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História

Anjos caídos também voam

História de: Kleber Atalla
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/10/2017

Sinopse

De seu cotidiano, fazia parte o contato com a terra, subir em árvore, a inseparável bicicleta, os cavalos e o colégio de freiras, onde estudava. Vindo para a Capital, passou a ter uma vida, digamos, mais urbana e mais problemática. De problemas que ele próprio criava. Do pai, guarda a imagem da pessoa rígida, austera, mas honrada e trabalhadora. As recordações que tem da adolescência são, em geral, amargas. Nessa etapa de sua vida enveredou por caminhos à margem da correção, da responsabilidade e do aceitável. Na verdade, uma série de ações erradas, causadoras de prejuízos, desgostos e vergonha para a família. Indaga-se, hoje, se não teria contribuído, ainda que involuntariamente, para o aparecimento da doença que levou seu pai à morte.  Em seguida a essa morte vem um aprofundamento de seu envolvimento com as drogas. Vem, também, o casamento. Nada se sustenta, contudo, em sua tentativa de levar uma vida normal, sob o peso das drogas. A cocaína o leva a se desconstruir, à perda de identidade e, por fim, à prisão. O apoio da primeira esposa e do amigo - e depois patrão - Alexandre Chorão, da banda Charles Brown Jr. impede a sua total destruição. Ao contrário, são, a longo prazo, esses apoios, o que lhe permite redimir-se, dar a volta por cima, recuperar a dignidade, a ponto de ter acompanhado, inteiramente sóbrio, ao inferno astral do amigo, tendo sido, inclusive, a pessoa que o localizou, infelizmente, morto. Há 25 anos livre das drogas, permitiu-se alçar voo solo, renascer como uma Fênix e ter hoje quase um milhão de seguidores no You Tube, além de um patrimônio material. E o mais importante: novos apoios e novos fãs - a segunda mulher e os enteados.

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História completa

Eu hoje conto a minha trajetória de vida como um alerta aos que vieram depois de mim e que, como eu - cada qual por diferentes razões - se perderam. Alerta no sentido de que temos que ter prudência e equilíbrio ao fazermos nossas escolhas, ao usarmos nosso livre arbítrio. Caso contrário, o risco que corremos - e eu digo isso por experiência própria - é o de cairmos do paraíso para o inferno. E o que é pior: em geral, só nos damos conta de que estávamos no paraíso quando mergulhamos no terreno pantanoso do sofrimento.

 

Nasci no dia 13 de junho de 1961, na cidade de São Paulo. Meus pais sempre foram muito preocupados com nossas necessidades básicas e, particularmente meu pai, foi um cara que não mediu esforços para nos dar bom estudo e enfim, prover a sua família. Todavia, tenho lembrança de uma criação bastante rígida, pelo menos para os tempos de liberalização que estávamos vivendo nos anos 70. Talvez isso explique uma certa revolta que eu sentia, e até os descaminhos por que enveredei, de envolvimento com as drogas e seus subprodutos, crimes a elas relacionados. Hoje, tendo feito o caminho de volta, tenho a consciência de que estive muito perto da destruição, assim como do quanto magoei minha família, em especial o meu pai. A ponto de me questionar se não acelerei, involuntariamente, a perda dele.

 

Mas, voltando um pouco, trago lembranças muito boas da infância vivida numa chácara da família, em Suzano. Subia em pé de jabuticaba, andava de bicicleta o tempo todo, tirava cenoura da terra, essas coisas. Tinha uma casa grande, um estábulo - mais tarde, meu pai e meu avô tiveram cavalo no Jóquei - e lá plantava-se praticamente para o consumo da família. Outras lembranças são o colégio de freiras, onde eu estudava, e as vezes em que me escondi na kombi do meu pai quando ele vinha a São Paulo e não queria me trazer. Não sei como, ele sempre conseguia me descobrir.

 

Aí, viemos para São Paulo: a chácara foi vendida e partilhada. E começaram os desgostos para a minha família, que eu dei, um atrás do outro, em particular para o meu pai.


