nota, o Seu Clímaco. O Seu Clímaco recebeu tudo e me deu o pacote das coisas e eu voltei. Quando eu volto, o tiroteio na rua aonde eu vinha. Um atira pra lá. E eu: “E agora? Um atira de lá pra cá, outro atira de cá pra lá, e agora?”. A rua era larga, Mateus ficava desse lado, o outro homem ficava do outro lado, e eu beirei o muro. Quando eu cheguei na casa da Dona Nália, ela disse: “Entra, menina! Entra, menina! Que tá tendo um tiroteio aqui!”. Eu falei: “Eu não vou entrar porque eu quero ver!”. E fiquei. Tinha um coisinho assim na frente e tinham os degraus que era para as filhas dela não caírem. Eu fiquei ali, escondidinha, e eles atiravam, um atirava de lá pra cá e o outro atirava de cá pra lá, e ficou aquela confusão. E eu assuntando. Na hora que o homem – esqueci o nome dele – atirou pra cá, para o lado de Mateus, pegou no pé de um menino que vinha passando e foi que foi a confusão. Veio polícia, veio tudo, e beirou aquela confusão. E eu fiquei ali. Quando chegou polícia, chegou tudo, eu chamei um das polícias, falei: “Vem aqui, o senhor acha que o tiro de Mateus, atirando pra cima, e o de lá atirando pra baixo, qual o tiro que pegou no pé do menino?”. Ele disse: “Foi o de quem atirava de lá”. Eu falei: “Pois bem, foi isso que eu vi! Na hora que o tiro pegou no pé do menino, o menino gritou e suspendeu o pezinho, bateu no chão, e Mateus atira pra cima e ele atirava pra baixo, o tiro dele que pegou no pé do menino”. (risos) Ai, menina!

 

P/1 – Nessa época do tiroteio a senhora tinha quantos anos?

 

R – Estava já com sete anos.

 

P/1 – E quando te raptaram, a senhora tinha quantos?

 

R – Eu tinha seis, eram seis anos. E a mulher que me raptou, ela me raptou porque ela lavava pra minha mãe e tudo, eu já contei pra vocês, ela chamava Catarina.

 

P/1 – Nessa época...

 

R – Nessa época eu vim com Catarina pra Barra da Estiva, fugindo da minha mãe que eu não sabia que era fugida. (risos)

 

P/1 – Quando você tinha sete anos, você contou que ia à venda, fazia compras, o que mais você fazia na casa? Quem morava na casa?

 

R – Eu fiquei com a Neném, mulher de Abilar, porque Abilar é jogador, saía jogando pelo mundo inteiro, então a Neném tinha um menininho pequeno e eu fiquei ali com ela. Ela era uma criatura muito boa, a Neném, mulher de Abilar. Foi assim que foi a minha vida, entendeu? Foi vida cheia de altos e baixos. (risos)

 

P/1 – E a Neném tinha mais filhos?

 

R – Não, foi só o primeiro.

 

P/1 – E a senhora ajudava na casa?

 

R – Não, eu ajudava assim: olhar o neném, balançar a rede e tudo, até lavar uns pratinhos, isso eu podia até fazer, mas outra coisa eu não fazia.

 

P/1 – E a senhora ia à escola, brincava?

 

R – Nesse tempo eu ia pra escola na Barra, a professora chamava Alzira. Ela me botou na escola, Neném. Não, não foi assim, foi a mãe dela. Ela tinha uns irmãos, e quando Abilar viajava a gente ia pra casa da mãe dela, passava o dia lá na casa da mãe dela. A Neném fechava a casa e ia tudo pra lá, pra casa dela. E os meninos ficavam lendo; João ensinava o ABC a Dodô, ficavam ali lendo, lendo, e eu sentada. E eu falei assim: “Dodô, me dá aqui esse ABC pra tu ver uma coisa”. Dodô me deu e eu li o ABC, de diante pra trás e de trás pra diante. Ela disse: “Não, vou botar essa menina na escola porque uma coisa dessas não se pode perder”. E me botaram na escola da professora Alzira, na Barra da Estiva.

 

P/1 – Como era a escola?

 

R – Era uma escola que a professora Alzira tinha estudado nesses lugares grandes. Não era como lá na Barra da Estiva, a Barra da Estiva não tinha formatura, então, a professora Alzira era formada.

 

P/1 – Tinha meninos e meninas?

 

R – Tinha meninos e meninas. Agora, os meninos sentavam de um lado e as meninas de outro.

 

P/1 – E a professora falava uma hora pra um, uma hora pra outro, como ela dava aula?

 

R – Ela dava aula assim: aquele que era mais adiantado sentava mais na frente, os mais atrasados sentavam mais atrás como eu, eu ficava mais atrás porque era atrasada. (risos)

 

P/1 – A senhora nunca tinha estudado?

 

R – Não, nunca tinha estudado. Agora o ABC eu nem levei pra lá porque eu já sabia ler o ABC, de diante pra trás, de trás pra diante. Não levei ABC pra escola, levei tabuada e cartilha, chamava Cartilha do Povo.

 

P/1 – A senhora lembra do uniforme? Tinha uniforme nessa época?

 

R – Não, não tinha uniforme. Agora, quando eu voltei pra Ponto Velho, que eu fui pra escola da dona Lourdes, tinha uniforme; era daquele tecidinho quadradinho, esqueci o nome.

 

P/1 – Xadrezinho?

 

R – Xadrez, é. Era um xadrezinho, uma blusa branca e uma gravatinha azul. É.

 

P/1 – E a senhora tinha muitos amigos na escola?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Do que vocês brincavam?

 

R – Na escola, a gente ia pra debaixo de um armazém fazer ginástica. Tinha uma cobertura longe, a escola ficava assim e lá adiante ficava aquela cobertura, e muito grande, e os tropeiros ficavam quando vinham, as pessoas ficavam ali. Então, a gente ia fazer ginástica ali, jogava bola, uma pegava a bola, a outra jogava por cima da outra, e fazia muita ginástica. Eu gostava muito daquela professora.

 

P/2 – E a história dos tropeiros? Nessa época você viu muitos tropeiros?

 

R – Os tropeiros era assim, isso aí já foi no Ponto Velho, não era mais na Barra da Estiva, aonde eu ia pra escola com dona Lourdes. Espera aí... Não, era na Barra da Estiva mesmo. Quando os tropeiros vinham, tinha o lugar onde eles ficavam. E eu tinha raiva do homem aleijado, porque ele ficava fazendo aquele gato mia pra mim, pedia beijo, eu batia a janela! (risos) É cada uma, menina (risos). Eu tinha raiva dele, então, quando eu casei e meu filho nasceu – ele nasceu no dia de São Miguel Arcanjo – eu não quis botar o nome de Arcanjo por causa do homem que se chamava Arcanjo, eu tinha raiva!

 

P/1 – Você falou gato mia. Vocês brincavam de gato mia?

 

R – (risos) As gato mias que eu falo são as pessoas que fazem careta pra gente ou umas bobagens. Não é coisa de brincar, não. Quando eu saía e ficava na porta, ele fazia assim: beijava, abraçava, fazia tudo quanto era coisa, “leosia”. Ele fazia tanto essas coisas que tanto fazia “leosia” como gatomia (risos). Ai, Jesus Cristo (risos). Pois aí foi o começo da minha vida, quando eu era criança. Depois quando nós voltamos para o Ponto Velho, eu sei que a dona Catarina, mulher que me roubou de minha mãe, e minha mãe não sabia de mim. Aí nós viemos pra Ponto Velho, do Ponto Velho tinha essa escola da dona Lourdes, a mãe dela se chamava Almerinda, era uma senhora boa, mas a dona Lourdes era uma professora muito boa. Então, quando vinham as férias eu ia pra Pedras Altas, que era onde moravam os pais da Marcília. Eles tinham casa no Jequié, tinham outras casas, mas também tinha que ficar na fazenda, que a fazenda era muito grande. A gente subia uma serra, subia, subia, subia aquela serra, depois quando chegava no alto a gente via longeeee as fazendas, todas longe, bonitas, o casarão longe lá. Foi nesse casarão que eu fiquei muito tempo.

