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História

As virtudes das relações no comércio

História de: José Domingues Vinhal
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/08/2005

Sinopse

José Domingues teve contato com o comércio desde seus 8 anos de idade, quando vendia doces que sua mãe fazia na cidade de São João Batista do Glória. Posteriormente, trabalhou por muito tempo em uma farmácia, pois já sentia que tinha dom para o comércio, e em 1949 vêm para São Paulo buscando melhores oportunidades. De lá para cá, José conta sobre como se envolveu com o sindicalismo, atuando com a categoria de barbeiros e cabeleireiros, os enormes ganhos que vê com isso, os desafios e as oportunidades de atuação como presidente do sindicato de sua categoria e conselheiro do SENAC.

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História completa

P/1 - Bom. Eu queria começar com o senhor falando o nome completo do senhor, o local e a data de nascimento.

 

R - Meu nome é José Domingues Vinhal, eu nasci em São João Batista do Glória, é uma cidadezinha perto de Passos, cidade na qual eu fui registrado. E que mais você perguntou?

 

P/1 - Que dia o senhor nasceu?

 

R - 2 de fevereiro de 1926.

 

P/1 - E o nome e o local de nascimento dos pais do senhor?

 

R - São João Batista do Glória, meu pai e minha mãe. São João Batista do Glória.

 

P/1 - E como eles chamam?

 

R - O meu pai Sebastião Domingues Vinhal, a minha mãe Maria da Conceição Vinhal.

 

P/1 - Certo. E o que é que o pai do senhor fazia?

 

R - Papai era construtor de casas, né? Que lá chamamos de pedreiro, né? Em lugares mais adiantados chamavam de construtores, lá é pedreiro, né? Era a profissão do meu pai.

 

P/1 - E a mãe do senhor?

 

R - A mãe era prendas domésticas.

 

P/1 - Certo. E o senhor tinha irmãos, seu Vinhal?

 

R - Tenho. Tenho cinco irmãos vivos, né? Dois... são três homens e duas mulheres, sendo que das mulheres uma está já falecida.

 

P/1 - Certo. E o que é que o senhor lembra assim do dia-a-dia da sua casa em São João do Glória quando o senhor era criança?

 

R - A gente não parava muito em casa, né? Porque no dia a dia a gente aproveitava aquelas horas de folga e eu ia fazer algumas vendas, né? Já tinha alguma, na minha veia já corria a veia comercial naquela época, né? E a gente ia vender doce que a minha mãe fazia, vender pamonha, vender às vezes aquilo que se plantava no nosso quintal: alface, almeirão, todas essas coisas assim, gente vendia cada coisa na sua hora, né? E depois de cumprido esse serviço a gente ia pra escola, voltava da escola, começava tudo de novo, ia vender, fazer vendas na rua.

 

P/1 - Quem que fazia os doces? O senhor falou que o senhor ajudava a sua mãe?

 

R - Eu ajudava a minha mãe vendendo, agora era ela que fazia os doces, né? Mamãe fazia doce de leite, pé de moleque, pão de queijo, bolo de fubá, broa de fubá, fazia linguiça, pamonha, essas coisas que na época eram bastante populares. A gente... ela fazia e eu ia pra rua vender, né?

 

P/1 - E quem era a freguesia do senhor, assim, o senhor tinha uma freguesia fixa?

 

R - A freguesia era geralmente as pessoas que estavam estabelecidas, né, os alfaiates, os salões de barbeiros, né, as vendinhas, aquelas pessoas que trabalhavam, que vendia bebida, essas coisas, mas não tinha doce na venda dele e comprava também, era um dos clientes da gente, né? Fora disso as pessoas que estavam nos bares, às vezes, que nos bares não vendiam essas coisas, vendia pinga, vendia cerveja. E às vezes tinha pessoa que você ia passando, eles chamavam: "Olha, me dá isso assim, assim." E a gente vendia. Ponto de ônibus a gente também vendia, porta de igreja, né, logo em seguida que estava saindo alguém da missa a gente já aproveitava e vendia. Eu tinha uma clientela boa, viu? (riso) Apesar de muito criança ainda, tinha uma clientela boa.

 

P/1 - Quantos anos o senhor tinha nessa época?

 

R - Ah, eu comecei a vender coisas acho que já devia estar com oito anos, oito, nove anos já comecei a vender. Ali para uns dez, onze anos já eu fui pra fazer o curso, né, curso primário, aí fui mesclando venda junto com a escola.

 

P/1 - E tinha alguma profissão que o pai do senhor incentivava o senhor a fazer? Ele queria que o senhor seguisse a atividade dele?

 

R - É, ele muitas vezes pegava serviços e procurava encaminhar a gente para ajudá-lo, né, como servente, como aquela atividade que ele estava fazendo, mas eu nunca fui muito afeito à atividade dele não, nunca, fui algumas vezes no começo, depois eu enveredei para a área do comércio mesmo. Trabalhava numa farmácia, depois prestava uns servicinhos lá no alfaiate também, às vezes eu fazia nas horas vagas, aprendendo, ficava na barbearia vizinha da farmácia também pra aprender alguma coisa. Eu nunca fui muito de acompanhar o meu pai na profissão dele não.

 

P/1 - Certo. E como foi que o senhor começou a trabalhar na farmácia?

 

R - É por esse mesmo motivo, pra fugir de acompanhar o meu pai para aquele serviço pesado, que eu achava que era muito pesado. E eu falei com o dono da farmácia lá na época, senhor Acrísio: "Ah, o senhor não tem uma vaguinha pra mim trabalhar não?" Ele falou: "Você sabe que é quem trabalha em farmácia tem que começar lavando vidro." Eu falei: "Não tem problema, a gente aprende." E fui trabalhar na farmácia, lavar vidros, arrumar as prateleiras, fazia a limpeza, e nesse ínterim a gente foi aprendendo, atendia o balcão, fazia, né, com o tempo fui aprendendo a aplicar injeção e era serviços próprios da farmácia mesmo, fui aprendendo.

