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Apesar de ser do Egito, eu sou ashkenazi e não sefaradi

História de: Rosie Kriszhaber
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/10/2013

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Meu nome é Rosie Kriszhaber, eu nasci no Egito, no Cairo, em 20 de março de 1940. Apesar de ser do Egito, eu sou ashkenazi e não sefaradi. A maioria dos judeus no Egito eram sefaradi. O Cairo era uma cidade muito bacana, muito limpa, tinha muita vida cultural porque vinha óperas da Itália, Comédie-Française da Itália, balé. Meus pais tinham assinatura lá, a gente via tudo, cinema. Meus pais não falavam muito da guerra e a gente só esperava que acabasse tudo. Porque não se sabia muito o que estava acontecendo lá, era só o rádio, não tinha televisão na época. Então a gente sabia que estava acontecendo uns horrores na Alemanha, mas a gente não sabia exatamente o que era. A gente só esperava que acabasse e a gente voltasse à vida normal. Pra mim era engraçado ter que descer todas as noites no abrigo, ficar lá esperando. Aí depois eu só ficava com medo das bombas, e acho que eu ficava com medo de uma bomba cair no prédio e acabar com a gente. Mas a gente não sabia exatamente, como criança eu não sabia muito como acontecia, provavelmente os meus pais não queriam falar muito pra não me assustar. Meu pai trabalhava, tinha um ateliê, ele preparava, vendia ainda. Quando houve então o ataque e aquela guerra grande, aí papai teve que fechar, não podia mais trabalhar porque como judeu não podia mais trabalhar lá e nós fomos mandados embora. Eu estava16 anos. Aí comecei a preparar toda a documentação, as coisas todas. Meu pai não conseguiu vender nada porque ninguém comprava e não podia vender nada de casa, tínhamos que deixar o apartamento com tudo lá dentro. E uma coisa que me magoou muito, que eu tinha pego todos os meus discos que tinha e tudo ia pra censura, e eles ficavam com todos os meus discos, não me deixaram levar nenhum. Eu queria começar a brigar e meu pai disse: “Fica quieta. Quieta, nós estamos saindo com vida, graças a Deus. Então não inventa”. Primeiro a gente pegou um navio grego porque não tinha um navio que ia direto, então a gente pegou um navio grego super lotado, todo mundo saindo. A gente parou em Pireu, a gente não conseguiu descer porque não tínhamos passaporte. Nós viemos com um papel dado pela Cruz Vermelha, que se chama salvo-conduto. E aí eles diziam, qual era a nacionalidade, apátrida, eles ficaram com a nossa nacionalidade egípcia. Quando chegamos aqui foi muito bonito porque nós chegamos de noite, e chegar no Rio de Janeiro de noite é a coisa mais linda! Não tinha ainda a ponte Niterói, mas você via toda a Baía de Guanabara iluminada. Nossa, foi lindo, lindo, lindo, lindo. Foi muito bonito. Aqui eu casei. Meu marido tinha um escritório de representação de brinquedos. A minha mãe gostou muito dele. Ele era filho único e também passou pela guerra porque ele era húngaro, saíram de lá depois do Holocausto e vieram pro Brasil. Eu perdi o primeiro numa gravidez tubária, e depois eu tive uma menina e um menino. A minha filha agora tá com 38 e meu filho com 36. Meu marido era muito europeu, húngaro, e ele sentia muito calor, muito calor, estava muito quente no Rio. E depois ele tinha já um escritório lá e pediram pra ele montar um escritório aqui pra também representar as diversas fábricas aqui. Então, ele veio primeiro e nós ficamos no Rio. Aí as crianças começaram a ficar com saudade porque só viam ele no fim de semana e acabamos mudando pra São Paulo. Eu conhecia São Paulo, mas conhecer São Paulo de visita e morar é diferente, sente muita falta da praia. Minha irmã ficou no Rio, minha prima ficou no Rio, então sentia muita saudade. Mas a gente ia, passava lá as férias com as crianças, mas a princípio foi difícil pra mim Depois fui pra um escritório de representação, fiquei lá nove anos também. E depois eu fui pra Souza Cruz, onde eu trabalhei quatro anos, e da Souza Cruz eu fui pra Klabin. Sempre como secretária.Entrei no Chemical, fiquei lá cinco anos; do Chemical eu acabei saindo e fui pro Banco Chase porque um dos diretores do Chemical foi pra lá e me chamou. Aí fiquei no Chase. Do Chase eu saí porque me chamaram pra ir trabalhar numa empresa que era os Elevadores Schindler.Um dia alguém me liga dizendo se eu conhecia uma secretária pra trabalhar para o ex-Ministro de Agricultura Pratini de Moraes. Eu digo: “Eu!”. Aí eu fui, fiz a entrevista com ele, ele trabalhava numa empresa chamada Abiec, onde a Leslie também trabalhou. E eu fiz a entrevista com ele, ele me aceitou, pedi demissão na outra empresa, comecei a trabalhar com ele e depois nós fomos pra JBS, e trabalhei lá até o ano retrasado. E acabei, agora não estou mais trabalhando Meu desejo é ver meu filho bem casado, feliz. E a minha família feliz e ver meus netos felizes e com saúde. Então é isso que eu quero. E ver paz no mundo, que isso eu acho difícil, mas eu espero que a gente possa ter paz.  

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