 

P/1 – Quando vocês saíram da Barra da Estiva, foi com a dona Neném? Quando a senhora foi para o Ponto Velho?

 

R – Quando eu fui pra Ponto Velho ela já veio me buscar, eu não sabia ir até o Ponto Velho e ela veio me buscar.

 

P/2 – A dona Catarina?

 

R – A dona Catarina. Veio me buscar e eu fui. Quando chegamos nesse Ponto Velho é que tinha a fazenda de Maria de Catita. Maria de Catita era uma menina, morava minha vizinha e sempre ela falava: “Catita tá lá em cima com Zuzu”. Quando a Maria de Catita pediu para me levar, foi onde eu aprendi nesse lugar por nome Pedras Altas.

 

P/1 – A senhora então falou da escola, e nas férias a senhora ia para essa fazenda.

 

R – Fazenda Pedras Altas. Mas depois eu não continuei a estudar porque a dona Lourdes não veio mais. A mãe dela adoeceu, morreu e não veio mais.

 

P/1 – A dona Lourdes ia até vocês?

 

R – Não, ela morava no Ponto Velho, do Ponto Velho a gente ia pra fazenda. A dona Lourdes nunca foi à fazenda.

 

P/1 – E a escola não tinha mais professora, por isso vocês não tiveram mais aula?

 

R – Foi, não tivemos mais aula.

 

P/1 – E então?

 

R – Eu só aprendi com a dona Lourdes. Depois, a minha madrinha falou que a gente ia pra Jequié e que ela me botava na escola; depois ela não me botou mais na escola. Isso que nós morávamos numa casa assim e a escola era aqui, ó. Abria uma grade e passava pra escola. Eu falava: “Marcília, tua mãe falou que ia me botar na escola e por que ela não me botou na escola?”. Ela disse: “Pra tu não saber mais do que ela” (risos). Eu tinha muita inteligência, menina! Às vezes, uma professora fazia uma pergunta lá no Ponto Velho para os meninos que eram mais adiantados e eu sabia responder! (risos)

 

P/1 – O que a senhora gostava de aprender?

 

R – Pois eu gostava de aprender as coisas, aprender a ler, aprender tudo o que fosse de uma pessoa saber, eu tinha vontade de aprender. Lá nessa [fazenda] Pedras Altas a gente fazia requeijão, queijo, fazia tudo, até os queijos, eu aprendi a fazer o queijo branco.

 

P/1 – Como é que faz o queijo branco?

 

R – O queijo branco é assim: vem o leite, é separado o leite de coalhar em uma gamelona grande, ali coberto, bota umas tábuas assim, cruza tudo e cobre. Agora, esse outro, de fazer o queijo, você pega uma tal de coalheira, joga e tira de dentro do queijo, bota dentro daquele leite, e bota também sal dentro do leite. Em pouco tempo está tudo coalhado. A gente pega as fôrmas, o banquinho é todo cheio de coisa assim, e a gente bota um negócio lá pra aparar o soro. Aí, a gente bota as fôrmas e vai colocando. Você vem, coloca um bocado, depois quando vem torna a colocar, tudo no mesmo dia. Sai, torna a vir e colocar e ali vai apertando, apertando, tudo furadinho, a coisinha é toda furadinha e vai correndo o soro pra lá e faz o queijo branco.

 

P/1 – Fazia pra comer ou pra vender?

 

R – Fazia pra vender, vinha vender na Iramaia. Fazia bastante, era bastante. Depois a gente pegava, botava uma banca lá fora, uma cobertura e botava eles pra corarem, pra ficarem mais coradinho, porque se ficasse lá não ficava muito coradinho. (risos)

 

P/1 – E como era essa venda, quem comprava?

 

R – Quem comprava? Ah, lá eu não conheço.

 

P/1 – Ia pra longe?

 

R – Ia pra longe, lá era Iramaia. Depois, com o tempo eu fui na Iramaia, mas já era...

 

P/1 – A senhora ficou até que idade lá em Pedras Altas?

 

R – Olha, menina, na Pedras Altas eu fiquei até uns quinze anos, por aí.

 

P/1 – E a senhora ajudava a fazer queijo, não estudou mais.

 

R – Não estudei mais.

 

P/1 – E tinham outras pessoas?

 

R – Depois que nós mudamos pra Jequié ela disse que ia me botar na escola, mas não botou mais não.

 

P/1 – E a Catarina foi pra Jequié também?

 

R – Não, a Catarina não. Ficou no Ponto Velho.

 

P/1 – Quem foi pra Jequié com a senhora?

 

R – Fui com eles.

 

P/2 – Pedras Altas era em Ponto Velho?

 

R – Pedras Altas era a fazenda. E Ponto Velho é onde tinha a escola. E Pedras Altas a gente subia, subia e quando chegava no topo da serra via a fazendona toda, o casarão lá, todo o fim a gente via lá.

 

P/1 – Tinha plantação?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Do quê?

 

R – Tinha plantação de tudo, tinha plantação do capim, muito capim, você caminhava em capim. E para o lado de cá tinha roça, os trabalhadores trabalhavam na roça também.

 

P/1 – Plantavam o que nessa época?

 

R – Naquele tempo plantava feijão, andu, quiabo, maxixe, plantava tudo, de tudo tinha! Nós fomos pra roça, eu e Marçal, o filho mais velho de meu padrinho. Eu chamava ele de padrinho porque a mulher me pegou, ficou madrinha, certo? Aí eu chamava ele de padrinho, mas ele não era padrinho meu coisa nenhuma. (risos) Mas eu chamava por respeito. Quando nós levamos daqui da roça e o meu padrinho disse assim: “Vocês não passam por aí não, porque aí tem uma casa de marimbondo. Vocês sabem o que é marimbondo? Pois bem, é um besourão, coisa grande que morde a gente. Pois é, tem uma casa de marimbondo, até os animais já fazem o caminho por cá, que o caminho era aí, mas agora passa por cá”. E nós... Vai eu e Marçal (risos), Marçal já está com a cabeça branca como eu também (risos). Vai eu e Marçal: “Ali, Marçal, é que mora o bicho!”, ele disse: “É?”; “É. Bate aí pra ver” (risos). Pra quê a gente bateu? (risos). Quando bateu saíram os bichos prrruuuuuuuuuu (risos). E morde Marçal, e me morde, e nós deita no chão, pega uma rama e sacode assim (risos). O pai de Marçal estava atrás: “Mas esses meninos não são brincadeira!” (risos). Fiquei toda mordida, tive febre, só você vendo. E Marçal também teve febre dos bichos que nos picou.

 

P/1 – Passava alguma coisa pra curar?

 

R – Não, o que tinha pra curar era só álcool, passava o álcool (risos). Criança não é brincadeira não, viu? (risos)

 

P/1 – A senhora falou da Crisma. A senhora fez primeira comunhão, depois foi crismada?

 

R – Fui crismada pela minha madrinha, mãe de Marçal.

 

P/1 – Você lembra desse dia? Como que foi?

 

R – Lembro, lembro, eu já tinha doze anos quando fui me crismar. Era em um lugar por nome Jequié, onde a gente foi morar para os meninos irem para a escola, saímos da Pedras Altas e fomos pra Jequié. Então, lá eu já estava com uns doze anos. Quando eu cheguei – porque diziam que tinha que confessar, né? – “Bobajada” de confissão. Quando eu cheguei, o padre sentou e falou assim: “Ajoelha aí!”. Ajoelhar no chão de barro, você imagina como era naquela época a ignorância. Ajoelhei e ele ficou me fazendo pergunta; depois ele me fez uma pergunta que eu não soube responder, uma pergunta doida, se eu tinha namorado. Eu falei: “Não, eu não tenho namorado, eu só tenho doze anos. Acha que uma criança com doze anos pode namorar?”. Ele disse: “Pode”. Eu falei: “Pois eu não namoro, nunca namorei, nem sei o que é namorado”. Aí ele me fez uma pergunta feia, se eu tivesse um namorado e ele pedisse alguma coisa, se eu dava. Eu falei: “O que ele ia me pedir? Se ele me pedisse um beijo eu não dava, ainda mais outra coisa”. Levantei e falei: “Você vai confessar, mas vai confessar a sua mãe e as suas irmãs seu vagabundo!”. E saí de junto dele (risos). Chamei o padre de vagabundo. (risos)

 

P/1 – E o padre, o que ele falou?

