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História

"Antes era só tristeza, agora quero só alegria"

História de: Jane
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/08/2019

Sinopse

Jane passou dificuldades na infância, mas foi na adolescência, quando foi expulsa de casa pelo padrasto, indo morar com o tio e tendo sido abusada e espancada por ele, que a situação foi mais difícil. Mesmo voltando para casa, ainda com muita dificuldade financeira, precisou se prostituir. Jane encontrou uma oportunidade de melhorar de vida no Projeto ViraVida, onde estuda e faz cursos profissionalizantes. 

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História completa

Meu nome é Jane, eu nasci em Rondônia, em 1993. Tenho cinco irmãos, contando comigo somos seis. Na minha infância a minha mãe não trabalhava e cuidava da gente e só o meu pai que trabalhava. Nessa época nós passamos dificuldades também, mas… é... alimentar. Na época a gente foi morar em outra cidade, meu pai tinha passado no concurso, aí ele... a situação tava meio precária, né, que era começo de posse dele e isso com seis filhos para criar. A gente passou muita  dificuldade, tinha necessidade de comer certas coisas e não podia.

 

Quando criança eu ia tomar banho no igarapé, no rio. Era isso que a gente gostava de brincar, puxar, tinha uma corda a gente pulava no rio, só. Brincar de… ah, brincadeira normal, amarelinha, essas coisas assim. Na época eu queria ser jornalista, tinha vontade de ser jornalista. Agora mudou minha meta, agora eu quero ser outra pessoa, estudar Serviço Social.

 

Eu comecei a estudar com seis anos e eu gostava, das brincadeiras e tudo mais. Teve uma época que eu parei a escola, porque eu tava fazendo um curso e tava muito puxado, tinha momentos que eu ia de manhã e tinha que ficar à tarde, eu estudava de tarde, aí por isso que eu desisti, mas aí eu consegui recuperar.

 

Já um pouco mais velha, meus pais se separaram e eu comecei a passar dificuldade, brigava com meu padrasto, meu padrasto me expulsava de casa. Teve um momento que eu confiei no meu tio e ele tentou... tinha certas intenções. Confiei demais nele e fui espancada por ele, batia em mim, sei lá, queria fazer certas coisas. Aí eu denunciei, daí em diante entrei no ViraVida. Teve momento que eu tive que vender o meu corpo também.

 

Sobre o meu tio eu contei para a minha mãe. Na época meu padrasto falou para mim sair de casa. Eu tinha ido viajar e aí quando cheguei meu padrasto falou para eu sair de casa. Eu saí, peguei minhas coisas, fui morar com o meu tio. Daí em diante, daqui uns quatro, cinco meses, ele começou a se revelar para mim, me espionava na fresta do banheiro, quando eu assistia televisão ele mudava, botava filme pornográfico para eu assistir. Tinha vez que eu ia para a escola ele me levava e passava a mão em mim. O período foi na época de quinze anos, mais ou menos, quinze para dezesseis anos.

 

Quando ele fazia isso eu sentia nojo. Tinha vez que eu queria contar para a minha mãe, mas não tinha... Porque eu tinha saído de casa e tinha certa vergonha de falar para ela, comentar isso. Eu tive coragem quando ele me espancou, me bateu mesmo, bateu para valer. Meu corpo ficou cheio de hematoma, aí não tinha jeito, aí tive que falar para a minha mãe. Minha mãe me levou para a delegacia, para denunciar ele.

 

Quando minha mãe ficou do meu lado foi confortável, né, porque eu pensava que eu tava sozinha nessa coisa que havia acontecido, aí ela tava comigo, sempre do meu lado. Daí em diante começou a mudar um pouquinho. Precisou disso para eu poder voltar para casa, mas agora tão com olhares diferentes, agora estamos aí, unidos para o que der e vier.

 

Quando eu precisei vender meu corpo, aconteceu que eu tava passando necessidade, precisava de roupa, calçado, até para eu consumir alimentação também, que às vezes eu queria comer alguma coisa que não podia e aí o dinheiro dava. Foi por causa disso que eu fiz, precisa de dinheiro para comprar roupa, calçado etc, entendeu? Aí fui dormir na casa da minha amiga e ela falou que conheceu um cara que queria fazer relação para pagar. Aí fui, topei, tava precisando.