 

P/1 - E o senhor ficou nessa farmácia até quando mais ou menos?

 

R - Nessa farmácia eu fiquei... Não me recordo bem, mas foi uns três anos nessa farmácia aí, o ano eu não me recordo bem, mas foi uns três anos.

 

P/1 - E aí o que aconteceu?

 

R - Daí eu já estava nos meus dezesseis, dezessete anos e esse farmacêutico mudou-se da minha terra para uma cidade do Estado de São Paulo que chama José Bonifácio. E ele, instalado a farmácia dele lá, ele parece que sentiu a minha ausência como colaborador, ele voltou na minha terra e pediu aos meus pais que queria me levar com ele pra José Bonifácio pra ajudar lá, continuar a trabalhar na farmácia. E o meu pai, depois de uma certa relutância, minha mãe, né, principalmente da mãe, permitiram que me levasse e fui trabalhar com ele lá em José Bonifácio. Eu fiquei muitos anos lá com ele também.

 

P/1 - E o que é que mudou na vida do senhor, assim, sair de São João do Glória e ir pra José Bonifácio?

 

R - Os costumes eram outros, né, na minha terra todo mundo era conhecido, a criançada toda sabia onde moravam os clientes todos, dado o meu trabalho de vendedor na praça ali, conhecia todo mundo, né, nascido ali, praticamente, e conhecendo todo mundo. Quando chega em José Bonifácio você vai ter que forçar um pouco pra conhecer as pessoas, né, embora a clientela da farmácia fosse grande, tinha aquele dia-a-dia bastante movimentado, a gente demorou um pouco mais pra conhecer, mas depois que eu comecei a conhecer e fazer as amizades praticamente ficou mais ou menos igual a minha terra, não tinha muita diferença não.

 

P/1 - E o senhor saía em José Bonifácio? Tinha as festas?

 

R - É, a gente saía pra jogar uma partida de futebol na vizinhança, né, ali Mirassol, naquelas cidadezinhas ali por perto, São José do Rio Preto, nós tínhamos o nosso time, a gente, e saía de vez em quando, saíamos aos domingos pra visitar aqueles pomares, aquelas fazendas mais famosas, a gente ia lá fazer uma visitinha, né? Tinha sempre um passeiozinho pra fazer, tinha o rio lá perto, a gente ia pescar também. Sempre aos domingos, né, e os feriados também quando a farmácia estava fechada a gente fazia isso.

 

P/1 - Certo. E o senhor ficou em José Bonifácio até quando mais ou menos?

 

R - Até por volta de 1949, 48, 49 eu fiquei em Bonifácio, depois eu vim embora pra São Paulo.

 

P/1 - E por que é que o senhor veio pra São Paulo?

 

R - Porque o proprietário da farmácia lá, o senhor Acrísio, ele foi eleito como prefeito da cidade e ele já não tinha muita, muito tempo pra se dedicar a farmácia, né, porque enveredou mais pro lado da política e ele acabou vendendo a farmácia e eu não tive interesse de continuar com o novo proprietário, embora fosse uma pessoa bastante conhecida e muito boa pessoa eu não tive interesse em continuar na farmácia lá em José Bonifácio. Até porque também a gente já pensava em cursar alguma coisa, né, estudar mais alguma coisa, e lá não tinha os recursos, e foi um dos motivos que me fez optar por vir pra São Paulo. Muitas pessoas da cidade que vieram pra São Paulo, a gente tinha notícia que eles estavam indo bem, então isso atraiu um pouco.

 

P/1 - E o senhor veio direto pra São Paulo?

 

R - Eu vim direto para uma cidadezinha aqui ao lado, né, da Grande São Paulo, São Caetano do Sul. E em São Caetano eu fui trabalhar numa farmácia, trabalhei pouco tempo lá, não me acostumei muito. Não é que eu não me acostumei, eu arranjei um emprego melhor sob o ponto de vista salarial numa empresa mais importante, numa drogaria que tinha uma rede de farmácia, e eu arranjei esse emprego, essa farmácia era na Rua Barão de Itapetininga, né? E eu fui trabalhar nessa farmácia e arrumei esse emprego e fiquei lá, como balconista, como manipulador, né, como vendedor. E fiquei um bom tempo também lá.

 

P/1 - E como é que era São Paulo nessa época? O que é que o senhor lembra de quando o senhor chegou aqui?

 

R - São Paulo era bem diferente de hoje, né, começa que São Paulo acabava ali na Rua Luís Góes, ali terminava a Zona Sul, dali pra frente tinha uma estradinha que levava lá pra garagem do Jabaquara. Aqui pro lado da Zona Norte acabava ali na Casa Verde, já não tinha mais casa para aquele lado ali. Então eu me recordo bem que São Paulo era pequeno, terminava logo, você pegava um ônibus e já estava nas marginais aí, era o rio ali, não tinha asfalto. Então eu me recordo bem que era gostoso, você vinha aos domingos passear ali na Rua São Bento, fazer aquele footing ali, né? A gente ia para os bailes, podia andar na rua fora de hora, diferente de hoje, né, é um risco muito grande andar pelas ruas de São Paulo fora de hora, né? E naquela época tinha aquela famosa garoa que hoje não tem mais, tem uma fumaça que confunde com a garoa. (riso)

 

P/1 - E o que o pai do senhor... O senhor comunicou ao seu pai que o senhor estava vindo pra São Paulo? O que ele achou? Ele apoiou?

 

R - Ah, sim. Quando eu resolvi meu problema em José Bonifácio, eu antes de vir pra São Paulo eu fui lá pra minha terra, passei uns dias lá, né, descansando um pouco, visitando os amigos e já falei pra ele: "Agora eu vou pra São Paulo, né?" E eu vim, não vim de José Bonifácio pra São Paulo, eu vim da minha terra pra São Paulo.

