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História

As jóias de Santos

História de: José Israel
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/02/2005

Sinopse

Infância no Bom Retiro, São Paulo. Início do trabalho ainda jovem em indústria de bolsas. A difícil relação difícil com o pai. Casamento e mudança para a casa da sogra. Ida para Santos em 1951. A abertura de uma importadora de relógios, loja filial da do irmão. Montagem da Paulista Joias e Relógios, em 1956. Desapropriação de quarteirão no centro de Santos. Militância comunista em Santos durante a revolução. Loja no Gonzaga. Trabalho como representante exclusivo na Baixada Santista da Rolex e Omega. A melhor venda: um diamante. O trabalho em família prossegue com gemas e montagem de joias.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Meu nome completo é José Israel, local de nascimento é São Paulo. A data é 28 de fevereiro de 1928.

FAMÍLIA
Nome dos pais e dos avós Meus pais são Eugênio Israel e Lina Israel. Os avós eu, bom eu só me lembro do nome do avô por parte do meu pai: Lázaro Israel. Eles são húngaros. Nasceram na Hungria.

MIGRAÇÃO
Vinda da família por causa da I Guerra Mundial Eles devem ter vindo para cá depois da I Guerra Mundial em cerca de 1922, por aí. O meu pai participou da I Guerra Mundial ao lado do império austro-húngaro. É, o que me consta é que eles vieram para cá, uma aventura. Porque houve qualquer coisa na indústria do meu avô. Enquanto meu pai esteve na guerra, porque ele era o filho mais velho, o meu avô, o meu pai tinha um cunhado que era advogado lá na Hungria. E era amigo até do Bellakun, que na época era o líder comunista da Hungria. Isso eu fiquei sabendo por alto, né? E eu sei que meu avô teve um derrame, é mais ou menos a história que eu conheço, né? Meu avô teve um derrame e o meu cunhado, o cunhado do meu pai passou tudo para o nome dele. Todas as empresas que meu avô tinha. Quando meu pai voltou da guerra ele pegou algum dinheiro. Montaram alguma coisa para ele quando ele casou, etc, mas ele estragou tudo porque ele não tinha tino comercial nenhum. Era um estudante de rabinato. Não terminou o curso de rabinato também, por causa da guerra, né? Da Primeira Guerra Mundial. E acabaram vindo para o Brasil. O meu pai e minha mãe eles vieram em primeira classe porque eles tinham dinheiro. Vieram como aventureiros, né? Minha mãe não queria ficar aqui, minha mãe, tanto que meu pai gostava muito de viajar. Viajou para o Sul. Viajou para vários lugares do país. E todo lugar que ele ia ele queria que minha mãe fosse. E minha mãe: "Não, daqui eu quero voltar para a Hungria." Ela tinha muita saudade da Hungria. Mas acabou se resignando. Mesmo porque eles ficaram muito pobres. Ele não tinha nem sequer condições de voltar para a Hungria. Não, do meu pai não tinha outros parentes. Tinha irmãs de minha mãe. Eu sei que elas estavam aqui. Uma morava no Rio, aliás duas irmãs moravam no Rio e tinha também uma sobrinha de minha mãe, que minha mãe criou, porque essa mãe, irmã da minha mãe, desta sobrinha faleceu no nascimento desta sobrinha. Ela foi criada pela minha irmã, pela minha mãe. E ela estava no Brasil também.

MORADIA
Descrição da casa Eu me lembro da casa que eu morava na infância, no Bom Retiro, na Rua Tocantins número 56. Essa casa já não existe. A gente morava praticamente no porão da casa. Porque tinha um sobradinho, a gente morava em baixo, mas tinha que descer umas escadas, né? Eu sei que minha mãe, às vezes, deixou de comer, porque ela era a última a comer. Só comia o que sobrava. Então os filhos se sentiram na obrigação de começar a trabalhar muito cedo. Razão porque eu só fiz 3 anos de curso primário. Não pude continuar.

FORMAÇÃO
Curso primário e de religião judaica Eu me lembro da escola. A escola era uma escola particular, de religião judaica. Eu de manhã eu estudava, fazia o curso primário normal e a tarde fazia curso de religião judaica. Meu pai também era muito religioso, exigia também que eu estudasse com ele. Enfim, estudei muito religião judaica. Acho que depois acabei meio ateu por causa disso. De tanto que conhecer a religião.

INFÂNCIA
Brincadeiras Bom, as brincadeiras, eu sei que eu me lembre a gente, a Rua Tocantins era uma rua sem calçamento, né? Era uma rua de terra. Então quando chovia era um divertimento. A gente ia procurar, divertimento, a gente ia procurar coisas. Até moedas a gente encontrava. Canivetes, coisinhas enfim que a enxurrada levava, né? E, e quando não nós jogávamos futebol naquela rua. Eu gostava muito de futebol. E olha, eu era bom de bola. Eu e meu irmão éramos bom de bola. Nós tínhamos um timinho que nós não podíamos jogar no sábado que nossos pais não deixavam que era, sábado era um dia sagrado para os judeus, o time transferiu o jogo com o adversário para o domingo. Porque precisava dos dois craquezinhos, modéstia à parte.

FORMAÇÃO
Os dias de estudante Bom amigo da escola eu tenho Maurício Tragttemberg que eu me lembro dele. Estudou comigo porque eles vieram morar em casa. Eles vieram do Sul. Mamãe era viúva. E mesmo muito pobre, minha mãe costumava colocar todos os sujeitos, todas as pessoas pobres dentro de casa, né? Ela sublocava para várias pessoas. Inclusive tinha um senhor solteiro que vendia amendoim de chocolate na porta do cinema Paratodos, que na época era o melhor cinema de São Paulo. Hoje não existe nem a rua mais. Eu era um péssimo estudante. Porque a escola era particular e meu pai não tinha condições de pagar. O meu professor de hebraico, me cobrava na sala de aula. E eu ficava muito envergonhado. Que ele dizia: "O seu pai faz 6 meses que não paga." E eu ficava envergonhado perante os colegas, e eu acho que talvez por isso, porque no primeiro ano eu até ganhei prêmio melhor aluno. E no segundo, terceiro ano foi uma desgraça. Repeti o segundo ano várias vezes. Depois eu desisti.

