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História

Aprendendo com a preservação cultural

Sinopse

Em São José do Rio Marau, município de Maués, no interior do Amazonas, nasceu Euro Alves, da etnia Sateré-Mawé, em 10 de abril de 1977. Desde o nascimento tem um histórico de dificuldades e de superação. Lembra, com saudades, dos avós que o criaram. O cuidado do avô que caçou e pescou para alimentá-lo, para criá-lo. Lembra do riozão e das flechinhas que o avô fazia e ele no mato, de cima da canoa, flechando. Lembra de quando era “um curumim sapeca e danado” que já pescava, caçava como gente grande para ajudar no sustento. Lembra também que vieram as responsabilidades, os sonhos, as lutas e as conquistas. O casamento aos quatorze anos; professor aos dezoito; os desafios para se formar; o desejo de seguir em frente com a educação sempre fazendo a diferença em sua comunidade. Foi assim enquanto estudante, no ensino fundamental e no médio, como professor, como gestor de escola, no Igarité e no seu protagonismo para a preservação da sua língua e da sua cultura.

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História completa

Sou do interior do estado do Amazonas, nasci no município de Maués, na comunidade de São José do Rio Marau, em 10 de abril de 1977. Sou da etnia Sateré-Mawé; e me chamo Euro Alves. Meu nascimento está associado a uma história muito triste, posto que a gravidez não planejada da minha mãe representou uma grande decepção para o meu avô. Esse mesmo avô, que viria, mais tarde, a me criar, a cuidar de mim, tornando-se meu pai.

 

Esse homem que reagiu tão mal à maternidade precoce da filha, foi, na verdade, o primeiro pai da comunidade que mandou os filhos para a escola. Assim, minha mãe tornou-se professora pela missão e eu fui entregue aos meus avós. Lembro da alegria quando, uma vez por mês, ela chegava de longe e do meu desespero quando ela novamente partia.

 

Da infância lembro de pescar e caçar para ajudar no sustento da casa. E das flechinhas que meu avô preparava. Eu em cima da canoa flechando bicho, flechando pássaro. Eu era tímido, isolado das outras crianças, mas era considerado um “curumim sapeca”. Aos sete anos, eu fui para a escola. Era curioso porque tínhamos uma professora da cidade e não da etnia, que dava aula para crianças que não entendiam português.

 

(...) a gente aprendeu mesmo na marra! (...) lembro muito bem de que para aprender as vogais levei umas pontadas de caneta da professora.

 

Hoje como gestor de escola, ontem como professor indígena e professor presencial do Igarité, como o Telecurso é chamado no Amazonas, minha meta é uma educação que não ensine por ensinar, que considere a língua e a cultura local. Uma escola que não desista dos seus estudantes. Motivá-los em sala de aula é um desafio que me imponho diariamente. Partindo da valorização da comunidade, da importância do estudo para inserção do indígena no mundo, na sociedade e na tecnologia. Assim refletimos sobre a cultura instalada de que a educação escolar indígena é um desperdício e o que vale a pena aprender é exclusivamente a pescar, a caçar e a cuidar da terra. 

 

Quando uma moça queria namorar com um menino que estudasse, os pais diziam: “Olha, você quer comer papel? Então, fique com esse menino”.

 

A educação escolar indígena deverá ser uma aliada para que a cultura local não se perca. Hoje tenho a consciência de que para chegar aonde eu cheguei, eu tive que construir a minha própria caminhada na educação, preservando tudo que aprendi com o meu avô vivendo em nossa comunidade. Saí em busca dos estudos, mas sem abrir mão da minha cultura original, que eu chamo de “essência cultural”. E assim me tornei professor, e hoje sou gestor escolar. Passei por dificuldades que fizeram da minha história um exemplo e também uma inspiração. Sou identificado com a minha comunidade, minha cultura, minha tradição. Falo, além do português, a língua de origem, o Sateré; domino a pesca, a caça, o artesanato e assim preservo, em vários aspectos, as minhas raízes.

 

Sempre tive uma noção muito clara do que a educação representa: é essencialmente um fator de integração, ou seja, uma maneira de incluir pessoas no mundo real, do dia a dia, das cobranças e desafios. E a partir dessa concepção de educação, a minha idealização de escola, principalmente no nosso caso, no caso de uma etnia que tem a sua própria linguagem e os seus próprios hábitos, seria uma escola em que o professor fosse falante da língua de seus estudantes, porque para mim a alfabetização tem que ser na língua materna. Tem que ser valorizada a tradição.

 

Com muita determinação e vontade de chegar aonde eu queria, passei a frequentar a escola São Pedro, dos padres da missão católica de Parintins, onde eu fiquei afastado da família por um ano inteiro. Um ano de tantas necessidades que quase desisti. E só não o fiz em virtude do apoio, e da solidariedade de um mestre amigo e quase um pai para mim.

 

Minha mãe me levou e me matriculou nessa escola muito longe (...), tivemos que caminhar mato a dentro para varar para o outro rio e dormir no meio do mato.

 

Depois de um ano, voltei para a comunidade. Mais um desafio para continuar os estudos. Teve o casamento dentro da tradição, teve resistência da família, mas teve, também, um projeto para a formação de professores. Com dezoito anos comecei a dar aula e concluí o ensino fundamental nesse curso. Depois fiz a complementação - o sétimo, o oitavo e o nono anos, e em seguida o ensino médio. Assim com eu, hoje tenho estudantes que já concluíram a faculdade. Passei a dar aulas na comunidade para outros curumins e realizei um projeto para a produção de materiais didáticos na língua Sateré. Inicialmente fui professor presencial no projeto Igarité, cuja função era de mediar a interatividade por meio da Metodologia Telessala. Posteriormente, com a introdução da língua materna no currículo do projeto, passei a ser professor da referida disciplina.

 

Hoje, como gestor escolar, procuro incorporar ao meu trabalho todo o aprendizado resultante da minha história, que inclui a experiência vivida no Igarité.

 

Na minha colação de grau (...). Peguei aquele papel, chorei muito e a emoção tomou conta de mim.

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