 

P/1- Tinha alguma coisa assim que atraía o senhor em vir pra cá?

 

R - Principalmente o emprego, né, hoje nós chamamos de salário, eu queria ter um emprego, precisava ter um emprego e precisava estudar alguma coisa. A gente tinha feito um curso primário lá na minha terra e você precisava trabalhar e estudar, né, e São Paulo dava condições pra você fazer isso. Lá na minha terra não tinha, você tinha que trabalhar ou estudar, trabalhar era fácil, estudar não era porque não tinha escolas, né, suficientes pra fazer aquilo que a gente queria.

 

P/1 - Certo. E em que bairro o senhor veio morar aqui em São Paulo?

 

R - Eu vim morar no bairro da Liberdade, numa pensão de um conterrâneo meu, um rapaz lá de Passos. E esse, por coincidência, hoje eu moro no mesmo bairro, viu? Voltei pra Liberdade, depois de andar por aí, voltei a morar na Liberdade. Vim morar ali na... Trabalhava na época na Drogasil aí na Barão de Itapetininga e já morava aí na Liberdade. E depois quando eu mudei de empresa, fui trabalhar numa outra empresa, em outra farmácia, continuei morando na Liberdade embora na mesma rua, mas não na mesma casa, né?

 

R - Como é que era o dia-a-dia do senhor? O que o senhor fazia?

 

P/1 - Ah, sim. O dia-a-dia de um empregado de farmácia não era brincadeira não. Naquela época a gente não tinha assim a jornada de trabalho de oito horas, você queria um emprego e às vezes a empresa por muito favor ela te dava o emprego, você não fazia questão de trabalhar oito horas, nove horas, você queria trabalhar, né, não tinha hora extra, não tinha fundo de garantia, não tinha nada disso, a gente queria trabalhar. Então a gente ia cedo pra farmácia, trabalhava, respeitado a hora do almoço, da refeição, e chegava na parte da tarde trocava de turma, né, a gente ia pra casa, quem estava estudando ia fazer o seu curso e quem não estava ia descansar porque tinha que levantar cedo e começar a luta de novo. Mas era uma vida dura, não tinha muito tempo pra divertir não ou fazer outra coisa, a não ser os domingos e feriados, né? Como a gente sempre procurava ir a um cinema, ou a um teatro, na época tinha bastante teatro, tinha cinema, embora no cinema pra você ir no cinema tinha que estar engravatado, porque eles não deixavam entrar sem gravata, você tinha que ter uma gravatinha nem que seja na hora de entrar só. E aos domingos também, os feriados a gente ia passear lá na Rua São Bento, lá na Barão de Itapetininga já estava começando a fazer o footing, não tinha outra coisa não. E pra você fazer aqueles passeios de fim de semana, ir pra praia, as condições não permitiam, os tempos eram duros, viu? (riso)

 

P/1 - E o senhor ficou... Quando o senhor saiu da Drogasil, o senhor foi fazer o quê?

 

R - Eu saí da Drogasil e fui trabalhar na Orfasil, essa drogaria que tem na praça, hoje Praça Clóvis Bevilácqua, na época não era, era uma outra rua, depois fizeram a praça, né, hoje nós chamamos de Praça Clóvis Bevilácqua. Nessa Orfasil eu trabalhei um bom tempo também, mais ou menos uns cinco anos.

 

P/1 - Mas aí a função do senhor já era outra?

 

R - Aí nessa firma eu já era o gerente da empresa. Lá na Drogasil eu era balconista e manipulador, aqui eu já fui... houve uma proposta de um amigo que trabalhava lá e já me levaram pra trabalhar como gerente, né? As coisas já estavam bem melhoradas, viu?

 

P/1 - E depois disso, senhor Vinhal, o senhor mudou de ramo?

 

R - Não, não. Depois disso eu comprei uma farmácia, montei uma farmácia no bairro, no Jabaquara, e fiquei muitos anos com essa farmácia lá no Jabaquara. Depois eu vendi a farmácia e fui trabalhar nessa fisioterapia aí na Brigadeiro Luís Antônio, banho turco, fisioterapia, uma casa assim de, né, massagem, mas era só pra área masculina, não era pra área feminina porque naquela época nem tinha ainda. Era um banho turco, nós chamávamos de banho turco. E foi aí nessa casa, nesse banho turco que eu trabalhei e me encaminhei para... lá tinha um salão de barbeiro dentro dessa fisioterapia e eu trabalhava como empregado dessa empresa, até que o proprietário do salão não teve mais interesse em ficar com o salão, por motivos que eu não sei quais são, e eu resolvi comprar o salão. Comprei esse salão e então eu exercia a atividade de gerente e proprietário do salão. E nesse exercício de atividade eu tive que procurar o sindicato da categoria dos salões de barbeiros para legalizar, normalizar a situação do salão, que não era normal na época, os funcionários não estavam legalizados, né, os papéis não estavam de acordo com a lei e eu então procurava o sindicato da categoria pra normalizar. Nessas andanças minhas lá no sindicato, certa ocasião, logo nas primeiras vezes que eu fui lá, me convidaram pra participar de reuniões da diretoria do sindicato. E eu aceitei o convite e comecei a participar de reuniões da diretoria do sindicato e logo em seguida ia haver eleições, eles me convidaram pra participar da diretoria do sindicato. Eu aceitei e fiquei com o cargo de primeiro-secretário. A diretoria era formada por presidente, secretário e tesoureiro. E eu peguei o cargo de primeiro-secretário que era a pessoa que dirigia os trabalhos da diretoria na ausência do presidente. Vale dizer que virtualmente era o presidente, né? Como o presidente lá do sindicato não ia muito nas reuniões e eu era muito assíduo, normalmente quem presidia as reuniões era eu, até que terminado aquele mandato, eles fizeram nova reunião, fizeram nova eleição e me elegeram como presidente do sindicato naquela ocasião e nesse cargo eu estou até hoje. (riso)

 

P/2 - Quanto tempo faz isso?