 

R – Ele ficou calado, o que ele podia falar? Naquele tempo, menina, você ajoelhava assim, pegava e beijava as coisas dele. As mulheres eram todas bestas, mas eu dei uma de inteligente, vagabundo. Ele se chamava Anibas (risos). Foi no Jequié.

 

P/1 – Quando a senhora foi crismada, foi com esse mesmo padre?

 

R – Não, não fui crismada essa hora, não. Eu só fui confessar. Confessar o quê? Ele me fez pergunta que eu não sabia responder. Aí eu levantei (risos). Ai, ai.

 

P/1 – No dia mesmo da crisma a senhora se lembra da sua roupa, como que foi a cerimônia?

 

R – Dessa crisma que estou falando?

 

P/1 – Da crisma mesmo, depois disso.

 

R – Depois disso eu não quis confessar com mais padre nenhum. Eu casei no civil e, quando casei no padre, já era casada, já era tudo.

 

P/1 – Lá em Jequié?

 

R – Em Jequié. Depois eu tornei a voltar lá pro Ponto Velho onde morava o pessoal, depois eu casei. Ah, minha vida é muito complicada, menina!

 

P/1 – Vamos escutar ela toda, a gente estava lembrando dessas horas. Lá no Jequié a senhora continuou até que idade?

 

R – No Jequié continuamos... Eu já estava com doze anos quando eu fui fazer essa confissão, depois esse meu noivo morava pra cá, no Ponto Velho, ele tinha a mãe que chamava Norata. A gente vinha [do?] Ponto Velho a cavalo, descia uma ladeira cheia de voltas; sempre que eu chegava na ladeira eu descia e puxava o cavalo porque eu tinha medo, era rampa muito difícil.

 

P/1 – A senhora gostava de andar a cavalo?

 

R – Era o que a gente tinha naquela época. Uma vez um cavalo disparou comigo; nós íamos montados em um cavalo, eu e o meu neto, Marcos, a gente chama ele de Marquinho. Marquinho montou atrás, a gente ia comprar alguma coisa na casa do seu (Mendes?), não sei se era coco, era uma coisa que eu ia comprar de verdura. Quando chegamos na ladeira o cavalo não quis subir; não subiu a ladeira, ele voltou e disparou: tarárá tarárá tarárá tarárá. E eu: “Segura Marcos, segura Marcos, agarra em mim, vó”. E quando eu cheguei na entrada eu gritei “Socorro!!! Socorro!!!”. O pai de Marcos saiu fora, saiu na janela do oitão. Quando o cavalo vai passando ele agarrou depressa, o cavalo virou e eu não caí, nem o Marcos (risos). Eu afirmava, tinha que colocar força nos estribos pra gente poder ficar firme na cela (risos). Então, foi assim que nós moramos nesse lugar e passamos por tudo isso. Depois a minha filha casou...

 

P/1 – Nessa época, a senhora me contou, lá fora, da carta. Você quer falar da carta?

 

R – Da carta?

 

P/1 – Da sua mãe.

 

R – Ah, da carta da minha mãe. Pois é, era no Jequié que nós morávamos. Eu fiz uma carta, botei tudo: onde eu morava, como é que era, como é que não era, botei tudo, que eu morava com essa família. Eu botei o nome de Abaíra, a data, tudo direitinho. Aí eu escrevi na carta por fora dela: “Quem receber essa carta, entregue à Josefina, que mora na Rua do Meio, em Abaíra”. Foi quando minha mãe soube e mandou me buscar. Quando ela mandou me buscar, o meu irmão veio com os tropeiros, porque ele não sabia vir. Minha madrinha não deixou eu ir, disse: “Não, no meio de tropeiro você não vai. Você não sabe o que pode acontecer”. Passados muitos anos, eu já tinha casado, já tinha filho e tudo e eu fui em Abaíra. Quando eu cheguei em Abaíra, a multidão de gente que veio me encontrar, não gosto nem de lembrar; tinha gente da rua da minha mãe toda, vieram, até desceram na quina do cemitério que descia, era gente. Quando eu cheguei essa hora, eu desandei, entreguei o animal pra outro menino e acabei de chegar a pé, só levei a Alda pequena. A Alda ia fazer três anos, ela nasceu em outubro e eu fui, parece que, no mês de... Foi no mês de muita chuva (risos), deve ter sido em janeiro ou fevereiro. Foi assim, foi a minha vida, a minha vida, a minha história.

 

P/1 – Antes, dona Isolina, a senhora falou quando conheceu o seu marido. Como foi essa época, onde a senhora conheceu ele?

 

R – Quando eu conheci ele foi no tempo que o meu padrinho veio da Pedras Altas e comprou, no Cruzeiro, deixa eu ver... É, ele mora na Pedras Altas e depois ele comprou essa loja que era de Anísio Cares, que era da Barra da Estiva. E ele veio embora. E esse meu marido foi trabalhar na loja. Depois que nós casamos, o meu padrinho botou uma venda pra ele sortida de tudo, ele vendia tudo. Aí agora já vai entrar ladrão, não? (risos). Ai menina, é uma história complicada, ninguém pode escrever uma coisa dessas, é muito complicada (risos). Aí, nós moramos lá (risos) no Ponto Velho, tinha um moço roubando, ele chamava Bilô. E Bilô era filho de um compadre meu, que eu batizei uma menina, filha de compadre João Antonio. O meu marido saiu pra ver o gado, falou assim: “Não vai deixar de abrir a venda, não, Isolina”. Falei: “Sim, depois eu vou abrir, sim. Quando eu terminar aqui eu abro”. Mas a casa era muito grande, a cozinha ficava lá naqueles mundos, uma salona enorme. Aí eu vinha, passava um taboado, depois eu passava um negócio, esqueci como é que chama, a gente passava primeiro pra chegar na venda. Nesse tempo já era venda, meu padrinho já tinha feito a venda pro meu marido, já tinha fechado a loja, seu Vaizinho é que tomava conta dos tecidos pra lá. Vaizinho era um senhor, tomava conta dos tecidos e eu ficava na venda. Foi quando apareceu, eu não sabia, quando o meu marido saiu e falou assim: “Isolina, você vai abrir a venda. Você tem o ____ de vir aqui com as crianças e não abre a venda”. Eu fui abrir. Abri a venda, vendi, só que eu não vendi muito, não. Mas eu vendi uns vinte e tantos. Quem tem duas crianças, nessa hora, pegou Alda e rodou por lá e veio no formigueiro que tem embaixo do taboado. Daqui a pouco a menina começou a gritar, gritar, como eu ia fechar a venda? Sei lá o que estava acontecendo. Cheguei, saltei o taboado e peguei a menina cheeeeia de formiga. Eu enchi a bacia de água, joguei ela dentro da bacia, com formiga e tudo. Quando eu joguei ela dentro da bacia, tirei a roupa dela, deixei ela dentro da bacia e voltei.

 

(TROCA DE FITA)

 

P/1 – Na hora que o formigueiro...

