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"Aquilo não era vida, não"

História de: Josué
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2019

Sinopse

Josué nasceu em Minas Gerais e tinha uma boa relação com a família, até que os pais começaram a brigar muito e acabaram se separando. Josué foi então morar com a mãe, que se prostituía e ensinou o filho a fazer o mesmo, para conseguir dinheiro. Depois de vários episódios de violência e abuso sexual, e uma mudança de cidade, Josué acabou indo para Brasília, onde se prostituía e usava drogas, até encontrar um abrigo e pessoas que o ajudaram a sair dessa vida. Do abrigo foi encaminhado para o Projeto ViraVida, onde hoje vê um futuro possível. 

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História completa

Meu nome é Josué, nasci em Minas Gerais em agosto de 95. Meu pai trabalha numa empresa, só que eu não sei muito bem no quê. A minha mãe eu não tenho contato com ela mais não, não sei onde ela foi, onde ela está. Eu tenho três irmãos. 

 

Eu gostava da minha avó, dos meus pais, dos meus irmãos, dos meus tios. Só não gostava, não gosto ainda, do meu avô, que já fez muita coisa comigo, é preconceituoso. E lembro da minha mãe também, ela me batia e eu me lembro de coisas que ela me fazia, mas dela eu não tenho raiva.

 

A família era unida, só que com o passar do tempo, não era mais, aconteciam outras coisas: brigas demais entre a minha mãe e meu pai, meu avô com muito preconceito. Meus pais se separaram e eu fiquei dividido entre a minha mãe e o meu pai, porque ele morava num lugar e ela morava em outro.

 

Antes da separação, tinha tipo um padrasto meu, minha mãe ficava com ele quando o meu pai ia pra São Paulo a trabalho. Uma vez, minha mãe foi na padaria comprar pão e meu padrasto abusou sexualmente de mim, fez umas coisas comigo, que eu não esqueço mais. Eu ficava com medo de contar para a minha mãe e a minha mãe ficar agressiva comigo, porque era o homem que ela ficava. Teve uma vez que eu fiquei assim e contei para ela, ela foi e terminou com ele. Aí não teve contato nenhum com ele mais por isso. Ele sumiu, eu nunca mais o vi, mas eu não esqueço mais o que ele fez comigo não, não esqueço não.

 

Como minha mãe não tinha condição financeira boa, se prostituía. E ela me ensinou desse jeito e eu comecei a me prostituir também. Meu pai nem sabia que ela fazia isso, só desconfiava que eu estava fazendo. Até que teve uma vez que eu não aguentei mais, falei para minha mãe que eu não aguentava. Ela me agrediu, falou que eu não prestava, que era ela que estava me ensinando a ter dinheiro. Ela me deu uma queimadura por conta disso. Quando ela me deu essa queimadura, eu fui para casa do meu pai. Meu pai viu essa e foi pro Conselho Tutelar denunciar. Ela conseguiu de novo a minha guarda, porque o meu pai tinha a guarda provisória. Eu não queria ficar muito longe da minha mãe, aí eu fui morar com ela, ela me queimou de novo quando eu voltei. Aí eu comecei a ficar me prostituindo com ela, a minha vida desandando. Foi quando ela decidiu ir para uma cidade em Goiás com um cara que ela estava ficando e eu fui junto com ela.

 

Eu não gostava de estar com ela nessa profissão, mas também eu não queria ficar longe dela. Era difícil, era ruim, mas eu olhava pros meus irmãos e falava: “O que meus irmãos vão comer?” Eu não me preocupava nem muito comigo, me preocupava mais com os meus irmãos, com a minha irmã. A única coisa que eu tinha pra fazer era isso, aí eu fazia. Não era coisa boa, não era o que eu queria para mim.

 

Aí, chegando na cidade, não sei se ela foi presa. Quando eu estava com ela, eu estava fora da casa onde a gente estava morando e esse cara que estava ficando foi preso, chegaram duas, três viaturas, pararam e levaram ela e ele. Aí eu olhei: “Só pode ter sido preso, né.” Aí eu fiquei perdido lá, como é que eu ia fazer? Fiquei perdido, sem nada, porque eu não tinha noção ainda da vida. Fui numa igreja evangélica e os caras de lá me ajudaram. Vim para Brasília, quando eu cheguei em Brasília já não tinha mais nenhum... Quando cheguei, já não tinha mais nada o que pensar. Não sabia o que fazer.

 

Eu olhava pras ruas e via tudo escuro, pra onde é que eu ia recorrer? Com medo de dormir debaixo de algum lugar e dos outros fazerem alguma coisa, de ir para outro lugar... São muitos pensamentos... O primeiro que eu tive foi em me prostituir para ter alguma coisa, dormir em hotel, que era melhor. Foi quando eu comecei a me prostituir por causa de dinheiro, para eu dormir em hotel ou nas casas dos homens com quem eu me prostituía, porque eu não queria dormir na rua.

