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História

As primeiras conexões dos alunos com o mundo

História de: Fernanda Lucia dos Santos Augusto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/02/2009

Sinopse

Fernanda nos conta como foi sua juventude na cidade do Rio de Janeiro e de seu trabalho como professora em laboratórios de informática. Apesar de ser muito tímida, ela narra algumas histórias de traquinagens quando criança, da adolescência em que gostava muito de sair para passear, mas tinha sempre que driblar os pais. Aos 19 anos, tornou-se professora e, depois de casada, formou-se em Letras. Hoje, Fernanda tem dois filhos, e além de professora primária, cuida do laboratório de informática da escola, participando do projeto Tô No Mundo, parceria com a Oi Futuro, um trabalho que promove acesso à laboratórios de informática e internet para estudantes, professores e pessoas da comunidade. 

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História completa

P/1− Fernanda, para começar, eu quero que você me diga o seu nome completo, a cidade e a data do seu nascimento.

 

R − Bom, meu nome é Fernanda Lucia dos Santos Augusto, eu sou daqui do Rio de Janeiro mesmo, nasci no dia 19 de agosto de 1975.

 

P/1 − E os seus pais, quais os nomes de deles?

 

R − Minha mãe se chama Tânia Melo dos Santos e meu pai Antônio Carlos dos Santos.

 

P/1 − Eles nasceram aqui no Rio também?

 

R − Também, ambos nasceram aqui.

 

P/1 − E o que eles fazem?

 

R − Minha mãe é professora, né, e advogada, mas ela exerce muito mais a profissão de professora do que advogada e meu pai é psicólogo.

 

P/1 − E seus avós, você conheceu?

 

R − Conheci, todos eles, inclusive bisavós também.

 

P/1 − E eles são daqui do Rio também?

 

R − São, eu não tenho muita certeza de alguns, mas os avós mesmo são do Rio sim, foram, alguns foram, outros ainda são.

 

P/1 − E quando era criança, você morava com quem na sua primeira infância?

 

R − Olha, eu morava com meus pais, mas, quando eu tinha por volta de uns dois anos minha mãe se separou do meu pai e eu passei a morar com a minha mãe só, né, e depois até com o meu padrasto, mais pra frente e meus irmãos.

 

P/1 − E seus irmãos? Você tem quantos irmãos?

 

R − Eu tenho dois irmãos.

 

P/1 − Mais novos?

 

R − Não, são mais velhos, eu sou mais nova.

 

P/1 − E todos foram morar com a sua mãe?

 

R − Isso.

 

P/1 − Vocês moravam em que bairro?

 

R − Olha, já morei em muitos lugares, eu já morei no Méier, Engenho de Dentro e Jacarepaguá mesmo.

 

P/1 − E na época que você foi morar com a sua mãe, você lembra da casa onde vocês moravam? Era casa?

 

R − Era um apartamento no Méier, mas desse eu não lembro de muita coisa não, me lembro mais do Engenho de Dentro (risos).

 

P/1 − E como era lá?

 

R − Olha, a gente morava no primeiro andar, tinha que subir um lance de escada e tinha uns amiguinhos de lá, a gente brincava sempre com eles, né, com um menino que morava ao lado, numa casa ao lado, e foi uma infância legal ali (risos). A gente brincava muito com maribondo, a gente pegava maribondo para amarrar a linha, ficar brincando com eles (risos).

 

P/1 − Marimbondo?

 

R − Isso, a gente teria o ferrão deles com uma pinça e brincava ali (risos).

 

P/1 − E como vocês capturavam o maribondo?

 

R − Olha, eu tinha uma técnica (risos), esperava ele pousar na parede, pegava um chinelo, assim devargarzinho, encostava nele devagar, sem machucar, e ficava girando o chinelo até a gente conseguir ver o ferrão e tirar com pinça(risos).

 

P/1 – Uma super operação (risos).

 

R − Isso, hoje em dia eu não faço mais isso não (risos), tenho pavor.

 

P/1 − E o prédio tinha uma área coletiva?

 

R − Tinha na parte debaixo do estacionamento, e eu lembro que descia mais pra baixo, era tipo um subsolo, assim, era tipo um salãozinho, tipo um playzinho, onde se fazia aniversário, essas coisas, né, era mais simplesinho.

 

P/1 − E pra rua, você iam?

 

R − Brincar? Não, nessa época, não. Não porque era uma rua movimentada, né, a gente era muito pequeno.

 

P/1 − E o que você gostava de comer nessa época, você lembra da sua mãe, o que a sua mãe cozinhava?

 

R − Lembro, hoje em dia ela é diabética, né, mas antes dela saber que era diabética nessa época, ela fazia muito doce, e eu sempre fui uma formiga, né, então a gente comia muito doce, muitos que ela fazia, uns doces diferentes, ela inventava as coisas, sempre comia muita coisa (risos).

 

P/1 − Ah é?

 

R − Você não faz ideia de como eu era, eu gostava de pegar açúcar (risos), um pote puro, botava na mão e ficava comendo (risos). Leite condensado, a gente abria e tomava na lata.

 

P/1 − E com seus irmãos, como era, vocês brincavam dentro do apartamento?

 

R − Olha, na infância eu me dava muito melhor com o meu irmão, né, na época a gente brigava muito com a minha irmã, a gente brincava direto de carrinho, brincava com meu irmão de carrinho, meu irmão brincava de boneca, e minha irmã sempre foi mais assim de ficar cantando, mais inventando musica, né, mas a gente tinha um relacionamento legal, brigava bastante, mas tínhamos um relacionamento legal.

 

P/1 − Vocês dividiam quarto?

 

R − Dividíamos, éramos nos três num quarto só (risos).

 

P/1 − E aí?

 

R − Era normal, não tinha nada que fugisse a rotina assim não, era bem legal, cada um tinha seu espaço, né, aí eu botava minhas coisas lá junto, não tinha problema não.

 

P/1 − E vocês saíam para passear?

 

R − A gente ia muito para Floresta da Tijuca com a minha mãe que ela levava a gente sempre, fazia piquenique, essas coisas, né, eu saía com meu pai pra comer pizza, ia na casa da minha avó, minha vó paterna ia visitar, essas coisas, praia, meu pai levava a gente pra pescar, sempre gostei mais por causa dele, né, essas coisas assim.

 

P/1 − Aonde vocês ia pescar?

 

R − Olha, a minha vó morava na Ilha do Governador, então a gente ia, meu pai levava a gente muito pra lá, naquela época não era tão poluído quanto é hoje em dia, né, mas era besteira, um pescava aqueles peixinhos pequininhos (risos), só para divertimento mesmo.

 

P/1 − Com linha?

 

R − Isso, é, com linha.

 

P/1 − E você na sua casa, o que você aprendia lá, você aprendeu, você começou a se alfabetizar lá?

 

R − Na minha casa minha mãe botava a gente pra estudar, mesmo assim, para eu aprender, ler e escrever que você diz?

 

P/1 − É, ou os afazeres da casa, assim o que você lembra que você observava lá, que você aprendia.

 

R − Olha, estudava, eu estudava em casa, né, aprendi na escola, os trabalhos de casa ou quando tinha prova, alguma coisa assim, estudava. Em casa a minha mãe sempre colocou a gente pra fazer as coisas assim, pra criar responsabilidade, alguma coisa assim, né, cada um tinha a sua obrigação, cada tinha que arrumar nosso armário, tinha que lavar a louça, arrumar a casa, cada dia era dia de um (risos).

 

P/1 − Você tem alguma história bacana, assim da sua casa que você lembre, você gostava de algum cantinho dela?

 

R − Olha, no meu lado do quarto, eu tinha era muita foto do Tom Cruise, eu era apaixonada, tinha tudo, qualquer coisa que saía no jornal, revista, eu recortava, eu cortava fazia álbum e meus irmãos ficavam brincando comigo “ele é feio, ele é horroroso” “ah, não é nada”(risos), então eu tinha os pôsteres, né, colava na porta do meu armário, na parede, assim, as fotos (risos).

 

P/1 − Pra olhar?

 

R − É, coisa de adolescente, coisa de criança.

 

P/1 − E a casa da sua avó, reunia pessoas?

 

R − Olha a casa da minha vó paterna era um lugar que eu gostava muito de ir, porque eu gostava muito dela, né, até hoje eu me emociono ao falar dela, porque era aquela vó, vó mesmo, que contava historinha pra gente, fazia nossas vontades, a gente até dormia, quando dormia lá era uma briga pra ver quem ia dormir junto com ela, né. E eu lembro que ela dava mamadeira pra gente, né, escondido pra mim, principalmente pra mais nova, e aí, eu lembro que eu pegava a mamadeira e ficava mamando atrás da porta para o meu pai não ver, porque se ele visse, ele reclamava, né, brigava, mas ela era uma super vó, né, uma pessoa muito legal.

 

P/1 − Como que ela chamava?

 

R − Lourdes.

 

P/1 − Ela já faleceu?

 

R − Já, ela faleceu quando eu tinha uns doze, treze anos.

 

P/2 − Que histórias ela contava?

