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História

Amor e agregação

História de: Paulo Sandro Verlings da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/10/2012

Sinopse

A família de Paulo Verlings é do interior do estado do RJ. Ele nasceu em São João de Meriti e viveu numa casa bastante movimentada, brincou de pipa, bola de gude e pião. O acidente ocorrido com seu pai desencadeou alguns problemas financeiros na família, obrigando-o, por tais circunstâncias, a trabalhar desde cedo. Ainda bem jovem, decidiu ser ator, logo depois que assistiu a uma peça de teatro com o colégio, essa vontade o impulsionou. Em seu depoimento, Paulo fala da realidade de morar em favela e como isto está presente na série Suburbia. Teve formação religiosa, a mãe era do candomblé, mas hoje não pratica. Na escola Martins Pena teve bons professores que se tornaram companheiros de trabalho. Fez algumas peças antes de fundar sua própria companhia de teatro, atuante até hoje. Paulo interpreta o personagem Lila em Suburbia.

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História completa

Eu cresci em favela, então acho que a gente fica muito solto. Era bola de gude, pião, pipa. A gente brincava muito de chumbinho, de polícia e ladrão, e chegava todo roxo em casa do chumbinho que batia na pele. Pique esconde, pique-bandeira, isso tudo a gente brincava. Eu tive uma infância muito divertida, mas sofrível também porque infância de favela... Você vê os seus amigos entrando pro tráfico, desde sempre você vê os caras armados, vê os viciados subindo a favela, desde que você se entende por gente. Favela tem essa coisa muito precoce, as coisas acontecem muito rápido, porque você fica muito na rua, então você não fica no controle dos pais. Mas eu não sou muito da lamúria, eu acho que a vida não me deve nada. E tô aqui, eu trabalho, eu sou um cidadão digno, então eu acho que tive a oportunidade de estudar, e acho que a vida não me deve nada, mas quando você vê o todo você realmente vê que é um universo sofrível, muito árduo.

Quando eu tinha oito anos de idade, meu pai teve derrame com trombose, acidente cardiovascular, e paralisou o lado esquerdo todo e é deficiente físico até hoje. Meu pai ficou três anos internado e depois de três anos ele voltou pra casa. Quando o meu pai ficou doente a gente passou um perrengue muito forte financeiro porque o meu pai tinha uma estrutura, era o provedor da casa, e tinha um salário na carteira e tinha um salário por fora, de produtividade. E o salário dele na carteira era muito pequeno, então quando ele adoeceu ele foi aposentado por invalidez. Isso desestruturou tudo! A gente sempre foi pobre, mas sempre teve dignidade, de comer e de poder fazer as coisas, e aí quando o meu pai adoeceu foi seis meses de perrengue total. A gente comia canjiquinha com broto de abóbora que catava na casa do vizinho. O meu pai ganhava um salário mínimo de aposentadoria pra sustentar eu, minha mãe e minha avó, os quatro na casa, por isso que eu tive que começar a trabalhar cedo, pra poder ajudar em casa. E aí a minha mãe era a chefe da casa, e ela morreu eu tinha 15 anos, e isso deu uma degringolada muito forte. Eu vendia rosas parafinadas de papel crepom, que a gente na verdade terceirizava essas rosas e eu vendi com o meu primo, que na verdade era o meu irmão biológico. A gente saía junto e vendia, passava por Bom Sucesso, Ramos, Penha, Olaria, Pavuna, numa noite inteira, pelos bares. Era uma rosa que faziam de papel crepom e parafinavam. A gente jogava essência. Era uma coisa bem bonitinha, cafona, rosinha. Eu tinha 13 anos e a gente trabalhava toda sexta e sábado.

Eu comecei a fazer teatro com 13, mas eu decidi ser ator com 15. Com 11 anos de idade eu fui a primeira vez ao teatro em São João, num projeto escola, que fui assistir Os Três Porquinhos e eu queria estar ali. Eu fiquei com aquele desejo, e comecei a fazer teatro na igreja, fazer Via Sacra, e com 15 anos de idade eu fui fazer um curso de teatro. Eu já queria muito ser ator. Eu nunca almejei: “Ah, eu quero ser um advogado, um engenheiro, médico”. A minha mãe super me incentivou nesse sentido, e logo depois ela morreu, mas eu tive esse aval dela. E com 18 anos eu entrei na Escola de Teatro Martins Pena, que é a escola de teatro mais antiga da América Latina. E aí com 19 eu tive que optar: ou eu continuava no trabalho ou eu continuava na Martins Pena.

E aí eu optei por sair do trabalho e começou a loucura que você tem que entender como é que você vive disso. Comecei a animar festa, fazer projeto escola, teatro empresa e vim morar no Rio de Janeiro, fui dividir apartamento com os amigos. O “Cachorro” de fato foi o meu primeiro trabalho profissional como ator. E eu devo muito a esse espetáculo, eu devo a minha vida a ele, minha sobrevivência. A gente viajou os 27 Estados do Brasil fazendo os trabalhos. Pisei em lugares do Brasil que eu jamais pisaria. E essa série Suburbia é um presente enorme, e tem uma realidade incrível que a série discute: o amor e a agregação. E eu acho que o Lila tem esse jeitinho brasileiro que é de lidar com as coisas, de estar nos lugares, saber quem é quem, mas também ta de fora, ele não se envolve com os caras do tráfico, e isso é legal. E eu tenho muita cena de baile e frequentei muito baile funk. Eu ia escondido aos bailes. É um barato ver as músicas que são muito da época. E o contexto familiar, muita bagunça, comida, gritaria, algazarra, mas todo mundo se ama, todo mundo se ajeita. Essa coisa é subúrbio demais. Acho que é o maior barato da série, agregar uma menina que vem do nada, que chega do nada. Mas é amor... A série não cai nessa coisa piegas, mas também não cai no fatídico. Ta ficando linda demais.

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