 

R - Isso foi em 1973; 73 eu fui eleito pela primeira vez no sindicato e nunca mais eles me deixaram sair fora, viu? (risos)

 

P/2 - Voltando um pouquinho, por que é que o senhor vendeu a farmácia lá no Jabaquara?

 

R - Bom, eu vendi porque, pra ser bem sincero, eu tinha uma relação de amizade com um político, esse senhor ele era deputado e ele era muito meu amigo. Ele tinha pedido pra mim que ajudasse ele na campanha pela reeleição, ele era deputado estadual. Ele falou pra mim: "Olha, me ajuda na campanha aí, você tem muito boa amizade." Eu falei: "Mas não tem muito voto não, três mil, quatro mil votos?" "Com três mil votos mais o que eu tenho nos bairros eu me elejo, né?" Eu falei: "Está bom, eu monto aqui um comitê pra você." Ele falou assim pra mim: "Se você, eu me reelegendo eu vou te arrumar um lugar melhor, né, não é bem emprego, é um lugar melhor." E quem não queria um lugar melhor, né? A farmácia era muito boa, mas tinha muito fiado, você tinha muita amizade, muito relacionamento lá de amizade e isso trazia muito compadrismo, todo mundo chamava você pra batizar um filho, crismar, aquela coisa toda, você fica muito compadre. Muito compadre numa atividade comercial dá muito fiado, você não pode negar porque o sujeito é teu compadre como é que, né? "Preciso comprar um remédio, a patroa está passando mal e eu estou sem dinheiro." "Ó, compadre, leva lá depois você me paga, né?" E isso vai atrasando um pouquinho a vida da gente sob o ponto de vista comercial. Às vezes, tem hora que você tem aqueles apertos, né? Como esses apertos existiam e existem até hoje, esse político falou: "Olha, eu vou arranjar um outro lugar pra você porque isso é um pouco sacrificado." E ele se elegeu, se elegeu e ele falou pra mim: "Venda a farmácia porque você vai trabalhar comigo." E ele tinha um empreendimento imobiliário aqui em São Bernardo do Campo num lugar que é até hoje é a Volkswagen, que tem a fábrica da Volkswagen. Ele ia fazer lá um conjunto de residência, de casa, e eu ia trabalhar com ele e aquelas vendas ia... logicamente ia ser muito mais compensadora do que o que eu ganhava na farmácia. Então eu vendi a farmácia e procurei ele, naquela época numa repartição aqui em São Paulo, importantíssimo, porque naquela altura ele já era secretário de Estado. Ele falou assim: "Olha, enquanto não sai os papéis lá do meu empreendimento que está pra ser regularizado, você vai ficar tomando conta lá do banho turco porque eu preciso de uma pessoa dentro das suas características pra gerenciar aquilo pra mim. Enquanto não sai aquilo você podia tomar conta." "Ah, pode, não tem problema nenhum." "Você vai ganhar tanto, você vai ter essas vantagens, aquelas, essas e outras." E tudo aquilo era melhor do que a farmácia, dado aquele fiado tremendo que eu tinha lá, terrível, qualquer coisa era melhor. Vendi a farmácia, pus o dinheiro no bolso e vim tomar conta da sauna. E foi aí que eu comecei, né, a trabalhar com essa fisioterapia, mas tinha uma coisa interessante. Dentro dessa fisioterapia, eu tinha uma clientela muito interessante, de pessoas famosas: políticos, militares, né, jornalistas, artistas, atores, e eu acabei gostando daquele meio que eu estava vivendo e eu fiz muita amizade, com muito político importante, com muito jornalista importante. E por sorte, agora eu digo que foi por sorte, por sorte, ele não conseguiu legalizar o terreno dele pra fazer o empreendimento imobiliário, ele acabou vendendo pra Volkswagen, que fez a sua fábrica, né, e eu acabei ficando ali. Como eu tinha ido pra lá pra ficar uns dias até terminar a papelada, eu acabei ficando ali acho que dezesseis anos, provisoriamente, né? (risos) Mas valeu a pena porque dali eu tive um começo de vida, né? Dali eu fiz muita amizade, eu tive essa militância no sindicato, dessa militância no sindicato eu parti para a minha atividade, prestei, não é que eu prestei, eu concorri a uma lista tríplice, fui trabalhar como vogal na Justiça do Trabalho que também já era mais compensador na época do que aquilo que a gente ganharia lá, continuei no sindicato, me aposentei, né, na minha atividade, mas no sindicalismo eu continuei, onde estou até hoje.

 

P/1 - Deixa eu perguntar uma coisa para o senhor. E quando o senhor começou com a barbearia o senhor já tinha contato com o meio? O senhor precisou aprender a fazer as coisas na barbearia?

 

R - O conhecimento que eu tinha é aquele profissional que eu tinha dito a você no início, né? A gente vivia lá na farmácia lá na minha terra, tinha uma barbearia ao lado, a gente ficava sentado praticamente o dia todo ali, esperando o freguês chegar. Às vezes chegava um freguês: "Ó, corta pra mim aí, você está desocupado." Eu cortava a barba. Quando chegou na barbearia a gente não esqueceu aquilo não, mas eu tinha um número de empregados mais ou menos bons, naquela época era cinco ou seis, mais duas manicure, mais engraxate, aquela coisa toda, e tinha uma turma de umas dez pessoas que trabalhava comigo, quer dizer, não havia necessidade que eu trabalhasse naquela profissão, né? Então eu gerenciava, né? Na verdade era um grande gerente do meu salão, né? E esse pessoal trabalhou comigo praticamente durante todo o tempo. Eu não sei se eu era bom patrão ou não, eu sei que todos trabalharam comigo durante todo o tempo, viu? Aí começou, morreu um aqui, morreu ali, eu fiquei até... isso me apavorou também, eu falei: "Eu não quero entrar nessa lista não." (risos)

 

P/2 - Senhor Vinhal, o senhor falou que quando o senhor foi procurar o sindicato pra legalizar...