 

R – Eram historinhas assim, do patinho, do cachorrinho, ela inventava, né, a gente ficava “vó, conta aquela do patinho de novo”, ela tinha que repetir aquela história várias vezes, historinhas que ela inventava mesmo. Pra ir embora, eu lembro que eu chorava muito pra ir embora, porque eu não queria ir embora de lá.

 

P/1 − Você se lembra de alguma historia assim que você guarda?

 

R − Não, eu lembro só dessas coisas, patinho, gatinho, ursinho (risos), mas não lembro da história em si não.

 

P/1 − E como era, ela sentava vocês, assim?

 

R − Eu lembro que ela vinha, chegava lá, ela vinha, abraçava a gente, né, ela me chamava de minha bonequinha, ela sempre passava a mãe no meu rosto, assim, “ah, minha bonequinha” não sei o quê, “você tá linda”, não sei o quê, né, é a imagem que eu lembro dela.

 

P/1 − E primos, você conviveu com primos?

 

R − Tem, eu tenho primos sim, convivi, mais quando eu era criança, convivia com minhas primas, por parte do meu tio, irmão da minha mãe, e tenho primos também que são por parte da irmã da minha vó, de segundo ou terceiro grau, né, eu convivi com ambos, porque eu viajava muito com umas, saía muito com outros, principalmente na adolescência. Então, os primos por parte de irmã da minha vó materna são da nossa idade mais ou menos, na faixa etária mesmo, a gente fazia muita besteira com eles que a gente ia para as discotecas da vida, né, escondido porque a minha mãe nunca deixou a gente ir, a gente ia escondido, falava que ia dormir na casa deles, na casa do meu pai e a gente ia pra outro lugar (risos).

 

P/1 − E nas férias, vocês se reuniam com seus primos, vocês saíam juntos, ficava no Rio?

 

R − Nas férias a gente costumava muito viajar, a gente ia muito pra Angra, acampar em Angra, né, na época, e viajávamos muito pra Friburgo, para Mury que é uma cidade ao lado de Friburgo, né, é um camping clube de lá, né, geralmente eu ia muito pra lá, muito. Eu acho que todo ano a gente ia lá, inclusive a gente começou até a fazer uma casa lá, minha mãe com meu padrasto na época, né, e a casa já estava pronta praticamente, mas acabou que depois não deu certo o relacionamento deles e a minha mãe também não quis saber de nada, ficou por isso mesmo.

 

P/1 − E no começo, o camping era barraca?

 

R − Barraca, era um camping clube, a gente esticava a barraca, né, a gente adorava também porque tinha chamegos lá, a gente fazia muita amizade lá, tinha muita coisa pra gente fazer, né, a gente fazia muita besteira também (risos), adolescente faz muita besteira, né (risos).

 

P/1 − É, você já era adolescente quando você começou a cantar?

 

R − Não, não, eu era criança ainda, devia, sei lá, deixa eu ver... Ah, desde muito cedo, desde sei lá, uns cinco anos, menos ou um pouquinho mais, não lembro, mas por aí.

 

P/2 − Lá as brincadeiras eram outras, né?

 

R − É, tinha as brincadeiras de parquinho, os balanços, pingue-pongue, tinha quadras, né, que a gente brincava de bola, ia para as piscinas, né, só as brincadeiras, pique-esconde, pique-pega (risos).

 

P/1 − E em Angra tinha o mar, né?

 

R − Em Angra, a gente pegava muito conchinha, pegávamos estrela do mar, não pra levar pra casa porque minha mãe sempre foi educada a tirar os bichos, né, não matar os bichos, então a gente pegava, eu mostrava, tirava foto, botava de volta, né, eu lembro que uma vez eu até fiquei muito tempo catando concha, né, fiquei vermelha para caramba, eu não conseguia nem dormir depois de tão ardendo que eu fiquei (risos).

 

P/1 − E vocês comiam o que, assim, como que era esse dia-a-dia da barraca?

 

R – Minha mãe fazia comida na barraca mesmo, ela tinha aqueles fogareiros de camping, né, aquele de duas boquinhas, fazia comida mesmo, arroz, fazia feijão, macarrão (risos).

 

P/1 − Coisas de lá de Angra, assim?

 

R − Ah, isso foi lá em Friburgo, né, em Mury no camping, em Angra, eu não lembro muito bem, não, mas eu sei que em Angra, às vezes a gente ficava numa casa, né, que era uma propriedade particular, que o caseiro conhecia a gente e ele abria pra gente poder acampar com autorização do dono da propriedade, né, então a gente acampava alguma vezes de barraca, na própria área da praia mesmo perto da praia, outra a gente ficava na própria casa dele, né, como ele não estava, a gente podia ficar na casa dele, né, e aí, era mais fácil.

 

P/1 − E aí, vocês conviviam com ele lá, você lembra dele?

 

R − Não lembro muito bem dele, não, não lembro muito não, nem o nome dele, tá me fugindo aqui, não lembro não.

 

P/1 − E aqui, quando você começou a ir pra escola, você se lembra das suas primeiras idas à escola?

 

R − Olha, eu era assim, na escola, eu ia, eu era muito tímida, extremamente tímida que eu não abria a minha boca, eu lembro até que numa ocasião, era o jardim, sei lá, não lembro, acho que era o jardim da infância, né, que tinha um dia da semana que a gente ia pra uma piscininha, recreação com a professora, e a minha mãe mandou lá o biquinizinho, né, na minha mochila, que a professora tentava tirar minha calça e botar o biquíni, eu puxava (risos). Eu não fui, aí ela me colocou dentro de uma piscina de calcinha e eu saí, pulei fora e fiquei no meu cantinho lá, quieta. (risos) Não ia mesmo, eu era muito tímida. Cheguei a fazer xixi nas calças porque eu não tinha coragem de pedir para ir ao banheiro (risos).

 

P/1 − Olha só! Era uma escola perto da sua casa?

 

R − Olha, nessa época eu morava no Engenho de Dentro, eu não sei, eu não lembro onde é que ficava essa escola, eu lembro o nome da escola, mas não lembro se era longe, se era perto, se eu chegava rápido ou não, não lembro.

 

P/1 − Mas você lembra do ambiente da escola assim?

 

R − Eu lembro que a gente formava no pátio antes de entrar pra sala, cantava o hino nacional, descia umas escadas e a minha sala ficava lá pra baixo, depois desse vão da escada, mas não lembro muita coisa não, até porque eu mudei muito de escola, né, eu fiquei praticamente dois anos em cada escola. Eu fiz jardim CA [Classe de Alfabetização] nessa, primeira e segunda série em outra, terceira e quarta em outra, quinta em outra, sexta, sétima e oitava em outra, até no ensino médio eu pulei de escola uma vez (risos).

 

P/1 − Nossa! Morando no mesmo bairro ainda?

 

R − É, primeiro morando no mesmo bairro eu estudei em duas escolas diferentes, depois eu troquei, fui para Jacarepaguá, do Engenho de Dentro pra Taquara e aí, troquei de escola mais próxima, né, e aí depois as outras eram mais próximas da minha casa, né, também.

 

P/1 − Ia mudando você e seus irmãos? Ia mudando você e seus irmãos de escola?

 

R − Também, eles iam, todo mundo mudava junto.

 

P/2 − Teve uma mudança que você resistiu mais?

 

R − Olha, eu não sentia muito assim, mudança acho que é por mudar tão cedo de escola, já acostumada, né, a não ficar muito tempo numa escola, mas eu como era muito tímida, pra mim tanto fazia (risos), pra onde fosse eu que não falava com ninguém mesmo (risos). Então eu mudava de escola tranquilamente, acho que de repente eu ficava mais tímida ainda por conta disso, né.

 

P/1 − Nessa passagem assim, pelo menos da primeira à quarta série, qual a escola que você se sentiu bem, assim, você lembra?

 

R − Olha, teve uma escola, que eu, foi na terceira série que eu entrei, muito tímida ainda, mas conheci uma menina, uma colega que sentava do meu lado que não sei se ela era tímida também, ou se ela ficava com pena de mim (risos). Não sei, né, que ela ia falando comigo aos pouquinhos, eu ia respondendo assim, aos pouquinhos, e depois na série seguinte eu já estava mais, um pouquinho melhor, né, mais solta, né, um pouco melhor, tanto que quando eu mudei de escola que fui pra outra escola, eu fui pra quinta série, na quinta série eu já estava assim, outra pessoa, né, já era bem bobona, brincava muito, né, com os colegas.

 

P/1 − E aí, você também era mais jovenzinha, né, era diferente.

 

R − É, também (risos). É, um pouco maior, né.

 

P/1 − E aí, quando você entrou então na quinta série, como que era as pessoas, o que você fazia na escola, assim, como que era o seu convívio?

 

 

R − Na quinta série, eu lembro que eu era mais solta mesmo, brincava muito, fazia muita bobeira, né, aquela coisa de pré-adolescente, já ficando... Mas, eu era palhaça mesmo, né, eu brincava, falava besteira a beça, né, não lembro muito bem, não lembro porque nessa escola eu só fiquei um ano, só fiz a quinta série então até os próprios colegas de sala eu não lembro muito deles não (risos). Eu fico às vezes assim no Orkut, as pessoas me acham, né, me adicionam “oi Fernanda, lembra de mim, lá da escola tal” eu falo assim “olha, desculpe, mas minha memória tá ruim hein” (risos). Aí eu tento ficar puxando assim, mas não lembro muito das pessoas não, eu tenho uma memória fotográfica assim, meio falha (risos) pra rosto, alguns eu lembro, outros não.

