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História

Ascendendo na vida

História de: Eliete Soares da Cunha Rego Motta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/09/2013

Sinopse

A entrevista de Eliete Soares da Cunha Rego Motta foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 08 de agosto de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Migrante nasceu em João Pessoa, foi criada pela madrasta: o pai se casou com ela aos 27 anos e a madrasta tinha 13. Sofreu agressões físicas durante a infância e devido a estar cansa de apanhar fugiu de casa. Engravidou aos 16 anos do primeiro filho batizado de Alexandre. Ficou 28 anos sem vê-lo e depois teve o segundo filho que também batizou de Alexandre.

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História completa

O meu pai era comerciante, ele tinha uma fábrica de colchões e lojas. A minha mãe era dona de casa. O meu pai conheceu a minha mãe vindo de um casamento do qual teve duas filhas. Do casamento com a minha mãe, nasceram mais cinco filhos. Ficamos com eles, até que eles se separaram, aos meus três anos de idade. Ele levou a gente para a casa de uma mulher que mais tarde veio a ser a minha madrasta. Naquela época, ficava com os filhos quem tinha uma condição de vida melhor, não precisava nem discutir na justiça.

Lá fomos muito judiados, desde o dia que chegamos. Logo no primeiro dia, a minha irmã de 13 anos tomou uma surra porque mexeu nas roupinhas do bebê dessa nova mulher do meu pai. Nunca mais paramos de sofrer com ela. Ela teve sete filhos e judiou de todos. Ela chegou a dar uma surra de rastelo no meu irmão. O rim dele começou a desmanchar em água. Ele precisou ficar um mês comendo muito doce e sem beber água. Tomávamos banho com água de sal, apanhávamos com fio de ferro. Eu tinha um cabelo comprido e ela amarrava na mão e me batia na parede. Assim fomos crescendo.

O meu pai tinha um poder aquisitivo bom e numa determinada época ele tomou chifre dessa mulher e arrumou outra. Foi uma outra madrasta. Assim nós fomos indo. Muitos anos depois o meu pai conheceu outra mulher e se separou novamente. Hoje essa mulher é viúva dele e três filhos com ele. Quer dizer, um ela já tinha. O outro é mesmo filho do meu pai. A outra, que é uma menina, acho que eles adotaram. A gente não sabe contar direito a história dela. Depois de um tempo mataram um dos filhos do meu pai e ele sofreu muito. Não conheci esse irmão meu porque quando ele nasceu eu já estava aqui em São Paulo.

Fiquei até os 16 anos na casa do meu pai. O meu pai tinha um amigo caminhoneiro e eu, que não aguentava mais sofrer com a minha madrasta, peguei uma carona com ele e fui para o Recife, sem dinheiro, sem nada. Eu tinha uma irmã que morava lá, eu sabia o bairro e o endereço dela. Procurei até que apareceu alguém que conhecia o irmão do marido dela. Era uma família conhecida por Luna. Fiquei na casa dela, que estava passando fome, comendo fubá de manhã, de tarde e de noite. Eu fiquei um mês lá, apesar do meu tio não conversar com o meu pai por causa de dinheiro, lá era como se fosse a minha casa. De lá fui para um colégio de freiras, porque queria ficar internada. Era um colégio particular e o meu tio é quem arcava com tudo. Eu, muito bobinha, não sabia o que era líder. Mas lá eu era tida como uma líder. Todas as madres da escola falavam isso, mas eu não sabia se isso me deixava feliz ou triste. Um dia ela me disse que líder era quem dava exemplos, e me colocou de férias na casa do meu tio. Nessa saída eu conheci um rapaz pelo qual me apaixonei e engravidei.

Voltei para o colégio e fui descoberta grávida. Quando fiz sete meses de gravidez a madre disse que eu não poderia mais ficar lá porque estava dando mau exemplo. Me levaram então para a casa da minha irmã, no Recife. Ela ficou comigo, mas contra a vontade, dizendo que não aceitava gente do meu tipo na casa dela. Naquela época era tudo muito assim mesmo. Ai apareceu uma prima minha, dizendo pra irmos para a casa dela. Lá eu trabalharia pra ela a troco de casa e comida. Fui pra lá e ali eu ganhei nenê. O pai do meu filho não quis saber do bebê. Um dia fui para a casa dos pais dele, que se chamava Alexandre e quando cheguei lá, a família dele foi muito compreensiva. O Alexandre, vendo que os pais dele estavam me apoiando, entrou pra dentro da casa, fez as malas e falou que se fosse pra eu ficar ali, com a criança, ele iria embora. A mãe dele então pediu que eu deixasse o meu filho com ela porque a minha prima já havia me dito para não voltar lá com aquela criança. Até os três anos de idade eu vi o meu filho, depois eu vim embora pra São Paulo. Aqui eu tenho um outro filho chamado Alexandre. Cheguei aqui em São Paulo muito assustada. Eu nunca tinha visto um céu cinzento, tanta gente e tanto viaduto. Passei pelo viaduto São João, estava um frio miserável e saia fumaça da boca das pessoas. Nunca tinha visto aquilo. Cheguei na estação da Luz e pedi para o motorista qualquer preço para ele me levar de volta, mas não tinha nem um real. Fui para essa agência de empregos e morei num hotel pela agência.

Arrumei um emprego na casa de uma pessoa, mas nunca tinha visto um aspirador de pó. Liguei o aparelho ao contrário, voou pó para todo lado, a mulher tomou da minha mão, eu chorei muito e quis voltar para a agencia. Me mandaram então para a casa de uma mulher cega, bem gorda, para cuidar dela. Também não quis ficar lá. Então me levaram para um lugar, acho que é São Bernardo, não sei, onde o pão era desse tamanho. Eu ficava muito assustada, a vida ali não tinha nada a ver com a vida que eu vivia. Fui para a casa dessa mulher, que comia escarola dizendo que era alface. Eu achava aquilo amargo demais. Que alface era esse de São Paulo? Depois, na hora do almoço, um feijão cozido com água e sal e mais nada, sem uma carninha no meio, nem nada. Eu disse a ela que não ia ficar ali não, porque nem o cachorro da minha casa comia aquele feijão. E não comia mesmo! A comida de lá não é igual o daqui. Eu me matava naquele pão porque não comia a comida dela, só comia pão cascudo, filão. Saia para comprar de manhã e me perdia. Eu sou muito sem direção. Fiquei nessa casa e depois fui trabalhar no Alto de Pinheiros. Fiquei pouco tempo lá, trabalhava de copeira. Usava uniforme e trabalhava servindo aquelas comidas que eu achava chique, tinha que servir ainda com o conhaque pegando fogo. Aqui em São Paulo eu sofri muito. Trabalhei em uma casa em Santana onde a mulher falou assim pra mim: “aqui dorme-se no chão, não tem cama no quarto de empregadas”. Eu era recém chegada, tinha trabalhado apenas em uma casa e poucos dias. Dormi no chão, forrado de jornal e aquilo era muito ruim. Um dia ela disse que queria a sala brilhando. Hoje eu concursei para a prefeitura, para trabalhar como ascensorista. Hoje eu trabalho como recepcionista. Fico na recepção do Museu de Santo André. Já estou lá há quase oito anos. Sou funcionária pública a 22 anos. Demorei muito para conseguir esse cargo.

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