COMÉRCIO
Primeiros trabalhos Aí já na época eu trabalhava. Quer dizer, a gente vendia o que sobrava de amendoim com chocolate desse senhor que morava em casa. Eu chamava ele de Tchimbale. Tchimbale era o diminutivo do nome Tchimba, que era nome húngaro também, né? E eu ensacava e vendia na escola, né? Vendia para os meus amigos. Outra coisa, meu irmão descobriu por exemplo, aquelas borrachinhas fininhas, não sei se ainda existe - de apagar - na venda. Naquela época era venda. A venda vendia uma borrachinha por um tostão. E meu irmão descobriu a fábrica, ele já tinha um tino comercial, né? Descobriu na fábrica que 100 borrachinhas custavam 25 tostões. Então a gente vendia duas borrachinhas por um tostão. Fazíamos concorrência com a loja. Até que o diretor da escola obrigou a parar, não permitiu. Era uma defesa que nós tínhamos para poder pegar o cinema. Mais adiante eu, acho que com 9, 10 anos eu engraxei sapato, lavei roupa de vizinhos. Passava até terno. Não sei se ficavam bem passados. Mas até ternos eu passava. E também ganhava alguma coisa com isso, né? Mas eu sempre ajudava meu pai. Metade do que eu ganhava sempre dava para o meu pai. Fui até, mais ou menos levando essa vida até os 12 anos, né? Quando eu me empreguei como faxineiro. Foi meu primeiro emprego. Naquela época se tirava um documento, chamava-se "Autorização do Pai para o Menor ao Trabalho." E tirei essa autorização onde hoje é a Prefeitura de São Paulo. Era o Ministério do Trabalho. E eu fui trabalhar nessa fábrica de bolsa, com 12 anos de idade. Só que meu patrão custava a pagar, viu? E meu pai era um homem violento. Eu me lembro que eu ganhava 40 mil réis por mês. E passavam-se 3 meses com o meu patrão sem pagar, né? 3 meses, depois de vencidos três ordenados meu patrão virava para mim - seu Benjamim (Malamud?), não esqueço o nome dele - chegava para mim e perguntava: "Você precisa de dinheiro?" Eu, um garoto muito arrogante, né? E além de pobre, arrogante. Eu dizia: "Não, não preciso." Eu nunca me esqueço, esta vez, tinha sido passado 3 meses a fábrica era defronte à casa que nós morávamos, já nesta altura na Rua Anhaia. E cheguei em casa meu pai me pediu dinheiro. Que eu dava metade para ele, né? Ganhava 40 mil réis por mês, que era meio salário mínimo na época. E 20 eu dava para o meu pai, e 20 para mim comprar roupa, essas coisas que eu precisava, né? Pegar um cinema, às vezes. Eu sei quando eu cheguei em casa eu disse para o meu pai que seu Benjamim não me pagou. Aí ele atravessou a rua e foi conversar com meu patrão. Aí meu patrão disse que perguntou para mim e que eu tinha dito que eu não precisava de dinheiro. Aí meu pai voltou, me deu uma surra que eu nunca mais esqueci. Até caí no chão. Foi ponta-pé. Meu pai não tinha, medidas, né? Mesmo em casa todos os dias ele quebrava tudo. Brigava muito com minha mãe e eu ficava com muita raiva dele. Tinha muita pena da minha mãe. Eu não sei se por causa da vida que ele tinha levado quando era jovem e a vida que ele estava levando aqui no Brasil. Talvez por isso. Mas, não é certeza, né?

TRABALHO
Trabalho na fábrica de bolsas Nesse emprego eu não fiquei muito tempo. Eu acho que eu fiquei uns 3 anos. Porque eu continuava ganhando mal e eu já tinha aprendido alguma coisa. Como você, por exemplo, cortar papelão, né? Uma faca muito afiada. Uma faquinha que a gente mesmo improvisava, de um caninho. E corda de relógio de parede. A gente fazia faca para cortar couro e papelão. Eram bolsas armadas, né? E eu fui procurar outro emprego dizendo que eu era contador. Normalmente cortador naquela época eram pessoas de 25, 30 anos. Eu sei que o patrão me empregou lá, o novo patrão. Ele me empregou e entrou na fábrica comigo e falou para o pessoal lá, para os operários e operárias, tinha mais: "Esse é o novo cortador." Todo mundo caiu na gargalhada. Porque eu era um garoto, né? E de fato eu tive tanto azar que o primeiro papelão que eu fui cortar com uma régua de aço, muito fina, era para cortar tiras, e a faca subiu e cortou meu dedo aqui. Isso foi o primeiro dia de emprego. Mas depois passou e eu acabei sendo até, acabei sendo gerente desta firma. Gerente de produção. Mas eu chegava muito cedo, né, quando, quando era moço. Porque a fábrica abria as 8 horas, eu tinha que chegar as 7. E no inverno era terrível. Eu não tinha roupa para o inverno. Eu me lembro que eu calçava duas, três meias furadas. Para chegar uma hora antes e esquentar a cola. Cola de sapateiro que se usava além, para bolsas, além da cola de sapateiro, usava cola de benzina, né? Enfim, isso levou algum tempo até eu me aprimorar melhor no serviço. Depois, bolsa eu fiquei conhecendo desde a vaca, o couro, até a entrega na casa do cliente. Porque eu fiz tudo dentro de uma fábrica de bolsa. Vendia. Ah, isso era, todo dia saía amostra, mostruários novos, né? Desenhos novos, novos modelos e o vendedor ia para a praça, vendia para as lojas. E nessa altura como eu já era gerente, eu é que analisava os pedidos. Se os clientes mereciam ou não crédito. Se valia a pena entregar ou não. Eu sei que me xingaram muito os vendedores. Porque muitos eu recusava por falta de informação, né? É, foi isso.

FAMÍLIA
Os irmãos Eu tinha irmãos. Nós éramos em cinco irmãos. Éramos três homens e duas mulheres. Só que um, o Lázaro, chamava-se Lázaro até, eu não cheguei a conhecer. Ele faleceu antes do meu nascimento. E então eu tinha um irmão e uma irmã, que faleceu há questão de 5 anos. Meu irmão já faleceu. Faleceu até muito moço, com 51 anos. Com câncer no cérebro. É, passado esse período de fábrica eu fiz uma tentativa de caixeiro viajante. TRABALHO Trabalho como representante de papel carbono Foi outra frustração muito grande, né? Porque eu fui trabalhar, eu li um anúncio, eu fui trabalhar para uma firma que chamava Cartro & Azipe, não sei se existe ainda. Eles diziam que o carbono deles era o melhor carbono do mundo. Ele assobiava. Tinha parafina. Então por exemplo eles davam 20% de comissão, e para cada chefe de grupo tinha mais 10% de comissão, enfim. Não sei se eu estou me alongando muito? É, a comissão era boa, né? Mas só que enquanto o da Hélios, uma caixa de carbono custava como hoje 20 reais, a caixa de carbono deles custava 200. Por isso eles podiam pagar uma boa comissão. E só que eles alegavam que o carbono dele era inglês, que dava muito mais cópias muito mais vezes. E eu sei que uma vez eu fui em uma firma chamado Salitre do Chile na Rua Florêncio de Abreu e eles usavam muito carbono além de outros materiais de escritório, né? Eu estava tentando conquistar esse cliente. Aí ele fez um teste com o nosso carbono. E no fim o carbono da Hélios deu melhor resultado que o nosso apesar de ser muito mais caro. Aí eu falei: "Não é possível, esses caras estão metendo a mão." Bom, quando eu já estava conquistando um outro cliente que era Organização Novo Mundo, na época. Acho que não é do vosso tempo. Tinha o Banco Novo Mundo e mais uma série de empresas. E como eu ganhava 20% eu queria fazer uma venda "x", sem dar desconto, né? Porque nós podíamos dar desconto de 10%, a firma arcava com cinco e eu perdia cinco da minha, do meu, dos meus 20, né? Eu sei que eu inocentemente contei para o chefe dos vendedores e ele me furou a chapa. Ele foi lá e deu 10% de desconto e eu não vendi nada. E depois disso fiquei muito bravo. Aí fomos falar com o dono da empresa. O dono da empresa era um alemão. Ele achou que do grupo que entrou naquela ocasião junto comigo ele disse que eu era o vendedor que se destacou. Queria que eu continuasse. Que ele me daria a gerência de uma filial que eles iam abrir no Uruguai. Eu recusei toda e qualquer proposta deles porque não gostei da firma, né? Voltei a trabalhar com bolsa.