 

P/1 − Teve algum professor que te marcou?

 

R − Professor que me marcou, boa pergunta, deixa eu ver, eu lembro dessa professora do jardim, Regina se não me engano, tia Regina, uma professora boazinha e tudo, eu era muito tímida, eu lembro que ela era bem paciente comigo, não forçava nada, não forçava a barra, não me pressionava pra falar alguma coisa, não, ela tratava a mim, normal, sem pressão, né. E professoras também do ensino médio, quando eu fazia o normal, eu lembro de um professor que ele vinha de bicicleta para escola, a gente achava o maior barato isso, né, a gente achava graça, nele, né, ele era engraçado, né, as aulas dele eram engraçadas também, né, a gente ficava bem à vontade.

 

P/1 − Ele era professor do quê? Desculpa.

 

R − Matemática.

 

P/1 − Você lembra de alguma aula dele assim?

 

R − Ele era meio louco, assim, né, mas, ele dava uns exemplos aí, colocava umas situações mais ou menos cômicas, né, para poder explicar alguma coisa da matéria dele, a gente achava bem legal.

 

P/1 − Ainda quando você era criança, você lembra assim de qual era seu sonho, assim, uma expectativa grande, tinha alguma coisa que te cativava?

 

R − Sonho da minha infância... Eu não lembro assim muito não, mas assim, em relação à profissão, por exemplo, eu sonhava em ser veterinária, né, porque eu sempre gostei muito de bicho, muito, de qualquer bicho eu gosto, detesto que faça maldade com bichos, eu passo isso para os meus alunos hoje em dia, né, mas assim, um sonho fora disso, que eu lembre assim, não.

 

P/1 − Porque às vezes, né, a gente fica “ah, quero dirigir”, eu quero, né, coisas da vida adulta (risos).

 

R − É, eu ficava querendo crescer logo, né, acho que criança, hoje em dia não sei também se se pensa assim, mas, a gente ficava assim também porque minha mãe era uma pessoa muito exigente e também não deixava a gente fazer quase nada porque ela ficava preocupada, né, a gente até entende hoje em dia, né, porque tomar conta de três filhas sem o pai, né, do lado. Mas ela não deixava a gente sair pra lugar nenhum, a gente ficava assim “mãe, é matinê, mãe” (risos), “não”, dormir na casa de colega, ela não deixava também, né, então a gente queria crescer logo para poder ter liberdade, né, maior. (risos)

 

P/2 − Então você gostava muito das festinhas?

 

R − Gostava, era nessas aventuras que a gente fazia com os nossos primos também, era uma coisa assim que eu amava de paixão (risos), a gente saía. Eu lembro que uma vez a gente foi para uma boate, uma discoteca em Botafogo se não me engano, meu primo morava em Ipanema e a gente voltou, dormimos na casa dele, que a mãe dele, né, minha prima, estava viajando, então a casa estava liberada pra gente e é uma galera, né, porque a gente, os primos mais os amigos. E a gente foi depois para casa do meu avô que o meu tio também foi com a gente, que é um tio que eu tenho que é novinho também, gosta de farra também, né, a gente foi pra casa do meu avô, né, a casa onde morava, e a gente subiu a escada, assim, bem devagarzinho pra não acordar meu avô, que meu avô também não sabia que a gente estava lá, e pra ir embora no dia seguinte, a gente teve que pular o muro para o meu avô não ver (risos) que a gente estava lá, e minha irmã até deu um mal jeito no pé, tudo, né, foi mancando. Depois a gente foi pra casa do meu pai, nesse dia deu uma confusão porque minha mãe tinha ligado para o meu pai, que a gente tinha falado pra ela que a gente ia dormir lá, e meu pai não estava sabendo de nada, aí, ele disse: “Não, elas não estão aqui”. Quando chegamos lá, aí, o meu pai “olha tem uma confusão aí, tua mãe ligou pra cá, disse que vocês estavam aqui e vocês não estavam”, aí, a gente já tremeu nas bases, né, tivemos que voltar cheios de medo pra encarar depois a minha mãe (risos), lá.

 

P/1 − E como foi quando você encontrou sua mãe?

 

R − Aí, foi uma briga danada, a gente ficou de castigo um tempo. (risos)

 

P/1 − Não podia sair?

 

R − Não, depois disso não, mas sempre arrumava uma fuga, né.

 

P/1 − E as paqueras, né, com você nessa época?

 

R − Eu era muito tímida na escola, né, depois fiquei mais solta com meus amigos, né, mas com amigos eu era de um jeito, mas para namorar, paqueras, eu continuava muito tímida, aí, fiquei muito tímida até conhecer meu marido, eu era muito tímida, né, então sempre foi meio que travado pra mim essa questão de namoro, de paquera, eu até tinha um menino que eu era apaixonada, né, mais assim, à distância. (risos) Nunca tive coragem de chegar perto dele pra falar alguma coisa, eu só ficava olhando, assim, aquele negócio de adolescente, quando ele passava por mim, eu gelava toda, inteira, mas nunca tive coragem de falar com ele, né, ele também não deve nem ter percebido. (risos)

 

P/1 − E quando chegavam perto de você?

 

R − (risos) Eu ficava muda, (risos) eu não tinha namorado em séries assim, não namorava muito tempo, né, não durava muito tempo, porque eu não tinha coragem para falar as coisas, minha cabeça ficava assim, a mil por hora, né, na minha cabeça eu “fala isso, porque você não fala isso?” (risos) E as coisas não saíam, e eu ficava travada e os namoros acabavam, né, rápido, porque quem é que ia ficar com uma pessoa assim, né, calada do lado? (risos)

 

P/1 − Você lembra de algum episódio, assim, específico que aconteceu?

 

R − Ah, eu lembro que uma vez eu fui ao shopping com um namoradinho, né, e que eu passeei o shopping inteiro andando ao lado dele, sem falar um “ai” e com esse negócio na cabeça, né, “por que você não fala isso? Bora Fernanda, como é que é? Coragem” (risos) e nada e eu voltei no ônibus, ele falava alguma coisa comigo, eu falava sim, não (risos), ia e voltei no ônibus com ele e sem falar nada, depois desse dia eu acho que ele nunca mais apareceu. (risos)

 

P/1 − E você falou do seu marido, como que você conheceu ele?

 

R − Conheci ele na praia com uma amiga, estava com ela na praia e ele veio com o amigo dele, mais o amigo dele, porque ele também é meio tímido, né. Aí o amigo dele era mais despojado, e a gente se conheceu, né, minha amiga ficou com esse amigo dele, na época, e eu só fui começar namorar meu marido depois de uns dias até ter coragem, né. (risos) Até pra saber se daria certo ou não mesmo, e depois a gente começou, eu era muito tímida, ria de tudo, eu ria era muito, qualquer coisa, passou alguém do meu lado com uma roupa diferente eu estava rindo, ele foi muito paciente (risos).

 

P/1 − E aí, vocês namoraram por quanto tempo?

 

R − A gente ficou de 92 até, noivamos em 95 e casamos em 96.

 

P/1 − E você casou na Igreja?

 

R − Não, eu quis, eu sou meio assim, eu gosto das coisas diferentes, eu não gosto muito das coisas certinhas não, padrão, não, então a gente casou no próprio salão de festas, nós chamamos um padre lá, né, e ele casou a gente no salão de festa, a gente arrumou tudo lá direitinho, aí casamos fora da Igreja.

 

P/1 − E você conheceu a família dele logo assim?

 

R − Mais ou menos, a gente demorou um tempinho, acho que ele tinha vergonha, ele era envergonhado, achava que a casa dele era muito feia, que era muito simples e até ele me levar lá, custou um pouquinho, né, depois ele falou pra mim que ele quase desmanchou comigo por conta disso, né, uma época. (risos) Mas é isso.

 

P/1 − Vocês se acharam?

 

R – É. (risos)

 

P/1 − Voltando um pouquinho ali no ensino médio, quando foi que você começou a pensar assim, ser professora, ou pensar numa profissão que fosse já mais próxima de uma profissão?

 

R − Eu fui meio assim, minha mãe me sugeriu “ô Fernanda por que não faz o normal?”, tinha até começado a fazer um médio cientifico, né, que chamava na época, né, mas comecei e eu não sabia, até pouco antes de começar o ensino médio eu não sabia o que ia fazer da minha vida, eu queria ser veterinária, mas achava que não ia pra frente esse plano, né. Eu fiquei meio assim, “o que eu que eu faço?”, tentei fazer prova pra escola técnica, mas aí, eu não consegui de início, aí, eu desisti e comecei a fazer o normal, assim como quem não quer nada, vamos fazer o normal, pra ver onde é que vai dá isso, aí comecei fazer, fui gostando, né, aí terminei, logo que eu terminei, saiu um concurso para o município do Rio, para professor, eu fiz, já entrei logo e tô, sou professora desde então.

 

P/1 − Você queria ser veterinária, você tinha bicho assim, de estimação?

