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Bonecos, histórias e brincadeira: o caminho para aprender ensinando

História de: Márcia Edna Pacheco Siqueira Brito
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2019

Sinopse

Márcia Edna Pacheco Siqueira Brito nasceu no interior de São Paulo. Puro acaso. Com 17 anos de vida foi para o norte do Paraná com seus pais. Conheceu a Avenida Paulista. Tinha 6 para 7 anos e a família iniciou um período de andanças, com a falência do pai. Suas lembranças de infância incluem uma família alegre, uma mãe cantora, um pai bem-humorado, e muitas dificuldades. Como o irmão que nasceu sem um braço, as idas e vindas, o colégio interno. Mas estudou - não muito, que talvez não fosse de sua natureza - mas o suficiente para tornar-se professora. Aí casou, teve filhos, largou o Magistério para se dedicar a eles. Separou-se. E foi, então, criar seus bonecos. Contar suas histórias. Dar vida de boneco aos personagens. Brincou muito com crianças. Mais aprendeu com eles do que ensinou. Sonha continuar ativa. E inventiva, é claro.

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História completa

Quando eu nasci, em 08 de abril de 1947, meus pais moravam no norte do Paraná. Mas o destino, caprichoso, fez com que eu nascesse em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, por acaso terra de meu pai e de sua família. Ao viajar para lá, grávida, para o casamento do cunhado, minha mãe não podia imaginar que complicações na gravidez fossem impedi-la de retornar, até o meu nascimento. Mas, com dezessete dias de vida, eu, Márcia Edna Pacheco Siqueira Brito, fiz, com meus pais, a viagem de volta para casa. Com direito a passeio de táxi na Avenida Paulista. Desse período, inclusive, existe o registro de uma história bem interessante: minha mãe retida em São João, meu pai enviava-lhe, diariamente, uma carta. E o pacotinho de cartas, amarradinhas, ficou guardado como relíquia, eu cheguei a ver. No entanto, no calor lá de um desentendimento, minha mãe queimou todas as cartas. Eu, brava - quando, mais tarde, fiquei sabendo - dela ter “destruído a minha história”.

 

Mas, enfim, meu pai, contador formado lá em São João da Boa Vista, filho de uma família bem conhecida na cidade, precisou aventurar-se no norte do Paraná, que os empregos eram escassos. E lá, foi trabalhar com café. Lá, na pequena Cambé, próximo a Londrina, conheceu minha mãe. É uma verdadeira história de amor: eles se encontraram nos correios da cidade, ele mandando carta para a noiva que deixara em São João, ela também enviando uma carta para o noivo italiano, desistindo do noivado.

 

(...) e diz que meu pai falava: “Ela era mal educada! Me deu um empurrão na fila”. Aí começaram a prestar atenção um no outro.

 

A lembrança que tenho da minha família, ainda pequena, é que meus pais eram divertidos, procurando sempre focalizar, em todos os acontecimentos, mais o lado alegre, brincalhão, positivo. Minha mãe cantava para a gente, declamava, brincava, fazia roupa de boneca…

 

Até quando a gente cresceu um pouco, ela ficava brincando e a gente arrumava a cozinha!

 