TRABALHO
Volta para a fábrica de bolsas Aí voltei para a primeira fábrica depois eu saí novamente. Fui novamente tentar a vida como vendedor. Nesta ocasião eu já, venda de confecções, né? Já fazia praça de São Paulo, os bairros: Lapa, Santana, Pinheiros. Ia com amostras e fazer a venda, né? E estava me dando até relativamente bem em São Paulo. Até que um dia o meu chefe esse, era um sionista que foi para Israel, ele morreu lá. também outro igual ao Benjamim. TRABALHO Trabalho como representante de bolsas Aí ele um dia chegou para mim e disse: "Olha, nós estamos sem vendedor há muito tempo no interior do estado de São Paulo, você não quer fazer uma visita?" "Olha, faço essa visita." Porque as despesas corriam por minha conta, né? Eu faço a visita desde que você me dê uma relação dos clientes que você já tem. Para mim não fazer novos clientes. De repente você recusa os clientes que eu faço. Ele me deu a relação dos clientes. Eu sei que eu viajava para cada cidade: Joanópolis, Piracaia, a melhorzinha era Atibaia. É, Atibaia tem uma história interessante: eu fiquei famoso por um dia.

LAZER
História pitoresca sobre cinema Essa história é engraçada porque eu tinha feito um curso de interpretação de cinema, com o professor Carlos Ortiz. Que era ex-pároco, crítico de cinema, chegou a fazer alguns filmes. Mas não era para mim trabalhar em cinema. Era entender cinema. Então eu sei que o diretor da Nestlé me ensinou como é que eu tinha que fazer ao invés de eu ir para aquela cidade: Joanópolis, Piracaia, que eram cidades horrorosas que nem calçamento tinha. Para mim pegar a jardineira de manhã ir até aquela cidade e cinco horas da tarde voltar com a jardineira e ficar sempre em Atibaia. Onde era a cidadezinha melhor, o hotel era melhor. Aí eu aprendi, porque não tinha experiência nenhuma de viajante. Mas Atibaia é cidade de interior tem a igreja, tem a praça, tem os alto-falantes das emissoras de rádio. Uma emissora de rádio talvez só. Estava anunciando que eles iam inaugurar o clube de cinema de Atibaia. E eu já freqüentava clube de cinema de São Paulo. Na rua Sete de Abril, na associação dos Diários Associados. Eu gostava de cinema, mas queria aprender mais sobre cinema. Eu ouvia os críticos falar, bom, eu sei que o cinema lotou. Era cinema grande. Porque vinha crítico de São Paulo. Ia passar um filme italiano. E veio crítico de São Paulo, enfim. Passou o filme. O filme eu não me lembro o nome. Teve uma versão italiana, tinha tido uma versão americana. Mas italiana você sabe como é. Era o Cinema Novo italiano. Então era a história de um vagabundo que andava de cidade em cidade, não parava em lugar nenhum. Até que ele em uma cidade, em um posto de gasolina ele viu a dona, a mulher do dono do posto. O dono era um velho. E a mulher era uma mulher muito bonita, jovem. E por causa da mulher ele pediu um emprego e ficou trabalhando lá. Mas no fim a história eles se apaixonam, tramam a morte do velho. Matam o velho e vivem o resto do filme fugindo. E aparece o casal na cama, né, como italiano não faz muita censura, né? Eu sei que começou os debates, levantou o médico da cidade lá e disse que o filme era indecente porque mostrava uma mulher nua. E o crítico de São Paulo que estava dando resposta que não satisfazia. Ele disse: "É que o senhor quando quer comprar um quadro de uma maçã o senhor quer uma maçã. O senhor não vai querer outra coisa." "É, mas não se pode comparar maçã com uma pessoa. Pessoa nua." Aquele negócio todo. E o delegado da cidade também levantou, porque naquela época havia um programa no rádio que chamava-se o Crime não Compensa. Que todos os criminosos acabavam nas malhas da polícia. E o delegado se levantou porque no fim eles acabam preso, né, esse casal, ele disse: "Esse filme devia chamar-se O Crime não Compensa." E eu estava vendo que as respostas dos críticos não satisfaziam. Aí eu virei para o, eu tenho um problema muito sério de falar em público. E público para mim é 10 pessoas, eu tremo na base e não consigo. Aí eu falei para o meu colega lá da Nestlé: "Eu estou louco para entrar nesse papo." Aí ele pega e levanta a mão, mandaram ele falar, ele falou: "Não, é o meu amigo aqui que quer falar." Aí eu tive que falar. Para o médico eu vou, primeiro eu vou responder para o senhor, médico: "O senhor como médico vê tanta imoralidade no corpo de uma mulher, eu não mandaria minha mulher ao seu consultório. Porque a imoralidade está na sua cabeça." E para o delegado de polícia eu respondi: "O senhor sabe que existe muitos crimes que compensam." Tinha acabado de terminar a Segunda Guerra Mundial, né? Eu falei: "O crime dos que fazem guerra, os crimes dos que fabricam armamentos. Esse crime compensa e dá muito dinheiro." Aí eu sei que eu fui aplaudido, fui entrevistado, foi o meu dia de glória.

TRABALHO
Nova mudança de emprego Bom, mas voltando ao trabalho esse fulano também, esse que me mandou para o interior também não me pagou. Aí eu voltei para a fábrica de bolsas de novo. Meu lugar era a fábrica, viu?

CASAMENTO
Primeiros tempos de casado Aí me casei aos 21 anos. Minha mulher tinha 17 anos. Sem condições econômicas para fazê-lo. E fomos morar no fundo de uma casa da minha sogra, né? Que ela fez dois quartinhos lá para a gente morar. E fiquei trabalhando, economizando. Porque eu não tinha gastos com comida nem com aluguel.

COMÉRCIO
Montagem do negócio próprio E meu irmão e meu cunhado eram portadores de relógios, de várias marcas de relógios da Suíça. E quiseram abrir uma filial em Santos. Então me convidaram para mim cuidar da filial de Santos. Então nós abrimos uma lojinha - tentando abreviar a história - abrimos uma lojinha na Rua Senador Feijó, debaixo do Hotel América. Que seria a entrada do elevador. É uma loja, tem um metro de porta por dois metros de fundo. Entrava um, o segundo para entrar tinha que sair o primeiro. Enfim, mas eu vivia mais de venda dos relógios para as lojas. Na época Santos corria muito dinheiro.