 

R − A gente arrumava muito bicho na rua, pegava gato, aí, levava pra casa pra cuidar, a gente morava em casa na época, né, teve uma vez que a gente levou um cachorro, o cachorro veio seguindo a gente, a gente ficou com pena, a gente levou o cachorro pra casa. (risos) De tudo, passarinho caía, na nossa casa tinha uma piscina, né, aí, virava e mexia, tinha um bicho se afogando, a gente salvava o bicho. (risos) A gente criava de tudo lá, até aranha eu criava, a gente ia pra Friburgo, né, pra Mury, eu ficava catando aranha, botava no aquário, aí botava mosca e gafanhoto. (risos)

 

P/1 − E sua mãe achava o quê?

 

R − Minha mãe não esquentava muito porque morávamos em casa, né, mas eu lembro que depois a gente se mudou, era um apartamento, um apartamento bem pequeno, e aquela casa era enorme, o apartamento era pequenino, eu lembro que uma vez meu irmão veio com um dobermann, ele achou um dobermann na rua e levou lá pra casa (risos), aí, ele falou que seguiu ele, que ele pegou, que não era brabo, não sei o quê. Aí, eu lembro que meu irmão neste dia, teve que dormir na área com o cachorro que minha mãe ficou com medo, né, aí, deixou meu irmão dormindo na área, mas, depois a gente arrumou até uma pessoa para dar e a pessoa ficou com ele, né.

 

P/1 − E essa casa, você saiu daquele apartamento que você morou e foi pra sua casa?

 

R − Isso, a gente saiu de Engenho de Dentro e fomos para essa casa.

 

P/1 − Que era onde?

 

R − Em Taquara.

 

P/1 − E como que era lá?

 

R − Era bem legal, até porque, eram duas casas, uma em cima da outra, né, em cima meus primos vinham, né, não moravam ali, mas eles vinham sempre pra lá, pra ficar com a gente, fazer churrasco com a gente lá e tinha muitos amigos na rua, também, né, era uma rua tranquila, e era bem legal ali. Tinha a piscina, mas a piscina vivia vazia porque dá trabalho cuidar de piscina, né, e a gente deixava aquele negocio lá, né, secando, a água ficava verde, hoje em dia é um absurdo, né, a dengue. (risos) Mas a gente de vez em quando lavava, aí, quando a gente queria fazer alguma festinha, algum outro churrasco, a gente ia lá, limpava, todo mundo ajudando, os vizinhos, os colegas da gente também iam lá pra ajudar.

 

P/1 − Época das festas?

 

R − É, isso.

 

P/1 − E na cidade, tem alguma festa, carnaval...

 

R − Minha mãe levava a gente muito pra ver na Rio Branco os desfiles que tinham na época, né, na Rio Branco e num clube que tem lá em Jacarepaguá, também, Professorada, tinha umas festinhas de carnaval lá, mas eu ia na matinê porque não tinha, porque não tinha idade pra ir mais tarde, né, mas saía bastante, né, nessas partes de carnaval, a gente curtia bastante, a gente ia muito na rua, na época a minha mãe levava a gente.

 

P/1 − A Rio Branco já era escola de samba?

 

R − Era uns blocos que passavam, né, na Rio Branco, que a gente gostava de ir pra assistir, a gente gostava bastante.

 

P/1 − Acompanhava os blocos?

 

R − Não sei, eu não lembro muito bem, não, eu lembro desses detalhes, né, de que a gente ia, minha mãe levava a gente bem pequenininho,  nas frente tinha os cordões de isolamento, né, e a gente ficava parado ali assistindo, né, às vezes a gente andava, não lembro muito bem não, mas a gente gostava de ficar, vinha muita gente, né, aquele monte de gente, né, todo mundo brincando, a gente era bem pequeno nessa época também, né, já estou voltando para infância de novo.

 

P/1 − Mais velha, assim, já na época que você ia pra festinhas, que outros lugares, assim, você gostava de ir?

 

R − Olha, eram lugares que a minha mãe deixava a gente ir, pra shopping, pra festinhas com amigos, assim, festinha de aniversário de alguém, na rua ali, né, e tudo. Mas quando eu era adolescente, eu gostava mesmo era de sair nessas aventuras que a gente fazia às escondidas, né, a gente se divertia mais.

 

P/2 − E como você fazia pra fazer escondido?

 

R − A gente sempre inventava, nós eramos três, eu, minha irmã e meu irmão, então a gente falava lá com meu tio, né, que meu tio também estava na confusão, meus primos, a gente “olha, a gente diz que vai dormir na tua casa, diz que vai dormir na casa de não sei quem, né, e vamos”, a gente fazia maior esquema. (risos) Era um esquema, mas sempre dava certo, só teve uma vez que ao deu, tanto que é depois que a gente cresceu, a gente falava “poxa, mãe”, depois que a gente já estava grande já, fora de casa, né, se não ia dá problema de novo, disse “poxa mãe, você sempre proibia a gente”. Porque minha mãe tinha muito medo, dizia que esses lugares tinham drogas, né, eram uns lugares promíscuos, não sei o quê, né, e ela não deixava por conta disso,  mas falava, “olha, mãe, a gente sempre foi, sinto informar (risos), a gente sempre foi e nunca tivemos nada disso, sempre fomos e voltamos numa boa” (risos) Ela: “é, né, vocês me enganaram”.

 

P/1 − E aí qual foi o seu primeiro emprego, já concursado?

 

R − Já, já comecei a trabalhar no município, já, nunca trabalhei fora do município ou qualquer outra profissão, me formei e já entrei no município direto como professora e desde então sou professora e não conheço outra profissão.

 

P/1 − E aí, como é que foi, chegar na escola?

 

R − Olha, eu lembro que quando eu entrei, eu fui trabalhar numa escola que não era bem uma escola, era um espaço cedido de uma igreja, né, e ficava na Rocinha, essa escola, né, do município, eram duas turminhas de manhã e duas turminhas da tarde, só, né, numa salinha por dentro da outra. Era um espaço muito pequenininho, era uma escolinha que hoje em dia nem existe mais, aí, eram duas turmas, uma turma de primeira série e uma turma de CA de manhã e uma turma primeira série e uma turma de CA a tarde, então eu ficava com CA.

 

P/1 − CA o que é?

 

R − CA é classe de alfabetização, que hoje em dia não é mais CA, hoje em dia é o primeiro ano, que agora mudou, né, então era o primeiro ano, o segundo ano, no caso CA, né, primeira série, uma turminha de cada num turno, outra turminha de cada noutro turno, e eu comecei pegando um CAzinho no primeiro ano, e eu lembro que eu ficava meio assim, as crianças eram muito carentes, eu lembro que eu indo trabalhar eu via aquelas crianças de uniforme, ai meu Deus do céu, será que são meus alunos, e ficava olhando assim, meio assustada, eu era novinha, eu acho que eu tinha vinte anos, dezenove anos, quando comecei a trabalhar e eu sentia muita pena das crianças também. E logo depois a diretora pediu pra eu pegar a outra turminha de CA porque estava sem professor, “mas eu to começando agora, como eu vou pegar duas turmas, né? Não tenho muita experiência ainda”, ela: “não, mas pega, tadinhas, eles estão em casa”, eu “ah, tá bem” e já comecei pegar dupla regência nessa época, que era tipo uma hora extra, né, e eu peguei as duas turmas, aí, eu via coisas assim, que eu fiquei muito, muito, assim, muito impacto, né, aquelas coisas que a gente via, aquelas crianças, saber da história das crianças, né, saber como era a vida delas na família. Tinha umas que tinham uns casos muito esquisitos, né, por ser onde era, né, eles viam o que queriam e o que não queriam, então eu quis sair de lá, ainda não sei, se eu era nova, né, eu tinha caído naquela escola de paraquedas, então eu fiquei assim meio apavorada e quis sair de lá porque eu ficava muito envolvida com aquela vida deles ali, né, mas é isso.

 

P/1 − As histórias, assim, por exemplo, você...