 

Não foi fácil, porque eu não queria isso pra mim, eu não queria. Eu queria estudar... Eu já fiz muitas coisas, comecei a transar por dinheiro mesmo, porque eu era novo e eu ganhava muito dinheiro. Minha mãe falava comigo que se eu não me prostituísse, eu não ia ter nada na vida, que não ia ter dinheiro. Aí fiquei com isso na cabeça, pensando que não ia ter mais saída para mim. Eu fui entrando nesse mundo, sem querer, porque eu não queria, eu sei que é muito preconceito, que é violento e que corre risco de pegar alguma doença.

 

Eu comecei a me prostituir para dormir em hotel, para fumar cigarro. Mas eu comecei também a fumar maconha, a cheirar pó, a fazer esses negócios. Aí que eu comecei a sair com os caras para ganhar dinheiro para usar drogas. Eu não tinha pensamento nenhum para vida.

 

Eu fazia meus programas, pegava droga, fumava, fumava. E quase que eu ia... Estava usando muita maconha, estava usando muito pó, eu já estava magro, muito seco, só os meus ossos apareciam. E fumando maconha, cheirando lança-perfume, bebendo, pensando só em curtir e não pensando em mais nada, porque para mim não tinha mais como ter outra coisa para minha vida. Meu pensamento era aquilo. Aí fui me desgastando, me desgastando...

 

Conheci muita gente, muitos travestis, muitos garotos de programa, muitas mulheres, garotas de programa, conheci todo o público: traficantes, drogados, esse público todo da rua. Só que eu não queria aquilo pra mim, eu olhava aquele povo se desgastado, e eu, novo daquele jeito. Imagine eu, com treze, quatorze anos de idade, olhando aquilo lá e me vendo daqui a trinta depois, como é que eu ia estar, se eu não tivesse uma mudança na minha vida? Eu ia ficar daquele jeito lá também, ou pior. Se estivesse vivo...

 

Foi quando eu entrei aqui no ViraVida e a minha vida começou a mudar também. Teve a primeira turma que eu não pude entrar porque eu não tinha idade ainda, aí eu continuei lá no abrigo.

 

Foi uma oportunidade para mim. O abrigo foi a primeira que tive para sair da rua. Se não fossem eles, eu nem teria conhecido o ViraVida. Se eu não tivessem falando no meu ouvido: Josué, pense na sua vida, você é um menino muito lindo.” Se não tivessem falado essas coisas para mim... 

 

Se eu não tivesse aqui, se eu não tivesse alguma coisa para ocupar minha mente, que eu possa estudar, me profissionalizar, coisas diferentes na minha vida, ia pensar em prostituição, em drogas, essas coisas...

 

Na luta de largar as drogas, foram muito difíceis esses primeiros dias, assim, porque dá vontade de você usar. E eu querendo usar, usar, usar, mas tinha forças, com ajuda assim também, da clínica de recuperação, a psicóloga de lá me dando conselhos, eu tive muitas forças. Mas foi muito difícil, foi muito difícil no começo parar com as drogas.

 

Eu chegava aqui já estourado, explosivo, xingando todo mundo. Eu não aguentava não. Qualquer pessoa que falasse um ‘a’ comigo, eu já xingava. Já briguei muitas vezes aqui com os meus próprios amigos que eu fiz, humilhando-os. Hoje em dia, eu olho assim e falo: “Nossa, eu mudei tanto, não vejo mais o Josué de antigamente. Antes de eu entrar no ViraVida, eu era um menino do mundo, porque eu já não tinha mais ninguém. Minha mãe eu não sei onde está, para a casa do meu pai eu não volto enquanto o meu avô não morrer, porque eu não quero perder a minha alegria por conta dele não. Eu sou mais ficar lutando pela minha vida, trabalhando, do que ficar lá sofrendo. Então, é melhor ficar aqui.

 

Eu tenho marcas que a minha mãe me deixou, mas eu não tenho raiva de nada que ela me fez, não tenho raiva dela. Tenho mágoa, ela não deveria ter feito essas coisas comigo, mas eu tenho o sonho de encontrá-la e de que ela também possa ter a oportunidade que eu tive de mudar de vida, porque eu não mais quero ela nessa vida.

 

Para quem está entrando ou já está nessa vida, igual a que eu tive, o que estão vivendo não é vida. O que eles estão vivendo agora eles podem até pensar que é vida, igual o que eu estava pensando no começo, mas não é. Eles estão tendo a oportunidade na frente deles, só basta agarrar e ter força de vontade. Porque se não tiver força de vontade, não vai conseguir nada lá na frente. Então tem que querer essa oportunidade, agarrar e querer mudar de vida porque senão a pessoa não vai ser nada ao longo da vida. Tem que ter um objetivo.

 

“Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações”.

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