 

R - Isso.

 

P/2 - E aí o senhor acabou entrando dentro do sindicalismo. Eu queria que o senhor falasse um pouco a respeito do sindicalismo, de como é que é a atuação, como é o dia-a-dia, qual é a importância do sindicato dentro dessa estrutura?

 

R - Ah, pois não. Bom, o meu sindicato é um sindicato da área do comércio, né, mais propriamente dito da prestação de serviços. E acredito eu que essa é uma das áreas mais evoluídas, né, no sindicalismo brasileiro, paulista, seja como for, é uma das áreas mais importantes que eu acho, a área de serviços. Eu acho que o sindicato tem, ele presta um serviço muito importante porque, via de regra, o barbeiro, por exemplo, está ali ocupado com o seu cliente, com a sua atividade, com seus problemas, seus compromissos, às vezes até de família, e ele quer trabalhar, ele não está muito preocupado com, ele não está querendo saber o que está acontecendo com o ICM, com o imposto sobre serviço, que é o ISS, a licença da prefeitura pra ele trabalhar, ele não quer saber, né, imposto sindical, que hoje chama contribuição sindical. Ele então precisa ter alguém ou ter alguma coisa para orientá-lo e aí que entra o sindicato. O sindicato dá toda essa cobertura a esse profissional dentro desse salão e orienta ele no sentido de cumprir as suas obrigações sociais, obrigações, todas as obrigações que ele tem e ele continua com a sua atividade dentro da normalidade que é a desejada, né? Na minha área o sindicato tem esse, noutras áreas talvez não seja eu o mais indicado pra falar.

 

P/1 - Certo. E, senhor Vinhal, o senhor já tinha ouvido falar do SENAC?

 

R - O SENAC eu já tinha ouvido falar, mas eu não tinha ideia que o SENAC fosse uma coisa da importância que é. Quando eu entrei para a diretoria do sindicato, o sindicato tinha um representante na Federação. Um dos diretores nossos antigo participava das reuniões, tinha aqueles contatos na Federação, porque o sindicato é filiado à Federação sendo que a Federação é que administra o SENAC e o SESC, então tinha aquele conhecimento, era um pouco superficial, mas eu me interessei em conhecer. Quando eu entrei pra diretoria, fui pra Federação, comuniquei à Federação oficialmente: "Olha, agora a diretoria foi eleita, o presidente sou eu, José Domingues Vinhal, o delegado representante do sindicato também sou eu." E eu conversando com o Presidente lá, eu disse pra ele: "Olha, eu gostaria de no futuro, quando houver possibilidade, eu ter um conhecimento mais, uma frequência mais aprofundada no SENAC porque realmente é um... ele tem atividade que é da minha área, né, o SENAC está ligado à área nossa, eu gostaria de ter essa possibilidade." O Presidente na época: "Ah, perfeitamente, é um direito que você tem, aliás, é até um direito estatutário, né? Agora nós vamos fazer eleições daqui mais um ano e nós na época consultaremos você da possibilidade de ter uma militância no SENAC." De fato, quando chegou a época da eleição houve aquelas reuniões, eu já participava das reuniões da Federação, já fiquei mais perto daquelas reuniões que iam falar sobre esse assunto, aí eu lembrei ele, falei: "Olha, se for o caso na época..." "O seu nome já está aí indicado para participar do Conselho do SENAC na condição de suplente." Era dois Conselheiros por atividade, por área, né? Então tinha um que era o titular e tinha um suplente. Na minha área já tinha um que era titular, o outro estava saindo, então deu a vaga pra mim. E eu comecei a frequentar as reuniões do SENAC, aí eu fui aprendendo muita coisa, né? Foi aí que eu, eu chamo o SENAC de um amor à primeira vista, né? Da primeira reunião que eu tive no SENAC, no Conselho do SENAC, eu já gostei, fiquei embriagado pelo SENAC, eu falei: "Mas que coisa interessante", né? Os assuntos que eram tratados, muito interessantes, a qualidade dos Conselheiros, né, pessoas de uma linhagem espetacular, um ambiente, uma cortesia, tudo no SENAC era interessante e eu tinha gostado demais, fiquei enamorado do SENAC. E chegando nas reuniões do sindicato eu contava pra eles: "Olha, nós temos uma possibilidade muito grande de nós nos valermos do SENAC para nós melhorarmos a nossa atividade, a nossa profissão, nosso trabalho." "E como é que faz?" Aí foi quando eu comecei a fazer contatos com a diretoria do SENAC, a administração, e nós fizemos lá um curso de cabeleireiro no SENAC lá da Avenida Tiradentes e sob inspiração nossa, né, nós fomos fazendo aquele trabalho de acompanhar o curso, fizemos um número de inscrição muito grande até de alunos para essa primeira turma e os alunos concluíram o curso e com bastante brilhantismo, e aquilo foi feito uma entrega solene de certificados e uma festinha, aquela coisa toda, e eu não tinha outro jeito, acabei gostando mais ainda. Eu vi ali uma possibilidade muito grande de a gente valer-se do SENAC para a melhoria das nossas condições, né? E posso até estender um pouquinho mais, naquela época nós tínhamos, vivíamos uma época de grandes dificuldades porque começou a aparecer aí aquele conjunto famoso lá da Inglaterra, os Beatles, e eles não cortavam cabelo, né? Não cortavam cabelo e dava um exemplo muito ruim pra nossa área, nossa atividade, de que ninguém cortasse cabelo. Os jovens não tinham muita vontade de cortar, como os Beatles eram cabeludos e faziam sucesso, eles também não queriam mais cortar cabelo e aí irradiavam isso para os de meia-idade e até os velhos passaram a não cortar mais cabelo, né? E nós estávamos vivendo um período de muita dificuldade. Ainda falei numa das reuniões nossa, do nosso Conselho, e falei também numa solenidade, que o SENAC estava chegando numa hora muito boa com aquele curso pra nós porque aquilo seria a salvação da lavoura, né, ainda brinquei com eles. A salvação da lavoura porque os meninos não estavam mais interessados em aprender a profissão de barbeiro não, embora nós tivéssemos famosos profissionais de barbearia, os filhos deles não queriam saber, queriam outras coisas, queriam tocar guitarra, queriam sair por aí, ninguém queria aprender a cortar cabelo. Então, nessa hora o SENAC chegou com esse curso e a turma começou a se interessar por outros atrativos também e foi aonde salvou. Aí, resultado, nós fomos participando mais ativamente da área, né, nós demos a nossa colaboração possível com o nosso conhecimento e nós conseguimos salvar a pátria nessa área. Hoje nós temos um contingente muito grande de alunos que se formam nessa área que foi a salvação, realmente foi a salvação, né? Temos profissionais brilhantes, com sucesso aqui e fora, e eles vão pra fora pra aperfeiçoar e tem muita gente que vem de fora pra cá também pra aprender alguma coisa, viu? Ensina e aprende também, né?