 

R − Olha, eu lembro de um caso de um menino que eu pegava a irmã dele de manhã e ele a tarde, né, a irmã dele era super descolada, uma menininha que brincava, falava bastante e ele não, ele era todo, assim, todo calado, muito tímido, né, urinava sempre na sala porque tinha vergonha de pedir pra ir ao banheiro, e eu lembro que uma vez ele chegou sem material, o nome dele era até Gustavo, eu falei “Gustavo, seu material, cadê Gustavo?”  eu tinha que chegar muito perto pra ouvir, né, e depois eu tentei tirar dele alguma coisa e não consegui e aí, fui falar com a minha diretora. Aí, ela me disse que o pai tinha pego o material dele e tinha jogado num valão lá, né, e aí, eu vi que aquele pai, com ele era de um jeito, com a menina era de outro, então ele batia muito no menino e a menina ele deixava mais solta, tinha um relacionamento mais diferente, né, e aí, aquilo ali me deixou meio triste, né, também. Um outro caso, com um outro menino também, ele super carinhoso, ele vinha “tia, eu te amo, tá tia”, ele vinha e me abraçava, às vezes eu queria dar aula e ele não deixava e ficava em cima, eu “tá bem Carlos, tá bom, eu também gosto muito de você, mas senta aí pra tia dar a aula pra vocês, pra aprenderem, né, as coisas que a tia tem pra ensinar hoje pra vocês que vai ser legal, senta lá pra a gente ver”. Ele vinha toda hora e eu lembro que a mãe dele também quando deixava ele na escola, ele ficava “tchau mãe, tchau, eu te amo viu”, ele jogava beijo pra mãe, né, mas, e um dia eu fui conversar com essa mãe dele porque ele não parava, além dele ser carinhoso, ele também não parava quieto, ele perturbava a sala inteira, né, aí, eu fui conversar com ela um dia, né, assim tentando não falar nada do menino, né, porque eu tinha até pena dele e tudo, aí, eu lembro que no dia seguinte, ele apareceu todo machucado, né, aí, eu “o que houve Carlos Henrique?”, ele:  “não tia, eu caí”, mas uns riscos assim, né, diferentes, eu “como assim, caiu, você caiu mesmo Carlos?”  “não, caí”. Eu fui lá falar com a minha diretora, aí, ela “olha, Fernanda, com essa mãe você não pode falar mais não, porque essa mãe ela bate mesmo, ela bate com fio, ela bota o menino de castigo em cima de chapinha de refrigerante, de costa para parede”, eu, “ah, meu Deus o que é que eu fiz?” (risos) e eu fiquei traumatizada depois disso, nunca mais falei com ela, né, ela veio uma vez falar comigo, como é que ele estava, aí, eu, “ele ta ótimo, melhorou à beça, tá super diferente” (risos) e eu soube também que essa mãe batia na vó, batia na mãe dela, era uma coisa muito estranha, eu nunca mais, depois disso, eu tentava resolver era comigo mesma. (risos)

 

P/1 − Você estava contando mais uma história lá da sua escola que era na Rocinha?

 

R − Isso, que tinha lá, o chefão do tráfico, deve ser, né, não sei, que até as crianças tinham pavor dele, então as crianças vinham pra mim, “tia, olha, ele falou o nome dele, tia”, eu falei “o nome de quem menino?”, “o nome dele tia, não pode falar o nome dele não tia” eu falei assim, “mas, quem?”, “ele falou o nome do... tia”, bem baixinho no meu ouvido, e eu, “Ah, tá bom, olha, não fala o nome dele não, (risos) não pode falar o nome dele não”, aí, depois eu fui saber quem era a peça, né, a figura, mas eles tinham pavor, né, já aquele clima, né, de favela, que tem aquelas regras todas, né.

 

P/1 − E a escola era aonde, era em baixo?

 

R − Era perto, não precisava subir muito não, eu lembro que eu saltava ali na entrada do túnel para aquela passarela que tem ali logo em frente, né, entrava na primeira rua, subia uma ladeirinha, era no final daquela ladeira, não era muito lá pra cima, muito escondida não, mas de vez em quando tinha umas situações assim que tinha uma escola mais acima e falava: “olha, segura as crianças aí, que tá tendo tiroteio aqui né, deixa ninguém sair não”, ou de vez em quando a polícia subia, eu lembro que outra vez eu estava indo pra escola, eu andava naquelas ruas ali, igual cavalo com aquele tapa olho, né, só olhava pra frente. Eu lembro que dois homens estavam conversando e aí um cutucou o outro, “quem é essa daí?”, eu, “ai meu Deus” (risos), “não, se liga, não, essa daí é professora lá de cima”, eu, “Ai, graças a Deus que ele me conhece” (risos), subi numa boa, né, eles respeitam pelo menos os professores, né, ainda bem. Aí, dizia, né, quando tinha guerra, de traficantes, né, eles avisavam as escolas para não ter aula, né, mas quando a polícia subia, era difícil, né, porque eles sobem de surpresa, né, aí, tinha esses problemas de segurar a criança, soltar a criança, eu ficava apavorada.

 

P/1 − E você convivia com outras pessoas, ali ao redor, morador?

 

R − Não, não, só com a diretora, né, diretora adjunta e a outra professora, né, que trabalhava ali, eram poucas pessoas.

 

P/1 − E nessa época, onde você morava?

 

R − Nessa época eu morava em Taquara mesmo, só que em outro lugar.

 

P/1 − E como você fazia pra ir pra lá?

 

R − Eu tinha que pegar dois ônibus, não, ih, me deu um branco agora. (risos) Mas acho que era um ônibus só, eu acho que era, era porque eu pegava cedo, eu lembro que era cheio a beça, eu tinha que ir espremida, eu às vezes ia na porta, não consegui passar na roleta, e eu ficava li espremida, era na ida e na volta, era uma coisa de louco, né, o que valia era só trajeto que a gente passava pela Estrada do Juá, né, o ônibus passava pela Estrada do Juá e ver aquela paisagem toda dava uma relaxada, mas era aquele negócio de sardinha em lata mesmo, né, pra ir, e um trânsito terrível pra voltar, era uma coisa de louco.

 

P/1 − Dava até pra conhecer as pessoas do ônibus.

 

R − É, você conhece sem querer. (risos)

 

P/1 − E depois que você saiu pra onde você foi?

 

R − Depois que eu saí daquela escola, eu fui pra essa escola que eu trabalho até hoje, foi logo no ano seguinte, eu comecei em 95 nessa escola, em 96 eu estava na outra escola, aí, eu tô lá até hoje.

 

P/1 − E foi diferente, como foi essa mudança?

 

R − Ah, é bem diferente, lá, quando eu fui trabalhar, ainda é muito calmo, mas era mais calmo ainda porque praticamente parece um meio rural ali ainda, né, então os alunos vão pra escola de bicicleta, era muita bicicleta, hoje em dia está um pouquinho diferente, mas a estrada principal, ali a Estrada dos Bandeirantes na minha... Que precisa atravessar para ir pra escola, era, não precisa nem olhar para o lado para atravessar a rua que quase não passava carro, hoje em dia já está movimentada, aquele bairro está valorizando, né, tem um monte de condomínio nascendo ali, né, mas na época em que eu fui trabalhar lá era tranquilíssimo, tranquilíssimo.

 

P/1 − Você ainda morava em Taquara?

 

R − Ainda morava na Taquara.

 

P/1 − E como que era seu cotidiano assim de professora? Porque professora trabalha na escola e também trabalha um pouco em casa.

 

R − É, eu desde que trabalhava na Rocinha comecei dupla regência e já fui pra Margem Grande pegando dupla regência também, né, então eu saía bem cedo de casa, né, porque apesar de ser no mesmo bairro que eu moro, que eu trabalho, mas é um bairro enorme, né, então ele é todo subdividido, né, então eu morava em Taquara, aliás desculpe, mas, não, assim que eu comecei a trabalhar lá, eu morava na Taquara, mas depois casei nesse mesmo ano, em 96 eu casei e fui morar na Praça Seca, né, então em 96 eu estava na Praça Seca. Na Praça Seca, eu tinha que acordar bem cedo. (risos) Porque é mais distante, né, pra poder chegar em Vargem Grande, né, e chegava em casa morta, né, mas como eu não tinha filho ainda, (risos) não tinha muito que fazer na minha casa, a casa estava do mesmo jeito que eu deixei.

 

P/1 − E o que você fazia de lazer?

 

R − Olha, cinema, praia, shopping, coisas que eu sempre gostei de fazer, coisas normais do dia-a-dia mesmo, né, viajar, eu gosto muito de viajar, né, mais essas coisas.

 

P/1 − E aí, depois que você casou, você fazia a mesmas coisas com o seu marido?

 

R − Meu marido é mais caseiro, né, ele não é de sair muito não, mas assim, eu arrasto ele, né, porque eu não suporto ficar dentro de casa, eu acho que principalmente final de semana, eu já trabalho a semana inteira, pelo menos final de semana tenho que sair, pra sair pra me divertir um pouquinho, né, porque não há quem aguente, mas, eu não gosto de ficar dentro de casa, não, quer me matar é me deixar sábado dentro de casa (risos) ou domingo sem dá uma voltinha, sem olhar a rua. (risos) A gente vai, quando tá chovendo é shopping ou cinema, né, quando tá sol, a gente vai à praia, sobe, vamos pra Petrópolis ou Teresópolis, fazer um passeio diferente, nem sempre, né, a maioria das vezes é shopping mesmo ou praia, é só para não ficar dentro de casa mesmo, um restaurante, né, essas coisas, a casa da minha sogra, a casa da minha mãe.

 

P/1 − E como veio a decisão de casar?

 

R − Olha, a gente ficou bastante tempo junto, né, de 92 até 95 que foi quando a gente noivou, né, e aquela vontade de sair de casa, de ter sua própria casa e tudo, né, acho que foi uma boa motivação e já tinha muito tempo, né, aquele negócio de casal apaixonado na época, né. E a gente casou, eu estava doida pra sair de casa, (risos) sair um pouco da pressão de casa, né, e é só isso.

 

P/1 − E a notícia para as famílias assim, como foi a recepção da decisão?

 

R − Foi bem recebida, tanto de uma família quanto outra, a minha sogra é que ficava, né, “vocês vão me dá um neto logo, né, porque eu vou morrer sem ver meu neto”, eu falava assim “Ah, fala sério, vai nada”, “não, eu vou morrer”, ela sempre achava que ia morrer cedo,né, acabou que ela viu todos os netos dela, tem mais neto nenhum pra ver e tá lá até hoje. Mas foi bem recebido pelas duas famílias, minha mãe gostava, gosta muito do meu marido, né, e minha sogra também não tenho nada contra ela, sempre me tratou muito bem, tanto ela quanto o meu sogro, né, meus cunhados, é isso.