 

R – Estava mordendo a menina. E o meu filho mais velho levou ela para o formigueiro. Quando eu cheguei, vi a menina cheia de formiga, enchi a bacia de água e botei a menina dentro, que era o jeito que tinha, tirei a roupa dela, joguei pra lá e falei: “Vixi, que eu deixei tudo aberto!”. Corri, corri, passei o taboado, entrei na venda, fechei tudo e voltei pra socorrer a criança. Voltei, dei banho na menina, a menina toda mordida, toda vermelha, passei um creme nela toda e falei: “Ô filha, quer comer alguma coisa?”. Ela disse: “Não, não quero, não”. Era a Alda, essa minha filha que eu tenho agora. Eu falei: “Ô, ___, mas por que você fez uma coisa dessas? Tira a roupa também”. Joguei a água fora, “entra e toma um banho aí”. Nessas idas e vindas o ladrão foi lá e roubou o dinheiro (risos). E meu marido quando chegou disse: “Eu pedi pra você abrir a venda e você não abriu, não foi?”. Eu falei: “Abri, eu vendi uns vinte e tantos. Não sei o tanto, mas vendi mais de vinte cruzeiros”; “Mas como você mente bonitinho”; “Pelo amor de Deus, não vá me dizer que eu minto porque eu não sou gente de mentira! Haja o que houver, a verdade precisa ser dita. Se eu vendi, como é que eu falo que não vendi?”; “Na gaveta não tem um tostão”. Eu falei: “Não é possível”. Cheguei lá e não tinha nada mesmo. O Bilô tinha vindo e pegado, mas como ele já tinha pegado em outros lugares, o senhor Miranda de lá viu ele entrar e voltar. Nisso, quando o Marcolino chegou, ele disse: “Ele botou o dinheiro que ele roubou no bolso esquerdo”. O senhor Miranda viu de lá, porque ele já estava desconfiando que ele estava roubando. Quando o Marcolino chegou, disse: “Seu Bilô, venha cá. Por que você roubou o dinheiro que estava aqui na gaveta?”. Ele disse: “Você tem coragem de falar uma coisa dessas? Eu sou filho de fazendeiro, não tenho precisão de roubar!”. O senhor Miranda veio, tirou o dinheiro e bateu: “Aqui!”. E o meu dinheiro eu tinha marcado! (risos). Menina de Deus, o meu dinheiro eu tinha marcado, peguei a coisa e dei uma marcadinha nas beiradinhas. Quando ele tirou, o senhor Miranda disse: “O dinheiro que você pegou do Marcolino está no bolso esquerdo, pode tirar que eu vi de lá”. Ele tirou o dinheiro e estava a marquinha que eu tinha feito (risos). Foi assim que a formiga mordeu os meus meninos, virou essa confusão toda e ele teve tempo de vir roubar o dinheiro, e o meu marido brigar comigo que eu não tinha aberto. (risos)

 

P/2 – Qual o nome do seu marido?

 

R – Meu marido se chamava Marcolino dos Santos.

 

P/2 – E ele era da Bahia também?

 

R – Da Bahia, era baiano.

 

P/1 – E a senhora teve quantos filhos com ele?

 

R – Só tive dois, Alda e Miguel _______. Eu não quis botar Arcanjo por causa do ladrão (risos). O nome era Arcanjo, mas eu não quis por causa do sem-vergonha que toda vez que eu passava se (endireitava?) todo e... (risos). E me pedia. Você tem noção uma coisa dessas? Dá vontade de chegar lá e... Ele era aleijado, então (risos), então foi assim, a minha vida.

 

P/1 – Eu soube de uma coisa, antes ainda do seu casamento, quando a senhora era pequena, da palmatória. Tem alguma história com a palmatória? Como que é?

 

R – A palmatória foi assim: eu já estava no Cruzeiro e chamava vitorina a tal da palmatória, tinha uma pequenininha e tinha a grande. A vitorina estava pendurada assim. O professor adoeceu e internaram ele, e ela ficou tomando as lições das meninas; ela trabalhava na loja, em tudo, tinha loja, tinha venda, tinha tudo. Quando ela veio pra tomar a lição das meninas, Maria Amanda leu corretamente, quando ela chegou na lição de Melva, ela gaguejou, ela disse: “Tu não sabe”. Eu já tinha tirado a vitorina de lá e botado no armário da dispensa. Então, a Melva, em vez de ter um erro só, errou três, com medo da mãe, o medo que ela sentia da mãe, a mãe amava mais a outra que ela. Então, eu já tinha pegado a vitorina e colocado no armário da cozinha, fechei o armário e deixei lá. Ela falou... Eu contei da Marcília que eu desci os degraus, não foi?

 

P/2 – Degrau? Não.

 

R – Isso tudo foi no mesmo dia (risos). Ela estava costurando. Deixa eu contar da filha primeiro. Marcília ia e botava a mão na máquina, botava a mão, mexia e ela pá! Batia na mão de Marcília, Marcília encolhia. Depois a Marcília tornava a ir, era teimosa, e ela batia na mão de Marcília. Aí ela disse assim: “Você espera aí que tu me paga, vou buscar a palmatória pequena”. Tinha uma palmatorinha pequena, de bater na mão de gente pequena, a bichinha era miudinha, cabinho de umburana. Quando ela saiu pra ir buscar a coisa no quarto dela, eu peguei Marcília, desci as escadas e ficamos lá. Quando ela chegou, não achou nem eu – eu estava passando roupa – nem a menina. Lá tinha um ____ de a gente folhear os ferros, tudo isso tinha. Ela não achou nem a mim, nem a menina. Tinha um corredorzinho assim, depois tinham três degraus, a dispensa aqui e a cozinha pra lá. Ela chegou: “Mas isso tem (ter?) uma coisa dessas, Isolina?”. Eu falei: “De quê?”; “De eu pegar e ir buscar a palmatória e você chegar e não encontrar a menina”. Eu falei assim: “Porque a mãozinha dela é muito pequena, não pode bater de palmatória. E se a senhora descer os três degraus eu passo o portão pro lado de fora. Se a senhora passar o lado de lá, eu passo o outro portão, mas hoje ela não apanha!” (risos); “Eu não sei o que é que tu anda pensando, é só porque eu nunca te dei umas palmatoradas”. Eu falei: “Eu não vou mais apanhar, viu? Eu já estou na idade de não apanhar mais. E se ____ em Jequié, não vou mais apanhar nada, não. Já estou com quinze anos, não vou apanhar mais, não. Quinze anos não se apanha”. Aí que ela agilizou o casamento com o meu marido; eu casei, tive os dois meninos. E foi assim a minha vida. E a Marcília, eu tinha tanta coisa com a Marcília, que é até hoje. (risos)

 

P/2 – Ela que apresentou a senhora pro seu marido?

 

R – Quem?

 

P/2 – A mãe de Marcília.

 

R – A mãe de Marcília?

 

P/2 – Que fez a senhora conhecer o seu marido?

 

R – Não, não foi ela que apresentou o meu marido. O meu marido trabalhava na loja, ela botou ele para ir embora e botou uma barraca pra ele na feira, porque eu ajudava na loja também. Eu não ajudava a fazer as contas, mas ajudava a medir e botava o tanto do... Como é que fala? Da metragem, era assim, botava o tanto da metragem. Então, foi assim, foi uma vida muito complicada, mas estou viva até hoje.

 

P/1 – A senhora falou que primeiro só casou no civil.

 

R – Foi só no civil, não casei no padre, não.

 

P/1 – Aí tinha um cartório na cidade, vocês foram lá?

 

R – Não, foi chamado. Nós casamos no Jequié.

 

P/1 – A senhora tinha quinze anos quando casou?

 

R – Não, não. Quando casei eu já estava com dezenove anos.

 

P/1 – E tinha testemunha? Como é que era esse casamento?

 

R – Tinha testemunha, tinha tudo. As testemunhas também escreviam, tomavam nota. Aí eu só fui casada no civil, não casei no padre.

 

P/1 – Como era a casa que você e seu marido foram morar?

 

R – Primeiro nós fomos morar na casa grande que eles tinham deixado. Eles mudaram pra Jequié para os filhos estudarem e tinham comprado um casarão, tinha a casa pequena e tinha o casarão. Nós já tínhamos morado na casa menor, quando chegavam as férias a gente ia pra lá, pra Ponto Velho, para esses lugares. Foi uma vida cheia de altos e baixos.

 

P/1 – E durante o seu casamento você morou em quais cidades?

 

R – Morei lá no Ponto Velho.

 

P/1 – As crianças estudaram lá?