 

P/1 - O senhor lembra que época que foi mais ou menos o primeiro curso?

 

R - O primeiro curso se eu não estou enganado, foi ali por volta de 75, 75, 76, eu estava no início, foi quando eu entrei no SENAC foi em 75, foi logo que eu entrei, eu comecei a trabalhar com o pessoal da administração pra criar esse curso aí, né, e nós começamos, foi nessa época mais ou menos mesmo, 75, 76.

 

P/1 - Certo. E o que é que envolvia o curso? Como é que ele estava estruturado? Quais eram... o que é que eles aprendiam?

 

R - Olha, nós tínhamos lá brilhantes instrutores, né, na época, como não poderia ser de outra forma, não tínhamos muitos, era só aquela escola, não tinha mais, hoje nós temos várias, em todas as unidades com um número suficiente de instrutores, professores, instrutores. Na época nós tínhamos lá uns três ou quatro só, que mesmo assim nossa primeira turma teve quase duzentos alunos que recebeu o certificado de cabeleireiro. E eles eram profissionais de alto gabarito, um conhecimento profundo da arte de cortar cabelo, não só cortar como do embelezamento de uma forma em geral, né, o tratamento de cabelo, lavagem, né? E esses professores ensinavam, como diz na gíria, como se deve, sabe? Eles eram... em cabelo não tinha segredo pra eles, viu? Tanto que o reflexo hoje é altamente positivo porque foi nascendo ali, né, dali que nasceu toda essa gama imensa de artes na área de cabelo, né, verdadeiros artistas hoje, partiu tudo dali, viu?

 

P/1 - Certo. De onde vinham os alunos? Eles já eram profissionais ou eles estavam em busca de uma formação que auxiliasse?

 

R - Alguns alunos não queriam aprender com seus pais ou com os salões dos seus irmãos, eles queriam alguma coisa mais, né? E o SENAC fazia uma certa publicidade, né, fazia uma certa publicidade com cartazes, com noticiário, a mídia de uma forma, não tão como hoje, um pouco mais limitada, mas já existia, né? E somado isso com o trabalho que os sindicatos, o sindicato e as associações de cabeleireiros na época, a gente já começou também a frequentar as associações que existiam. Associações de cabeleireiros eram associações de direito privado, não era direito oficial como era o sindicato. Mas a gente começou a frequentar essas associações e sugerir pra eles aqueles campeonatos de cabeleireiro, aquelas exibições nas festas, qualquer coisa que levassem o cabeleireiro a exibir a sua arte. E nessas associações começaram a fazer uma série de campeonatos e cada vez que fazia... e foi despertando interesse nessa rapaziada, né? Ou seja, os militantes das associações, os militantes dos sindicatos e mais aqueles que vinham trazidos pela mídia. Um fala com o outro: "Agora eu estou fazendo um curso, é altamente positivo, compensador porque um corte de cabelo está custando tanto, né?" Já os cabeleireiros mais famosos, mais gabaritados, eles cobram, é normal que cobrem porque estão num ponto bom, né? E isso aí refletia nos profissionais mais humildes, né, e eles estavam interessados. Hoje você vai nesses shoppings aí, está cheio de salões alto gabarito, com bons profissionais.

 

P/1 - Certo. Dentro do SENAC o senhor sempre teve a atividade de Conselheiro?

 

R - Dentro do SENAC? Bom, como Diretor, eu passei sempre a ter a minha atividade na Federação, né? Na Federação eu entrei como Diretor-adjunto, ou seja, convidado. Foi o meu primeiro ano, depois eu passei pra quarto tesoureiro, terceiro tesoureiro, a eleição seguinte segundo tesoureiro, e a outra primeiro tesoureiro. Nesta eu já estou com três mandatos de tesoureiro, né? Agora vai haver eleição, eu não sei se estarei, mas estamos aguardando. Como a Federação administra o SENAC, né, de acordo com a lei, o SENAC e o SESC são administrados pela Federação. Então a Federação é que também forma os conselhos, a diretoria executiva da Federação através de seu Presidente é que forma os conselhos, né? E eu não sei por que razão, pelo quadro que eu pertenço da minha atividade sempre me foi reservado um lugarzinho de Conselheiro, né? No início como suplente e ultimamente como titular, né? Então eu tenho procurado nas reuniões corresponder à confiança que o Presidente e a diretoria têm colocado em mim. (riso)

 

P/1 - O que é que um Conselheiro faz? Qual a atividade dele?