 

P/1 − E veio logo, o neto?

 

R − Olha, os dois vieram assim sem pensar, né, muito, tanto é que o meu mais velho veio cinco meses após eu ter casado, cinco meses depois eu engravidei, né, então foi sem pensar mesmo. Eu tomava remédio e tudo, mas tem aquela regra, né, que tem que parar de tomar um tempo, se não faz mal, não sei, eu ficava meio encucada com isso, então eu parava, né, só que até eu tomar de novo custava porque eu demorava a vir aquela coisa que tem que vir, minha. (risos) Então numa dessas paradas eu engravidei, então eu só fui saber que eu estava grávida, com uns quatro meses depois, eu estava com dois meses de gravidez e eu fui descobri que estava grávida, quatro meses depois, depois da última regra no caso, né, e o meu mais novo também.

 

P/1 − E aí, como foi essa notícia?

 

R − Foi aquele impacto, né, que eu fui fazer exame de sangue, né, e deu positivo, eu “ué, como assim?” (risos) e todo mundo ficou feliz da vida, né, todo mundo fez maior festa, né, primeiro tudo, tanto de uma família como de outra, primeiro neto, primeiro sobrinho, primeiro tudo, né, então foi aquela festa, todo mundo gostou de saber que vinha mais um membro da família.

 

P/1 − E como foi conciliar o filho com escola, profissão, né?

 

R – Olha, eu tirei minha licença, né, quando estava quase tendo ele, e fiquei lá o tempo de direito, né, pelo município, em casa com ele, mas pra voltar a trabalhar, é chato, né, saber que teu filho pequenininho ainda ta lá, e você ficar o dia inteiro fora, só voltar a noite, e aquela coisa, né, mas a gente tem que aprender a conviver com isso. Não tem outro jeito, não pode ficar sem trabalhar e aí, eu ia pra escola trabalhar, mas ficava com a cabeça lá, né, e ele ficava, mas não deixei ele com empregada, não deixei ele em creche, quem ficava com ele era a minha sogra ou a minha mãe, né, uma época ficou com a minha sogra, uma época ficou com a minha mãe, pessoas que eu confiava, né, eu ficava mais tranquila, né.

 

P/1 − Como chama seu marido?

 

R − Rogério.                                                                                                                            

 

P/1 − E ele trabalha com o quê?

 

R − Na época que eu conheci, ele trabalhava numa firma alimentícia, ele fazia de tudo naquela firma, né, agora, ele trabalha com móveis, numa loja de móveis e decoração, loja de móveis projetados, né.

 

P/1 − Ele trabalhava também nessa época?

 

R − Trabalhava, nessa época ele trabalhava. Ele trabalhava nessa firma que fica lá no mercado São Sebastião, lá na Avenida Brasil do Rio mesmo, ficou bastante tempo lá, só saiu de lá, muito tempo depois, uma leva aí de demissões que a firma fez aí esquisita.

 

P/1 − E você me falou que fez faculdade de Letras?

 

R − Isso, fiz faculdade de Letras, fiz depois de ter meus filhos, fiz um pouco tarde, né, eu acho que eu perdi um pouco de tempo, né, mas já fiz, já passou, fiz e comecei em 2002 se não me engano terminei em 2005, né, foi assim uma época legal e ao mesmo tempo assim louca, né, porque eu acordava cedíssimo para ir trabalhar, ficava o dia inteiro com turma, alunos, não sei o que, e ia direto pra faculdade, né, a noite, eu chegava morta na faculdade, às vezes eu ficava ali lutando contra o sono, querendo um palitinho pra colocar nos olhos, né, mas consegui, consegui fazer a faculdade, sem problemas, passei direto, não reprovei em nenhuma matéria graças a deus, (risos) né, porque foi paulera.

 

P/1 − E por que foi estudar Letras?

 

R − Olha, na época eu escolhi o curso de Letras, eu fiz, Letras, Português e Literatura, eu queria fazer algo voltado assim para outra coisa, queria fazer Turismo, queria fazer alguma coisa assim do gênero, só que nessa época, no município tinha uma lei aí, que agora caiu, que todo professor tinha que fazer faculdade, mas tinha que ser faculdade ligada à educação, então eu falei assim, “olha eu vou fazer português e inglês”, né. Só que português e inglês não tinha perto da minha casa e para eu sair de Vargem Grande, né e pra chegar numa faculdade distante, eu não ia conseguir, ia ficar muito cansativo e eu nunca chegaria na hora então eu vi a faculdade mais próxima da minha casa, é bem pertinho mesmo e escolhi Português e Literaturas, porque até Português e Literaturas também é bom, né, a gente saber nossa língua, é bom a gente estudar, abre espaço para qualquer outro ramo, né, se for o caso mais pra frente. Mas gostei de fazer, comecei assim meio que “ah, pôxa queria ter feito Português e Inglês”, mas depois eu fui gostando, foi legal.

 

P/1 − E aí, você já estava trabalhando no projeto do “Tô No Mundo”, né, quando você começou?

 

R − Quando comecei a faculdade sim, já, o laboratório “Tô No Mundo na minha escola” foi inaugurado em 2001, né, em 2001 é que eu fui para São Paulo para ser capacitada para trabalhar, então começou na verdade mesmo, o trabalho começou em 2002, 2001 foi a inauguração do laboratório e a capacitação minha, né, para esse projeto, para trabalhar nesse projeto, né, então começou em 2002. Eu trabalhava na escola desse projeto, os alunos já conheciam o portal, né, já entraram em 2001 mesmo, depois da inauguração que inaugurou em agosto de 2001, mas, a gente já sabendo mais ou menos como é que era assim por alto e depois que eu fui capacitada é que deu pra começar mesmo.

 

P/1 − E como foi seu convite assim, entrar, participar do Tô No Mundo para ser responsável pelo laboratório?

 

R − Olha, eu antes de começar no Tô No Mundo eu já trabalhava na minha escola num outro laboratório que tinha, né, a minha diretora já tinha me colocado no laboratório para poder dar aula de informática para os alunos, também, a gente passava assim informática básica para eles, né, na época não tinha nem acesso à Internet nesse laboratório. Então a gente era só o básico mesmo, Paint Blush, Word, Power Point, esses programinha, né, para eles já conhecerem, e aí como eu já trabalhava com informática na minha escola, a diretora me convidou, e veio a receber o convite, né, de capacitação de uma pessoa, então ela tinha que escolher uma pessoa da escola para ir a São Paulo para se preparar para esse projeto e aí, ela veio pra mim: “Fernanda, o que você acha, você quer isso aqui, pra você ser capacitada para trabalhar nesse projeto, né, na época Projeto Telemar Educação, e você tem que ir a São Paulo, não sei o que, ficar lá onze dias”, e eu “nossa que loucura, né”, como que eu ia imaginar um negócio desse, mas achei legal, “claro eu vou, estamos aí, vambora”.

 

P/1 − E o seu interesse por informática?

 

R − Sempre gostei muito, sempre gostei desse negócio de tecnologia, esses negócios me chamam atenção, me chama atenção o celular que tem isso, que tem aquilo, um MP3, MP4, eu sempre fui meio vidrada nessas coisas, né, “a máquina, ah, a máquina tem isso que legal, deixa eu ver.” (risos) Eu sempre gostei muito dessas partes de tecnologia, né, então pra mim, achei muito bom, muito legal, na sala de aula, você já usava algum recurso tecnológico, antes de ser professora de informática, eu já iniciei, né, acho que em Vargem Grande na escola já praticamente eu trabalhava na sala de leitura e pegava a parte de informática já desde o início, né, na Rocinha não, porque não tinha nenhum recurso para isso, não tinha nem salinha de vídeo, não tinha nada, como era uma escolinha muito pequenininha e eu tinha começado trabalhar naquela época, né, então não tinha muita coisa não. Em Vargem Grande a gente já começou a se familiarizar, eu já fiz um curso, eu comecei na informática na escola porque quando eu comecei a trabalhar que eu fui pra sala de leitura, os professores da sala de leitura tiveram um curso pelo município de informática então a gente fez até no Cefet [Centro Federal de Educação Tecnológica], um curso que a gente fez pelo Cefet para o município, né, de Word, Internet, Access, Power Point, parte de páginas de Internet e tudo. Então eu comecei nesse ano, começou a partir desse curso que eu fiz lá, e aí, no ano seguinte eu já comecei a trabalhar com eles mais nessa parte básica mesmo, né, a gente fazia uns textos e eu ensinava eles a fazer umas redações no computador e já mostrava para eles quando eles erravam, explicava para ele que o Word mostrava quando a palavra estava errada, essas coisinhas assim, né, no início.

 

P/1 − E o que mais articulava assim a sala de leitura com computador, para que mais vocês usavam, as atividade que vocês faziam?