SANTOS
Lembranças mais antigas Eu conhecia Santos de vir aqui na praia, né? De vez em quando. Muito de vez em quando. Muito de vez em quando, né? Porque não tinha condições para vir. Vinha de trem até. E mas, eles é que escolheram Santos. Porque eles tinham já uma clientela aqui em Santos. Umas lojas que compravam deles e também uns a que eles chamavam de marretas. Aquele pessoal que compra relógio e vendia na rua, né? Que diziam que tiravam de bordo. Eles compravam comigo na loja. Uns relógios bem vagabundos, né? Falavam que tiravam do navio e vendiam. Vendiam até para as lojas. Até as lojas se enganavam com essa conversa de bordo. Bom, enfim... Isto foi 1952, 53, por aí. Eu tinha uma clientela desses marretas o melhorzinho deles eu acho que tinha umas três mortes na costa, viu? Eu maldisse a hora que eu vim para Santos. Porque eles me permitiam que eu tirasse só o salário mínimo e mandasse todo o dinheiro do que eu vendia lá para São Paulo. Meu irmão e meu cunhado. E com salário mínimo eu estava morando mal. Nem sequer uma geladeira eu tinha. Em um calor desgraçado. Nem ventilador. Eu já tinha uma filha, né, quando eu vim para cá. Eu passei muito apertado. Até arrumar esse apartamento eu fiquei 3 meses morando no Hotel América mesmo, né? Defronte tinha um prostíbulo e eu não conseguia dormir por causa do calor e por causa do barulho do prostíbulo que havia em frente. Madame Zezete era a dona do prostíbulo.

SANTOS
Descrição da cidade O Hotel América ficava na Senador Feijó entre a General Câmara e a João Pessoa. Naquela época, naquela época inclusive Santos, era uma cidade que corria muito dinheiro por causa das, o negócio do café. As comissárias do café. Despacho aduaneiro. E o jogo já não tinha mais na época. O General Dutra já tinha mandado fechar os cassinos, né? Mas ainda existiam hotéis, como o Hotel Parque Balneário que hoje é o Shopping, que para mim foi o maior crime que se cometeu contra Santos: ter derrubado aquele hotel. Que é, na minha opinião e não opinião de quem conhece e quem conheceu ele era muito mais bonito do que o Copacabana Hotel. Já devia ter sido tombado. Que vocês devem ter visto fotografias do hotel. Porque andaram tendo fotografias espalhadas tanto no Parque Balneário como em algumas galerias mostrando o Hotel Parque Balneário. Era lindo. Mas enfim, derrubaram o Hotel Parque Balneário para fazer o Shopping. Quando vim para cá, ainda existia o hotel, ainda existia. Você ia para a XV de Novembro, Rua do Comércio. Aquele pessoal todo de branco. Era os, o que sustentava o time do Santos, né? Do Santos Futebol Clube. Porque eles tinham muito dinheiro. Ganhavam muito dinheiro com café, ganhavam muito dinheiro com despacho aduaneiro. Enfim, Santos empobreceu muito depois da ditadura. Durante a ditadura. Acho que Santos foi a cidade mais perseguida. Porque Santos, eu me lembro quando morava em São Paulo, Santos era chamada da Stalingrado brasileira. Porque os estivadores parece que pertenciam ao Partido Comunista, sei lá eu, os doqueiros. Tudo isso então, talvez por causa disso Santos foi muito prejudicada, né?

COMÉRCIO
Mudança da rua Senador Feijó para João Pessoa Então eu não tinha meios. Eu tive que tomar emprestado. Aí o meu irmão ele, ele estava mal de vida inclusive. Porque acho que meu cunhado tinha dado um desfalque. Isso não ficou muito certo. Sei lá eu. Algum mal negócio que eles fizeram. E para ajudar meu irmão eu propus a dissolução da sociedade, já na loja maior que era só varejo. Não vendia mais na atacado. Lá na Senador Feijó mesmo. Aí o meu irmão disse: "Se você me pagar metade do que vale a loja não vai resolver nada." Eu falei: "Mas você não é obrigado a vender a sua metade pela metade do valor. Você pode cobrar o valor todo." Foi o que ele fez. Eu fiquei endividado porque eu tinha, a minha dívida era muito maior, o meu passivo era muito maior do que o meu ativo. Mas enfim, eu consegui lutar com a minha companheira Vita, e conseguimos sair do buraco. Depois a Senador Feijó ficou uma rua de prostitutas, né? E já uma mulher mais séria assim, já não ia mais lá. A Senador Feijó ficou um ponto horroroso. Foi quando, nessa altura eu tinha já comprado algumas propriedades também, com o que eu ganhava. Então eu resolvi ir para João Pessoa.

SANTOS
Descrição da Rua João Pessoa A Rua João Pessoa ainda não existia os shoppings quando eu fui para a João Pessoa, né? O centro comercial de Santos se resumia na João Pessoa que eram, as melhores lojas e General Câmara, né? E algumas ruas adjacentes ali. Mas as principais eram João Pessoa. Tinha umas padarias, umas confeitarias muito boas, sorveterias, e lojas importantes, né? As melhores lojas estavam ali. Tinha a Confeitaria Rosário, que as mulheres até da alta sociedade iam tomar chá à tarde. Ele fazia uns doces muito sofisticados. Tinha a Sorveteria Paulista, muito freqüentada também. Além disso tinha a Joalheria Louvre, que era do café. Ele abriu essa joalheria. Uma joalheria muito fina. Na época eu fiz um cálculo, levantamento, em Santos proporcionalmente à população tinha mais joalherias e melhores do que São Paulo. Para você ver como em Santos corria dinheiro.

COMÉRCIO
Mudança para Rua João Pessoa Já tinha ampliado o negócio para relógios e jóias. Eu fui para João Pessoa. Eu sabia que havia um plano de alargamento da João Pessoa. Mas antes de eu ir para a João Pessoa, antes de pagar o ponto e fazer uma instalação muito bonita até, eu fui boicotado pelo prefeito, porque o prefeito era parente, o prefeito... Esqueci o nome dele. Eu sei que era do partido do Adhemar de Barros, era o Maluf da época. Rouba mais faz. Ele não se importava, ele dizia: "Fale mal, fale bem, fale de mim." E eu falei Maluf, vou me comprometer que o Maluf vai me processar. Tinha o Maluf da história. É, do plano de alargamento. Mas eu mandei se informar então diz que o plano era um plano de 50 anos que talvez não vá se por em prática. Mas aí quando eu comecei fazer a instalação, a família Pustiglioni que eram várias joalherias no centro não queriam que eu ficasse no meio deles.

