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História

Barba, cabelo, bigode e teatro

História de: Carmo Miguel Arcanjo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/06/2017

Sinopse

Carmo Miguel Arcanjo falou sobre a infância pobre no interior de Minas Gerais: “só tinha o chão pra pisar e o céu para olhar”. Ao se mudar para São Paulo, conseguiu emprego em uma barbearia na Barra Funda. O trabalho aproximou-o de algumas personalidades do bairro. Conhecedor do bairro, foi convidado a participar de duas peças de teatro. Cumulativamente ao trabalho na barbearia, está fazendo um curso de teatro.

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História completa

Meu nome é Carmo Miguel Arcanjo. Nasci em 29 de setembro de 1951 e sou natural da cidade de Itanhomi, Minas Gerais. Nasci na roça. Meu pai tocava viola e trabalhava na agricultura. A minha mãe, prendas do lar. Eu tenho nove irmãos: vivo, só eu, o resto trabalha. A casa onde cresci era de barro, bem pobre. Uma janelinha pequenininha: se você punha a cabeça pra fora e puxava, a orelha ficava lá. A coisa era feia. Só tinha o chão pra pisar e o céu pra olhar. A gente vivia bem graças à inocência. Esperava a meia ficar velha pra fazer uma bolinha e jogar. Andava a cavalo, pescava. A casa ficava a uns seis quilômetros da cidade. Eu gostava quando morria alguém porque a gente ia até a cidade e comia pão quando voltava, depois do enterro. A casa tinha uns oito cômodos. Fechavam a porta por causa dos animais que entravam, não tinha violência. Usava muito estilingue no pescoço, mas nunca matei um passarinho. Dei muita sorte, se tivesse matado, hoje seria um cara triste.

Estudei 16 anos: quatro anos o primeiro ano, quatro anos o segundo ano, quatro anos o terceiro ano... Não gostava de passar de ano, adorava as professoras. Depois eu comecei a saber mais do que a professora e meu pai me tirou da escola. Se você já aprendeu a ler e escrever, você já sabe tudo.

 

Baile antigamente se chamava pagode. Qualquer festa era pagode. Pra gente era muito bom, muito legal. Quando chegou a fase boa de namoro eu deixei as mineirinhas bonitas e vim pra São Paulo. Aqui tem mais mulher bonita ainda. Saí de lá com 18 anos. Antes de sair, fiquei em uma barbearia e aprendi um pouco a cortar cabelo. Vim sozinho, mas meu irmão já estava aqui. Cheguei na rodoviária antiga que tinha na Avenida Duque de Caxias. Fui parar em uma barbearia na Avenida São João. Cheguei lá, falei que era barbeiro. Eles acreditaram e comecei a cortar cabelo. Era considerada a barbearia chique da época. Isso foi de 69 pra 70. A clientela era só a elite. O irmão do Silvio Santos, até o Silvio Santos ia lá. O dono da Casas Bahia, o pessoal da Lojas Pirani. Chamava-se Salão São Paulo. A Avenida São João era uma avenida chique, cartão postal de São Paulo. Era um desfile de gente bacana. O problema é que desfilava todo tipo de gente: rico, pobre, gente metida a besta! Era um lugar que todo mundo gostava de ir. Falando de moda, a Jovem Guarda foi o que mais me marcou. O Roberto Carlos, o Ronnie Von, o Vanderlei Cardoso, o Jerry Adriani: o pessoal gostava muito de copiar. Todo mundo queria se parecer com os Beatles. Naquela época, os barbeiros antigos, bem antigos, não gostavam de cortar esse tipo cabelo. Eu gostava porque falava a mesma linguagem da pessoa.

 

Na juventude eu gostava muito de ir ao cinema. E gostava de namorar. Se tinha mulher, eu estava perto. Mas nunca catava ninguém, só ficava perto. Conheci minha esposa em uma festinha. A gente começou a namorar e tive que casar por amor. Amor à vida, senão o pai dela matava a gente! Atualmente moro na Cachoeirinha, em uma casa que é minha.

 

Havia duas pessoas famosas que frequentavam a barbearia: o Raphael Galvez e o Conrado Wessel. O Raphael Galvez era escultor, artista plástico e desenhista. Foi professor na Belas Artes, tem várias obras dele lá. O Conrado Wessel foi o inventor do material fotográfico. Não sei se foi o negativo, não sei o que foi. A Kodak do mundo inteiro usava o produto dele. A Kodak comprou a patente e com essa venda ele fez fortuna. O terreno do Shopping Higienópolis, que tem 9,6 mil metros quadrados, era desse Wessel. O Galvez era muito amigo do Mario de Andrade e contava as histórias do dois.

 

Meu contato com o teatro começou com a Companhia São João de Variedades, que se instalou lá perto da barbearia, na Rua Lopes de Oliveira. Na minha primeira atuação no teatro eu fiz o papel do Raphael Galvez. Foi muito emocionante. Eu ficava fazendo a obra, batendo na parede, e a mulher atrás narrava a vida do Raphael. Eu tinha muita admiração por ele. Era um cara muito humilde. A gente atendia o Raphael na barbearia, mas não sabia da grandeza dele.

 

Para a segunda peça, eles precisavam de uma pessoa que conhecesse um pouco do bairro e foram atrás de mim. Eu contei a história da Barra Funda. O nome seria Barafonda. Nessa segunda peça, não teve ensaio. Eu falava de improviso coisas que se referiam à Barra Funda. Participei de um curta metragem também. Chamava-se A incrível história de Cândida.

 

A Companhia ficou lá por uns oito anos depois foram pra um barracão deles na Freguesia do Ó. Atualmente estou num curso de teatro. Fui convidado, chama-se Curso de Teatro Stanislavski. Vou ficar lá e ver o que vira. É só pra brincar, ficar de noite bebendo cachaça no boteco.



Continuo na barbearia com meu irmão. Tenho dois filhos, o Alexandre Miguel Arcanjo e Adriano Miguel Arcanjo. Hoje o que eu considero importante é acordar. Acordar e falar: “Estou vivo”. Está bom demais pra mim. Não tenho nem um pouco de medo da morte. Tem que procurar viver bem todos os momentos pra não ter arrependimento de nada.

 

 Editado por Raquel de Lima


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