 

R − Olha a sala de leitura, a minha sala de leitura lá da escola era a sala de leitura polo, então ficava mais fora da escola do que dentro, era muita reunião, né, a gente tinha que ir, reunir as outras salas de leitura, passar informações que a gente pegava nas reuniões, né, na secretaria pra eles. Então a gente ficava mais fora do que dentro e o tempo que a gente ficava dentro, uma das minhas responsabilidades, dentro da escola era atender algumas turmas, né, inclusive até, teve curso de informática básica pelo município e eles selecionaram alguns professores para dar esse curso para os outros professores, né, e eu cheguei a dar essas aulas para alguns professores lá na escola também, então o laboratório também foi usado pra isso, né, pra capacitar professores em educação de informática básica, né, no município mesmo.

 

P/1 − Era como uma rede?

 

R − É, mais ou menos.

 

P/1 − E aí, quando chegou a Internet na escola, teve uma mudança grande?

 

R − Isso, a Internet veio, deixa eu me recordar aqui, mas eu acho que a Internet começou com o laboratório do Tô No Mundo, eu acho, eu acho que o outro não tinha Internet até então não, eu não tô lembrando direito não. É tanto tempo que eu tô no laboratório do Tô No Mundo que o outro eu até esqueci um pouco, mas eu acho que sim, eu acho que veio com o Tô No Mundo a Internet, acho que sim e os alunos ficaram fascinados, né, com a ideia de ter Internet ali naquele laboratório lá, era uma briga, todo novinho, né, tudo bonitinho, eles ficavam “nossa tia, quando a gente vai ter aula aí, professora, abre aí pra gente professora.” (risos) Até hoje eles ficam enlouquecidos, tenho que ficar controlando eles.

 

P/1 − E como eram assim as atividades quando chegou a Internet, que tipo de atividade você programava?

 

R − Pesquisa, muitas pesquisas, né, assim, com a minha turma, na época de quarta série que eu pegava, o que eu dava na sala de aula, pedia para eles pesquisarem na informática, né, depois confeccionava cartazes, as coisas, mas assim, as turmas que não eram minhas, de quinta a oitava série no caso, de sexto ano até o nono ano, eu ficava com os outros professores pedindo a eles, né, “o que você tá dando, você quer que faça alguma pesquisa?”, né. E aí eles me passavam as pesquisas que eles querem, no caso até hoje isso, quando eles não podem ir ao laboratório com a turma, eles pedem pra que a gente faça essa pesquisa com eles, né, pesquisa sobe os temas que eles estão desenvolvendo em sala de aula, né, dentro do projeto da escola.

 

P/1 − E você ver, assim impacto nos alunos, você acha que contribui para o aprendizado?

 

R − Ah, com certeza contribui sim porque ali é uma coisa que eles gostam, né, mexer com computador eles gostam, e aprender usando uma ferramenta que eles se sentem à vontade, né, sempre é bom e eles ficam ali, sentem estimulados para poder pesquisar, para poder encontrar as coisas, até demais. Às vezes, claro que tem uns que fogem, né, do assunto, eles tentam entrar em outras páginas, tentam entrar num joguinho, alguma coisa assim, a gente diz, “não, aí não, primeiro a pesquisa depois o lazer”, eles ficam, mas eles gostam muito mesmo, a gente vê que eles aprendem, né. Inclusive agora a pouco tempo, esses dias, nessa semana, eu estava pedindo para eles pesquisarem sobre DSTs, né, porque hoje em dia, essas músicas de funk, os adolescentes estão entrando na vida sexual muito cedo e já tem casos de adolescentes que ficam grávidas e tudo, né, muito novinhas, então eu quis mostrar pra eles um site lá que eu tenho linkado lá na página da escola que eu criei e aí eu mandei eles verem, né. “Ai professor, que nojo, a gente tem que ver isso mesmo?” “Tem, claro que tem, vai olhando, mas olha com atenção.” (risos) Mas eles vão lá olhar, todas as crianças, e se interessarem em saber, né, e conhecer, né.

 

P/1 − Como é a aceitação dos outros professores, assim, eles usam?

 

R − Olha, lá na escola, a gente tem duas professoras que elas também tem o horário delas na grade mesmo, né, dando aula no laboratório, né, então elas aproveitam as aulas que nós damos em sala de aula pra poder se aprofundar no laboratório com as turmas delas, né, e com outras turmas também, mas que elas fazem os trabalhos delas, também pesquisa, essas coisas, né, com eles e os professores, né, ou eles me pedem pra pesquisar porque eu tenho horário com algumas turmas no laboratório, então ou eles me pedem para pesquisar com aquela turma deles, “Fernanda, eu estou trabalhando sobre isso, você poderia pedir para eles pesquisarem, que eu pedi um trabalho para eles e aí eles precisam pesquisar”, “claro, é para isso mesmo o laboratório, pra vocês usarem para as pesquisas de vocês para poder desenvolver o projeto”. Então eles vão ou então quando tem os tempos que não tem turma no laboratório, eles marcam “Fernanda, tem algum horário nesse dia, nesse horário aqui tem alguma turma para ir, eu posso ir com a minha turma lá?”, “claro, à vontade, mas é pra isso mesmo”. Então eles entram com as turmas deles assim, a maior parte do tempo, como eu já pego muitas turmas no laboratório, eles já pedem pra eu ficar com eles fazendo a pesquisa, né, e às vezes quando não dá, ou a turma, aquela turma que trabalha pra logo, né, aí eles entram com a turma dele no laboratório.

 

P/1 − Você lembra de mais alguma experiência, assim, que você fez no laboratório e que te marcou com as crianças?

 

R − Experiência no laboratório... A gente lembra de tanta coisa, mas chega nessas horas, esquece tudo né.

 

P/1 − Tem o quadro interativo lá?

 

R − Eu criei uma página lá na escola, que já tem bastante tempo, né, eu fui montando página por página, né, dentro da página da escola e ano passado, eu criei com eles um jornal virtual, então eles, eu separei uma equipe. Então eles ficam me perguntando “e aí professora, eu posso ir lá no laboratório pra colocar uma notícia?” “espere aí”, dou uma olhada no horário, “ah, pode sim “, então eles ficam atrás de mim pra colocar as coisas no jornal da escola, alguns eu tenho que ficar em cima “e aí, como é que é, o jornal tá parado”, né, outros não, outros já ficam em cima de mim. (risos) É um em cima do outro, aí, por exemplo, eu estava com problema no laboratório, estava sem conexão há bastante tempo, estava com probleminha de conexão lá, estava assim, então eles ficavam o tempo todo em cima de mim, né, tanto do jornal quanto da atividade do projeto da atividade lúdica que teve esse semestre passado, que a gente começou e teve que parar por causa desse problema, né, “professora e a caringana? E a caringana, a gente não vai continuar fazendo não?”, “olha, calma aí, vamos fazer sim, mas temos que esperar, o problema vai solucionar” ou então o jornal, né, eles ficam “professora, tenho uma notícia pra colocar no jornal, não vamos voltar não?”, “calma, temos que ter paciência, vamos sim”.

 

P/1 − E eles que escrevem, moderam?

 

R − Eu falo pra eles, quando eu comecei o jornal, né, com intenção de botar eles pra se familiarizar mais, pra eles criarem uma responsabilidade, um interesse maior, né e tudo, eu comecei a montar o jornal, botar as notícias, falei assim: “Tá vendo como é que é?”. Aí, ensinei o programa pra eles também, botei um grupo no jornal, capacitei o grupo para poder aprender a mexer nesse programinha que eu descobri na Internet gratuito, né, e aí, eu ficava em cima deles, depois de um tempo, eu falei assim: “Olha, eu tô lavando as minhas mãos hein, o jornal é de vocês, hein, eu não tenho nada a ver com isso, a minha parte é a página da escola, o jornal é de vocês, mas é claro que vocês querendo uma ajuda, né, eu reviso algum texto de vocês, ajudo vocês a de repente botar uma linguagem legal, mas, é de vocês, vocês se virem”. Eu fico brincando com eles, né, “se virem, o jornal tá parado lá, hein, como é que é, cadê as notícias?”, mas eles gostam bastante.

 

P/1 − Que outros projetos, você participa na escola, tem mais projeto?

 

R − Tem, a escola já trabalha com projeto há bastante tempo, até antes mesmo do Tô No Mundo, né, mas os projetos sempre, nas reuniões de professores no final do ano, a gente tira o tema anual, né, do projeto anual e depois ele é subdivido por bimestre ou trimestre conforme o ano for. Aí, os professores vão trabalhando o tema, tem cada professor, desenvolve seu trabalho, né, junto conciliando uma coisa com a outra, né, pra poder chegar e fechar todo mundo junto numa coisa só, né, aí tem de vez em quando uma feira cultural, né, na escola, uma exposição, né, tem amostras de trabalho né, essas coisas.

 

P/1 − Então tem uma transversal, né, que todo mundo produz.

 

R − Isso, chega todo mundo junto no mesmo lugar, né, não são trabalhos isolados, né, são sempre visando uma conciliação de tudo, pra um, não ficar aquela coisa quebrada, né, acabou matemática, vamos entrar em português, uma coisa nada a ver com a outra, não, tem que ter uma conciliação, unir, senão não tem um aprendizado legal, né, senão fica aquela coisa quebrada, só na parte da decoreba, né, a gente tenta fazer com que eles joguem conhecimento, né, de uma hora para outra, para poder demonstrar que aprendeu de verdade, né.