COMÉRCIO
Concorrência Eles tinham Humberto Pustiglioni, Mário Pustiglioni, Antonio Pustiglioni e mais um que a mulher matou aí que eu não me lembro o nome dele. Pustiglioni. Tinham quatro irmãos Pustiglioni que eles dominavam. Além disso tinha uma outra joalheria que não tinha nada a ver com Pustiglioni, era do Gustavo Pérgola, que era Jóia Brasil. Era uma belíssima joalheria. Até hoje seria muito bonita. Lá na Praça Mauá onde é hoje a Drogasil, aquele prédio, né? Bom, enfim, eles não queriam que eu fosse para lá e o prefeito da época - tentando lembrar, eu lembro dele, mas ainda vou lembrar - me boicotou de toda forma. Quando eu comecei reformar, ele mandou interditar. Isto tudo a pedido da família Pustiglioni que não queria de jeito nenhum que eu ficasse no centro. Porque eles sabiam que eu entendia. Que eu conhecia muito o ramo. Principalmente porque eu conhecia o pessoal da Suíça. Que eu podia importar direto e eles não teriam condições de concorrer comigo. Eles sabiam que eu tinha um irmão, um cunhado que conheciam profundamente o ramo. Então eles tinham um medo louco de mim. Bom, enfim. Finalmente eu consegui através da justiça abrir a loja. 6 meses depois de eu ter aberto a loja, ter vendido até, só fiquei com o apartamento que eu morava. Vendi todas as propriedades para montar essa loja.

SANTOS
Alargamento das ruas e demolição de parte das lojas Aí veio a ação de despejo em agosto. Tentando lembrar o ano... próximo de 1970. 1968. 68, exato. Alargaram. O prefeito da época, Silvio Fernandes Lopes, agora eu lembrei. Ele derrubou uma quadra da João Pessoa, uma quadra da Visconde São Leopoldo, uma quadra da Praça Rui Barbosa, uma quadra da Rua General Câmara. Que o Faria Lima em São Paulo, naquela época estava com um imenso prestígio graças às obras que ele estava fazendo. Só que ele fez a avenida Faria Lima. Aí eu comecei a escrever artigos nos jornais mandando brasa no prefeito, né? Dizendo que, entre outras coisas, que seria a mesma coisa que um prefeito louco em São Paulo decidisse abrir a Rua Direita e a Rua São Bento. Proporcionalmente a General Câmara e a João Pessoa equivaliam à Rua São Bento e à Rua Direita. E nenhum prefeito louco em São Paulo, teria coragem de fazer isso que o prefeito, o Faria Lima provinciano - coloquei no jornal - abriu quatro quadras em quatro ruas diferentes. A coisa não era séria. Era para mostrar obra. Bom, enfim, eu sei que a loja da Senador Feijó ainda não tinha sido vendida e eu tive que voltar para a Senador Feijó. Depois do alargamento da João Pessoa chegou-se à conclusão, chegou-se à conclusão não, o Código de Obras não permitia que ninguém construísse em área inferior a 200 metros quadrados. Só que ninguém tinha 200 metros quadrados, de todas aquelas lojas demolidas. Aí é que eu comecei a chamar o homem de Nero, que destruiu a cidade. Que agora não tem solução. Minha loja ficava na João Pessoa número 19. Pertinho da Praça Rui Barbosa. E o Prefeito começou a desapropriar aquela quadra toda e demoliu a quadra. Nós até chegamos a pedir a ele, porque já tínhamos comprado a mercadoria para vender no Natal, né? E pedir a ele que deixasse que a gente ficasse, ficar até dezembro, até Natal. E ele não concordou. Porque segundo ele, já tinha prometido a segunda quadra para dia primeiro de janeiro. E o que depois provou que era mentira porque ele levou mais de 3 anos para demolir a segunda quadra. Então ele podia ter deixado a gente até Natal. Não podia reconstruir porque ninguém tinha 200 metros quadrados. Tinha uma alfaiataria, a alfaiataria Noé, que eles tinham cinco lojas, ou quatro lojas, eles perderam todas as lojas que eles tinham. Porque em todas as ruas que ele demoliu eles tinham uma loja, por acaso. E era uma alfaiataria muito famosa. As pessoas que, quase Santos inteiro, daqueles que tinham condições de fazer roupa, faziam roupas na alfaiataria Noé. Eles faliram. Muitas lojas faliram nessa brincadeira. Eu sei que eu apertei o presidente do Sindicato dos Comerciantes daquela época, era o Jorge Bechara. E era muito amigo do Silvio Fernandes Lopes. Eu sei que eu cheguei para ele assim: "Ô Jorge Bechara, ou você rompe a sua amizade com o Silvio Fernandes Lopes e defende a sua classe ou você fica com a amizade com o Silvio Fernandes Lopes e nós elegemos outro presidente. Que você não está fazendo nada pela classe." Aí ele tomou um impulso, porque afinal ele lembrou que era presidente do Sindicato do Comércio Varejista, né, e que não estava fazendo nada pelos comerciantes. Eu sei que ele marcou uma audiência com o Silvio Fernandes Lopes, me convidou - porque ele sabia quem eu era, eu escrevia sob pseudônimo mas mesmo assim desconfiaram que foi eu que escrevia. Quase todos os dias na Tribuna. Mandava para a tribuna do leitor, mandava através de amigos que tinham grandes anunciantes da tribuna. E o jornal publicava. Até que um dia não queria publicar mais. aí o Fausto Lopes, que ele era um cunhado do Mário Covas. Eu fui amigo do Mário Covas também, da família toda, né? O cunhado do Mário Covas, Fausto Lopes dizia para mim, eles tinham uma loja importante na época, eram Lojas Gomes. Hoje ficou meio insignificante. Mas era loja grande e eram grandes anunciantes da Tribuna. Então o Fausto Lopes chegou, o Fausto Gomes falou para mim: "Você me dá os artigos eu levo lá para o Santini para ele publicar." E aí o Santini publicava. Bom, então eu sei que esse presidente conseguiu um encontro, uma audiência com o Silvio Fernandes Lopes para ver uma solução para as lojas demolidas. E a solução que ele deu seria que nós reformássemos a fachada. Aí eu falei: "Escuta, reforma da fachada? Eu tenho uma loja de jóias. E a segurança lá atrás? Está tudo demolido." Aí saí de lá, xinguei, fiquei bravo. Ainda ele falou, ainda ele mencionou: "Aí eu vou deixar de ser o Nero da..." Falou para mim. Falei: "Bom, ele também já sabe que sou eu. Bom, que se dane eu também estou pouco ligando para ele." Não me lembro o pseudônimo. Aí falei: "Não era solução." Aí nesta época houve eleições. O Esmeraldo Tarquínio ganhou a eleição, ele ia assumir a prefeitura. Mas estávamos em plena ditadura, né? 68, 70, por aí. Aí eu fui conversar com o Esmeraldo Tarquínio ele disse: "Assim que eu assumir uma das primeiras providências que eu vou tomar é sobre esse problema das lojas demolidas." Aí ele foi cassado. Ele era deputado, não sei se federal ou estadual. Aí ele foi cassado. Então não assumiu a prefeitura. Veio um general, interventor. General Bandeira Brasil, um negócio assim. Aí o Jorge Bechara como presidente do Sindicato marcou uma entrevista com o general. E me levou também. Me levou e o Bechara pediu para mim expor o problema. Eu expus o problema e disse a ele que não podia reconstruir em área inferior a 200 metros quadrados e que nós não tínhamos condições de reconstruir. O imóvel não era meu. Era alugado, né? Aí o general brincando, né, ele falou sério mas depois é que eu soube que ele estava brincando. "Bom, vamos demolir o centro todo da cidade e relotear." Aí eu virei para o Jorge Bechara falei: "Esse homem é louco. Vai demolir o centro da cidade toda e vai relotear." Eu falei: "Que loucura." Aí depois ele chamou o secretário de obras e perguntou ao secretário de obras: "Me diga uma coisa, veja aí, é verdade esse negócio de não poder reconstruir em área inferior a 200 metros quadrados." E ele tinha raiva do Silvio Fernandes Lopes, porque o Silvio Fernandes Lopes tinha esvaziado a caixa, deixado muita dívida para o Esmeraldo Tarquínio. Ele não esperava que vinha um general. Daí ele tinha preparado a cama do Esmeraldo Tarquínio, mas acabou caindo na mão do general. O general tinha uma raiva dele, que deixou o cofre sem um tostão e dívidas para pagar. Bom, enfim ele chamou o Secretário de Obras que disse: "É, realmente. O Código de Obras não permite a reconstrução em área inferior a 200 metros quadrados." "Bom, a Lei sou eu." General, né? "Reconstrua no remanescente não importa o tamanho da área." Bom, quem pôde reconstruir, reconstruiu. Nem todos puderam, né? Muitos já tinham falido. Como essa alfaiataria Noé, aquelas outras lojas que nem ficaram com nada. Bom, aí eu tinha que falar com os - aí foi outra choradeira, viu? - os proprietários do imóvel que eram os filhos. O dono mesmo teve um enfarto no dia. Ele vinha tomar café comigo todos os dias de manhã. No dia que eu recebi a ação de despejo ele teve um enfarto na primeira esquina. O seu (Loiacono?). Era o proprietário. Bom, ficaram um casal de filhos e um genro, né? E eu não sabia que pela Lei, quando há uma desapropriação por um órgão do estado ou órgão público o contrato locação morre. Deixa de ter valor. E eles não queriam renovar o contrato comigo. Hei, todo domingo eu ia chorar lá. Que eu não tinha mais condições, que eu precisava. Aí no fim eu sei de muito tempo de muita choradeira eles concordaram de renovar o contrato desde que eu construísse o prédio. Aí eu tive que vender a última, o apartamento que nós morávamos. Fui morar alugado para poder reconstruir o prédio. No meio da reconstrução a ditadura resolveu me dar uma pensão de 7 meses. Porque eu tinha opinado contra a ditadura, tinha me manifestado. Fiquei 7 meses preso em São Paulo.