A primeira confusão, digamos assim, foi mais uma traquinagem: eu consegui surrupiar um ônibus que estava no pátio da escola, enchi de criança e fomos “dar um rolê”. Eu tinha só doze anos; quase, quase fui expulso. Depois, no entanto, a coisa ficou mais séria: com quinze anos entrei em coma - fui deixado na porta de casa por colegas - após ingerir álcool e remédio para emagrecer, quase uma overdose. Mas foi no próprio colégio - no colégio de freiras em que eu estudava, já aqui em São Paulo - que eu comecei com as drogas. Primeiro, um “baseado” inocente; em seguida, os químicos (remédio para emagrecer e cheirando benzina). Até chegar à cocaína, ponto de partida de uma destruição só.

 

Por outro lado, há muito me acompanhava um sentimento de revolta por não ter um carro. Praticamente todos os colegas da minha idade - ainda que fossem menores de idade - já dirigiam o seu próprio carro, dado pela família. E meu pai, naquela retidão dele, até podia mas não me dava um carro. Foi aí que me envolvi com assaltantes de banco - dirigia para eles - e acabei sendo denunciado. Para não ser preso, meu pai entregou um apartamento da família. Por isso que eu digo: foi muito desgosto, muito. Não sei se interferiu na doença dele, devastadora. O fato é que, com a morte dele, era como se eu não tivesse mais um freio para minha descida: passei a entrar pesado nas drogas. A cocaína acabou comigo - ou com o que ainda restava. Perdi minha identidade, a dignidade, por pouco não perdi a vida num acidente de moto. E, em meio a tudo isso, casei-me.

 

Estou no segundo casamento, mas reconheço que dei muito trabalho à minha primeira esposa. Que me apoiou demais, foi companheira, compreendeu e aceitou o que talvez outra pessoa não aceitasse. Também fui parceiro, não há dúvida. Mas o casamento tinha uma dinâmica muito louca e a droga atrapalhava muito, também. Já casado, envolvi-me com pessoas erradas e situações bastante adversas, e acabei preso. De 1999 a 2003 - quatro anos. Quem me ajudou muito, mas muito mesmo nessa época, foi o Alexandre Chorão, da banda Charles Brown Jr. Ajudou-me durante a prisão e no difícil recomeço, quando eu saí. Trabalhei com ele durante 12 anos. Acompanhei toda a sua trajetória, com altos e baixos, ascensão e queda, seus momentos de glória e de desgraça. Até o fim. Eu - o destino quis assim - fui a pessoa que o encontrou, morto, na cozinha de seu apartamento. Eu era o seu motorista - da mulher dele, e depois dele - seu amigo, a pessoa com quem ele desabafava, com quem ele brigava, para quem ele ligava de madrugada e, não obstante, às vezes me mandava calar a boca e me colocar em meu lugar. Foi o cara que viu valor em mim, quando eu comecei como youtuber, que me elogiou publicamente, e a quem ele xingava quando eu pedia para ele não ceder às drogas. Porque, nesse momento, eu já estava fora delas. Na verdade, faz vinte e cinco anos que eu não uso drogas - nem vou usar, nunca mais. Estive presente no auge da carreira do Chorão e presenciei o seu declínio; acompanhei a sua vitória e a sua derrota. Vivi, ao seu lado, a fortuna e o infortúnio, as muitas voltas por cima, outras tantas quedas, o seu reconhecimento público e o seu descontrole absoluto, a ponto de quebrar suítes de hotel, completamente. Amarguei, sem abandoná-lo, a sua crescente destruição nos dois últimos anos de vida.

 

Hoje, no segundo casamento, curtindo intensamente a condição de pai - não tive filhos no primeiro - através de meus enteados, tenho um canal no You Tube em que filmo e exibo minha rotina, minhas loucuras, enfim, passo minha mensagem. E daí a coisa evoluiu, tenho quase um milhão de inscritos, parti para o e-comerce, inclusive com lojinha física subsequente. Posso dizer que o final dessa história está sendo feliz. Recuperei minha identidade. Tenho fãs, e os mais importantes são minha mãe, minha mulher, meus enteados. E meu sonho é ser, no futuro, exatamente o que sou hoje.


 

Editado por Paulo Rodrigues Ferreira

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