 

P/1 − E quem mais frequenta a escola, além de alunos, professores e funcionários?

 

R − No ano passado começou um projeto na escola do próprio município mesmo, que é o “Escola Aberta”, chamava Escola Aberta, então são abertas oficinas, né, de temas gerais, aí, quem dá as oficinas, são pessoas da comunidade, são ex-alunos, né, por exemplo. Alguém sabe fazer alguma coisa, “ah, eu sei pintar caixinhas de artesanato”, fazer decoupage, por exemplo, “então eu vou ensinar”, aí, você vai lá falar na escola, “olha, eu gostaria de ensinar, participar desse projeto e ensinar isso que eu sei” então a gente vê direitinho com eles e eles passam a dar aulas, já teve várias coisas, já teve aula de bijuterias, informática, doces caseiros, teve de redação, eu acho, bom, é sempre sábado e domingo, né, então vários, xadrez, maquiagem, já teve várias coisas diferentes, né, então são oferecidas pelas próprias pessoas da comunidade, e ex-alunos também que dão.

 

P/1 − E o laboratório participa da Escola Aberta também?

 

R − Participa quando é a parte de informática, o laboratório é aberto, né, para as oficinas de informática e tudo, né, acredito que seja só nesse caso, não sei, porque como começou ano passado e eu não estou na escola nesses dias, eu sei o que eles me falam, né. Então alguns alunos meus fazem, né, oficina, que eu saiba o que eu posso dizer com certeza é que quando tem aula de informática é oferecida o laboratório, agora se é aberto para alguma outra coisa, não sei te dizer agora não, nesse instante.

 

P/1 − E de que outras formas o laboratório mobiliza a comunidade, não só escolar, né, mas o pessoal que mora lá perto?

 

R − Olha, de vez em quando aparece uns ex-alunos lá na escola pedindo pra usar, né, se podem usar, né, pra fazer alguma pesquisa, de um trabalho que eles tem que fazer em outra escola, né, então eles vão lá, às vezes aparece um pai de aluno, uma mãe de aluno para poder fazer uma pesquisa também, ou então fazer um cadastro de CPF, essas coisas de documentação deles mesmos, né, por enquanto, até hoje nesse sentido. É pesquisa de ex-alunos que voltam lá, às vezes pra poder fazer e pais também que vão lá pesquisar alguma coisa ou essa parte mais de documentação deles.

 

R − E você que recebe eles?

 

R − Quando eu tô na escola e estou sem turma, sim, quando não, a secretaria encaminha eles, né, passa para um outro professor, e eles são encaminhados ao laboratório junto com essa pessoa.

 

P/1 − E quando eles vêm até você, como é que é, como que acontece assim, o encontro, esse uso do laboratório, tem desafios, tem histórias engraçadas?

 

R − Olha, eles vêm “professora, tudo bem, professora?” “tudo bem, como é que você tá?” “ah, tô bem.” “Professora, libera ali o computador lá pra gente usar, professora” aquele linguajar deles, né, “libera lá professora, precisamos fazer uma pesquisa”, “mas você tá estudando, né?” “tô professora, eu sempre estudei.” (risos) “Então tá bom, vamos lá”, aí, abro pra eles, pra eles fazerem a pesquisa deles, né, mas são engraçados, né, pra pedir. (risos)

 

P/1 − Outra linguagem?

 

R − É.

 

P/1 − E atualmente, você tá casada, você mora com quem?

 

R − Continuo casada, moro eu, meu marido e meus filhos, né, tenho dois filhos e moro no mesmo condomínio que a minha mãe, só que eu moro num prédio, ela mora em outro, e agora esse ano, ainda vem minha irmã também, ela vai morar no mesmo prédio que eu, todo mundo pertinho.

 

P/1− Todo mundo pertinho. Você estava me contando um pouco lá fora, sobre seus filhos, umas histórias deles.

 

R − Isso, é, os dois, um é totalmente diferente do outro, um tem onze anos e outro tem oito, né, o Bruno e o mais velho, Rafael é o mais novo, o Rafael não quer crescer, ele tem acho que a síndrome de Peter Pan, ele quer ficar criança, ele faz aqueles denguinhos, né, ele se faz bebezinho, ele adora que trate ele assim como bebê. Minha irmã é madrinha dele, então ela fala com ele igual ela fala com o filho dela que é mais novo, aí, ele faz aqueles denguinhos todo, né, aquela vozinha e o meu mais velho não, né. Meu mais velho já é metido a adolescente, sempre foi desde muito cedo, ele falava pra mim, “mãe, posso descer pra ficar com meu amigo?”, isso o mais velho, “que amigo, Bruno?” “meu amigo, mãe, o porteiro, meu amigo.” (risos) “Ah, Bruno” (risos), então ele sempre foi assim mais descolado, né, o Rafael, não, o Rafael já é mais dengoso, né, mas também quando os dois se juntam, como eu estava falando com você lá fora, quando os dois se juntam, eu acho que o mais velho fica mais bobo que o mais novo, né, aí, é uma coisa assim bem... Eles botam fogo na casa, né, porque eles fazem umas bobeiras, as palhaçadas deles lá, que às vezes, eu “ai meu Deus do céu, vamos organizar aí, vamos ficar quietinhos”, eles fazem uma zona danada. (risos) Às vezes eu fico louca com eles, mas são divertidos.

 

P/1 − Eles estudam na mesma escola que você trabalha?

 

R − Não, não, estudam em outra escola, aí, eles estudam de tarde, aí eles saem com transporte deles da escola e voltam, quando eu chego em casa eles na maioria das vezes eles nem chegaram ainda, né, eles chegam mais tarde um pouquinho, né. Um é mais malandro, não estuda, né, tem que ficar em cima, o outro sempre foi mais responsável nos estudos, são opostos, um bem diferente do outro. Eu estava até contado aquele caso do meu mais novo que hoje mesmo, né, ele ficou com aquela vozinha, minha empregada perguntou pra ele: “Rafael, você fica com essa vozinha com seus colegas? Você não vai mudar essa voz não? Menina não vai querer namorar com você não, hein?”, eu: “é, Rafael, olha, você vai ficar falando assim, as meninas vão fugir de você”, ele: “não, tia, não, mãe, quando eu tô com meus colegas, eu falo grosso, mãe.” (risos) Ele é bem engraçado, mas com a gente ele fica com aquela vozinha, aquele denguinho dele e o mais velho, sabe aquela implicância de um com outro, às vezes rola um ciúme também. Brincam muito, quando eles estão brincando muito, estão rindo muito, eu já sei que vai sair uma briga, (risos) é dito e certo, eles começam brincando demais, aí, riem e fazem barulho, “eu quero ver televisão, chega de barulho” o quarto deles fica uma zona, tocando terror, né, aí, daqui a pouco vem um chorando, né, “mãe o Bruno ralou, o Rafael fez isso comigo.” Eu sabia, (risos) eu sabia que ia dá algum problema.

 

P/1 − Quanto tempo de diferença eles têm?

 

R − Dois anos e meio, um tem onze e outro tem oito, mas agora um é de setembro outro é de março, dois anos e meio de diferença.

 

P/1 − E a chegada do segundo abalou, como foi?

 

R - Olha quando estava com uns três, quatro meses de gravidez, eu já desmontei o berço, né, porque um dormia no berço, o Bruno dormia no berço, então eu desmontei o berço, eu comprei uma cama pra ele já, pra ele não sentir que estava sendo expulso né, do lugar dele, pra dar espaço pra outro. Então eu já procurei, já me preocupei com isso, já pra não ter nenhum ciúme, né, nessa época, mas quando o outro chegou, a gente dava atenção aos dois, né, não dava nem mais, nem menos de atenção pra um, nem pra outro, né, pra evitar que tivesse alguma crise. Então a gente botava ele, né, no colo o mais novo, assim devargazinho pra ele ter contato com o irmão, a gente pedia as coisas pra ele “Bruno pega a mamadeira do teu irmão”, pra ele se sentir importante também, mas foi tranquilo, não teve problema nenhum, o meu mais velho adorava ficar como irmão mais novo, mostrar pra todo mundo, “é meu irmão”, aí, depois que começou a crescer que ele começou brincar com ele, ele brincava e implicava também, um pouquinho, aí começou.

 

P/1 − Fernanda, tem alguma coisa assim na sua cabeça que você gostaria de falar que a gente não tocou, mas que você lembrou?

 

R − Ah, agora assim, não, eu acho que não, pode ser que eu bote o pé ali fora e lembre alguma coisa, mas no momento não.

 

P/1 − O que você achou de participar do projeto de contar a sua história, né?

 

R − Achei que fosse pior. (risos) Achei que fosse pior porque eu sei que fico nervosa com essas luzes assim, saber que tem um negócio aqui, mas até que foi tranquilo, mais tranquilo do que eu imaginava.

 

P/1 − Foi? Ah, então eu acho que a gente quer agradecer por você contar a sua história pra gente, compartilhar um pouquinho das suas memórias conosco, é isso.

 

R − Tá bom.

 

P/1 − Obrigada.

 

R − Obrigada a vocês.

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