POLÍTICA
Participação no Partido Comunista Eu militei quando jovem no Partido Comunista. Em São Paulo e aqui em Santos. E com certo arrependimento, não pela causa, mas sim pelo que foi o comunismo na União Soviética. Eu por exemplo aí, o Estadão publicava coisas que eu não acreditava, né? Eu era fanático. Isso é propaganda burguesa. Mas depois a gente ficou sabendo que o Stalin acho que foi um assassino maior do que o Hitler. E que aquilo era uma desgraça. Mas a idéia do Socialismo ainda perdura, né? Eu hoje não participo, mas tenho contato com pessoas do PT, do PPS, partido do Ciro Gomes. Tenho contato com esse pessoal mas sem participação nenhuma.

SANTOS
Avaliação da atual conjuntura Mas eu acho que há muita injustiça social. E as coisas se agravaram com essa globalização. Santos, hoje nós vivemos uma crise muito séria com desemprego. Que as docas parece que empregavam 16 mil pessoas. Acho que empregam hoje mil e poucas pessoas. Santos decaiu terrivelmente. Tanto que a Tribuna mesmo há um tempo atrás publicou uma reportagem que Santos em 10 anos diminuiu 50 mil habitantes. Santos não tem mercado de trabalho para jovens que ser formam. Tanto que meu filho por exemplo, se formou engenheiro civil, se especializou em petróleo. Hoje ele é diretor de construção de plataformas marítimas em uma empresa de Niterói. Mas ele viaja pelo mundo inteiro, né? Já viajou para a China, para Cingapura. A Hyundai ganhou uma concorrência deles depois fizeram uma porcaria. Aí meu filho teve que ir lá para a Coréia, para a China para trazer aquela plataforma para Niterói porque eles não souberam fazer. Levaram uma multa de 75 milhões de dólares da Petrobrás. Meu filho não trabalha para a Petrobrás. Trabalha para uma empresa que constrói plataformas para a Petrobrás e para outros países também, né? Então você vê, por aí, porque não tem mercado de trabalho em Santos. Quer dizer, ele foi obrigado a sair de Santos. Então Santos ficou uma cidade muito pobre e hoje nós estamos atravessando essa crise toda.

POLÍTICA
Ditadura Militar Agora, durante aquele período que eu estive hospedado pelo Governo no Dops, na Operação Bandeirante de São Paulo eu estava devendo dinheiro para bancos. Naquela época você podia tomar dinheiro emprestado do banco que os juros eram baixos. Hoje não dá. Hoje nem vendendo cocaína, eu acho. Fiquei preso em São Paulo. No Dops e na Operação Bandeirante. Com aquele tratamento especial. Eu sei que depois eu fui transferido. Depois de 7 meses eu fui transferido. Eu não sabia nem por quê que eu estava preso na realidade. Porque eu fui contra a guerrilha. Não porque eu acho que, a guerrilha só quando existe condições. No Brasil não existia. A gente sabia que íamos perder grandes quadros. Por exemplo o Marighela hoje seria um grande senador. E outros quadros bons que morreram naquele, naquela aventura, que não sobreviveram que hoje poderiam ser políticos bons, enfim. Mas mesmo assim eu fui preso. Sendo a favor ou contra a guerrilha eu fui preso.

COMÉRCIO
Reconstrução da loja E reconstruí a loja depois de muito favor. Fiz o prédio. Pedi um contrato de 10 anos. Acabei comprando aquele prédio um tempo. Depois pressionado pela clientela e pressionado pelos próprios funcionários acabei abrindo loja no Shopping Parque Balneário. Era uma loja menor do que essa que vocês viram. Isto fazem mais ou menos uns 7 anos que nós estamos no Parque Balneário. E depois, mas a loja do centro continuou funcionando. Nós abrimos no Parque Balneário a loja do centro continuou funcionando. A loja do centro depois eu montei, transferi para o Miramar.

COMÉRCIO
Relacionamento com outros comerciantes É mais agradável trabalhar perto da praia. Só que há um porém engraçado, acho que é comigo isto. Eu sou um homem de praticamente 74 anos, né? Quando eu estava na Senador Feijó eu tinha um grupo de lojistas, nós éramos todos amigos. Então quando um ia tomar café, chamava todos para tomarem café. Eu não tenho relacionamento com quase ninguém do shopping. Eu não sei se porque eu sou velho e hoje são quase todos jovens, então não há um entrosamento, né?