Bom, mas aquele tempo de tranquilidade, segurança, deu lugar ao que eu chamo de “nossa andança”. É que meu pai faliu e nós passamos a ter que mudar de uma cidade para outra. Primeiro para Poços de Caldas, depois Mogi-Mirim, São Paulo, Poços novamente. Ficava difícil também para o meu pai se estabilizar: ele era constantemente convocado a comparecer ao Paraná, por causa da tal falência. Que, curiosamente, apontou sobra de dinheiro! Inusitado numa falência! Tanto que vivemos com esse valor, por um tempo. Mas aí aconteceu de, no período em que estávamos em São Paulo, minha mãe engravidar. Só que, por infelicidade,  o bebê que nasceu, meu irmão, nasceu sem um braço. Foi doloroso, abalou sobretudo meus pais. A mim e à minha irmã custou um colégio interno - meio ano - até minha mãe se recuperar do trauma. Minha irmã sentiu mais a internação do que eu. Ela era o oposto de mim - extrovertida, sociável - sentiu mais o afastamento, eu creio. Eu era mais reservada, não deixava me apegar muito aos lugares, às pessoas, certamente porque sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que partir. Não sei, talvez uma autodefesa em relação a separações, acho isso bom. Até hoje. A propósito, quando meu irmão fez um ano, nós voltamos ao norte do Paraná, já uma outra cidade, onde fiz todo o então ginasial. Sempre em colégio estadual. Na verdade, nessa questão de estudo eu nunca fui de me destacar não, era mais de fazer as coisas, não era tão estudiosa assim. Por exemplo, fiz o Magistério - eu queria algo que me tornasse independente logo, e depois eu era muito criativa, gostava de contar histórias e, por sorte, fui logo trabalhar com os pequenininhos - e, em seguida, fiz um concurso: passei em quinquagésimo sétimo lugar. Mas passei! Sobre contar histórias, lembro de que, em casa, as ouvia de meu avô - de assombração - de meu pai, minha mãe... Muito mais do que na escola. Histórias de assombração, a propósito, fazem-me lembrar de um episódio engraçado, também da infância. Muitas mudanças, muitas casas onde moramos e uma delas, diziam, era mal-assombrada. Minha mãe resolveu enfrentar, com humor, o natural receio da gente: deu nome à assombração - Gertrudes -e decretou: “De hoje em diante, ninguém senta na cadeira de balanço, ela é exclusiva da Gertrudes”.

 

Mas aí veio a época de Faculdade, dos namoros mais sérios, do casamento. Vim para São Paulo, a família de meu marido era daqui. Lecionei por dois anos, nasceu minha filha, achamos melhor eu parar de trabalhar. Sinto que com os filhos crescendo um pouco - depois tive outro - eu deveria ter me especializado. Mas não o fiz, fiquei inventando coisas e fazendo curso de Arte. Acho que me dispersei um pouco.

 

(...) e ela falou: “Lembra quando a gente perguntava coisas para você e você respondia que não podia responder porque paredes têm ouvidos?” Eu ficava quieta, às vezes nem sabia, mas não respondia e as paredes levavam a culpa!

 

E foi nessa época que eu criei um cartão com o qual eu pretendia ganhar dinheiro - era um coração, que abria e virara um pinto! Saí mostrando para Associações, particularmente as que lidavam com a questão da AIDS, porque era, em verdade, um cartão porta-preservativo e tinha muito a ver com campanhas de prevenção. Chegou a ser produzida uma certa quantidade, inserindo-se nele as camisinhas e foi exibido em uma Feira Erótica. Mas foi ridicularizado por uns publicitários e eu acabei desistindo dele.Também, difícil de vender!

 

Bom, aí os filhos foram crescendo, eu sempre muito presente na criação deles. Fazia teatro, inventava roupa, confeccionava fantasia, levava para escola, esporte, diversão, etc. Fui motorista até eles entrarem na Faculdade - quando ainda não dirigiam. Aí, depois de trinta anos casada, veio a separação. Fui em busca de complementar a renda e me ocupar. Aí surgiram os bonecos, as oficinas, personagens de livros infantis, o trabalho com editoras, com o SESC, a Caixa D’Água 33 - a empresa que eu abri. Caixa D’Água porque eu já morei onde tinha uma. 33 era o número da casa. Aí veio contação de histórias, festas infantis, uma TV de manivela que conta história... Veio o blog. E nisso tudo, eu procurando juntar criatividade com ludicidade.

 

E a criança fantasia, e eu vivo da fantasia. Eu vivo de contação de histórias, de brincar (...). Porque é aí que a criança aprende (...) a criança aprende melhor, brincando (...) tinha que ter muito mais brincadeira nas escolas (...).

 

E até hoje eu tenho a participação muito importante do meu neto, com quem eu convivo muito desde que ele nasceu. Ele, pequenininho, nas Oficinas. E o que é extraordinário é que ele ajuda ensinando, “mostrando como é que enrola, pegando material…”. E eu acho ótima essa convivência.

 

Agora que parece que contei tudo, ou pelo menos o básico, que nunca foi tão básico assim, resta falar dos sonhos. Não sou sonhadora, prefiro deixar que a vida me leve… Talvez sonhe em não ter Alzheimer, continuar trabalhando, continuar atuando, criando.


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