 

R – Estudaram lá. Eu cheguei a pagar uma professora, uma menina que tinha vindo de... Não me lembro mais não. Ela era muito estudada, era filha do seu Abias, agora me lembrei o nome. Ele tinha loja, tinha tudo, então, eu pagava a menina pra ensinar a minha filha. Depois meteram lá uma confusão e tirou a menina.

 

P/1 – Ela ia na sua casa?

 

R – Não, a menina ia pra casa dela. Era um casarão, tinha a loja, tinha o fundo, era muito grande o casarão. Depois o meu padrinho comprou esse casarão.

 

P/1 – E morava mais gente na casa ou só vocês quatro: você, o marido e os dois filhos?

 

R – E a Edésia, a menina que eu criei.

 

P/1 – Então, conta essa história. Como ela chegou até você?

 

R – A Edésia... Olha, eu não gosto nem de lembrar. Edésia foi criada pela madrinha, mas a madrinha maltratava muito ela, batia. Se você visse quando ela chegou na minha casa, a roupa dela não era roupa, não podia se lavar. Ela dava água para os animais, tudo, no cocho, fazia tudo quanto era trabalho, ia pegar os animais na manga. Essa menina de oito anos fazia tudo; ela estava com oito anos quando eu a peguei. Eu comprei roupa, fiz roupa nova pra ela, fiz tudo pra Edésia. E aquela roupa que ela trouxe de lá eu peguei e joguei fora, não dava pra vestir, não. Fiz camisolinha pra ela, fiz tudo. E eu criei essa Edésia. Essa Edésia depois casou com um viúvo que chamava Compadre Neném, que era marido de Dina, minha cunhada. Ela foi embora pra Goiás; de lá só me mandou uma foto, me mandou uma carta e uma foto, nunca mais eu tive notícias. Eu tive vontade de ir em Goiás, mas não deu, não deu para eu ir. Então, eu nunca mais soube dela. Tem horas que eu vejo os meninos todos e eu penso: “Quem sabe aqui em São Paulo não tem até filho de Edésia, filho desse pessoal?”. Eu acho que ela já se foi.

 

P/1 – A senhora ficou até quando lá em Ponto Velho com o seu marido e os filhos?

 

R – Depois nós mudamos pra Jequié, nós morávamos na casa menor e eles moravam no casarão. Foi assim naquela luta de vida no Jequié. Aí foi que eu estudei e _________ mais o padre (risos) foi no Jequié. O padre Anibas, não era bem um padre daí não, como é que fala quando vem... Missão. Vem em uma missão, vem padre, bispo, arcebispo, e as mulheres eram tão bestas que ajoelhavam e quando eles passavam elas ficavam beijando a batina deles (risos). Ê tempo triste.

 

P/1 – Dona Isolina, seus filhos foram crescendo, estudando...

 

R – Meus filhos não tiveram muito estudo porque lá não tinha muito estudo, não. Mas depois que nós viemos pra cá, eles estudaram mais. Meu filho só trouxe do Cruzeiro um ____, ficou três anos sem chover, eu trouxe a minha filha e ele falou que não vinha porque a mulher dele não ia deixar de ficar de junto dos parentes dela pra acompanhar parente de marido. Essa hoje, ela é mãe de... A mãe de Ivaninha, avó de Felipe, Marcelo, João Marcos, esse povo. É mãe deles e mora em Araçatuba. Um dia ela me disse assim: “Por que Araçatuba?”, me fez essa pergunta. Porque nós morávamos no... Como é que fala, meu Deus? Nós mudamos de lá era... Eu só sei dizer que eu fui em Araçatuba com os meus parentes. Cheguei lá, achei. Os meninos ficaram muito presos, Marquinho era mais danado, ele pulava o muro e saía, mas os outros ficavam todos muito presos. Então, Marcinho e esse pessoal – Marcinho era pequeno –, teve um dia que o alemão chegou com uma pedra, tacou na testa de Marcinho e Marcinho ficou com aquele calombo na testa. Alemão era vizinho ali, que a dona da casa alugava as casas. A gente alugou a de cá, ela morava assim, a gente morava assim, e as outras casas pra lá, era dentro de um muro. E foi assim que a gente começou a vida vindo pra cá, pra São Paulo.

 

P/1 – Conta mais. Com quem a senhora veio? Quem saiu da Bahia e veio pra cá? Que época que foi mais ou menos?

 

R – Eu que vim com o meu marido. Ele morreu aqui em São Paulo; ficou internado na... Eu já falei que ele era mordido de barbeiro, não foi? Não falei, não? Ele era mordido de barbeiro, é um bicho que morde a gente e o sangue da pessoa desaparece, enralece, não sei o que é. Só sei que eu só tive dois filhos, fiquei 27 anos casada e só tive dois filhos, vivi com ele tudo, ajudei muito ele no balcão, ajudei muito ele. Então, quando a gente veio pra Jequié, que os meus padrinhos vieram pra Jequié pra botar os meninos na escola, foi aí que tinha a professora Maria Sá. Hoje a gente chega lá e não conhece. Passava o trem, tinha estação de trem, tinha tudo. Tinha um homem chamado Otaviano que tinha um casarão assim, de lado, que era muito ricão e foi assim. No Jequié foi onde os meninos vieram pra aprender a ler e foi onde eu morei um tempo nessa casa que eu estou te falando, que era junto da casa grande. Depois passado muito tempo, agora eles compraram a casa grande e hoje fizeram. Nelva disse que está lindo, desmancharam a casa pequena, disse que está muito linda. Eu falei: “Ai, Nelva, eu queria ir (risos) um dia”. Mas está difícil.

 

P/1 – Então, quando a senhora veio com o seu marido pra São Paulo, foi pra tratar a doença da mordida do barbeiro...

 

R – Pra tratar o barbeiro, mas quando chegou aqui não tinha mais jeito, porque doença de barbeiro naquela época era difícil; tinha que tirar todo o sangue da pessoa e colocar outro sangue. Ele chegou e disse: “Olha, ninguém aqui descobre a minha doença, nós temos que ir pra São Paulo”. Foi assim que eu vim pra São Paulo mais ele. Quando eu cheguei em São Paulo, naquela época a rodoviária era debaixo do viaduto. E São Paulo tinha poucas casas. Eu esqueço o nome de onde nós morávamos, eu esqueci.

 

P/1 – Não tem problema.

 

R – É, então.

 

P/1 – Conta mais da rodoviária, como que você lembra?

 

R – A rodoviária era assim: a gente vinha de ônibus, rodava, rodava por assim, chegava aqui, era a rodoviária. Ali a gente comprava as passagens pra vir pra baixada. Como é que chamava o lugar que eu já até esqueci, menina? Pra gente vir pra baixada. Agora, meu marido disse assim: “Isolina, você não está errada?”; “Não, eu não estou errada. Essas curvas todas nós temos que passar”. E eu escutava Roberto Carlos cantar as curvas da estrada de Santos (risos). Ele falava: “Vai perguntar àquela senhora ali se você não está errada, não chega nunca mais”.

 

P/1 – Quanto tempo demorou essa viagem? Você lembra se eram dias?