COMÉRCIO
Participação da colônia árabe A Capricho, por exemplo, que é aquela loja de roupa de cama e mesa. Tinha uma loja no centro e depois também tem um comércio aqui. Até eles diminuíram porque parece que eles não vão muito bem coitados. O Adib era meu vizinho. O Dib, né? Aliás, eu tenho mais amizade com a colônia árabe do que com a minha colônia. Os meus grandes amigos são de origem árabe. E eu tenho raiva do Sharon. Discordo totalmente da política externa de Israel com relação aos palestinos.

COMÉRCIO
Mudança para o Gonzaga Não, eu só fiz a mudança para o Gonzaga depois de estar com a loja no Parque Balneário. Aí mudei a loja do centro para o Miramar. Eu me mantive no centro, eu já tinha lojas que eu comprei na construção do Parque Balneário, eu cheguei a ter oito lojas lá. No shopping. Mas eu levei, depois de 8 anos, coincidência, 8 anos que o shopping Parque Balneário existia é que eu fui para lá. Porque eu passava todos os sábados no Shopping Parque Balneário eu via lojas que abriam e fechavam. Tinham muitos aventureiros. Jovens. Eu tenho muita pena de um jovem que se estabelece hoje. Que hoje é muito difícil, né? Porque o comércio está ruim. Aliás a vida toda no Brasil está ruim. A não ser para meia dúzia de pessoas que estão se locupletando.

CLIENTE
Perfil da clientela Olha hoje, na cidade eu tinha mais homens do que mulheres. Hoje eu tenho mais mulheres do que homens como clientes. O que não quer dizer que eu não tenha bastante homens também como clientes. Bastante? Bastante é modo de falar porque a crise que nós estamos vivendo. Afinal de contas o produto que eu vendo é o máximo do supérfluo. A não ser relógio que todo mundo precisa de um relógio. Mas jóia? A pessoa vive bem sem jóia, né? Muito raramente eu vendo para turista. O turista que vem para Santos é um turista mais pobre, né? O turista hoje mais rico, que vai para a praia vai para a Riviera do São Lourenço, vai para, enfim, para o Litoral norte, né? Santos hoje vem aqueles turistas, coitados assim, menos poder aquisitivo.

IMPORTAÇÃO
Não, eu não importo nada. Quem importava era o meu irmão. Eu vendo produtos importados mas eu compro dos importadores. Eu tenho uma vantagem sobre as outras joalherias que foi um trabalho árduo meu, que nós temos hoje cerca de 14 marcas exclusivas para toda Baixada Santista. Por exemplo, nós representamos com exclusividade relógios Rolex, Bulgari, Breitling, Rado, Omega, Mont Blanc, e vai por aí em diante. Donna Karan.

FORNECEDORES
Esse foi o trabalho, modéstia à parte, um trabalho que eu tive, né? De promover a minha loja junto aos importadores para conseguir a exclusividade das marcas, né? É, eu teria que dizer que a Paulista trabalha com muita seriedade. Porque eles não cedem as marcas, principalmente a Rolex. A Rolex ela vasculha inclusive a vida do proprietário para ceder a marca. Porque a Rolex pertence a uma instituição de caridade. Porque o fundador da Rolex faleceu, ele não tinha herdeiros e entregou aquilo para uma fundação. E é administrada pelo governo suíço. De maneiras que eles não fazem muita questão de abrir, então eles fazem questão de ter uma loja, no caso duas. No meu caso, né? Que represente a marca mas que trabalhe sério. Para isso eles fazem uma pesquisa. É assim também a Omega. Por exemplo, eu fiz um contrato com a Omega de 1 ano há 40 anos atrás. Esse contrato já acabou faz muito tempo, nós continuamos como representante exclusivo. E assim também é com algumas jóias, de algumas fábricas de jóias. Até fábrica de jóia da Alemanha. Que eles vêm para as feiras aqui e nós temos exclusividade também da Alemanha e alguma coisa da Itália. Isso é um trabalho assim de muito esforço, né? E de provar a lisura com que a Paulista procura trabalhar, né?

CONCORRENTES
Hoje da família Pustiglioni não resta mais ninguém. Saíram do mercado. Tem alguma uma ou outra, terceira ou quarta geração mas ficou muito a dever. Para a Paulista, modéstia à parte.

PRODUTOS
Produtos mais vendidos Olha, a gente vende muita jóia. Jóinhas relativamente não caras. Aquelas gargantilhas com pingentinhos. Isso se vende. Isso é o pão nosso de cada dia, né? E vende-se ainda o Bulgari, vende-se Breitling, vende-se Rolex. Porque o sonho de todo mundo é ter o Rolex. Eu por acaso tenho. Há 45 anos.

PRODUTOS
Jóia mais cara que já vendeu A jóia mais cara que eu vendi, que eu me lembre foi para um despachante aduaneiro que ele viu foi para a esposa dele. Ele faleceu. Ele foi assassinado pelo motorista dele. Henrique Neto de Araújo. Eu vendia para a dona da Sharp também, né? Mas era difícil de receber. Eu vendi 12 Rolex de uma vez para eles. Foi isso para receber. Esse pessoal da alta sociedade de São Paulo está tomando banho, daqui meia hora está em Paris. É mais ou menos por aí. Pelo menos a conversa. Agora, para esse despachante aduaneiro eu vendi uma pedra de 15 quilates. Um diamante baguete. Se você me perguntar quanto custaria hoje, eu diria que hoje custaria 26 a 27 mil dólares o quilate. Porque ele viu na mão da Matarazzo e ele queria dar para a mulher dele. Mas, custou para arrumar. Ah, às vezes eu vou atrás sim. Eu tinha e tenho em Nova Iorque um fornecedor cujo sogro é lapidário na Holanda e a pedra veio com seguro, com nota direitinho. Mas isso já faz tempo essa pedra. Já faz uns 20 anos ou mais.

EMBALAGEM
Bom, a jóia, ela vai em uma caixinha especial, né? Aveludada ou com fundo de jérsei. Com nome da loja, caixa de madeira. Aí depois a embalagem é toda flú-flú, né? Mudou, mudou muito. Bom, quando eu estava naquela lojinha pequena a gente embrulhava em jornal. Modo de falar. Brincadeira. A gente embrulhava em caixinhas de papelão. Hoje não. São caixas de madeira. Dependendo da peça, né? Que custem caro. Caixas de madeira forradas de veludo com o nome da casa, aquele negócio todo.