 

R - Olha, o Conselheiro, uma das atividades dele é propor ao Conselho, né, à administração, a criação de cursos, né, cursos de interesse das suas áreas. O cabeleireiro propõe criação de curso da sua área, o varejista propõe criação de cursos da sua área de varejo, o atacadista, por sua vez, também propõe cursos da sua área. Pra você ter uma ideia, numa das áreas do nosso SENAC tem a área de café, né, então o Conselheiro da área de café ele sempre está pedindo um curso de provador de café, um curso de atualização, né, e assim como exemplo, né, cada um pede aquilo que está na sua área. E, fora isso, o acompanhamento das atividades do SENAC e por seus Conselheiros através das suas áreas e a votação desses pedidos, dessas sugestões se for o caso há um pedido de votação para que sejam aprovados esses cursos quando são sugeridos.

 

P/2 - E o Conselho se reúne quantas vezes?

 

R - Ordinariamente ele se reúne uma vez por mês, de acordo com a lei, né? Mas ele poderá se reunir extraordinariamente tantas vezes quantas forem necessárias. Nosso Conselho, como é um conselho bastante regular, não temos tido reuniões extraordinárias não, nós temos cumprido nossa missão dentro das reuniões normais, ordinárias.

 

P/1 - Senhor Vinhal, o SENAC teve grandes mudanças ao longo dos cinquenta anos, né?

 

R - Ah, mas como teve.

 

P/1 - E assim, o Conselho participa ativamente? Ele aprova essas mudanças? Tem que passar pelo Conselho?

 

R - Tudo, tudo o que se faz no SENAC tem que passar pelo Conselho. Passado pelo Conselho, a administração, através do seu Diretor e dos seus Técnicos analisam, né, a viabilidade, primeiramente a viabilidade econômica e depois as outras fases da viabilidade, né? E aprovado, o Conselho aprova, o Presidente comunica à diretoria regional e ela executa. Seja através de um curso, seja a criação de uma unidade, por exemplo, às vezes precisa, vamos supor, somente por suposição: São José do Rio Preto quer uma unidade, lá já tem, mas vamos supor que São José do Rio Preto quer uma unidade do SENAC, não tem ainda, então é levado ao Conselho, o Conselho estuda, aprova ou não, se aprovado, o Presidente encaminha à diretoria regional para tomar as providências, aí abrir concorrência, né, aí tem uma série de procedimentos que precisa ser levado pela diretoria regional e depois executado.

 

P/2 - Me diz uma coisa, senhor Vinhal, desses cinquenta anos do SENAC, qual foi a mudança que mais trouxe, vamos dizer assim, polêmica dentro do Conselho?

 

R - Na verdade não tem havido assim polêmica, né? Porque como o Conselho do SENAC, a diretoria regional tem uma atuação, até não é exagero não, eu acho que é uma atuação soberba, viu? Por que é que o senhor está falando isso? Então eu digo que eu conheço outros regionais de outros Estados que não pode nem passar perto do nosso regional aqui de São Paulo, né? Então não estou exagerando em dizer, em classificar o trabalho da nossa diretoria regional de soberba porque ela é realmente um exemplo, um exemplo para todos os regionais dos outros regionais brasileiros, sob todos os aspectos. É uma diretoria que o seu trabalho, por exemplo, ele praticamente, e aí eu respondo à sua pergunta, praticamente o trabalho da diretoria regional de São Paulo nesses cinquenta anos é que ele se autofinancia, praticamente nós, quase que nós não vamos precisar muito daquele dinheiro que vem da nossa, as verbas que vêm do governo, né? Ainda precisamos e vamos precisar, mas o SENAC de São Paulo ele está muito perto do seu autofinanciamento, graças a Deus, né? (risos)

 

P/1 - Mas o senhor lembra de ter participado assim de uma grande mudança dentro do SENAC?

 

R - Não, mudança assim... uma das mudanças, eu poderia dizer duas coisas: uma das mudanças que houve no SENAC é que quando vem aquelas sugestões pra criar uma unidade, por exemplo, faz-se o projeto, fazia-se o projeto, aquele projeto grande, bastante cimento plantado, bastante ferro, né, áreas grandiosas, né? Então sob a direção do nosso Presidente, o doutor Abram Szajman, ele reformulou esses projetos. Então quando há necessidade de criar uma escola, uma unidade, isso aí, ela vai ficar bem mais barata e vai cumprir as finalidades da mesma forma do que se fosse uma grandona, né, uma unidade grande. Vamos dar como exemplo, só pra você entender o que eu quero dizer. Campinas tem uma unidade grande, bonita, com o dinheiro, se fosse hoje, com o dinheiro que nós construímos aquela unidade de Campinas, nós fazíamos oito unidades em vários pontos de São Paulo, né? De São Paulo ou de Campinas. Campinas mesmo poderia ser feito mais umas três ou quatro unidades menores, não ter aquela grandona que centraliza tudo aquilo ali. Isso foi uma mudança, né? A outra mudança é que em todas as unidades tem todos os cursos praticamente, né? Antigamente você tinha um determinado curso, tinha numa unidade e não tinha na outra. Hoje nós temos cursos de Informática praticamente quase que em todas as unidades, né? Temos Curso de Cabeleireiros em todas as unidades. Curso de Datilografia em todas as unidades, Curso de Inglês, cursos de línguas de uma forma geral, nós temos praticamente quase que em todas as unidades e futuramente terá praticamente em todas as unidades. Eu acho que são dois aspectos de mudanças, né?

 

P/1 - E hoje em dia o senhor faz o que na Federação? O senhor tem uma atuação grande ainda, né?

 

R - Na Federação eu ocupo o cargo de primeiro tesoureiro, né, já venho ocupando já por três mandatos como eu disse pra você anteriormente. E a função de tesoureiro é zelar pelas finanças da entidade, né, zelar pelas finanças em conjunto com a presidência, né? Então a gente procura tomar conta da minha área, do meu setor com todo o carinho possível, com todo o cuidado possível para exercer bem a minha atividade de tesoureiro. É lógico que um tesoureiro não pode assinar um cheque sozinho sem a assinatura do Presidente, né? E o Presidente também, por sua vez, tem que ter a assinatura do tesoureiro, né? Então isso é muito interessante, muito bom porque se uma pessoa pode fazer bem, duas podem fazer melhor, né? Até porque também é uma exigência da lei, né?