 

R – Foi no dia que a gente veio pra São Paulo, a gente veio de trem e desceu. Naquele tempo ônibus era mais difícil, a gente tinha que vir, tudo era de trem. Não tinha ônibus, não, era de trem. Nós viemos lá da Bahia de trem, viemos pra essa rodoviária de comprar passagem debaixo do viaduto, que a gente comprava passagem pra ir e lá adiante já pegava o trem e descia a serra. Agora vai me ver um pouco. A gente descia, vinha assim e pegava, naquele tempo era um carro e quando cheguei na casa da minha irmã no... Esqueci (risos). Eu vim com ele, mas cheguei em São Paulo, não encontrei a casa da Marcília e eu falei: “Nós temos que ir pra São Vicente, que lá em São Vicente eu tenho uma irmã”. Eu já tinha o endereço da minha irmã, que era na Rua do Meio. Quando eu cheguei, eu falei: “Olha, não desce do táxi, não. Fica aí dentro do táxi que eu não acerto saber se a minha irmã está morando aqui”. Eu bati palma, bati palma e saiu uma menina, e eu falei: “Pronto, a minha irmã não tem filho pequeno!”. Aí eu falei: “Menina, você conhece uma senhora por nome Edilina que mora aqui nessa rua?”. Ela disse: “É a minha vó!” (risos). Eu falei: “Chama a tua vó”. A minha irmã saiu e eu disse: “Ô Edilina, eu trouxe o meu marido aqui muito mal e eu tenho que botar ele...”. Quando ele saiu, o motorista do táxi teve que pegar ele e trazer. A minha irmã ficou assombrada de ver ele assim: [barulho de quem está com falta de ar]. Minha irmã logo abriu o chuveiro e botou ele debaixo desse chuveiro, deu uma toalha. Eu abri a mala, peguei pijama dele, peguei tudo e vesti e botou ele em uma cama. Eu fui, almocei, passado muito tempo a minha irmã fez uma sopinha e perguntou se ele queria, ele disse que queria. Ele sentou na cama, ela botou a sopa toda na boca dele e ele ficou ruim, estava ruim. Aqui mesmo, no São Paulo, ele morreu, não voltou. Ele é enterrado na Vila Formosa, aqui em São Paulo.

 

P/1 – Enquanto isso vocês ficaram na casa da sua irmã em São Vicente muitos dias?

 

R – Fiquei muitos dias na casa da minha irmã em São Vicente pra depois eu saber tudo, depois eu voltei pra casa de Marcília; porque a Marcília tinha mudado de casa e eu não sabia onde era a casa. Aí a Antonia foi na casa da Marcília saber. Depois eu comprei roupa preta, comprei tudo e vesti. Depois que eu fui no médico, ele disse: “Você não pode vestir preto porque você está com coisa, você não está pra vestir luto, pode tirar esse luto e jogar pra lá. Você está ruim por causa do luto”. Eu falei: “Eu nunca gostei de roupa preta e hoje eu sou obrigada a vestir”. Ele disse: “Você não vai vestir porque a gente não guarda sentimento na roupa”. Eu falei: “Justamente”. E eu também nunca mais quis casar. Fiquei viúva nova, com quarenta e poucos anos e nunca mais quis casar. 

 

P/1 – Isolina, quero ouvir mais da viagem de trem. Você lembra da paisagem? O que você gostava de ficar vendo, como que era dentro do trem?

 

R – Naquele tempo a linha de ferro era muito... Nós tinhamos que pegar o trem, como é que chamava aquele lugar? Era um lugar que tinha um homem que tomava dinheiro dos outros, sem-vergonha, ele ia nas coisas de mentira. O meu marido já tinha pago ele pra saber da doença dele e ele não falava a doença. O rio era seco, não tinha água. Se você chegasse aqui e cavasse, a água brotava. Esqueci o nome do lugar. Você caminhava no rio na areia, se você quisesse lavar roupa você tinha que cavar assim, ó, e fazer aquele poço, puxar a areia toda, e a água brotava. Água alva, só você vendo. Esqueci o nome do lugar... Esse lugar chamava Areia Branca, e tinha esse tal de mentiroso que iludiu meu marido pra tomar dinheiro dele. Eu paguei e ele disse que o dinheiro que o meu marido tinha deixado pago não valia mais, porque já tinha passado de um ano pro outro. Até isso ele roubava (risos). É comédia, viu menina? (risos)

 

P/1 – E depois da morte do seu marido, a senhora trabalhou? Como foi essa parte da sua vida?

 

R – Pois é, depois da morte do meu marido eu achei que aqui em São Paulo era um lugar melhor pra se viver. Eu trouxe a minha filha Alda; o marido dela era um homem muito cachaceiro. Ele veio primeiro, mas chegou e achou um emprego na Petrobrás. Menina, é uma história muito longa. Ele ficou empregado na Petrobrás, ganhava o dinheiro e tudo. Depois que nós viemos, que eu trouxe ela. Primeiro nós moramos em um lugar que era todo cercado, depois nós mudamos para um lugar mais perto da Petrobrás, era um lugar mais calmo, já dava pra gente criar galinha, tudo fechado, mas dava pra criar. Então, nós mudamos pra lá, foi onde... Essa eu não sei se eu conto, não, pra quê?

 

P/1 – Só conta o que a senhora quiser.

 

R – É?

 

P/1 – É. Se não quiser, não precisa.

 

R – Ele bebia muito e hoje é vivo e não bebe mais. Hoje é uma pessoa especial, mas no tempo da minha filha, eu só sei dizer que ele estava dormindo mais a minha filha, não precisa escrever não, e ele chamou o nome da mulher: “Cinha, Cinha, Cinha!”. A minha filha deu um empurrão nele (risos), ele caiu da cama (risos). Caiu da cama. Ai, Jesus Cristo. Pois é, filha.

 

P/1 – Aí a Alda veio. Ela já tinha filhos quando veio?

 

R – Tinha, já tinha os filhos. Tinha João Marcos, não, João Marcos é filho de Zita, eu to atrapalhando. Maurício também era filho de Zita, a danada que batia. Vanusa... Ai meu Deus, agora assim.

 

P/1 – Quando a Alda veio, vocês ficaram morando juntas? Como que foi?

 

R – Foi, nós ficamos morando juntas.

 

P/1 – Lá em São Vicente ou na capital?

 

R – Em São Vicente. Nós viemos pra São Vicente.

 

P/1 – A Alda trabalhava também?

 

R – Trabalhava, ela trabalhava. Hoje ela costura pra fora, faz tudo.

 

P/1 – E já era costureira naquela época?

 

R – Naquela época, não. Ela começou a costurar, até nós levamos uma máquina de Marcília pra lá, para ela costurar lá em São Vicente. Depois, com o tempo, juntou dinheiro, recebeu, eu também recebi um pouco da aposentadoria e ajudava porque o marido, ó, era só bebida. Hoje não bebe, só fazendo INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] pra ter muito dinheiro. (risos)

 

P/1 – E a senhora ficou em São Vicente até quando?

 

R – São Vicente? Deixa eu ver... Eu fiquei muito tempo, depois mudei pra Praia Grande. Depois que a Mari cresceu, ficou mocinha e casou, foi que eu vim pra Praia Grande pra ficar com ela, quando ela teve a criança.

 

P/1 – A Mari é quem?

 

R – A Mari é a minha neta.

 

P/1 – Filha...

 

R – De Alda, que é minha filha. E eu tinha operado das vistas em São Paulo, a médica tinha cortado o fundo do meu olho e a Cida, que trabalhava lá, falou assim: “Ô So, desce pra cá, tu fica aí em cima tão sozinha, tu pode descer?”; “Eu posso, eu vou pegando a coisa, vou rodando e vou descendo”. Desci e ela forrou a coisa lá para eu deitar. Eu deitei e fiquei assim: recostada e deitada. Aquilo passou tudo em minha mente, eu tirei um grito, menina! “Ciiiiida”. Ela correu e disse: “O que foi, So?”. Eu falei: “A Mari tá passando mal, ela não chora, não chora”; “Você não pode chorar, você não pode chorar”; “Mas ela tá passando mal”. E desmaiei. Ela chegou lá, veio com a água com açúcar, chegou e foi colocando as colherzinhas na minha boca e batendo assim para eu engolir, depois eu engoli. Aí, passou esse dia, isso foi um dia de sábado, quando foi domingo a minha filha ligou pra cá e tinha falado o que tinha acontecido. Este menino que eu fui tirada à ferro, que eu hoje em dia não posso. Voltei a morar com a Mari, a Mari toda enfaixada, eu cheguei e fiquei com ela e vivo até hoje, na casa desse menino que está com dezesseis anos. Foi assim que foi a minha vida.

 

P/1 – E como a senhora conheceu a mãe da Marta?

 

R – A Marcília?

 

P/2 – A Marta é mãe da Marcília.

 

P/1 – Ahhhh, eu não sabia o nome dela.

 

R – É, a mãe de Marcília é a Marta, que eu fiquei com tanto amor com ela.