COMÉRCIO
Perspectivas para o futuro Minha loja., ela é, bom eu acho que ela é uma das, olha não é opinião minha, opinião do Nelson da Vivara. Que a minha loja seria digna dos melhores shoppings de São Paulo. Então não são palavras minhas, palavras de um joalheiro, né, que tem 28 lojas. Eu fiquei resumido a duas lojas porque crescer em Santos é difícil. Nós temos 2 anos a mais do que a H. Stern. Mas é difícil, você começar a sua vida em São Paulo, começar a sua vida no Rio, comercial é diferente do que começar em Santos. Mas eu não sou ambicioso. Minhas ambições são muito limitadas. Eu nunca me esqueço, que eu me dou muito com vários joalheiros, né? O dono da Jóia Natan uma vez me perguntou o que é que eu fazia com o dinheiro que sobrava. Eu falei: "Bom, quando eu posso eu compro um imóvel, que não requer a minha presença física. E o pior que pode acontecer é pegar incêndio a gente põe seguro." Mas esse dinheiro, ele dizia: "Você é bobo. Porque esse dinheiro que você empata no imóvel eu giro oito vezes por ano." Falei: "Natan, você tem suas ambições, eu tenho as minhas. Eu estou em uma fase que eu quero paz, tranqüilidade e prudência. Tenho muito medo de dever. Não me arrisco." Porque minha vida não foi fácil. Ela começou muito difícil.

AVALIAÇÃO
Avaliação da carreira e considerações sobre o processo sucessório Bom, quem mudou fui eu, né? Eu conhecia muito pouco do ramo, hoje eu conheço bastante. Que eu vim de um ramo totalmente diferente. Hoje eu conheço bastante o ramo. Hoje é mais fácil, no meu tempo não existia escolas para isto. Hoje por exemplo, eu tenho um neto de 20 anos, que meu filho eu acredito que não vai herdar a loja porque não interessa para ele. Mesmo porque ele é um esportista, ele não vai concordar em ficar fechado entre quatro paredes. Ele é um engenheiro. Engenheiro de campo. Ele não gosta de ficar em escritório. Ele é sexto dan de caratê. Ele vai disputar em Okinawa. Quer dizer, se eu fechar um homem desses, hoje ele está com 47 anos, se eu fechar um homem desses em uma loja eu mato ele. Agora eu tenho um neto de 20 anos, da minha filha, que está começando a fazer curso de gemologia. Depois disso ele vai fazer curso de ligas de metais. Coisa que não existiam antes. Que a gente tinha que aprender na época, a gente tinha que aprender na prática, né? Hoje existe. Hoje forma vendedores, forma conhecedores de pedra, de gemologia, de ligas de metais. Forma designers.

PRODUTOS
Idealização de uma jóia Eu desenhando, né? Eu dizendo mais ou menos que eu não sou bom de desenho. Eu não sou bom de nada, mas em desenho eu sou pior. Então eu idealizo uma peça e mando Fulano desenhar. Ele desenha, aí eu vou atrás da pedra que vai ser colocado, vai ser colocada. Ou das pedras que vão ser colocadas. Levo para o ourives que trabalha para mim em São Paulo porque tem muita coisa que nós montamos. Tudo que leva brilhante são montagens nossa. E esse ourives monta, né? Eu separo o lote de brilhantes, escolho a qualidade melhor para montar as peças que eu quero ter.

FUNCIONÁRIOS
Relação patrão/funcionário Não, veja bem. Eu no começo era um patrão durão. Porque eu vim de fábricas que eu era gerente de produção, né, então tinha que ser durão. Então vim com essa mentalidade. Mas hoje não. Hoje eu brinco muito com os meus funcionários, converso muito com eles. Tento resolver muitos problemas deles. Por exemplo, eu tinha uma hora marcada ontem com o doutor... esqueci o nome dele agora, da vista, né? Está lacrimejando um pouco, porque eu já operei a retina em São Paulo. Tinha marcado para mim, mas eu tenho um funcionário meu que está com catarata. Aí passei para ele o horário, paguei a consulta dele, paguei a cirurgia e ele vai operar a catarata. Foi no meu lugar, né? E muitas coisas assim eu resolvo, porque em empresas pequenas nós somos uma família. Nós vivemos muito mais entre nós funcionários e patrão do que com a minha família. Quer dizer, meu filho eu vejo raramente mas os meus funcionários eu vejo todos os dias. Convivo com eles 10, 12 horas por dia. Então eu sei que uma está grávida, eu sei que a outra precisa disso, eu sei que esse precisa operar a vista, né? Então tudo isso vem ao meu conhecimento. E na medida do possível eu evito, aliás eles têm plano de saúde. Todos eles. Quer dizer, eu acho que eu sou um bom patrão. Mas isso é opinião minha, é opinião facciosa, né? Vocês têm que perguntar para os meus funcionários. Nós temos boa relação. A gente brinca muito, conversa muito.

VIDA ATUAL
Principais atividades hoje A minha principal atividade é a minha loja, embora eu faça muito esporte. Quer dizer, esporte porque eu gosto de esporte, né? Hidromassagem, natação em piscina. Eu gosto mais de nadar no mar. Mas eu nado em piscina. Mas sempre fiz esporte. Fiz muita loucura em esporte. Fiz judô, fiz aeróbica, fiz ioga. Tudo que era novidade que aparecia eu fazia. Mas acabei achando que era melhor a natação porque eu me machuco menos. Hoje eu faço hidroginástica na Rua São Luiz 49. Não é uma academia. É um negócio de tratamento, né, porque eu tenho problema de coluna. E nado na piscina do Omnis, mas agora eles perderam a piscina eu tenho que procurar outra.

SONHO
Eu teria vivido mais. Vivi muito pouco. Eu só fiz uma viagem para o exterior. Fui para Israel, não gostei. Achei o povo israelense - olha eu vou ser excomungado, hein? - o povo israelense muito frio e de lá fui para a Itália. Me senti em casa. Porque quando criança a minha vizinhança toda era italiana. Então eu falo um pouquinho de italiano e me senti em casa na Itália. Em Israel eu não me senti em casa. Porque eu nem mais falo o meu idioma. Porque eu falo iídiche. O iídiche é um idioma de judeus da diáspora. E lá eles falam hebraico, eles não falam iídiche. Eu só encontrei uma moça que falava iídiche. O iídiche é uma corruptela do alemão. Que falava iídiche, era uma colombiana que trabalha em uma lojinha de um hotel. De resto ninguém fala iídiche ou não quer falar.

AVALIAÇÃO
Lições de comércio Olha, foram tantas lições. Primeiro que eu não dou para ser comerciante. Porque o sentimento fala mais do que o racional. Hoje é um meio de vida, né? Mas eu gostaria de ter sido outra coisa mas não tive oportunidade. Se eu tivesse estudado, talvez eu fosse outra coisa. Como eu não estudei só me restava alguma coisa: eu ser funcionário de alguém como eu fui durante muitos anos e por sorte me chamaram para ser associado, né, dos meus irmãos e foi um impulso. Porque na realidade eu continuaria hoje como gerente da fábrica. O ambiente para mim era muito bom ali. Gostava muito do meu ambiente, porque onde eu me instalei tinha muito bêbado, muito assassino, muito... Quando eu vim para Santos eu falei: "Mas que terra de bêbado eu nunca vi gente beber tanto." Mas é que aí é o local que eu me instalei. Diferente do ambiente que eu tinha lá de operários. Que eram pessoas mais sérias, né? Eu gosto muito da classe operária. Eu acho que são sérios. Infelizmente os banqueiros não são.

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