 

Eu fiquei assustada, porque não era para eu ter feito, né? Tipo, eu senti na obrigação de fazer isso, mais ou menos, pressionada, foi muita pressão. A minha amiga também tava lá comigo, só que… é complicado, nunca a pessoa quer fazer isso e eu acabei fazendo, né? Mas depois me senti suja, que não era para mim ter feito isso. Eu pensei na minha mãe, se a minha mãe soubesse, o que é que ela ia fazer comigo, entendeu? É… triste.

 

Eu fiz isso só mais umas cinco, seis vezes, com a mesma pessoa. Queria fazer, eu ia com ele, ele ligava e aí marcava o dia para a gente sair, a gente saía. O local, horário, normal. Aí a gente ia lá pro motel, só. Eu não pedia o valor, não. Ele que me dava o valor, né? Tinha vez que dava trezentos, quatrocentos, tinha vez que dava cem. Esse valor, mais ou menos isso. Mas daí eu entrei no projeto e acabou, não precisei fazer mais.

 

Eu fiquei sabendo do Projeto através da minha psicóloga do Creas [Centro de Referência Especializado de Serviço Social]. Eu tava precisando trabalhar, aí ela falou assim: “Eu vou encaminhar você para um projeto que tá tendo, que tem, dá bolsa de estudo, dá vale transporte, alimentação, dá dinheiro também”. Aí eu fui e topei. Fui direitinho, fiz a inscrição, legal. Agora tô ajudando em casa, o que a minha mãe precisa eu dou. Já tô terminando meus estudos, o curso tá acabando também. Vou ser encaminhada pro mercado de trabalho, e era o meu sonho trabalhar, ganhar dinheiro bem razoável também. Só isso mesmo.

 

Quando entrei eu não fiquei com medo não. Eu senti, ah, senti acolhedor, né? Pelos técnicos, pelos alunos. A maioria dos alunos tem quase o mesmo, passou pelo mesmo processo que eu, alguns quase a mesma história, quase a mesma vida, e eu senti que lá é o lugar certo, né, que eu pudesse estar, que eu precisava ir contar com eles, e eles tão lá para me ajudar.

 

Antes eu ia para festa, balada, beber, essas coisas assim, mais ou menos de adolescente, que já mudou já, drogas eu nunca usei. Eu já parei de ir para festa, paro mais em casa. Antigamente não parava em casa, saía direto, agora tô mais, digamos, caseira. Agora estou mais mulher, mais madura, que vê uma coisa e vê que é um erro, vai lá e sai do caminho do erro. Tô mais bem de cabeça, né, mais responsável. Até minha mãe pede conselho para mim, em vez de eu pedir conselho para ela. É, já mudei em casa também, nos ambientes que eu vou eu já mudei muito, entendeu? Agora eu vejo que isso aqui não é para mim, entendeu? 

 

Se eu pudesse mudar alguma coisa do passado, não teria feito isso, vendido o meu corpo. Se eu voltasse de novo eu não queria ter saído de casa, teria obedecido o meu pai, a minha mãe, e daria mais valor para eles, se eu pudesse voltar atrás. Se for para dar um conselho para eles, para quem está igual a mim, falo para saírem dessa vida, né, que isso não leva a nada... e para darem mais valor pras pessoas que estão ao seu lado, seus pais, suas mães, seus irmãos, parentes...

 

Hoje meu sonho é fazer concurso, ou da PM ou Civil. Passar, né, que se Deus quiser... Fazer faculdade, e ter uma casa própria, esses sonhos assim, mais ou menos. Viajar muito, conhecer o Brasil todo. 

 

Antes do ViraVida eu não dava valor na vida, via a vida de maneira diferente, e agora que eu entrei, agora eu tô vendo, mudou mesmo. Aí tá dizendo ViraVida, já mudou, começou a mudar minha vida, já mudou muito já. Eu nunca tinha viajado, já viajei pelo projeto, já representei Rondônia em outros Estados, já fiz tantas coisas que eu até me orgulho de mim mesma, né? A Ana falava também: “Vai lá, consegue”. Eu tô aí. E eu tô contente com isso, eu espero que a vida de agora em diante seja de muitas mudanças também, agora que tá uma correria, que quero terminar e fazer faculdade. É isso aí agora, quero vencer. Antes era só tristeza, agora quero só alegria. Só alegria tá bom.

 

“Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações”.

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