 

P/1 – Quando a senhora morou em São Paulo, a senhora morou com a Marcília?

 

R – Morei, fiquei com Marcília. Fiquei na casa de Marcília, não sabia que Marcília tinha mudado de casa. Eu desci pra São Vicente e Antonia sabia onde Marcília morava. Antonia veio, eu dei a Antonia o dinheiro da passagem e tudo, Antonia veio, conversou tudo, foi que eu vi.

 

P/1 – Entendi tudo.

 

R – A minha vida foi uma comédia (risos). Foi assim, filha.

 

P/1 – Em Praia Grande é na mesma casa que a senhora mora desde a primeira vez que a senhora chegou?

 

R – Na primeira, é, é a mesma casa.

 

P/1 – E como é o seu dia-a-dia na Praia Grande?

 

R – Hoje em dia tem a Zilma que é uma menina que eu criei. Eu já falei, não?

 

P/1 – Fala da Zilma.

 

R – Não falei da Zilma não?

 

P/1 – Conta pra gente.

 

R – A Zilma. Foi um tempo na Bahia que teve três anos de seca. Então, o seu Mançur queria me dar a menina para eu botar na escola que a mãe não deixou, esse Zé Dourado que era avô da Zilma viu ele falando e eu trabalhava no balcão com o meu marido, meu marido comprava mamona, comprava tudo e eu trabalhava no Ponto Velho. Aí eu fui pra rezar uma ladainha pra Bilô no dia 14 de um mês, menina, eu sabia tudo, mas agora a cabeça não dá! Eu sei que era 14, que a Zilma é do dia 15, que ela nasceu. Aí, eu falei pro meu marido: “Olha, eu já estou na...”, esqueci o nome do lugar. “Já vou pra casa de Dezita e de lá já vou pra casa de seu Antonin, que eu sempre prometo pro seu Antonin que eu vou lá e nunca fui. De lá já estou perto, vou ter uma légua pra trás, subo a ladeira e vou na casa do seu Antonin”. Foi quando eu cheguei lá, ela tinha nascido naquela noite. Eu parei na casa do seu Antonin e bati palma pra ver onde era a casa do seu Antonin. Eles me ensinaram que eu tinha que descer aquela ladeira ainda. Quando apresentou aquela menininha, falei: “Gente, que bonequinha bonitinha! Vocês querem dar pra mim?”. A avó da menina me disse: “Deus me livre, essa é a minha neta”. E era filha da Maria, a Zilma era filha de Maria Castor Dourado. Então, foi assim que eu criei a Zilma. Passados três anos sem chuva e aquele sofrimento danado, meu marido só tinha nota, nota, nota, de vender fiado, de comprar e vender fiado. Ainda, quando alguém levou pra Araçatuba eu falei: “Mete isso dentro da água e desaparece com isso, que isso não vale mais nada”. (risos)

 

(TROCA DE FITA)

 

P/1 – Essa viagem de Salvador que a senhora falou, você estava lá na Bahia, foi passear, foi trabalhar, o que a senhora foi fazer em Salvador?

 

R – Eu fui visitar a minha madrinha, Zuzu já tinha mudado pra Salvador, esse pessoal, as meninas, a Melva, Maria Amanda, tudo passou a morar em Salvador. Ainda agora elas estiveram aqui.

 

P/1 – É, elas estiveram aqui na casa de Marcília.

 

P/2 – Melva e Maria Amanda são irmãs de Marcília?

 

R – São. Aí, eu vim.

 

P/1 – E o que você achou de Salvador, você gostou?

 

R – Gostei, gostei muito de Salvador (risos). Quando eu estava lá a maré subiu, veio e pegou o Mercado Modelo tudo. A maré ficou alta! É mar, tem tudo cercado, mas vem com tudo. Como lá na Praia Grande também tem isso, tem uma coisa assim da gente descer e fica pra lá. Mas Deus tenha misericórdia porque tem até a música do mar.

 

P/1 – Tem.

 

R – Ó mestre, o mar se revolta. Vocês sabem, não sabem?

 

P/1 – Não.

 

P/2 – Como que é?

 

R – “Ó mestre, o mar se revolta. As ondas nos dão pavor. O céu se reveste de trevas, não temos um Salvador. Não se te dá que morramos? Podes assim dormir, a cada momento nos vemos, precisa submergir. As ondas atendem o meu mandar, sossegai. Seja o encapelado mar, a ira dos homens, o gênio do mal. Tais águas não podem naufragar, que leve o senhor, rei dos céus e do mar. Eu estou para vos salvar. Sossegai, sossegai”. (risos)

 

P/1 – A senhora viu o mar a primeira vez quando pequena ou já era grande?

 

R – Lá na Bahia não tem. Eu vi o mar quando eu vim para cá, pra São Paulo. Mesmo assim, eu fiquei em São Paulo uns tempos, foi quando eu desci pra cá e vim nessa Praia Grande.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Ah, achei muito lindo! Achei muito lindo, o mar é muito lindo. E é como diz o causo, tem medo do mar, né? Quando eu vim pra Praia Grande a primeira vez não tinha estrada, não tinha nada. Os ônibus passavam pela areia do mar, que a água vinha e os ônibus passavam pela areia do mar.

 

P/2 – A senhora veio em Praia Grande ou em São Vicente, que a senhora viu o mar?

 

R – São Vicente também tem o mar, mas eu vim aqui na Praia Grande visitar uma família, que eu não sei mais nem quem são.

 

P/1 – A senhora provou a água do mar?

 

R – Ah, provei, provei! Como a gente prova! (risos)

 

P/1 – Muito salgada, não é?

 

R – É, salgada. Eu provei, ainda lavei, passei.

 

P/1 – Você entrou no mar?

 

R – Entrei!

 

P/1 – De roupa?

 

R – Entrei de roupa, molhei a roupa, peguei a outra roupa e tirei. A primeira vez que eu vim entrei no mar mesmo.

 

P/1 – Sem medo.

 

R – Sem medo, porque não estava de onda, a onda vinha assim, e cá era mais calmo. Aí eu entrei até no... Mergulhei. (risos)

 

P/1 – E a senhora ia começar a contar do dia-a-dia na Praia Grande. A senhora acorda, fica em casa, o que faz?

 

R – Agora?

 

P/1 – É, atualmente.

 

R – Agora. Menina, hoje em dia eu só faço assim: eu desço as quinze escadinhas, onde eu moro, que foi a Mari que fez pra mim, mas foi com o meu dinheiro, que eu tinha sempre a minha poupança. Quando eu recebo, eu já vou lá. Agora tem tempo que não boto um dinheiro na poupança. Quando o ladrão roubou a Mari e atirou, me mandaram chamar achando que eu tinha tirado um dinheiro pra emprestar a Getúlio, que ele ia comprar um carro. Eu tirei cinco mil, depois dei a ele mais 750 [reais]: “Não me pague isso não, porque aqui eu gasto água, luz, gasto tudo, isso aí não quero mais não, não quero pagamento de nada. Não estou precisando” (risos). Lá eu como, bebo, só compro as coisas que eu preciso. Eu compro leite ninho que eu gosto, gosto de colocar leite ninho dentro do meu cafezinho (risos) e as coisas que eu gosto, eu compro. E as meninas também trazem muita coisa para mim, bolacha, coisa que eu nem... Tem horas que eu preciso dar para os outros. É assim.

 

P/1 – Eu vi que a senhora trouxe o fuxico.

 

R – Trouxe o fuxico.

 

P/1 – A senhora costura, então?

 

R – Costuro. Não posso parar, não. Se eu ficar parada eu... Eu trouxe o meu fuxico. E agora eu to fazendo uma colcha para a minha neta, só está faltando uma parte pra acabar. E tem um meio enorme que eu já fiz, assim, um meio pra lá e um meio pra cá. Eu quero fazer é um negócio para botar em cima de uma mesa. Eu quero emendar pra lá, pra cá. E eu to fazendo uma coisa fofa, assim. Depois eu vou te mostrar. Fofa assim, agora a gente bota uma flor aqui em cima e pode botar a toalha de fuxico assim, não é pra cobrir a mesa, é só no meio, entendeu?