 

P/1 - Certo. Senhor Vinhal, voltando um pouquinho à coisa do Conselho, né? O que é que o Conselho tem pensado, tem conversado a respeito do SENAC de hoje para o futuro?

 

R - Bom, o Conselho de uma forma em geral, depois que a gente faz as reuniões do Conselho, a gente sempre tem aquela reuniãozinha paralela, né? E nós comentamos aqueles assuntos que foram levados ao conhecimento lá e às vezes vem também algum assunto para o futuro. O futuro, todos nós achamos que o SENAC de São Paulo, pelo menos eu estou falando pelo de São Paulo, ele vai, a esperança nossa é que ele vai daqui sempre para melhor, sempre para melhor, muito embora a gente tenha uma certa preocupação com as mudanças políticas, né? Como preocupação é preocupação, né, resta a nós a esperança de que o SENAC sempre vai melhorar, sempre vai melhorar. E nós temos certeza que tem tudo pra melhorar porque a diretoria regional com o seu corpo de colaboradores, superintendentes, diretores, esse pessoal, nós até podíamos, sem exagerar muito, dizer que eles vestem a camisa do SENAC, é um pessoal que estão com o SENAC em qualquer lugar com tudo. Então quando você tem um corpo de funcionários, de servidores do nível, da estirpe desses funcionários do SENAC, eu acho que a entidade só pode ir pra frente, não tem nunca que pensar em regresso, só pra frente. Como diria o Adhemar de Barros: "Para frente e para o alto, né?" (risos)

 

P/1 - E ao longo desse tempo em que o senhor acompanhou o desenvolvimento do SENAC, o que é que o senhor acha assim que o comércio, o pessoal que absorveu os alunos que saíram dos cursos de cabeleireiro, de barbeiro, como o senhor acha que foi essa recepção? O que é que modificou?

 

R - Ah, foi muito positiva, a começar pela minha área, eu tinha dito pra você que se não fosse os cursos do SENAC, eu não sei onde estaríamos hoje, estaríamos reduzidos aí a meia dúzia de barbeiros antigos que vão viajando, né, para o além e ia ter ninguém para cortar cabelo. E a começar da nossa área que nós tivemos uma recuperação extraordinária, com reflexo até mesmo no estrangeiro, como eu já disse, e em todas as outras áreas a gente nota porque pelas afirmativas dos nossos companheiros no Conselho, todos com excelente receptibilidade, com excelente produtividade, o SENAC. Só palavras elogiosas nós temos ouvido. E olhe que eu converso bastante, viu, porque eu tenho um relacionamento com todos os Conselheiros, felizmente durante todos esses longos anos em que eu estou no Conselho, eu tenho essa felicidade de ter muita amizade, gostar de todos e tenho certeza de que todos gostam de mim. Então eu estou autorizado a dizer que eles só falam com o coração e só falam bem, né?

 

P/1 - E deixa eu perguntar uma coisa para o senhor. Quando o senhor tinha o salão, o senhor já era do Conselho do SENAC?

 

R - Já, já.

 

P/1 - E o senhor incentivava os seus funcionários a irem se atualizar, a fazer cursos?

 

R - Sempre, sempre. Sempre eu incentivei eles, não importava a idade do meu funcionário porque no meu salão a maioria dos meus funcionários eram de uma certa idade, né, embora tivesse alguns... mas eu incentivava a ir fazer o Curso de Cabeleireiro, Curso de Manicure, Curso de Esteticista, Maquiador. As moças que trabalhavam comigo todas elas iam fazer. Eu tenho até dois sobrinhos meus que eu fiz eles matricular no SENAC, fazer curso, a primeira turma de alunos que foi formada na Avenida Tiradentes, naquela turma tem um rapaz que é meu sobrinho, filho de um irmão meu. Porque eu fiz tanta força pra ele ir porque ele gostava da profissão, né, e foi muito bom pra ele, abriu um caminho extraordinário na vida dele, viu?

 

P/1 - E dos seus funcionários que iam fazer o curso, qual era a resposta da clientela?

 

R - A resposta da clientela primeiro era, aqueles que eram já clientes continuavam, os que não eram perguntavam: "Aonde você cortou?" "Cortei com o fulano." Aí passavam, ganhavam mais um cliente. Eu acho que a melhor resposta era essa. Se eu tinha, por exemplo, oitenta clientes antes deles frequentarem o curso, depois que eles frequentaram o curso esse número dobrou duas vezes mais. Dobrava mesmo porque o pessoal perguntava: "Onde você fez esse corte?" "Ah, fiz com o fulano de tal", chegava, conversava com ele: "Você aprendeu isso aonde?" "Ah, aprendi no SENAC." E isso acontece praticamente em todos os salões.

 

P/1 - Senhor Vinhal, a gente está acabando a entrevista agora. Eu queria que o senhor falasse o seguinte: o que é que o senhor achou de ter passado essa hora com a gente, falando da sua vida, da sua experiência profissional, da sua atuação como Conselheiro do SENAC?

 

R - Eu acho que pela vivência que eu tenho tido no SENAC, na Federação do Comércio durante todos esses anos, muito positiva, muito agradável, eu acho que pra completar toda essa felicidade só faltava estar com vocês hoje aqui, viu? Não falta mais nada, né? Fiquei muito feliz em estar aqui com vocês com essa cordialidade toda e eu poder, dentro dos meus limites, expressar aquilo que vocês queriam saber. Eu não sei se atingi o objetivo, mas eu fiquei feliz com essa passagem aqui desta tarde com vocês.

 

P/2 - A gente é que agradece a sua presença.

 

P/1 - Obrigado.

 

R - Estou às ordens.

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