 

P/1 – Quem te ensinou a costurar?

 

R – O mundo. Eu costurei em máquina, pra homem, eu costurei tudo. Meu marido só não quis que eu costurasse calça pra homem. Calça não porque tem que medir, né? Ele falou: “Calça, nem vem!”. Mas costurava camisa, cueca, tudo assim. Tudo eu costurava. Depois que eu operei das vistas, de hemorroida, de tudo eu já operei no mundo, viu? (risos)

 

P/1 – E o que a senhora mais gosta de fazer?

 

R – Hoje eu não faço quase mais nada a não ser esse fuxico. É.

 

P/1 – Você vem muito pra São Paulo, pra capital? Passear de fim de semana?

 

R – Não venho, porque eu não enxergo mais. Na hora que eu terminar as coisas de Marcília... Porque eu to fuxicando, to fuxicando, eu não posso ficar parada. Eu lavo uma louça, eu seco, guardo, ajeito tudo, como lá na casa de Getúlio, eu faço café de manhã; quando a Zilma vem, eu já deixo o café da Zilma no bule, já está tudo no cantinho certo. No dia que ele está em casa eu levo e boto todo o café lá, o copinho dele, as coisas todas lá, direitinho, onde ele senta. É assim que eu faço, eu quero agradar todo mundo enquanto eu estiver aqui em cima dessa terra.

 

P/2 – A Zilma mora com vocês?

 

R – Não, a Zilma eu criei, mas ela não mora mais comigo. Ela já tem filho, tem seis filhos, tudo homem! E eu a ajudo de vez em quando.

 

P/1 – Ajuda?

 

R – Porque ela não quis estudar.

 

P/1 – E ela mora onde agora?

 

R – Ela mora lá perto da gente, não é muito longe, não. Mas tem que pegar ônibus pra ir.

 

P/1 – Dona Isolina, a senhora falou de quando a senhora voltou pra Abaíra para rever sua mãe. Você voltou lá de novo depois?

 

R – Não.

 

P/1 – Foi a última vez.

 

R – Foi a última vez.

 

P/1 – A cidade estava muito diferente?

 

R – Estava diferente.

 

P/1 – Como que estava?

 

R – Quando eu vim, a casa de... Espera aí. Eu fui lá de novo, fui sim. Eu fui porque a casa da minha mãe... Espera aí, menina. Eu sei que onde nós trabalhávamos a minha mãe tinha roça, tudo, a casa estava toda lá no pé da serra e eu vi tudo isso. Será que foi na foto?

 

P/1 – Pode ser, será?

 

R – É, porque eu não me lembro mais. Não, eu só fui em Abaíra essa vez. Na Abaíra foi que a senhora me raptou; isso aí você já botou?

 

P/1 – Já.

 

R – Ela me raptou.

 

P/2 – Depois a senhora mandou uma carta pra sua mãe e voltou lá.

 

R – Depois mandei uma carta pra minha mãe, foi. Eu mandei aquela carta pra minha mãe, que quem recebesse aquela carta podia abrir, ler e entregar à dona Josefina. E quando eu fui em Abaíra, a minha filha era pequena, eu levei ela. Tinha (Benjo?) e ela. Eu levei ela, a Alda, que era pequena.

 

P/1 – E desde que a senhora está morando aqui em São Paulo, você já voltou em algum lugar da Bahia, sem ser Abaíra?

 

R – Não.

 

P/1 – Nem Ponto Velho, nem Barra da Estiva, nunca mais foi lá?

 

R – Não, nunca mais fui.

 

P/1 – Você já viajou pra outros lugares do Brasil?

 

R – Já.

 

P/1 – Pra onde você foi?

 

R – Barra da Estiva cresceu tanto que já está perto do rio. Barra da Estiva ficou sem limite. O cemitério ficou dentro da cidade, passam ruas assim e ruas assim. Barra da Estiva. Mas em Abaíra eu não fui mais, não.

 

P/1 – A senhora falou que conheceu Salvador, aqui em São Paulo: São Vicente, Praia Grande... Tem algum lugar que a senhora foi e não falou?

 

R – Não.

 

P/1 – Foram esses?

 

R – É, foram esses.

 

P/1 – A senhora já andou de trem, de avião? Já andou de barco?

 

R – De barco não. Eu não estou me lembrando... Já andei de avião, de trem, de ônibus, de tudo quanto é coisa, mas de barco não.

 

P/1 – E de avião, como é que foi?

 

R – De avião foi bom! Mas acontece que eu não tenho mais coragem porque avião tá caindo muito! (risos). Avião tá caindo muito. Vixi, mas também é por causa da chuvarada, os outros acham que não é, mas é. Olha, aquilo ali é quente. É quente, cai água fria, só pode desmantelar alguma coisa, não pode ser. A chuva vem, bate no avião, como é? Só pode cair uma coisa dessas, não pode dar jeito de não cair, não (risos). De avião eu fui pra Salvador, daqui de São Paulo pra Salvador.

 

P/1 – Dona Isolina, a gente já falou de um tanto de coisas, acho que a gente já está chegando quase no fim da nossa conversa. Tem alguma história que a senhora não contou que quer contar? Tem alguma história que está vindo aí na sua cabeça?

 

R – Não, menina. A minha história foi uma história de luta. A do meu pai eu contei, não contei? Que meu pai veio me buscar, não contei? Que eu não quis ir.

 

P/1 – Com os tropeiros...

 

R – Não...

 

P/1 – Com a esposa dele, por causa da mulher dele, não é isso? Contou sim.

 

R – E que meu irmão foi me buscar e eu não voltei por causa dos tropeiros.

 

P/1 – Também contou.

 

R – E eu estava com quinze anos nesse tempo, e eu não vim. Pois é, isso aí eu já contei.

 

P/1 – Contou.

 

R – E agora... Às vezes uma coisa passa comigo ontem e hoje eu já esqueci.

 

P/1 – É assim, muita história, né? (risos)

 

R – É...

 

P/1 – Eu acho então que a gente vai chegar ao fim e eu vou fazer uma última pergunta, se a Sílvia também tiver... Se a senhora tem algum sonho.

 

R – Sonho?

 

P/1 – Algum desejo, quer alguma coisa?

 

R – Não tenho mais desejo, nem sonho com nada. Só tenho a esperança que o dia que eu botar os pés pra porta, Deus tenha misericórdia de mim e de todos nós. Não é? De todos nós. Porque na Bíblia fala que o mar vai ainda tomar a terra e eu não quero estar viva nesse tempo, não quero mesmo. Portanto (risos), não sei se é verdade isso, mas dizem que o mar ainda vai revoltar, como diz a cantiga: “Ó Mestre, o mar se revolta”. Portanto, eu não sei. Meu Deus, eu não quero ver isso, não quero. Que no tempo de Noé, a arca de Noé enganchou em cima. Na serra, foi quando Moisés... Moisés nasceu lá na coisa e foi escondido pra ninguém... Botaram dentro da cesta porque o faraó disse que todo homem que nascesse era pra matar, então, botaram Moisés em uma cesta e a filha do faraó achou e criou Moisés (risos).

 

P/1 – Outras tantas histórias.

 

R – Isso daí é uma história bíblica, isso aí não...

 

P/1 – Adilson, Silvia, querem perguntar alguma coisa?

 

P/2 – Não.

 

P/1 – Então, eu vou agradecer muito a sua presença aqui, muito obrigada, foi uma delícia ouvir as suas histórias. E pra finalizar a gente pede, de novo, pra senhora falar o seu nome completo, o seu aniversário e se você quiser falar alguma frase curta da sua vida.

 

R – Isolina Miranda Santos, primeiro era Oliveira, mas depois que eu casei, o Santos é do meu marido, então, ficou Santos. Isolina Miranda Santos. Dia 25 de maio de 1925. E meu marido era de 1922.

 

P/1 – Então, é isso dona Isolina.

 

P/2 – Obrigada, foi uma delícia.

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